31.1.10

Dica do Gerdal: O samba bem rodado de Ernesto Pires marca presença, neste domingo, na Gamboa, pelos 90 anos de Dodô da Portela (grátis) 



Quem vê Ernesto Pires (fotos acima), assíduo nas rodas da cidade, com o seu indefectível chapéu, jeito algo amalandrado e informalidade aflorada de trato, dificilmente, creio, divisará nele, por força, é claro, de estereótipos de composição sociovisual, a figura do engenheiro químico e professor universitário que é. Nascido na Princesinha do Mar, mas criado em Brasília até os 13 anos, quando retornou com a família ao Rio de Janeiro para morar no Rio Comprido, Ernesto, ao ingressar na Escola Técnica Federal de Química, lá encontrou entre os colegas futuros músicos como ele - Paulão Sete Cordas, Henrique Cazes e Mongol. Um convívio que, naturalmente, acentuou-lhe uma motivação que já vinha, forte, desde a infância, quando, brincando de carrinho, gostava de ouvir bolachas de MPB, especialmente a música dos famosos festivais de fins dos anos 60. De Mongol, ainda nos tempos da escola técnica, defenderia um samba em apresentação no Colégio Coração de Maria e, até reconhecer-se como cantor e compositor nessa praia tropical da música popular, para o que foi determinante terapia anarquista feita com o psiquiatra já falecido Roberto Freire (pai do excepcional violeiro Paulo Freire), fez de tudo em matéria de interpretação da música, cantando em ritmos e até idiomas diversos, tendo a própria voz por companhia, em muitas ocasiões, apenas o violão empunhado. Desse modo, autossuficiente, também fez, para Ivon Cury, abertura em shows de karaokê apresentados pelo saudoso "chansonnier" de Caxambu, até, após longos períodos em Sampa e BH (nesta estudando na Escola de Música Livre), retornar, em 1997 ao Rio, atendendo à sirene do chamado do samba em si mesmo e já abraçado ao cavaquinho, instrumento em que teve como orientador o também saudoso Mestre Zé Paulo. É de 2000 o único CD gravado por Ernesto Pires, "Novos Quilombos", bastante elogiado por especialistas na matéria, em que, particularmente, agradou geral, nas recorrentes rodas, com o samba "Terreiro de Iaiá", de sua autoria. "É do ramo", como já certificou o crítico musical Tárik de Souza, destacando-lhe ainda uma divisão rítmica própria.     
        O aniversariante Ernesto pode ser visto e ouvido neste domingo, 31 de janeiro, no Centro Cultural José Bonifácio, na Gamboa, numa programação, abaixo, dedicada à também aniversariante Dodô, agora nonagenária, porta-bandeira da Portela, na passarela do tempo, em tantos e históricos carnavais.
 
Centro Cultural José Bonifácio 
Rua Pedro Ernesto, 80 - Gamboa.
Grátis - (vc só paga o que for consumir) Tel.: 2233-7754.
12:00   - Feijoada
14:30   - Roda de Samba com a participação dos sambistas:
 Efson; Toninho Geraes; Dunga, Gabrielzinho do Iraja e Ernesto Pires
15:00   - Inauguração da exposição de fotografias e fantasias de Dodô da Portela
16:00   - Lançamento da cartilha s/vida de Dodô da Portela escrita por
              Luis Carlos Magalhães
16:30   - Show com o grupo Tempero Carioca  e a participação de            integrantes da Velha Guarda da Portela  (Monarco,Tia Surica, Mauro Diniz e Serginho Procópio)
19:00  - Baile com a Banda Bossa Seis

Do fundo do baú: Ilustração - Surrealismo

30.1.10

Dica do Gerdal :Roberto Silva é presença nobre do samba, neste sábado, no Rival, cantando na concorrida feijoada da portelense Surica



"Você partiu de madrugada/não me disse nada/isso não se faz/me deixou cheio de saudade..." Nesses versos da segunda parte de "Agora É Cinza", de Bide e Marçal, uma recordação de 1958 ao mesmo tempo amarga e doce para o cantor Roberto Silva (foto acima), nascido na Praça Cardeal Arcoverde, em Copacabana, numa casa onde hoje se situa a estação do metrô. Varando uma das madrugadas daquele ano no estúdio da Copacabana, por causa da gravação de músicas do primeiro dos quatro elepês da ótima série "Descendo o Morro", com produção de Altamiro Carrilho, um dos momentos mais altos da sua carreira, Roberto passou pelo extremo dissabor de, chegando em casa, receber a notícia da morte de dona Belarmina Adolfo, sua mãe, ocorrida durante a mesma noite. Ele voltando, ela partindo, ironicamente, como a sugerir o samba de que ela tanto gostava - e gravado nesse elepê -, quando Roberto Silva já firmara o seu nome como intérprete do gênero e, em particular, um estilo elegante, plácido e sincopado de cantar que lhe valeu o epíteto de Príncipe do Samba, dado, em seus idos de Rádio Tupi, pelo apresentador Carlos Frias (o próprio Silva do sobrenome artístico - Roberto Napoleão, simplesmente, no RG - foi-lhe dado pelo compositor Evaldo Rui, provavemente pela admiração deste por Orlando Silva). Referência de expressão vocal na MPB para figuras do tope de João Gilberto e Caetano Veloso, é bastante lembrado como um intérprete-modelo de Wilson Batista, por causa da gravação de "Mão Solteira", em 1954, e "Samba Rubro-Negro" - logo ele, Roberto, um botafoguense -, em 1955, embora, antes disso, já se impusesse entre os mais ouvidos do rádio, graças a um samba que um potiguar recém-chegado ao Rio, em 1946, Raimundo Olavo, lhe mostrara, "Normélia", de lembrança instantânea entre os admiradores do cantor carioca.       
     Neste sábado, 30 de janeiro, no Rival, segundo a informação abaixo da amiga Régia Macêdo, esse nobre do samba, de quase 90 anos, apresenta-se, com a simpatia habitual, animando a feijoada de Surica, a Tia Surica (foto acima), como é carinhosamente tratada. Nascida em Madureira, tornou-se figura de relevo histórico na Portela, puxadora do samba-enredo "Memórias de um Sargento de Milícias", de Paulinho da Viola, Catoni e Maninho, em 1966. Fidelíssima ao azul-e-branco do seu coração, reside até hoje numa vila próxima à quadra da escola, onde se situa o seu famoso "cafofo", cenário de festas inesquecíveis entre as boas figuras do ramo.
     
 
FEIJOADA DA TIA SURICA - 30 de janeiro -  1º edição do  ano! 
Neste mês, a tradicional feijoada da TIA SURICA trará uma roda de samba com o Grupo SAMBA COM ATITUDE e a participação especialissima do maravilhoso : R O B E R T O   S I L V A .
 
SERVIÇO:
30 de janeiro - sábado - das 13h às 17h30.
Teatro Rival Petrobras
R. Alvaro Alvim, 33/37 - Cinelândia - RJ.
Preço: R$ 35,00 (feijoada + roda de samba)
 
Nos intervalos, o DJ Alex Correia.

 
www.rivalpetrobras.com.br

Do fundo do baú:Ilustração TV do povo - quando ?


(Clique na imagem para ampliar e ver melhor)

Dica do Gerdal: Tributo a Durval Ferreira, neste sábado, no Catete, em show de Amanda Bravo aberto a canjas


"Um sambinha é bom/quando ele é fácil de cantar/e quando vem a inspiração/é natural uma canção.../e toda história viverá/quem com carinho só cantar/e toda a gente há de ver/e, facilmente, compreender/que o que se quer é mesmo paz/e nada mais."
 

        E nada mais, infelizmente, pôde fazer Durval Ferreira (foto acima) depois do dia 17 de junho de 2007, quando faleceu, vitimado por um câncer. Nenhuma de suas apreciadas composições pôde mais ser criada e ouvida, como o terna "E Nada Mais", feito com um dos mais recorrentes letristas da bossa nova, Luiz Fernando Freire, cujo pai, já falecido, Victorino Freire, político atuante no final dos anos 50 e limiar dos anos 60, foi dono de um outro apartamento-referência em matéria de encontros musicais da rapaziada dissonante, na Rua Tonelero, em Copacabana.
        Nascido caprichosamente em Pilares, bairro da Zona Norte carioca bem distanciado da orla e origem atípica de um músico bossa-novista, Durval foi criado na mesma ambivalente Vila Isabel de Noel Rosa e Johnny Alf, onde, nos anos 50, teve contato com o acreano João Donato, então um acordeonista avançado que tocava na orquestra de Valdemar Spilmann. Já morando na Praça São Salvador, em Laranjeiras, conheceu o gaitista Maurício Einhorn, que o introduziu no mundo do jazz e com ele assinou clássicos como "Tristeza de Nós Dois" (também com Bebeto Castilho), "Estamos Aí" (também com Regina Werneck) e "Batida Diferente. Liderou o conjunto Os Gatos - tocando com Eumir Deodato, Wilson das Neves, Neco, Paulo Moura, Norato, Ed Maciel, Meirelles e Copinha - e, depois, a partir dos seguintes anos 70, por três decênios, abraçaria a atividade de produtor e diretor artístico em várias gravadoras, como a CID. "Chuva", tão suavemente gotejada na interpretação de Claudette Soares, é uma das suas músicas mais cativantes, em parceria com o cineasta Pedro Camargo, num rosário de pérolas autorais de que se podem lembrar, entre outras, "Registro", com o publicitário Marcello Silva, "São Salvador" (belíssimo tema instrumental para a citada praça da Zona Sul carioca) e, mais recentemente, "Antônio Brasileiro", com letra de Tibério Gaspar, vencedora, em 2005, de um festival de música em Jacareí, no interior de São Paulo. 
        Abaixo, retransmito o recado que recebi da amiga Amanda Bravo, cantora, filha de Durval Ferreira, sobre homenagem inspirada pela data de aniversário de seu pai. Canjas são bem-vindas.
***
       Amigos amados,
Neste sábado, dia 30/1, farei um tributo ao meu pai, que estaria fazendo 75 anos no dia 26/1, no meu show no Cariocando.
Convido a quem quiser prestar sua homenagem em lembrança ao GATO pintar por lá, com muita alegria e boas vibrações para meu paizão! Leve a música e o tom, ou adiante por aqui para eu falar ao Midosi.
A passagem de som é 19h. É só aparecer que a gente organiza na hora, ok?
Um beijo,
Amanda.

