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14.12.14

Caricatura inédita de Cabrera Infante

Caricatura inédita: Tinha que acertar minhas contas com o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), um dos meus preferidos. Não vou aqui fazer desfilar suas qualidades literárias - só vou sugerir que leiam "Havana para um infante defunto" e "Três Tristes Tigres". Depois a gente conversa. Terminei de ler seu livro póstumo "A ninfa inconstante" (encontrado num sebo de Sampa), que lembra muito estas suas duas obras-primas tão diferentes entre si, apesar de tratarem do mesmo tema: a cartografia sentimental de Havana dos anos 50. O primeiro tem estrutura mais simples, fala direto ao leitor, o segundo é, o que se pode chamar de "experimento linguístico" com o falar "especial" das ruas de Havana. É importante ressaltar que não é chato e incompreensível. Só é preciso embarcar na onda e surfar na linguagem, nos jogos de palavras, nos trocadilhos etc... Um dia vou escrever um ensaio sobre esse autor, mas confesso que me falta fôlego. Por enquanto quero apenas esclarecer a razão de minha dívida com ele. Fiz uma caricatura desse "sacaneta" (ele iria gostar desse adjetivo) no século passado, mas a perdi, talvez soterrada no meio dos mais de 5 mil desenhos que compõe algumas das camadas geológicas do meu "apertamento-oficina". Já procurei várias vezes com meu equipamento de escavação, mas não encontro…Aí fuço no fundo da minha memória, e não me lembro se presenteei alguma pessoa com essa caricatura. Só sei que vira e mexe e eu me aventuro a enfrentar a poeira das pastas, dos livros e da papelada, e sempre saio derrotado. Um dia me cansei, e esse dia foi ontem. No meio da madrugada esbocei uma caricatura provisória, e hoje cedo parti para o enfrentamento e botei nanquim nela. Alguma coisa me diz que não está à altura da "original" perdida (talvez para sempre), mas o que hacer? Não tem tu, vai tu mesmo, que eu não sou tatu para ficar toda hora cavoucando à procura da toca onde você se escondeu, oh caricatura inconstante! Cabreiro cometi esta que está aqui. Bom domingo a todos.
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4.6.09

Charge : Cuba na OEA

30.10.08

Vale a pena ler de novo : Ella cantaba boleros


(Não sei se já publiquei ou republiquei esta crônica aqui. Faço isto hoje porque encontrei meu amigo Egeu, um grande designer e pesquisador que está fascinado por Cabrera Infante e de modo especial pela cantante- que encantou o escritor cubano e que a fez viver eternamente num capítulo de um livro seu chamado "Três Tristes Tigres". Conversa vai, conversa vem, emprestei meu exemplar de "Três Tristes Tigres" (traduzido de forma magistral por Stella Leonardos e com capa do genial artista plástico Carlos Clémen) e ele me revelou um achado que permite ao navegante amigo ouvir a voz desta misteriosa mulher. Meu filho, por sua vez, cirurgião e pesquisador e também "cabrerista" de carteirinha me revelou outro que vou botar no fim do texto- um site que trabalha sua biografia)

