Mostrando postagens com marcador mini-crítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mini-crítica. Mostrar todas as postagens

24.3.09

Once : O ultra-romantismo está na onda





(publiquei originalmente esta minicrítica no meu blogue que está no youPode)
No fim de semana que passou tive uma grata surpresa ao ver um filme (em DVD) irlandês - quase engasguei com a pipoca- o filme é demais de bacana!
Apenas uma vez (Once), de 2006, vencedor do Oscar de 2008 pela melhor canção - Falling Slowly (foi idicado para o Grammy no mesmo ano - mas foi aquele em que o pianista budista Herbie Hancock ganhou o prêmio mais importante da noite, o de melhor disco do ano com River: The Joni Letters , e a danada da Amy Winehouse abocanhou outros cinco troféus) não é um musical, mas é quase um filme de trilha sonora em que as canções ajudam em muito a contar a história. O que apaixona as pessoas nesse filme é a sua simplicidade e sua humanidade.- o fato dele despertar um desejo de que esse mundo seja melhor. É um filme, cujo roteiro ocupa apenas umas 10 linhas. Uma história de amor? É, pode-se dizer que é um filme romântico, ou melhor, ultra-romântico - um romantismo bem nos moldes do século XXI. O importante nele, volto a dizer, é uma crença no ser humano, na sua capacidade de superação, na importância de certos encontros e do afeto. Uma crítica mais servera, diria que ele passa batido pelos problemas do mundo de hoje - que se trata de um delírio, no mínimo um sonho, um conto de fadas urbano- como diz a LA Weekly numa frase destacada na embalagem brasileira do DVD. Explico- é um filme que comete o pecado de não ser a repetição do triângulo sexo- drogas-violência (o rock and roll seria apenas a embalagem). Ele conta a história de Guy, um cantor de rua de Dublin (interpretado por Glen Hansard) que trabalha com o pai numa oficina que conserta aspirdadores de pó. Em alguns momentos de folga da oficina ele solta a voz e ganha alguns trocados - de dia nas esquinas movimentadas da cidade cantando coisas do repertório popular e, de noite canta coisas de sua autoria. Se esguela ao botar pra fora seus sentimentos feridos - sua solidão e a sua perda ( a namorada o abandonou) em belíssimas canções, com letras elaboradas e intrepetações emocionadas - arrisco dizer - arrebatadoras. Numa noite dessas de bardo, passa uma moça checa, Markéta (vivido por Markéta Irglová) que vende flores para sobreviver. Ela para, ouve uma canção, se encanta e joga uma moeda na “caixa” do violão do rapaz. Começa então um papo com ele, que vai dar pano pra manga. Ela também faz canções e toca piano divinamente. A coisa a partir daí se transforma numa “relação” especial- um procura a companhia do outro, trocam confidências - se aproximam, tornam-se parceiros…rola um clima (bem não vou estragar o prazer de vocês e contar o final).
No fundo está a dificuldade de empregos na Irlanda, o poder econômico e cultural da Inglaterra (Londres) , o a questão da imigração com a desintegração do leste europeu - mas isso bem no fundo - quase não aparece no filme. Mas aí não importa mais nada, você quer esquecer a crueldade do mundo por uns instantes, e acreditar que aquilo que rola na tela é possível. A gente entra na torcida para que os dois acabem juntos. (no bom sentido, é claro)
De certa forma, o filme é produto do imenso talento dos duas pessoas : Glen Hansard - que interpreta o cantor de rua com sua voz potente e a graça de Markéta Irglová que é também cantora, e domina vários instrumentos. As músicas que tocam no filme, a maioria delas foi composta por Hansard e uma delas por Markéta ( Markéta é parceira dele no conjunto de rock The Frames - cujo último álbum “The Cost” feito em 2006 fez muito sucesso). Uma curiosidade: Hansard começou sua carreira musical , com 13 anos de idade se apresentando nas ruas de Dublin com , segundo a Wikipédia.
Taí, não é uma supre-produção - é um filme barato, feito com bastante esmero e competência por John Carney (roteiro e direção- ele já foi baixista do the Frames, mas acho que passou do prazo de validade para ser roqueiro). Não se pode esquecer de elogiar o elenco que acompanha o casal nessa aventura- que é muito bom.
Outra coisa que não posso deixar de falar é que pela ela atmosfera e por sair do estereótipo trágico do filme irlandês, Once lembra um pouco o filme (sensacional) The Commitments, de Alan Parker, no qual Glen Hansard fez o papel de um guitarrista (Outspan Foster) . Por outro lado, por contar uma história de outsiders, passa perto dos filmes de Jim Jarmusch (veja Stranger Than Paradise), e pela delicadeza da abordagem do tema das relações de afeto nesse mundo do pós-tudo, nos remete ao bom filme de Sofia Coppola “Encontros e Desencontros” (Lost in Translation).
Arrisco a dizer que o filme é imperdível. Acho que exagerei!
(Ah! a trilha sonora é maravilhosa e está gravada em CD)