IMPORTANTE: FAÇAM SUAS RESERVAS DESDE JÁ!
SÁBADO - 30/1 - 21h
SHOW: AMANDA BRAVO, ORLANDIVO, PAULINHO TROMPETE E DURVAL FERREIRA TRIO - Baile de Bossa e Sambalanço
CARIOCANDO: RUA SILVEIRA MARTINS, 139 - CATETE (a 100 m do metrô)

TEL: 2557-3646
R$ 14,00
www.amandabravo.com
www.amandabravoproducoes.blogspot.com
www.myspace.com/amandabravobrasil

29.1.10

Meneghetti nos telhados de Sampa de novo


O lançamento foi ontem, mas por uma série de trapalhadas deste blogueiro, só consegui noticiar hoje. O que importa é que Mouzar Benedito nos brinda com mais uma obra, e desta vez escreve sobre as aventuras do fabuloso ladrão que aterrorizou Sampa na meiuca do século XX.
Vai para o ar então o e-mail que recebi sobre o livro Meneghetti - o gato dos telhados
Ele chegou em São Paulo pela onda de migração dos muitos italianos que vieram ao Brasil em busca de trabalho. Mas logo ficou claro que sua trajetória teria pouco de comum com a de maior parte de seus conterrâneos. Na Pauliceia de meados do século XX, Gino Meneghetti era um artista, mas um artista na arte de roubar. Esta obra apresenta o perfil desse anti-herói italiano que ganhou notoriedade por seus roubos e fugas espetaculares.
Com uma linguagem irreverente, o jornalista Mouzar Benedito resgata a lendária “carreira” de Meneghetti, que foi avidamente acompanhada pela sociedade da época e gerou muitas histórias transmitidas até hoje na capital. Conhecido por roubar somente dos ricos e por sua politização contestadora, Meneghetti fez sua fama por empreender assaltos, fugas da polícia, por suas passagens pela prisão e por protagonizar muitos ‘causos’ na cidade no início do século XX.
A pesquisa biográfica de Marcel Gomes e Antonio Biondi complementa o retrato de um dos maiores larápios que São Paulo já conheceu. O resgate desta história é completado ainda por frases extraídas de entrevistas publicadas e de cartas enviadas por Gino aos jornais. O livro traz também a história em quadrinhos, criada em 1976 por Luiz Gê para o jornal Versus, que inspirou o curta metragem de Beto Brant sobre a história do italiano.
Trecho da obra
Meneghetti era isso: uma lenda, até então viva. Seu nome virou sinônimo de ladrão em boa parte do Brasil. Na minha infância no sul de Minas, por exemplo, eu me lembro que, para xingar alguém de ladrão, chamava-se a pessoa de Meneghetti ou de Sete Dedos. Eram os ladrões mais famosos da história de São Paulo. Os dois chegaram a conviver na prisão, numa das passagens de Meneghetti. Sete Dedos era um mulato bem falante, que tinha mesmo apenas sete dedos. Era famoso também. Mas aqui na Pauliceia, embora Meneghetti e Sete Dedos fossem sinônimos de ladrão, os dois xingamentos tinham sentidos diferentes. Chamar alguém de Sete Dedos equivalia a xingá-lo de ladrão. Mas de Meneghetti era diferente. Era ladrão, mas não um ladrão ruim. Era esperto, humano, adepto da não violência, anarquista, contestador da sociedade capitalista, da burguesia e da aristocracia... Enfim, um herói popular. Um sujeito que fazia com a burguesia o que muita gente tinha vontade de fazer: roubá-la e gozá-la. O mesmo em relação à polícia, que ele provocava pelos jornais. Era uma polícia violenta e extremamente preconceituosa contra imigrantes pobres, como a maioria dos italianos. Meneghetti, enfim, “era isso”, “era aquilo”... Parecia uma figura da literatura, resultado da imaginação de um escritor policial e incorporado ao imaginário popular.

Sobre o autor
 Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros - MG, Brasil Mulher) e publicou diversos livros, entre eles Pobres, porém perversos (Scritta) e Pequena Enciclopédia Sanitária pela Boitempo. Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo , e também um pouquinho de chinês e de tupi. É um exímio observador de sacis e valoriza a cultura nacional. 

Do fundo do baú - Ilustração : Poderes

28.1.10

Encontre Salinger e descubra o que são os Peixes-Banana


Morreu um dos meus heróis - o magnífico J.D.Salinger . Publiquei aqui uma longa resenha de uma biografia não autorizada que Ian Hamilton escreveu sobre ele. Está nos arquivos, dividida em vários capítulos. Começa no dia 30/9/2007 e vai acho que até o dia 25/10/2007.
Mais detalhes sobre ele e suas obras, você pode encontrar no site da Editora do Autor no seguinte endereço http://www.editoradoautor.com.br/. Este modesto blogueiro escreveu os textos desse site e teve a sorte de vê-los parcialmente repetidos na web , o que me deixou contente, pois significa que colaborei para divulgar os trabalhos deste grande mestre da literatura americana.
Detalhe: Tive o prazer de fazer as capas da maioria de seus livros, menos de "Pra cima com a viga, moçada!" Como ele não gostava de imagens nas capas , nem fotografias suas, a gente teve que se contentar em trabalhar com a tipologia num lay-out simples - sem grandes elaborações gráficas. Ele, acho eu, queria que tudo fosse apenas texto. Suponho que deve ter alguma coisa a ver com o pensamento zen. Ele acompanhava pessoalmente a feitura destas capas. Foi muito engraçado, um dia receber um e-mail do escritório que o representava nos EUA, dizendo que Mr. Salinger havia gostado da capa prateada de "O Apanhador no Campo de Centeio".
Existem boatos de que ele deixou um tesouro de escritos trancados num cofre em sua casa. Creio que seus herdeiros ficarão diante de um beco sem saída: O de trair ou não os desejos do pai de ocultar esses textos. De minha parte, acredito que o que ele já escreveu está de bom tamanho. E se não publicou esses trablhos em vida, deve ser por alguma boa razão. Viva Salinger!

Dica do Gerdal : Simone Lial e Mulato Velho nesta quinta no Trapiche Gamboa: ô, que samba bom!


Que samba bom! Cria de Ramos, chão venerado do batuque carioca, onde morou Pixinguinha e onde um Cacique, à sombra de uma tamarineira, ainda exerce autoridade na seção rítmica da MPB, a cantora Simone Lial ("flyer" acima), ex-integrante do Goiabada Cascão - grupo criado em 1999 e importante, no extinto Empório 100, para a retomada da tradição boêmio-musical da Lapa -, é atração desta quinta, 28 de janeiro, a partir das 21h, no Trapiche Gamboa, como o foi nas quintas precedentes do mês, na companhia de uma moçada reza-forte de Niterói, formadora do Mulato Velho. Admiradora de Clara Nunes, Simone brilhou, no ano passado, no palco do Centro Cultural Carioca, ao lado de outro conjunto da antiga capital fluminense, o Tio Samba, no belo "É Batata!", dedicado a Carmen Miranda, por inspiração do centenário de nascimento dela. Cresce de show para show, firmando em cena um estilo marcante, nuançado e de substância própria na interpretação, que, em parte, remete a outra de suas admirações no palco e no vinil, Elis Regina, nas inflexões. Antes do show de logo mais, vale a pena curti-la, por exemplo, pelo YouTube, acompanhada do violão de Antenor Luz, cantando "Opinião" e, em seu "myspace", ouvir, por exemplo, na voz dela dois clássicos: "Beijo na Boca", de Ciro de Souza e Augusto Garcez, um sucesso de carreira que Cyro Monteiro conheceu em 1940, e "Enlouqueci", de Luís Soberano, João Sales e Valdomiro Pereira, gravado por Linda Baptista em 1948. Quanto ao Mulato Velho, satisfação garantida, também pelo MySpace, na execução de "Bole-Bole", samba do chorão-mor Jacob do Bandolim, com destaque para o trombone de Fabiano Segalote.   
        
      www.myspace.com/simonelial
 
   www.myspace.com/mulatovelho

Ilustração Reciclada: Ratos e Homens


(retirei esta ilustração do fundo do baú e modifiquei um pouco)

27.1.10

Dica do Gerdal : Sáloa Farah troca a quadra de vôlei pelo palco e lança disco, nesta quarta, no Rival - ponto para a MPB


Fazendo, como a soteropolitana Simone, o traslado vocacional da quadra desportiva (ela, do vôlei; aquela, do basquete) para o estúdio de gravação e o palco - em ambos os casos, com vantagem no placar para a MPB -, a carioca Sáloa Farah, da Ilha do Governador, lança nesta quarta, 27 de janeiro, às 19h30, o segundo CD da carreira, "De Cartola e de Tamanco", com produção do poeta Paulo César Feital. Embora com trajetória promissora no universo dos saques, das manchetes e das cortadas, campeã estadual que foi, em 2002, pelo Fluminense, ela, de apenas 21 anos, sentiu que um lance mais emocionante da sua atuação no jogo da vida estava fora daquelas tão familiares quatro linhas: uma "jornada de estrela" na música popular, à qual se apresenta, bem credenciada, com seu timbre grave, vigoroso e diferenciado, um canto de sereia não enganador e já arregimentador de grande número de admiradores. Muito importante para Sáloa, também ex-estudante de odontologia, foi a observação atenta e encantada desse canto pelo contrabaixista e compositor Halsey Mendes - jurado de um festival de que ela participou, no Fundão, patrocinado pela Petrobras -, o que, pouco depois, abriu-lhe caminho para o encontro com Roberto Menescal e alguns trabalhos de interpretação pelo selo dele, Albatroz, como o primeiro CD que gravou, "Delicadeza", com faixa-título de Paulo César Feital e Altay Veloso. 
       No show de logo mais, em que mostrará ainda sua versatilidade e bom gosto, destaque para regravações incluídas no novo disco, como "Vela no Breu", de Paulinho da Viola e Sergio Natureza, "Onze Fitas", de Fátima Guedes", "Injuriado", de Chico Buarque, e um partido-alto, "Cadê Ioiô?", de César Veneno, do Salgueiro, compositor que marca, assim, sua presença na produção. Com o perdão do trocadilho, não procede dizer Sáloa Farah, pois ela já está fazendo - com competência e bem acompanhada, em passos artísticos dotados de boa direção.     

