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23.4.10

Crônica da Tinê: Terra em trânsito


Entre cismas e sismos, eu disse que o problema era mais embaixo, ele disse que era mais acima. Falei da ação predatória humana, ele rebateu que estava fora da alçada do homem. Pausamos para mais uma garfada no frango com quiabo, batata doce e amendoim. Papo contínuo... O ano começou com um megachacoalho no Caribe, depois no Chile, outro no México, mais um na China, outros menores (mas não menos desastrosos) no golfo pérsico, tremores até em terras nordestinas e sulistas do Brasil. Calores anormais. Meu cacto floriu fora de época. Já tinha um termômetro, comprei um barômetro, o vizinho tem um hidrômetro, agora, acho, vou adquirir uma engenhoca com escala Richter, nunca se sabe o porvir. Aqui e acolá, secas prolongadas, degelos de áreas milenares, enxurradas, transbordos, erosões acima e abaixo do chão. Morte aos milhares. Nuvens de cinza vulcânica paralisaram parte do tráfego aéreo europeu por quase uma semana, às vésperas de comemorar o Dia Mundial da Terra, e os homens só reclamaram dos prejuízos financeiros. Após décadas de secura, este ano choveu cântaros no deserto egípcio. Literalmente, nosso planeta está em cólicas! - de tanto invadirem suas entranhas, ele treme, tosse e vomita. O magma sobe em gigantesca náusea. De tão esburacado, drenado em suas riquezas em prol do progresso humano, o planeta acomoda seus ‘vazios’, tais como caminhos de vermes mortos, com massa ígnea. Geólogos acorrem em explicações minuciosas ilustradas por sofisticados sofwares para que os leigos entendam, tintim por tintim. Ainda avisam que os Alpes estão a afundar, é provável que o mesmo ocorra ao Himalaia e os tibetanos nem percebem: a Terra é silenciosa, evita explosões de raiva até não mais aguentar e ruge a valer. Um dia, Veneza será indicada pelo cimo da catedral como uma boia sinaleira em meio às águas mediterrâneas. Os ambientalistas fazem piquetes em terra, água e ar. Os tecnocratas desdenham. As crianças abraçam árvores em ciranda. As velhas caem de joelhos a rezar: ainda picham o nosso Cristo Redentor carioca! Os utopistas anunciam o fim do governo, da indústria e do comércio gananciosos. Os prejudicados praguejam, apontam dedos à roubalheira. No balanço das ondas, iremos todos a funda, pois sim! Os esotéricos deixaram de lado as cordas navajas, o apocalipse de João e as profecias de Nostradamus para se debruçarem sobre o Livro dos Maias – o fim será em 2012!
Juscelino fundou Brasília há cinquenta anos no planalto central (só podia ser coisa de mineiro precavido), assentou a capital federal em terras ‘zimilenares’ (sobre placas bem sedimentadas) e, o que é importante, longe de ventanias e possíveis tsunamis costeiros. Praias, só as ribeiras (só podia ser coisa de mineiro que não tem mar).
Meu companheiro de almoço, sentado à minha frente, disse-me com ar professoral e mineirês: “É uma questão de ângulo. O eixo da Terra teve uma inclinação mais acentuada, um fenômeno geodésico, o homem nada pode alterar.”
Repliquei com minha relativa ignorância que, quando o Ártico e a Antártica se alinharem à linha do Equador, espero que eu e os meus já tenhamos renascido em alguma aldeola de Andrômeda! Diante da goiabada e do queijo posicionados como astros siderais, comi a sobremesa como se fosse a última.
Para mim, a Groenlândia não passa de uma geleira, mas foi a Terra Verde dos vikings, ou seja, a Greenland teve outrora prados verdejantes como o Saara de hoje já teve suas baleias e ostras. Da Islândia pouco sei, olho pouco na direção de países congelados, só sei que lá nasceu a cantora Björk e a capital é Reykjavik... será que os islandeses, um dia, cultivarão uvas? Por agora, tento pronunciar o nome do vulcão ativo por lá, autor dos últimos rebuliços europeus, o EYJAFJALLAJÖEKULL, palavrão que significa “Glacial da Montanha da Ilha”, e mandar recado ao São Jorge, santo guerreiro homenageado hoje, de que o dragão é imensurável: o planeta precisa de homens melhores. Evoé. Amém.
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Tinê Soares – 23/abril/2010

4.4.10

Crônica da Tinê : Coelhada à moda de “João Patú” (trecho)



“O relógio atira-se ao chão e abre-se em gargalhadas.”
Érik Satie (*)

(“Run rabbit run, as fast as you can. Don’t look back”; Corra, coelho, corra o mais rápido que puder sem olhar para trás. – canta o coro no jukebox)
Falar para a menina de cinco anos sobre ressurreição, passagem desta para outra ou o significado da morte como extensão da vida faz tanto sentido quanto tentar convencê-la de que os ovos enfeitados vieram da galinha e não do coelho em seu ritual pagão perdido nas eras. A menina olha curiosa para a caixa-cenário em forma de livro aberto, mas reclama zangada, a choramingar, “Roubaram o meu coelho!”
(“I saw a cat by the rabbit hole / you saw a prince from a fairy tale”; Vi um gato a rondar a toca do coelho enquanto você via um príncipe encantado. – canta o coro no jukebox)
As páginas mágicas abertas em par – à esquerda, o Gato de riso safado, à direita, o Coelho escravo das horas – não apontaram o ladrão da guloseima festiva, um coelho de chocolate retirado do cestinho que a menina levara dias para colorir e montar. Pela posição da menina dentro da sala, a atração (o livro) veio pela direita e a traição (o roubo), pela esquerda. Se o livro-cenário era um espelho, os lados se inverteriam: o Coelho fugiria pela esquerda, o Gato chacotearia na direita, a menina teria mentido para ganhar um doce a mais, dramatizaria a própria invenção ao verter lágrimas. Em sua percepção fictícia a menina se via como reflexo de Alice que, por um desses conceitos modernos dos físicos rodeados por lentes-fórmulas-relógios digitais relativos às dobras do tempo, também ela seria a Rainha. Não sei mais em que lado estou desse espelho! Sei apenas que a menina falou a verdade, eu-Rainha-menina-Alice fomos as únicas dentre as crianças a não devorar um coelho, que estou bem aqui mas boa parte de mim permanece lá, e que nada no mundo é absoluto – o melhor espelho, inclusive, pode quebrar-se.
(“Run rabbit run / but what’s that you’re runnin’ stand for?/ You ain’t gonna run no more”; Corra, coelho, corra, mas para quê se não há para onde ir?– canta o coro no jukebox) (...)
Tinê Soares – 31/03/2010
(*) a respeito das regras de composição