5.1.09

A tragédia de um homem bom


Confesso que fui ver o filme Um homem bom (Good) com uma certa reserva: - Viggo Mortensen no papel principal! Mas quebrei a cara, ou melhor metade da cara. Explico: O trem da fita Um homem bom do brasileiro Vicente Amorim (*) (adaptação da peça de teatro de Cecil Philip Taylor) passa a quilômetros de distância do livro Auto de Fé de Elias Canetti . Mas tem algumas coisas em comum, ou seja:um homem de livros, o fogo, - que são os principais personagens dessa obra terrível (no bom sentido) do escritor búlgaro.
Canetti cansou de dizer que um fato marcou para sempre sua vida e fez com que ele dedicasse longos anos para compor uma obra que, de certa forma, expressa seu estranhamento diante de um fato- um acontecimento público que o fez mergulhar de cabeça na massa. Foi no dia 15 de julho de 1927 em que aconteceu uma manifestação que tomou a toda cidade de Viena e acabou com o incêndio do Palácio da Justiça . A polícia não hesitou em atirar contra a massa e nessa época não existiam balas de borracha. Morreu muita gente. Canetti notou porém um homem que - aparentemente alheio no meio da multidão em fúria erguia as mãos para o céu e gritava : "- Os arquivos estão queimando! Todos os arquivos!" Este episódio da alienação deste homem que se preocupava com os papéis enquanto gente morria abatida a tiros e o fato todo da sua imersão embriagada na massa seriam taduzidas muito mais tarde em dois livros, Massa e Poder (um ensaio fabuloso) e Auto de Fé - que fala do personagem Kien- um sinólogo- que é um homem de livros - um ser obcecado por obras e temas superiores do espírito e que não se importa com mais nada. É um pouco o caso do personagem John Halder, do filme, uma alemão "incomum". Halder, na verdade, quer ficar longe de tudo que o cerca - ele cuida de uma mãe doente, uma mulher maníaca que toca piano sem parar- desesperadamente e dois filhos. Observa com um princípio de indignação - logo calada por uma voz que o intimida- a queima de livros que ocorre na universidade onde dá aulas de literatura. A Alemanha vivia os momentos "felizes" do regime nazista onde se misturavam flores, ginástica e marchas com a queima das idéias contrárias. Seu refúgio é seu escritório onde compõe um romance cujo componente "eutanásia" que vai determinar sua vida de forma a se comprometer, sem querer, com a alta cúpula nazista. No meio dessa encrenca ele encontra uma jovem aluna "chave de cadeia" que aparentemente dá a ele um pouco de prazer. Ele - que tem horror às massas , também é envolvido por elas com a ajudinha da moça que parece ser boa de lábia. Como Kien ele estabelece relações com uma mulher terrível ( no caso do personagem de Canetti Therése é uma velha governanta que só quer saber de dinheiro - no caso do professor John Halder , é uma garota deslumbrada com a ascenção do nazismo). Não vou contar o resto do filme para não estragar o prazer do leitor.
Não é um filme ruim mas não chega a ser uma obra- prima. Dá para o gasto, e consegue leva o espectador para dentro do clima contraditório de uma Alemanha que se mostra inocente ainda ao desconhecer as pequenas monstruosidades que foram ocupando territórios até só restar o horror. Um dos seus méritos é não utilizar o esterótipo do oficial nazista malvado. Todos são ou muito simplórios, otimistas homicidas ou vítimas de uma ambiguidade entre medo e exaltação. É muito interessante notar que em determinadas épocas históricas, ser inocente pode ser um crime hediondo.Em determinados momentos é difícil ser herói como lembra muito bem a letra de Aldir Blanc na voz de João Bosco:"Ah, como é difícil tornar-se herói
Só quem tentou sabe como dói vencer Satã só com orações
." Lembro também de um ditado indígena americano que diz que "é fácil ser herói à distância". Lá no meio do contubérnio nazi-fascista era mais difícil ainda. Que o diga o amigo judeu de John Halder, que vai colocá-lo frente ao problema de sua até então "inocente" adesão involuntária ao nazismo. No caso do professor John Halder, o destino o amarra de tal forma que ele não consegue esboçar um gesto para se desvincular, só resta ser testemunha muda da barbárie e mais do que isto, da união da perversidade e do sublime que eles conseguem e que se revela na cena mais impactante do filme. O desempenho de Viggo Mortensen como um patético professor racionalista no ninho de cobras (irracional) nazista é algo que surpreende. Quem o viu no remake de Vanishing Point de 1997 no papel de Jimmy Kowalski vai comparar e ver que o cara evoluiu pra dedéu.
Talvez nas mãos de István Szabó que fez o magnífico Mephisto (baseado no romance de Klaus Mann - com roteiro de Péter Dobai ) esse filme atingiria uma outra densidade,(uma outra qualidade dramática), mas como já disse, com certas limitações,ele consegue dar o seu recado e fazer compreender a complexidade do tema. Em outra palvras, Um homem bom é um filme bom.
(*)Vicente Amorim fez em 2003 o excelente filme O Caminho das Nuvens Sua carreira no entanto já vinha se estruturando quando participou em Luar sobre Parador como assistente de Paul Mazursky em 1987 e em 1990 trabalhou com de Hector Babenco em Brincando nos Campos do Senhor também como assistente. O cara entende do riscado e estreou bem no mercado internacional com esse Um homem bom