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7.7.19
28.6.19
Caricatura de Gilberto Gil - aniversariante do dia
Do fundo do baú: caricatura do artista quando jovem Gilberto Gil - aniversariante - 77 anos. Viva!!!!
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23.6.19
Retrato de Machado de Assis no seu 178º aniversário
Do fundo do baú: retrato em homenagem ao 178º aniversário (comemorado nessa semana- dia 21 de junho) do mestre dos mestres da nossa rica literatura - Machado de Assis.
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20.6.19
Caricatura em homenagem a Rubens Ewald Filho
Caricatura em homenagem ao grande crítico de cinema Rubens Ewald Filho, que nos deixou ontem.
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4.10.18
Dica do Gerdal: Palavras e músicas de Baden Powell
(Foto: João Poppe)
"No estrangeiro, não dá pra ganhar grana. As telefônicas capam tudo, e, realmente, acho que saudade não tem preço. E ouvir a pessoa é muito importante. Lembra quando a gente falou uma hora e meia de Paris para a sua casa? É verdade, neguinho. O telefone é um esporte muito mais caro que uísque. Mas só faz bem ao coração. Ouvir os amigos quando bate uma fossa ...
Em Paris, pintou um francês parado na nossa música, o Pierre Barouh. Bonitão e influente em certas áreas femininas, pôs-me em contato com madame Barclay, que disputava uma gravadora com seu marido, Eddie Barclay. Os dois me queriam, e fiquei na de leilão. O fato é que acabei indo aonde alguns acabam: o Olympia. Falavam-me da sua importância, mas a minha grande preocupação era matar a fome, que já era preta. E, com um fogareiro no quarto para ajeitar um rango, pintou uma feia. Na véspera da estreia, a água muito quente de dois ovos cozidos caiu em minhas mãos. E, com uma delas enfaixada, estreei. Oito cortinas, oito vezes bis. Bem, aí tudo fica mais fácil. Contratos pra lá, pra cá, contratos para tocar na boate Feijoada. Nela, fiquei dois anos! Era o meu ponto de encontro, de contatos e de contratos. Bilboquet, Salle Pleyel, eu sempre ataquei nessa diferente. Dava concertos e metia samba de montão. O pessoal até hoje curte essa. Então, meus três meses previstos renderam dois anos. Nada antes programado. As coisas vão acontecendo ... Hoje sou muito amigo não só dos empresários, como também do povo. Aprontei muitas por lá. Fiquei famoso ... A Alemanha foi uma conquista posterior. Lá, caí logo na boca do leão. Berlim e Stuttgart são cidades difíceis. O público é quentíssimo, superinformado musicalmente. Quando eles não gostam de um espetáculo, não tem essa de vaia, não. Eles simplesmente saem da sala. No Philharmonic Hall, acho que é a maior casa de concertos do mundo, eu encarei o público, em 1971. O espetáculo, que teria duração de hora e meia, foi prorrogado - no peito - para três horas e meia. E aquilo me consagrou. Ainda em Berlim, participei do Festival de Jazz. No dia dos guitarristas, lá estavam Barney Kessel, Charlie Byrd, Joe Pass e outros, os maiores do mundo. Aí, foi um "acaba". Não deixei pra ninguém Eu estava louco ...Continuo com bom campo de trabalho, porque toco clássico e popular com relativa desenvoltura. E os homens gostam da nossa música. Só quem não gosta da nossa música são os brasileiros ...
A bossa nova era algo sólido. Acrescentou à nossa música harmonias ricas. Mas veio essa mania de derrubar estruturas e aí fica perigoso. Não se pode demolir uma casa sem saber onde está a viga mestra. Ela acaba caindo na sua própria cabeça. Isso não invalida artistas isolados, como o Milton Nascimento, que faz o dele e muito bem. Falo num todo, num movimento que a tropicália destruiu e até hoje não colocou nada no lugar ...
Pesquisa? Certa vez, chamei o Guerra-Peixe para fazer um arranjo para uma "Bourrée" de Bach, transportá-la para um quarteto de cordas. Transcreveu para violão uma parte de guitarra. Ao ler, a parte, Guerra afirmou: "Não conheço a obra, mas esse compasso está errado. Bach jamais escreveria assim esse tipo de acorde. E consertou. Quando fui verificar no original (a parte de violino), o Guerra estava certo. Não há dúvida que ele é um pesquisador de Bach....
Inspiração existe claro, mas eu morro de rir quando alguém explica como faz uma música. Pra mim, música não tem hora, lugar ou explicação. Defendo uma tese meio louca de que ninguém faz música. Elas estão aí no ar, e há quem tenha o dom de captá-las. Comigo a coisa chega pronta. Fico até assustado. Mas creio que a sensibilidade da gente é que rege tudo. Daí você estar numa fossa e compor algo alegre. Ás vezes, ocorre o contrário. Para onde estiver a direção da sensibilidade estará o resultado de uma canção. Uma coisa assim mediúnica ...
Quando me perguntam se eu mudei de estilo, morro de rir. Tudo que crio é fundamentalmente brasileiro. E se a gente faz o que está no sangue, está fazendo certo. Sai tudo direito ...
Tenho remorso das músicas perdidas entre porres e mudanças. Durante um porre, fiz "Psicose", coisa muito linda. Toda tarde, vou pra varanda, armo a minha arapuca, mas o passarinho nunca mais voltou. Tenho 720 músicas compostas e, acredite, essa está faltando." .
Pós-escrito: a) acima, transcrição de partes de entrevista concedida por Baden Powell a Ronaldo Bôscoli, letrista bossa-novista e repórter da revista "Manchete" - edição de 3 de março de 1979; b) nos "links" abaixo, a presença autoral de Baden, por ele mesmo (com exceção do último): "Igarapé"; "Violão Vadio" (letra de Paulo César Pinheiro); "Tempo Feliz" (letra de Vinicius de Moraes); "Samba Triste" (letra de Billy Blanco), com Lúcio Alves. A foto de Baden é de João Poppe, feita para a referida matéria.
https://www.youtube.com/watch?v=cDR09xHRofs ("Igarapé")
https://www.youtube.com/watch?v=IBxl0gSa5vU ("Violão Vadio")
https://www.youtube.com/watch?v=3dFOhMaAwKs ("Tempo Feliz")
https://www.youtube.com/watch?v=xtcgAKw-OAs ("Samba Triste")
"No estrangeiro, não dá pra ganhar grana. As telefônicas capam tudo, e, realmente, acho que saudade não tem preço. E ouvir a pessoa é muito importante. Lembra quando a gente falou uma hora e meia de Paris para a sua casa? É verdade, neguinho. O telefone é um esporte muito mais caro que uísque. Mas só faz bem ao coração. Ouvir os amigos quando bate uma fossa ...
Em Paris, pintou um francês parado na nossa música, o Pierre Barouh. Bonitão e influente em certas áreas femininas, pôs-me em contato com madame Barclay, que disputava uma gravadora com seu marido, Eddie Barclay. Os dois me queriam, e fiquei na de leilão. O fato é que acabei indo aonde alguns acabam: o Olympia. Falavam-me da sua importância, mas a minha grande preocupação era matar a fome, que já era preta. E, com um fogareiro no quarto para ajeitar um rango, pintou uma feia. Na véspera da estreia, a água muito quente de dois ovos cozidos caiu em minhas mãos. E, com uma delas enfaixada, estreei. Oito cortinas, oito vezes bis. Bem, aí tudo fica mais fácil. Contratos pra lá, pra cá, contratos para tocar na boate Feijoada. Nela, fiquei dois anos! Era o meu ponto de encontro, de contatos e de contratos. Bilboquet, Salle Pleyel, eu sempre ataquei nessa diferente. Dava concertos e metia samba de montão. O pessoal até hoje curte essa. Então, meus três meses previstos renderam dois anos. Nada antes programado. As coisas vão acontecendo ... Hoje sou muito amigo não só dos empresários, como também do povo. Aprontei muitas por lá. Fiquei famoso ... A Alemanha foi uma conquista posterior. Lá, caí logo na boca do leão. Berlim e Stuttgart são cidades difíceis. O público é quentíssimo, superinformado musicalmente. Quando eles não gostam de um espetáculo, não tem essa de vaia, não. Eles simplesmente saem da sala. No Philharmonic Hall, acho que é a maior casa de concertos do mundo, eu encarei o público, em 1971. O espetáculo, que teria duração de hora e meia, foi prorrogado - no peito - para três horas e meia. E aquilo me consagrou. Ainda em Berlim, participei do Festival de Jazz. No dia dos guitarristas, lá estavam Barney Kessel, Charlie Byrd, Joe Pass e outros, os maiores do mundo. Aí, foi um "acaba". Não deixei pra ninguém Eu estava louco ...Continuo com bom campo de trabalho, porque toco clássico e popular com relativa desenvoltura. E os homens gostam da nossa música. Só quem não gosta da nossa música são os brasileiros ...
A bossa nova era algo sólido. Acrescentou à nossa música harmonias ricas. Mas veio essa mania de derrubar estruturas e aí fica perigoso. Não se pode demolir uma casa sem saber onde está a viga mestra. Ela acaba caindo na sua própria cabeça. Isso não invalida artistas isolados, como o Milton Nascimento, que faz o dele e muito bem. Falo num todo, num movimento que a tropicália destruiu e até hoje não colocou nada no lugar ...
Pesquisa? Certa vez, chamei o Guerra-Peixe para fazer um arranjo para uma "Bourrée" de Bach, transportá-la para um quarteto de cordas. Transcreveu para violão uma parte de guitarra. Ao ler, a parte, Guerra afirmou: "Não conheço a obra, mas esse compasso está errado. Bach jamais escreveria assim esse tipo de acorde. E consertou. Quando fui verificar no original (a parte de violino), o Guerra estava certo. Não há dúvida que ele é um pesquisador de Bach....
Inspiração existe claro, mas eu morro de rir quando alguém explica como faz uma música. Pra mim, música não tem hora, lugar ou explicação. Defendo uma tese meio louca de que ninguém faz música. Elas estão aí no ar, e há quem tenha o dom de captá-las. Comigo a coisa chega pronta. Fico até assustado. Mas creio que a sensibilidade da gente é que rege tudo. Daí você estar numa fossa e compor algo alegre. Ás vezes, ocorre o contrário. Para onde estiver a direção da sensibilidade estará o resultado de uma canção. Uma coisa assim mediúnica ...
Quando me perguntam se eu mudei de estilo, morro de rir. Tudo que crio é fundamentalmente brasileiro. E se a gente faz o que está no sangue, está fazendo certo. Sai tudo direito ...
Tenho remorso das músicas perdidas entre porres e mudanças. Durante um porre, fiz "Psicose", coisa muito linda. Toda tarde, vou pra varanda, armo a minha arapuca, mas o passarinho nunca mais voltou. Tenho 720 músicas compostas e, acredite, essa está faltando." .
Pós-escrito: a) acima, transcrição de partes de entrevista concedida por Baden Powell a Ronaldo Bôscoli, letrista bossa-novista e repórter da revista "Manchete" - edição de 3 de março de 1979; b) nos "links" abaixo, a presença autoral de Baden, por ele mesmo (com exceção do último): "Igarapé"; "Violão Vadio" (letra de Paulo César Pinheiro); "Tempo Feliz" (letra de Vinicius de Moraes); "Samba Triste" (letra de Billy Blanco), com Lúcio Alves. A foto de Baden é de João Poppe, feita para a referida matéria.
https://www.youtube.com/watch?v=cDR09xHRofs ("Igarapé")
https://www.youtube.com/watch?v=IBxl0gSa5vU ("Violão Vadio")
https://www.youtube.com/watch?v=3dFOhMaAwKs ("Tempo Feliz")
https://www.youtube.com/watch?v=xtcgAKw-OAs ("Samba Triste")
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2.10.18
Morre uma lenda da caricatura do mundo: Sábat
Hoje esse blog está de luto.
Acabo de saber, ao chegar da rua, que hoje, dia 2 de outubro morreu o imenso artista uruguaio-argentino Hermenegildo Sábat.
Ele fazia de tudo no campo das artes - caricatura, ilustração, pintura...era um dos grandes homens desse planetinha azul perdido no Universo.
Sábat tinha 85 anos, nasceu em Montevideo em 23 de junio de 1933.
Aqui vão sua foto (clicada por Mario Marotta), sua assinatura escaneada de um e seus desenhos, duas caricaturas que fez do grande escritor argentino Jorge Luis Borges (esse material foi retirado do livro "Quem é Sábat?" publicado pela editora Paz&Terra em 1997 que traz um apanhado muito bem cuidado de diversas facetas de sua obra magnífica).
Segue junto também uma auto caricatura de Sábat compartilhada de um post de meu querido amigo Julio Lubetkin, um valioso divulgador das artes gráficas e do humor planetário.
Viva Sábat!
Acabo de saber, ao chegar da rua, que hoje, dia 2 de outubro morreu o imenso artista uruguaio-argentino Hermenegildo Sábat.
Ele fazia de tudo no campo das artes - caricatura, ilustração, pintura...era um dos grandes homens desse planetinha azul perdido no Universo.
Sábat tinha 85 anos, nasceu em Montevideo em 23 de junio de 1933.
Aqui vão sua foto (clicada por Mario Marotta), sua assinatura escaneada de um e seus desenhos, duas caricaturas que fez do grande escritor argentino Jorge Luis Borges (esse material foi retirado do livro "Quem é Sábat?" publicado pela editora Paz&Terra em 1997 que traz um apanhado muito bem cuidado de diversas facetas de sua obra magnífica).
Segue junto também uma auto caricatura de Sábat compartilhada de um post de meu querido amigo Julio Lubetkin, um valioso divulgador das artes gráficas e do humor planetário.
Viva Sábat!
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Sábat
27.2.18
Acaba de sair do forno um livro em homenagem ao grande mestre Ziraldo
Tive a felicidade de ser convidado pelo cartunista Edra Amorim para participar de uma homenagem junto com vários bambas do traço ao mestre Ziraldo.
Tal homenagem se concretizou no livro "Ziraldo 85 - Ao Mestre Com Carinho - no Traço de 85 Talentosos Cartunistas", que acaba de ser publicado pela editora Melhoramentos.
Esse livro estará em breve nas boas casas do ramo.
A obra traça um perfil biográfico do mestre Zira, nos seus 85 anos de idade e destaca e demonstra sua imensa contribuição para arte do humor gráfico brasileiro.
O projeto editorial e gráfico é do cartunista caratinguense Edra Amorim, que traz a capa assinada pelo Gê Pinto, prefácio de Zélio Alves Pinto (ambos irmãos do homenageado), apresentação do cartunista/jornalista JAL, Presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil e, na contra capa, uma mensagem do Jô Soares ao estimado amigo de longa data.
O livro reúne, nas suas 192 páginas, um registro ilustrado da vida e obra do homenageado, intercaladas por caricaturas do tal time de 85 cartunistas relacionados abaixo:
Abel Costa, Afonso Carlos , Alan Souto Maior, Amorim, Alecrim , Alisson Affonso, Alpino, Amarildo , Andre Barroso, Cerino , André Camargo, Ariel Silva, Aroeira , Eduardo Baptistão, Bira Dantas , Biratan Porto, Brito , Camaleão , Camilo Riani, Chico Caruso, Cláudia Kfouri, Claudio Cláudio Aleixo Rocha, Claudio Duarte, Cláudio Teixeira, Dalcio Machado,Edra , Enderson Santos, Erthal, Evandro Rocha, Fábio Fabio Coutinho, Fernandes , Ferreth , Fraga , Genin , Gervásio Castro Neto, Glen Batoca, Edson Guedes, André Hippertt, Humberto Pessoa, Ique , Ivo Favero, Izânio Façanha, J.Bosco, J.J Fontinele Cartoons, Jack Cartoon, Jal , Paulo Sergio Jindelt, João Bento Jorge Braga, Jorge Inácio, Leite , Lezio Junior, Bruno Liberati, Lucas Leibholz, Manga, Mario Alberto, Maurício de Souza, Mauro Miranda, Silvano Mello, Mig, Miller Almeida, Moises Macedo, Mônica Fuchshuber, Monico Reis Art, Nei Lima, Paulo Branco , Paulo Caruso, Quinho , Rice Araujo, Flavio Rossi, Rui Miranda, António Santos, Sergio Gomes, Seri, Sidney Falcão, Eduardo Simch, Stegun , Suélen Becker, Thiago Lucas, Toscano , Omar Figueroa Turcios, Ulisses Araujo, Luciano Veronezi, William Medeiros e Xavier.