8.3.10

Crônica da Tinê : TODAS LULUS (trecho)


Cleópatra era baixinha, gorda, nariguda. E careca. Por conta dos piolhos, colecionava perucas – uma para cada túnica. Seus cirurgiões só sabiam drenar gordura dos mortos. Nem assim deixou de virar as cabeças masculinas: aconchavava à base de feromônios. Boa de papo e de cama, ela foi um mulherão. Afirmar que ela usou as prerrogativas do sexo para dominar os homens, seria uma ofensa. Ela não dava para qualquer um. Estrategista sagaz, a faraó soube buscar sucesso ao misturar o cosmos aos cosméticos na dose certa. Banhos de imersão em leite de cabra e mel, pomadas faciais com extratos raros, uma parafernália de objetos de toucador junto a boas leituras sobre tudo que acontecia na época – ela era antenada para além das dunas! Charme com inteligência era o seu padrão de beleza para conduzir o reino à glória dos deuses. Mais do que flores e joias, ela almejava manter o poder. Seu fim trágico revelou sua verdadeira natureza – o orgulho de ser o que era: mulher. Ser aclamada como a ‘meretriz do Nilo’ ou a ‘mocreia de César’, ora, ela deu-se de ombros. Mas imaginar a cena de seu corpo bem tratado ser esfoliado pelas pedras das vias romanas, ah, isso seria a última gota do frasco almiscarado! Daí veio o chilique típico de mulher – tomou o banho mais demorado de sua vida até parar de chorar, vestiu-se com a melhor seda, cobriu-se de ouro, e ordenou: “Minhas servas fiéis, tragam as víboras, matemo-nos. Entregar o balaio, jamais!” (essa frase ficaria chiquérrima se eu a colocasse na boca de um senador, o mesmo que transferiu Marco Antônio para o céu de Juno, mas meu latim só conseguiu decifrar ‘VANITAS VANITATIS’.)
Comecei a falar de Rosa de Luxemburgo, vestida castamente, a bradar em praça pública sobre o direito de voto feminino no século retrasado, Eulália (a mestra em forno e fogão, que odeia microondas) me cortou – “Como cantou o bom Ataulfo, mulher de verdade é aquela que não tem a menor vaidade.” Sem essa, mulher! De Amélias o mundo está cheio. Camélias, só no galho! Até os caranguejos se enfeitam no fundo do mar... “Sim, para se camuflarem!” E beleza não é uma forma de se mascarar? Aliás, observe, em cada época, em cada etnia, em cada país, em cada reduto urbano, a vaidade se revela em uma determinada área do corpo, a ponto de deformar a própria “embalagem”?
Há vaidosas que se escondem. Minha avó foi operária num tempo em que desodorante era um gomo de limão esfregado nos sovacos. Trabalhava com lenço à cabeça e enorme avental que a cobria como uma burca. Ela nunca dispensou pó-de-arroz, batom cor-de-rosa e colônia. Trabalhava cantando. Até os sambinhas de Ataulfo Alves. Toda mulher tem o seu “momento Lulu”, até aquela sentada num canto da rodoviária a estender a mão pelo pão do filho. Ela carrega escondido um anel de vidro pregado com alfinete por dentro da roupa; à noite, ela põe o anel no dedo, sorri para o falso brilho e dorme como Rainha de Sabá.
Um dia, o poetinha Vinícius recitou “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.” Beleza é algo subjetivo, e a vaidade nem sempre está associada ao que as mulheres entendem por “ser bela”... mas movimenta uma indústria imensa, que nos últimos anos tem se diversificado para fora do âmbito humano – sabe a última do cirurgião plástico veterinário?

Rodapé de luz:
Hoje é o Dia Mundial da Mulher. Não desejo que as mulheres se igualem aos homens. Desejo que elas lutem pelo direito de estarem ombro a ombro – mesmo que você, leitora, seja alta, baixa, loira ou morena, não importa o estilo, a etnia, o país em que vive, nem seus costumes.
Tinê Soares (08/março/2010)

4.11.09

Crônica da Tinê - Bandeirada (ou Cada um tem o deserto que merece)



A mais, ou a menos,
quando o cavalo é muito grande,
desconfio ser o jóquei muito pequeno.


