
Entre cismas e sismos, eu disse que o problema era mais embaixo, ele disse que era mais acima. Falei da ação predatória humana, ele rebateu que estava fora da alçada do homem. Pausamos para mais uma garfada no frango com quiabo, batata doce e amendoim. Papo contínuo... O ano começou com um megachacoalho no Caribe, depois no Chile, outro no México, mais um na China, outros menores (mas não menos desastrosos) no golfo pérsico, tremores até em terras nordestinas e sulistas do Brasil. Calores anormais. Meu cacto floriu fora de época. Já tinha um termômetro, comprei um barômetro, o vizinho tem um hidrômetro, agora, acho, vou adquirir uma engenhoca com escala Richter, nunca se sabe o porvir. Aqui e acolá, secas prolongadas, degelos de áreas milenares, enxurradas, transbordos, erosões acima e abaixo do chão. Morte aos milhares. Nuvens de cinza vulcânica paralisaram parte do tráfego aéreo europeu por quase uma semana, às vésperas de comemorar o Dia Mundial da Terra, e os homens só reclamaram dos prejuízos financeiros. Após décadas de secura, este ano choveu cântaros no deserto egípcio. Literalmente, nosso planeta está em cólicas! - de tanto invadirem suas entranhas, ele treme, tosse e vomita. O magma sobe em gigantesca náusea. De tão esburacado, drenado em suas riquezas em prol do progresso humano, o planeta acomoda seus ‘vazios’, tais como caminhos de vermes mortos, com massa ígnea. Geólogos acorrem em explicações minuciosas ilustradas por sofisticados sofwares para que os leigos entendam, tintim por tintim. Ainda avisam que os Alpes estão a afundar, é provável que o mesmo ocorra ao Himalaia e os tibetanos nem percebem: a Terra é silenciosa, evita explosões de raiva até não mais aguentar e ruge a valer. Um dia, Veneza será indicada pelo cimo da catedral como uma boia sinaleira em meio às águas mediterrâneas. Os ambientalistas fazem piquetes em terra, água e ar. Os tecnocratas desdenham. As crianças abraçam árvores em ciranda. As velhas caem de joelhos a rezar: ainda picham o nosso Cristo Redentor carioca! Os utopistas anunciam o fim do governo, da indústria e do comércio gananciosos. Os prejudicados praguejam, apontam dedos à roubalheira. No balanço das ondas, iremos todos a funda, pois sim! Os esotéricos deixaram de lado as cordas navajas, o apocalipse de João e as profecias de Nostradamus para se debruçarem sobre o Livro dos Maias – o fim será em 2012!
Juscelino fundou Brasília há cinquenta anos no planalto central (só podia ser coisa de mineiro precavido), assentou a capital federal em terras ‘zimilenares’ (sobre placas bem sedimentadas) e, o que é importante, longe de ventanias e possíveis tsunamis costeiros. Praias, só as ribeiras (só podia ser coisa de mineiro que não tem mar).
Meu companheiro de almoço, sentado à minha frente, disse-me com ar professoral e mineirês: “É uma questão de ângulo. O eixo da Terra teve uma inclinação mais acentuada, um fenômeno geodésico, o homem nada pode alterar.”
Repliquei com minha relativa ignorância que, quando o Ártico e a Antártica se alinharem à linha do Equador, espero que eu e os meus já tenhamos renascido em alguma aldeola de Andrômeda! Diante da goiabada e do queijo posicionados como astros siderais, comi a sobremesa como se fosse a última.
Para mim, a Groenlândia não passa de uma geleira, mas foi a Terra Verde dos vikings, ou seja, a Greenland teve outrora prados verdejantes como o Saara de hoje já teve suas baleias e ostras. Da Islândia pouco sei, olho pouco na direção de países congelados, só sei que lá nasceu a cantora Björk e a capital é Reykjavik... será que os islandeses, um dia, cultivarão uvas? Por agora, tento pronunciar o nome do vulcão ativo por lá, autor dos últimos rebuliços europeus, o EYJAFJALLAJÖEKULL, palavrão que significa “Glacial da Montanha da Ilha”, e mandar recado ao São Jorge, santo guerreiro homenageado hoje, de que o dragão é imensurável: o planeta precisa de homens melhores. Evoé. Amém.
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Tinê Soares – 23/abril/2010











