20.7.08
Gripe vai e volta

O blogueiro que vos fala (com voz rouca) pegou uma gripe danada na semana passada. Conseguiu um habeas corpus ,mas ela voltou com tudo. Por motivo de força menor então, o blogueiro está debaixo de cobertores na base da vitamina C, chocolate quente e doses cavalares de TV. Quer dizer, a continuação da pensata sobre Antonioni fica para a próxima semana, assim como outros cometimentos.
19.7.08
18.7.08
16.7.08
Monica Vitti, eterna musa de Antonioni

(Estes são esboços de uma tentativa de chegar perto da obra de Michelangelo Antonioni - Na verdade são fragmentos - uma espécie de ensaio que a gente não se sabe muito bem onde vai parar - assim como nos filmes que ele fez)
Michelangelo Antonioni, antes de mais nada tem um mérito - eternizou a imagem de Monica Vitti, para nosso deleite.
Arrisco dizer que sem Monica Vitti,(nascida Maria Luisa Ceciarelli) os filmes que receberam o rótulo de trilogia da incomunicabilidade: os premiados A Aventura (L'Avventura), A Noite ( La Notte) e O Eclipse( L'eclisse), além de Deserto Vermelho (Il deserto rosso)- que é uma espécie de continuidade dessas obras, não teriam o mesmo sucesso de crítica e acredito que nem alcançariam grande público.
Monica Vitti, lindíssima, inteligente, expressiva e como disse um colega blogueiro, sensual sem precisar tirar a roupa para isso. Alguém comentou que ela também era muito engraçada, e eu a vi numa entrevista que mostrou que além disso era bastante atrapalhada, solta, bem diferente das mulheres que encarnou nestes filmes de Antonioini. Na verdade, parece que ela também fez algumas comédias , mas foi com seu talento monumental que conseguiu encarnar os papéis das mulheres complexas, com o interior labirintico, no mais das vezes confusas, inocentes ou neuróticas que se deslocavam pelos cenários dos filmes do diretor italiano com o olhar perdido num horizonte que nunca conseguimos alcançar. Com este fragmento quero dar uma base concreta para o cinema que Antonioni fez. Um cinema cerebral, que flertava com o improviso que contava com o instinto dos atores, e neste caso desta magnífica atriz que foi central, e além disso, marcou com sua beleza seus filmes fundamentais.
15.7.08
14.7.08
Felipe Taborda em Madri e Barcelona - O Desenho Gráfico Latinoamericano se espalha no mundo!

O grande designer Felipe Taborda lança no dia 16 de Julho em Madri e no dia 17 em Barcelona o livro Latin American Graphic Design (Diseño Gráfico Latinoamericano)(O livro leva assinatura de Taborda e Julius Wiedemann).
Para saber mais detalhes sobre o evento de Madri, é só clicar na imagem para ampliar.
Em Barcelona, o lançamento vai rolar a partir das 19 horas na sede do FAD Plaça dels Ángels, 5-6/ 08001. Como em Madri, também vai acontecer um debate sobre a existência de um desenho gráfico Latinoamericano, só que desta vez, com a presença de Mario Eskenazi, Javier Mariscal, Peret e América Sánchez.
A editora é a badalada Taschen .
Detalhe: O livro pode ser folheado no site da editora ou seja www.taschen.com
Todos lá! O último a chegar é a mulher do toureiro!
13.7.08
A wop bop a loo bop a lop bam boom

Hoje se comemora o dia mundial do rock. Que coisa mais careta né!? Mas é isso aí, um ritmo que começou quebrando cinemas e descendo a rua Augusta a 120 por hora acabou conquistando um dia no calendário para apagar mais uma velinha. E os dinossauros continuam na estrada: cabelos longos, alguns pintados, quando não brancos e ainda outros carecas e desdentados.Outro dia me surpreendi ao encontrar uma banda que eu adorava, o Grand Funk Railroad, que é um tremendo conjunto de rock. O Grand Funk que parecia ter sumido, teve uma edição nova que andou pintando nas raras casas de CDs. Como esqueceram desses caras fabulosos? Mas não é isso que eu queria falar, na verdade vou publicar uma parte de uma velha "anacrônica" em que falei sobre a face oculta do rock. Aumenta o rádio que isso também é roquenrol!