Se minha cidade fosse toda para dentro e nela chegasse um estrangeiro a apontar na direção do rio, “Ali em frente fica o mar” diante da câmera, eu calada deixaria passar com a cara mais lavada do mundo.
Sem falso orgulho, diria às caras amarradas por tal erro que se o visitante confundiu água ribeira com quebramar, sinal de que nosso rio neste Matão é de bom tamanho, deixem-no falar, alegremo-nos. Pois não sucedeu o contrário naquele Matão de fora, caraveleiros deram com os costados numa enseada em certo janeiro e, na pressa em fincar bandeira d’El-Rey e despachar o carteiro, lhe chamaram de Rio de Janeiro? Nem por pouco os caras-pintadas da época (muito menos os que os sucederiam com aerofotometrias) arrancaram as penas da tanga com grito de guerra ou foram em desagravo pichar as naus com seiva de jenipapo. Ao contrário, mantiveram o nome de batismo apadroado pelo santo flechado, Sebastião. Do outro lado de sucessivas montanhas e séculos, perto do rio corrente, eu rio dos destemperados. Arrisco a dizer que entre a marujada quinhentista houve quem amiúde dobrasse a espinha de tanto rir, “Esse gajo Estácio anda nos cascos!”, seja eu Calpúrnia, Benedita ou Índia-Sentada.
Céus, por quê? Por que Nicolas Villegagnon não vingou?! – “Riôôô? Mais où est le rivière ici? C’est ça?! (o fidalgo à procura do tal rio na Baía de Guanabara) -
“Quelle merde est Brèsil! Je detèste mon roi!!!” (pragueja de seu cargo). Ou eu carioca desterrada estaria a escrever este arremedo crônico em franco-banzo-tupinambá.
Desliguei monitor, liguei tevê. Assisti a um documentário. Um saudita levara um novaiorquino para passar dois dias no meio do deserto. No início, o convidado ficou maravilhado com o ar dourado, com a vida resistente que pulsava sob o areal, adivinhava (e depois comeu) cobras, escorpiões e lagartos até seus olhos se embaçarem com o tédio escaldante. Foi aí que o anfitrião aos sorrisos caminhou até ele, e num gesto panorâmico disse-lhe “Isso ninguém pintou, ninguém desenhou, foi a natureza quem fez. E nele sobrevive o homem há milênios.” O turista comoveu-se, chegou a esquecer os grãos de areia a entupir-lhe os buracos do corpo e o desejo por nevascas. Ficou agradecido ao outro por mostrar-lhe a beleza no impensável – “Discordar de você não me impede de gostar de você, de respeitá-lo”.
Fui caminhar. Ao passar pela rodoviária velha, ouvi. Não a cacofonia de metrópole, ou o assovio de areias, mas o povo murmurejante de uma cidadezinha avolumado por vozes infantis sobre bicicletas em torno de algo no meio da praça. Juntou gente. Quis ver. Boné, luvas e meias pretas, rosto pintado de prata, o corpo enrolado na bandeira brasileira estava imóvel sobre um caixote. Lastimei não ter a máquina comigo para registrar as caras ao redor. Não entendiam. Fui até lá, disse para o alto “Dura é a vida de artista” e depositei moedas na garrafa ao chão. Diante da plateia arregalada, a estátua-viva moveu-se lenta, cumprimentou-me e, quando eu esperava ganhar balas, recebi um cartão da sorte, que pelo caminho fui lendo.
Uns acertam no casco, outros, na ferradura. Pode ser um comentário generoso a um blogueiro ultramar que desancou uma brasileira, só por ela ter cometido erros topo-ecológicos enquanto falava sobre as belezas de Portugal – pior, se referiu a ditadura de lá por “mais de vinte anos”. Vejamos: do comandante Mendes Cabeçadas a Marcello Caetano, foram 48 anos cravados nos lusos, uma geração perdida junto a colônias em África. Eu diria que o português ofendido, que ilustrou sua crítica com uma pichação lisboeta pouco gentil, subiu nos tamancos. Os brasileiros conhecemos bem a altura de antigos tamancos: uma única tamancada avaria várias cabeças num só golpe.
Da estátua-viva estreante no lado de cá do rio mixuruca - mais que um artista de rua, menos que um artista da fome, um artista do Sétimo Dia - ficou a minha sorte: “Leia 1Jo 2:15”. Agora, se me dão licença, vou catar uma bíblia.
Tinê Soares (15/10/2009)

2.7.09

Crônica da Tinê - She’s out... out... out... out... PAF! ... Crash, crash, crash


Se você pensou na mosca inoportuna, errou. Se você pensou em disco arranhado, está longe. Se você pensou em cristais caídos de uma roupa para brilhar em 360º graus no palco “en retour”, chegou perto.
Dei um pulo à casa que julgava estar deserta, reler textos e chupar laranjas no silêncio das coisas sobre a bancada da pia. Esperava, no máximo, ouvir solfejos titubeantes da vizinha aspirante ao canto lírico. Ao espalhar papéis e cítricas, vi imagens embaçadas no vidro fosco da porta fechada que dá para os fundos: braços escuros em contraste com a espuma branca até os cotovelos e um traseiro volumoso arrematado por laço de avental moviam-se em sincronia – um, dois, três, esquerda, um, dois, três, direita. Reparei nos pés que dançavam sincopados, numa paradinha a bunda empinava para trás seguida de uma barrigada, uma quebrada de pescoço e, neste compasso, após giro rápido de um braço no ar, ouvia-se estrondoso “splash” de roupa torcida batida contra o esfregador. Bolhas de sabão flutuavam naquele salão de baile particular. À sua maneira, Socó lamentava a perda de seu ídolo. Ao pé direito do tanque e ao pé esquerdo do radinho de pilha, Socó esfregava colarinhos em “ei-bi-ci-uân-tu-tri”.
Antes que o tributo radiofônico ao rei do Pop americano atacasse com o “Beat it”, e a fã tupiniquim rodasse janela afora “en grand jeté” para se estatelar na área interna do prédio (o que me levaria a um “Thriller” pessoal, pois de nada adiantaria gritar por socorro em meu terror vespertino), pensei em diminuir o seu ardor coreográfico, mas... ela estava tão feliz naquela tristeza ao avesso!