Obrigadão, amigo Edra.
Vida longa ao mestre Ziraldo!!!
(clique nas imagens para ampliar e ver melhor)
Tal homenagem se concretizou no livro "Ziraldo 85 - Ao Mestre Com Carinho - no Traço de 85 Talentosos Cartunistas", que acaba de ser publicado pela editora Melhoramentos.
Esse livro estará em breve nas boas casas do ramo.
A obra traça um perfil biográfico do mestre Zira, nos seus 85 anos de idade e destaca e demonstra sua imensa contribuição para arte do humor gráfico brasileiro.
O projeto editorial e gráfico é do cartunista caratinguense Edra Amorim, que traz a capa assinada pelo Gê Pinto, prefácio de Zélio Alves Pinto (ambos irmãos do homenageado), apresentação do cartunista/jornalista JAL, Presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil e, na contra capa, uma mensagem do Jô Soares ao estimado amigo de longa data.
O livro reúne, nas suas 192 páginas, um registro ilustrado da vida e obra do homenageado, intercaladas por caricaturas do tal time de 85 cartunistas relacionados abaixo:
Abel Costa, Afonso Carlos , Alan Souto Maior, Amorim, Alecrim , Alisson Affonso, Alpino, Amarildo , Andre Barroso, Cerino , André Camargo, Ariel Silva, Aroeira , Eduardo Baptistão, Bira Dantas , Biratan Porto, Brito , Camaleão , Camilo Riani, Chico Caruso, Cláudia Kfouri, Claudio Cláudio Aleixo Rocha, Claudio Duarte, Cláudio Teixeira, Dalcio Machado,Edra , Enderson Santos, Erthal, Evandro Rocha, Fábio Fabio Coutinho, Fernandes , Ferreth , Fraga , Genin , Gervásio Castro Neto, Glen Batoca, Edson Guedes, André Hippertt, Humberto Pessoa, Ique , Ivo Favero, Izânio Façanha, J.Bosco, J.J Fontinele Cartoons, Jack Cartoon, Jal , Paulo Sergio Jindelt, João Bento Jorge Braga, Jorge Inácio, Leite , Lezio Junior, Bruno Liberati, Lucas Leibholz, Manga, Mario Alberto, Maurício de Souza, Mauro Miranda, Silvano Mello, Mig, Miller Almeida, Moises Macedo, Mônica Fuchshuber, Monico Reis Art, Nei Lima, Paulo Branco , Paulo Caruso, Quinho , Rice Araujo, Flavio Rossi, Rui Miranda, António Santos, Sergio Gomes, Seri, Sidney Falcão, Eduardo Simch, Stegun , Suélen Becker, Thiago Lucas, Toscano , Omar Figueroa Turcios, Ulisses Araujo, Luciano Veronezi, William Medeiros e Xavier.
Obrigadão, amigo Edra.
Vida longa ao mestre Ziraldo!!!
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humor,
Lançamento de Livro,
Ziraldo
29.1.18
Portela
Do fundo do baú: ilustração que tem por tema a Portela.
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25.1.18
ESSEPÊ, poema recauchutado em homenagem à cidade de São Paulo
Vale a pena ver de novo?- Ilustração para um cometimento poético deste que vos fala, intitulado Essepê ( na comemoração do aniversário da cidade na qual nasci em meados do século passado).
É bom salientar que esse cometimento foi publicado aqui neste blog, antes do talentoso compositor Criolo fazer o tremendo sucesso com sua magnífica música que se chama "Não existe amor em Essepê".
Essepê como se pode ver apesar de sua "concretude", "concretiticade" sempre esteve no ar. Ideia que pertence a todos e a ninguém.
Lá vai o cometimento poético (prepare-se que vai ser textão. Apenas uma observação inicial: esse cometimento errático revisitado, agora foi recauchutado. Pois é, a cada ano novos elementos a ele são acrescentados ou destruídos, assim como acontece com a cidade que homenageia )
ESSEPÊ
São Paulo, cidade de
São Paulo, essepê
Esse pé quarentão que dói no fim do dia/
depois de milhares de semáforos em transe...
Primeira geração digital e pré-história se amando na 23 de maio engarrafadas/ entre muros acinzentados "prefeitamente"
Doentes de seu tempo
Cemitério do Araçá guarda meus mortos, benza Deus!
Cidade, metrópole, megalópole,
Abrigo e túmulo de migrantes polifônicos
Mistura terminal e casa modernista/
Presídio que vira praça
Praça que vira presídio...
Paradoxos ambulantes, anacrônicos xerocados. Homens-sanduíche gritam:- Compro ouro!
Massas e Iphones, café expresso na galeria Olido
Avenida Paulista, rolex que brilha sob a chuva ácida
E atrai o olho do gatuno
Cine Vera virou casa de forró, mano!
Talvez hoje nem isso
Mendigos embaixo do viaduto celebram com CO² o sucesso do novo plano urbanístico
Miséria high tech?
Luz, Tiradentes... Onde andará a menina linda da avenida Água Fria?
Cidade mãe com nome de santo – cidade travesti ou...
Medéia ensandecida que mata seus filhos com hamburgers
Aristocracia de mais de 450 anos em banheiras J'Accuse!
Zola nunca te imaginaria assim tão germinal
Burguesia de Caras maquiadas, sorry dentes no programa de TV
Periferia que almeja, deseja,
Fossa séptica ao ar livre, poço artesiano onde falta cano,
Sonho do precariado indo pro brejo eletrônico
Well then what can a poor boy do
Except to sing for a rock 'n' roll band
Serra da Cantareira, Horto Florestal, domingueira subalterna
Operário dormindo no vagão, 19 horas em ponto/
Pichação no monumento das Bandeiras: – Empurra que vai!
Movimento CON CRE TO / OB SO LET'S GO
Reconhecimento de gêmeos grafiteiros globalizados
London Calling... motoboys em ação, zig-zag... movimento abstrato desenha o nada consta no poupatempo
Cada um por sí e Deus contra!
Cadê o chá das 5 do Mappin?
e a Barão de ItaTapeteNinja? – Quero um calçado de cromo alemão! E um terno da Erontex, num vai?
Uma anta no vale do Anhangabaú pergunta por Macunaíma...
– Cadê o coração dos outros?
No Cinema da boca do lixo, o Bandido da luz vermelha come um churrasco grego/ É O grande momento de São Paulo S.A
Onde antigamente tinha erva-mate e hoje corre um rio sufocado que passa
pelo Buraco do Adhemar!
Viaduto Santa Efigênia dourado? São Bento corado? Angelus e o sino tocando. O papa benze benhê, a Virgem levita. Bora pro curso noturno. Num dorme não rapaz!
Meio dia, macacada! Uma hora para o almoço, cartão de ponto... se chega atrasado o relógio do seu Dimas desconta seu ponto, no holerite vem o desconto
Mário, arrebenta tua lira! Arlequinal, arlequinal... escarra no Minhocão tua última quimera
Desvia as águas espraiadas para o Tietê, marginal!
Paca, tatu, cotia não... Paca, tatu, cotia não!
Contempla as pontes estaiadas às dúzias
Perderam o corpo do meu nonno Gaetano na revolução de 32!
Punks e Emos fora de lugar, Tarsila cadê meu "Estadão"?
Tá com o Lobato lá no Sítio!
Estatuto do coração, Raízes do Brasil, Rua Cuba, anime, mangá
– Mano me dá uma mano, che!
Bolivianos costuram o bom e o mau retiro
Guevara se perdeu na mata hermano, ahora ninguém é de ninguém na vida todo passa
Orientais ali habitaram – gentrificaram. A verdade está lá fora
O Torá, onde está, amici miei?...
Lá sei eu! Eu não sou daqui, marinheiro só, tô de passagem "brimo"
Espanca o cara meus! Mói os ossos do tapuia , depois joga no Museu do Ipiranga,
Muita higiene social
Proclama a independência! /
Faz uma tatuagem
E o perito que não chega!
Arigatô, Sharihotsu!
Cidade provisória, casas de pedra só em Santos!
Tudo a ver na Sloper, Dalsu, Fashion Week, Bienal, Vão Central Anhembi, Galerias, Shopping Centers/
Rua Alasca? Ê lasquera!
– Nada vejo, a não ser a neblina, vou bater o côco...
Crack!
Boa Vista, Largo São Francisco, Ladeira da Memória
Cidade fantasmagórica, lume móbile na cracolândia
Teatro Municipal leva aquela ópera que você gosta, oh Core 'ngrato! Que barafunda na Barra Funda!
O tenor canta a soprano...o rei da vela pede smoke
Arquitetura em delírio tropical...Copam e Morumbi,
FAU, Masp, cadeiras de Lina Bo na fábrica da Pompeia
Ladrões de Picasso e Portinari correm para o Embu, afinal é das Artes
E eu com isso, Embu Guaçú!?
Pizzas e sábados todos iguais... Padaria cheia com roleta russa
Casa Verde , Mandaqui, manda ali... Mercadão, mortadela!
Me dá um bauru, mas sem picles!
E aqueles ojos verdes? Eu os comeria "a vinagrete".
Chaminé sozinha em Santana observa um templo sectário
Que mais parece um hangar interplanetário
fiéis às pencas desfilam suas crenças
Enquanto padre en-canta na TV
Mooca imortal do "moleque travesso", rua dos Italianos...
Vila Galvão, Trem das Onze/ Arnesto nos convidou prum samba, ele mora no Brás/
Nóis fumo e não encontremo ninguém...
O Bexiga canta numa cantina aquela cançoneta Funiculi Funicula
Pão quentinho, inigualável, macarronada da mamma
Homenagem aos mortos do massacre da Armênia ao lado do Tamanduá-teí
Baladas, xavecos, playboys, hiphop...
Garotas programadas na Augusta exageram os corpos por baixo do cetim e o movimento perpétuo dos seus lambris convidam o solitário para uma aventura paga em dólares
Na Aurora, sonolentas mariposas sacodem suas asas na luz vermelha dos inferninhos,
Eu as vi de manhã, bolsinhas no ombro, olheiras de uma longa noite e eu a caminho do meu longo dia
– Manda um "Fogo Paulista" goela abaixo e esquece...
Meu pai remando no Tietê. Sai daí, ô véio!
Na Ponte das Bandeiras nós vamos pegar um peixe!
Me paga um rabo-de-galo?
Um fantasma exibicionista abre o casaco em frente ao Dante, melhor seria no Belas Artes
Nos subterrâneos da Consolação o Primo Basílio conversa com Elias Canetti , noutro lado da rua no Riviera, o desbunde come solto
Enquanto na Baixada do Glicério, no Paulistano da Glória homens negros elegantes esquentam os tamborins, Vinicius se engana redonda-mente - o samba ainda pulsa
Liberdade e Paraíso viraram estações, meu Deus, onde está a Sé nisso tudo?
Marco Zero da civilização! Capital monopolista, pirâmide da indústria, topo panóptico da América Latina!
Borba Gato tá se achando!
Cidade sem outdoors... tem cimento no meu capuccino!
Helicópteros levam a nova classe
por cima dos edifícios e antenas
captam o som da nova era: Não é o Som de Cristal. – Esse "já era!" – Qual a cotação da Bolsa de Valores, Mr. J R ? Te liga no Mercado Futuro, tá ligado?
Ruído... – Desce um Pignatari!...Com gelo ou caubói?
– Me serve um "Baião de dois"!...
Artigo do professor da USP explica o nacional-popular
A Gazeta é esportiva... escadarias/ Cásper Líbero
Ao fundo ouço um gol... – Foi do Curintia ou do Parmera?... – Foi do Sumpaulo?
– Não, foi do Juventus... da rua Bariri. Você se alembra? É rua Javari, seu stronzo!
A mardita pinga que me atrapaia/
Veloz passa a noite e um novo sol nascerá violeta
não atrás de uma nuvem cigana,
Milhões de carros como gafanhotos virão para o apocalipse diário do ABC
E novos baianos te curtirão numa boa/
Na Vila Madalena...
...A espanhola perdeu o gato, seo Rubinato!
Praça da Res-púbica abrigava patinhos
Ma che cazzo de mania essa de pato, bambini?
A do Patriarca é dos patrões... fascismus architetonicus no Anhanga-baú da felicidade
Cavo e no fundo do quintal, acho um cachorro morto,
É um lobo? Não pazzo, seu pai enterrou o pobre e jogou no bicho/
E esse livro do Engels embaixo das tábuas do assoalho? Isso é conto da carochinha...Vire a página! – Quem hoje quer saber a história da Família e da Propriedade Privada? Sem essa...
Esqueci de chorar nos ladrilhos da rua Barão de Limeira
Lá passei minha adolescência. Quando fiz 18 anos me mandei pra São Miguel Paulista...
Fui ser químico, zio Vincenzino... encher de mata-baratas latas de aerosol. Mas isso foi em Santo Amaro... fazia um frrrrio!!! Como tem santo nessa terra de Piratininga!
– Matou alguma barata figlio mio? – Necas, mas nunca mais peguei pulga. Kafka aqui não ia se dar bem. – Ciao bambino, ciao...
Onde é a saída, tiozinho?
– Pega a marginal Pinheiros e dobra à direita, sempre à direita...
– Me espere! Que um dia eu não volto, Voltolino!...
(Escrito em 31/5/2008 e reescrito em 2018)
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Homenagem,
Ilustração,
texto
23.11.17
35 anos sem Adoniran Barbosa / caricatura dele
Do fundo do baú " (Vale a pena ver de novo) : Ao assistir, agora pouco o programa "Tabelinha" do querido amigo Claudio Arreguy e do Trajano fiquei sabendo que hoje faz 35 que Adoniran Barbosa partiu para o andar de cima.
E o trem das onze, incrivelmente, passa todo dia pelo mesmo local na nossa imaginação e saudade.
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)
E o trem das onze, incrivelmente, passa todo dia pelo mesmo local na nossa imaginação e saudade.
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Adoniran Barbosa,
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14.11.17
Meu amigo o escritor (e grande desenhista) Jorge Lescano fez a travessia
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)
Hoje foi um dia imensamente triste. O dia em que fiquei sabendo da morte de um querido amigo. Um amigo que conheci no final dos anos 60 do século passado.
Soube hoje que Jorge Lescano terminou de fazer sua travessia no dia 6 de maio de 2017.
Essa vida corrida e cruel nos distancia dos amigos. E quando menos se espera, vem aquela notícia que te deixa sem norte, procurando um sentido nisso tudo. Você perdeu um amigo.
Até hoje de manhã, para mim ele estava vivo, e como sempre pensando as grandes e pequenas questões da estética, da narrativa, e escrevendo seus contos e novelas que funcionavam como textos criptografados, enigmas para serem decifrados num momento de grande lucidez da humanidade...Pensava nele lá em seu apartamento no edifício Copan, no meio de seus livros e desenhos... Não faz muito tempo (ou faz) ele me enviou seu último livro, que tenho aqui na estante e estava para ler e fiquei devendo uma resenha...
Ele, grande artista que não gostava de aparecer e por isso não botava sua fotografia na orelha de seus livros. Gostaria de publicar o seu retrato, não sei se seria uma traição...por enquanto publico as capas de seus livros, que é o que ele mais curtia...
Confesso, que tomado pela emoção fiquei paralisado até agora, não encontrando palavras para falar de sua falta.
Preferi então, "repostar" aqui o texto que fiz sobre um de seus livros.
Vou também solicitar à sua ex-companheira que me autorize a usar fotos que ela postou em seu blog, numa linda homenagem que fez a ele. Vale a pena ler seu texto delicado e emocionante. Aqui vai o link: http://www.recantodasletras.com.br/homenagens/6114918
Agora o meu texto que fala um pouco do amigo e autor Jorge Lescano e de seu livro "O traidor de Dublin"publicado em 9 de novembro de 2013.
O traidor de Dublin está na praça
(NR: Este é um texto que será corrigido - escrevi ao sabor da emoção de reencontrar um amigo e sua escrita - sem respirar, com uma pontuação claudicante cometi essa croniqueta)
Um novo livro misterioso e raro acaba de chegar às livrarias. Seu título já é um enigma Falsificação das didascálias do manuscrito d'O traidor de Dublin segundo o rei, a velha e o poeta de San Pablo City.
