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7.11.09

Difícil de engrenar!!!!


Tá difícil de engrenar nesse blogue. Culpa da realidade que anda rápida demais. Primeiro morre o centenário Lévi-Strauss que me fez perder noites decifrando seus livros.Prometi digitar uma antiga resenha sobre ele, mas nem deu tempo de começar... Caetano Veloso chamou nosso Presidente de analfabeto no Estadão... Pô Caetano, que preconceito é esse com o pessoal que não sabe ler??? Ia escever alguma coisa sobre isso e bati de cara com as comemorações dos 20 anos da queda do muro de Berlim, com U2 e tudo mais. Claro que tenho coisas a falar sobre esse evento que marca o fim do Século XX, segundo Hobsbawn...mas necas de escrever sobre o Trabant (é assim que se escreve?) atravessando a muralha...De repente vi o documentário "This is it" que registra os últimos momentos no palco desse gênio que foi Michael Jackson - claro que tinha coisas a dizer sobre , mas aí morre Anselmo Duarte, o único brasileiro a ganhar a "Palma de Ouro" em Cannes com um baita filme : "O Pagador de Promessas"- foi um cara que sofreu muito preconceito e eu tinha coisas a dizer também sobre isso. Enquanto tudo isso rolava, nas ruas os termometros marcavam 40 graus. Nesse calor brutal que impede Tico de falar com Teco e derrete catedrais Nelson Rodrigueanas, eu confesso que perdi o rumo...mesmo assim terminei a leitura do excelente livro de Mario Vargas Llosa, "Guerra do Fim do Mundo"que fala de Canudos, o que me fez enfentar a pedreira que é "OS Sertões" de Euclides da Cunha. Canudos é um tema que me persegue e pretendia falar algo a respeito, mas quem diz que eu consigo traçar pelo menos um esboço?... Na tarde do sábado, depois da feira, sentei em frente da TV e vi o grande Vasco da Gama voltar para a primeira divisão... tudo numa velocidade de deixar Paul Virilio sem fôlego e aí apareceu uma notícia sobre um concurso de Garota da Laje,então corri para perto do ar-condicionado junto com minha mulher que lá estava refugiada e esperei o mundo dar uma paradinha...Tá ou não tá difícil de engrenar???