A cena me fez lembrar do balé em que uma robusta cozinheira dançava em passos miúdos num palco ladrilhado, com uma mão pousada no quadril requebrante enquanto a outra segurava enorme frigideira que avançava a cada volteio, ombros ondulantes como se fosse a enfeitiçada Odile em “O Lago dos Cisnes” em tchiss-tchiss-tchiss de um instrumento percussivo a aludir ovos fritando.
O telefone toca, um amigo me cobra, “Todo mundo escreveu; você, nem uma linha. Vamos ver uns clipes?” Recusei. Cultura americana não é o meu forte, menos ainda o funk. “Ah, é?! Tira o refri, o jeans, o jazz, o churrasco texano, o Disney, o “West Side Story”, a interminável lista de filmes e livros, vou até esquecer que a vi assistir (extasiada) ao Rick Wakemann no Maraca metido a Beethoven - roqueiro... aliás, em que ano mesmo foi aquilo?” Cortei o papo e fui aos clipes, depois tasquei: passo por passo, a trinca Astaire-Kelly-Brown dava banho no sapateado-rodopio-paradinhas; Elvis Presley requebrava as cadeiras muito melhor; o passo-da-lua já rolava no ‘vaudeville’, e aquela pausa brusca com pés em ponta e corpo recurvado, bah, vem desde “O Pássaro de Fogo”, anos 20. Coreógrafos modernos originais foram Béjart e Bausch, mas aí já seria pedir demais, americano é americano. A diferença é que nenhum dos citados entrou em metamorfose vampiresca em ritmo de bate-estacas. Meu amigo resmungou que eu andei por outras ‘caves’, estou fora.

Achei divertido o Eddie Murphy, vestido de Ramsés II, interromper o ensaio de “Remember the Time” e dizer que não sabia ficar como estátua porque ele era do Brooklyn, e reiniciaram com a entrada de M.J. como múmia desenfaixada. Achei belo: o duo com a sensual Naomi Campbell em “In the Closet”; as crianças de várias etnias em “Heal the World” e o resgate poético-ambientalista das mãos enfiadas na terra por povos de todos os continentes em “Earth Song”, em que M.J. não aparece com seus tiques. “E o músico e cantor, não ganha voto?”, indigna-se o amigo. Claro! Terminada a fase de guri talentoso do hip-hop no quinteto fraterno, escolho as baladas sem o irritante “Uahuu!”, como em “She’s out of meu life”, uma voz quase de clarineta solitária em fundo de camerata de cordas. A originalidade dele ficou por conta dos clipes que o ajudaram a vender sua música, mas todos foram bolados por outros, ou seriam superbregas. As esquisitices pessoais não contam.
Levei para Socó um cartaz em que “Máicol” ainda tinha um rosto bonito, vestido de branco; ela o pregou na porta do armário e acendeu uma vela. Que a chama afaste os zumbis e ‘Neverland’ se transforme em ‘Graceland’. Amém.
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Tinê Soares – 28junho2009

1.5.09

Crônica da Tinê - Caravaggio!


Com uma senha na mão, aguardo. Sento-me voltada para uma parede de dez metros em cor-de-pêssego sob luz embutida no rodateto; nenhuma textura ou enfeites. As cores contrapontuam com o branco e prata de uma clínica radiológica – bem pensado.
Remexo o interior da bolsa, ponho os óculos, cato balinhas de canela, separo notas de cartões – bolsa de mulher é um buraco-negro. Quem vai ao templo indisposto a rezar, mata o tempo contando o número de encaixes nos vitrais. Por ora calculo quantos quadros seriam necessários para matar o paredão nu. Ou fazê-lo se abrir como o livro-cenário no qual literalmente entrei e me deixara maravilhada ao descobrir um alçapão que ia dar atrás do palco do pré-escolar. O livro era de Alice; nas páginas abertas, o coelho e o gato pintados pareciam dizer “vem, vem” até eu-menina sucumbir ao encanto. Ou seja, o livro-objeto me seduziu antes do livro-leitura. Talvez isto explique meu esquecimento das pessoas por seus nomes ou fisionomias; preciso de coisas, sons, cheiros, lugares para recordá-las, e nem sempre consigo situá-las na linha do tempo. Antes que o pêssego gigante apodreça em minhas retinas, leio sobre uma artista que monta exposição em consultórios – bem bolado; desde que o estilo e o tema combinem com a especialidade do médico: nada cubista na ortopedia; insetos vistos por macrolentes na oftalmologia; peixes na cardiologia; frutas partidas em ângulos sensuais na geriatria; abstrações para a sala de espera do neurologista. Sobre o pêssego de alvenaria, as obras imaginárias desfilam em carrossel até cair da bolsa o convite que eu ainda não tinha lido as letras miúdas: meu afilhado do coração vai se casar! Parece que foi ontem, ele no meu colo a se divertir com a chave na fechadura, ou com o interruptor de luz – acendia, apagava, acendia –, olhava para mim e ria. Informam as miúdas letras que o enlace vai se realizar na Galeria de Arte Caravaggio, na capital – que chique! Dos preparativos à partida para a lua-de-mel, inevitável classificar casamento como algo barroco, uma concha que surpreende: nunca se sabe de antemão qual será a cor da pérola. Caravaggio?! Relembro os quadros: martírios, suplícios, descidas da cruz, João Batista de cabeça na bandeja, Judith com a espada no gogó de Holofernes, até surgir da escuridão a tempestuosa Medusa a escancarar a boca - “Casou? Babau!”. Meu ceticismo não poupa nem os benquistos, que vergonha! Corro para as pinturas profanas, Baco de pileque ou rapazes na jogatina. Rogo para que, de Caravaggio, meus votos de prosperidade aos nubentes acompanhem a “Tocadora de Alaúde” diante da mesa posta com flores, frutos e um violino em repouso para os momentos mais secretos entre Praga e Budapeste, aonde a lua – só para eles – será de mel! Que o rosto da linda noiva se sobreponha ao da alaudista e ofereça ao noivo a face rosada, o lado tenro da pele de pêssego para a primeira mordida.
“Isten éltesen”, dirão os húngaros, Deus lhes dê felicidades!