Seu autor é Jorge Lescano, um cidadão do mundo que nasceu na Argentina, terra de craques como Messi, Borges, Piglia y otros.
Alguns exemplares desse novo livro podem ser encontrados sites das livrarias Cultura, Martins Fontes e Asabeça. Não vou fazer uma resenha dessa obra, pois recebi o livro agora e ainda não consegui completar sua travessia. Pelo pouco que li, percebo que é uma aventura estética provocadora, um jogo com o prazer da escrita que suscita o prazer da leitura. Só queria escrever algumas linhas sobre seu autor - e nisto estou sendo injusto com Lescano, pois acredito que merecia um texto mais bem escrito, mas espero que ele encare como um depoimento de uma testemunha de seu imenso talento.
Foi entre os anos nebulosos de 1966 e 1967 que conheci o artista argentino Jorge Lescano. Acredito que ele tinha acabado de chegar ao Brasil naquela época e logo emplacou uma exposição na então prestigiada galeria da Folha de S. Paulo. Nela exibiu uma série de desenhos impressionantes, feitos a nanquim utilizando a técnica de bico de pena. Eu era um moleque que trabalhava como contínuo no Depto. de Promoções desse jornal por essa época. Sua exposição durou um bom tempo (que hoje não consigo me lembrar) e confesso que não me cansei de esquadrinhar aqueles desenhos magníficos toda vez que entrava no prédio para mais uma jornada de trabalho.
Tive poucas conversas com o artista em questão naquele tempo, mas percebi que era uma pessoa muito gentil- boa-praça mesmo, apesar de esgrimir uma ironia implacável.
A exposição um dia acabou, e sabe como é a paulicéia desvariada, cada um seguiu seu caminho. Jorge recolheu suas obras, e foi buscar seu destino naquela cidade polifônica. Eu, dentro de meu labirinto fui parar num laboratório de uma grande indústria química de São Miguel Paulista. Tinha que fazer um estágio, necessário para receber o diploma de técnico- químico, que acabei chutando para o alto, pois não entreguei o relatório da minha experiência. E não foi porque me recusei a escrever o tal texto, é que exagerei na dose e o dito cujo ficou imenso, a ponto de me perder nele, e como tinha que trabalhar, depois do estágio, fui me empregar num outro laboratório, este de controle de qualidade de uma fábrica especializada em envasamento de aerosol . Lá se envasava de tudo: inseticidas, perfumes, tintas, cosméticos, remédios, desodorantes etc. Resumindo: acabei ficando com um certificado de conclusão equivalente ao curso colegial considerado "científico" nessa época pois fornecia formação em exatas (existia o ramo chamado de clássico voltado para humanidades). Nesse tempo eu alimentava a ilusão um dia terminar o relatório e obter meu diploma de químico. Mas num fim de uma certa tarde, num momento em que saí do laboratório para fumar, me encantei com o refugo que jazia nos fundos da fábrica - era um lixo colorido e luminoso, que bateu na minha cabeça como uma metáfora do fim da nossa civilização técnico-científica.O tropicalismo estava em cartaz… Em vez de terminar o relatório, comecei a escrever uma peça de teatro anárquica, na qual um grande cientista se recusa a fornecer o código de um descobrimento fundamental, que serviria para destruir a humanidade. Foi aí que desisti daquela profissão de "químico cheiroso", e acho que com essa atitude salvei minha vida, pois sempre fui um alérgico de carteirinha e sofria por trabalhar num ambiente onde conviviam os mais variados odores. Aquela mistura de cheiros de inseticidas (mata-barbeiro , mata berne, mata-barata, e mata outros insetos e bichos escrotos) perfumes baratos, remédios para asma, aromatizardes de ambiente, tudo aquilo estava penetrando pelos meus poros, tomando conta dos meus pulmões, fazendo com que eu me transformasse num sujeito movido a espirros… Para desespero da minha família resolvi sair daquele mundo industrial e levado por um livro de Talcott Parsons (que ironia!), acabei desembocando num cursinho vestibular. Lá, com auxílio luxuoso de uns amigos, cai dentro de um curso de Sociologia, no auge da ditadura, e por tabela fui trabalhar numa fundação que operava em favelas e bairros operários … Acho que é bom parar de relatar essa minha história.
Na verdade esses detalhes não importam, e sim, que um belo dia, perto do final dos anos 70, tornei a encontrar com Lescano, mas não me lembro bem das circunstâncias. Recordo que chegamos até a trabalhar juntos como "especialistas em comunicação" nessa fundação, mas isso não durou muito e nossa dupla criativa logo se defez. Nesse meio tempo eu casei, comecei a publicar ilustrações na chamada imprensa alternativa, sofri um acidente numa mini-moto e acabei saltando fora de Sampa.
Junto com minha primeira mulher que carregava um filho para nascer fui morar no Rio de Janeiro. Consegui, depois de muita luta entrar para o Jornal do Brasil e fiquei na redação por uns 30 anos e fumaça desenhando, escrevendo e aprendendo…um tempo do qual não me arrependo.
Lembro que logo nos início do ano de 1977 Lescano e sua esposa estiveram hospedados na minha casa numa visita ao Rio para conhecer as belezas dessa cidade. Chegamos a esboçar uma visita a uma escola de samba, mas nos perdemos no meio do caminho...
Nas minhas voltas aos campos de Piratininga para visitar minha família, que insistia em permanecer contemplando a solidez do Tietê, de vez em quando mantinha contato com meu amigo artista. Por essa época Lescano tinha bolado uma oficina de criação de texto - o que me surpreendeu. Ensinava jovens talentos a penetrar na atmosfera da escrita. Mais tarde publicou um livro de contos pela editora Ática, que tinha por título Amanhã São Péron (1978). Soube agora que em 1983, publicou Os quitutes de Luanda, pela editora Criar de Curitiba…..
O tempo passou e ele continuou sua tarefa de mestre, agora ensinando Teoria do Teatro. Para minha surpresa, por meio da internet conseguimos nos reencontrar (acho que ele me achou nesse blog), e hoje recebi seu livro O traidor de Dublin…que mais posso dizer? É um novo reencontro com o talento desse amigo que tece labirintos e enigmas textuais. Jorge é um talento múltiplo, dono de uma bagagem intelectual imensa e invejável que a universidade até agora perdeu. Era para estar dentro de um departamento de alguma faculdade de comunicação, letras, teatro ou artes cênicas organizando cursos, transmitindo seu conhecimento e beneficiando as novas gerações com sua criatividade. Vou parar por aqui, volto ao livro de Lescano,Dublin me espera.
***
Para finalizar publico outro texto - esse pequeno que fala de outros livros de Lescano.(publicado no dia 26 de setembro de 2016)
Jorge Lescano reside no Brasil desde 1969. Escreve em português, mas sua formação é argentina. Seus relatos, escritos nas últimas quatro décadas, são breves e abordam temas variados, quase sempre sob uma visão cultural. Os motivos vão da pintura ao futebol, passando pela literatura, política, teatro, etc.
Publicou: Amanhãs São Perón (contos); SP, Ática, 1978; Os quitutes de Luanda (infantil, Curitiba, Criar, 1983 (Premiado pela Biblioteca Internacional da Juventude/Munique – Alemanha).
Publicou recentemente:O traidor de Dublin; Gol! e Diálogo do Rei e o Réu.
Os dois primeiros de relatos, o terceiro um romancete; (prefere este neologismo ao termo novela, sempre identificado com a TV).
No próximo sábado 1º. de outubro, Lescano estará lançando estes três livros na base do Pague se e quanto quiser, na TAPERA TAPERÁ, Galeria Metrópole (Atrás da Biblioteca Mário de Andrade); Av. São Luiz 187, 2º andar. São Paulo.
Horário: das15h às 18h.
Todo mundo lá!
Hasta siempre, grande amigo!
Viva Jorge Lescano!
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9.11.17
Caricatura em homenagem a Torquato Neto
Do fundo do baú: (Vale a pena ver de novo) Hoje é o dia dele - Torquato Neto, nasceu no dia 9 de novembro de 1944.
O poeta que desfolhou a bandeira e entendeu a geleia geral brasileira! Viva Torquato Neto!
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)
O poeta que desfolhou a bandeira e entendeu a geleia geral brasileira! Viva Torquato Neto!
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8.11.17
Viva Aldemir Martins!!!
Hoje é dia dele: Aldemir Martins, um dos maiores artistas gráficos-plásticos brasileiros.
Nasceu no dia 8 de novembro de 1922 e não morreu nunca.
É um dos meus mestres preferidos.
Ilustração (desenho em bico de pena, assinado, com a data de 1963) retirada das páginas de uma das obras-primas de Graciliano Ramos - "Vidas Secas".
(Editora Record - edição de 1978 das obras completas desse autor - em capa dura).
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)
Nasceu no dia 8 de novembro de 1922 e não morreu nunca.
É um dos meus mestres preferidos.
Ilustração (desenho em bico de pena, assinado, com a data de 1963) retirada das páginas de uma das obras-primas de Graciliano Ramos - "Vidas Secas".
(Editora Record - edição de 1978 das obras completas desse autor - em capa dura).
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7.11.17
Homenagem a Ary Barroso - caricatura
Do fundo do baú: (vale a pena ver de novo)
Caricatura de Ary Barroso. Hoje é dia do aniversário dele - nasceu no dia 7 de novembro de 1903, em Ubá (MG).
Hoje também é dia do radialista. Aumenta o volume e toca o barco (ou a gaitinha).
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)
Caricatura de Ary Barroso. Hoje é dia do aniversário dele - nasceu no dia 7 de novembro de 1903, em Ubá (MG).
Hoje também é dia do radialista. Aumenta o volume e toca o barco (ou a gaitinha).
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1.11.17
A celebração do gênio musical - Pixinguinha
(clique na imagem para ampliar e VER melhor)
Brasil festeja os 100 anos da obra prima Carinhoso e os 120 anos de Pixinguinha
Texto de Jorge Sanglard
(Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil)
Os 120 anos de Alfredo da Rocha Viana Filho (23/4/1897 Rio de Janeiro, RJ - 17/2/1973 Rio de Janeiro, RJ), o genial Pixinguinha, estão sendo celebrados, desde 23 de abril de 2017, e revelam o amor e o reconhecimento dos brasileiros pelo mestre do choro e da MPB. E o 23 de abril se transformou não só no dia de São Jorge, mas no Dia Nacional do Choro, para reverenciar o aniversário de Pixinguinha. Assim, mesmo tendo sido registrado em outra data, 4 de maio, como se descobriu há pouco tempo, o músico tem sua biografia ligada definitivamente ao 23 de abril. E, em 2017, comemora-se ainda os 100 anos de "Carinhoso", obra prima de sua autoria, criada em 1917, e que ganhou letra, em 1937, de Braguinha (Carlos Alberto Ferreira Braga, o João de Barro, Rio de Janeiro, 29 de março de 1907 - Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 2006).
O acervo pessoal do compositor, instrumentista, arranjador e maestro encontra-se sob a guarda do Instituto Moreira Salles (IMS) e, desde 2000, os documentos pessoais, medalhas, troféus, álbuns com recortes de jornal, centenas de fotos, roupas, registros de memória oral realizados por seu filho Alfredo da Rocha Vianna Neto, o Alfredinho, a flauta tocada durante décadas pelo músico e um lote de aproximadamente mil conjuntos de partituras com arranjos feitos por Pixinguinha ao longo da vida estão sendo digitalizadas, catalogadas e estão sendo consultadas e estudadas por músicos de todo o país e de fora. E esse resgate da criatividade de Pixinguinha é o maior tributo que se pode prestar ao seu talento musical.
O IMS, em parceria com o Hacklab, também homenageou o músico com a criação do site pixinguinha.com.br, reunindo e disponibilizando todo o acervo, sob a coordenação da pesquisadora Bia Paes Leme, que articulou junto com o pesquisador Pedro Aragão e o pesquisador e biógrafo de Pixinguinha, José Silas Xavier, a realização do primeiro catálogo crítico de obras de Pixinguinha, abrangendo 515 verbetes, onde se destacam cerca de 300 ou 400 músicas do autor, incluindo 45 preciosidades musicais ainda inéditas.
Portanto, ao celebrar o centenário de Carinhoso e os 120 anos do mestre Pixinguinha, o país reafirma a importância de um de seus mais influentes músicos do século XX e que, em pleno início de século XXI, permanece como uma das referências maiores da Música Popular Brasileira. A criatividade do arranjador, compositor, instrumentista e maestro só encontra paralelo em outros dois gigantes da nossa música: Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959) e Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994). Nunca é demais salientar que Villa-Lobos, Tom Jobim e Pixinguinha se constituíram na Santíssima Trindade da Música Popular Brasileira, e abriram perspectivas musicais para além de seu tempo ao criarem, cada um a seu modo, uma obra musical inventiva e inspirada nas coisas do Brasil.
A Santíssima Trindade da MPB
Assim, Villa-Lobos, Tom Jobim e Pixinguinha estão para a MPB como Dizzy Gillespie, Miles Davis e Charlie Parker estão para o Jazz, como a Santíssima Trindade do Bebop. Dizzy Gillespie, Miles Davis e Charlie ‘Bird’ Parker encarnaram o Pai, o Filho e o Espírito Santo no bebop, uma verdadeira revolução que lançou as bases do jazz moderno. A linguagem do jazz, a partir do bebop, entre 1944 e 1949, foi alterada radicalmente seja melódica, seja rítmica e harmonicamente, determinando uma ruptura com o tradicional. O jazz, com o bebop, passou a ser arte e não mero divertimento. Ao contrário do swing, o bebop não servia para dançar, daí sua pouca penetração popular, e mesmo músicos em ascensão, como Bird, Dizzy e Miles, eram atingidos pelo preconceito contra a música negra. No Brasil, ao longo do século XX, Villa-Lobos, Tom Jobim e Pixinguinha se projetaram como o Pai, o Filho e o Espírito Santo da MPB, a nossa Santíssima Trindade da MPB, que injetou sangue novo expandiu horizontes, além de conquistar prestígio e respeito mundo afora.
O pesquisador e biógrafo de Pixinguinha, José Silas Xavier, ressalta que Pixinguinha foi um flautista incomparável e mereceu de Mário de Andrade a inclusão de seu nome entre as maravilhas da flauta brasileira. E, Sérgio Cabral, o pai, crítico respeitado e também biógrafo de Pixinguinha, além de autor do livro "Pixinguinha / Vida e Obra" (Editora Lumiar), enfatiza que o músico foi o maior flautista brasileiro de todos os tempos, opinião compartilhada por José Silas Xavier, mesmo considerando a grandeza de Patápio Silva (1880 - 1907), que pode ser constatada nos velhos discos da Casa Edison, ou a grandeza de Joaquim Antônio da Silva Callado Júnior (1848-1880), considerado por muitos como o “pai dos chorões”. Callado não deixou gravações, mas segundo Silas Xavier, deixoua fama de exímio flautista em depoimento dos que o ouviram.
E Silas Xavier destaca que, nos anos 1940, por motivos não muito claros, Pixinguinha trocou a flauta pelo saxofone e não foi menos genial. Quem tiver a oportunidade de ouvir as gravações de Pixinguinha com o flautista Benedito Lacerda poderá comprovar a beleza dos seus contrapontos, verdadeiras obras primas da utilização do contraponto na música popular, sempre criativo e nunca óbvio. Villa-Lobos adorava esses contrapontos e Basílio Itiberê dizia que os aprendera com Bach e Pixinguinha.
Ainda segundo José Silas Xavier, o Pixinguinha maestro teve papel de extraordinária importância, bastando lembrar sua participação à frente dos 8 Batutas em 1919, da Orquestra Típica Pixinguinha / Donga no final dos anos 1920, do grupo da Guarda Velha e dos Diabos do Céu - orquestras criadas por ele nos anos 1930 para gravações da Victor, onde era regente - e do Grupo da Velha Guarda na década de 1950, "num abençoado momento de redescoberta da Música Popular Brasileira mais tradicional em festivais, shows e gravações na extinta Sinter", como escreveu o pesquisador e crítico João Máximo.