Hoje quero lembrar do esquecimento, se me permitem brincar com oxímoros.
Esquecer, sem dúvida é muito melhor do que ser esquecido. A história está repleta de cadáveres ilustres que são içados da vala comum dos olvidados como é o caso de Bach.(disso nós trataremos em outra croniqueta)
Por hora vamos nos concentrar em “Freddy”. Seu nome real era Fredesvinda Garcia,vivia como empregada doméstica nas casas da alta classe-média do Vedado. Na ficção de Guillermo Cabrera Infante ela é “La Estrella Rodríguez”, cantora mulata de impressionante massa corporal e vocal. Pertenceu a uma cidade que é matéria de memória do autor de “Havana para um Infante Defunto” que a continua reconstruindo no livro “Três tristes tigres”. Seu tempo é o período que se situa entre a ditadura de Fulgêncio Batista e os primeiros anos da Revolução Cubana. Ela cantava boleros a capela, dispensava a orquestra, era um edifício cantante que circulava em cabarés de segunda e quando conseguiu sair da penumbra não demorou muito sob as luzes do palco junto com uma orquestra que a obrigaram aturar. Dizem que morreu aos 30 anos de indigestão no México ou em San Juan de Porto Rico onde fazia uma turnê. Gravou um único disco que Cabrera diz ser meio “sujo” já que não deixa curtir sua somente sua voz.
Pois bem, no meio de seu livro excepcional, a morte de “La Estrella” é comentada por uma dos personagens que compõe o romance (um dos alter-egos do autor). Ele diz que logo a cantora seria esquecida :- “E queriam despachá-la como carga comum e da companhia de aviação disseram que o ataúde não era carga comum, mas transporte extraordinário e então quiseram metê-la num caixote com gelo seco e trazê-la como se leva lagostas a Miami e seus fiéis servidores protestaram furiosos por esse último ultraje e finalmente a deixaram no México e lá está enterrada. Não sei se este último embrulho é certo ou falso, o que é verdade sim é que está morta e que em breve ninguém se lembrará dela e estava bem viva quando a conheci e agora daquele monstro humano, daquela vitalidade enorme, daquela personalidade única não resta mais do que um esqueleto, igual a centenas, milhares, milhões de esqueletos falsos e verdadeiros que há nesse país povoado de esqueletos que é o México”…e lamenta:-“a única coisa que tenho ódio mortal é o esquecimento” –“Mas nem sequer posso fazer nada, porque a vida continua”. No bolero que leva o nome de Freddy, ela diz com sua voz de veludo:- "Soy una mujer que canta para mitigar las penas de las horas vividas y perdidas".
Pois é a vida continua em todos os fusos horários e o show não pode parar. Como diz diz o locutor esportivo, o tempo passa. Tem gente que quer viver tudo aqui e agora, num gozo despreocupado, sem se importar com nada e mais tarde talvez vá se lembrar , terá um baú de doces recordações, uns vão querer esquecer seu passado, como alguns presidentes da república, outros vão desejar sempre o futuro e seu mistério… Mas quer queiramos ou não o tempo é inapreensível. Escorre pelas mãos como na música pop ou como areia ou evapora feito água no deserto .Tudo retorna ao pó, não o que nos sufoca com sua violência, mas as eternas areias que estão em toda a parte como num livro de Borges, o eterno e infinito labirinto do deserto e no final serão sopradas pelos ventos atômicos… Meu Deus, afastai de mim esse sêo João e seu apocalypse now…
***
O que me trouxe de volta à uma pequena felicidade que me fez reescrever esta croniqueta foi perceber mais tarde que Cabrera Infante apesar de se equivocar a respeito dos "concertos de Branderburgo" que confundiu com “Variações Goldberg”(explico isso em outra hora) e de não citar J.D.Salinger num ensaio sobre a "História do Conto", criou em torno de “La Estrella” uma curiosidade e desta maneira trouxe Fredesvinda García de novo a tona na geléia da memória. Constatei isso na internet, algumas pessoas falavam do livro de Infante e a respeito de “Freddy”. Finalmente descobri o tesouro: existia na Amazon o CD onde está registrada a sua famosa gravação com o nome de “Ella cantaba boleros”. Escutei alguns trechos que são oferecidos como amostras, sua voz realmente era assombrosa. Pedi à minha filha o CD de aniversário,no ano passado, ela tratou de encomendar à Amazon. Como num passe de mágica a internet quase se tornou neste momento “eternete”, bem ao gosto de Cabrera-enfant-terrible . Mas a Amazon não mandou o CD,ou se mandou, se perdeu no correio.Depois de uma longa batalha na qual rolou uma troca de e-mails surrealistas até com o fornecedor da loja virtual que disse que não mandaria nada porque tinha esgotado o prazo, minha filha desistiu, com justissima razão. Fica aqui meu protesto. Mas sou um infante terrible não como Cabrera, mas cabreiro, procurei no sítio da “Modern Sound” na madrugada de sexta-feira para sábado e lá me informaram que existia um único exemplar no estabelecimento. Mal o dia nasceu e eu corri para a loja lá na Barata Ribeiro. O vendedor, gente finíssima, procurou e não achou o disco pelo título “Ella cantaba boleros”(que é o título que consta da Amazon), mas me perguntou pelo nome da cantora. Eu disse : -“FREDDY”. E eis que, como num milagre de Santa Virgen del Cobre ele sacou um CD da prateleira das cantoras latinas. Tinha por título “La Voz del sentimiento” que era o nome original da gravação cubana. Lá estava “ella” acompanhada por la Orquestra de Humberto Suárez cantando todos os boleros. (Ella cantaba boleros é o nome de um dos capítulos recorrentes de Três Tristes Tigres)
Os responsáveis por este brinde que encontrei na "Modern Sound" são franceses do selo Mélodie. Esse pessoal genial teve a sensibilidade de graver essa raridade. Vive la France! Viva Cabrera Infante! Viva Cuba! Viva Freddy! Passei o final de semana inteiro ouvindo Freddy, Fredesvinda, semprebemvindagarciagracias.
Nota do Editor: O site onde você pode ouvir o único trabalho registrado por Fredesvinda é http://archivodeconnie.annaillustration.com/?p=205 . Nele além dessa preciosidade, tem muitos depoimentos de gente que a viu ou está interessado nela. O site também tem muitas informações visuais e textos que lembram Cuba dos anos 60 e 70. Há um outro escrito em francês , onde pode conferir sua biografia e fotos dela - coisa rara. Seu endereço é:http://www.montunocubano.com/Tumbao/biographies/freddy%20garcia.htm