Essa coisa de ver o rock com somente símbolo da rebeldia, associado ao sexo e às drogas (a desordem dos fatores não altera o produto)não está com nada.
Não se pode equecer que o rock velho de guerra tem lá o seu lado família. Claro que não estou falando da família Osbourne. Antigamente, a gente pensava em roqueiro e já vinha aquela imagem de um defunto que passou desta para melhor por exagerar no uso de alteradores de consciência. Lembra do Cazuza? Então, o falecido e talentoso poeta, em sua época já gritava nos circos voadores da vida que seus heróis tinham morrido de overdose. A lista de baixas no front do rock é grande (lembrar que também existe o front do jazz), Vamos ficar só nos casos mais rumorosos. Brian Jones (dos Stones),apagou em circunstâncias misteriosas, aos 27 anos na sua piscina. Disseram que era por causa do consumo além da conta de tóxicos que o levaram a ter um ataque cardíaco (recentemente alguém se apresentou como seu assassino (existe até um filme sobre esse caso).
Jim Morrison que viajava sem sair de casa, também morreu dentro d’água, numa banheira em Paris e até hoje perturba o sono dos habitantes do cemitério Père Lachaise. Janis Joplin sucumbiu num vale de heroína. Jimmi Hendrix não morreu de overdose, como dizem as más línguas, mas asfixiado no próprio vômito pois tinha tomado remédio para dormir misturado com álcool.Kurt Kobain se matou com um tiro, mas era viciado em heroína e isso tem a ver com seu triste e solitário final, e seu mundo era só asfixia.
Mas o rock também possui o seu lado solar, aquele que salvou vidas.
Quando a gente começa a ter que escrever ou criar uma coisa cotidianamente, principia também a ver relações que antes ficariam inertes opacas, começa a pensar o mundo e fuçar coincidências...
Faz um certo tempo, li num livro sofrido de Mikal Gilmore, "Tiro no coração", que os Beatles tinham aberto para ele "uma porta para o futuro do qual minha família não tinha condições de participar". É preciso dizer que Mikal é um sobrevivente de uma família em decomposição. É irmão do famoso Gary Gilmore, o assassino estranhíssimo, que conseguiu transformar sua condenação à morte no estado de Utah, nos anos 70, num espetáculo que ele conduziu até sua execução por um pelotão de fuzilamento no dia 17 de Janeiro de 1977. A crônica de seu sombrio caminhar entrou para a história do “novo” jornalismo americano em "A canção do carrasco" de Norman Mailer. O jovem Mikal através do rock, consegue pular fora da triste saga de sua família marcada pela morte e sofrimento. Diz ele:-"Curiosamente o rock'nroll acabaria sendo de maior valia para mim ao longo dos anos e cumpriria a função de iluminar o novo quadro do paraíso perdido e reencontrado..."
Sua história familiar é muito singular,porém revela algo da chamada “América profunda”, o entorno da “wasteland”.
Em lugar do sonho, da terra das oportunidades, o pesadelo, o vazio, o horror. Só lendo o livro de Mikal para se ter idéia das dimensões dessa tragédia. Seu relato se incia desta maneira: “Um a um eu os vi morrer, todos eles. Primeiro meu pai. Depois meus irmãos Gaylen e Gary. Finalmente minha mãe, uma mulher amarga e devastada. No fim havia apenas eu, o caçula, e meu irmão Frank, o primogênito. Então um dia, quando a dor da história da família se tornou intense demais para suportar, Frank simplesmente mergulhou em um mundo de sombras…”
Mikal foi salvo pelo rock de forma muito objetiva também: Nele encontrou um emprego- o de crítico e colaborador da revista “Rolling Stone.
