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13.5.11

Normando Santos é grande atração desta sexta no Festival Beco das Garrafas: a bossa nova com balanço de primeira hora




Conheci o amigo Normando Santos, cantor, compositor e violonista, há uns dois anos, no "playground" de um edifício da Rua Coelho Neto, em festa com a presença de vários artistas, comemorativa de aniversário de Fred Falcão, procurador de Justiça aposentado e especialmente conhecido como um compositor de sucesso.  Recifense como Fred, Normando, que chegou ladeado pela cantora Carmélia Alves, participou da festa com quatro ou cinco canções de sua autoria, no bojo de prazerosa série de números musicais iniciada pelo conjunto Os Cariocas e terminada com Sílvio da Silva Jr., engenheiro da Petrobras, ao violão, lembrando, entre outras, a sua manjada "Amigo É pra Essas Coisas", da parceria com Aldir Blanc, gravada pelo MPB4 e hoje um "hit" de toda "happy hour" nacional. Com satisfação renovada, pouco depois, em Copacabana, em visita ao apê onde morava a grande Rainha do Baião, encontrei outra vez o histórico bossa-novista Normando, lá hospedado, ora diante do seu "laptop" - internauta contumaz -, ora de violão em punho, evocando Dolores Duran (responsável por seu primeiro emprego na noite carioca, como cantor da boate do Hotel Regente) e, em particular, a meu pedido, a bela toada "Dentro da Noite" ("Dentro da noite eu fiquei/pois perdi você/folhas pisadas no chão, resto de você/ficou lá dentro de mim o que eu quis dizer..."), feita com o publicitário Édson Borges. Esta um composição dele que ouço desde a infância, a qual Normando canta em cena do segundo episódio de um filme nacional de 1963, "Esse Rio Que Eu Amo", de matriz infelizmente desaparecida num incêndio. Juntamente com sambas primorosos de Luiz Antônio, como "Levanta, Mangueira" e "Quero Morrer no Carnaval", "Dentro da Noite" faz parte do elepê com a trilha desse título da filmografia do saudoso argentino Carlos Hugo Christensen, um vinil "mosca branca" que o meu pai, sonoplasta atuante nessa produção, conserva com muito zelo desde o lançamento.    
        Dois anos depois de participar do famoso concerto no Carnegie Hall, em Nova York, mostrando a sua "Amor em Samba" em companhia do quarteto de Oscar Castro Neves, Normando pegou um avião no Rio para Paris, com o intuito de substituir Baden Powell na Feijoada, uma das primeiras casas de música brasileira na Cidade Luz. Havia um ano e meio que Baden lá se apresentava, chamado pelo parceiro e diplomata Vinicius de Moraes, então adido cultural na França. O que para Normando seria apenas o cumprimento de um contrato de seis meses de trabalho foi, na verdade, o início de uma longa estada "chez" Paris, onde reside há 47 anos, sempre requisitado para shows em bares e clubes de jazz. Afinal, de bossa nova, em particular, ele é sobejo conhecedor e praticante, versado no balanço do "dim-dom-dom", como Carlos Lyra e Roberto Menescal (seus ex-colegas de colégio no Mallet Soares, em Copacabana), desde a primeira hora, e, como eles, um dos mais procurados professores de violão da batida diferente, tendo como discípulos, entre outros, Jards Macalé, Nelson Motta e até uma curiosa Betty Faria. Com Menescal, Ronaldo Boscoli, Chico Feitosa e Luiz Carlos Vinhas, ainda no início dos anos 60, dedicava-se a outra paixão, a pesca submarina, que os levava, nos fins de semana, ao azul do mar do litoral fluminense.
        Fazendo desta sexta-feira 13 um dia de sorte para o aficionado da MPB, sobretudo o bossa-novista, Normando é o cartaz da vez no Teatro Municipal Café Pequeno, no Leblon ("flyer" acima), às 19h, dentro da programação do Festival Beco das Garrafas, que prossegue amanhã, às 18h30, com a ótima cantora Fátima Regina, apresentando seu recente CD "Minha Praia É a Bossa", e, depois de amanhã, 15 de maio, às 18h, com simpática atração reunindo Amanda Bravo, também cantora, e trio formado por Paulo Midosi (teclado), Haroldo Cazes (baixo) e Rubinho Moreira (bateria) em memória de Durval Ferreira, pai de Amanda. Normando, que, agora, tem passado uma longa temporada no Rio, lança, finalmente, neste show, o primeiro disco "efetivo" da sua carreira, "Balanço com Bossa", ao qual, além da faixa-título e de outras inéditas, como "Lamento do Adeus" e "Aconteceu" (com Vinicius de Moraes), "Deixa Que Meu Amor Te Aqueça" e "Choro e Saudade" - uma declaração de amor e de saudade ao ninho natal -, juntam-se as já conhecidas "Castelinho", feita com Billy Blanco", "Deixa o Nosso Amor" e "Depois do Amor", estas com Ronaldo Boscoli, que conheceu no mais citado apê-referência da bossa, o do advogado Jairo Leão, pai daquela musa de joelhos bem torneados do movimento, a saudosa Nara Leão.  "Balanço com Bossa", bem mais sacudida no balanço do que de costume, é uma bossa a pleno gás e categoricamente revelada por quem também produziu e propagou o encanto da batida diferente, já na primeira hora.                  
        