Cartum : "Desditados Populares"

Seu Ribeiro e Paulo Mourão no Teatro Isabela Hendrix



(Recebi por e-mail a dica que segue abaixo)

NA IMENSIDÃO DOS GERAIS

Após dois anos sem se apresentar em Belo Horizonte, o violeiro, compositor e cantor Paulo Mourão divide o palco do Teatro Isabela Hendrix com o cantador do Vale do Rio das Velhas Seu Ribeiro num show intitulado "NA IMENSIDÃO DOS GERAIS" de aspecto essencialmente acústico. A idéia da dupla é abordar a grandeza de Minas Gerais tanto em sua extensão geográfica quanto em sua diversidade cultural.

     Paulo Mourão, desde 2008 vive na Bahia onde se apresentou ao lado de expressões do teatro e da música da estirpe do ator  Jackson Costa, da TV Globo, e do cantor Jerônimo. Em Salvador obteve destaque em vários projetos e foi convidado por Jackson Costa, para uma apresentação conjunta na Casa da Música de Itapoã e no especial da TVE. Em Ilhéus, fez o show de abertura da Segunda Conferência Estadual de Cultura da Bahia em novembro passado. Na bagagem, Paulo Mourão, que já comemora doze anos de carreira, traz quatro cds gravados, uma classificação nacional na Segunda Mostra de Música Instrumental de Viola da Syngenta (2005), selecionado entre 178 violeiros de todo País, e uma série de 16 shows, patrocinados pela Lei Rouanet, com exibição final em rede Nacional pela TV Cultura de São Paulo, no Programa Imagem do Som. Já em Minas, participou de vários programas de TV, tais como o "Globo Horizonte" da TV Globo, o "Palco Brasil" da TV Minas, o "Viola Brasil" da TV Horizonte, e o "Viação Cipó" da TV Alterosa, dentre outros. Neste ano, aprovou uma turnê em Minas, via Lei Estadual de Incentivo à Cultura, e pretende para o show, ao lado de Seu Ribeiro, priorizar suas músicas instrumentais  prometendo levar o público  um passeio místico através da sonoridade translúcida de sua viola encantada que plaina entre o silêncio das estrelas.
 
"Seu Ribeiro tem um trabalho denso, muito bonito e pessoal. Não esqueço uma cantoria que fez no Grande Teatro do Palácio das Artes em que, sozinho, prendeu a atenção de todos e encheu de mistério e beleza os ouvidos de uma platéia lotada num show de abertura para Elomar e Xangai. Foram 60 minutos de pura arte e música brasileira. Por isso é uma honra estar a seu lado tanto como músico quanto como amigo".
(Paulo Mourão)
 
Seu Ribeiro, cuja carreira vem se consolidando no cenário da MPB por ter sido apadrinhado pelo cantador baiano Elomar Figueira Melo, tem sido constantemente convidado a se apresentar ao lado de grandes artistas, tais como Xangai, Saulo Laranjeira, Chico Lobo e Rolando Boldrin. Além de estar comemorando dez anos de cantoria de cabeceira, Seu Ribeiro prepara para lançar em abriu deste ano, com o patrocínio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de BH, o cd "VIELAS LÍRICAS" que conta com a participação de Xangai, Chico Lobo, Betinho Macedo e Babilak Bah, dentre outros. O cd já está sendo mixado no Estúdio Abre Alas em Santa Luzia e será apresentado ao público mineiro através de uma turnê, patrocinada pela Lei Estadual de Incentivo a Cultura, que envolve vinte cidades mineiras.  Para o show, ao lado do violeiro Paulo Mourão, ele promete mostrar seus cantos serranos, onde busca traduzir a beleza bruta da musa matuta de Minas Gerais, a Serra do Espinhaço, cordilheira do Brasil.
 
"Tocar ao lado de Paulo Mourão é um desejo antigo. Poucos artistas brasileiros conseguem construir uma obra tão representativa da nossa cultura popular e ao mesmo tempo tão pessoal. Quando ouvi seu cd 'GRANDE VIAGEM DE LUZ', reconheci, de pronto, a grandeza e singularidade desse violeiro que outra vez me surpreendeu ao gravar o cd 'OS CABOCLOS DAS MATAS', lançado pela Kuarup. Paulo Mourão é maestro no que faz e muito me honra com este convite".
(Seu Ribeiro)
 
O show "NA IMENSIDÃO DOS GERAIS" será apresentado dia 27 de janeiro de 2010, às 21 horas, no Teatro Isabela Hendrix. O Valor do ingresso é R$ 10,00.
A foto acima é de Grace Alves

Dica do Gerdal: Márcio Faraco em única apresentação nesta quarta no Rio - santo de casa milagreiro em Paris


  
"Jogando uma pedra no espelho/não vou deixar de ser o que sou/um violeiro é um violeiro/ e o baião não é rock`n`roll."
 


 
        Diz o provérbio que santo de casa não faz milagre, o que remete, no campo da música popular, ao artista que, embora virtuoso, não consegue no próprio país de origem reconhecimento à altura do seu mérito. Naturalmente, isso não ocorre sempre, mas, na história da MPB, os finados guitarristas Bola Sete e Laurindo de Almeida e a atuante Rosa Passos, entre outros, são exemplos que dão sustentação ao dito popular, logrando aplauso mais frequente e, por vezes, mais caloroso no exterior do que no Brasil. "Milagreiro" na França e, por extensão, em outros pontos da Europa - residindo em Paris desde 1991 -, o alegretense Márcio Faraco, compositor de sensibilidade e estro apurados, faz - o que é uma pena - uma única apresentação no Rio de Janeiro, nesta quarta, 27 de janeiro, no Cinémathèque, em Botafogo, às 21h, em duo com o ótimo violonista Daniel Santiago (foto acima). Sobrinho de um contista premiado, Sérgio Faraco, e ainda conterrâneo, por exemplo, de Mário Quintana e João Saldanha, Márcio Faraco lança aqui o seu mais recente CD, "Um Rio", que no ano passado comprei numa megaloja de produtos culturais da Av. Champs-Élysées, juntamente com outro dele, igualmente sedutor, "Com Tradição", do qual extraí os versos acima - do eletrizante baião "Chuva de Vidro" -, torcendo para que seja, quem sabe pela Biscoito Fino, distribuído no Brasil, como ocorreu com um CD mais intimista, "Interior", de 2003.
        Hábil no jogo de contrastes em suas letras não raro descritivas, também no cerzido lírico e metafórico de cenários em que algum tipo de frustração, assombro ou insuficiência está presente, como nas envolventes "Ciranda" ("eu vi uma luz no fim do túnel/enchi de esperança o coração/a luz que lá estava foi chegando/era um trem carregado de ilusão..."), cantada em duo com Chico Buarque, "Efêmera" e "Sumidouro", o inteligente Márcio é ainda afiado na crítica sociopolítica, como em "Vida ou Game", "Kanoê" ou em "Sarapatel Humano" ("enquanto o menino come calango, erva daninha/o governo troca voto/por um quilo de farinha/sarapatel humano/feito do sangue da gente/entra ano, sai ano/só muda de presidente/muda também o menino/que morreu no esquecimento/assim como este lamento/nem vai ser considerado/aqui nada se mexe/nem notícia do passado/o futuro é muito longe/e o presente tão atrasado..."). Bom de violão (aprimorado, na Brasília de sua adolescência, como o de Daniel Santiago, pelas lições do "sui-generis" mestre autodidata Gamela), o seu recado é dado com a fala mansa que o caracteriza, irmanada aos arranjos estimulantes que cria, especialmente quando servidos do suingue bossa-novista de "No Balanço do Mar" e, curiosamente, de uma canção do repertório da dramática Édith Piaf, "À Quoi Ça Sert L`Amour", estas duas entre as faixas do CD que divulga desta vez no Rio. Entre outros destaques desse disco, podem-se apontar, por exemplo, a participação especial de Mílton Nascimento em "Cidade Miniatura", de Márcio Faraco, e a parceria revelada deste com Baden Powell em "Berceuse", dois registros de introspecção e encantamento. Mirando-se no espelho da carreira, a refletir, no seu caso, com nitidez, uma imagem inquebrável de artista, Márcio Faraco, apesar das portas fechadas ao seu talento por aqui, sabe que um violeiro é um violeiro aonde quer que vá, esteja onde estiver. E é essa a verdade maior, a da autenticidade, que conta no que produz e no que canta, da qual resulta essa música tão relevante, tão bem moldada, que, como não poderia deixar de ser, mesmo a longa distância, faz parte "do ouro do povo do Brasil".
      

26.1.10

Dica do Gerdal : Ary do Cavaco toda terça no botequim Vaca Atolada - a poeira do samba em novo tempo da Lapa



"Abre a janela, formosa mulher/cantava o poeta trovador/abre a janela, formosa mulher/da velha Lapa que passou..."
 
       Prezados amigos,
 
       Em 1971, na avenida colorida e engalanada, a Portela fazia seu carnaval pelo Grupo I - segundo lugar na apuração -, entoando esse inesquecível samba, "Lapa em Três Tempos", que alçava Ary Alves de Souza, o Ary do Cavaco (foto acima) - seu autor, juntamente com o irmão Rubens Alves de Souza - à condição de bamba do samba de enredo no Rio de Janeiro. Uma composição de beleza realçada em disco da Odeon gravado por Paulinho da Viola, em que o verso inicial evoca um grande sucesso do carnaval de 1938, o samba "Abre a Janela", composto por Roberto Roberti e Arlindo Marques Jr. e lançado por Orlando Silva. Ex-torneiro mecânico que, na meninice pobre vivida em Coelho da Rocha (bairro de São João de Meriti), trabalhou como engraxate e vendedor de pães para ajudar a mãe, viúva, Ary do Cavaco chegou à Portela em 1962, aos 20 anos, quando já morava em Madureira. Teve o prazer de ver a sua escola do coração atravessar a passarela no desfile principal com outros cinco sambas seus e, fora do carnaval, também se fez notar com sucessos de ampla aceitação popular, como "Na Beira do Mangue" (com Otacílio da Mangueira), de 1976, "Reunião de Bacana" ("se gritar pela ladrão/não fica um, meu irmão...", com Bebeto di São João), em 1981, e "Mordomia" (com Gracinha), em 1982, gravados, respectivamente, por Jair Rodrigues, Exporta Samba e Almir Guineto
       O autodidata Ary do Cavaco, toda terça, incluindo o mês de fevereiro, lembra essas e outras músicas do seu repertório num botequim simpático, recém-aberto - do amigo portelense Cláudio Cruz, presidente dos Embaixadores da Folia -, o já bastante e bem frequentado Vaca Atolada. Estive lá há dois sábados e o recomendo especialmente aos amantes da chamada raiz do samba, que lá também encontrará em outros dias, com os instrumentistas atuantes na casa, uma programação muito atraente, animada até mesmo por sambas inéditos ou "lados B" pinçados do insconsciente coletivo da megacomunidade afinada com esse setor vital da discografia da MPB. O Vaca Atolada situa-se na Av. Gomes Freire, 533 - Centro (tel.: 2221-0515) - região da Lapa -, e o "chora, cavaco!" já é ouvido no botequim às 21h, quando começa o show informal do Ary: "....A Lapa de ontem, a Lapa de outrora, que revivemos agora/a seresta/quantas saudades nos traz.../poeira, ô, poeira, o samba vai levantar poeira..."