Num cenário diverso, econtramos outro exemplo da função redentora do rock. Numa noite antiga de reprises , revi uma entrevista de José Dumont no programa do Jô. Lá pelas tantas ele fez uma revelação que cruza com o despertar de Mikal: a de que os Beatles(de novo os fab four), e particularmente uma canção que não me recordo o nome, mas acho que foi “Let it be”, fez a sua cabeça. Dumont disse que ao ouvir os rapazes de Liverpool teve um estalo, foi apanhado pelo desejo de viver aquilo que ele sentia que estava naquela canção. Em outras palavras, ele queria aquilo que emanava daquele som, o mundo que aquela música representava.Nesse momento, encontra estímulo para sair de sua cidade (Belém de Caiçara, na Paraíba) e se lançar no mundo à procura daquela abstração de uma vida de possibilidades infinitas de realização…Let it be…
O resultado é esse ator magnífico que apareceu em “Gaijin”
, em “O Homem que virou suco”, “A Hora da Estrela”, entre outros, sem esquecer “Abril despedaçado” e “Os narradores de Javé” Neste último ele faz um papel cômico, revela toda sua criatividade nos cacos que o transformaram em co-autor do filme, segundo sua diretora, Eliane Caffé.
O rock que teve sua fase de má fama, mas não apenas serviu para canalizar as energias destrutivas de uma geração, ou de playboys que dirigiam a 120 km por hora nas ruas augustas da vida. Dois jovens , em momentos decisivos, viram no rock a magia que transformou suas vidas.
12.7.08
Crônica da Tinê: Minha Lisa do Joá (Continuação)

O artista foi a casa da família para captar a tal alma florescente. Não fez nenhum croqui. Lisabeth retraiu-se ao notar aquele homem a esquadrinhar seu corpo como se procurasse assimetrias, ou uma pinta natural que a autenticasse como sendo ela mesma e não outra pessoa. Talvez fosse recurso para intimidá-la e ler em seus gestos dissimulados o que sua mudez velava. Por certo ele viu que a jovem valorizava cabelos e mãos, e que nunca lhe disseram que tinha pescoço de cisne, pormenor facilmente corrigível no retrato. Percebeu também alguns paradoxos, como o olhar triste de um ser crítico numa cara avoada em quem é chegado a controvérsias... contudo, naquele momento, a filha de dona Lêda satisfazia a vaidade ao ser musa temporária de um artista. Ele invadiu seu quarto, fuçou seu armário, desaprovou com meneios de cabeça suas roupas da última moda, até rabiscar um vestido em pedaço de papel: um tubinho reto, pala com nervuras, mangas compridas, gola de renda em estilo holandês. Ainda decidiu a cor do tecido: verde-veronês. Começou mal, deve ter pensado minha amiga, ser retratada como uma flamenca em verde-exército, verde-petróleo, verde-garrafa... seja qual for o nome que dessem àquele verde, então, não haveriam panejamentos? Com cabelos soltos e o anel de pérola em primeiro plano, podia ser... "Ora, vamos, não será tão ruim assim, lembre-se que, num frio desgraçado, Claudel posou nua, contorcida sobre um tablado durante horas, a um implacável Rodin, e você estará vestida como uma freira diante de um senhor amável." Lisabeth corou, não sei se de vergonha ou de raiva.
As sessões no ateliê foram mil detalhes resumidos em "Ohhh". Marcas de giz no assoalho de madeira do antigo sobrado. Jirau grande. Parafernália típica. A luz vinha de enormes claraboias. Pé-direito muito alto. Janelas estreitas. Não fosse o trânsito barulhento imaginaria águas plácidas lá embaixo com nenúfares boiando. Cantatas de Bach balbuciadas pelos Single Singers vinham do tocadisco. Petrificada sobre um banco, Lisabeth manteve a pose. O esboço começou pelos olhos. Dias e dias, somente olhos. Traços para o resto. Pausa para relaxar, tomar chá e ver fotos de viagens. Retorno à imobilidade. Durante o vaivém dos olhos - cavalete, modelo, cavalete - o artista entretinha dona Lêda com assuntos variados, de remédio caseiro à política. Quando a modelo angulava a cabeça o artista rápido trocava a música. "Dave Brubeck ou Lalo Schiffrin?" Ela escolhia o tchin-tchin-bum percussivo com sax e piano-jazz para espantar o sono. Às vezes aparecia alguém discreto no ateliê, como o rapaz dos garrafões a carvão - "É filho de um amigo meu, quer ser desenhista mas não delineia uma batata." Ou como a vez em que uma mulher irrompeu sala adentro e o artista de imediato disse em tom defensivo "É dela o vestido que você encontrou!" Um dia Lisabeth se abstraiu das conversas. Observou no artista uma dor disfarçada. Seriam câimbras ou cicatrizes doloridas do tempo de sua militância? Ele notou que ela notara. Assim como ele, ela também tinha olhos sagazes.