 
Pós-escrito: a) a antiga foto acima, tirada em 1959 no Arpoador, traz Normando Santos, em pé, com seu violão, ao centro, rodeado, entre outros, por Luiz Eça, Roberto Menescal, Ronaldo Boscoli, Hélcio Milito, Bebeto (Tamba Trio), Luiz Carlos Vinhas e Chico Feitosa;
                      b) nos "links" seguintes, 1) Clara Moreno, filha de Joyce e Nelson Angelo, dá um recado bonito e envolvente em "Mais Valia Não Chorar", uma das músicas feitas por Normando com Ronaldo Boscoli; 2) Normando Santos em clipe com vários momentos da sua vida e fotos interessantes, tendo ao fundo a própria voz cantando "É o Fim", dele e de Xisto Vieira; 3) "Choro e Saudade", que Normando compôs para homenagear seu inesquecível Recife; 4) de um fôlego só, lembra ao violão "Saudade Fez um Samba", de Carlos Lyra e Ronaldo Boscoli; 5) "Balanço com Bossa", de Normando, "par lui-même", em gravação feita no TribOz. 
 

         http://www.youtube.com/watch?v=wIqYbuktW7g ("Mais Valia Não Chorar")
 
         http://www.youtube.com/watch?v=d-3u8KwI6PI ("É o Fim")
 
         http://www.youtube.com/watch?v=k8R_DtdcwC8&feature=related ("Choro e Saudade")
 
         http://www.youtube.com/watch?v=de20OeZtqVw&feature=related ("Saudade Fez um Samba")
 
         http://www.youtube.com/watch?v=DuV0gWn4GrU ("Balanço com Bossa")    

24.4.11

Chico Batera neste domingo no Festival Beco das Garrafas: um faixa-preta na sustentabilidade rítmica da bossa