Do fundo do baú : Caricatura de Fernando "Pessoas"


(Clique sobre a imagem para ampliar e ver melhor)

25.1.10

Vale a pena ler de novo : Essepê


(Minha imodesta homenagem - Feliz aniverário SP!)
ESSEPÊ
São Paulo, cidade de
São Paulo, essepê
Semáforos em transe...
Primeira geração digital e pré-história na 23 de maio engarrafados/
Cemitério do Araçá guarda meus mortos, benza Deus!
Cidade,metróple,megalópole,
Abrigo e túmulo de migrantes
Mistura terminal e casa modernista/
Presídio que vira praça
Praça que vira presídio...
Paradoxos, xerox, compro ouro!
Massas e I pod, café expresso na galeria Olido
Avenida Paulista, rolex que brilha sob a chuva ácida
Cine Vera virou casa de forró
Mendigos embaixo do viaduto celebram com CO2 o sucesso do novo plano urbanístico
Miséria high tech?
Luz, Tiradentes...Onde andará a menina linda da avenida Água Fria?
Cidade mãe com nome de santo - cidade travesti ou...
...Medéia ensandecida que mata seus filhos com hamburgers
Aristocracia de 450 anos em banheiras J'Accuse!
Zola nunca te imaginaria assim tão germinal
Burguesia de Caras maquiadas, sorry dentes no programa de TV
Periferia mardita, fossa, poço artesiano onde falta cano
Well then what can a poor boy do
Except to sing for a rock 'n' roll band
Serra da Cantareira, horto florestal, domingueira subalterna
Operário dormindo no vagão, 19 horas em ponto/
Pichação no monumento das Bandeiras: - Empurra que vai!
Movimento CON CRE TO
Reconhecimento de gêmeos pichadores globalizados
London Calling...motoboys em ação, zig,zag...movimento abstrato
Cada um por sí e Deus contra!
Cadê o chá das 5 do Mappim?
e a Barão de Hip Tapete ...Ninja? - Quero um calçado de cromo alemão!
Uma anta no vale do Anhangabau pergunta por Macunaíma...
- Cadê o coração dos outros?
Cinema boca do lixo, Bandido da luz vermelha/ O grande momento!
Onde antigamente tinha erva mate e hoje corre um rio sufocado,
achei o Buraco do Adhemar!
Viaduto Santa Efigênia dourado? São Bento corado? Angelus e sino tocando
Meio dia macacada! Uma hora para o almoço, cartão de ponto...
Mário, arrebenta tua lira! Arlequinal, arlequinal... escarra no Minhocão
Desvia as águas espraiadas para o Tietê, marginal!
Paca, tatu, cotia não...Paca, tatu, cotia não!
Perderam meu nonno Gaetano na revolução de 32
Punk e Emos fora de lugar, Tarsila cadê meu "Estadão"?
Tá com o Lobato lá no Sítio!
Estatuto do coração, Raízes do Brasil, Rua Cuba, anime, mangá
- Mano me dá uma mano, che!
Bolivianos escravos costuram o bom retiro
Guevara se perdeu na mata hermano, ahora ninguém é de ninguém na vida todo passa
Coreanos enjaulados à espreita no container - Haverá um mundo lá fora?
O Torá, onde está, amici miei?...
Lá sei eu! Eu não sou daqui, tô de passagem...
Espanca o cara meus! Mói os ossos do tapuia , depois joga no Museu do Ipiranga,
Proclama a independência! /
Faz uma tatuagem, e o perito que não chega!
Arigatô, Sharihotsu!
Cidade provisória, casas de pedra só em Santos!
Tudo a ver na Sloper, Dalu, fashion Week, Bienal, Anhembi, Galerias, Shopping Centers/
Rua Alasca
- Nada vejo, a não ser neblina, vou bater o coco...
Crack! Boa Vista, Largo São Francisco, Ladeira da Memória
Cidade fantasmagórica, lume móbile na cracolândia
Teatro Municipal leva ópera que barra funda! Que barafunda!
O tenor canta a soprano...o rei da vela pede smoke
Arquitetura em transe...Copan e Morumbi,
FAU, vão central, Masp, cadeiras de Lina Bo...
Ladrões de Picasso e Portinari correm para o Embu
E eu com isso, Guaçú!?
Pizzas e sábados todos iguais...Padaria cheia
Casa Verde , Mandaqui, manda ali...Mercadão, mortadela!
Me dá um bauru, mas sem picles!
E aqueles ojos verdes? Eu os comeria a vinagrete.
Chaminé sozinha em Santana observa um templo
fiéis às pencas...
O padre en-canta o Ibirapoeira
Mooca imortal, rua dos Italianos...
Vila Galvão, Trem das Onze/ Arnesto nos convidou prum samba, ele mora do Brás/
Nóis fumo e não encontremo ninguém...
O Bexiga canta numa cantina
Pão quentinho , inigualável, macarronada da mamma
Homenagem aos mortos do massacre da Armênia ao lado do Tamanduá-teí
Baladas, xavecos, playboys, hip hop...
Putas na Augusta e o movimento perpétuo
Na Aurora mulheres da vida sonolentas sacodem os quadris nos inferninhos
- Manda um "Fogo Paulista" goela abaixo e esquece...
Meu pai remando no Tietê. Sai daí véio!
Priscila rainha do deserto do Tucuruvi abre o casaco em frente ao Belas Artes
Nos subterrênos da Consolação o Primo Basílio conversa com Elias Canetti
Enquanto na Baixada do Glicério, no Paulistano da Glória homens negros elegantes esquentam os tamborins, Vinicius se enganou redonda-mente
Liberdade e Paraíso viraram estações, meu Deus, onde está a Sé nisso tudo?
Marco Zero da civilização! Capital monopolista, pirâmide da indústria , topo panóptico da America Latina!
Borba Gato tá se achando!
Cidade sem outdoors...tem cimento no meu capuccino!
Helicópteros levam a nova classe
por cima dos edifícios e antenas
captam o som da nova era : Não é o Som de Cristal. - Já era! - Qual a cotação da Bolsa de Valores, primo? Te liga no Mercado Futuro, tá ligado?
Ruído...- Desce um Pignatari!...
- Me serve um "Baião de dois"!...
Artigo do professor da USP explica o nacional-popular
A Gazeta é esportiva ...escadarias/ Cásper Líbero
Ao fundo ouço um gol...-Foi do Curintia ou do Parmera?...- Foi do Sumpaulo?
- Não , foi do Juventus...da rua Bariri. Você se alembra? É rua Javari, seu stronzo!
A mardita pinga que me atrapaia/
Veloz passa a noite e um novo sol nascerá violeta
atrás da nuvem cigana, milhões de carros como gafanhotos virão para o apocalipse
e novos baianos te curtem numa boa/ na Vila Madalena/
A espanhola perdeu o gato, seo Rubinato!
Praça da Res-púbica abrigava patinhos
A do Patriarca patrões...fascismus architetonicus no Anhangabau da felicidade
Cavo e no fundo do quintal, acho um cachorro morto,
É um lobo! É um lobo? É cachorro, meu pai jogou no bicho/
E esse livro do Engels embaixo das tábuas do assoalho? Isso é conto da carochinha...Vire a página! -Quem hoje quer saber a história da Família e da Propriedade Privada? Sem essa...
Esqueci de chorar na rua Barão de Limeira.
Lá passei minha adolescência. Quando fiz 18 anos me mandei pra São Miguel Paulista...
Fui ser químico, zio Vincenzino...encher de mata-baratas latas de aerosol. Mas isso foi em Santo Amaro...fazia um frrrrio!!! Como tem santo nessa terra de Piratininga!
-Matou alguma barata figlio mio? - Necas, mas nunca mais peguei pulga. Kafka aqui ia se dar bem.- Ciao bambino, ciao...
Onde é a saída, zio?
-Pega a marginal Pinheiros e dobra à direita, sempre à direita...
-Eu volto, um dia eu volto, Voltolino!...