A tarefa de posar terminara. Mãe e filha foram espiar. Traços delicados que mal conseguiam enxergar. "Está pronto?!" O artista disse não, dali por diante seria ele sozinho para eternizar os quinze anos. Após grande expectativa, o quadro fora entregue. Em preto e branco. Dona Lêda quase teve um ataque. A filha chegou em casa, doida para contemplar seu presente escondido sob panos. Pela cara da mãe... Lisabeth perguntou aflita: "O que foi? Ele me retratou como um tocador de banjo ou pelada sobre os Arcos da Lapa?" Um tio riu amarelo, "Não... parece mais com a Estrada do Joá." Lisabeth num rompante abriu os panos, olhou, olhou... Ela fora envelhecida por uns dez anos, olhos penetrantes, boca com uma covinha que nunca vira ao espelho, pescoço atenuado por longos cabelos, uma paisagem negra ao fundo, sem o anel de pérola. Assim permaneceu a "Mona do Joá" durante anos, a observar quem passasse pela sala de jantar, mesmo depois que a retratada partiu, até o dia que caiu da parede e se desfez em cacos.
Eu tive mais sorte. Não posei nem para camafeu. Tive um baile ao avesso: almoço com parentes queridos, roupa vermelha futurista com sóis que eu mesma pintei na barra da saia, um namorado com quem toquei ao piano Bife Americano a quatro mãos, anel de pérola à vista de todos, de noite fomos ao Barbarella do Lido, cantaram para mim "Oh Susie Q", meu copo do brinde foi ao chão, "say that you'll be true, and never leave me blue", dezenas de cacos espalhados, cinábrio, nácar, carmesim, cerúleo.
Tinê Soares – julho2008
11.7.08
Redução da idade penal e endurecimento das penas

(Matéria publicada por Jorge Sanglard (*) em O Primeiro de Janeiro- Justiça & Cidadania - Porto – Portugal na qual apresenta um artigo da Procuradora do Estado de São Paulo, Ana Sofia Schmidt de Oliveira- A matéria e o artigo foram publicados em 30/06/2008)
A macro e a micro violência têm sido debatidas no Brasil, cada vez mais, em vista dos acontecimentos que vêm marcando os grandes centros urbanos nestes primeiros anos do Século XXI. As populações das grandes cidades brasileiras enfrentam problemas no setor de segurança pública e a sociedade amedrontada exige medidas para coibir a violência e cobram o fim da impunidade.
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Em meio a discussões no Congresso brasileiro, alguns setores defendem propostas polêmicas, como a redução da idade penal e o endurecimento das penas no país. Tais proposições são avaliadas e questionadas por especialistas no enfrentamento da violência. Apontadas como simplismos perigosos para resolver uma questão complexa, estas propostas estão no centro do debate. O psicanalista brasileiro Jacob Pinheiro Goldberg declara: “Hoje, somos todos reféns da bandidagem. Mas mudar o jogo exige mudar as regras”. Ao lado da procuradora do Estado de São Paulo, Ana Sofia Schmidt de Oliveira, em debate promovido pela Revista OAB-MG 4ª Subseção e pela Escola Superior de Advocacia da 4ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais, o doutor em psicologia defendeu que o importante é o desenvolvimento de uma visão crítica diante de uma realidade complexa e argumentou que é fundamental rechaçar soluções simplistas como o aumento do rigor das punições, a redução da maioridade penal e a criminalização de novas condutas. Em artigo especialmente cedido ao Janeiro, Ana Sofia Schmidt de Oliveira, adverte que o essencial é colocar-se, especialmente aquele que se ocupa do sistema como policial, advogado, juiz ou promotor, numa posição de maior humildade, incorporando a crença de que, se o sistema deixar de causar um mal maior do que aquele que pretende combater, já terá feito grande coisa.