Tinê Soares – 25março/2009

28.2.09

Palhaçada à mineira


Eu não sei onde Lamartine Babo estava com a cabeça quando compôs a VACA AMARELA, uma espanhola natural de Minas que na Catalunha cata boi com serpentinas. A danada ainda escangalhou no quintal a cancela ao pular a janela. Também não sei de quem partiu a ideia de reunir primos de cidades distantes para formar um bloco no interior de Minas.
A lembrança é vaga, confusa como a vaca que veio de uma montanha mineira, “lá do Mar de Espanha”. É ou não é piada de salão, e se acham que não é então não conto não. Até porque, minha incursão pelo reino de Momo foi restrita a bailes infantis onde desfilei fantasias, ou à garupa do padrinho para assistir o BAFO DA ONÇA em frente a Central do Brasil. Por temperamento, meus carnavais costumavam ser acampamentos sem confete, o pó-de-mico era picada de insetos, o lança-perfume era repelente, e nunca me passou pela cabeça ser enquadrada como foliã por um cordão que não era – nem de longe – o do BOLA PRETA.
Como a MARCHA DO GAGO não foi escrita por Babo, vou contar um pouco sobre certo fevereiro, acho eu, em 1969, acham outros, em 1970, não chegamos a um acordo.

Éramos dez palhaças encantadoras. Dos rapazes, lembro de alguns. O que me animou a aceitar o convite – e se tornou a melhor parte – foram os preparativos, a zorra pré-folia, a começar pelo ensaio na sala do piano de tia Edith. Uma de nós dedilhava o teclado enquanto a tia fazia cantar a máquina nas costuras – metros e metros de pano com bolas multicores em fundo amarelo. Um primo gaiato interrompeu a cantoria: “Vamos decidir a pronúncia: ou ‘xx’ de carioca, ou ‘ss’ de mineiro!” Ora, que cada um cantasse ao seu jeito, como cada um assumiu tarefa nos bastidores do Bloco das Palhaças; a mim coube a tinta para pintar os chapéus na mesma cor das bermudas, bermudinhas e bermudões.
A farra doméstica entrava noite adentro, um entra e sai de gente, bagunça na porta do banheiro em que a moçada apertada fazia fila, a tia cronometrava o tempo do chuveiro elétrico ligado – “Aqui não é Rio de Janeiro!”, ela repetia. Mineiros e cariocas troçavam entre si. Carinhosamente. Espantaram-se quando surgi de pantufas, minirroupão e touca, combinados em estampa psicodélica – “Nooo... como carioca é macaqueiro!”, disse uma – “Pronta para o baile!”, disse o ousado – e revidei, levei a prima Ré a fazer xixi no chão de tanto rir – “Não sou papagaiada! Meus objetos de banho são de grife...” Riram em dobro; eles lá sabiam o que era VENT-VERT de Balmain quando a moda era o capim-cheiroso de Vitória da Conquista?! Não perdi meu ‘savoir-vivre’, melhor dizendo, o rebolado: antes de partir para o clube, entrei de cabeça no frango com quiabo gosmento (que me horrorizava) até chupar os ossinhos para provar que era capaz de deixar a frescura de lado sem perder o frescor.
Caras purpurinadas, congas amarrados, laçarotes armados nas golas engomadas. As primas irmanadas na palhacice entraram no círculo delirante do Caratinga Tênis Clube: menos de mil palhaços no salão nos receberam com riso e alegria. Os rapazes, fantasiados deles mesmos, nos enlaçaram a cintura para pularmos e girarmos como relógio doido até... a tal vaca íberomineira amarelar.
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Tinê Soares – 20/02/2009
Nota da Redação: a foto é do álbum de recordações de Tinê que a retocou para a publicação.

19.12.08

Crônica da Tinê - De Alma Lavada



Em memória de J.A.K.

Alto, branquelo, olhos negros, barbado, pouca fala e sorriso franco, de uns trinta anos.
Franzino, mestiço, olhos vivos, tagarela em dialeto de rua, um pouco menos de doze anos.
Informal, o rapaz gostava de jeans e camiseta mas ia trabalhar engravatado no centro financeiro do Rio, onde estacionava o carro próximo à avenida Antônio Carlos.
Esperto, o menino vinha de algum lugar, não se sabe se de Niterói ou dos lados da Gamboa, de camisa e sapatos furados, uns trapos e escova num balde de lata que ele guardava no buraco de um muro de seu “ponto”.
O rapaz e o menino se cumprimentavam todas as manhãs, de segunda à sexta. Uma relação gentil entre cliente e prestador de serviço. Um deixava o carro, apressado. O outro cuidava do carro, dedicado. Quando aquele viajava a negócios, ao retornar recebia deste um sorriso ansioso pela espera, infantil. A conversa entre ambos se limitava ao carro e às gorjetas. Foram quase oito meses nessa camaradagem, e faltavam uns dez dias para o Natal.
Era época de HANUKÁ, a Festa das Luzes judaica que costuma coincidir com a festa dos cristãos - em ambas há ceia especial e as crianças ganham presentes. Um atendia pelo diminutivo Aby. Ele era judeu, não tinha filhos nem sobrinhos, então o frenesi consumista de fim de ano não afetou sua rotina. Do outro soube apenas o apelido: Dicó. Era um filho ao Deus-dará que conhecia as promessas celestiais pelos televisores ligados o dia inteiro nas vitrines.