Do fundo do baú: Ilustração - Século Abstrato

Dica do Gerdal:Tavito apresenta ao público do Rival, nesta segunda, no Rio, seu "novelho" e auspicioso "Tudo"



Do amigo luso-brasileiro ou brasilo-lusitano Alan Romero - que, durante o ano, divide-se entre o aquém e o além-mar -, recebo e reencaminho, abaixo, o recado do cantor, guitarrista e compositor mineiro Luís Otávio de Melo Carvalho, o Tavito, como é conhecido pelo próprio sucesso na intimidade da MPB. Afinal, é dele, em parceria com Zé Rodrix, outro integrante do lendário Som Imaginário (conjunto criado para acompanhar o famoso Bituca e que depois teve vida própria, com diferentes formações), a clássica "Casa no Campo", um dos sucessos de maior peso e reconhecimento de público na bagagem de Elis Regina. "Rua Ramalhete", feita com Ney Azambuja, é outro "hit" que não pode ser ignorado, "naquele tempo" do "cha-lá-lá-lá" bem mandado ou do "ou-ou-ou" bem puxado do fundo do coração, com os inspiradores Beatles, por perto, sempre ajudando o autor na canção seguinte. Ainda na natal BH, em meados dos anos 60, Tavito (que diz ter "uma rádio sintonizada nos miolos, tocando sem parar, " e a que não falta a diversidade da nossa música popular) acompanhava ao violão o poetinha Vinicius de Moraes em shows a que Baden - ambos vivendo o auge da difusão dos afrossambas - não podia comparecer. O próprio Vinicius foi um grande incentivador da mudança de Tavito para o Rio de Janeiro, onde este ainda se destacaria na feitura de "jingles", vários deles até hoje lembrados. 
        Dois shows - um nesta segunda, 25 de janeiro, no Rio; o outro, dia 29, sexta, em Sampa - faz Tavito para a divulgação do "novelho" "Tudo", após muito tempo afastado dos palcos, dedicado à composição, ao arranjo e à atividade publicitária. Ele mesmo, em seguida, com verve, apresenta o disco e, naturalmente, faz a recomendação dos próprios shows. A ótima cantora Marianna Leporace, irmã temporã de Gracinha e Fernando Leporace, faz participação especial na apresentação do Rival ("flyers" acima).
       
***

    Bom, moços e moças de minhas extensas relações, aqui estou para lhes enviar mais um convite para divertidíssimo showzim de minha lavra. Diferente dos outros que já enviei - mas elaborado com os mesmos pruridos de afeto, baseados na certeza de que o que temos de realmente valioso nessa vida são os amigos e o amor que nos liga. Pois é, depois de uma longa espera técnica, durante o ano mais sem graça de minha história, enfim - e acho que a tempo - vou proceder ao lançamento de meu novelho CD, "TUDO". Ele está nas lojas desde março, é verdade, mas devido à ausência completa de ações divulgatórias (causada por problemas de diversas naturezas), ficou pairando numa espécie de limbo midiático, sombrio e insalubre. Mas isso, acredito, não lhe tirou o brilho; só adiou pra mais adiante a revelação e a surpresa. Pois que o CD é bão, sim. É um retrato fiel de tudo o que acredito, e isso certamente há de ter alguma relevância, num tempo onde já não me meto em discussões estéticas - até por pura falta de paciência. São dois shows: um no Rio, outro em Sampa. Vou apresentar muitas novidades, mantendo a velha escrita de tornar os convivas mais felizes a cada canção, como é de praxe. Teremos também velharias deliciosas e participações pra lá de especiais. Minha boa banda,a "Ananeu & os Precários" está afiada como nunca. Nando Lee, o multidedos, tirará as costumeiras faíscas de sua Fender e promete executá-la com as mãos e os pés - sem tirar os sapatos. O Percuteiro Maluco, Fábio Schmidt, levará toda a sua tralha percussiva, os badalos, ting-lings, tamborolas, courames, metabongs, recos e raspejos. Uma festa insuportável de estranhos ruídos. Paulinho Farias, o PC, the bass-man, o mais abastado do grupo, nos presenteará com suas escalas que fazem escola - além do que, garantiu farta distribuição de dólares ao final do espetáculo. E o mais novo integrante, o tecladista presidenciável Abraham Lincoln, um amálgama fisionômico de Fernando Henrique com Barack Obama, apenas tocará seu instrumento com maestria, além de dar uma canja supimpa no trumpete; e é claro, dar-nos-á ordens durante todo o espetáculo, que obedeceremos pressurosamente. Sabe-se lá do que um indivíduo com essas características é capaz, quando desobedecido. No show carioca, terei a maravilhosa Marianna Leporace como convidada especialíssima. Ela emprestará sua bela voz, gorjeando seus cristais em algumas composições de minha humilde lavra - além de dar significativo apoio à estética do espetáculo, originalmente um desastre em si mesmo. Em Sampa, meu irmão, Renato, o Teixeira dos poetas, parceiro de vida, música e disparates juvenis, vai dar o ar de sua graça (bota graça nisso). Cantaremos juntos e separados, ainda não sei bem o que, na verdade. Produzi dois discos dele; deveremos lembrar "...o maior mistério é haver mistérios", ou "...aaaamizade sincera é um santo remédio, um abrigo seguro" ou ainda "...o meu boi um dia desses bateu asas e avoou". E, principalmente, vamos dar umas risadas, também. Bom, é isso. Para os que não visualizarem os flyers por qualquer motivo informático, seguem abaixo os serviços dos dois shows; escolham a cidade e vão, sem dó nem piedade, pois preciso como nunca tê-los por perto, depois de um ano idiota como 2009. Beijos sinceros carregados de bons votos, nesse 2010 que se inicia, auspicioso (iremos todos para o auspício, hehehe) / Tavitão
 

 
CD Tavito "TUDO" - Lançamento Nacional
_________________________________________________
No Rio de Janeiro:
Dia 25 de Janeiro de 2010, às 19:30 H
Teatro Rival Petrobrás - Rua Álvaro Alvim, 33 - Centro
Ingressos - R$ 30,00 e R$ 15,00 para estudantes e idosos.
Os primeiros 100 ingressos serão vendidos a R$ 20,00
Reservas - (21) 2524.1666
Classificação etária: 16 anos
__________________________________________________
Em São Paulo:
Dia 29 de Janeiro de 2010, às 22:00 H
Café Paon - Avenida Pavão, 950 - Moema
Ingressos - R$ 30,00 (Preço único)
Reservas - (11) 5531.5633 / 5533.5100 
Classificação etária: 16 anos
 

Veja e ouça Tavito na Rede:
 
www.tavito.com.br
www.myspace.com/tavitominas
http://clubecaiubi.ning.br/profile/tavito
http://oficinadavoz.ning.com/profile/Tavito
www.tudotavito.blogspot.com

24.1.10

Do fundo do baú - Caricatura de Sarney

Fernando Rabelo no Oi Futuro


O ensaio do grande fotógrafo Fernando Rabelo - cujo título é Olhar Distante: Rio através da teleobjetiva , que conta com a curadoria de Pedro Agilson estará a partir do dia 26 aberto ao público no projeto Expofoto do Oi Futuro, no Rio de Janeiro. A mostra vai rolar no Oi Futuro / Flamento na Rua Dois de Dezembro , nº63 - 8º Piso.
Todos lá!

22.1.10

Dica do Gerdal: Chorando à Toa nesta sexta no Espaço Rio Carioca - inclusão social que sorri para a música popular


"A Rocinha não é apenas o que mostram na mídia: violência e tiroteio." Tais palavras, ditas pela jovem Carla Mariana, de 24 anos, moradora dessa que é considerada a maior favela da América do Sul, têm na própria declarante uma prova de que lá também se contrói cidadania. Ela, flautista, e outros quatro jovens e promissores músicos da sua geração, como ela provenientes de famílias pobres da localidade, formam o conjunto Chorando à Toa, que, no mês passado, fez a primeira das apresentações do"CD "Descontraído", na quadra da escola de samba Acadêmicos da Rocinha. Ainda em 2009, dois meses antes, fizeram, com o apoio do Instituto Goëthe, que pagou as passagens aéreas do conjunto, uma série de 28 shows por diversas cidades alemãs, numa feliz consequência de uma história que começou em meados da década de 90, quando Hans Ulrich Koch, professor alemão de música, pasmado com o contraste social que observava - dava aulas a alunos abastados da Zona Sul e sensibilizava-se com a penúria de outros adolescentes ao seu redor nessa área do Rio -, teve a ideia de lecionar também para gente pobre, formando numa sala cedida por uma igreja da Rocinha uma escola de formação básica. Completando 15 anos de existência, a Escola de Música da Rocinha, há alguns anos funcionando numa outra sala, cedida pela Prefeitura no Centro Municipal de Cidadania Rinaldo Delamare e, no momento, à cata de novo patrocínio, é uma iniciativa bem-sucedida de educação pela arte, de que o Chorando à Toa é o maior exemplo, atraindo ao longo dos anos um sem-número de jovens interessados. 
           No show que faz nesta sexta no Espaço Rio Carioca, em Laranjeiras (informação abaixo, transmitida pelo violonista Gilberto Figueiredo, professor dos integrantes do Chorando à Toa e coordenador da escola), o grupo, nesse CD de estreia, toca, entre outras músicas, incluindo as de criação própria, "Maroto", choro pouco conhecido de Jacob do Bandolim, "Chorando e Rindo", de Célia Vaz, "Diário", de Kim Ribeiro, "Sonhador", de Fernando Leporace e Nélson Wellington, "Amaxixado", de Valmar Amorim,  e "Tijucano", de Ricardo Calafate. Também uma, muito boa, do próprio Gilberto e disponível à audição pelo YouTube,  "Maracaxixe". Só gente inspirada, portanto. Garotos espertos! 
***
   Olá a todos,
 
Apesar da chuva, o Chorando à Toa levou um excelente público
ao Espaço Rio Carioca na sexta-feira passada,
e por isso o grupo repete a dose nesta sexta, dia 22.
O show começa às 20h30min, com ingresso a R$ 20,00.
Os 30 primeiros que responderem a este e-mail solicitando "convite amigo" pagam R$ 15,00.
Conheçam o trabalho do grupo no www.myspace.com/chorandoatoa
 
Vejam os detalhes no anexo.
Até lá.

Do fundo do baú - Ilustra mundo adulto, mundo infantil e o gato

21.1.10

Dica do Gerdal: Daniel Santiago toca nesta quinta em Laranjeiras- firme e forte na nova cena instrumental do país


Repasso o recado (abaixo) de um amigo virtuoso que, chegando ao Rio da sua Brasília natal, disse logo com as suas cordas e o seu talento a que viera. Firme e forte na execução, na criação e no arranjo, o guitarrista e compositor Daniel Santiago (foto acima) faz nesta quinta-feira, 21 de janeiro, às 20h30, a sua penúltima apresentação de uma minitemporada no Espaço Rio Carioca, em Laranjeiras. Conheci-o há alguns anos num dos sábados do Choro na Feira, na pracinha da General Glicério, nesse mesmo bairro, juntamente com outro talento vindo do Distrito Federal, o gaitista Gabriel Grossi, e me alegro com a ascensão profissional do Daniel - também do Gabriel -, hoje bastante viajado mundo afora e bastante respeitado e requisitado por força do seu valor. Daniel, no ano passado, lançou o seu primeiro CD solo com distribuição no Brasil, "Metrópole", muito elogiado pela crítica do ramo, um item que não deve faltar especialmente à estante do apreciador do melhor da nossa música instrumental, tocada com liberdade de partida e andamento.
          Um bom dia a todos. Muito grato pela atenção à dica.
***
 
      
 A NOVA CENA 
DA MÚSICA INSTRUMENTAL BRASILEIRA
com:

DANIEL SANTIAGO ::: GUITARRA
ANDRÉ VASCONCELLOS ::: BAIXO ACÚSTICO
JOSUÉ LOPEZ ::: SAXOFONE
KIKO FREITAS ::: BATERIA

TOCAM:
AUTORAIS E TOM JOBIM, VILLA-LOBOS, WAYNE SHORTER,
MILTON NASCIMENTO, TONINHO HORTA...