Artigo de Ana Sofia Schmidt de Oliveira (**)
No imaginário social, o sistema penal é um eficiente filtro, uma peneira, capaz de distinguir os bons e os maus elementos de nossa sociedade, capaz de separar, de apartar, do meio social os não adaptados. O sistema (re)produz e reforça uma visão maniqueísta da sociedade, trabalhando com sistemas de juízo binários: bons e maus elementos, inocentes e culpados, absolvidos e condenados.
A propaganda do sistema o vende como o instrumento capaz de pinçar do meio social aqueles que o colocam em risco. Se o sistema penal deitasse no divã de um analista, poderia dizer algo assim: “eu existo para proteger a sociedade, para dizer quem é bom e quem é mau, para separar o joio do trigo”; se prosseguisse seriamente no trabalho, iria ter que enfrentar a angústia decorrente de sua impotência para depois descobrir que sua missão não é essa. O fato é que a propaganda é boa e passamos a acreditar que o sistema realmente faz esta separação; passamos a acreditar que os muros da prisão, ao separar quem está dentro de quem está fora, separa mesmo os culpados dos inocentes, os maus dos bons.
Diversos projetos de leis e sentenças judiciais reproduzem estas crenças. Juizes afirmam que um determinado condenado não merece a progressão de regime porque só com a sua segregação é que chegaremos ao restabelecimento da paz social.
E olhando o sistema de perto, o que vemos? Uma engrenagem, uma verdadeira linha de produção – a polícia retira o suspeito (a matéria prima) do convívio social e o transforma em indiciado; o Ministério Público transforma o indiciado em denunciado; o juiz o transforma em réu; o réu vira condenado, passa ao sistema penitenciário e lá, na outra ponta do sistema, o produto pronto e acabado: o egresso do sistema penitenciário, prontinho para voltar para a primeira etapa da linha de produção.
Afastando o olhar para poder elaborar a crítica, vemos que esta linha de produção é movida por uma lógica própria, por crenças, desejos e mitos. E vemos, sobretudo, que ao recolher a matéria prima, o sistema funciona de forma absolutamente seletiva e que esta seletividade está relacionada muito mais às características de certas pessoas do que às de certas condutas. Algumas pessoas são praticamente imunes: precisam se esforçar demais para entrar na engrenagem do sistema; outras, praticamente nascem lá dentro. As crianças nascidas nas prisões de mulheres são a concretização de uma triste metáfora. Ainda para compreender esta seletividade, vale “convocar o marciano” – é uma estratégia necessária sempre e quando a repetição de uma certa realidade nos faz cegos diante dela. Pois bem, coloquemos diante do marciano dois meninos: um, de chinelo, shortinho surrado, sem camisa, braço fino e barriga saliente, olhar duro, rosto sujo; ao lado dele, um menino da mesma idade, com seu tênis de marca, roupa bacana, I Pod e celular no bolso. E dizemos ao marciano: “olhe para estes dois meninos. Um roubou e outro foi roubado. Quem é quem?”. O que há de responder o marciano? E se repetirmos a mesma pergunta para o policial experiente, para o promotor de justiça, para o juiz de direito? O que responderão? Bem, não é por acaso que as superlotadas prisões de todo o país estão cheias de pessoas com traços físicos muito semelhantes.
Mas não é só o preconceito que alimenta o sistema de justiça criminal. Pensemos nas crenças, desejos e mitos. Pensemos na questão da segurança. Afinal, o que é sentir-se seguro? A sensação de segurança, em nossa contingência humana, é sempre relativa. Basta lembrar que a finitude da vida nos espreita a cada instante. Assim, a “segurança possível” está relacionada a um conjunto de condições que nos dêem um mínimo de estabilidade, de confiança. Há uma infinita rede de relações formada por pessoas e instituições na trama de nossa vida diária que deve funcionar com certa regularidade para que nos sintamos seguros. Mas o nosso contexto social, marcado pelo individualismo, pelo avanço tecnológico, pela desigualdade social crescente, pelo consumo, pela descrença nas instituições, pela dúvida em relação ao futuro diante dos desastres ambientais, pela instabilidade nas relações de emprego e até mesmo nas afetivas – este contexto que acaba sendo um desafio permanente e complexo para aqueles que pensam a modernidade –, não é capaz de fornecer esta segurança.