5.7.09

O futuro de Michael Jackson


No momento em que escrevo estas mal traçadas, tudo ainda é incerto em relação ao destino dos restos mortais de Michael Jackson. A mídia até agora só fez especular. Fez dele gato e sapato, mas única certeza que ela nos dá é que o Sr. Jackson pediu o boné, e partiu desta para melhor.
É bom lembrar que este furo foi dado por um site de celebridades, o tal do TMZ, que só foi acompanhado de perto pelo Los Angeles Times. O resto do mundo ficou boiando. Alguém disse, com certo exagero, que a mídia já o tinha matado antes. Usando do bom e velho estilo sensacionalista, essa máquina de fazer doido (a expressão que alcunha a TV é do grande Stanislaw Ponte Preta e cabe como uma luva no complexo imediático) teria julgado o cara enquanto ele ainda respirava, atrás daquelas máscaras cirúrgicas ( que estão na moda atualmente no mundu sob influenza). É verdade que as centrais de fofocas chafurdaram na lama dos processos em que foi ele acusado de pedofilia. O rapaz chegou até a fazer uma música (Leave me alone) desancando os tablóides que inventavam notícias bizarras sobre sua vida, que convenhamos, não era risonha e franca.
Agora essa mesma mídia do massacre o transformou em boi do qual se aproveita tudo: cadernos especiais, revistas inteiras, suplementos, notícias diárias em todas as capas dos impressos e a todo minuto na internet e toda hora nos telejornais . Uma verdadeira avalanche de clipes e babás dando “depoismentos” contaminaram o mundo e espalharam o vírus MJ mais do que a gripe do porco. Pode-se dizer que quase esqueceram a crise financeira global, os desastres com os “airbuses” e outras coisas desse condomínio falido que chamam Terra.
As cerejas do bolo desta semana foram o aspecto químico da vida de MJ , seu testamento e o local do velório. Pois é, a cada minuto que passava, um novo remédio aparecia no cardápio do astro. E mais, revelavam que ele já tinha passado há muito tempo do nível dos potentes analgésicos para o degrau perigoso anestésicos. Sobre o testamento, aquela coisa de escantear o pai, os brothers e a ex . Agora, sobre o principal, que é saber onde vai ser o funeral, tudo que ficou nebuloso parece que se dissipa a cada nanosegundo. Primeiro ia ser no rancho Neverland, depois passou ser no ginásito esportivo Staples Center, que serve aos Lakers e mais outros 4 times de Los Angeles (que tem 20 mil lugares nas arquibancadas). A novidade é a exigência de ingressos que inicialmente iriam ser pagos mas alguém teve o bom senso de dizer que são “de grátis” , só que serão sorteados. No tesouro da entropia, outra informação cruzou os céus e anunciou que só americanos poderiam dar seu último adeus ao astro. Aí liberaram geral, e agora circula na rede que todo o mundo pode se inscrever. O problema é que só 17.500 ingressos serão sorteados . (Quem estabeleceu este limite?) e aí foi aquela enxurrada - em pouquíssimo tempo, o site oficial que recebe as inscrições foi atingido por 500 milhões de acessos. Cheiro de confusão no ar…Dizem os sites informativos que a polícia de LA planeja uma mega-operação para terça-feira, que parece que vai ser de fato o dia do funeral. A prefeitura que está com a caixa baixa, vai arcar com os gastos usando um fundo especial que garante a cidade para o caso de catástrofes tais como terremotos e incêndios . Tem gente reclamando disso e a polícia avisou que só vai ter uma porta de entrada para acessar o estádio… o cheiro de confusão no ar aumentou significativamente…
Hoje, na hora do almoço aqui na periferia, soube pelo noticiário da TV, que o funeral vai ser mesmo na sede dos Lakers, mas não contará com a presença do corpo do astro. Não sei porque o cheiro de confusão está tornando o ar irrespirável e não tem nada a ver com o encanamento do condomínio.
Ninguém falou ainda em enterro. Já teve quem dissesse que ele queria ser cremado e suas cinzas espalhadas no solo lunar, o que deve ser muito caro. Parece que vai ser realizado mesmo, numa cerimônia com a presença só dos familiares e amigos no Cemitério Forest Lawn. Tem um site que botou até uma foto da cova para deleite dos necrófilos.