QUINTAS DE JANEIRO 
DIAS 14,21,28
ÀS 20h30
Lista amiga R$10
                    
ESPAÇO RIO CARIOCA (CASAS CASADAS)
RUA DAS LARANJEIRAS 304.                                               
                          

Conto: 35, janela.


A paisagem passa como um filme na horizontal, slides que parecem se repetir: casa, casa, casebre, casinha, fábrica, mato, quintal, terreno baldio,casa, casa, barraco, montanha, morro, vaquinhas dependuradas, formigueiros, ao longe uma olaria... nuvens figurando bichos, elefantes enormes, rostos de deuses da mitologia fazem do céu azul um lugar interesssante de se perder a vista.
Quero que voce se foda! O senhor deve estar pensando - Que coversa mais maluca esta? Dei azar de encontrar um doido falador. O senhor deve querer ficar aí imerso na mistura de seus pensamentos, sensações, sentimentos, lembranças, desejos, devaneios, culpas, objetivos, sonhos, impossibilidades, raiva, mágoas, invejas...destruindo e reconstruindo sua história pessoal. O presente - esta monotonia de ficar sentado horas a espera de chegar à rodoviária, o futuro: uma agenda cheia de compromissos ou afetos... E o presente?
Pois é, eu, sou o chato da poltrona da janela. Acredito que tenho uma missão nessa terra, mas nem sei qual é; talvez a de entreter meus companheiros de viagem ...tudo na vida é mistério. O senhor , é claro, gostaria de viajar sozinho. Deveria ter comprado dois bilhetes...Deve estar arrependido, mas agora é tarde, para nós dois.
Olha mané, essa máquina é minha, foi o Cara que me deu, não vem querendo tomá na mão grande. Eu peguei o baguio antes m'ermão, sarta de banda, que minha mina vem aí. Minão! Espaia, demorô! O Cara disse pra eu tomar conta e daqui eu não saio. Fala com ele, mané. E tu é hômi de falá?
- Vai ter volta, mané, sapo vive no brejo, manezinho...
- Chega mais, mina, quer ver a máquina? Quer um baguio? Tem um tiquinho aqui no bolso da bermuda. Vem pegar, vem...

Sei que o senhor nem quer saber que eu tenho dúvidas. Eu nem acho que me adianta resolver algumas... coisas que não consigo entender, como essa teoria da não existência de um sujeito cartesiano. Sabe esse negócio do sujeito ser apenas quase que um "cavalo" de uma idéia, de um discurso , algo que está falando através dele, que preexiste a ele? Sinto que na vida nós também vivemos essa escrita... mas são apenas conjecturas, nem entendo uma coisa e já adapto para tentar entender outra...he he he, tudo em mim é fragmento...
Já sei, está pensando que sou um fatalista. Que pertenço à alguma crença, que beiro o esoterismo. Não sei não - me incomoda saber que esta paisagem que vimos agora vai se repetir para outros olhos, em outro dia, e não será a mesma. Será vista de modo diferente, por outras pessoas que se acham tão livres e independentes como nós. Penso na catedral de Rouen pintada por Claude Monet em diferentes horas do dia, tentando captar o efeito da luz. Vi três ou quatro dessas pinturas lá no Museu d'Orsay que um dia foi uma gare. Gosto de pensar que estamos todos conectados, e olhe que não importa o tempo - se passado, presente ou futuro. Tudo como se fosse palimpsesto. Alguém nos precedeu e outros tomarão nossos lugares nesses assentos de ônibus e depois virão outros ônibus...outras rotas...aquele morro será um dia achatado. Acho que estou falando demais. O senhor não deu um pio, se limita a cabecear como se concordasse e olhar para esse livro antigo. É um romance, um manual? Interessante essa história de manuais. Deveria existir um manual para viver. O senhor deve estar querendo que eu morra. Morrerei sim, um dia, de repente. O ar me faltará e minha vista se turvará. Dizem que a cegueira é branca, li no Saramago que decerto inventou essa cegueira leitosa. Um dia tive uma experiência de semi-cegueira, quando me expus demais à luz do computador e fiquei com a vista afetada de um modo peculiar: faixas brancas cruzavam as imagens que eu via , em sentido horizontal, como se estivesse atrás de uma persiana...foi um horror, depois fiquei sabendo pelo oftamologista que consultei, que algo gelatinoso tinha se descolado dos meus olhos. Recomendou que eu descansasse a vista. E hoje me lembro que as listras que me impediam de ver a imagem inteira eram brancas. A propósito de que estou falando disso? Perdi o rumo da nossa conversa - ou do meu monólogo, como queira...
Xi, lá vem o mané de novo! Que você quer, mané? Não vê que eu estou de boa aqui com a mina, tá ligado? Espáia, mano, espáia!...O baguio aqui acabou, já cherâmo tudo.
Peraí, você tá me mostrando essa ferramenta, ou vai apertá?
Deita aí mina! Tome...Tome...Feladaputa, me acertou!...Ih! Isso dói, porra, isso dói!
Agora vou ter que procurá o Cara... Porra você me acertou, mas tomou dentro, mané, tomou um pipoco, nem se mexe,o infeliz... agora vai comer grama pela raíz..Dá até pra fazer um rép, otário! Acho que o Cara vai te mandar pro microondas...Xi, a mina também apagou!

O senhor se assustou com meu movimento brusco? Eu também. Olhe, tem um buraco na janela... alguma coisa queimou aqui na minha costela, foi como uma pontada...percebo que estou com o casaco molhado...Sinto dizer, meu caro, que fui atingido por uma bala...deve ter vindo de um lugar distante, pois senti só essa agulhada...E veio de cima, pois furou a janela e me atingiu no tórax. Creio que vou parar de falar...O senhor vai ficar aliviado, acho que minha miss...

20.1.10

Crônica da Maysa: "Meu Rio de Janeiro"


(Esta crônica de Maysa veio do blog "O ninho e a Tempestade")
Amo minha cidade. Um amor alegre, quase infantil, solto, leve. Cotidiano.

Também incondicional. Amor com lado de paixão que a gente esconde "pra não dar bandeira”.
Cultivo e guardo toda minha emoção neste pedaço de Brasil em que nasci. Desde as ruas, de Botafogo, percorridas na infância às poucas moradas do passado, nos bairros da Urca, Leblon e de hoje, Santa Teresa.

Caminhadas, com ou sem destino, dadas ou que ainda vão acontecer. Esquinas e lembranças frequentes tomam meu coração e o assaltam, algumas são boas outras dolorosas e mesmo cruéis.
Moro aqui desde que nasci. Acompanho a transformação para o bem e para o mal, da minha querida cidade maravilhosa. Testemunho governos e povo numa suspeita união! Já observaram os políticos que nosso povo elege para cuidar da cidade?
Ruas esburacadas, sujeira, falta de educação, pobreza, descaso institucional. Omissão, desinformação.
Comportamentos hostis nos trazem inusitadas situações. A exemplo fica a pergunta: Por que, predomina, nos homens de todas as idades, o hábito deselegante de urinar nas vias públicas? No período de carnaval que se aproxima vamos usar tapa narinas misturando-os, nas ruas, aos tapa - sexos momescos?

Minha cidade também é uma cidade de passagem! E com frequencia acomete as pessoas num estado de deslumbramento e medo.
Espio como os transeuntes a tratam em suas incursões pelos espaços. Será que é amor produzir e jogar lixo em áreas públicas, bueiros, encostas?
Será que é sinal de pertencimento, presença, de expressão criadora pichar muros? Nada contra os grafites que ilustram, registram.
E o que pensar dos moradores desta linda e aprazível baía que, nas praias, deixam resíduos, detritos para saudarem a natureza bela e acolhedora?
Esqueceram dos donos de cachorros? AH! Os animais não são mal educados... O que comentar sobre seus inocentes e descuidados donos?

Sonho sim com uma cidade limpa, cheirosa, ajardinada por muitos Burle Marx... Tenho a fórmula: Basta que, cada um de nós, aprecie a obra de amor à vida e à beleza que os jardins do mestre entoam! Os pássaros já agradecem as flores também! E nós fazemos o quê?

Queria que no peito de cada carioca batesse o amor tão forte que sinto, mas que bate calado, desafinado, como na canção, por que estou só no meu amor.
Só? Pode ser exagero!
Eu não ando só, só ando em boa companhia, com meu violão, minha canção e a poesia! O carioca, Vinicius de Moraes, já nos ensinou.
De fato tenho companhia.
Quero campanhas muitas! Promovidas por nós cariocas.
Cuide de seu Rio com amor, com carinho. Sorria para o seu Rio.
Quem ama não maltrata!
Só, assim, até você que não nasceu aqui, mas quer - e pode - se transformar num CARIOCA adotivo será mais um entre nós. Adote então a nossa cidade com muito AMOR e AÇÃO.
O tal falado Estado de Espírito, certidão de nascimento de alguns habitantes como investidura para ser Carioca precisa de muito amor pela cidade escolhida para viver, amar, passear ou envelhecer e morrer.

Vamos cuidar bem do Rio como cuidamos de quem se ama? Quem sabe, assim, arrancamos as flechas do peito de S. Sebastião?


Abraços carinhosos de uma carioca apaixonada por sua cidade.