Prezados amigos,
 
             Chico Batera é, há muitos anos, o "percussionista oficial" de Chico Buarque, certo? Certo. No entanto, embora isso, naturalmente, não seja pouco, está longe de resumir tudo ou quase tudo na carreira dele, pois, nascido em Madureira e iniciado nas manhas do ritmo como componente da bateria do Império Serrano, Chico Batera já atuou ao lado de cantores e músicos de projeção mundial, como Frank Sinatra, Michel Legrand, Quincy Jones, Ella Fitzgerald e Joni Mitchell. Começando na noite carioca em 1960, na boate Night and Day, em show do produtor Carlos Machado, Chico conheceu, sobretudo tocando, no limiar daquela década, o efervescente Beco das Garrafas, em Copacabana, na crista da onda bossa-novista, o que lhe ensejou, na ocasião, uma relevante viagem aos EUA, em missão cultural com chancela do Itamaraty, acompanhando o grupo do pianista niteroiense Sérgio Mendes. Residiu algum tempo por lá, numa comunidade de "hermanos" cubanos e porto-riquenhos, convívio que lhe aguçou o gosto pelos ritmos latinos - como se observa no seu CD "Salsa com Alma", lançado em 1997 - e a interseção deles com o jazz e a MPB. Parceiro de Carlos Dafé em "A Ilha", faixa do primeiro elepê, "Ritmo", que o também vibrafonista Chico Batera gravou, em 1979, tornou-se o nosso mais requisitado percussionista nos anos 70 e 80, acompanhando Antonio Carlos Jobim, Elis Regina, João Gilberto, Johnny Alf, Fagner, Djavan, Gilberto Gil e Mílton Nascimento, entre outros luminosos cartazes da nossa música popular. Há dois anos, no extinto Mistura Fina, em Ipanema, pôde reviver com Antonio Adolfo e Sérgio Barrozo o bossa-novista Trio 3-D, lá daqueles afastados anos 60 e assim batizado por Carlos Lyra, no qual, como costuma afirmar em tom de blague, ele e os seus colegas de conjunto já tocavam como "faixas-pretas", cheios de experiência e virtude antes da experiência propriamente dita e do certificado de qualidade expedido, com louvor, pelo tempo. Debutavam, portanto, à vera, como mestres do ofício instrumental, já conhecendo plenamente o que faziam. 
             Chico Batera apresenta-se, hoje, 24 de abril, às 18h, no Teatro Municipal Café Pequeno (Av. Ataulfo de Paiva, 269 - Leblon - tel.: 2294-4480).
 
             Um bom domingo de Páscoa a todos. Muito grato pela atenção à dica.
 
             Um abraço,
 
             Gerdal      
 
Pós-escrito: nos "links" seguintes, 1) Chico Batera (ao lado da cantora Thaís Motta na foto acima) aparece com a Orquestra Suburbana, em imagens de show, realizado no ano passado, em que se comemoraram 50 anos de atividade do percussionista; 2, 3 e 4) Chico Batera, à bateria e ao vibrafone, com o seu trio, formado ainda pelo contrabaixista Luiz Alves e pelo pianista Kiko Continentino, tocando, em sequência, de acordo com a progressão numérica das músicas escolhidas, "Samba e Amor", de Chico Buarque, "O Morro Não Tem Vez", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e "Sonho com o Rio", de Kiko Continentino, um tema haurido de contrastes presentes no dia a dia da nossa Velhacap.
 
 
           http://www.youtube.com/watch?v=P5JxYinvPNk (Chico Batera e a Orquestra Suburbana)
 
           http://www.youtube.com/watch?v=Ludv00Wdm18&NR=1 ("Samba e Amor")
 
           http://www.youtube.com/watch?v=XE1okd3xbGM&feature=related ("O Morro Não Tem Vez")
 
           http://www.youtube.com/watch?v=pv_7sNx7MKM&NR=1 ("Sonho com o Rio") 

9.4.11

Pery Ribeiro canta neste sábado no Café Pequeno: a primeira atração de série de shows dedicados à bossa nova