A presença de Pixinguinha como orquestrador é marcante, segundo aponta Silas Xavier, seja nos deliciosos arranjos para marchinhas carnavalescas ou juninas, ou para as polcas e maxixes da Velha Guarda. Sua importância como orquestrador cresce à medida em que se sabe ter sido ele um dos pioneiros em fazer arranjos para músicas nossas e o responsável pela implantação de uma linguagem instrumental caracteristicamente brasileira, como acentuou o maestro Júlio Medaglia.
Para Silas Xavier, o compositor Pixinguinha pode ser ouvido em inúmeros lançamentos após a morte do mestre da MPB. Apesar de não ser muito extensa, sua obra é de cerca de 300 composições conhecidas e mais umas 100 inéditas. Autor de valsas, polcas, maxixes, sambas e tudo o mais, é nos choros que se pode melhor apreciar sua genialidade. "Carinhoso", que completa 100 anos de sua criação, "Ingênuo", "Vou Vivendo", "Cinco Companheiros", "Naquele Tempo", "Lamento" e "Sofres Porque Queres", na opinião do pesquisador Silas Xavier, são exemplos de sua grandeza como compositor.
Nascido em berço musical
Pixinguinha nasceu no bairro da Piedade, no Rio de Janeiro, e foi criado num ambiente musical. Seu pai era flautista e gostava de reunir músicos em sua casa para tocar. Nessas reuniões, revela José Silas Xavier, tocava-se quadrilha, polca, valsa, xótis ou mazurca, já que a palavra choro não expressava ainda, no início do século XX, a categoria de gênero musical. Por essa época, choro era a denominação dada aos pequenos conjuntos de música popular que executavam aquele gênero "chorado", plangente, normalmente constituído de flauta, violão e cavaquinho (terno), formação que foi se ampliando ao longo do tempo pela incorporação de outros instrumentos. O choro, enfim, segundo José Silas Xavier, era a maneira brasileira de tocar os importados gêneros musicais dançantes da época.
"Nascido na década de 1870 nas biroscas da Cidade Nova e nos quintais dos subúrbios do Rio de Janeiro, o choro tinha como componentes, no geral, funcionários dos Correios e Telégrafos, da Estrada de Ferro Central do Brasil, da Imprensa Nacional e da Alfândega, que se reuniam por puro lazer domingueiro e pelo prazer de fazer música", como ensinou o musicólogo, historiador, pesquisador e violinista Mozart de Araújo (1904 - 1988), autoridade no assunto. E entre os chorões que frequentavam a casa de Pixinguinha estava Irineu de Almeida (1863 - 1914), excelente músico, tocador de oficleide, bombardino e trombone, de grande influência em sua formação musical.
A propósito das reuniões na casa de Pixinguinha, o músico declararia em depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro: "Eu menorzinho, ficava apreciando... gostava de música. Por volta de 20 ou 21 horas, meu pai dizia: menino vai dormir. E eu ia para o quarto. Mas não dormia, não. Ficava ouvindo aqueles chorinhos que eu gostava tanto". No depoimento ao MIS, Pixinguinha ainda arrematou a questão: "Na época eu já tinha uma flauta de folha. No dia seguinte, executava os chorinhos que tinha aprendido na véspera, de ouvido". O pesquisador e biógrafo José Silas Xavier afirma que esse ambiente de casa interferiu decisivamente na formação musical de Pixinguinha e seus irmãos, e se reflete nos seus choros maravilhosos e inventivos.
Pixinguinha vivenciou no Rio de Janeiro, ao lado de Donga (05/04/1890 - 25/08/1974) e de João da Baiana (17/05/1887 - 12/01/1974) , a criação do samba e da base musical para o se convencionou chamar de MPB e, lançando mão da inventividade e da inspiração, articulou com precisão a simplicidade e a sofisticação, criando uma música inovadora, com destaque para a valorização da riqueza melódica. A essência afro-brasileira impregnou a obra de Pixinguinha e sua trajetória como um dos mestres da música popular brasileira é uma fonte de inspiração de intensidade ilimitada.
Villa-Lobos, perguntado num workshop na França sobre onde estudou, respondeu: "Na Universidade de Cascadura". E, de pronto, veio nova pergunta sobre quem foram seus mestres. Após um silêncio, o maestro, arranjador, compositor e instrumentista respondeu sério: " Pixinguinha, Donga, Sátiro Bilhar".
E o mestre da arte brasileira, Di Cavalcanti, não fez por menos ao declarar poeticamente: "Terra carioca / Senhora e dançarina / Do norte ao sul, sempre embalada em sonhos / Ouvindo o carinhoso e amável canto / do Rei da flauta e do saxofone / Meu irmão em São Jorge / Meu irmão Pixinguinha".
Brasil festeja os 100 anos da obra prima Carinhoso e os 120 anos de Pixinguinha
Texto de Jorge Sanglard
(Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil)
Os 120 anos de Alfredo da Rocha Viana Filho (23/4/1897 Rio de Janeiro, RJ - 17/2/1973 Rio de Janeiro, RJ), o genial Pixinguinha, estão sendo celebrados, desde 23 de abril de 2017, e revelam o amor e o reconhecimento dos brasileiros pelo mestre do choro e da MPB. E o 23 de abril se transformou não só no dia de São Jorge, mas no Dia Nacional do Choro, para reverenciar o aniversário de Pixinguinha. Assim, mesmo tendo sido registrado em outra data, 4 de maio, como se descobriu há pouco tempo, o músico tem sua biografia ligada definitivamente ao 23 de abril. E, em 2017, comemora-se ainda os 100 anos de "Carinhoso", obra prima de sua autoria, criada em 1917, e que ganhou letra, em 1937, de Braguinha (Carlos Alberto Ferreira Braga, o João de Barro, Rio de Janeiro, 29 de março de 1907 - Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 2006).
O acervo pessoal do compositor, instrumentista, arranjador e maestro encontra-se sob a guarda do Instituto Moreira Salles (IMS) e, desde 2000, os documentos pessoais, medalhas, troféus, álbuns com recortes de jornal, centenas de fotos, roupas, registros de memória oral realizados por seu filho Alfredo da Rocha Vianna Neto, o Alfredinho, a flauta tocada durante décadas pelo músico e um lote de aproximadamente mil conjuntos de partituras com arranjos feitos por Pixinguinha ao longo da vida estão sendo digitalizadas, catalogadas e estão sendo consultadas e estudadas por músicos de todo o país e de fora. E esse resgate da criatividade de Pixinguinha é o maior tributo que se pode prestar ao seu talento musical.
O IMS, em parceria com o Hacklab, também homenageou o músico com a criação do site pixinguinha.com.br, reunindo e disponibilizando todo o acervo, sob a coordenação da pesquisadora Bia Paes Leme, que articulou junto com o pesquisador Pedro Aragão e o pesquisador e biógrafo de Pixinguinha, José Silas Xavier, a realização do primeiro catálogo crítico de obras de Pixinguinha, abrangendo 515 verbetes, onde se destacam cerca de 300 ou 400 músicas do autor, incluindo 45 preciosidades musicais ainda inéditas.
Portanto, ao celebrar o centenário de Carinhoso e os 120 anos do mestre Pixinguinha, o país reafirma a importância de um de seus mais influentes músicos do século XX e que, em pleno início de século XXI, permanece como uma das referências maiores da Música Popular Brasileira. A criatividade do arranjador, compositor, instrumentista e maestro só encontra paralelo em outros dois gigantes da nossa música: Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959) e Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994). Nunca é demais salientar que Villa-Lobos, Tom Jobim e Pixinguinha se constituíram na Santíssima Trindade da Música Popular Brasileira, e abriram perspectivas musicais para além de seu tempo ao criarem, cada um a seu modo, uma obra musical inventiva e inspirada nas coisas do Brasil.
A Santíssima Trindade da MPB
Assim, Villa-Lobos, Tom Jobim e Pixinguinha estão para a MPB como Dizzy Gillespie, Miles Davis e Charlie Parker estão para o Jazz, como a Santíssima Trindade do Bebop. Dizzy Gillespie, Miles Davis e Charlie ‘Bird’ Parker encarnaram o Pai, o Filho e o Espírito Santo no bebop, uma verdadeira revolução que lançou as bases do jazz moderno. A linguagem do jazz, a partir do bebop, entre 1944 e 1949, foi alterada radicalmente seja melódica, seja rítmica e harmonicamente, determinando uma ruptura com o tradicional. O jazz, com o bebop, passou a ser arte e não mero divertimento. Ao contrário do swing, o bebop não servia para dançar, daí sua pouca penetração popular, e mesmo músicos em ascensão, como Bird, Dizzy e Miles, eram atingidos pelo preconceito contra a música negra. No Brasil, ao longo do século XX, Villa-Lobos, Tom Jobim e Pixinguinha se projetaram como o Pai, o Filho e o Espírito Santo da MPB, a nossa Santíssima Trindade da MPB, que injetou sangue novo expandiu horizontes, além de conquistar prestígio e respeito mundo afora.
O pesquisador e biógrafo de Pixinguinha, José Silas Xavier, ressalta que Pixinguinha foi um flautista incomparável e mereceu de Mário de Andrade a inclusão de seu nome entre as maravilhas da flauta brasileira. E, Sérgio Cabral, o pai, crítico respeitado e também biógrafo de Pixinguinha, além de autor do livro "Pixinguinha / Vida e Obra" (Editora Lumiar), enfatiza que o músico foi o maior flautista brasileiro de todos os tempos, opinião compartilhada por José Silas Xavier, mesmo considerando a grandeza de Patápio Silva (1880 - 1907), que pode ser constatada nos velhos discos da Casa Edison, ou a grandeza de Joaquim Antônio da Silva Callado Júnior (1848-1880), considerado por muitos como o “pai dos chorões”. Callado não deixou gravações, mas segundo Silas Xavier, deixoua fama de exímio flautista em depoimento dos que o ouviram.
E Silas Xavier destaca que, nos anos 1940, por motivos não muito claros, Pixinguinha trocou a flauta pelo saxofone e não foi menos genial. Quem tiver a oportunidade de ouvir as gravações de Pixinguinha com o flautista Benedito Lacerda poderá comprovar a beleza dos seus contrapontos, verdadeiras obras primas da utilização do contraponto na música popular, sempre criativo e nunca óbvio. Villa-Lobos adorava esses contrapontos e Basílio Itiberê dizia que os aprendera com Bach e Pixinguinha.
Ainda segundo José Silas Xavier, o Pixinguinha maestro teve papel de extraordinária importância, bastando lembrar sua participação à frente dos 8 Batutas em 1919, da Orquestra Típica Pixinguinha / Donga no final dos anos 1920, do grupo da Guarda Velha e dos Diabos do Céu - orquestras criadas por ele nos anos 1930 para gravações da Victor, onde era regente - e do Grupo da Velha Guarda na década de 1950, "num abençoado momento de redescoberta da Música Popular Brasileira mais tradicional em festivais, shows e gravações na extinta Sinter", como escreveu o pesquisador e crítico João Máximo.
A presença de Pixinguinha como orquestrador é marcante, segundo aponta Silas Xavier, seja nos deliciosos arranjos para marchinhas carnavalescas ou juninas, ou para as polcas e maxixes da Velha Guarda. Sua importância como orquestrador cresce à medida em que se sabe ter sido ele um dos pioneiros em fazer arranjos para músicas nossas e o responsável pela implantação de uma linguagem instrumental caracteristicamente brasileira, como acentuou o maestro Júlio Medaglia.
Para Silas Xavier, o compositor Pixinguinha pode ser ouvido em inúmeros lançamentos após a morte do mestre da MPB. Apesar de não ser muito extensa, sua obra é de cerca de 300 composições conhecidas e mais umas 100 inéditas. Autor de valsas, polcas, maxixes, sambas e tudo o mais, é nos choros que se pode melhor apreciar sua genialidade. "Carinhoso", que completa 100 anos de sua criação, "Ingênuo", "Vou Vivendo", "Cinco Companheiros", "Naquele Tempo", "Lamento" e "Sofres Porque Queres", na opinião do pesquisador Silas Xavier, são exemplos de sua grandeza como compositor.
Nascido em berço musical
Pixinguinha nasceu no bairro da Piedade, no Rio de Janeiro, e foi criado num ambiente musical. Seu pai era flautista e gostava de reunir músicos em sua casa para tocar. Nessas reuniões, revela José Silas Xavier, tocava-se quadrilha, polca, valsa, xótis ou mazurca, já que a palavra choro não expressava ainda, no início do século XX, a categoria de gênero musical. Por essa época, choro era a denominação dada aos pequenos conjuntos de música popular que executavam aquele gênero "chorado", plangente, normalmente constituído de flauta, violão e cavaquinho (terno), formação que foi se ampliando ao longo do tempo pela incorporação de outros instrumentos. O choro, enfim, segundo José Silas Xavier, era a maneira brasileira de tocar os importados gêneros musicais dançantes da época.
"Nascido na década de 1870 nas biroscas da Cidade Nova e nos quintais dos subúrbios do Rio de Janeiro, o choro tinha como componentes, no geral, funcionários dos Correios e Telégrafos, da Estrada de Ferro Central do Brasil, da Imprensa Nacional e da Alfândega, que se reuniam por puro lazer domingueiro e pelo prazer de fazer música", como ensinou o musicólogo, historiador, pesquisador e violinista Mozart de Araújo (1904 - 1988), autoridade no assunto. E entre os chorões que frequentavam a casa de Pixinguinha estava Irineu de Almeida (1863 - 1914), excelente músico, tocador de oficleide, bombardino e trombone, de grande influência em sua formação musical.
A propósito das reuniões na casa de Pixinguinha, o músico declararia em depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro: "Eu menorzinho, ficava apreciando... gostava de música. Por volta de 20 ou 21 horas, meu pai dizia: menino vai dormir. E eu ia para o quarto. Mas não dormia, não. Ficava ouvindo aqueles chorinhos que eu gostava tanto". No depoimento ao MIS, Pixinguinha ainda arrematou a questão: "Na época eu já tinha uma flauta de folha. No dia seguinte, executava os chorinhos que tinha aprendido na véspera, de ouvido". O pesquisador e biógrafo José Silas Xavier afirma que esse ambiente de casa interferiu decisivamente na formação musical de Pixinguinha e seus irmãos, e se reflete nos seus choros maravilhosos e inventivos.
Pixinguinha vivenciou no Rio de Janeiro, ao lado de Donga (05/04/1890 - 25/08/1974) e de João da Baiana (17/05/1887 - 12/01/1974) , a criação do samba e da base musical para o se convencionou chamar de MPB e, lançando mão da inventividade e da inspiração, articulou com precisão a simplicidade e a sofisticação, criando uma música inovadora, com destaque para a valorização da riqueza melódica. A essência afro-brasileira impregnou a obra de Pixinguinha e sua trajetória como um dos mestres da música popular brasileira é uma fonte de inspiração de intensidade ilimitada.
Villa-Lobos, perguntado num workshop na França sobre onde estudou, respondeu: "Na Universidade de Cascadura". E, de pronto, veio nova pergunta sobre quem foram seus mestres. Após um silêncio, o maestro, arranjador, compositor e instrumentista respondeu sério: " Pixinguinha, Donga, Sátiro Bilhar".
E o mestre da arte brasileira, Di Cavalcanti, não fez por menos ao declarar poeticamente: "Terra carioca / Senhora e dançarina / Do norte ao sul, sempre embalada em sonhos / Ouvindo o carinhoso e amável canto / do Rei da flauta e do saxofone / Meu irmão em São Jorge / Meu irmão Pixinguinha".
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31.10.17
Viva Drummond!
Do fundo do baú: Caricatura e ilustração de Carlos Drummond de Andrade.
Hoje sempre será o dia do aniversário dele. Nasceu no dia 31 de outubro de 1902, em Itabira, nas "Minas Geraes".
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Hoje sempre será o dia do aniversário dele. Nasceu no dia 31 de outubro de 1902, em Itabira, nas "Minas Geraes".
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27.10.17
Caricatura de Fats Domino
No dia 24 de outubro (três dias atrás) deste ano faleceu Fats Domino, um do caras que inventou o rock e eu deixei passae batido. Aqui vai minha homenagem tardia. Viva o grande Fats Domino!