Maysa

Dica do Gerdal:Marchinha de Cássio Tucunduva pronta para decolar no Festival da Fundição, que lança CD das finalistas nesta quarta na Lapa



Identificado inicialmente com a cena nacional do pop-rock, na qual surgiu nos anos 60 com o conjunto Os Lobos - que teve ainda entre seus integrantes o médico e "pop star" Dalto -, o cantor, compositor e guitarrista  niteroiense Cássio Tucunduva (foto acima), primo de Franklin da Flauta, tem mostrado, especialmente nos últimos anos, que a nossa tradição musical o sensibiliza e que ele também tem a sua pegada nessa praia, fazendo boas composições. Autor de uma bossa envolvente em louvor da paisagem ipanemense no verão, "Ondas Moduladas" (disponível à audição no YouTube), em parceria com o constante João Luiz Magalhães, Cássio lançou, em 2004, um CD independente em que a tônica é o samba, "Canto Sobretudo", logo após destacada participação no festival Fábrica do Samba, em que chegou à semifinal. Agora, revela fôlego criativo em "O Avião do Sarkozy", composta com a mulher, Rita, e também com João Luiz, uma marchinha prestes a decolar ao céu da boca dos foliões neste quinto Festival Nacional da Fundição Progresso no gênero, cuja final, com "flashes" de cobertura do "Fantástico", na TV Globo, ocorrerá no próximo 7 de fevereiro.
       A marchinha de Cássio é uma das dez finalistas deste ano no festival, cuja produção recebeu mais de 1.000 inscrições. Com a malícia e a irreverência que lhes são peculiares - apanágio do carnaval -, tais músicas já fazem parte de um CD que será lançado, a partir das 20h30, neste 20 de janeiro, feriado de São Sebastião, no bar Parada da Lapa (Rua dos Arcos, s/n), pela Banda Fundição, formada por músicos comandados pelo saxofonista e flautista Marcelo Bernardes, além das vozes de Alfredo Del-Penho, Pedro Paulo Malta, Clarice Magalhães e Lali Maia. Os concorrentes disputam o Prêmio João Roberto Kelly, o homenageado deste ano. O compositor de "Colombina Iê-Iê-Iê" ("Colombina, aonde vai você?/eu vou dançar o iê-iê-iê...") - feita em parceria com David Nasser e lançada pelo cunhado deste, Roberto Audi, com grande sucesso na folia de 1967 -, naturalmente, estará presente e terá ainda outras marchinhas de sua lavra, de ampla repercussão, lembradas, como atração extra da noite, pelo cantor Marcos Sacramento ("flyer" acima). Show final a cargo do Rio Maracatu.

Cartum de João Zero

Dica do Gerdal:Tony Pelosi e Danny Reis fazem show, nesta quarta, em Botafogo - a canção no tempo da delicadeza


Alma sensível e talento polimorfo, o carioca Antônio Carlos Pelosi, ou simplesmente Tony Pelosi, lançou, em 2007, um CD com a cantora Luanda Cozetti - hoje radicada em Portugal - que despertou em críticos especializados, como o paulistano Toninho Spessoto, adjetivos calorosos por, em síntese, aliar densidade a leveza no todo das faixas. De fato, uma visita à página de Tony no MySpace causa no ouvinte a impressão de um trabalho harmonicamente atraente no tratamento de canções servidas ou sorvidas em louça fina para a fruição de encanto e beleza, com letras que convidam ao romantismo e ao sonho, como "Vestido Novo", em parceria com Dudu Salinas, "Serena", em parceria com o exímio cearense Nonato Luiz (que abrilhanta a faixa com o seu violão de mestre), e "Já Estou pra Chegar", que remete ao samba "Tô Voltando", de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, só que, nesse caso, a situação se inverte e o recado é dado com suavidade feminina. 
        Cantor, compositor, violonista, poeta, pintor e luthier dedicado a instrumentos de cordas, Tony Pelosi, também de doce emissão e interpretação da canção, juntamente com a simpática cantora Danny Reis, apresenta-se em Botafogo neste feriado, 20 de janeiro, a partir das 20h30, de acordo com informação do "flyer" acima. Um show indicado a quem está de bem com a vida ou deseja reconciliar-se com ela.

Dica do Gerdal: Marquinho Dikuã mostra na própria voz, em show nesta quarta em Sampa, a força de um samba individualmente comunitário


A exemplo do parceiro Emerson Urso, o também paulistano Marquinho Dikuã, nascido no Capão Redondo, faz parte de uma geração promissora da nova sonoridade do samba de Sampa, que, fiel às origens dessa nossa música popular por excelência e avessa ao neon falso do pagode de butique, hoje se espalha por muitas comunidades rítmicas da periferia. Tais comunidades do samba, na capital paulista, buscam reafirmar uma identidade própria para o samba lá feito, sem se tornar, portanto, apenas uma imitação pálida do samba-referência que seus colegas de geração no Rio fazem, sobretudo, na Lapa, em que um repertório pretérito e clássico no gênero é constantemente evocado, associado, é claro, à lida exemplar de expoentes como Candeia, Cartola e Nelson Cavaquinho. Sem negar a devida reverência a esses e outros bambas - o próprio Dikuã é autor de sensível homenagem, "Seu Nome É Saudade", à maneira de um lírico samba-enredo, a Nelson Cavaquinho, seu ícone melódico), nota-se lá um empenho enfático na renovação do repertório do samba, ligado como crônica ao dia a dia desses jovens e à observação e vivência que têm da experiência urbana em ponto do mapa do país de tamanha imponência estratégica, cultural inclusive, para o nosso desenvolvimento. 
       Passando pelo Samba da Vela e à frente, em Campo Limpo, há alguns anos, desde a sua fundação, do desenrolar do projeto Samba de Todos os Tempos - outro fruto comunitário do primordial Mutirão do Samba, surgido em 1996, em São Paulo, como reação ao pagode meramente comercial, sem lastro na tradição local -, Marquinho Dikuã, cantor, compositor e cavaquinhista autodidata, autor do belo samba "Daria um Braço", cuja letra também faz sentido de trás para diante (como Chico Buarque fez em "Corrente"), é um talento emanado desse caldo de cultura da nova produção do samba no arrabalde paulistano. Segundo o advogado, cantor e compositor Wilson Sucena, também de Sampa e lá muito considerado, "ele tem a magia de se fazer ouvir, valorizando intensamente a bênção que Deus lhe deu de ser sambista". Com um elogiado CD, "Aprendiz", já lançado em 2005, no qual têm participação especial Delcio Carvalho, Luiz Carlos da Vila e Jair do Cavaquinho, Marquinho Dikuã é a atração desta quarta, às 22h30, numa casa noturna no Centro de São Paulo, como se vê no "flyer" acima
***
Pós-escrito: creio ter havido um erro de digitação no "flyer", com um "s" acrescido ao nome do artista. Segui a grafia adotada na sua página no MySpace, à qual recomendo uma visita. 
 
www.myspace.com/marquinhodikua
 
www.myspace.com/emersonurso13

19.1.10

Saindo do forno


Mais um Boletim Técnico do Senac saiu da gráfica com aquele cheiro bacana de tinta e está em circulação.
Modestamente a capa é deste blogueiro que vos fala.

18.1.10

Do fundo do baú: Ilustração - TV, a elite e a massa

Homenagem do Gerdal: Almanir Grego e seu único disco gravado-uma lembrança desse filho exaltado da antiga Vila Real da Praia Grande


"Ora, ora, lá vem você outra vez/perguntar pela mulher que o abandonou..."
 
       Gravado em 1940 pelo Bando da Lua e regravado em 1966, em elepê da Elenco, por Aracy de Almeida, "Ora, Ora" foi um samba de sucesso que, em parceria com Gomes Filho, fez um veterinário nascido em Niterói e grande folião nessa cidade, participante e incentivador de diversos blocos: o saudoso Almanir Grego. Teria feito 100 anos em 8 de junho do ano passado e, com o parceiro mais constante, o pianista Gadé (Osvaldo Chaves Ribeiro), também nascido em Niterói, já havia destinado a Carmen Miranda um outro sucesso, este de 1936, o choro "Polichinelo", mais tarde reconhecido na voz de Ademilde Fonseca. No único disco que gravou, em 1992, um elepê de apenas seis faixas pela Niterói Discos (capa acima), ele fez o registro, também da lavra com Gadé, de uma valsa belíssima, "Primavera", e, em especial, com letra e música suas, de duas composições deliciosamente jocosas, o samba "O Tal Doutor" ("minha senhora, o preço da consulta a domicílio são trinta e mais dez/no consultório, nada dificulta/e o exame é feito da cabeça aos pés...") e a marchinha "Cabo Eleitoral" ("vendeu o carro e o bangalô/e fez miséria pra cavar o eleitor/desilusão na apuração/só tinha mesmo o voto dele, sim senhor (bis)/hoje reclama que foi traído/por amigos leais e até como marido/pois a mulher, que parecia tão legal/foi na conversa de outro cabo eleitoral"). O cantor carioca João Petra de Barros (intérprete destacado de Noel Rosa e um dos suicidas da história da MPB) foi o primeiro a gravá-lo, em 1935, com "Beijo Mascarado", mais uma de Almanir Grego com Gadé. Na dobradinha com Roberto Roberti, teve na voz de Vassourinha, levado ao disco em 1941, o samba "Ela Vai à Feira", fazendo ainda músicas com Alcyr Pires Vermelho, Amado Régis (autor de "O Samba e o Tango", outro sucesso da Pequena Notável), Alberto Ribeiro e Valfrido Silva (parceiro de Gadé em "Estão Batendo" e de Noel Rosa em "Vai Haver Barulho no Chatô). Uma composição sua era usada como prefixo do "Grande Jornal Fluminense", noticiário radiofônico gerado e transmitido na cidade fundada por um índio guerreiro, a sua tão amada Vila Real da Praia Grande, para a qual fez, com versos de Nilo Neves, uma marcha-hino vibrante, exaltada e bem apresentada nesse seu elepê, que encontrei há dois anos num sebo de lá: "Vila Real da Praia Grande/sempre altaneira, poderosa/Vila Real da Praia Grande, terra feliz, dadivosa/Cidade-Sorriso encantada/Niterói, Niterói, com és formosa..."