Longe de mim praticar uma heresia, mas pelo andar da carruagem, o fenômeno MJ corre o perigo de virar uma religião. Enquanto seus discos voltam ao topo das paradas de sucesso e DVDs são embalados frenéticamente, já se especula nos sites de celebridades sobre uma fórmula de eternizar o astro de fato. Alguém deu a idéia, que não é de se jogar fora, de “plastificar” o corpo do artista, isto seria feito com um processso em que o corpo é embalsamado em poliruetano. Tal procedimento é praticado pelo médico alemão, Dr. Gunher Von Hagens (uma exposição do incrível trabralho desse médico passou pelo Rio faz pouco tempo). Seu corpo, então preservado dos vermes teria como residência um mausoléu na Arena O2, em Londres, onde ele faria os tais 50 shows.
Creio que ninguém tem dúvida de que MJ é um mito e seu culto continua em firme expansão, e olhe que a ficha ainda não caiu para seus ardorosos fãs( como se falava na época em que não existiam os cartões magnéticos), pois ninguém viu o corpo sem vida do ídolo. Será que ficarão apenas com aquela foto dele “entubado” quando chegou (já sem vida ao hospital) e alguns minutos do filme do ensaio que fazia para encarar a maratona de 50 mortíferos shows?
Creio que a visão da imagem de seu corpo morto será devastadora para seus fiéis admiradores, e temo que vire uma questão de saúde pública (mental).
No mundo do business a coisa vai bem, obrigado. Só se pergunta quando as relíquias (luvas, meias, cuecas, sapatos e brinquedos) serão leiloadas ? E para mostrar que show não pode parar, Madonna que chorou alguns dias, resolveu homenagear o amigo e incluiu números dele em seu show Sticky & Sweet , que fez na noite de sábado (dia4) na O2 Arena de Londres. Todo mundo estava careca de saber que esse surto ia acontecer, pois mal o corpo tinha esfriado e já se falava em um “Tributo a Michael” com grandes nomes do mundo da música. Até aqui na perifeira, Claudia Leite, também não perdeu tempo embarcou também nessa onda “homenageadora” em Salvador (como diria Odorico Paraguaçú )Teve jogador de futebol fazendo gracinha, imitando sua dança, depois de botar a pelota no véu da noiva. O negócio é sério, camaradagem! Até, na pacata Suiça ergueram uma estátua de 4 metros do astro, com seu uniforme de gala. Na hora da grande comoção da notícia de sua morte, vi hordas, em algum lugar civilizado do planeta praticando aqueles passinhos chamados “moonwalker“. No Japão, onde ele é adorado, fãs se esvaem em lágrimas e fazem origamis em sua memória. E para quem ainda não se converteu, está na internet algo muito curioso, uma homenagem que é um chamamento. Ela foi feita por prisioneiros filipinos que dançaram suas músicas no pátio da prisão - todo mundo de laranja numa graciosa coreografia (bacana! mas eles já tinham feito isso antes)
Será que ele corre o risco de se transformar num santo filipino? Não é nas Filipinas que existe uma tradição radical de crucificacão de fanáticos na sexta da paixão e um ritual público de autoflagelação?
Mas ele não era Testemunha de Jeová ? As más línguas dizem que o inquieto rei do pop tinha mudado de religião e abraçado a nação do Islã. Não é à toa que o brother Jermaine Jackson disse o nome de Alá, no dia em que anunciou oficialmente o passamento de Michael. Aí a coisa complica - o homem era um liquidificador cultural, estético, plástico, étnico e religioso - um exemplo concreto da desconstrução do sujeito…Santo ele não pode ser, mas quem sabe fundar uma nova religião? O papa não era pop? Pop por pop, Michael era o rei…
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Como quase toda religião tem em sua gênese uma perseguição( e aí estou chutando), agora vamos ver o que diz o núcleo duro da crítica ao rei do pop- vamos ouvir aqueles que não acreditam no pop. Batendo no bumbo da oposição, críticos refinados, a maioria deles aristocratas e passadistas, afirmaram que Michael Jackson era uma mera cópia de Mick Jagger ( o curioso é o nome dos dois são abreviados como MJ ), e mais que ele era um pastiche dos ícones e descobertas originais da cultura de massas, outros afirmaram ser ele, no máximo um “entertainer“, aqueloutros ainda o chamaram até de “direitista” por causa daquela visita à Casa Branca na época do Reagan… Mas fazer o que? O cara foi convidado pelo Presidente dos EUA e ele era Michael, mas não era Michael Moore!

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Muitos que o elogiaram também erraram na dose - Ivan Lessa registrou seu protesto rasgando um jornal quando leu uma frase de um colunista (que ele até então respeitava) que dizia que Michael Jackson tinha morrido”com mil flechas cravadas no peito“.

Muita tinta vai rolar debaixo desse esquife!

Um amigo meu, dos velhos tempos de redação, me disse que um fenômeno tinha acontecido nessa história toda de Michael jackson, paradoxalmente a morte o tinha humanizado. Ele que era considerado um ET, no fim virou um homem, sujeito à lei da gravidade, apesar do moonwalker.
Eu disse a ele que concordava e que tinha escrito mais ou menos isso nas entrelinhas da croniqueta “Jacko, humano, demasiado humano“, que publiquei recentemente nesse blogue.
Só que nessa semana, vislumbrei algo nebuloso no futuro do falecido.(há quem diga que ele não tem mais futuro, tem apenas a eternidade- Oh, My God!)
Sei não(???), de qualquer forma, o futuro de Micheal Jackson é nebuloso.

Fico me perguntando, depois de ler Sir Frazer, quantas religiões não surgiram da névoa?

2.7.09

Crônica da Tinê - She’s out... out... out... out... PAF! ... Crash, crash, crash


Se você pensou na mosca inoportuna, errou. Se você pensou em disco arranhado, está longe. Se você pensou em cristais caídos de uma roupa para brilhar em 360º graus no palco “en retour”, chegou perto.
Dei um pulo à casa que julgava estar deserta, reler textos e chupar laranjas no silêncio das coisas sobre a bancada da pia. Esperava, no máximo, ouvir solfejos titubeantes da vizinha aspirante ao canto lírico. Ao espalhar papéis e cítricas, vi imagens embaçadas no vidro fosco da porta fechada que dá para os fundos: braços escuros em contraste com a espuma branca até os cotovelos e um traseiro volumoso arrematado por laço de avental moviam-se em sincronia – um, dois, três, esquerda, um, dois, três, direita. Reparei nos pés que dançavam sincopados, numa paradinha a bunda empinava para trás seguida de uma barrigada, uma quebrada de pescoço e, neste compasso, após giro rápido de um braço no ar, ouvia-se estrondoso “splash” de roupa torcida batida contra o esfregador. Bolhas de sabão flutuavam naquele salão de baile particular. À sua maneira, Socó lamentava a perda de seu ídolo. Ao pé direito do tanque e ao pé esquerdo do radinho de pilha, Socó esfregava colarinhos em “ei-bi-ci-uân-tu-tri”.
Antes que o tributo radiofônico ao rei do Pop americano atacasse com o “Beat it”, e a fã tupiniquim rodasse janela afora “en grand jeté” para se estatelar na área interna do prédio (o que me levaria a um “Thriller” pessoal, pois de nada adiantaria gritar por socorro em meu terror vespertino), pensei em diminuir o seu ardor coreográfico, mas... ela estava tão feliz naquela tristeza ao avesso!

A cena me fez lembrar do balé em que uma robusta cozinheira dançava em passos miúdos num palco ladrilhado, com uma mão pousada no quadril requebrante enquanto a outra segurava enorme frigideira que avançava a cada volteio, ombros ondulantes como se fosse a enfeitiçada Odile em “O Lago dos Cisnes” em tchiss-tchiss-tchiss de um instrumento percussivo a aludir ovos fritando.
O telefone toca, um amigo me cobra, “Todo mundo escreveu; você, nem uma linha. Vamos ver uns clipes?” Recusei. Cultura americana não é o meu forte, menos ainda o funk. “Ah, é?! Tira o refri, o jeans, o jazz, o churrasco texano, o Disney, o “West Side Story”, a interminável lista de filmes e livros, vou até esquecer que a vi assistir (extasiada) ao Rick Wakemann no Maraca metido a Beethoven - roqueiro... aliás, em que ano mesmo foi aquilo?” Cortei o papo e fui aos clipes, depois tasquei: passo por passo, a trinca Astaire-Kelly-Brown dava banho no sapateado-rodopio-paradinhas; Elvis Presley requebrava as cadeiras muito melhor; o passo-da-lua já rolava no ‘vaudeville’, e aquela pausa brusca com pés em ponta e corpo recurvado, bah, vem desde “O Pássaro de Fogo”, anos 20. Coreógrafos modernos originais foram Béjart e Bausch, mas aí já seria pedir demais, americano é americano. A diferença é que nenhum dos citados entrou em metamorfose vampiresca em ritmo de bate-estacas. Meu amigo resmungou que eu andei por outras ‘caves’, estou fora.

Achei divertido o Eddie Murphy, vestido de Ramsés II, interromper o ensaio de “Remember the Time” e dizer que não sabia ficar como estátua porque ele era do Brooklyn, e reiniciaram com a entrada de M.J. como múmia desenfaixada. Achei belo: o duo com a sensual Naomi Campbell em “In the Closet”; as crianças de várias etnias em “Heal the World” e o resgate poético-ambientalista das mãos enfiadas na terra por povos de todos os continentes em “Earth Song”, em que M.J. não aparece com seus tiques. “E o músico e cantor, não ganha voto?”, indigna-se o amigo. Claro! Terminada a fase de guri talentoso do hip-hop no quinteto fraterno, escolho as baladas sem o irritante “Uahuu!”, como em “She’s out of meu life”, uma voz quase de clarineta solitária em fundo de camerata de cordas. A originalidade dele ficou por conta dos clipes que o ajudaram a vender sua música, mas todos foram bolados por outros, ou seriam superbregas. As esquisitices pessoais não contam.
Levei para Socó um cartaz em que “Máicol” ainda tinha um rosto bonito, vestido de branco; ela o pregou na porta do armário e acendeu uma vela. Que a chama afaste os zumbis e ‘Neverland’ se transforme em ‘Graceland’. Amém.
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Tinê Soares – 28junho2009

27.6.09

Jacko - humano demasiado humano


Confesso que de cara não acreditei na notícia de que Michael Jackson tinha morrido. Pensei que era um dos truques de cena dele, como aquela em que ele subiu numa limusine e dançou, antes de uma das audiências de um dos processos que ele teve que se defender de acusações de pedofilia. Nesse ato, o danado do bad-boy desmontava a solenidade dos tribunais. Dava a idéia de que ele iria tirar aquilo de letra.
Quando na TV o repórter disse que parecia que ele tinha morrido, pensei com meus botões que ele estava arranjando uma desculpa para não enfrentar a maratona de 50 shows que tinha pela frente e para a qual não estava preparado. Faz pouco tempo, tinha lido uma matéria num site da internet, que informava que ele estava chateado, porque pensava que eram menos shows e não 50 apresentações…etc e tal…
O jornal Los Angeles Times já tinha dito que o astro tinha pegado o elevador, mas emissoras de TV demoraram um pouco para confirmar a notícia, e não deu outra: o rei do pop estava morto. A confirmação de sua morte foi como uma bomba num vasto videoclipe que passou pela minha cabeça, e não era uma cena de “Thriller” - Michel Jackson agora dançava entre cadáveres de verdade.
Ele que já era um mito na sua vida extraordinária, agora então vai virar algo que não consigo imaginar.
Durante sua vida conseguiu transfomar sua natureza exterior numa metamorfose impossível de ser inventada por Kafka. Dizem que foram 50 operações. Com próteses e tratamentos dermatológicos radicais, ele se transformou muitas vezes. Não tentem compará-lo a um camaleão, pois esse bicho não muda sua forma - Michael Jackson quase se transformou numa criatura cubista. Seu interior parece que era de um menino que não queria crescer, dizem seus amigos e pessoas próximas. Não é à toa, e vou chover no molhado, que ele comprou um rancho que se chamava “Terra do Nunca” e vivia melhor entre as crianças. Ele decerto tinha o complexo de Peter Pan, como afirma uma certa psicologia barata.
Dizem que era viciado em analgésicos, principalmente num remédio que tem o mesmo efeito da morfina, chamado “demerol”. O pessoal da fofoca descolou até uma música que ele teria feito em homenagem a essa droga. Tem gente que afirma que uma overdose dela seria a causa de sua morte. Muitas especulações vão rolar em peças baratas do mundo pop até em teses de mestrado e doutorado sobre multi-identidade, natureza e cultura na pós- modernidade etc e tal…
Saindo fora do folclore de sua pessoa, da sua hipocondria, da bizarrice e excentricidades de sua figura, da sua derrocada econômica, fica a sua obra resgistrada em vídeos e discos. E é impressionante. Não há qualquer dúvida de que ele era um fenômeno. Além de compositor, era um intérprete fabuloso, e um dançarino-inventor de coreografias geniais. Pode-se dizer que era um ator total: um artista completo que dominava toda a cena do palco, os efeitos especiais e os truques que comandavam as massas e as levavam a chorar , delirar e desmaiar. Pode-se dizer sua arte era uma performance única, irrepetível. Para executá-la era preciso uma força extraordinária, quase chego a dizer, uma imensa violência. Imagino que naquela aparência de meio-homem- meio máquina que se metamorfoseava na frente do público havia a ilusão de aquilo que poderia ser verdade. Isso exigia dele, mais do que o ser humano suportaria. Ser mais do que um homem de 50 anos - que na realidade ele era, apesar da aparência adolescente. E a tentativa de superar essa performance ou dar continuidade a ela, foi o principal motivo de sua morte.

Foi tentando essa missão impossível que ele sucumbiu. Um mártir do mundo pop que o imaginou super humano mas esqueceu que ele era apenas humano, demasiado humano. E para botar mais lenha na fogueira, olhando de uma certa perpectiva, pode-se dizer que ele conseguiu vencer o tempo, talvez seu maior inimigo. Morreu jovem, aos 50 anos, pelo menos dentro da mitologia. Nunca o veremos velho, carcomido, cheio de rugas e cabelos brancos, cheio de manias, cercado de remédios numa mansão em decadência…

Pode parecer piegas, mas acho que chega perto de uma verdade que nunca saberemos.