 
Prezados amigos,
 
        Onda que vai, onda que vem na nossa música popular, e Pery Ribeiro, como intérprete, atravessa décadas fiel ao seu dom natural de mostrar bonito tudo que se faz canção, no embalo do ritmo e da divisão. Da coisa mais linda que a bossa nova viu passar - e pôde cantar -, uma moça da praia de doce e internacional balanço, foi a primeira voz no disco, como também seria, entre outras joias do "violão gago", de "Rio", "Ah! Se Eu Pudesse" e do lado B do histórico 78 rotações com "Garota de Ipanema", a memorável "Vagamente", esta pouco depois associada em definitivo ao trinado diferente - rouco e sussurrado - de Wanda Sá. Se Pery foi todo bossa, em 1963, no seu segundo elepê - e muito mais bossa, dois anos depois, na sedutora companhia de Leny Andrade e do Bossa Três em temporadas memoráveis na boate Porão 73 e, pertinho dela, no Teatro Princesa Isabel, em Copacabana -, também traria, ao longo da carreira, para o seu mundo de canções romãnticas, sempre com bom gosto, o verso vigoroso de um baladista chegado ao samba (e neste terreiro, por exemplo, tecendo belas loas à sua amada Santa Teresa), o uruguaio verde-amarelo Taiguara, com a composição "Coisas", e o estro abolerado de um português criado em subúrbio do Rio, Adelino Moreira, a ambos dedicando - um pra cada um - dois CDs. Fiel à bossa e sob a influência do jazz, mas também cantando outras vertentes da nossa rica motivação musical, Pery viajou por vários países, neles conquistando admiradores cativos e arrancando aplausos de pé, como na longínqua Lituânia;  apresentou-se em cultuados endereços do jazz, como o Blue Note, em Nova York, e, caminho do mar, animou rotas turísticas em navios de luxo, como o "Splendour of the Seas". Inteligente, franco, risonho, sensível, bem informado e  de pensamento claro e respostas bem articuladas em entrevistas, assim também se revela o Pery, grande no palco, no exercício do seu ofício, especialmente na levada da bossa. E, além do mais, ele é carioca. 
        Um bom dia a todos.  Grato pela atenção à dica.
 
        Um abraço,
 
        Gerdal
 
Pós-escrito: 1) Pery Ribeiro, neste sábado, 9 de abril, às 19h, é atração bem-vinda e oportuna do I Festival Beco das Garrafas, no Teatro Municipal Café Pequeno ("flyer" acima), no Leblon, que, em apresentações semanais, até o final do próximo mês, reunirá artistas identificados com a bossa nova, como Os Cariocas, Bebeto Castilho (ex-Tamba Trio), as cantoras Waleska, Fátima Regina, Cláudia Telles (filha de Sylvia Telles e do violonista e compositor Candinho)  e Amanda Bravo (filha de Durval Ferreira) e o compositor e violonista Normando Santos, este um personagem do comecinho dessa história na MPB e há muito residente em Paris; 
                     2) nos "links" seguintes, a) Pery canta "Samba de Orfeu", de Luiz Bonfá e Antonio Maria; 2) canta "Giramundo", de 1965, feita por Luiz Carlos Sá, então um constante participante de festivais de MPB e, mais recentemente, conhecido pela dupla de sucesso com Gutemberg Guarabyra;  3) da lavra de Pery com Geraldo Cunha, "Bossa na Praia", com Sylvia Telles.       
 
 
         http://www.youtube.com/watch?v=iZ7H8v-71D8 ("Samba de Orfeu")
 
         http://www.youtube.com/watch?v=4sMYiCooGcU&feature=related ("Giramundo")
 
         http://www.youtube.com/watch?v=__4imL3pnpM&feature=related ("Bossa na Praia")

3.2.11

Denise Reis leva a sua voz e o seu trompete bucal ao Teatro Café Pequeno esta semana, divulgando novo trabalho em disco



Do amigo ítalo-brasileiro Bruno Migliari, fera no contrabaixo, recebo e repasso comunicado de show que a cantora, compositora e violonista Denise Reis (foto acima), natural de BH e há muito radicada no Rio, fará nesta semana, nos dias 4, 5 e 6 de fevereiro, às 19h, no Teatro Café Pequeno (Av. Ataulfo de Paiva, 269 - Leblon), com participação do cantor, compositor e pianista nova-iorquino Avi Wisnia, ambos lançando CDs: o dela é "Alfândega"; o dele, "Something New" ("flyer" acima). Desenvolvendo técnica vocal, ainda na capital mineira, como integrante destacada do Coral Júlio Pardini, com o qual, aos 16 anos de idade, viajou em turnê por 11 países europeus, Denise colheu, certa vez, do cantor e compositor Tito Madi um enfático elogio: "Denise Reis interpreta lindamente e dá colorido à sua maneira de cantar, embelezando qualquer canção. Suas cordas vocais não desafinam nunca, e sua garganta é privilegiada. Diria até que sua garganta é mágica." A propósito, ela também impressiona por tocar trompete sem trompete, ou seja, fazendo muito bem o som do instrumento com  a boca, dom bastante exercitado com a valia de audição costumeira de gigantes do sopro jazzístico, como Freddie Hubbard e Miles Davis. Por causa disso, em particular, além do mérito canoro, despertou o aplauso da crítica quando se apresentou no Festival de Música Brasileira, da TV Globo, em 2000. Tive, no ano passado, por acaso, a satisfação de reencontrá-la, embora a circunstância não fosse propriamente apreciável ou recomendável: ambos, entre outros pacientes, em um centro fisioterápico de Botafogo, seguindo orientação médica, mitigando a sua dor.  
           Um bom dia a todos. Muito grato pela atenção à dica.
 