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17.10.17
50 anos de TRAVESSIA num texto emocionante de Jorge Sanglard
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Milton Nascimento: “A música caminha comigo como a minha alma”
No palco do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, o jovem cantor, violonista e compositor Milton Nascimento, poucos dias antes de completar 25 anos, nos dias 19 e 21 de outubro de 1967, há 50 anos, não poderia sonhar que, a partir de suas três músicas no II Festival Internacional da Canção – “Travessia”, “Morro Velho” e “Maria, Minha Fé” –, trilharia uma autêntica travessia rumo a uma das mais significativas trajetórias na Música Popular Brasileira da segunda metade do século XX e se projetaria como um dos maiores cantores de seu tempo.
Milton sempre entrou de coração em tudo, desde os tempos de contrabaixista nos bailes de Minas Gerais, passando pelos encontros musicais do Clube da Esquina, pela projeção a partir do segundo lugar no II FIC-1967, até consolidar uma trajetória vitoriosa na Música Popular Brasileira. O cantor e compositor nunca perguntou para onde ia esta estrada, se jogou por inteiro no caminho, seguindo “o brilho cego de paixão e fé, faca amolada”. O importante sempre foi “deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo / deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo / brilhar, brilhar, acontecer, brilhar, faca amolada / irmão, irmã, irmã, irmão de fé, faca amolada”, como em “Nada será como antes”, parceria com Ronaldo Bastos.
Milton nasceu às seis horas da tarde, a “Hora do Angelus”, do dia 26 de outubro de 1942, filho de Maria do Carmo do Nascimento, cozinheira por profissão, que deixou Juiz de Fora, em Minas Gerais, para trabalhar no Rio de Janeiro. A “Hora do Angelus” relembra para os católicos o momento da anunciação, feita pelo anjo Gabriel a Maria, da concepção de Jesus Cristo, como livre do pecado original. O seu nome deriva da frase: “Angelus Domini nuntiavit Mariæ”. Em Juiz de Fora, na Câmara Municipal, Milton recebeu o título de Cidadão Honorário e a Medalha Nelson Silva, em 27 de novembro de 2009. A retribuição é por tudo que Bituca fez pela MPB e por suas raízes encravadas na cidade mineira. Desde a década de 1970, Milton coleciona amizades em Juiz de Fora. Quando o médico e músico Márcio Itaboray lançou o livro "Assuntos de Vento", em 2001, esses laços foram consolidados. Em maio de 2009, durante show no Theatro Central, Milton disse que Juiz de Fora é onde ele tem mais amigos. E no dia da entrega do Título de Cidadão Honorário, ele sintetizou: "Sou de Juiz de Fora desde que nasci".
Bituca – apelido dado pela mãe adotiva Lília Silva Campos –, como era conhecido na família e entre os amigos, depois do segundo lugar na classificação geral e da premiação como melhor intérprete do II FIC-1967, inscreveria o nome Milton Nascimento no primeiro time de compositores e cantores que renovariam a MPB. Os festivais injetavam sangue novo no universo cultural brasileiro e a música ainda era uma das poucas manifestações de expressão popular no Brasil dos primeiros anos da ditadura militar.
Em entrevista exclusiva, em outubro de 1987, marcando os 20 anos da premiação de “Travessia”, durante o lançamento do disco “Yauaretê”, Milton confessaria: “Desde criança, eu sabia que ia mexer com a música. Nunca me enganei, nem minha família, nem nada. Todo mundo já sabia que era música mesmo. Apesar de morar em Três Pontas, que naquela época era longe, a estrada era de terra, sabia que ia sair e ia procurar...Se ia vencer, só Deus sabia, mas eu ia tentar. Acontece que a música caminha comigo como a minha alma. Por isso e pelo fato de cada canção refletir um momento meu, chega nas pessoas com a mesma intensidade que estou querendo botar pra fora, e aí não tem barreira de língua, não tem barreira de chão, não tem nada, em qualquer parte”.
O sucesso de “Travessia”, parceria entre Milton Nascimento e Fernando Brant, no II FIC-1967, projetou Milton como um cometa. Mas a criatividade e a qualidade musical do novo talento transcenderam os limites da passagem de um cometa e o transformaram num feixe de luz permanente a apontar caminhos na Música Popular Brasileira. O próprio Milton já afirmou: “Isso está nas mãos do que se quiser chamar, pode ser Deus, pode ser destino, pode ser o que for”.
Amigo de sempre e parceiro, Márcio Borges, em depoimento exclusivo, descreve a emoção que tomou conta da apresentação de “Travessia”: “De tarde nós saímos do hotel, todos no mesmo ônibus, rumo ao Maracanãzinho. Eu ia sentado ao lado de Toninho Horta, com quem havia classificado a dolorosa canção ‘Correntes’. Mas no ônibus só se falava no Bituca, o cara que havia classificado três canções, uma delas considerada a favorita para ganhar o festival. Senti uma emoção muito grande quando o ônibus ultrapassou os portões que davam direto no fundo do enorme palco. Parecia dia de futebol. As filas já davam volta no estádio e ainda nem era de noite. O ensaio geral foi impressionante. Astros e estrelas da música nacional e internacional circulavam em áreas restritas – e eu lá! Quando caiu a noite, vi o estádio encher-se de gente. Vi as arquibancadas se colorirem de todas as cores e matizes, cabelos, cartazes e bandeiras. Vi chegar a hora de ‘Travessia’. A favorita de todos. Bituca colocou o Maracanãzinho de pé e foi classificado. ‘Correntes’ ficou de fora. Fomos torcer pelo Bituca e pelo Fernando, que surpreendentemente, e contra todas as emoções presentes, inclusive a do vencedor Guarabyra, conseguiram apenas um segundo lugar. Na reapresentação da música, vencedora moral e imortal, o apresentador Hilton Gomes chamou os nomes de Milton Nascimento e Fernando Brant e eles saíram de perto de nós para voltarem ao palco. Eu e Gonzaguinha corremos atrás deles e nos sentamos no limite extremo entre a coxia e o palco, bem aos pés dos nossos amigos. Sei que quando vimos e ouvimos o Maracanãzinho cantar com os dois e soltar a voz nas estradas, não conseguimos conter a emoção. Eu e Gonzaguinha nos abraçamos e deixamos nossas lágrimas correrem soltas, molhando os ombros um do outro. Quarenta anos se passaram desde aquela noite. Mas aquelas lágrimas serão para sempre”.
Trajetória de sucesso
A trajetória do cantor e compositor mineiro mais carioca que existe – Milton nasceu no Rio de Janeiro e foi criado em Três Pontas – é contada em detalhes na biografia “Travessia – A vida de Milton Nascimento” (Record), da jornalista mineira Maria Dolores, nascida em Belo Horizonte e criada também em Três Pontas. O livro, que está na segunda edição, é um mergulho na vida e na música de Milton e revela aqui e ali detalhes da consolidação do mestre do Clube da Esquina como um ícone da MPB.
Em depoimento exclusivo, Maria Dolores fala do livro, para dizer sobre Milton: “Essa biografia começou como projeto de conclusão do meu curso de Comunicação Social - Jornalismo, na Universidade Federal de Minas Gerais, em 2003. Eu queria fazer um livro reportagem de algo relacionado a Três Pontas, cidade onde cresci. Entre os temas mais interessantes – a cafeicultura, o Padre Victor (um padre negro milagreiro) e o Milton Nascimento – preferi fazer sobre o Milton. A idéia era contar a vida dele na cidade. Aproveitei um dia que ele estava em Três Pontas, criei coragem, e fui atrás dele. Disse que ia fazer o trabalho e pedi uma entrevista. Ele aceitou fazer. Uns quatro meses depois fui fazer a entrevista e aí eu já tinha realizado uma pesquisa sobre ele, e descoberto que não havia quase nenhum material biográfico do Milton, a não ser essas biografias resumidas de sites, revistas, etc.. O que tinha de mais completo era o livro do Márcio Borges, ‘Os sonhos não envelhecem – histórias do Clube da Esquina’, que é ótimo e tem o Milton como personagem principal, mas aborda só um período da vida dele, até bem extenso, e fala também dos outros personagens do Clube da Esquina. Resolvi então escrever uma biografia do Milton, a primeira, ainda mais ao descobrir o quanto a vida dele era incrível, como um romance”.
A autora confessa que conhecia o trabalho dele, mas não profundamente: “Até então nunca tinha sido uma pessoa que tem o costume de ouvir música, engraçado isso, né? Então, primeiro me apaixonei pela história, pelo personagem. Depois, pela obra, pelo artista, que, no final das contas, descobri não ter como separar um do outro. Pedi outras entrevistas e ele concordou. Deixou também que eu acompanhasse ensaios, shows, fosse na sua casa, pesquisasse seu material pessoal. Para a faculdade entreguei um trabalho resumido, só da vida dele em Três Pontas, e depois continuei”.
O livro abrange o período que vai de 1939, antes mesmo de Milton nascer, até 2005. Maria Dolores afirma que já conhecia o cantor, “claro, desde criança, mas não tinha uma relação próxima com o Milton” e fala da proximidade que a elaboração do livro possibilitou: “nesses quatro anos e meio de trabalho, que eu passei a conviver com o Milton, descobri a pessoa incrível que ele é, um ser humano especial, um artista especial, cheio de mistério ao seu redor, magia, alguém que tem uma generosidade imensa. Não tem como trabalhar com o Milton, com o Bituca, né, e não se tornar amigo dele, ainda mais ele, que tem tantos amigos. Hoje posso dizer que me tornei uma amiga dele e ele se tornou alguém especial pra mim, uma relação dessas que a gente sabe que dura. Eu não esperava que isso fosse acontecer, na verdade, nem pensava nisso, mas foi uma feliz surpresa descobrir essa amizade e a maior conquista com o livro”.
Desde a primeira parceria com Fernando Brant, “Travessia”, Milton abriu alas para uma geração de grandes músicos e compositores mineiros e nunca transigiu sua arte, nunca aceitou os apelos fáceis da massificação. Na entrevista citada, Milton declarou incisivo: “A massificação vai bitolando a cabeça das pessoas e bitola a música popular brasileira também”. Assim, o cantor e compositor sempre procurou a qualidade musical, sabedor de que escolhera um caminho mais difícil, porém, passadas quatro décadas de seu batismo de fogo com a interpretação de “Travessia”, fica a certeza de que a criatividade e a qualidade resistem a tudo.
Fernando Brant, em depoimento exclusivo, afirma que “a música de Milton Nascimento não se explica, ouve-se. Desde que o conheci, e à sua música, o Bituca é um repertório de surpresas interminável. Até hoje, quando ele me mostra algo que acabou de compor, sua genialidade não dá descanso. Ele me surpreende agora como me surpreendia 30 anos atrás. A melodia, o ritmo, a harmonia, ele sintetiza o mundo em suas músicas. Devo a ele não só o fato de encontrar uma profissão que me sustenta e dá prazer, como a oportunidade de colocar minhas palavras e minhas idéias em canções belas e diferentes. E, ainda por cima, ele as canta. Ele é fonte inesgotável da música popular brasileira, um gênio”.
O artista é o arauto da liberdade
Na referida entrevista exclusiva, Milton adverte que criaram um tipo de música, um tipo de som, que virou tudo a mesma coisa e, num mercado fechado, a renovação de artistas é mais difícil, porque as grandes gravadoras determinam a política para a área musical, só investindo naquilo que elas acreditam que dá retorno. E revela: “Eu apareci numa época em que todo mundo estava brotando, com mil experiências diferentes, não tinha um som pasteurizado. Nos últimos tempos é mais difícil a pessoa nova ser ouvida, mas não impossível”. Já em 1987, Milton advertia na mesma entrevista: “É terrível ver um país como esse, onde o músico se forma por esforço próprio, porque não tem escola, nem nada. O Brasil é um desamparo total, e com tantos músicos fantásticos tendo que tocar qualquer coisa, sem poder desenvolver seu próprio trabalho musical, é muito triste. E olhe que o país é rico, é tão grande, com tanta diversidade e o povo é muito musical. Mas prefiro não perder a esperança, porque o dia em que eu perder a esperança, paro de cantar, minha vida acaba”.
Para Milton, o Brasil é um país onde a mistura é tão forte que todas as influências que vierem nas coisas feitas honestamente virão para acrescentar, mas nunca para esmagar a cultura brasileira: “medo de influência esmagar eu não tenho nenhum não”. E arremata: “O lance da arte é a liberdade, o artista é o arauto da liberdade”.
Nélson Ângelo, parceiro dos primeiros tempos, em depoimento exclusivo comenta: “Meu primeiro contato com Milton Nascimento, meu amigo Bituca, deu-se no ano de 1964, em Belo Horizonte, logo após um show do grupo Opinião, realizado no Teatro Francisco Nunes. Desde então construímos uma sólida amizade que dura até hoje, pautada em muito respeito, atenção e paixão pela música. Sempre fomos parceiros em diferentes formas: como amigos, na vida, em trabalhos. Antes mesmo de ‘Travessia’, já curtíamos e nos admirávamos. Nesta época compus ‘Fim de caminho’, ‘Canto triste’ (anterior a do Edu e Vinícius; claro que mudei o título da minha!) e o Bituca tocava pra mim ‘Crença’ e ‘Terra’, parcerias dele com o Márcio Borges. No mesmo período, compus com o Valdimir Diniz a música ‘Ciclo do Ouro’, que foi muito elogiada pelo Milton. Ele foi um grande incentivador do meu trabalho. Mais tarde um pouco, ele e o Márcio fizeram uma que foi dedicada a mim (pelo menos foi o que me contaram), chamada ‘Irmão de fé’”.
Ainda segundo, Nélson Ângelo, “quando o Bituca conheceu o Fernando Brant, foram logo estreando com ‘Travessia’, e muitas outras que surgiram e marcaram seu lugar na história. Mais tarde, eu e ele fizemos ‘Sacramento’ e ‘Testamento’, ambas músicas minhas e letras do Milton. Mais tarde ainda, o samba enredo ‘Reis e Rainhas do Maracatu’, com mais dois parceiros: o Novelli e o Fran”.
Portanto, assegura Nélson Ângelo, “minha opinião sobre o Milton e parcerias é abrangente da mesma forma como foi consolidada nossa amizade. Sou suspeito sobre todas as instâncias e circunstâncias. Ainda bem que a admiração e a boa impressão são compartilhadas com tantas pessoas mundo afora que conhecem o assunto”.
O livro de Maria Dolores aponta “Travessia” como a primeira letra da vida de Fernando Brant, escrita sob pressão, jogada, num papel dobrado, na mesa da padaria São José, em Belo Horizonte. O nome da música foi inspirado no livro “Grande Sertão: Veredas”, do escritor mineiro Guimarães Rosa, que tinha como última palavra da obra o termo “Travessia”. O próprio Milton explicaria a escolha: “O importante não é a saída, nem a chegada, mas a travessia”.
A segunda letra de Brant foi “Outubro”, e o parceiro teria dito anteriormente a Milton: “Agora que você me pôs nessa, trata de compor outra música para eu colocar uma letra logo, senão estou perdido!”. O assédio da imprensa, logo após as apresentações no II FIC-1967, mexia com os dois tímidos compositores mineiros. Segundo Maria Dolores, o cantor, compositor e violonista Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura no Brasil, disse certa vez que a timidez de Milton não é uma timidez pura, mas um ato de observação: “Ele é como essas pedras enormes da Gávea, quietas, silenciosas...observa tudo ao seu redor, fala com o olhar e, quando usa palavras, diz a coisa certa no momento certo”.
Caetano Veloso também fez revelações, no livro, sobre Milton: “Ele é uma força profunda da expressão cultural brasileira, com raízes muito fortes na nossa história e com um talento na área da genialidade, uma coisa meio espiritual, e se há algo que a gente possa chamar de espiritual é exatamente isso, é quando alguém está ligado a tantas coisas tão importantes por fatores casuais, tantas vezes. Isso para mim é o caso de Milton, é o caso mais radical desse acontecimento no Brasil”.
Só mesmo Milton Nascimento para tornar permanente toda a emoção de coisas tão simples e fundamentais como as brincadeiras de crianças, a cumplicidade entre amigos de verdade, a pulsação de um povo na luta pela liberdade, a dor do amor e do desamor, tudo isso com “o coração aberto em vento, por toda eternidade, com o coração doendo de tanta felicidade”.
No livro, “Os sonhos não envelhecem – histórias do Clube da Esquina” (Geração Editorial), escrito por Márcio Borges, o parceiro e amigo mergulha na essência das vivências desde os tempos em que se conheceram no Edifício Levy, em Belo Horizonte, até a gravação do disco “Angelus”, em 1993. Este disco foi concebido por Milton para simbolizar sua trajetória de vida e seu compromisso com a música.
A partir dos anos 1960 e até esta primeira década do século XXI, Milton e seus parceiros, como Ronaldo Bastos, deixaram pistas sobre suas intenções: “Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia / beber o vinho e renascer na luz de todo dia / a fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada / o chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada / deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia”. Não é à toa que, em outra parceria com Ronaldo Bastos, Milton cantou: “Eu já estou com o pé na estrada / qualquer dia a gente se vê / sei que nada será como antes, amanhã”. Com seu alegre e contundente canto de fé, de esperança e de sonho, Milton Nascimento se tornou um autêntico arauto da liberdade e, junto com outros companheiros de eterna travessia, teceu e entreteceu uma ponte para atravessar este verdadeiro oceano que é o Brasil.
Ao mesmo tempo, Milton – como Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso – é o oceano atravessado e o barco que atravessa, e vai solidificando uma ponte sobre este mar. Essa feliz definição de Gilberto Gil sobre expoentes de sua geração sintetiza a essência musical de compositores que renovaram o panorama da MPB e permanecem atentos, como faróis. Afinal, Milton fez de seu canto um canal direto até onde o povo está, muitas vezes “com sabor de vidro e corte”, mas sempre semeando o sonho e a esperança de ter fé na vida.
A comunhão da criação
Um dos momentos mágicos vivenciados por Milton Nascimento, simbolicamente num dia dedicado à consciência negra, em 20 de novembro de 1999, foi quando o pintor mineiro Carlos Bracher, mergulhado nas cores e ao som das canções do Clube da Esquina e da Nona Sinfonia de Beethoven (1770 – 1827), pintou em óleo sobre tela, durante cerca de 1h30, o retrato do cantor e compositor, antecedendo uma apresentação no baile-show intitulado “Crooner”, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Pela primeira vez, Bracher – um dos grandes pintores brasileiros – retratava um artista negro e foi buscar inspiração no erê que dá vivacidade a Milton Nascimento.
Ao expressar o menino que impregna a alma de Milton de alegria e de generosidade, o pintor mineiro celebrava a eterna juventude do autor de “Travessia” (em parceria com Fernando Brant). E Milton estabeleceu com Bracher uma relação de intensidade imensurável. Simplicidade e criatividade de mãos dadas e corações abertos, estabelecendo um elo de cumplicidade e possibilitando um encontro de almas capazes de irradiar harmonia, onde cada um a seu modo criou as condições para estabelecer a alquimia das cores e dos sons. O artista da voz e o artista das cores unidos na comunhão da criação.
Ao reconhecer-se como um erê (como os meninos da capa do antológico disco “Clube da Esquina”, de 1972), Milton posou para o retrato de Bracher deixando fluir todo o sentimento de eternidade que sua música passa e que sua travessia revela, trilhando o caminho da criatividade e do compromisso com a cidadania cultural e com a vida. Como o romancista Guimarães Rosa e o poeta Carlos Drummond de Andrade, Milton Nascimento encarna em sua obra musical a essência de Minas Gerais, a alma brasileira e a universalidade artística dos grandes criadores. Como um mago das cores, Bracher tão- somente revelou essa magia num retrato com a força da emoção de Milton.
No verso do óleo sobre tela, o pintor escreveu: “Meu caro Milton, que assim seja, que este Deus da vida e da arte nos possa abençoar. Obrigado Milton, por essa força contida na sua vasta voz”. Entre a timidez e a felicidade estampada, o cantor, depois de trocar um forte abraço com o pintor, confidenciou ao jornalista, que acompanhou tudo, a satisfação de ter vivenciado aquele momento de intensa troca de energia e de revelação de sua alma de eterno menino nas cores densas e inspiradas de Bracher.
O retrato está na sala da casa de Milton.
Texto de Jorge Sanglard
(Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil)
Milton Nascimento: “A música caminha comigo como a minha alma”
No palco do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, o jovem cantor, violonista e compositor Milton Nascimento, poucos dias antes de completar 25 anos, nos dias 19 e 21 de outubro de 1967, há 50 anos, não poderia sonhar que, a partir de suas três músicas no II Festival Internacional da Canção – “Travessia”, “Morro Velho” e “Maria, Minha Fé” –, trilharia uma autêntica travessia rumo a uma das mais significativas trajetórias na Música Popular Brasileira da segunda metade do século XX e se projetaria como um dos maiores cantores de seu tempo.
Milton sempre entrou de coração em tudo, desde os tempos de contrabaixista nos bailes de Minas Gerais, passando pelos encontros musicais do Clube da Esquina, pela projeção a partir do segundo lugar no II FIC-1967, até consolidar uma trajetória vitoriosa na Música Popular Brasileira. O cantor e compositor nunca perguntou para onde ia esta estrada, se jogou por inteiro no caminho, seguindo “o brilho cego de paixão e fé, faca amolada”. O importante sempre foi “deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo / deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo / brilhar, brilhar, acontecer, brilhar, faca amolada / irmão, irmã, irmã, irmão de fé, faca amolada”, como em “Nada será como antes”, parceria com Ronaldo Bastos.
Milton nasceu às seis horas da tarde, a “Hora do Angelus”, do dia 26 de outubro de 1942, filho de Maria do Carmo do Nascimento, cozinheira por profissão, que deixou Juiz de Fora, em Minas Gerais, para trabalhar no Rio de Janeiro. A “Hora do Angelus” relembra para os católicos o momento da anunciação, feita pelo anjo Gabriel a Maria, da concepção de Jesus Cristo, como livre do pecado original. O seu nome deriva da frase: “Angelus Domini nuntiavit Mariæ”. Em Juiz de Fora, na Câmara Municipal, Milton recebeu o título de Cidadão Honorário e a Medalha Nelson Silva, em 27 de novembro de 2009. A retribuição é por tudo que Bituca fez pela MPB e por suas raízes encravadas na cidade mineira. Desde a década de 1970, Milton coleciona amizades em Juiz de Fora. Quando o médico e músico Márcio Itaboray lançou o livro "Assuntos de Vento", em 2001, esses laços foram consolidados. Em maio de 2009, durante show no Theatro Central, Milton disse que Juiz de Fora é onde ele tem mais amigos. E no dia da entrega do Título de Cidadão Honorário, ele sintetizou: "Sou de Juiz de Fora desde que nasci".
Bituca – apelido dado pela mãe adotiva Lília Silva Campos –, como era conhecido na família e entre os amigos, depois do segundo lugar na classificação geral e da premiação como melhor intérprete do II FIC-1967, inscreveria o nome Milton Nascimento no primeiro time de compositores e cantores que renovariam a MPB. Os festivais injetavam sangue novo no universo cultural brasileiro e a música ainda era uma das poucas manifestações de expressão popular no Brasil dos primeiros anos da ditadura militar.
Em entrevista exclusiva, em outubro de 1987, marcando os 20 anos da premiação de “Travessia”, durante o lançamento do disco “Yauaretê”, Milton confessaria: “Desde criança, eu sabia que ia mexer com a música. Nunca me enganei, nem minha família, nem nada. Todo mundo já sabia que era música mesmo. Apesar de morar em Três Pontas, que naquela época era longe, a estrada era de terra, sabia que ia sair e ia procurar...Se ia vencer, só Deus sabia, mas eu ia tentar. Acontece que a música caminha comigo como a minha alma. Por isso e pelo fato de cada canção refletir um momento meu, chega nas pessoas com a mesma intensidade que estou querendo botar pra fora, e aí não tem barreira de língua, não tem barreira de chão, não tem nada, em qualquer parte”.
O sucesso de “Travessia”, parceria entre Milton Nascimento e Fernando Brant, no II FIC-1967, projetou Milton como um cometa. Mas a criatividade e a qualidade musical do novo talento transcenderam os limites da passagem de um cometa e o transformaram num feixe de luz permanente a apontar caminhos na Música Popular Brasileira. O próprio Milton já afirmou: “Isso está nas mãos do que se quiser chamar, pode ser Deus, pode ser destino, pode ser o que for”.
Amigo de sempre e parceiro, Márcio Borges, em depoimento exclusivo, descreve a emoção que tomou conta da apresentação de “Travessia”: “De tarde nós saímos do hotel, todos no mesmo ônibus, rumo ao Maracanãzinho. Eu ia sentado ao lado de Toninho Horta, com quem havia classificado a dolorosa canção ‘Correntes’. Mas no ônibus só se falava no Bituca, o cara que havia classificado três canções, uma delas considerada a favorita para ganhar o festival. Senti uma emoção muito grande quando o ônibus ultrapassou os portões que davam direto no fundo do enorme palco. Parecia dia de futebol. As filas já davam volta no estádio e ainda nem era de noite. O ensaio geral foi impressionante. Astros e estrelas da música nacional e internacional circulavam em áreas restritas – e eu lá! Quando caiu a noite, vi o estádio encher-se de gente. Vi as arquibancadas se colorirem de todas as cores e matizes, cabelos, cartazes e bandeiras. Vi chegar a hora de ‘Travessia’. A favorita de todos. Bituca colocou o Maracanãzinho de pé e foi classificado. ‘Correntes’ ficou de fora. Fomos torcer pelo Bituca e pelo Fernando, que surpreendentemente, e contra todas as emoções presentes, inclusive a do vencedor Guarabyra, conseguiram apenas um segundo lugar. Na reapresentação da música, vencedora moral e imortal, o apresentador Hilton Gomes chamou os nomes de Milton Nascimento e Fernando Brant e eles saíram de perto de nós para voltarem ao palco. Eu e Gonzaguinha corremos atrás deles e nos sentamos no limite extremo entre a coxia e o palco, bem aos pés dos nossos amigos. Sei que quando vimos e ouvimos o Maracanãzinho cantar com os dois e soltar a voz nas estradas, não conseguimos conter a emoção. Eu e Gonzaguinha nos abraçamos e deixamos nossas lágrimas correrem soltas, molhando os ombros um do outro. Quarenta anos se passaram desde aquela noite. Mas aquelas lágrimas serão para sempre”.
Trajetória de sucesso
A trajetória do cantor e compositor mineiro mais carioca que existe – Milton nasceu no Rio de Janeiro e foi criado em Três Pontas – é contada em detalhes na biografia “Travessia – A vida de Milton Nascimento” (Record), da jornalista mineira Maria Dolores, nascida em Belo Horizonte e criada também em Três Pontas. O livro, que está na segunda edição, é um mergulho na vida e na música de Milton e revela aqui e ali detalhes da consolidação do mestre do Clube da Esquina como um ícone da MPB.
Em depoimento exclusivo, Maria Dolores fala do livro, para dizer sobre Milton: “Essa biografia começou como projeto de conclusão do meu curso de Comunicação Social - Jornalismo, na Universidade Federal de Minas Gerais, em 2003. Eu queria fazer um livro reportagem de algo relacionado a Três Pontas, cidade onde cresci. Entre os temas mais interessantes – a cafeicultura, o Padre Victor (um padre negro milagreiro) e o Milton Nascimento – preferi fazer sobre o Milton. A idéia era contar a vida dele na cidade. Aproveitei um dia que ele estava em Três Pontas, criei coragem, e fui atrás dele. Disse que ia fazer o trabalho e pedi uma entrevista. Ele aceitou fazer. Uns quatro meses depois fui fazer a entrevista e aí eu já tinha realizado uma pesquisa sobre ele, e descoberto que não havia quase nenhum material biográfico do Milton, a não ser essas biografias resumidas de sites, revistas, etc.. O que tinha de mais completo era o livro do Márcio Borges, ‘Os sonhos não envelhecem – histórias do Clube da Esquina’, que é ótimo e tem o Milton como personagem principal, mas aborda só um período da vida dele, até bem extenso, e fala também dos outros personagens do Clube da Esquina. Resolvi então escrever uma biografia do Milton, a primeira, ainda mais ao descobrir o quanto a vida dele era incrível, como um romance”.
A autora confessa que conhecia o trabalho dele, mas não profundamente: “Até então nunca tinha sido uma pessoa que tem o costume de ouvir música, engraçado isso, né? Então, primeiro me apaixonei pela história, pelo personagem. Depois, pela obra, pelo artista, que, no final das contas, descobri não ter como separar um do outro. Pedi outras entrevistas e ele concordou. Deixou também que eu acompanhasse ensaios, shows, fosse na sua casa, pesquisasse seu material pessoal. Para a faculdade entreguei um trabalho resumido, só da vida dele em Três Pontas, e depois continuei”.
O livro abrange o período que vai de 1939, antes mesmo de Milton nascer, até 2005. Maria Dolores afirma que já conhecia o cantor, “claro, desde criança, mas não tinha uma relação próxima com o Milton” e fala da proximidade que a elaboração do livro possibilitou: “nesses quatro anos e meio de trabalho, que eu passei a conviver com o Milton, descobri a pessoa incrível que ele é, um ser humano especial, um artista especial, cheio de mistério ao seu redor, magia, alguém que tem uma generosidade imensa. Não tem como trabalhar com o Milton, com o Bituca, né, e não se tornar amigo dele, ainda mais ele, que tem tantos amigos. Hoje posso dizer que me tornei uma amiga dele e ele se tornou alguém especial pra mim, uma relação dessas que a gente sabe que dura. Eu não esperava que isso fosse acontecer, na verdade, nem pensava nisso, mas foi uma feliz surpresa descobrir essa amizade e a maior conquista com o livro”.
Desde a primeira parceria com Fernando Brant, “Travessia”, Milton abriu alas para uma geração de grandes músicos e compositores mineiros e nunca transigiu sua arte, nunca aceitou os apelos fáceis da massificação. Na entrevista citada, Milton declarou incisivo: “A massificação vai bitolando a cabeça das pessoas e bitola a música popular brasileira também”. Assim, o cantor e compositor sempre procurou a qualidade musical, sabedor de que escolhera um caminho mais difícil, porém, passadas quatro décadas de seu batismo de fogo com a interpretação de “Travessia”, fica a certeza de que a criatividade e a qualidade resistem a tudo.
Fernando Brant, em depoimento exclusivo, afirma que “a música de Milton Nascimento não se explica, ouve-se. Desde que o conheci, e à sua música, o Bituca é um repertório de surpresas interminável. Até hoje, quando ele me mostra algo que acabou de compor, sua genialidade não dá descanso. Ele me surpreende agora como me surpreendia 30 anos atrás. A melodia, o ritmo, a harmonia, ele sintetiza o mundo em suas músicas. Devo a ele não só o fato de encontrar uma profissão que me sustenta e dá prazer, como a oportunidade de colocar minhas palavras e minhas idéias em canções belas e diferentes. E, ainda por cima, ele as canta. Ele é fonte inesgotável da música popular brasileira, um gênio”.
O artista é o arauto da liberdade
Na referida entrevista exclusiva, Milton adverte que criaram um tipo de música, um tipo de som, que virou tudo a mesma coisa e, num mercado fechado, a renovação de artistas é mais difícil, porque as grandes gravadoras determinam a política para a área musical, só investindo naquilo que elas acreditam que dá retorno. E revela: “Eu apareci numa época em que todo mundo estava brotando, com mil experiências diferentes, não tinha um som pasteurizado. Nos últimos tempos é mais difícil a pessoa nova ser ouvida, mas não impossível”. Já em 1987, Milton advertia na mesma entrevista: “É terrível ver um país como esse, onde o músico se forma por esforço próprio, porque não tem escola, nem nada. O Brasil é um desamparo total, e com tantos músicos fantásticos tendo que tocar qualquer coisa, sem poder desenvolver seu próprio trabalho musical, é muito triste. E olhe que o país é rico, é tão grande, com tanta diversidade e o povo é muito musical. Mas prefiro não perder a esperança, porque o dia em que eu perder a esperança, paro de cantar, minha vida acaba”.
Para Milton, o Brasil é um país onde a mistura é tão forte que todas as influências que vierem nas coisas feitas honestamente virão para acrescentar, mas nunca para esmagar a cultura brasileira: “medo de influência esmagar eu não tenho nenhum não”. E arremata: “O lance da arte é a liberdade, o artista é o arauto da liberdade”.
Nélson Ângelo, parceiro dos primeiros tempos, em depoimento exclusivo comenta: “Meu primeiro contato com Milton Nascimento, meu amigo Bituca, deu-se no ano de 1964, em Belo Horizonte, logo após um show do grupo Opinião, realizado no Teatro Francisco Nunes. Desde então construímos uma sólida amizade que dura até hoje, pautada em muito respeito, atenção e paixão pela música. Sempre fomos parceiros em diferentes formas: como amigos, na vida, em trabalhos. Antes mesmo de ‘Travessia’, já curtíamos e nos admirávamos. Nesta época compus ‘Fim de caminho’, ‘Canto triste’ (anterior a do Edu e Vinícius; claro que mudei o título da minha!) e o Bituca tocava pra mim ‘Crença’ e ‘Terra’, parcerias dele com o Márcio Borges. No mesmo período, compus com o Valdimir Diniz a música ‘Ciclo do Ouro’, que foi muito elogiada pelo Milton. Ele foi um grande incentivador do meu trabalho. Mais tarde um pouco, ele e o Márcio fizeram uma que foi dedicada a mim (pelo menos foi o que me contaram), chamada ‘Irmão de fé’”.
Ainda segundo, Nélson Ângelo, “quando o Bituca conheceu o Fernando Brant, foram logo estreando com ‘Travessia’, e muitas outras que surgiram e marcaram seu lugar na história. Mais tarde, eu e ele fizemos ‘Sacramento’ e ‘Testamento’, ambas músicas minhas e letras do Milton. Mais tarde ainda, o samba enredo ‘Reis e Rainhas do Maracatu’, com mais dois parceiros: o Novelli e o Fran”.
Portanto, assegura Nélson Ângelo, “minha opinião sobre o Milton e parcerias é abrangente da mesma forma como foi consolidada nossa amizade. Sou suspeito sobre todas as instâncias e circunstâncias. Ainda bem que a admiração e a boa impressão são compartilhadas com tantas pessoas mundo afora que conhecem o assunto”.
O livro de Maria Dolores aponta “Travessia” como a primeira letra da vida de Fernando Brant, escrita sob pressão, jogada, num papel dobrado, na mesa da padaria São José, em Belo Horizonte. O nome da música foi inspirado no livro “Grande Sertão: Veredas”, do escritor mineiro Guimarães Rosa, que tinha como última palavra da obra o termo “Travessia”. O próprio Milton explicaria a escolha: “O importante não é a saída, nem a chegada, mas a travessia”.
A segunda letra de Brant foi “Outubro”, e o parceiro teria dito anteriormente a Milton: “Agora que você me pôs nessa, trata de compor outra música para eu colocar uma letra logo, senão estou perdido!”. O assédio da imprensa, logo após as apresentações no II FIC-1967, mexia com os dois tímidos compositores mineiros. Segundo Maria Dolores, o cantor, compositor e violonista Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura no Brasil, disse certa vez que a timidez de Milton não é uma timidez pura, mas um ato de observação: “Ele é como essas pedras enormes da Gávea, quietas, silenciosas...observa tudo ao seu redor, fala com o olhar e, quando usa palavras, diz a coisa certa no momento certo”.
Caetano Veloso também fez revelações, no livro, sobre Milton: “Ele é uma força profunda da expressão cultural brasileira, com raízes muito fortes na nossa história e com um talento na área da genialidade, uma coisa meio espiritual, e se há algo que a gente possa chamar de espiritual é exatamente isso, é quando alguém está ligado a tantas coisas tão importantes por fatores casuais, tantas vezes. Isso para mim é o caso de Milton, é o caso mais radical desse acontecimento no Brasil”.
Só mesmo Milton Nascimento para tornar permanente toda a emoção de coisas tão simples e fundamentais como as brincadeiras de crianças, a cumplicidade entre amigos de verdade, a pulsação de um povo na luta pela liberdade, a dor do amor e do desamor, tudo isso com “o coração aberto em vento, por toda eternidade, com o coração doendo de tanta felicidade”.
No livro, “Os sonhos não envelhecem – histórias do Clube da Esquina” (Geração Editorial), escrito por Márcio Borges, o parceiro e amigo mergulha na essência das vivências desde os tempos em que se conheceram no Edifício Levy, em Belo Horizonte, até a gravação do disco “Angelus”, em 1993. Este disco foi concebido por Milton para simbolizar sua trajetória de vida e seu compromisso com a música.
A partir dos anos 1960 e até esta primeira década do século XXI, Milton e seus parceiros, como Ronaldo Bastos, deixaram pistas sobre suas intenções: “Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia / beber o vinho e renascer na luz de todo dia / a fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada / o chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada / deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia”. Não é à toa que, em outra parceria com Ronaldo Bastos, Milton cantou: “Eu já estou com o pé na estrada / qualquer dia a gente se vê / sei que nada será como antes, amanhã”. Com seu alegre e contundente canto de fé, de esperança e de sonho, Milton Nascimento se tornou um autêntico arauto da liberdade e, junto com outros companheiros de eterna travessia, teceu e entreteceu uma ponte para atravessar este verdadeiro oceano que é o Brasil.
Ao mesmo tempo, Milton – como Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso – é o oceano atravessado e o barco que atravessa, e vai solidificando uma ponte sobre este mar. Essa feliz definição de Gilberto Gil sobre expoentes de sua geração sintetiza a essência musical de compositores que renovaram o panorama da MPB e permanecem atentos, como faróis. Afinal, Milton fez de seu canto um canal direto até onde o povo está, muitas vezes “com sabor de vidro e corte”, mas sempre semeando o sonho e a esperança de ter fé na vida.
A comunhão da criação
Um dos momentos mágicos vivenciados por Milton Nascimento, simbolicamente num dia dedicado à consciência negra, em 20 de novembro de 1999, foi quando o pintor mineiro Carlos Bracher, mergulhado nas cores e ao som das canções do Clube da Esquina e da Nona Sinfonia de Beethoven (1770 – 1827), pintou em óleo sobre tela, durante cerca de 1h30, o retrato do cantor e compositor, antecedendo uma apresentação no baile-show intitulado “Crooner”, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Pela primeira vez, Bracher – um dos grandes pintores brasileiros – retratava um artista negro e foi buscar inspiração no erê que dá vivacidade a Milton Nascimento.
Ao expressar o menino que impregna a alma de Milton de alegria e de generosidade, o pintor mineiro celebrava a eterna juventude do autor de “Travessia” (em parceria com Fernando Brant). E Milton estabeleceu com Bracher uma relação de intensidade imensurável. Simplicidade e criatividade de mãos dadas e corações abertos, estabelecendo um elo de cumplicidade e possibilitando um encontro de almas capazes de irradiar harmonia, onde cada um a seu modo criou as condições para estabelecer a alquimia das cores e dos sons. O artista da voz e o artista das cores unidos na comunhão da criação.
Ao reconhecer-se como um erê (como os meninos da capa do antológico disco “Clube da Esquina”, de 1972), Milton posou para o retrato de Bracher deixando fluir todo o sentimento de eternidade que sua música passa e que sua travessia revela, trilhando o caminho da criatividade e do compromisso com a cidadania cultural e com a vida. Como o romancista Guimarães Rosa e o poeta Carlos Drummond de Andrade, Milton Nascimento encarna em sua obra musical a essência de Minas Gerais, a alma brasileira e a universalidade artística dos grandes criadores. Como um mago das cores, Bracher tão- somente revelou essa magia num retrato com a força da emoção de Milton.
No verso do óleo sobre tela, o pintor escreveu: “Meu caro Milton, que assim seja, que este Deus da vida e da arte nos possa abençoar. Obrigado Milton, por essa força contida na sua vasta voz”. Entre a timidez e a felicidade estampada, o cantor, depois de trocar um forte abraço com o pintor, confidenciou ao jornalista, que acompanhou tudo, a satisfação de ter vivenciado aquele momento de intensa troca de energia e de revelação de sua alma de eterno menino nas cores densas e inspiradas de Bracher.
O retrato está na sala da casa de Milton.
Texto de Jorge Sanglard
(Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil)
10.10.17
MONK 100... o tempo não mata o passado
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Há exatos 100 anos, em 10 de outubro de 1917, Thelonious Monk nasceu em Rock Mount. Grande pianista e compositor, injetou sangue novo no jazz e se afirmou como um dos mais inventivos improvisadores de seu tempo. falecido há 35 anos, em Weehawken, Nova Jérsei, em 17 de fevereiro de 1982, deixou como legado uma obra inquietante e de imensa criatividade: "Epistrophy", "Round Midnight", "Blue Monk", e "Straight No Chaser" são exemplos de suas obras primas jazzísticas.
Ao lado de Dizzy Gillespie e Charlie Parker, foi uma das pedras fundamentais do bebop, estilo que tornou o jazz arte e superou o swing meramente dançante. Mas sua contribuição musical foi além do bebop com a introdução de dissonâncias e variações melódicas impregnadas de recursos percussivos ao piano. Enfim, foi um dos gênios da transformação permanente do jazz.
Parte de sua trajetória musical e de vida pode ser conferida no documentário "Thelonious Monk: Straight, No Chaser", de 1989, produzido por Clint Eastwood e com direção de Charlotte Zwerin. Postumamente, em 1993, Monk foi agraciado com o Grammy Lifetime Achievement Award e, em 2006, sua memória foi referenciada com o Prêmio Pulitzer de Música.
Texto de Jorge Sanglard
(Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil)
Há exatos 100 anos, em 10 de outubro de 1917, Thelonious Monk nasceu em Rock Mount. Grande pianista e compositor, injetou sangue novo no jazz e se afirmou como um dos mais inventivos improvisadores de seu tempo. falecido há 35 anos, em Weehawken, Nova Jérsei, em 17 de fevereiro de 1982, deixou como legado uma obra inquietante e de imensa criatividade: "Epistrophy", "Round Midnight", "Blue Monk", e "Straight No Chaser" são exemplos de suas obras primas jazzísticas.
Ao lado de Dizzy Gillespie e Charlie Parker, foi uma das pedras fundamentais do bebop, estilo que tornou o jazz arte e superou o swing meramente dançante. Mas sua contribuição musical foi além do bebop com a introdução de dissonâncias e variações melódicas impregnadas de recursos percussivos ao piano. Enfim, foi um dos gênios da transformação permanente do jazz.
Parte de sua trajetória musical e de vida pode ser conferida no documentário "Thelonious Monk: Straight, No Chaser", de 1989, produzido por Clint Eastwood e com direção de Charlotte Zwerin. Postumamente, em 1993, Monk foi agraciado com o Grammy Lifetime Achievement Award e, em 2006, sua memória foi referenciada com o Prêmio Pulitzer de Música.
Texto de Jorge Sanglard
(Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil)
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Thelonious Monk
29.9.17
Sempre é tempo de Miles Davis
Nem o céu é o limite
26 anos sem Miles Davis
Texto de Jorge Sanglard
(Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais de Portugal e do Brasil)
Se não tivesse se encantado em 28 de setembro de 1991, há 26 anos, Miles Davis teria completado 91 anos no dia 26 de maio de 2017. Miles Davis (26/05/1926 – 28/09/1991) viveu buscando coisas novas pra tocar, novos desafios para suas ideias musicais e encarnou, como poucos, a história da música afro-americana improvisada. Sua trajetória é parte integrante e fundamental na evolução da linguagem jazzística ao longo do século XX e sua contribuição musical criou aberturas para além de seu tempo. Durante quatro décadas e meia, Miles Davis contribuiu decisivamente para reformular as noções de harmonia e ritmo, nunca se atendo a rótulos. Por tudo isso, sua música não é fácil de ser codificada ou classificada e isso até foi motivo para irritá-lo: “Sempre achei que a música não tem fronteiras, limites ao seu crescimento, não tem nenhuma restrição à sua criatividade. A boa música é boa, independente do que seja. E sempre detestei categorias. Sempre. Nunca achei que isso tivesse lugar na música... Sempre quis apenas soprar minha corneta e criar música e arte, comunicar o que eu sentia por meio da música... Quando a gente cria sua própria arte, nem o céu é o limite”. Miles viveu pensando na criação e revelou: “A música é uma bênção e uma praga. Mas eu a amo, não queria que fosse de outra forma. A música sempre foi uma praga pra mim porque sempre me senti compelido a tocá-la. Sempre foi a primeira coisa em minha vida. Vem antes de tudo”.
A influência de Miles Davis como inovador e visionário foi decisiva na consolidação do jazz a partir da segunda metade do século XX, seja no cool, seja no pós bop, seja no modal, ou ainda na fusion e pode ser sentida até no break, no hip-hop e no rap. Mas o certo é que a matriz negra, o blues, sempre esteve presente em sua vida e também é certo que o jazz é uma linguagem musical cuja vitalidade está na essência da transformação. E aí, o que conta é a sensibilidade do criador e do improvisador, terreno onde Miles Davis sempre foi mestre, ou mais que isso, gênio.
O espírito do jazz de Miles Davis está impregnado de blues e sua linguagem musical inovadora, a partir de frases inspiradas no blues, construiu uma sonoridade própria e transformadora. Para o trompetista, “a maneira de criar e transformar a música é tentar sempre inventar maneiras de tocar”. Afinal, “o mundo sempre foi mudança”, admitia. Portanto, o instrumentista incorporou ao som cortante e ao lirismo, ou à delicadeza, de seu trompete – base de sua concepção rítmica e harmônica – avanços rumo a novos caminhos, elaborando uma música para ouvir e para sentir. Sempre fiel à sua marca fundamental: “Eu toco simplesmente o necessário, nada além; apenas o essencial”.
Miles Davis deixou claro em sua trajetória que o silêncio é tão importante quanto o som. Com seus solos fragmentários – onde a tensão ronda cada fraseado – com as linhas melódicas sendo estendidas ao limite e sempre cercado de grandes instrumentistas, sustentando o clima denso e envolvente de sua música, o trompetista foi um dos criadores mais influentes do século XX. Em sua autobiografia, lançada no Brasil pela Editora Campus, em meados de 1991, três meses antes de sua morte, Miles revelaria: “pra eu tocar uma nota, ela tem de soar bem pra mim. Sempre fui assim. E a nota tem de estar no mesmo registro do acorde em que a toquei antes, pelo menos era assim. No bebop, todo mundo tocava muito rápido. Mas eu jamais gostei de tocar um monte de escalas e essa merda toda. Sempre tentei tocar as notas mais importantes do acorde, decompô-lo. Eu ouvia os músicos tocando todas aquelas escalas e nunca nada que a gente pudesse lembrar”.
De 1945 – como integrante do quinteto de Charlie ‘Bird’ Parker – a 1991, Miles Davis construiu uma sólida carreira musical e fonográfica, interrompida entre 1975 e 1981 para recuperação de um grave acidente automobilístico que o deixou com os dois tornozelos quebrados. Em três décadas, entre 1955 a 1985, Miles consolidou sua trajetória, mantendo a essência inovadora do jazz e articulando novas explorações sonoras. Ousado, inventivo e genial, Miles Davis desafiou o tempo com sua música impregnada de força e de criatividade. Miles encarnou parte da história do jazz e da música negra norte-americana e seu legado é parte integrante da evolução da própria música criativa da segunda metade do século XX.
O próprio Miles admitia: “Tive vários períodos criativos realmente férteis em minha vida. O primeiro foi de 1945 a 1949, o início. Depois quando deixei as drogas, 1954 a1960 foi um tempo musicalmente fértil... E 1964 a 1968 não foi tão ruim assim, mas eu diria que me alimentava muito das ideias musicais de Tony, Wayne e Herbie. O mesmo aconteceu quando fiz ‘Bitches Brew’ e ‘Live-Evil’, porque foi uma combinação de pessoas e coisas – Joe Zawinul, Paul Buckmaster e outros – e tudo que fiz foi reunir todos e compor umas poucas coisas”.
Em sua autobiografia, Miles afirmaria: “Sendo um rebelde negro e inconformista, sendo frio, elegante, irado, sofisticado e ultra limpo, como queiram chamar – eu era tudo isso e mais. Mas tocava o fino em meu trompete, e tinha um grande conjunto. Por isso, não consegui reconhecimento apenas pela imagem de rebelde. Tocava trompete e liderava o conjunto mais quente da praça, um conjunto criativo, imaginativo, super integrado e artístico. E isso, para mim, foi o motivo de conquistarmos o reconhecimento”.
Santíssima trindade do bebop
Dizzy Gillespie, Miles Davis e Charlie ‘Bird’ Parker encarnaram o Pai, o Filho e o Espírito Santo no bebop, uma verdadeira revolução que lançou as bases do jazz moderno. A linguagem do jazz, a partir do bebop, entre 1944 e 1949, foi alterada radicalmente seja melódica, seja rítmica e harmonicamente, determinando uma ruptura com o tradicional. O jazz, com o bebop, passou a ser arte e não mero divertimento. Ao contrário do swing, o bebop não servia para dançar, daí sua pouca penetração popular, e mesmo músicos em ascensão, como Bird, Dizzy e Miles, eram atingidos pelo preconceito contra a música negra.
Para Miles, o bebop foi mudança, foi revolução: “Se alguém quer seguir criando, tem de ser com mudança. Viver é uma aventura e um desafio”. Aos 18 anos, o jovem trompetista negro Miles Dewey Davis III, nascido em 26 de maio de 1926, em Alton, Illinois, pequena cidade ribeirinha do rio Mississipi, a cerca de 40 quilômetros ao norte de East St. Louis, encarou o desafio da música e chegou a Nova York, em setembro de 1944, “ainda verde em algumas coisas, como mulheres e drogas”, mas confiante em sua capacidade de tocar trompete.
O verdadeiro motivo da ida do músico para a Big Apple ou Grande Maçã era procurar Bird e Dizzy, que sacudiam o cenário do jazz com um novo caminho, a partir de seus improvisos sobre temas pré estabelecidos, articulando novas melodias e impulsionando a mudança da concepção rítmica, base da consolidação do jazz moderno. Assim, Miles foi para Nova York “para sugar tudo que pudesse” de lugares como a Minton’s Playhouse, no Harlem, e muitos outros na rua 52, que todo o mundo da música chamava de “A Rua”. O estudo na escola Juilliard era apenas uma cortina de fumaça, uma escala, uma desculpa que Miles usara para ir para perto de seus ídolos musicais. E Miles deixou claro isso em sua autobiografia: “Ouça. A maior sensação de minha vida – vestido – foi quando ouvi pela primeira vez Diz e Bird juntos em St. Louis, no Missouri, em 1944. Eu tinha 18 anos, e acabara de me formar no Ginásio Lincoln, que ficava bem em frente, do outro lado do rio Mississipi, em East St. Louis, Illinois”.
“Bird pode ter sido o espírito do bebop, mas Dizzy era ‘a cabeça e as mãos’, aquele que congregava tudo”, disse Miles Davis, que se tornaria a mais nova personagem da Santíssima Trindade do bebop. Estas e muitas outras revelações do mundo e do submundo do jazz estão nas 382 páginas de “Miles Davis – A Autobiografia”, um livro que provocou impacto devastador quando foi editado nos Estados Unidos no final de 1989 e que, no Brasil, ganhou tradução de Marcos Santarrita, em meados de 1991.
Numa linguagem direta e certeira, como a pegada de um boxeur peso pesado, o livro foi fruto da colaboração entre o trompetista e o jornalista, poeta e professor Quincy Troupe. Contundente e corrosivo, Miles traçou um painel multifacetado do universo jazzístico de 1944 a 1989, permeando cada passagem com uma riqueza de detalhes só possível a quem vivenciou e/ou mergulhou fundo no prazer e na dor que envolviam e vão continuar envolvendo a música.
Negro como a meia-noite
Sobrevivente de uma geração de expoentes do jazz que acreditava na afirmação de Charlie ‘Bird’ Parker, em 1953, “A música nunca irá parar. Continuará sempre caminhando para a frente”, Miles deixou claro: “Música não tem época; música é música”. Negro como a meia-noite, Miles Davis criou uma música impregnada da essência cultural afro-americana expressa pelo jazz e alinhavada com a matriz negra, o blues.
O ano de 1954 seria musicalmente muito importante para o trompetista, embora ele mesmo não compreendesse o quanto na época, segundo revelação em sua autobiografia. O disco “Birth of the Cool” foi um marco e lançou um feixe de luz sobre os novos caminhos trilhados por Miles e o arranjador Gil Evans. Esse disco tomara, segundo Miles, de algum modo, outra direção, mas viera basicamente do que Duke Ellington e Billy Strayhorn já haviam feito; apenas tornara a música “mais branca”, pra que os brancos a digerissem melhor.
Em 1955, Miles Davis deixaria a Prestige, onde tinha gravado discos fundamentais para consolidar a base de sua música, tendo Bob Weinstock como produtor, e passaria a gravar para a Columbia, inicialmente com o produtor George Avakian. O grupo formado por Miles e tendo Coltrane como uma referência tornou o trompetista e Trane lendários: “Esse grupo realmente me pôs no mapa do mundo musical, com todos os grandes discos que fizemos pra Prestige e, depois, pra Columbia Records”. O primeiro LP do trompetista gravado na Columbia foi “Round’ About Midnight”, ao lado de John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones, em sessões realizadas no estúdio D, em Nova Iorque, em 26 de outubro de 1955, e no estúdio da Rua 30, em junho e setembro de 1956. De cara, Miles emplacaria um clássico na nova casa. E ele sintetizaria: “A Columbia representou pra mim uma abertura pela qual minha música podia passar pra chegar a mais ouvintes, e eu passei por essa porta quando ela se abriu e jamais olhei pra trás”.
Em maio de 1957, voltaria ao estúdio com Gil Evans para gravar “Miles Ahead” e diria: “Foi uma grande experiência voltar a trabalhar com Gil. A gente se via de vez em quando, depois de fazermos ‘Birth of the Cool’. Depois disso, falamos em nos reunir em outro disco, o que resultou na ideia da música de ‘Miles Ahead’. Como sempre, adorei trabalhar com Gil, porque ele era muito meticuloso e criativo, e eu confiava plenamente em seus arranjos musicais. Sempre formamos uma grande dupla musical, e realmente compreendi isso quando fizemos ‘Miles Ahead’”. Em fins de 1959, o trompetista iniciou também com o arranjador Gil Evans o disco “Sketches of Spain”, outra maratona sonora repleta de descobertas e plena de sentimento.
Durante três décadas, a trajetória de Miles Davis na Columbia, atual Sony, impulsionou o jazz para novos caminhos. Ali permaneceu até 1985-86 quando migrou para a Warner e abriu novas perspectivas em sua música.
Para marcar essa colaboração Miles-Columbia, no final de 2010, o selo Legacy, que cuida das reedições da Sony Music, lançou um banquete completo para os admiradores da música de Miles Davis: uma caixa contendo a coleção integral dos álbuns do trompetista, disponível na Amazon, ou na Columbia-Legacy. São nada mais nada menos que 70 CDs, um ensaio escrito por Frederic Goaty, anotações de Franck Bergerot sobre cada disco e um DVD, além de fotos raras. Um mergulho profundo na alma do jazz de Miles.
As ideias criativas nunca se esgotaram em Miles Davis, que afirmaria: “elas me saltavam da cabeça”. E arrematava: “Me dizem que meu som parece uma voz humana, e é isso que quero que seja”. Para Miles Davis, música e vida são estilo. E advertia: “É preciso ter estilo no que quer que se faça – literatura, música, pintura, moda, boxe, tudo. Alguns estilos são elegantes, criativos, imaginativos e inovadores, e outros não”. E o estilo de Miles foi tudo isso e muito mais. Como músico, sempre esteve na linha de frente do jazz e sempre buscou novas explorações e desafios. A chama ardente do jazz marcou sua trajetória. Como poucos, o trompetista incorporou a alma da música afro-americana improvisada e sua experimentação sonora é fruto desta vivência e parte essencial da evolução do jazz. Para ele, a música estava sempre mudando. E mudando por causa das épocas e da tecnologia disponível.
Uma obra-prima e ícone do jazz moderno
O disco "Kind of Blue", um ícone do jazz, completou 50 anos, em 2009, e ganhou reedição de luxo com dois CDs, incluindo faixas extras, documentário e entrevistas em DVD e um livreto pelo selo Columbia/Legacy, no Brasil, Sony. A versão norte-americana trazia ainda um vinil de 180 g . As duas sessões de gravação do álbum foram realizadas em 2 de março e em 22 de abril de 1959 e o disco foi lançado em 17 de agosto de 1959. A expressão “Kind of Blue” pode ser traduzida como “um pouco triste”, ou “um pouco blue”. E “So What” – faixa inicial do álbum – pode ser traduzida como “E daí?”. Já a expressão “modal” significaria “de escalas”, ou seja, “toda música ou todo sistema diatônico que obedecesse a um padrão de uma única nota ‘tônica’ central seria modal”. Na verdade, Miles Davis utilizava estas expressões usualmente e, por isso mesmo, são reveladoras de como coisas simples podem significar muito.
No livro "Kind of Blue - A História da Obra-Prima de Miles Davis" (Editora Barracuda), o norte-americano Ashley Kahn, empreende um mergulho fundo em uma das criações mais inventivas do universo jazzístico e um divisor de águas na própria trajetória do trompetista. Prefaciado por Jimmy Cobb (20/01/1929), baterista e único músico vivo do sensacional sexteto de Miles Davis que atuou nas duas sessões de gravação de “Kind of Blue”, em 1959, o livro revela os bastidores das gravações e mostra porque este disco é considerado uma das mais significativas expressões musicais do século XX. O próprio Ashley Kahn afirma: “No santuário do jazz, ‘Kind of Blue’ é uma das relíquias sagradas”. No entanto, esclarece que “o álbum fez menos barulho quando saiu do que sua reputação atual poderia sugerir – fazendo sua mágica na música por meio da evolução, não da revolução”.
Miles Davis, em sua autobiografia, garante que “Kind of Blue” resultou da forma modal que começara em “Milestones”, mas desta vez, foi acrescentado outro tipo de som que lembrava o do Arkansas “quando voltávamos da igreja e o pessoal tocava aqueles hinos de igreja sensacionais. Me voltou aquele sentimento e comecei a me lembrar do som e da sensação daquela música. Era dessa sensação que eu tentava me aproximar. Aquela coisa entrara em meu sangue criativo, minha imaginação, e eu esquecera de que ela estava lá”. Assim, “compus um blues que tentava retornar àquela sensação que eu tivera aos seis anos de idade, andando com meu primo pela estrada escura do Arkansas. Compus uns cinco compassos disso, gravei e acrescentei uma espécie de som cortante na mixagem, porque essa era a única forma que eu tinha de entrar no solo do piano. Mas a gente compõe uma coisa e aí vêm outros caras, tocam a partir dela e a levam pra outro lado, através de sua criatividade e imaginação, e a gente não sabe mais pra onde achava que estava indo. Eu tentava fazer uma coisa e terminava fazendo outra”.
E Miles vai mais fundo na explicação sobre como gravou o histórico disco: “Não compus a música de ‘Kind of Blues’, apenas fiz uns esboços do que todos deviam tocar, pois queria espontaneidade na execução. Tudo saiu na primeira tomada, o que indica o nível em que o pessoal tocava. Foi lindo. Mas quando digo às pessoas que não consegui fazer o que tentava, que não consegui obter o som exato do piano de dedo africano naquele som, elas me olham como se eu estivesse doido. Todos dizem que o disco é uma obra-prima – eu também gostei – e acham que estou tentando gozá-los. Mas foi isso que tentei fazer na maior parte desse disco, particularmente em ‘All Blues’ e ‘So What’. Simplesmente não consegui”.
Kahn afirma que o solo de Miles em “So What” demonstra duas vertentes fundamentais da sonoridade de seu trompete: “Seu gênio para a simplicidade. Há quase um exagero de economia em seu método, contornando sons prolongados e silêncios para obter um efeito irresistivelmente casual e um palpável senso dramático. A outra característica distinta de Miles é a referida tendência de adiantar o ritmo e jogar com as divisões”.
Mas uma das revelações mais marcantes de Kahn sobre “Kind of Blue” foi o efeito que a música criada pelo sexteto produziu em John Coltrane, apesar de toda a música de influência modal que Davis, Cannonball, Heath e, depois, Zavinul produziriam, “nenhum músico foi mais afetado pela experiência modal deste disco e nenhum seria mais influente do que John Coltrane”. E lança mão do biógrafo Lewis Porter para explicar: “O solo em ‘So What’ indica o rumo que a música de Coltrane tomaria nos anos 60, mais que ‘Giant Steps’. Ele se tornou cada vez mais preocupado com os aspectos estruturais da improvisação; com isso, se concentrou exclusivamente nos conhecimentos modais, o que deu a ele o tempo para desenvolver suas idéias minuciosamente”.
Ashley Kahn assegura na introdução do livro que, quando começou a pesquisa, a Sony Music forneceu pleno acesso a todas as informações, fotografias e gravações dos seus arquivos, além de facilitar o contato com antigos funcionários. Assim, “localizei relatórios das fitas e das sessões que revelavam a identidade da equipe de gravação que trabalhou em ‘Kind of Blue’, cuja maioria – assim como os membros do sexteto, com exceção do baterista Jimmy Cobb – não está mais entre nós. De conversas com engenheiros da Columbia da época, pude formar um quadro do que era trabalhar no 30th Street Studio, antiga igreja onde o álbum nasceu”.
E, para aproximar o leitor do efetivo processo de criação do álbum, Kahn lançou mão da transcrição e da discussão das sessões de gravação. O texto original da contracapa de Bill Evans – “Improvisação no jazz” – foi encontrado “impecavelmente escrito à mão e quase sem edição", assim como as fotografias do engenheiro de som Fred Plaut, “jamais publicadas e que mostram as notações musicais de um tema de estrutura modal”. Kahn afirma que o trompetista e Evans demonstraram, neste disco, ser dois exploradores musicais unidos por paixões e visões afins: “Eles compartilhavam um lirismo obsessivo e um fluxo melódico que mais sugeria do que manifestamente definia a estrutura musical”. Miles ao falar de Bill Evans demonstra todo seu sentimento: “Bill possuía aquela chama silenciosa que eu adorava no piano. Da forma como tocava, o som que ele extraía era como silvos de cristal ou água cintilante caindo de uma cachoeira limpa. Red conduzia o ritmo, mas Bill se entregava a ele...”.
O autor do livro também afirma na introdução que, além das informações obtidas na pesquisa, “fui sendo igualmente tomado pelos aspectos mais místicos do álbum”. “A lenda de sua criação pura, em takes únicos. A combinação alquímica de influências de música erudita e música folk. A interação da filosofia menos-é-mais de Miles e do estilo igualmente enxuto de Bill Evans com o restante da banda, mais eloquente. O drama de Davis, que, movido pela interminável busca por novos estilos, criava uma obra-prima para então abandoná-la em favor de uma próxima empreitada. Fui desafiado a examinar o que havia de verdadeiro na mitologia do disco. Todo o álbum teria sido de fato improvisado, e não planejado? Miles realmente compôs tudo? ‘Kind of Blue’ mudou o território do jazz para sempre e, em caso positivo, como? Para fazer justiça ao álbum, eu precisava me transportar ao tempo e ao lugar que o gestaram”.
Ponte entre o jazz e o rock
Os 47 anos do lançamento de “Bitches Brew”, um dos discos mais inusitados e controversos de Miles Davis, são celebrados em 2017. Marco da fusão jazz - rock’n’roll nos anos 1970, o álbum foi um divisor de águas na trajetória de Miles e impulsionou o que passou a ser chamado de jazz-fusion. O trompetista revelava: “O sintetizador mudou tudo, quer os músicos puritanos gostem ou não. Veio para ficar, e a gente pode curtir ou não”. Em 2010, foi lançada uma edição comemorativa, em dois CDs, reunindo as gravações originais remasterizadas e duas versões de estúdio até então inéditas. Além disso, incluiu um DVD, onde Miles está acompanhado por Wayne Shorter (saxofone), Chick Corea (piano), Dave Holland (baixo) e Jack DeJohnette (bateria), em Copenhague, em novembro de 1969, no Festival Tivoli Konsertsal.
Enfim, o mundo da música agradece a contribuição de Miles Davis para tornar melhor o século XX e o início do século XXI.
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