Num fim de dia Aby viu Dicó sentado no chão, encostado no carro, cabeça baixa. Ao se aproximar preocupado, o outro rápido se levantou, sacudiu o pó das calças e estendeu as mãos em concha: --- É pro senhor. Feliz Natal!
Atônito, Aby emudeceu. Ficou parado, olhava as mãos um pouco sujas. Sorridente, o menino insistiu – abre, abre! Aby pegou o embrulhinho feito com papel já usado, enfeitado, amarrado em laço com barbante bicolor de padaria, abriu-o devagar e... --- Um sabonete GESSY!
Encabulado, Aby agradeceu e partiu. Ele foi correndo contar à amiga que contou para a família que contou aos amigos que contaram para todo mundo, enquanto se aconselhava sobre como retribuir ao seu dadivoso flanelinha. “Um brinquedo”, “Tênis novos”, “Mantimentos”, “Dinheiro”, “De tudo, um pouco”. Não sei qual foi o presente de Natal que o menino recebeu. Sei que Aby morreu em acidente de carro quase três anos após aquele encontro. Dicó hoje beira os trinta anos e é servente numa repartição pública em Andaraí.
Tinê Soares – 08/12/2008

12.12.08

Crônica da Tinê : Leilão


Ao meu pai

Quem dá mais? Quem dá mais? Alguém dá mais?... 75 para a senhora à esquerda! 23 para a morena marajoara! 50 para a senhora de vestido de alcinhas! 49 para o ex-surfista! 20 e 21 para os bonitões aqui em frente! 55 para a gordinha lá no fundo! 2 para o único bebê no salão! 32 para o cabeludo à direita! Entre 40 e 70 para os carecas! Para este senhor emocionado, dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe...

Prima de meu avô, Yvonne Lott viveu cento e quatro anos. Só a vi uma vez, na festa de seu centenário. Rodeada por parentes de quatro gerações, a rainha do banquete observava do alto de sua poltrona. Peguei-lhe as venerandas mãos como se naquele toque eu recebesse uma poção secreta para a longevidade ou uma dica às dúvidas sobre o complexo existir. Eu a admirava como quem tenta decifrar um enigma, cartas de tarô, astros insondáveis, búzios na peneira. Percorri as rugas de sua face; quem sabe descobriria o que as linhas da mão escondiam? Fiz a pergunta trivial “como se sente aos cem?” A resposta com ar cansado foi lacônica: “Satisfeita”, para em seguida abocanhar um naco de bolo. Ela não foi uma mulher liberada, de sair por aí levantando bandeira, muito menos uma velhinha de Cruzeiro. Levou sua vida pacata à margem das turbulências nacionais, criando filhos em casa e plantas no jardim.

Em quaisquer circunstâncias, - e olhe que escapei de várias! - eu já teria partido para outra, pois aos vinte anunciara por escrito não fazer questão de chegar aos trinta. Em que pesem a medicina moderna e os recursos milagrosos da cosmética, o que realmente acontece por dentro de quem corre contra o tempo? Aqueles que se gabam de nunca envelhecerem porque continuam a badalar ao vento, às vezes soam risíveis.

Meu avô dizia que depois dos sessenta, o que vier é lucro. Em breve corrigirão para “depois dos cem”. Não importam as dúvidas, as dívidas e os dividendos. Nasceu, é imperativo viver! Engolir os desgostos. Carregar as tralhas. Gostar, mesmo sem ser gostado. Chorar e rir bastante. Fazer umas doideiras sem se sentir obrigado a mascarar a idade. Contar estórias e piadas. Suportar os chatos. Regozijar-se com as conquistas, por menores que sejam: ninguém é humanamente capaz de só errar a vida inteira, a menos que faça do erro uma fonte de negócios excusos.

Rabisquei notas em guardanapos (alguns, por descuido meu, foram recolhidos ao lixo, acredito que deviam ser irrelevantes) enquanto meu pai discursava de braços abertos, a envolver todos de uma vez só em torno de sua mesa festiva. Se os braços se mantiveram abertos, os punhos estavam cerrados em confirmação de sua força octogenária. Se ele, agradecido, dirigia a palavra às pessoas atentas, ele o fez com os olhos voltados para os netos – os bônus de sua vida –, os que ele espera perpetuarem o seu nome junto à vontade de realizar o futuro além dele, sonhos que ele não sonha por não mais pertencerem ao seu tempo. Meu pai vale oitenta. Mas as ações podem subir a qualquer momento!
Tinê Soares – 05/12/2008
Foto-ilustração T.S.

5.12.08

Crônica da Tinê - Uma Dica Sem Clave


Erudição não é sinônimo de boa música. Alguém já compôs com o embalo rítmico da máquina de escrever, do pingar da torneira na pia meio-cheia, do frigir os ovos em sacolejo, resultando mais numa coreografia legal dos intérpretes do que em música. Phillip Glass que me perdoe, eu dormi em uma de suas apresentações na Sala Cecília Meirelles, no Rio. Mas o “Samba de Uma Nota Só”, ahhh, é outra coisa!

A educação musical na infância desenvolve não só a sensibilidade auditiva como também a compreensão das relações matemáticas. Minha mãe já sabia disto quando me inscreveu na bandinha do Conservatório de Música porque eu não conseguia ler as horas, mas adorava tamborilar os dedos na beira dos móveis. Lá produzi maravilhas sonoras com rocás e triângulos antes de dedilhar um teclado de frações até aprender a ler os ponteiros dos relógios. Hoje estou mais para pau-de-areia, recolhida à plateia enquanto passam as horas.

Um tempão atrás tinha ido visitar uma tia que tocava piano. De relance vi dois enormes olhos azuis que me espiavam. Do pimpolho-ouvinte não tive notícias, cresceu até reaparecer em minha casa com um prêmio da RIOARTE debaixo do braço. Em contrapartida, lá fui eu tocar-lhe uns discos que me agradavam – banjos do Mississipi e alaúdes medievais. Ao terminar a audição, o rapaz exclamou “Animaaal!”, como se tivéssemos acabado de ouvir algum rock do momento. Assim fui reapresentada ao talentoso Marcus Siqueira, de quem passo a falar.