           Um abraço,
 
           Gerdal
 
Pós-escrito: abaixo, nos "links", 1) Denise, em Copacabana, na extinta Modern Sound, canta "Perseguição", dela e de Renata Thurler; 2) ela mostra o som do seu trompete bucal em vários temas, bem conhecidos, de seriados americanos de sucesso.
     
          
                    http://www.youtube.com/watch?v=W9eX-kChYUE ("Perseguição")
 
                    
                    http://www.youtube.com/watch?v=2eS4pDY210s&feature=related (Denise Reis e seu trompete bucal)

8.10.10

Chico Caruso, Wanda Sá & Dôdo Ferreira Trio alegram as noites do final de semana no Leblon


Chico Caruso, Wanda Sá e Dôdo Ferreira Trio se apresentam no show Bossa do Leblon nas sextas, sábados e domingos até 31 de oububro. Os shows começam às 21 horas no Teatro Municipal Café Pequeno, na Avenida Ataulfo de Paiva, 260 - telefone 2294.4480.
(clique na imagem do flyer acima para ver a turma toda pronta para o embarque)

28.7.10

Dica do Gerdal: Lúcio Alves é revivido na cena de "Enquanto a Vida Passa", nesta quarta e quinta, no Teatro Municipal Café Pequeno





 "Andam comentando por aí/coisas que eu não quis acreditar/deixe que eles falem por aí/essa gente gosta de falar..."   
              Houve quem comentasse, só pra chatear o cantor, que seu único sucesso na carreira tinha ocorrido, em 1963, com a gravação do comercial do Leite Glória, composto pelo "número um" do ramo, Miguel Gustavo. Uma blague, naturalmente, isso que "diziam por aí" - numa alusão ao "Dizem por Aí", de Manoel da Conceição e Alberto Paz, dos versos da epígrafe -, pois, embora esse dado seja um marco do nosso "jingle", até hoje assobiado, Lúcio Alves (foto acima) - mineiro da Zona da Mata, da "cinematográfica" cidade de Cataguases, e primo do jovem e talentoso pianista e compositor Marvio Ciribelli - não se virou nos 30 (segundos) da mensagem, apenas, mas foi muito além, sendo, a seu modo "cool", um antecipador da bossa nova e portador, pelo belo abaritonado, de uma das vozes mais atraentes do disco brasileiro de todos os tempos, como a de outro mineiro, esquecido, este de Curvelo, que lhe era bem próximo no seu círculo de amizades, Luiz Cláudio. Para que não se façam ideias erradas dele, pode-se observar que o sucesso até chegou cedo na atividade artística do Besouro (como Cyro Monteiro, por causa do timbre grave, o chamava), pois, em 1945, com 18 anos, Lúcio já lhe provava o gostinho com "Eu Quero um Samba", de Janet de Almeida (irmão prematuramente falecido do longevo Joel de Almeida) e Haroldo Barbosa, integrando um conjunto profissional que organizara aos dez anos, os Namorados da Lua. Ainda nesse conjunto, com idade adulterada no papel, Lúcio trabalharia no Cassino Atlântico, em Copacabana, onde brotaria seu grande sucesso como compositor, com retoques na letra por Haroldo Barbosa, lá encontrado por ele: "De Conversa em Conversa", prontamente levado ao giro de um 78 rpm, em 1946, pela cantora Isaurinha Garcia. Um caderno de notas desfolhado por algum aficionado da MPB poderá conduzir a outro registro bem-sucedido de Lúcio, "Joãozinho Boa-Pinta", dos anos 50, que remanescentes de sua "multidinha" de fãs - em contraste com as multidões de Orlando Silva -, certamente, sem alarido, curtiram na ocasião, um samba composto, novamente, por Haroldo Barbosa, desta vez com Geraldo Jacques. 
       Aos admiradores de Lúcio Alves, como eu, recomendo a leitura do fascículo 9 da série Coleção Folha - 50 Anos de Bossa Nova, em que, com o texto enxuto e bem articulado de sempre, o jornalista Ruy Castro passa em revista a rica trajetória desse também produtor musical em boates como a Le Bateau, nos anos 70, e, na mesma década, de programas importantes nas TVs Tupi e Educativa. Nessas páginas, Ruy explora, como fio condutor da narrativa, um pormenor de vulto no paralelo que faz entre Lúcio e Dick Farney (um dueto antológico na MPB, em 1954, com a gravação de "Tereza da Praia", de Tom Jobim e Billy Blanco): a malha do que chama de "espantosas coincidências" que ligam um ao outro, mortos, ambos, aos 66 anos (Dick, em 1987; Lúcio, em 1993) e do mesmo jeito, "tristes, esquecidos pelas gravadoras e afastados do público". 
       Nesta quarta e nesta quinta, 28 e 29 de julho, às 21h, no Leblon, no Teatro Municipal Café Pequeno (Av. Ataulfo de Paiva, 269 - tel.: 2294-4480), assim como nas demais quartas e quintas até 12 de agosto, Lúcio Alves é homenageado em "Enquanto a Vida Passa" (vídeo e "flyer" acima), com a cantora e atriz Andreia Carneiro, participação especial do ator André Poubel e valioso apoio instrumental do amigo violonista e baixista Célio Burlamaqui (que residiu por muitos anos em Lisboa), do trombonista Sylvio Barbosa, do baterista e percussionista Bonavita e do violonista e guitarrista Marquinho Roberto, também diretor musical. A direção do espetáculo está a cargo do seu autor, Renato Alvim, dividida com Alexandre Maguolo..
       Um bom dia a todos. Muito grato pela atenção à dica.
 ***
 
Pós-escrito: nos "links" abaixo, 1) Lúcio Alves canta "Rio à Noite", de Renato Amorim e Sérgio Gomes, faixa do elepê "Cantando Depois do Sol", de 1961, da Philips, com arranjo do também esquecido Carlos Monteiro de Souza ; 2) um ano antes, em imagens da comédia "Marido de Mulher Boa", dirigida pelo iugoslavo J. B. Tanko e protagonizada pelo baiano criador de tipos Zé Trindade (que contracena com Isa Rodrigues, hoje no Retiro dos Artistas), Lúcio aparecia com um Caymmi na ponta da língua, o samba "A Vizinha do Lado"; 3) Lúcio Alves e Dick Farney (ao piano), num trecho de gravação de 1976, cantando "A Saudade Mata a Gente", de Braguinha e Antônio Almeida; 4) uma curiosidade: uma gravação de Lúcio Alves, feita em 1957, pelo selo Mocambo, de "Meu Violão Vai Me Acompanhar", samba-canção com melodia do maestro russo Georges Moran (que, por tocar balalaica, foi taxado de excêntrico, em 1934, quando chegou ao Brasil) e letra de um político e poeta muito lido, o acreano J. G. de Araújo Jorge.               
 
      http://il.youtube.com/watch?v=Ax-cjt2_P-Y&feature=related
 
      http://www.youtube.com/watch?v=_--r40ZNhIo
 
      http://www.youtube.com/watch?v=5YDBjnzK8Jk&feature=related

      http://www.jgaraujo.com.br/LP/Faixa8/meu-violao-vai-me-acompanhar.html
 
      http://www.youtube.com/watch?v=uRceeYj2-R8&feature=related (vídeo de "Enquanto a Vida Passa")