Assim, associar a sensação de segurança à expectativa de “não ser vítima de crime” é uma grande simplificação. E há outra simplificação em jogo. Cotidianamente, somos vitimados por crimes de que nem nos damos conta, como os ambientais, ou aqueles do sistema financeiro. Mas o que queremos é só caminhar pela rua sem medo de ser assaltado. Seremos tão arcaicos em nossa sensibilidade que a dor física suplanta todas as demais? Tenho medo do estilete que o garoto encosta no meu pescoço, mas suporto bem a dor emocional que sinto ou deveria sentir ao me esquivar de uma criança que dorme suja na calçada? E quando eu penso na segurança que eu quero ter, qual dos garotos quero que afastem de mim? Crianças na calçada são invisíveis, mas tornam-se extremamente visíveis quando passam ao nosso lado cheirando cola ou quando têm na mão um pedaço de vidro, de pau ou um revólver.
Por tudo isso, reduzir a idéia de segurança à expectativa de não ser vítima de crime e, em especial, de não ser vítima de crime violento, é uma redução perigosa. Perigosa porque expõe e exige do sistema de justiça criminal mais do que ele pode dar. O perigo aumenta porque o próprio sistema se vê e é visto como o instrumento capaz de fornecer segurança, combatendo o crime. Muitas vezes a qualquer preço.
E o problema se agrava porque a utilização política da sensação de insegurança estimula o reducionismo e tem interesse na concepção acrítica do sistema. O movimento que teve início nos Estados Unidos e ficou conhecido como movimento “da lei e da ordem”, com a adesão de outras bandeiras (ou marcas) como o “get tough on crime”, “guerra contra o crime”, “tolerância zero”, propõe o endurecimento da resposta penal, o agravamento das penas, defende a resposta penal com o a única capaz de aumentar a segurança. Por aqui, a partir da edição da Lei dos Crimes Hediondos, não faltaram novas iniciativas com vistas ao endurecimento do sistema. Lembre-se, por emblemático, o regime disciplinar diferenciado que submete o preso ao isolamento praticamente total, inspirado nas prisões norte americanas conhecidas como “super max”. Não por acaso, a população prisional em São Paulo triplicou em dez anos. Não por acaso o déficit de vagas atinge recorde histórico. Nas celas superlotadas, o ciclo da violência se retroalimenta e a intenção ressocializadora ainda estampada na Lei de Execução Penal de 1984 fracassa. O sistema não entrega o produto prometido.
Esta ordem de colocações não busca uma solução para um problema determinado, mesmo porque não é disso que se trata. O que importa é desenvolver uma visão crítica diante de uma realidade complexa, é rechaçar soluções simplistas como o aumento do rigor das punições, a redução da maioridade penal, a criminalização de novas condutas. É colocar-se, especialmente aquele que se ocupa do sistema como policial, advogado, juiz ou promotor, numa posição de maior humildade, incorporando a crença de que, se o sistema deixar de causar um mal maior do que aquele que pretende combater, já terá feito grande coisa.
(*)Jorge Sanglard é Jornalista pesquisador e Editor da Revista OAB-MG 4ª Subseção
(**)Ana Sofia Schmidt de Oliveira é Procuradora do Estado em São Paulo, mestre em direito penal pela USP, autora do livro “A vítima e o direito penal” (Revista dos Tribunais, 1999) e sócia-fundadora do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.
A Ilustração é de Jorge Arbach
10.7.08
9.7.08
Gripe e Antonioni

O vírus da gripe é a maior prova da incompetência humana. O tal do Influenza, microscópico ser mutante que vem perturbando a vida do ser humano na terra, acho que desde que ele era um work in progress, ou como queria Darwin um primata em evolução, é um pentelho que o homem não entendeu com toda a sua ciência e tecnologia. Dizem os experts que o referido vírus é um dos mais simples organismos que existe neste planetinha azul e mesmo assim o ser humano não conseguiu eliminá-lo. Criaram vacinas, mas nada se fez de concreto para exterminar essa peste que todo ano frenqüenta nossos lares, botecos,fábricas, escritórios, vagões de trem, de metrô, os ônibus e táxis protegidos com vidro fumé. Basta um espirro e pimba, mais um combatente que cai na trincheira. Vitamina C, analgésicos, muita água e cama, diz a sabedoria popular.