Nascido em 1974, violonista erudito formado pela ECA-USP (1996), professor com método próprio voltado à criação musical para crianças no Ensino Fundamental, autor de inúmeras peças para cordas, teclados, percussão, flauta, clarone e soprano, incluindo violão – o patinho-feio das orquestras -, este filho de Caratinga que hoje vive em São Paulo já conquistou diversos prêmios além de receber três bolsas de criação musical significativas: RIOARTE (2001), Fundação VITAE (2003) e agora FUNARTE (2008) com a obra em progresso “COLAPSOS”, um concerto para quarteto de cordas e orquestra.

Sua primeira obra apresentada ao público foi no Teatro Municipal de Porto Alegre (1996) com “Seis Momentos para Flauta-solo”, interpretada por Marcos Kiehl.
Em 2001 recebeu o Prêmio de Melhor Trilha Sonora do Festival Nacional de Teatro (Presidente Prudente) com a peça “A Bicicleta do Condenado” de Fernando Arrabal, e “O Menino e o Burrinho”, dirigido por Bia Borin em 2007.

Sua primeira trilha no cinema foi para o longa-documentário “Nem tudo é Política”, dirigido por Heloísa Mattos (1994). Seguiram-se “Quebradeiras de Coco” e “À Margem do Lixo”, longas-documentários dirigidos por Evaldo Mocarzel em 2008, e o curta “Encontro das Águas”, do mesmo diretor.
Teve gravado sua versão do Concerto N°2 para Piano e Orquestra de F. LISZT para a Banda Sinfônica de São Paulo, estreado pelo pianista Gilberto Tinetti, sob a regência de Aylton Escobar (agosto 2008).
Em 2008 compôs “Fantasie presque Impromptu pour Ida Presti” para violão, obra comissionada pela "L'Association ADAMAS" (França), estreada por Laurent Blanquart em Nice (julho 2008), na Église Du Gesú.
Para abril de 2009 terá sua obra “Seis Estudos Sinfônicos” estreada e publicada pela OSESP, bem como a gravação em CD de toda sua obra para violão pelo violonista Gilson Antunes. Seus projetos incluem gravação de CDs e publicação de livros através da nova produtora ÁGUA FORTE, cujo site está em gradual definição.
Só colocarei o jovem Marcus no pedestal de minha discoteca quando ele compuser uma “fugata” para Quarteto de Saxes. Pode ter um violoncelo no meio. Ou um piano. Está bem, está bem: que seja um violão! Pois a vida segue em ritmos de vários tempos, do adágio ao fox-trote.
Tinê Soares – 02/12/2008 Foto: para divulgação com intervenção de TS.
Nota da Redação: Contato com o artista pode ser feito pelo endereço marcussiqueira@aguaforte.art.br

28.11.08

Crônica da Tinê - Não fui a Iriri nem comi siri (continuação)


“Meus sonhos são barcos seguindo com pressa,
E muitos se quebram nas pedras do cais...”
Barcos – Rosa Passos e Fernando Oliveira


Amineirada após vários anos nas Gerais, meu coração palpita calado. Vontade de comer siris e ver a alvorada no mar. Enquanto a praia é apenas uma síntese de todas as praias, plantações se desdobram pela janela do carro como um rolo de filme. A estrada sobe, cheiros serranos vêm do Caparaó. Passada a fronteira, Minas fica para trás com seus cafezais e milharais. Vem Jequiá com bananais. Vem Ibatiba com pedras d’água. Bromélias silvestres cobrem altas pedras escarpadas. Aqui e acolá, um coqueiro desponta no meio dos plantios, laranjais.
Ao pegar atalho, o carro passa sob arcos em forma de torres medievais em Conceição do Castelo: único elemento decorativo-rodoviário do trajeto, além das grandes e roliças pedras num trecho de contorno, que pejorativamente apelidei de “Cacas de Dinossauro”.
A paisagem muda (ou foi troca de filme?) perto de Domingos Martins. Fazendas de colonos alemães – em boa parcela, descendentes pomeranos -, parecem quadros a óleo expostos a céu aberto, tão limpas e uniformes nos detalhes: das cercas pintadas aos bois e cabras no pasto, das poucas casas em estilo europeu às imensas orquídeas que cobrem troncos de palmeira, dos cavalos no haras à rodovia bem cuidada.
A sequência do percurso é um pouco infiel. Os olhos captam as coisas e interagem com outros sentidos, juntam-se a alguns devaneios para um traçado particular da região. De repente o carro desce numa planície, como se despencasse no vazio. A estrada agora é uma longa reta ladeada por reflexos prateados que ondulam em sincronia... Ora, ainda não é o mar! São canaviais a perder de vista. Depois, muitas minas de extração de granito.
Enfim, um toque de maresia no ar. Em certa praia, de areias grossas e escuras, me espavento!
Encho as retinas com o primeiro barco pesqueiro, tão pequenino e colorido, tão longe de mim, igualmente longe da ilha na linha do horizonte. Das boas companhias de viagem, algumas foram para Iriri. Eu fiquei por ali. Dos frescos siris, não provei a carne; em época de desova é proibido pescá-los. Do melhor jeito, me contentei com cação e camarões no espeto, com o sobe-e-desce das marés, com as circunvoluções das conchas num interminável chuá-chuá, até o sol nascente se esparramar em brilhantes no espelho do mar.
Tinê Soares [18/11/2008]
(A foto que ilustra esta crônica também é da autoria de Tinê Soares e tem o título de Alvorada)

21.11.08

Crônica da Tinê - Não fui a Iriri nem comi siri


“Meus sonhos são barcos que descem o rio,
Em busca do mar que reluz no horizonte...”
Barcos – Rosa Passos e Fernando Oliveira


Vou à praia de Copacabana com as colegas de colégio, ao Arpoador com as primas em visita ao Rio, à Ipanema encontrar o namorado, assim falava eu em meus anos de beira-mar carioca.
Se alguém de carro estivesse disposto a rodar e a ferver sob o solão, então dizia: vou à Restinga de Marambaia - e depois, quase sempre, ia degustar moquecas em Pedra de Guaratiba.
Em feriados prolongados, os amigos resolviam acampar na deserta Prainha, ou na Praia dos Paraquedistas, para um luau reservado. Não havia estrada direta, era preciso trepidar sobre muito cascalho e xique-xique até chegar lá. Se o combustível e a grana permitissem ir mais longe, tascava: vou para Saquarema, vou para Restinga de Massambaba, vou para Búzios armar barraca. Se eu dissesse um simples “vou à praia”, por certo as areias seriam as do Leblon, onde morei em quase total felicidade.

Hoje vivo no alto de uma montanha. Sequer avisto marolas no fundo do horizonte. Fico a ver nuvens em forma de baleia, a ponto de quase me transformar numa. Nem posso, quando aperta saudade premente, descer de bicicleta com a marcha em ponto-morto ao encontro da água salgada, enterrar os pés entre espumas e moluscos a fazer cócegas - frêmitos de secreta alegria.

Por culpa das “Entradas e Bandeiras”, todo mineiro é gente do interior. Talvez seja, também, a causa para a fala mansa em tom baixo, para o trabalho em silêncio. Portanto, a mineirada é diferente. A mim parece que escondem a diferença quando anunciam “vou à praia” - ponto final. No início, meio estrangeira em terras barrentas, eu caçoava – Que praia?! Pode ser qualquer uma, do Espírito Santo à Bahia. A resposta é dada com ar blasê para disfarçar, como se fosse “logo ali, ao virar a esquina”, eu mal entendo se falam de bairro ou de outra cidade, até porque, para um mineiro, bairro grande é uma cidade, como a Praia do Morro em Guarapari.
Não é à toa que vem dos mineiros a expressão “eta marzão besta!”. A ausência de balneário próprio talvez seja a única dor-de-cotovelo deles, não lhes servem de consolo suas cachoeiras ou areais ribeiros, muito menos o fato de o Piauí molhar a cabeça no Atlântico. Mas o que seria da hotelaria e dos empreendimentos imobiliários praianos se não fossem os desmarinhados mineiros ávidos por ondas, bronzeado sem cloro e moda-verão bem comportada?
[continua] - Tinê Soares [18/11/2008]

18.9.08

Crônica da Tinê - ...madalenas sem canela, por favor.


Num gesto rápido alguém puxa as cortinas vermelhas. O som estridente das roldanas no trilho ricocheteia entre paredes, resíduos metálicos se calam nas fibras da fronha. Uma porção da neblina invade o quarto. O vento estremece um pé nu fora da cama, os dedos se encolhem. Cravinas secas se balançam sobre a cômoda. De bruços, deu para ver com um só olho pelo espelho, o outro está em pestanas cerradas sob o travesseiro.

A escada embaixo está molhada. - em sussurro - Mandioca cozida com café ou mingau de fubá? Os cactos espalmados estão empinados, um floriu, choveu antes do amanhecer, cuidado ao descer. Em resposta, baixinho – Quero chá, cidreira com jasmim, e se não for pedir muito...

No verão as tábuas estalam. No inverno, roçam umas nas outras feito cetins. Se chover, emudecem. Os adultos antigos explicavam às antigas crianças o barulho do piso: eram passos de fantasmas - em época quente eles dançavam o chicotinho; quando esfriava, dançavam o miudinho.

Na estiagem é visível o pó sobre os livros. No frio, vapor nas vidraças. E se chove, dezenas de pequenos rios descem pelos vidros, mofos crescem dentro dos armários. Se cair granizo no vidro fino, milimétricas rachas se ramificam como a árvore da vida.

Barriga para cima, olhos semiabertos na direção das mãos que dobram as roupas espalhadas e as colocam com cuidado sobre o encosto da cadeira onde ninguém pode sentar. A peça de madeira e sisal foi comprada só porque é igual a pintada por Van Gogh, com cachimbo de pau-rosa sobre o assento. Capricho decorativo em tributo.

Ruído abafado. Quando a primavera se aproxima os cupins entram em frenesi. De que lhes servirão as letras? A tinta é proteína? Por que não comem a numeração da página - tem que ser a palavra-chave, a boca feita a bico de pena, a frase do arremate, o rodapé das referências, o autor da citação com nome difícil de lembrar? A atividade voraz dos vermes lembra que está na hora de limpar as obras favoritas. Avinagrar as prateleiras, pulverizar essência de eucalipto. Só de pensar nisso, boceja.

A perna direita empurra a coberta. Com a esquerda esticada, outra folha da porta é aberta. Cheiro de barro úmido. Seivas de barba-de-bode e cabelo-de-bruxa fazem arcos no ar. O nariz se regala. Cotovelos apoiados, o corpo desliza para cima até encostar-se ao espaldar da cama para ver em perspectiva a porteira da fazendinha com suas paineiras: daqui até lá, em trilha reta; delá ao infinito, em curvas a caminho de... Para ver isto seria preciso deslocar o quarto para o meio da rua. Em pés descalços chega-se à balaustrada para não perder nenhum detalhe da vista. Então a imaginação gira o quarto em noventa graus e a memória completa a paisagem até chegar às amoreiras do lago.

Do balcão do quarto - da cama ainda morna, das flores murchas, das roupas dobradas, da cadeira do cachimbo, dos tacos cantantes, dos livros roídos -, a casa da fazendinha no horizonte surge aos poucos em meio ao nevoeiro que se desfaz.

Os pés giram no chão agora seco e os olhos acordados refazem o caminho inverso: fragmentos de escrita, canções esquecidas, cachimbo perdido, cadeira inútil, restos florais, lençóis vazios, dobras no tempo até chegar ao fundo do corredor refletido na penteadeira quando, aos tiquetaques, descubro que lá da parede ele me espiava todo esse tempo: de bigodinho engomado e olhar triste, o retrato do escritor.

Tinê Soares - 15/9/2008