20.2.08

Ironias da História - O capítulo de Fidel


“Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”
(Karl Marx em”O 18 Brumário de Luis Bonaparte”)
A história me absolverá. Disse Fidel Castro ao encerrar a sua defesa diante de um tribunal depois do malogrado ataque aos quartéis de Santiago de Cuba e Bayamo no dia 26 de julho de 1953. Era o começo de uma rápida jornada: amargou pouco tempo no cárcere. No exílio, Doutor Castro, como era tratado nos EUA, trazia o rosto bem escanhoado e com sua lábia seduziu políticos, empresários e a imprensa americana. Logo arrecadou fundos para tentar derrubar a ditadura corrupta de Fulgêncio Batista. Esse namoro com os americanos continuou durante os tempos da romântica guerrilha em que mergulhou a partir de Sierra Maestra. O discurso amoroso se intensificou depois da desastrada invasão que cometeu a bordo do iate Granma quando desembarcou com 82 homens na província de Oriente em dezembro de 1956 sob fogo do governo. Desse episódio só sobreviveram 12 combatentes. A imprensa oficial se apressou em noticiar que as forças de Batista haviam liquidado o foco rebelde, coisa que foi desmentida para o mundo em fevereiro de 57 no New York Times pelo jornalista Herbert L. Matthews que entrevistou nas montanhas o esperto advogado já em roupas de campanha portando uma considerável barba, espantando mosquitos com seu indefectível charuto. O movimento teve calorosa recepção na mídia do “país muy amigo”,inclusive em publições conservadoras. A revolução alcançou o máximo de sua fama quando chegou até as páginas da Reader’s Digest que era um fenômeno no meio da imprensa com circulação espetacular em todo mundo. Mas, a glória mesmo, veio com a TV em maio, numa reportagem da CBS que se embrenhou na mata para levar aquele curioso bando de insurgentes para as telinhas dos lares da américa, na hora do jantar.
Enfim depois de 3 anos de luta, Fidel e seus barbudos, derrubaram Batista e inscreveram Cuba na história e na mitologia do século XX com sua Revolução. A queda do regime na verdade é mais complexa, mas pode se resumir, dizendo que quase caiu de podre. Estava tão desmoralizado que Eisenhower, por baixo dos panos tentou uma solução negociada para o afastamento do ditador. No Museu da Revolução, em Havana, entre uniformes manchados de sangue seco dos guerrilheiros, e até a máquina de escrever “Hermes” em que Alejo Carpentier compôs “O Século das Luzes”, está o famoso “telefone de ouro” presenteado por uma corporação Americana a Batista que por sua vez tinha uma sociedade com o mafioso Meyer Lansky. A ilha atraia vários cappi das famílias criminosas dos EUA, gente do calibre de Vito Genovese, Frank Costelo e um cujo nome curioso era Santo Trafficante Jr.
Lansky tinha construido um big Hotel,o Riviera, que na época era um templo de prazer em frente ao Malecón para receber seus convidados, entre os quais, figuravam grandes empresários, militares e gangsters americanos que iam se divertir nos cassinos e relaxar naquele bordel a céu aberto.
É preciso salientar que sempre houve um velho desejo americano de se apossar biblicamente da Ilha. Não se pode esquecer que em 1890, depois do último combate contra os índios em Wounded Knee Creeck o Capitão A. T. Mahan escreveu no Atlantic Monthly : “quer quiserem ou não os americanos tinham agora que começar a olhar para fora”. É o começo de uma onda expansionista que vai dar na anexação do Hawai e no envolvimento na guerra de libertação de Cuba contra a Espanha no final do século XIX. Soldados “mambises” e americanos combateram lado a lado, mas na hora H, os irmãos do norte passaram a perna nos nativos e dominaram a Ilha durante um bom tempo.
Vai daí que os americanos esperavam a gratidão de Fidel,após os festejos da vitória. Porém ele surpreende com seus planos de autonomia e escandaliza ao nacionalizar as riquezas país. Em represália, os gringos deixaram de comprar o açúcar cubano. E aí começa uma queda de braço,sem fim. O desdobramento todo mundo sabe de cor e salteado: Cuba passa a orbitar a União Soviética. Em 196l os EUA rompem relações diplomáticas com o regime castrista. Vem a intervenção com a vexaminosa “operação lambança” na Baia dos Porcos em abril de 1961, na qual a CIA lança 1500 homens que são rechaçados numa tentativa de invadir a Ilha. E para piorar a situação em 62, explode a chamada “Crise dos Mísseis onde EUA e URSS quase precipitam a Guerra atômica, tendo por pivô a instalação de bases para lançamento de mísseis em território cubano. Na sequência acontece a expulsão de Cuba da OEA e se incia um embargo ecônomico que dura 44 anos. Até 1990 a URSS segura a onda. Quando ela “ruidosamente” sai do mapa, a Ilha cai na dura realidade e começa uma longa agonia. Nestes 47 anos que passaram ,pode-se dizer que Fidel fez história com o inimigo no seu calcanhar. Cometeu grandes erros e o principal deles foi, aos olhos do Ocidente, impedir as chamadas liberdades democráticas. Por outro lado resolveu o problema educacional, criou uma universidade realmente popular, deu assistência médica gratuita e de qualidade ao seu povo. Não se sabe ainda se a história o absolverá. Hoje engenheiros dirigem táxis porque não existe onde trabalhar. Sente-se o crime do embargo na deterioração da vida cotidiana do povo cubano. O mundo se transformou muito desde 1959, Cuba parece ter parado no tempo como seus velhos “cadillacs” e “oldsmobiles” que roncam pelas ruas de Havana. Os quartéis do inimigo na atualidade são os Shopping centers e as armas suas grifes.
A importância de Fidel hoje, está em ser mais do que tudo, um símbolo da resistência, inclusive biológica ao império. Há muito tempo que se prepara a sua aposentadoria. Chegou, por fim. Ele longe da cena, talvez facilite uma transição pacífica. Isso pode acontecer, agora , porque Bush vai desocupar a moita(sem trocadilho). Quando Fidel foi operado pela primeira vez,um porta-voz da Casa Branca anunciou que já havia liberado 80 milhões de dólares para financiar a mudança do regime cubano. Convenhamos que assim não se chegaria a lugar nenhum.
Quando o último líder carismático da América que ousou ir contra a prepotência do Império esboça o seu adeus, cabe começar a investigar se a história absolverá também os crimes do “irmão do norte”? Aqueles que ele cometeu em nome da “democracia”. Vamos lá, é só recordar do Brasil de 1964 e da “Operação Brother Sam”. Da derrubada de Allende no Chile, da Nicarágua y otra cosas más que fez na nuestra pobre América Latina. E o que dizer das atuais criaturas do mal, como Bin Ladem e Saddam Hussein? Apesar de um já ter ido pra vala, cabe lembrar que estes dois elementos foram alimentados com papinha pela Casa Branca.
Obs. Nós caricaturistas lamentamos a aposentadoria de uma fisionomia tão marcante com aqueles uniformes incríveis, bacanas de desenhar.