17.1.10

15.1.10

Dica do Gerdal: Ney Conceição, Itamar Assiere e Victor Bertrami no Santo Scenarium: uma opção instrumental na boa para esta sexta



Tive a satisfação de encontrar o jovem amigo Victor Bertrami, filho de José Roberto Bertrami, na sexta-feira passada, numa ótima e aconchegante casa noturna da Lapa, TribOz (esquina de Rua Conde de Lages com Rua Taylor), voltada sobretudo à boa música instrumental, quando me antecipou a dica de agora. Nessa ocasião, à bateria, ele "quebrava tudo" no acompanhamento dos talentosos e muito bem entrosados Gabriel Improta e Rodrigo Lessa - num show que ainda contou com a brilhante participação de Rodrigo Villa, ao contrabaixo acústico, e Tomás Improta, ao piano. Num intervalo entre "sets", conversando comigo, Victor informou a sua atuação hoje, 15 de janeiro, no Santo Scenarium (Rua do Lavradio, 36 - Centro), às 21h, numa formação de teclado, baixo e bateria, com outros dois músicos de alto nível e muito requisitados: Itamar Assiere, ex-Batacotô e Banda Banzai, e Ney Conceição, que, há dez anos, com Robertinho Silva, lançou "Jaquedu"", um CD muito bem recebido pela crítica especializada(fotos acima). Mais uma noite instrumental de primeira.

Um novo brinde de João Zero


(Clique na imagem para ampliar e ler a legenda do cartum)

14.1.10

Dica do Gerdal :Sombra é o convidado desta quinta na roda do Tempero Carioca, na Lapa, em noite bem servida de samba


Nascido em Santos como o irmão Sombrinha, ex-integrante do Fundo de Quintal, o cantor e compositor Sombra é o convidado de hoje, 14 de janeiro, do grupo Tempero Carioca no Carioca da Gema. Sombra chegou ao Rio em 1986 e logo se enturmou no Cacique de Ramos, revelando sua apreciável qualidade musical. No ano seguinte, já acompanhava, com o seu cavaquinho, a cantora Beth Carvalho em Montreux, na Suíça, sendo ainda, na consideração de Roberta Cunha Valente, pandeirista e pesquisadora da nossa música popular, "um chorão de mão cheia". Tem mais de cem músicas gravadas, entre as quais alguns sucessos, como "Além da Razão", em parceria com o supralembrado irmão e o saudoso Luiz Carlos da Vila. Figuram entre os seus intérpretes, além de Beth, Jorge Aragão, Jovelina Pérola Negra, Zeca Pagodinho e Leci Brandão, por exemplo, e, ainda, entre os seus ilustres parceiros, nomes do porte de Arlindo Cruz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro, com o qual compôs "Velho Marujo".
         O Carioca da Gema situa-se na Av. Mem de Sá, 79, na Lapa - tel.: 2221-0043.

Dica do Gerdal: Sonia Santos esta semana no Rio - suingue e simpatia de uma brasileirinha de "lights" e "all rights" vocais



Assim como fez com o clássico "Brasileirinho", em delicioso registro "cool", no seu timbre inconfundível, Sonia Santos, carioca de Ramos, com a mesma graça e suavidade, teria em 1975 outra sedutora gravação com "Adeus, América". Não muito tempo depois, ironicamente, ela faria movimento inverso ao explicitado na letra do ótimo e bem conhecido samba de Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques, para se estabelecer, em carreira bem-sucedida, em Los Angeles, onde reside há muitos anos. Como ocorreu com Márcia Maria - outra cantora surgida nos anos 70, de linha suingada, na influência do jazz, e há muito radicada em Paris -, parece-me que Sonia Santos foi outro desses talentos que o país não soube acolher, no próprio território, entre as suas cantoras mais expressivas e personalistas, embora, no exterior, mesmo com alguma estilização coreográfica com dançarinos a ilustrar-lhe o canto negro de dentes alvos e sorriso bonito, a defesa do nosso cancioneiro esteja presente em shows de casas cheias. Em 1988, por exemplo, atendendo a convite do Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores, dividiu o palco de "Verão Brasil", criado e dirigido por Ricardo Cravo Albin, com o cantor e compositor Tom da Bahia, um espetáculo levado a cabo em cidades norte-africanas, espanholas e venezuelanas.  
        Uma das fotos acima mostra capa do bom elepê "Crioula, com arranjo de Édson Frederico e gravado na Som Livre em 1977 por Sonia Santos, que, sete anos antes, debutando na profissão, já se destacava como "crooner" no conjunto de baile do saxofonista Zito Righi. Ultimamente, tem-se apresentado com sucesso em dupla com outra cantora brasileira radicada na Califórnia, Ana Gazzola, gaúcha de Caxias do Sul, em "Brasil Brazil", por exemplo. No ano passado, ambas levaram esse show a um dos palcos do transatlântico Star Princess, mesclando no repertório bossa nova e sambas e marchas de carnaval. Nesta semana, uma chance rara para vê-la no Rio, nos dias 14, 15 e 16 de janeiro, às 21h, no J Club Julieta de Serpa (Praia do Flamengo, 340), com o acompanhamento gabaritado de Alfredo Cardim, ao piano, Ozias Gonçalves, ao baixo, e Otávio Garcia, à bateria.
      ***    
 
A tempo: aos interessados, recomendo imagens de 1977, disponíveis no YouTube, de Sonia Santos e Grande Otelo cantando "Quem É?", conhecida originalmente nas vozes de Carmen Miranda e Barbosa Júnior quarenta nos antes.

Mais um brinde: Um cartum de João Zero


(Clique na imagem para ampliar e ler melhor a legenda do cartum)

13.1.10

Dica do Gerdal: Sururu na Roda, até o carnaval, vai rosetar por sambas e marchas de Haroldo Lobo, toda quarta, no CCC


Ao lado de Braguinha, Lamartine Babo e João Roberto Kelly, o guarda municipal Haroldo Lobo, nascido na Gávea em 1910, figura como um dos quatro grandes do repertório de marchas carnavalescas, para o qual concorreu com o maior número de gravações e de sucessos - das mais de 600 músicas que lançou, quase 500 foram para o carnaval, de 1934 a 1965, ano de sua morte. Contando o mais das vezes com o apoio valioso de Milton de Oliveira, parceiro e caititu, Haroldo foi o cidadão-folia por excelência, sempre à frente do carnaval de rua e de salão do Jardim Botânico, onde morava, extraindo de uma anedota ou de um fato do cotidiano, por exemplo, a seiva com que nutria suas composições de sucesso. Nesse bairro, servia-se do Carioca, clube do qual foi presidente, como um termômetro de aceitação de seus sambas e marchas. Músicas ali lançadas informalmente com um ano de antecedência em relação ao seu registro em disco e que, no carnaval seguinte, animavam os brincantes de toda a cidade e de todo o país. Assim, por exemplo, seus amigos e os sócios do clube conheceram, em primeiro grito, "Serpentina", em 1949, que, um ano depois, se incorporaria ao nosso patrimônio cultural, cantada a plenos pulmões nos dias de Momo. Também liderou por muitos anos, desde o início da década de 40, o Bloco da Bicharada, cujos integrantes, majoritariamente ligados ao Carioca, com fantasias de animais à base de arame e papel, percorriam o bairro em desfiles memoráveis que divulgavam não só a produção de Haroldo como a de outros compositores.
       Se "Índio Quer Apito", gravada pelo baiano Walter Levita, "Verão no Havaí", por Francisco Alves e Dalva de Oliveira, "A Coroa do Rei", por Dircinha Batista, e "Pescador", pelo conjunto Quatro Ases e um Curinga, são marchas que faziam de Haroldo Lobo um peixe dentro d`água no carnaval, evoluindo com invejável desenvoltura, seus sambas para o período não ficavam atrás. Simplesmente exemplares são "Juro", gravado por J. B. de Carvalho, "E o 56 Não Veio", por Deo, "Pra Seu Governo", por Gilberto Milfont, "Emília", por Vassourinha, e "Rosalina", joia redescoberta por Toquinho, conhecida primeiramente na voz de Jorge Veiga. Por meio do Caricaturista do Samba, Haroldo colheria, fora do carnaval, os frutos do sucesso de "Recado Que a Maria Mandou" e "A Mulher Que Eu Gosto", ambos os sambas em parceria com Wilson Batista,  e "Amanhã Tem Baile", em disco de Vassourunha, e "Porteiro, Suba e Veja", em registro de Patrício Teixeira, mostrando, portanto, que o seu talento criativo cortejava ainda a cadência mais lenta e menos vibrante dos "hits" de "meio de ano", como se dizia.
       Também as noites de Santo Antônio, São João e São Pedro não eram noites comuns para Haroldo Lobo, mas de céus inspiradores de canções. Em cada estrela dessas noites um sucesso a iluminar e animar as festas juninas e, em particular, a movimentação dos pares nas quadrilhas, com "A Sanfona do Mané", "Lá Vem a Rita", "O Sanfoneiro Só Tocava Isso", "Dia dos Namorados", "O Baile Começa às Nove" etc. À dessemelhança de outros expoentes de sua geração, como Ari Barroso e Lamartine Babo, este também um grande compositor junino, Haroldo sempre esteve à sombra de sua obra. Embora expansivo com os amigos, era um homem de trato habitualmente reservado e arredio a entrevistas. Talvez por isso seja, para muitos, aquele ilustre desconhecido de músicas tão manjadas e curtidas, tanto ao som de metais em brasa momesca quanto ao som de sanfonas invernais. Um pelé da inspiração buriladamente simples, de largo apelo popular, que viveu tão discretamente como morreu, num 20 de julho, em seu apartamento na Rua Faro, no Jardim Botânico, vítima de sorrateiro enfarte, na calada da madrugada, há quase 45 anos.      
       Em "Eu Quero É Rosetar" ("flyer" acima), ele é homenageado numa série de shows desenvolvida com esmero por Carlos Monte e conduzida no palco pelo excelente conjunto Sururu na Roda, liderado pela internacional Nilze Carvalho. São shows que ocorrem em janeiro e fevereiro - até o carnaval -, toda quarta, no Centro Cultural Carioca, às 21h. Arranjos a cargo do próprio Sururu, do violonista Pedrinho da Glória e de outro rapaz talentoso, o pianista e acordeonista Marcelo Caldi. Hoje é dia! 
Obs.: rosetar - 1) machucar (cavalgadura) com a roseta da espora; esporear; 2) divertir-se muito, brincar, folgar, pagodear; 3) divertir-se libidinosamente. Fonte: "Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa".