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2.11.17
Crônica de finados e desafinados
Requiescant in pace (*)
Num dia de finados de alguns anos atrás, comecei a fazer uma pesquisa sobre o tema da morte para cometer uma croniqueta e vi que precisava mais de uma vida para reunir todas as coisas interessantes que disseram sobre esse tema assustador e muitas vezes incômodo (para o mundo moderno - ocidental).
Escolhi então falar da parte amena do assunto. Daí, comecei pelos epitáfios (**), justamente a parte final do processo, talvez a inscrição do último pensamento do defunto (ou dos parentes) na fria pedra da lápide do túmulo e percebi que alguns deles têm lá sua graça.
Comecemos por Ramón Gómez de la Serna que disse uma coisa intrigante: “Ninguém sabe o que é morrer, nem os mortos”. Mas, observe que apesar disso muitos dos clientes dos cemitérios querem deixar alguma mensagem, talvez para distrair seus visitantes, enquanto estão vivos, e passeiam circunspectos pelas alamedas do derradeiro condomínio.
Diz um adágio popular que “o epitáfio é o último cartão de visitas de um homem”. Apesar de existir também aquele antigo ditado francês,“ser embusteiro como um epitáfio”, esse costume foi se enraizando na nossa cultura mortuária e nem sempre elogia o cadáver, ao contrário, muitas vezes ironiza os viventes e o próprio defunto. É o caso do Bispo de Langres, Louis Barbier, que no seu testamento ofereceu cem escudos para quem fizesse um epitáfio bacana. Ganhou o seguinte texto: “Aqui jaz um grande personagem/ Que foi de muito ilustre linhagem/ Que possuiu mil virtudes/ Que jamais enganou/ Que sempre foi prudente/ Não vou dizer mais nada/ Seria mentir muito por cem escudos”.
Alexandre o Grande recebeu um, que fez juz à sua fama: “Uma tumba agora é o bastante para quem o mundo não era suficiente”.
Molière, parece que escreveu seu próprio epitáfio: “Aqui jaz o rei dos atores. Agora se faz de morto e na verdade, o faz muito bem”.
No seu túmulo, Passerat adverte: “Amigos, não encham minha tumba com maus versos”.
O do filósofo Diógnes é muito sarcástico: “Ao morrer joguem-me aos lobos, já estou acostumado”.
O epitáfio do poeta Antonio Espina é uma pérola de embriaguez: “Aqui jaz de boca para cima aquele que caiu de bruços, muitas vezes, na vida”.
Também existem epitáfios inventados; um, feito pelo escritor Max Aub para a tumba de D. Juan, é de morrer de rir: “Matou quem ele quis”. Falando em humoristas, Grouxo-Marx mandou escrever no seu ‘apart-mortel’: “Desculpe-me por não me levantar, Madame”.
Orson Welles, mesmo depois de passar desta para melhor, manteve sua genialidade. No seu túmulo está gravado: “Não é que eu tenha sido superior. Os demais é que eram inferiores”. Miguel de Unamuno, por sua vez, fez também sua última gracinha: “Só peço a Deus que tenha piedade da alma deste ateu”.
Na tumba do compositor Bach está escrita uma mensagem de duplo sentido: “Daqui não me ocorre nenhuma fuga”.
O escritor H.L. Mencken sugeriu um texto final que tem todo o seu humor: “Se depois que eu partir deste vale, você se lembrar de mim e pensar em agradar meu fantasma, perdoe algum pecador e pisque seu olho para uma garota feia”.
Existem os epitáfios profissionais. Por exemplo, o de Benjamin Franklin, inventor e impressor, entre outras coisas, é muito criativo. Diz o seguinte: “O meu corpo, como um velho livro, sem enfeites aqui jaz. Alimento para os vermes. Porém, acredito que aparecerei, em breve, numa nova edição, corrigida e melhorada pelo Autor”.
Na tumba do transformista Fregoli, em Viareggio está escrito: “Aqui ele realizou sua última transformação”. No de um apreciador do ócio: “Aqui Fray Diego repousa. Jamais fez outra coisa”. Outros celebram a guerra conjugal. Em Guadalajara, existe o verdadeiro epitáfio da viúva alegre: “A meu marido, falecido depois de um ano de matrimônio. Sua esposa com profundo agradecimento”. Em contrapartida, em outro cemitério encontra-se a vingança de um esposo insatisfeito: “Aqui jaz minha mulher, fria como sempre”.
Não podemos esquecer daqueles tipo ‘Procon’: “Voltarei para me vingar dos bancos”.
Em Minnesota encontra-se outro que é genial: “Falecido pela vontade de Deus e mediante a ajuda de um médico imbecil”.
Dizem que num cemitério do Rio de Janeiro existe um que brinca com o caráter bélico de seu morador: “Aqui jaz o General X. Transeunte, passe tranquilo. Está morto!”.
Mas, nada se compara à sinceridade da inscrição que se encontra num cemitério da Catalunha: “Levantem-se vagabundos, a terra é para quem trabalha”.
O de Allan Poe, sem brincadeira, supera todos, é a citação do seu famoso poema O Corvo. Realmente é definitivo: “Nunca mais”.
(*) “Descansem em paz”. Palavras do Ofício dos Mortos, encontradas no portal de muitos cemitérios - retirado de Não perca o seu latim, de Paulo Rónai (Editora Nova Fronteira)
(**) Soube que na sua origem, o epitáfio se constituía num privilégio da nobreza.
FONTES: Diccionario Ilustrado de la Muerte de Robert Sabatier (Gustavo Gilli- Barcelona)
www:geocities.com/soHo/studios/72581/epitafio.html-8k , http://platea.pntic.mec.es/~jescuder/epitafio.htm,Epitaph Index(A-Z).
Um leitura interessante é o ensaio histórico-antropológico de Philippe Ariès "História da Morte no Ocidente - da Idade Média aos nossos tempos"
9.6.17
Caricaturas do Ivan Lessa - 5 anos sem ele
Do fundo do baú: Caricaturas de Ivan Lessa (9/5/1935 - 8/6/2012) Cinco anos sem seu humor. E como faz falta!
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arte gráfica,
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Ilustração,
Ivan Lessa
15.4.17
ROUBARAM UM DESENHO DESTE BLOG E ADULTERARAM.
Estou indignado!
Uma pessoa, ou um grupo de um blog que ainda não descobri qual foi, roubou um desenho deste Blog, adulterou de forma grosseira a ilustração e postou nas redes sociais.
Só fui perceber quando vi meu desenho adulterado (e com textos ofensivos) na linha de tempo de um amigo meu, no Facebook.
Era um desenho de minha autoria da malhação do Judas, material que ilustrou uma crônica sobre minha infância, como se pode ver na imagem que postei logo abaixo desse texto. (A postagem original foi no dia 3 de abril de 2010).
Não vou compartilhar como ficou o desenho que foi totalmente adulterado, para não dar visibilidade a esse crime que cometeram.
Só vou adiantar que essa pessoa ou grupo a serviço de um blog pretensamente de esquerda, alterou o citado desenho, fazendo uma colagem de uma foto nele e incluindo textos de propaganda política e incitação à violência.
Já reclamei nas páginas do Facebook onde protestei e informei minha indignação a respeito desse roubo, da alteração e do uso indevido de minha obra
Além disso, usando as ferramentas do Facebook, tentei pedir a exclusão dessa postagem. Mas não obtive respostas dos administradores desse site, que costumam ter uma política para eliminação de material denunciado.
Quero aqui, de forma educada tentar fazer uma advertência: Não se pode tolerar práticas desse tipo, por gente que pretende defender o campo democrático.
Se querem fazer política, construam, criem seus instrumentos, suas artes e não usem, de forma abusiva, as artes e criações dos outros.
Imagem que foi adulterada
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)
Uma pessoa, ou um grupo de um blog que ainda não descobri qual foi, roubou um desenho deste Blog, adulterou de forma grosseira a ilustração e postou nas redes sociais.
Só fui perceber quando vi meu desenho adulterado (e com textos ofensivos) na linha de tempo de um amigo meu, no Facebook.
Era um desenho de minha autoria da malhação do Judas, material que ilustrou uma crônica sobre minha infância, como se pode ver na imagem que postei logo abaixo desse texto. (A postagem original foi no dia 3 de abril de 2010).
Não vou compartilhar como ficou o desenho que foi totalmente adulterado, para não dar visibilidade a esse crime que cometeram.
Só vou adiantar que essa pessoa ou grupo a serviço de um blog pretensamente de esquerda, alterou o citado desenho, fazendo uma colagem de uma foto nele e incluindo textos de propaganda política e incitação à violência.
Já reclamei nas páginas do Facebook onde protestei e informei minha indignação a respeito desse roubo, da alteração e do uso indevido de minha obra
Além disso, usando as ferramentas do Facebook, tentei pedir a exclusão dessa postagem. Mas não obtive respostas dos administradores desse site, que costumam ter uma política para eliminação de material denunciado.
Quero aqui, de forma educada tentar fazer uma advertência: Não se pode tolerar práticas desse tipo, por gente que pretende defender o campo democrático.
Se querem fazer política, construam, criem seus instrumentos, suas artes e não usem, de forma abusiva, as artes e criações dos outros.
Imagem que foi adulterada
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)
29.5.15
Saiu do forno o livro "Diários da Patinete - sem um pé em Nova Iorque"
O livro Diários da Patinete - sem um pé em Nova Iorque(Editora Texto Território), de Lidia V. Santos é, na falta de uma definição mais precisa (será ficção, autobiografia, ensaio, crônica?), uma ficção autobiográfica-ensaística em forma de crônica diária. Enfim é tudo isso junto e misturado - em síntese: uma saborosa viagem exploratória que parte de uma dificuldade de movimento, para se transformar numa aventura de superação, com muito humor na selva de símbolos (como diria Marshall Berman), inaugurando um curioso novo olhar "autônomo" (possibilitado pela patinete) dentro da maior cidade do mundo. Um olhar que, apesar de sua novidade (uma patinete que estimula a escrita) está inscrito numa antiga tradição literária, inspirada nas sacadas de E. T. A. Hoffmann, Xavier de Maistre,Paul Scarron e que se permite a dar "uma olhadinha" até na janela indiscreta do moderno cinema de Alfred Hitchcock. Mobilizando sua ampla bagagem intelectual, a autora (Professora, especialista na literatura hispano-americana- com passagem pela UFF, Yale e pela Universidade da Cidade de Nova Iorque) transforma um acidente numa experiência"sui generis", numa rica reflexão sobre o viver e transitar pelas cidades, sobre o viver a História (com seus resgates justiceiros) num mundo que é sempre travessia./
O lançamento vai rolar na livraria Blooks, no dia 23 de junho de 2015.
Local:Espaço Itaú de Cinema, na praia de Botafogo 316.
Perto da data do lançamento, daremos mais informações.
Ah, já ia me esquecendo, tive o prazer de fazer as ilustrações desse livro e a capa foi elaborada pela designer Julia Liberati.
Clique na imagem para ampliar e VER melhor
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Crônica,
ensaio,
ficção,
Lançamento de Livro,
Literatura,
Nova Iorque
21.12.12
O dia (muito antigo) em que o mundo quase acabou comigo
Esta é uma anacrônica (ou croniqueta) muito antiga, nem me lembro onde publiquei e nem sei se as vírgulas estão nos devidos lugares. - Lá vai ela, republico aqui e agora)
No final dos anos 50 os únicos cometas que sacudiam a terra eram os de Bill Halley com um roquenrol de salão, que na época provocava furor, era coisa de “jovens transviados” que quebravam cadeiras de cinema e entravam na rua Augusta a 120 por hora, se não me engano.
Mas, no meu bairro, muito longe das boutiques da moda, correu um boato de que o mundo iria acabar naquele dia, justamente ao cair da tarde.Não me perguntem que dia era esse, que não vou lembrar. Acho que alguém se equivocou ao ouvir uma notícia no rádio de que algum asteróide iria provavelmente passar perto da terra e como quem conta um conto aumenta um ponto , tratou de espalhar o pânico: o mundo definitivamente iria acabar. Passei o dia preocupado com a nossa extinção: então nunca mais bola de gude, pipa no ar, estilingue, filme de caubói, nunca mais raspadinha gelada, quebra-queixo.???
Lembro que naquele dia que prometia ser fatítico não teve aula, depois de um almoço em que quase não comi nada, fiquei vagando pelas matas do bairro a procura de passarinhos e munição que brotava em grandes cachos de mamona. A tarde avançava e como sempre fazia nos dias de folga, rumei para o nosso campinho onde praticávamos um futebol que prometia ser campeão do mundo, um mundo que naquele dia iria acabar.
Lá estavam as feras: Quinho, Durva, Portuguesinho, Tonho, Dirso, Nardo, Bacalhau, Macarrão e outros que , me perdoem, esqueci na poeira do tempo.
O campo, na verdade era um descampado, sem grama, numa espécie de vale de um bairro em contrução. O gol não tinha travessão, só dois tocos plantados de cada lado. A bola era de “capotão. Usava-se, nessa época heróica sebo para ajudar a conservar as costuras e esticar o seu couro: era uma pedra inflada. Jogava-se democraticamente, todos descalços.Os times eram escolhidos no par ou ímpar disputado por dois craques que eram líderes naturais, tinham adquirido uma autoridade no pé, driblando e fazendo muitos gols. Tratavam de escolher primeiro os mais hábeis, os “grossos” (que eram ruins de bola) e os menores ficavam para o final. Aí distribuiam aqueles que sobravam de forma a nenhum dos times ficar mais forte. Eu estava entre os menores,era magrinho mas enjoado, capaz de grandes jogadas e imensos vacilos.
O jogo começou ou melhor dizendo uma renhida batalha do tipo “arraca toco” X quebra dedão” teve início. Foi nesse dia , que numa dividida Tonho quase quebrou meu pé, foi desleal, ele era pelo menos uns 10 anos mais velho do que eu. Mas , pulando feito um Saci fiquei até o final da partida, que aconteceu na hora do crepúsculo, quando tudo fica meio que violeta e já não se divisa mais os limites das coisas- uma quase noite quando não foi mais possível ver a bola. Nesse momento me toquei que o mundo àquela hora já devia ter acabado. Uma felicidade oceânica daquelas que só sente na infãncia tomou conta de mim que fiquei rindo à-toa apesar da dor que tomava conta do tornozelo, já que o sangue começava a esfriar.
Mais tarde percebi que o mundo na verdade chega ao seu fim todo dia, é o tal de movimento que fundiu a cuca dos gregos desde o começo da nossa vã filosofia. Da mesma forma um outro mundo nasce a todo tempo e cada segundo deve ser encarado como um milagre nessa bola azul que Gagárin teve o privilégio de ver pela primeira vez lá de cima. Lágrimas , por favor!
12.4.11
Ilustração para Veja-Rio


Tive o prazer de ilustrar a crônica de Manuel Carlos publicada na semana passada na Veja-Rio. Aqui estão a ilustração e a página.
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Manuel Carlos,
Recente,
Veja-Rio
21.3.10
Twittando e cantando e seguindo a canção

(Recebi o e-mail abaixo do meu querido amigo, o jornalista Sergio Fleury. Seu texto é saborosíssimo e me fez cair na gargalhada. Humor de primeira! - É para ler, se divertir e aprender alguma coisa sobre o que é essa coisa chamada tuíter).
CAROS AMIGOS ! e/ou
A QUEM INTERESSAR POSSA!
Este escriba que ora vos escreve nesta manhã dominical, tem um bom motivo para se comunicar por estes mal traçados caracteres. De formação analógica, como a maioria de vocês, mas um correto aprendiz digital, entrei nesta madrugada adentro me habilitando no twitter. Sim, decidi ser twitteiro, por um motivo: as mensagens não podem ultrapassar os 140 toques. O chamado curto&grosso, técnica bem sedimentada em anos como jornalista.
Resisti bravamente ao orkut, ao facebook, mas resolvi "chilrear, pipiar, pipilar", apesar de achar esses verbos com duplo sentido duvidoso. Na primeira iniciativa, o primeiro problema: existem u'a americana SFleury e um campeão de hóquei sobre o gelo, Fleury.
Saí pela tangente com um FLEURYtter que, embora trocadilhoso, serve de marca. Agora uma breve biografia: "escriba terráqueo, formação analógica, aprendiz digital, twitter neófito: Evoé". Pronto, virei um twitter!
Nunca fui um escrevinhador de cartas, mas até que tenho me relacionado bem via e-mail com meus caros amigos. Mas, e agora, como tuitar? Com quem tuitar?
Bem, passei a madrugada tentando cooptar seguidores, mas o que consegui, até nesta manhã, foi seguir 13 twitters, ou melhor, seguintes. Por enquanto, zero followers e zero listados. E mais: não consegui enviar mensagens nem para os 13 que sigo! Até agora me rejeitaram!
Sinto-me como se tivesse fundado a Igreja Universal do Reino Digital e não tivesse aparecido nem um ímpio fiel. Ou se estivesse sentado à mesa com 12 lugares vazios, sem nenhum conviva para me chamar de Messias e, com quem, poderia dividir meu pão e vinho. Ou pior, ter parado uma carrocinha de cachorro-quente em frente ao Maracanã em dia de Fla x Flu e os torcedores me ignorassem. Em massa.
Enfim, sinto-me numa gaiola digital "chilreando, pipiando, pipilando", sozinho. Não tenho ainda followers. Daí este meu e-mail que, a esta altura da vida "muderna" mais parece uma carta simples fechada com "goma arábica" ou com uma leve lambida na borda da aba gomada, com a mensagem dentro: cheguei bem! Algo jurássico, confesso!
Antes que pense que procuro recordes de followers ou vire celebridade internética, quero apenas que os caros amigos-colegas-conhecidos-de-sempre já ligados saibam que agora eu também sou o FLEURYtter e que estou disponível como um funcionário/a do Bob's (próximo...caixa disponiiivel) para a troca de figurinhas a 140 CA/m (caracteres/minuto).
Abração, lets' twitter, again, Sergio Fleury
ou melhor: http://twitter.com/FLEURYtter
Em tempo:
O personagem do MAD é meu avatar (eu, heim!).
Diante deste mundo inviável, afinal, What, me worry?
3.10.09
Espírito de porco Olímpico

Entrei no espírito Olímplico! Arremessei a conta do condomínio aqui no play ground, e ele foi parar lá longe, acho que uns 200 metros de distãncia. Numa corrida de obstáculos, saltei sobre as contas de luz, gás e telefone. Ah, dei um mortal carpado em cima do plano de saúde que está na estratosfera! Corri feito louco dos credores e os venci nos 100 metros rasos, nos fundos e na maratona de juros sobre juros. Só perdi para uns pivetes que fugiam da polícia , mas isso mostra que nossa juventude está se preparando a todo vapor para as Olimpíadas de 20l6. Falando em pivetes, já estou pensando em investir uma grana em camisetas para turistas que virão assistir aos jogos . Nelas vai estar escrito bem em cima do peito: - Não sou seu tio, não tenho dinheiro, mas gostaria de ter.
Quanto às nossas possiblidades de êxito nos jogos, acredito que na modalidade “arrastão em túneis“, nós vamos arrebentar, e no quesito “tiro ao alvo com balas perdidas” , acho que não vai ter para ninguém.
Quando anunciaram que o Rio tinha vencido Madri, eu vi um velhinho gritar: - Iés uí cam! Ele não tinha um dente na boca feliz e olhe que estava há horas numa fila de um posto médico e saiu de lá com um pedido de exame que vai ser marcado só para fevereiro do ano que vem! . Sem dúvida, esta é outra modalidade de esporte que acrescentaremos aos jogos que se realizarão em nosso território pátrio: “Resistência em fila de Hospital“. Um rapazola que estava passando no local, em que o idoso gritou de felicidade , acrescentou que deveríamos também botar uma prova de “re- vazamento“, já que ele tinha gastado todas suas baterias etudando para o Enem , mas necas, a prova tinha vazado e tudo foi pro brejo. Ele disse que nunca viu tanto vazamento no país. Toda hora vaza alguma coisa para a imprensa…
De qualquer forma, estou feliz. Não sei porque, mas acho que todos os cariocas que vibraram também não sabem. A alegria aqui é uma pandemia! Também, não é qualquer prefeitura que decreta ponto facultativo numa sexta-feira só pro pessoal ir para Copacabana assistir à eleição do COI e ter um show “de grátis”.
Talvez possamos criar uma organização para controlar os gastos dos investimentos nas obras - um portal-transparência, para evitar a mão grande na hora das contas. Talvez até 2016 tenhamos uma campanha do tipo : Fora corrupa! Só espero que essas Olimpíadas ajudem o Rio a retomar sua autoestima, resolver a encrenca do transporte público, da saúde, o problema das comunidades carentes, da segurança do cidadão e que se reestabeleça a paz na cidade partida.
Só não entendi uma coisa: Por que a população de Chicago rejeitou sediar os jogos Olímpicos de 2016 e o pessoal de Tóquio não se interessou muito por essa parada?
Confesso que fiquei com a pulga atrás de orelha, e olha que ela é uma saltadora "medalhada"!(ou seria medalhista?)
Bem, vou parar por aqui, que já cansei dessas Olimpíadas…Ufa!!!
1.10.09
O golpe e o pijama

É golpe. No início, eu não tinha dúvidas por instinto, depois veio a condenação da comunidade internacional. Mas até aí morreu Neves, a comunidade internacional demora demais nos discursos.
Porém se ainda alimentava alguma dúvida lá no meio da minha cachola destrambelhada , o artigo do Professor de direito constitucional Pedro Estevam Serrano esclareceu tudo e me cercou de certezas. Foi golpe, é golpe, será para sempre golpe e entrará para a História da América Latina como golpe de Estado, aquilo que aconteceu em Honduras. Da leitura desse artigo, publicado na Folha de São Paulo de ontem, a gente fica por dentro da carta constitucional hondurenha, onde não existe nenhuma linha que justifique, que dê uma base jurídica para essa trapalhada golpista de retirar um presidente da cama e mandá-lo de pijamas para fora do país. Na mesma Folha, Elio Gaspari aprova a atitude de Lula de aceitar Zelaya na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa.
Não vamos entrar aqui na análise do presidente deposto, no fato dele usar o território “brasileiro” em solo hondurenho para fazer política com aquele chapelão folclórico. Nem das suas intenções de tentar mudar a lei que não permite reeleição em seu país - a Constituição lá deles não diz que deve-se tomar o poder na base da força em nenhuma hipótese e nem abre a possibilidade de um processo legal para a deposição do presidente no caso dele tentar fazer um plebiscito, ou coisa que o valha. Não vamos falar também da ambiguidade do governo dos EUA em relação ao caso e sua preguiça em tentar resolvê-lo. Se os EUA tivessem a intenção de dar um fim ao imbroglio , decerto ele nem teria existido - Chomsky em entevista para o site G1 mata a cobra e mostra o pau.
O que me deixa intrigado é o fato de quase todas as notícias e análises que procuram botar o fato em perspectiva utilizam a imagem do “presidente de pijamas“ ou (seria em pijamas?- não seria só pijama?).
Tudo leva a crer que um homem de pijama é um ser que está em grande desvantagem. Lembra a imagem ” trajes menores” que evoca uma certa fragilidade do ser humano. Talvez se estivesse só de cuecas a situação ficaria muito pior, se tornaria cômica. Pois, creio que devem existir presidentes que dormem de cuecas. Mas de pijama, de qualquer forma é uma situação que mostra uma certa pressa das forças depositoras nesse episódio lamentável. Uma urgência desmedida - não deixaram o homem nem botar um terno, ou um casaquinho e umas calças compridas. Deve ter saído da cama e procurado suas chinelas, ou será que foi só de meias, ou descalço? Seria cômico também se estivesse de bermudas pois aí se estabeleceria uma confusão dos diabos nas agências internacionais de notícias, pois existe um país chamado Bermudas e muita gente iria pensar que o golpe tinha sido lá e não em Honduras.
De qualquer forma, uma autoridade ser tocada pra fora de pijama é algo contraditório, se por um lado humilha o sujeito de pijama, ao mesmo tempo dá um tom sombrio de coisa feita na “calada da noite” , que mostra o caráter sujo da operação.
Mas agora a meleca está feita, o Tegucigolpe foi dado, o homem já está recomposto com roupas de vaqueiro, dormindo vestido na nossa Embaixada. Não cabe ao nosso presidente resolver esse problema. A encrenca é da América, da OEA, da ONU.
Mas se Lula quisesse resolver a querela, seria o caso de propor um jogo amistoso entre a Seleção brasileira e a hondurenha. Não fizeram um espetáculo semelhante no Haiti? Se a Seleção de Honduras perder, o Zelaya volta ao poder e promete ficar quietinho dentro do seu pijama, dormindo tranquilo na sua casa, até passar as próximas eleições. Se o selecionado canarinho perder, o Zelaya volta no mesmo avião para o Brasil e depois vai para a Venezuela onde poderia montar seu governo no exílio. (Nos anos 60 Paris comportou vários governos no exílio).
Tem gente que vai achar que não é uma solução justa, mas sabe como é que é: futebol é uma caixinha de surpresas, no entanto é uma instituição civilizada( veja ensaio de Norbert Elias e Eric Dunning), mesmo com zagueiros violentos, é muito melhor que certas “políticas” que se praticam no nosso continente.
26.9.09
Crônica: O Senhor Embaixador

Confesso que sou distraído . Em geral me perco olhando bobagens, detalhes da arquitetura de um prédio, o desenho de uma árvore, borboletas a dançar na Candelária... Quando estou no meio de muita gente, como, por exemplo, numa vernissage, luto para não fugir dali, mas quando é invevitável ficar, sinto que ponho em perigo todos que estão em volta com minhas trapalhadas de homem tímido. Foi o que aconteceu num verão de 1992, por ocasião de uma exposição coletiva de cartuns, em Buenos Aires, mais precisamente no centro cultural que fica num antigo ex-mosteiro, no simpaticíssimo bairro de La Recoletta. Dizem que esse bairro é tão bacana, que até o cemitério não mete medo. Em todo caso não fui conferir.
Minha aventura começou logo na madrugada do dia da viagem. O despertador me acordou de um sono que eu não tinha dormido, de tão tenso que estava. Peguei um táxi e fui voando para o aeroporto onde embarquei, morto de medo num avião da Varig. Nessa hora já se descortinava uma manhã de sol lindo no Rio de Janeiro. Quando o avião levantou voo, olhei pela janelinha e vi um céu de brigadeiro que anunciava que tudo iria dar certo. Coitada da simpática mocinha que sentou ao meu lado, teve que ouvir minhas histórias em portunhol, já que tinha esquecido "Fenomenologia do Espirito" em casa. ( eu tenho um medo real de voar e compenso de várias formas, ou falando ou lendo Hegel)
A pobre garota, que no íntimo, deve ter me achado um chato de galocha, me perguntou no meio da conversa se eu era originário da Galícia, onde se fala um português misturado com espanhol, fingi não entender a ironia. Porém a garota foi generosa e me aturou, talvez compreendendo o pavor - que devia estar estampado em letras garrafais em meu rosto.
Minha aventura continuou no Aeroporto Ezeiza, onde com um pesado portafólio cheio de desenhos debaixo do braço e um blazer escocês de inverno, sob um sol de fritar ovo frito no asfalto, embarquei num ônibus de linha comum em direção ao centro da cidade. O referido coletivo fez um verdadeiro tour pelos bairros periféricos de Buenos Aires onde conheci uma avenida que é cortada por várias ruas com nomes de poetas. Um encanto!
Depois de horas saltei perto da calle Marcelo T. Alvear onde , uma amiga jornalista , corresponsal (como se fala por lá) do jornal onde eu trabalhava tinha feito a gentileza de reservar um quarto num Hotel por um preço módico.
Tomei um banho frio e afundei num sono justíssimo, para saldar o débito que tinha acumulado entre a minha cama do Rio e aquela de Buenos Aires. Fui acordado por Rrulio, meu querido amigo que organizou a exposição . Ele me convocava para comparecer a um programa de TV naquele exato momento. Eu, bêbado de sono, disse que não me encontrava em condições de pensar, que estava catatônico, que Tico no hablava com Teco naquela altura do campeonato. Ele foi compreensivo, e então combinamos que eu participaria de um encontro com os cartunistas-expositores num programa de uma rádio local. Em seguida participaríamos de um progama de TV onde faríamos a divulgação da nossa mostra de cartuns.
E foi o que aconteceu. Encontrei um time fabuloso de desenhistas de humor de nuestra América e nos divertimos a valer num progama de rádio muito descontraído. Num determinado momento me perguntaram o que eu achava do governo Collor (que já provocava polêmica e uma certa curiosidade pelo seu fraseado) e eu disse que responderia se eles me dissessem o que significava a expressão "Duela a quien duela" que nosso ex-presidente tinha usado naquela época - não me lembro em relação ao que. Como eles não souberam responder qual o sigificado dessa frase lapidar, eu disse que esse era o problema do governo collorido, ninguém conseguia entender o que ele hablava. Depois gastei meu portunhol num programa de TV - desses que fazem a delícia das tardes das donas-de-casa, onde se discutia o tema da "mulher separada" que era a última moda que chegava tardiamente ao território portenho. A mulher de um dos desenhistas argentinos, que estava no nosso time, disse mais tarde, que viu o programa na TV com muita atenção, mas não entendeu nada do que eu falei.
O que importa é que saimos vivos do estúdio, porém quase morremos afogados depois que uma tromba d'agua se abateu sobre a cidade. Nunca pensei viver uma enchente na Londres do Mercosul!
Voltei todo molhado para o hotel, tomei um banho quente para afastar o resfriado e botei minha fatiota para a noite de glória.
No centro cultural de La Recoletta tava uma animação danada, lá vi meu cartum com modura e tudo , pendurado ao lado dos meus companheiros de traço e entre eles, o do magnífico Quino, nosso herói, que ainda não tinha pintado por lá e era aguardado com grande expectativa por todos.
De repente Rrulio me pega pelo braço e diz , Bruno, você tem que conhecer o embaixador da Itália , venha comigo... e lá fomos para a porta de entrada . Eis que um homem meio calvo, de óculos de aros grandes , dentro de um terno bem cortado, com uma gravata esplendorosa vinha subindo a escada e eu sem mais nem menos cumprimentei:
- Seja benvindo Senhor embaixador!!!!
Riso geral....Rrulio recuperado da gargalhada me disse:
- Bruno , você acabou de saudar Quino....qua qua qua...
Tratei de me refazer rapidamente da gafe e mandei essa:
- E Quino não é nosso embaixador do humor?!
Confesso que essa saída foi meia boca, mas Quino foi muito simpático, disse que eu parecia com um dos personagens dele- e para minha surpresa, fez questão de conhecer meu cartum ...Pois é foi assim que paguei um belo mico na bela ciudad de las cupulas ao confundir o grande Quino , ou melhor o grande Joaquín Salvador Lavado com o embaixador da Itália.
***
Faz pouco tempo, soube que inauguraram uma estatueta de Mafalda em San Telmo , bairro onde Quino passou sua infância. Eu o vi numa foto ao lado de sua personagem. Fiquei imensamente feliz de ver que ele não tinha mudado em nada.
21.9.09
A morte de uma velha senhora

(Hoje é dia da árvore. Aproveito para publicar uma croniqueta que está na gaveta faz algum tempo. É que ela sempre me parecia provocação comparada ao gritante noticiário político policial do Brasil.)
Assisti de camarote a tortura e o assassinato de uma árvore, uma senhora que estava perto dos seus 7o anos. Não fiz nada para impedir a sua destruição. Se fizesse, creio que seria preso ou internado num manicômio. Lembro-me do cineasta Roberto Santos que dirigiu o maravilhoso “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” baseado no conto de Guimarães Rosa. Ele, um dia, para evitar a remoção de uma árvore que ficava perto de sua casa, subiu nela e lá ficou em protesto.
Diz aquele ditado popular que todo homem para se sentir realizado deve ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Quanto ao assunto filhos, só posso dizer que estou contente com os meus, mas a questão é polêmica. Um personagem de Machado de Assis, parece que, expressando seu pensamento, disse que não deixaria o legado de sua miséria neste mundo. O poetinha Vinicius de Moraes dizia que seria melhor não tê-los, mas se questinonava como sabê-los sem tê-los? Conheço muitos livros péssimos,mas nenhuma árvore má. Apesar dos homens usarem os galhos de algumas para enforcar outros, acusados de serem bandoleiros, ladrões de gado, como nos filmes do velho Oeste. As árvores são sempre benéficas, mesmo quando com suas raízes ameaçam as tubulações de um edifício ou derrubar os muros que o homem constrói, como diz o biólogo Kinsey à sua esposa no filme que leva seu nome, as árvores são sempre felizes com suas raízes firmememente plantadas na terra.
Enquanto viajava nesses pensamentos, os homens do Departamento de Parques e Jardins faziam seu trabalho. Parece que a poderosa árvore a que me referi no começo dessa crônica estava ameaçando os alicerces da casa que um dia foi abandonada por um homem e agora tinha sido comprada por outro, que estava salvando seu capital investido naquela ruína.Não adiantaria argumentar que a casa é só daquele homem e a árvore é de todos, principalmente dos passarinhos que se lamantariam no dia seguinte com seus cantos tristes… Haverá quem diga que isso é coisa de poeta, de desocupado, mas pergunto: o que substituirá aquele espécime único? Ela que todos os dias era, enquanto viveu, a alegria das minhas manhãs com o seu verde esperança. Nos dias de sol de rachar catedrais, amenizava o calor com sua generosa presença e se tornava mais alegre com as centenas de pássaros que nela se abrigavam ou faziam pouso para novos voos, A música que deles vinha emocionaria o mais frio burocrata, garanto!
Acredito que algum dia, com o avanço tecnológico que temos, será possível "remover" árvores - sem abatê-las. Ela está causando problemas aqui, então transfere a árvore para um lugar onde ela continuará a ser útil.
Sei que deveria falar de política, de bandalheira, de desvio, de quebra de decoro. Preferi falar da tristeza imensa que habitou minha paisagem sem ela, a majestosa árvore para a qual, um dia escrevi este modesto adeus.
11.7.09
A maldição de Wim Wenders

(Esta crônica, conto, não sei bem o que é, só pode ser lida por quem ama ou odeia o cineasta alemão acima citado)
Maldito Wim Wenders ! Ele resmungava e socava a mesa de bar, cheia de garrafas de cerveja vazias que tremiam e faziam um ruído irritante.
- Ô Zaca, desce mais uma !
E lá vinha o dono do estabelecimento com uma Antártica geladinha, casco escuro, senão ele mandava de volta, dizia que era mijo invertido...
- Pois é, eu imaginei que tudo tinha começado com aquele filme... (Ele falava para um ouvinte invisível , talvez aquele da literatura, pois o Zaca nem estava aí para o que ele estava falando, de olho fixo na TV , admirava uma mulata rebolativa que fazia o coro de um cantor de pagode da moda)
- Sempre achei que o veneno estava ali. Que foi com ele que matei aos poucos nosso casamento. Também, tinha que botar ela pra assistir três vezes "O medo do goleiro diante do pênalti"?
É preciso ser macho para aturar aquilo, e não foi só isso: inventei de levar ela pra ver "O Estado das Coisas" que estava passando numa sessão da meia noite do Cinema 1, coitada ...Aquilo deve ter sido dose, mas não foi gota d'água, ainda não foi esse filme o que terminou com as coisas entre nós.
O rapaz estava de fato muito bêbado e parece que indeciso se botava ou não a culpa no cineasta pelo fracasso do seu casamento.
- Deve ser porque um dia eu falei pra ela que essa história de sujeito não existe. O sujeito da relação sujeito, objeto, entende? Falei mais, disse que a gente é uma indeterminação, um fluxo de vários discursos. Mandei na cara dela um papo de que somos produtos da linguagem. Que o autor morreu...E aí, Zaca, tá entendendo alguma coisa desse papo?
- Tudo, meu amigo, tô entendendo tudo.
-Não, você não está entendendo porra nenhuma, Zaca. Não vou ficar aqui citando autores. Basta dizer que é tudo francês e lembra "Quantrô", que se escreve C-o-i-n-t-r-e-a-u, sacou? Falando nisso, desce um "Quantrô" aí, Zaca !
-Esse daí não tem não. Falou o homem, passando em revista as bebidas atrás do balcão.
- Então manda um Steinhaeger mesmo, que eu vou de submarino!
Zaca disse que esse também não tinha.
Então manda um "Fogo Paulista " , que desta vez eu me acabo.
Zaca botou a bebida num copinho e o rapaz tomou num só gole. Em seguida arrematou com cerveja. Uma mistura explosiva, sem dúvida, mas que dava para avaliar o desespero do cara. Ele nem fez cara feia quando aquela química dos diabos invadiu seu estômago, continuou seu discurso encharcado.
-"Paris, Texas" ela até que achou legal. Caramba, tinha o roteiro do Sam Shepard , a trilha era do Ry Cooder em cima do "Dark Was the Night" do Blind Willie Johnson, aquela guitarra riffando bacana com as cordas soltas sob o dedo, presas num anel de aço como fazem os bluseiros. E tinha aquela coisinha maravilhosa que é Nastassja Kinskie. Ah, e para variar tinha o Wilson Grey deles, o tal de Harry Dean Stanton. O bicho estava em todos os filmes "cults" que fizeram naquela época....Porra, acho foram esses filmes que acabaram com tudo... maneira de dizer, mas no fundo creio que fui eu que devo ter virado um ser estranho naquela casa. Mas ela gostou de "Paris, Texas", Zaca! Também pudera, Paris, Texas é um puta filme! E não é um filme cabeça...deve ser isso...acho que ela não curtia filme cabeça, Zaca!
Mas tinha a questão teórica, e eu era uma besta. Nem percebi que ela me olhava perplexa, enquando eu desconstruia as coisas que ela dizia, e me metia a falar de simulacros e simulações. Me lembro de um dia em que eu comentava que a realidade era uma ficção e ela estava falando alguma coisa sobre o supermercado. Aí eu acho que empombei e disse que esse sim era um grande exemplo do da sociedade se rendendo ao consumo , o supermercado como o templo do consumo. Puta clichê, Zaca! Como eu me afundei nessa... Olhe que nem falei dos shoppings, falei do grande fator diluidor que reside no núcleo dos supermercados - alcachofras ao lado de pasta dental e camisinhas. Produtos iguais na desigualdade, gôndolas, caixas registradoras, seguranças, uma prisão de prazer, uma prisão do consumo. E as meninas diante das caixas registradoras, todas naqueles uniformes de colégio interno...No fundo mais uma prisão. Ah! meu Deus, ela só queria que eu comprasse umas fraldas descartáveis e um pote de Hellmann's! E eu cheio de conceitos.
Mas aí veio "Asas do Desejo" , depois "O Céu de Lisboa" , e teve também "Até o fim do mundo"....
Cacete, eu devia ter levado ela pra ver filmes da Meg Ryan!
Quando entrei numa de explicar o pós-moderno, ela aguentou firme . Só chiou um pouco quando eu disse que era o fim das grandes narrativas. Mas acho que o bicho pegou mesmo quando apareci com o vídeo "O fim da violência" para a gente assistir depois do Fantástico. Ela , eu creio, dormiu durante o filme. De qualquer forma, não entendeu o final e ficou me olhando com uma cara de bunda. Eu tentei explicar, e quanto mais eu explicava, mais ela se irritava, o caçula começou a chorar lá no quarto, eu acendi um cigarro, na chama do fogão que esquentava a mamadeira, ela mandou eu apagar, eu mandei ela para aquele lugar e acho que aí foi o fim. Cacete, e eu nem percebi... Muito tempo depois a gente resolveu dar um tempo. Sabe como é, desgaste da relação, coisas de casal...Em uma semana as coisas estariam consertadas. Passaram 3 anos...
Ontem, por acaso encontrei com ela no Estação Botafogo, tava com seu novo marido na fila de "Cada Um Com Seu Cinema" que é uma coletânea de 34 curtas de vários diretores. Cada um deles filmou 3 minutos- coisa muito avançada.Mas ela fez questão de me dizer que veio mesmo para ver a parte feita pelo Wim Wenders, os 3 minutos de "War in Peace". Foi aí que eu pirei, "mermão"!
Zaca disse que não era bem assim, que certas coisas não se explicam. Sem que o rapaz pedisse ele abriu mais uma cerveja e desta vez botou um copo pra ele também. Como era o nome do cara mesmo?
- Que cara, Zaca?
- O que acabou com seu casamento?
- Tavinho, eu mesmo, seu criado...
E assim trincaram os copos num brinde melancólico.
Corta!
19.6.09
Leia no meu blogue do Youpode a crônica sobre os perigos do relacionamento aberto

Leia a nova versão de uma crônica que saquei da minha gaveta mediática depois que vi na TV, que foi feita a primeira pesquisa oficial sobre a traição e o comportamento sexual do brasileiro. Esse texto reescrito( revisado e reduzido) está no meu blogue no youpode
12.6.09
Leia minha crônica "Divina tatuagem" no youPode

Para comemorar o dia dos namorados cometi uma croniqueta que se chama "Divina tatuagem" que postei no meu blogue do youPode. Para ler é só clicar no seguinte endereço http://youpode.com.br/blog/liberati/
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23.5.09
Leia crônica "Filmes cabeça" no meu blogue do youpode

Nessa época de festival em Cannes, não resisti à tentação de republicar uma crônica - só que revista e ampliada. Trata-se de "Filmes Cabeça" que "postei"no meu blogue do youpode cujo endereço é http://youpode.com.br/blog/liberati/
O ingressso é grátis!
27.4.09
Leia crônica do Homem que diz Não no meu blogue do youpode

Tô fazendo um link com o youPode. Lá você pode ler minha crônica sobre uma figura curiosa, que encontrei no início da década de 70, na lunga giornata notte addentro daqueles anos de chumbo. Trata-se do Homem do Não. Para ler a crônica é só clicar no seguinte endereço http://youpode.com.br/blog/liberati/
2.1.09
Detonaram o Big Bang! ( o fim do começo)

Mergulhado nas preocupações com a nova teoria que derruba o Big Bang, fui fazer minha caminhada matinal para manter o coração na cadência do samba da vida.
Meu médico foi categórico: - Ou caminha ou morre!
Preferi caminhar. É mais fácil. Morrer é muito complicado e sempre arruma aborrecimento para os outros. Por esse motivo de ordem prática fui para a rua, e aí principiou uma pesquisa de campo sobre o comportamento animal. Passei a acompanhar de longe um mulher que passeava um cãozinho lulu. Um desses branquinhos que parece com uma toalha felpuda. É um simpático cachorrinho que, se vacilar, num dia em que você está muito atrasado para o trabalho, é capaz de tomar banho e e se enxugar com ele.
Pois bem, observei que o lulu urinou em vários "fradinhos" e com uma alegria de criança levada carimbou todos os postes que encontrou pela frente. Notei, que ao longo do trajeto, teve um momento em que não havia o que mijar e ele soltava apenas umas poucas gotículas, cada vez que levantava a perninha. Por fim nenhuma mais - era só o gesto, ou reflexo...lá sei eu! O que importa, para fins cientíticos é que já não manifestava um necessidade biológica, mas psicológica.
Fiquei a imaginar o tamanho da bexiga do bicho e o porque daquela repetição. Pelo tamanho do cachorro deu para calcular que a bexiga era pequena. O curioso era o seu cálculo na distribuição do xixi, não se aliviava de vez. Ia homeopaticamente soltando seu líquido armazenado. Me perguntei se aquela "mijação", num determinado momento, não seria a expressão de um desejo reprimido no incosciente do bicho. É, meus caros amigos, esses cachorros modernos tem psiqué, analista e quase todos são castrados. Soube até de uma cadela que teve gravidez psicológica e tudo.O que uma coisa tem a ver com a outra? O exibicionismo "mictórico" teria alguma relação com um castração real, ou mesmo imaginária? Vai ver que ele é bobinho mesmo e acha que tem capacidade ilimitada de mijar e está curtindo uma onda, aproveitando sua liberdade, ou é cacoete, mania...e fui por ai no meio das dúvidas do meu devaneio, e eis que - por uma incrível coincidência (e olha que detesto o uso desse recurso em qualquer tipo de ficção- mas juro que aconteceu de fato) encontro um treinador de cães que sempre vejo pelas ruas do bairro com vários tipos de cachorros- uns presos por coleiras outros soltos - porém, todos obedientes ao seu mando . Um poder que ele exerce sempre de forma canina, com ruídos guturais - quase latidos, alguns rosnados e outras formas de comunicação do melhor amigo do homem.
Voltando à vaca fria, então lá vinha o treinador de cães sozinho, coitado, subindo a ladeira. Pensei: é claro que no primeiro dia do ano todos os cães estão em casa . E como no caso da mulher do lulu, alguns no máximo, vão acompanhar seus "parentes" em passeios estritamente familiares.
Seus "alunos" estão, é evidente, num dia de folga, e como muitos de seus donos que se esbaldaram na madrugada da "passagem", devem estar dormitando pelos cantos depois do foguetório do fim de ano. (É de conhecimento que o cão, devido ao seu aparelho auditivo extremamente sensível sofre muito com o ruído dos fogos).
Senti pena do treinador de cães, ali triste a caminhar na sua solidão. Quase lati para ele alguma coisa, mas fiquei com receio de que ele interpretasse mal minhas intenções solidárias.
Desta forma, esqueci minha preocupação com o cosmo e voltei para casa.
Fui tomar um banho e sem querer uivei sob o chuveiro. Minha mulher perguntou o que era aquilo. Disse que era uma velha música do Led Zeppelin. Como sei que ela não se interessa por nada da era dos dinossauros, fiquei tranquilo e emendei um " Black Dog" ... Uivei para uma lua que não existia e que não foi gerada pelo Big Bang, mas por um colapso - um tique nervoso de um outro universo cansado, numa danação eterna, numa repetição sem sentido como a do xixi do cãozinho atoalhado...
Notei que meu coração batia no compasso certo do rock e dei graças a la vida que me ha dado tanto...
1.1.09
Explodiram o Big-Bang!

O ano que passou estava nos seus estertores. Na atmosfera sufocante de um calor brutal que assolou o Rio eu tentava dissipar as nuvens terríveis que se formavam sobre minha cabeça. Enquanto isso, procurava notícias boas de fim de ano nos sites da web . Apesar das misérias estatísticas e bombardeios que vi em fotos e vídeos muito animados, projetava uma perspectiva otimista:
- Que crise coisa nenhuma, é apenas um "crash"! Isso tem solução, rapaz!
Questão de administração, marolinha a toa... Simples como um quebra cabeças de 10 mil peças!
O que se precisa ter bem claro na cuca é que o sistema capitalista sempre esteve envolvido numa maré infindável de crises. Pode-se mesmo dizer que a crise faz parte seu sistema nervoso central. Mal comparando, o capitalismo é um senhor de meia-idade vivendo sua ciática da maturidade. Claro que não se pode esquecer que sua doença infantil é a anarquia da produção... É só ler o grande Istvan Mèzaros para entender tudo, etc e tal...
Disse para meus botões:
- Junte algo sobre o comportamento humano que você pode ver no trânsito- comportamento selvagem que se formou nessa economia. Aí você vai compreender outra coisa interessante - nossa evolução ainda não se completou , no sentido de se viver numa sociedade mais justa, ou melhor não resolveu seu ciclo societário básico- ou seja sua etapa egóica - fase que teria de ser superada para ensejar a possibilidade de organizar comunidades - estabelecer novos tipos de solidariedade.A superação dessa fase pueril-motorizada se dá ao se interiorizar a verdade de que tudo está conectado. Mas esse é um papo cabeça para outro dia, depois do engove. O que sabemos é que temos espaço- tecnologia, conhecimento acumulado, mas não conseguimos resolver problemas sociais mais simples a tempo de evitar grandes catástrofes . Uns dizem que falta vontade política. Na verdade o que falta é política. A velha política já morreu, só esqueceu de deitar no caixão. O resultado é que sociedade produzida por esse sistema continua muito desigual, injusta, infanticida. A fase atual é uma longa nova bárbarie. Bárbaros com muita tecnologia. Monstros de I-pod.
Outra coisa: basta dar uma mirada no aparato jurídico dessa sociedade para ver como ele ainda é falho- e não dá para disfarçar , facilita o exercício do poder e ilícitos de uma classe, seus funcionários graduados e técnicos em higiene social - exclui dos direitos uma imensa massa que um dia vai explodir. Essa sociedade faz muito mal sua higiene básica- mantém longe os dejetos humanos que produz e também seu excremento poluidor. Não vamos aqui teclar na velha cantilena contra o neoliberalismo nem nesse papo Al Gore-ambientalista . O Deus mercado tem os pés de barro e busca o Estado quando a coisa fica incontrolável. Não vamos entrar naquele papo doido, com aquela coisa toda de globalização. Só um toque: a globalização já tinha sido vista pelo velho Marx como inexorável e saudada como algo positivo e necessário. O ruim da coisa é a globalização capitalista e suas consequências sociais perversas. O papo ambiental precisa incluir no seu discurso a poluição social. A exclusão das massas é um fator que precisa ser repensado urgentemente. O comportamento da massa é algo que já deu em muita pancadaria...Não bastam doses cavalares( quase escrevo doses industriais) de entretenimento. É bom que se saiba que a esse tipo de indústria cresceu muito, jogos eletrônicos, centenas de canais de TV com produções hipnóticas , campeonatos de futebol pipocando em todo o planeta...Minha vizinha chavista diz que a TV no Brasil é ruim de propósito. Será? Não queria ficar nessa de chover no molhado. Todo mundo está careca de saber dessas coisas. Lugares comuns desgastados...palavrório inútil. Até o bebê que acabou de sair da maternidade sabe que o "crash" aconteceu devido à febre especulativa e má admnistração "bushista" do caos que quebrou o banco imobiliário americano. Agora, não vamos ser tão ingênuos e achar que alguém não lucra com esse "crash" . Mesmo durante todo longo ciclo desta crise (que insisto- faz parte como alma do sistema capitalista) a um ponto agudo...“Só vendo como é que dói
Só vendo mesmo como é que dói
Trabalhar em Madureira
Viajar na Cantareira
E morar em Niterói
Eh, Cantareira
Eh Cantareira
Vou aprender a nadar”... .
Este é um jogo pesado, mas não chega a suar o colarinho branco, o ar-condicionado aguenta.
Pensava nessa besteirada toda e já me preparava para comemorar o ano novo quando li no site do El País que tinha um pessoal revisando a teoria do Big-Bang. Aí fiquei preocupado de fato. A notícia dizia que , na verdade o universo que "conhecemos" (conhecemos?), não é produto de um ponto de incomensurável densidade que deu na explosão primeva e sim de uma série de movimentos de expansão e contração de um velho organismo. O nosso "universo" se origina, na verdade, do colapso de um outro universo...Um samba do físico doido. E o pior que isso não teve princípio nem final - é uma coisa eterna.
Essa meleca invadiu minha taça de champanha, na hora da virada (êpa!).
Minha mulher apontou na TV aqueles fogos bacanas de Copacabana, pequenos big-bangs da alegria carioca. O povaréu de branco, acreditando que o planeta veio de uma explosão primordial e necas, o buraco negro é mais embaixo. Na realidade trata-se de um big rebote! ( ou como eles dizem- Big-Bounce)
Como dormir com um barulho desses? (continua)
30.10.08
Vale a pena ler de novo : Ella cantaba boleros

(Não sei se já publiquei ou republiquei esta crônica aqui. Faço isto hoje porque encontrei meu amigo Egeu, um grande designer e pesquisador que está fascinado por Cabrera Infante e de modo especial pela cantante- que encantou o escritor cubano e que a fez viver eternamente num capítulo de um livro seu chamado "Três Tristes Tigres". Conversa vai, conversa vem, emprestei meu exemplar de "Três Tristes Tigres" (traduzido de forma magistral por Stella Leonardos e com capa do genial artista plástico Carlos Clémen) e ele me revelou um achado que permite ao navegante amigo ouvir a voz desta misteriosa mulher. Meu filho, por sua vez, cirurgião e pesquisador e também "cabrerista" de carteirinha me revelou outro que vou botar no fim do texto- um site que trabalha sua biografia)
Hoje quero lembrar do esquecimento, se me permitem brincar com oxímoros.
Esquecer, sem dúvida é muito melhor do que ser esquecido. A história está repleta de cadáveres ilustres que são içados da vala comum dos olvidados como é o caso de Bach.(disso nós trataremos em outra croniqueta)
Por hora vamos nos concentrar em “Freddy”. Seu nome real era Fredesvinda Garcia,vivia como empregada doméstica nas casas da alta classe-média do Vedado. Na ficção de Guillermo Cabrera Infante ela é “La Estrella Rodríguez”, cantora mulata de impressionante massa corporal e vocal. Pertenceu a uma cidade que é matéria de memória do autor de “Havana para um Infante Defunto” que a continua reconstruindo no livro “Três tristes tigres”. Seu tempo é o período que se situa entre a ditadura de Fulgêncio Batista e os primeiros anos da Revolução Cubana. Ela cantava boleros a capela, dispensava a orquestra, era um edifício cantante que circulava em cabarés de segunda e quando conseguiu sair da penumbra não demorou muito sob as luzes do palco junto com uma orquestra que a obrigaram aturar. Dizem que morreu aos 30 anos de indigestão no México ou em San Juan de Porto Rico onde fazia uma turnê. Gravou um único disco que Cabrera diz ser meio “sujo” já que não deixa curtir sua somente sua voz.
Pois bem, no meio de seu livro excepcional, a morte de “La Estrella” é comentada por uma dos personagens que compõe o romance (um dos alter-egos do autor). Ele diz que logo a cantora seria esquecida :- “E queriam despachá-la como carga comum e da companhia de aviação disseram que o ataúde não era carga comum, mas transporte extraordinário e então quiseram metê-la num caixote com gelo seco e trazê-la como se leva lagostas a Miami e seus fiéis servidores protestaram furiosos por esse último ultraje e finalmente a deixaram no México e lá está enterrada. Não sei se este último embrulho é certo ou falso, o que é verdade sim é que está morta e que em breve ninguém se lembrará dela e estava bem viva quando a conheci e agora daquele monstro humano, daquela vitalidade enorme, daquela personalidade única não resta mais do que um esqueleto, igual a centenas, milhares, milhões de esqueletos falsos e verdadeiros que há nesse país povoado de esqueletos que é o México”…e lamenta:-“a única coisa que tenho ódio mortal é o esquecimento” –“Mas nem sequer posso fazer nada, porque a vida continua”. No bolero que leva o nome de Freddy, ela diz com sua voz de veludo:- "Soy una mujer que canta para mitigar las penas de las horas vividas y perdidas".
Pois é a vida continua em todos os fusos horários e o show não pode parar. Como diz diz o locutor esportivo, o tempo passa. Tem gente que quer viver tudo aqui e agora, num gozo despreocupado, sem se importar com nada e mais tarde talvez vá se lembrar , terá um baú de doces recordações, uns vão querer esquecer seu passado, como alguns presidentes da república, outros vão desejar sempre o futuro e seu mistério… Mas quer queiramos ou não o tempo é inapreensível. Escorre pelas mãos como na música pop ou como areia ou evapora feito água no deserto .Tudo retorna ao pó, não o que nos sufoca com sua violência, mas as eternas areias que estão em toda a parte como num livro de Borges, o eterno e infinito labirinto do deserto e no final serão sopradas pelos ventos atômicos… Meu Deus, afastai de mim esse sêo João e seu apocalypse now…
***
O que me trouxe de volta à uma pequena felicidade que me fez reescrever esta croniqueta foi perceber mais tarde que Cabrera Infante apesar de se equivocar a respeito dos "concertos de Branderburgo" que confundiu com “Variações Goldberg”(explico isso em outra hora) e de não citar J.D.Salinger num ensaio sobre a "História do Conto", criou em torno de “La Estrella” uma curiosidade e desta maneira trouxe Fredesvinda García de novo a tona na geléia da memória. Constatei isso na internet, algumas pessoas falavam do livro de Infante e a respeito de “Freddy”. Finalmente descobri o tesouro: existia na Amazon o CD onde está registrada a sua famosa gravação com o nome de “Ella cantaba boleros”. Escutei alguns trechos que são oferecidos como amostras, sua voz realmente era assombrosa. Pedi à minha filha o CD de aniversário,no ano passado, ela tratou de encomendar à Amazon. Como num passe de mágica a internet quase se tornou neste momento “eternete”, bem ao gosto de Cabrera-enfant-terrible . Mas a Amazon não mandou o CD,ou se mandou, se perdeu no correio.Depois de uma longa batalha na qual rolou uma troca de e-mails surrealistas até com o fornecedor da loja virtual que disse que não mandaria nada porque tinha esgotado o prazo, minha filha desistiu, com justissima razão. Fica aqui meu protesto. Mas sou um infante terrible não como Cabrera, mas cabreiro, procurei no sítio da “Modern Sound” na madrugada de sexta-feira para sábado e lá me informaram que existia um único exemplar no estabelecimento. Mal o dia nasceu e eu corri para a loja lá na Barata Ribeiro. O vendedor, gente finíssima, procurou e não achou o disco pelo título “Ella cantaba boleros”(que é o título que consta da Amazon), mas me perguntou pelo nome da cantora. Eu disse : -“FREDDY”. E eis que, como num milagre de Santa Virgen del Cobre ele sacou um CD da prateleira das cantoras latinas. Tinha por título “La Voz del sentimiento” que era o nome original da gravação cubana. Lá estava “ella” acompanhada por la Orquestra de Humberto Suárez cantando todos os boleros. (Ella cantaba boleros é o nome de um dos capítulos recorrentes de Três Tristes Tigres)
Os responsáveis por este brinde que encontrei na "Modern Sound" são franceses do selo Mélodie. Esse pessoal genial teve a sensibilidade de graver essa raridade. Vive la France! Viva Cabrera Infante! Viva Cuba! Viva Freddy! Passei o final de semana inteiro ouvindo Freddy, Fredesvinda, semprebemvindagarciagracias.
Nota do Editor: O site onde você pode ouvir o único trabalho registrado por Fredesvinda é http://archivodeconnie.annaillustration.com/?p=205 . Nele além dessa preciosidade, tem muitos depoimentos de gente que a viu ou está interessado nela. O site também tem muitas informações visuais e textos que lembram Cuba dos anos 60 e 70. Há um outro escrito em francês , onde pode conferir sua biografia e fotos dela - coisa rara. Seu endereço é:http://www.montunocubano.com/Tumbao/biographies/freddy%20garcia.htm
11.10.08
Um dia Um Gato

Não sei em que momento o pessoal da vizinhança começou a usar o nosso território como depósito de lixo. Era um terreno grande, um matagal repleto de pés de mamona - nosso material bélico que lançávamos com estilingues na turma da rua de baixo.
Eram inimigos sem rosto- tal como nas guerras dos adultos, que não conhecíamos a não ser no cinema -meninos como nós, que apenas nos atacavam, por uma questão de mera geografia e comportamento de bando. Eles eram os de baixo e nós os de cima na disputa por um dos lados de um vale. O curioso é que nós não sabíamos quem eram eles e eles não tinham a menor idéia de quem éramos nós. Se um dia algum dos nossos cruzasse o caminho de um deles, nas ruas do bairro, não haveria hostilidade, talvez apenas a distância natural. Eles só sabiam da nossa existência porque sempre estávamos alí no meio do matagal, sujos de terra, com o nariz escorrendo , calças curtas que exibiam joelhos feridos, pés descalços, facas de madeira, atadas ao corpo por barbantes que serviam de cinto, capaces feitos de cuia de coco e escudos de cascas de árvore. Ainda hoje, não consigo entender as razões que os levaram a tentar invadir nossos domínios. Na verdade, hoje considero que a reivindicação era justa. Aquele terreno era terra de ninguém. Fronteira de nada.
Mentira! Tínhamos um vizinho belicoso que possuia um belo pomar.Talvez por isso lutávamos tão bravamente. Lembro de um dia em que nossa vitória, por fim foi acachapante. Creio que conseguimos impor um certo respeito e temor nos adversários. Foi depois de uma renhida luta - afinal tínhamos uma farta munição - os maravilhosos cachos de mamona. Só não compreendo nosso ímpeto guerreiro- esse era tal, que não temíamos os projéteis dos inimigos. Não havia tática nem estratégia, só esconderijos que serviam de postos de ataque onde armazenávamos mamona suficiente para uma longa guerra. A inocência dessas batalhas estava numa certa ética, pois ninguém utilizava pedras - era só mamona mesmo. Quer dizer que entre mortos e feridos, salvaram-se todos. A posição conquistada, no entanto era instável. Sempre existia a possibilidade de um novo ataque.
Na nossa imaginação, era uma espécie de reino que defendíamos com as atiradeiras. Nele reinávamos , caçando passarinhos ou catando frutos no pomar que ficava na fronteira sul e era cercado com arame farpado e defendido por um homem mau feito um pica-pau que atirava na gente com espingarda de tiros de sal, que ardiam feito a peste. Existiam também disputas entre nós: uma vez limpamos uma área que virou ringue, com cordas e tudo, e assim foi organizado um torneio de boxe. Foi nele que arrumei dois dentes quebrados pelo Durva, e ele ficou com o olho roxo por alguns dias. Os dentes quebrados conservo até hoje. Não existia ainda a que mais tarde foi chamada de "matéria plástica" e os brinquedos eram feitos de madeira. Com ela eram esculpidos punhais que serviam para lutas ,que cessavam no instante em que o adversário imobilizado tinha a arma do vencedor encostada no coração o no pescoço. Nada de instintos homicidas, só importava o ato de medir forças e a excitação do risco do ferimento. Em outros momentos o pessoal saia na porrada mesmo. Éramos uns pobres galinhos de briga, uns aprendizes da barbárie.
Lembro do nomes de alguns desses camaradas de guerra: além do Durva, havia o Quinho,
o Nardo e seu irmão Dirço, Rafaelzinho, Bacalhau, Taíco, Fêu, Carlão e seu irmão Cucha que era pequenino, mas tinha um brother do meio que não me lembro mais o nome, e por fim o Mido que tinha por hábito ficar na sombra do poste quando o sol batia forte.
Parecia um mundo bastante amplo coberto de matas e árvores cheias de passarinho para abater.
Recentemente quando voltei a este lugar, encontrei prédios nos nossos domínios e tudo me pareceu pequeno. Como o tempo reduz as distâncias!
Nossa infância era um bairro cheio de terrenos baldios, que se esboçava na zona norte de São Paulo. Um bairro que descrevi como "operário", exercendo precocemente uma sociologia instintiva, que não sensibilizou a professora do primário. Ela me repreendeu e tascou um zero no meu dever, por não fazer uma descrição tal como uma gravura. Queria que eu tratasse apenas dos aspectos geográficos, captando somente a paisagem do lugar onde morava e não o lado humano.
Essa geografia eu exercitava no papel de pão com desenhos de cidades imaginárias feitos com um lápis Johann Faber nº2, e na prática, sumindo de casa- me embrenhando pela mata além dos limites, o que levava minha mãe ao desespero- principalemente quando fugia para tomar banho de bica na nascente de um rio.
Foi numa dessas expedições selvagens, que me vi no meio do nossa praça de guerra , a caçar novidade, revolvia a terra com as mãos e eis que apareceu um rabo de um gato. Pensei que estivesse vivo, e quis fazer graça puxando com força aquela cauda oferecida. Queria dar um susto no bicho. E quem acabou com os cabelos em pé, fui eu. Não , ele não me atacou com a agilidade natural dos felinos - pelo eriçado e bote certeiro, mas ao contrário, sem nenhuma resistência, deixou que rabo se desprendesse e ficasse colado na minha mão - a sensação que tive foi de espanto e nojo. Não tinha nenhum cheiro, só o contato das mãos com aquela parte morta. Larguei aquilo e saí correndo... A experiência da decomposição até hoje me impressiona. A morte já era minha velha conhecida. Vi vários frangos serem abatidos lá em casa, mas aquilo era para comer- o bicho pingando o sangue na panela para fazer ao molho pardo... De outra feita vi um bode sem cabeça a caminhar pela rua de terra, o sangue jorrando a deixar um rastro molhado na poeira. O bicho tinha escapado das mãos do seu Taíde, que resolvera fazer uma buchada, o curioso é que o bodinho caminhou uns bons metros, e pensei se aquele movimento também existia na parte separada, a cabeça que distante talvez berrasse seu béé final. Mas essas mortes pareciam naturais, se encaixavam numa ordem lógica das coisas. Quando sêo Eustáquio matava porco que guinchava , eu só sentia dó. Mesmo quando o pessoal da rua fez uma vaquinha e comprou um boi velho e sangrou o animal numa festa, na qual me foi oferecido um caneco cheio de sangue - que não consegui tomar - eu não achei estranho. Mas com o rabo do gato foi diferente. Talvez alí, o horror apenas tivesse se esboçado, ou seria o absurdo? Um rabo sem gato! Sai pra lá, sô!
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