Convenhamos que é difícil ficar na cama depois de tomar doses cavalares de água para se hidratar e diluir os fluidos catarrais produzidos por esse bicho impertinente. (desculpem a deselegância...toss...toss.toss).
Mas sempre há um lado positivo na moléstia. Thomas Mann viu isso na sua Montanha Mágica, mas eu quero ficar longe dela depois que superar essa gripe que me assaltou e que me fez reconhecer nossa incompetência como espécie, e que me deixa sem forças diante das tarefas mais prosaicas. O tal lado Poliana da gripe é o fato dela produzir um efeito interessante sobre a percepção, ao criar uma espécie de suspensão semelhante a um estado alterado de consciência, que nos leva a estabelecer uma ligação diferente com o mundo. Uma forma contemplativa... Arriscaria dizer que a gripe é um estado filosófico que só é desagradável por causa da coriza, dos espirros contantes, da constrição nasal e da tosse que a acompanha.
Com essa explicação espero justificar porque não continuei os esboços para uma aproximação da obra de Antonioni. Acho que me sinto com um dos personagens dele: não sei muito bem o que estou fazendo aqui. Talvez seja melhor tentar um improviso, ou seria melhor fazer uma cara de "nóia" e me esconder debaixo do cobertor? Quem sabe tomo um chá quente e ligo a TV num canal sem sinal, só para apreciar os riscos que se movem sem sentido na tela. Atchimmmm!!!!
7.7.08
Deserto Vermelho em Paraty

Esboços para abordar a obra de Michelangelo Antonioni
I- Deserto Vermelho em Paraty
Devem existir muitas maneiras de se aproximar da obra de um artista como Antonioni. É claro que minha cuca explodiu em 1968 (ou foi 69) com Blow Up que foi feito em 1966 (chamado aqui curiosamente, homenageando nossas raízes lusas, de "Depois daquele beijo"). Mas até chegar ao meu blow up pessoal ( minha epifania) enfrentei uma lunga giornata notte addentro. Vou começar com uma experiência pessoal, transferível...
Foi numa noite do fim dos anos 60. Eu tinha meus 17 anos e estava "acampado" em Paraty com minha irmã, seis anos mais nova. Nossa barraca era mínima e para nós tudo era uma grande aventura, a primeira vez que saíamos juntos para longe da Água Fria. Eu tinha uma namorada que era um sonho de tão linda. Ela já era de maior, dirigia como um Fittipaldi e se juntou a nós naquele acampamento, onde mostrou muita habilidade na caça aos mosquitos e dividiu conosco um rango feito no fogão jacaré. Tratava-se de uma arraia entre as três que pesquei junto com um metalúrgico em férias e que alimentou o camping inteiro. Mas isso é conversa de pescador, vamos ao que interessa. Na referida noite, sinceramente não me lembro em que circunstâncas, fomos parar num cinema, talvez o único da cidade na época. Porém nem tudo é nebuloso. Recordo perfeitamente que estava passando O Deserto Vermelho ( Il Deserto Rosso) de Michelangelo Antonioni, um sujeito com o qual eu não tinha nenhuma intimidade. Pensamos que era um filme de aventuras. ( O conteito de filme de ação acho que veio muito tempo depois) Pegamos o filme já iniciado, tropeçando no escurinho do cinema a procura de um lugar. Como todos devem fazer alguma idéia, se um filme caretão, (com começo meio e fim) já é difícil de acompanhar depois de se perder as cenas iniciais (Exisitiu um crítico no Rio de Janeiro - do qual gosto muito que começava a seu artigo em geral descrevendo as primeiras cenas dos filmes - alí para ele, acho estava a chave dos mistérios do ecrã), imagine um filme cabeça, complicadíssmo! Foi um breve contra a luxúria. É claro que não entendemos chongas. Saímos, imagino que foi no meio, nem tenho idéia, pois parecia que haveria uma eternidade pela frente para a gente assistir em ritmo lento quase parando.. Preferimos o céu e o mar e o céu azul de Paraty em vez do deserto vermelho de Antonioni. (Continua)
5.7.08
Vovô 68

FEIRAPRESS
Estão vendo esse "cara" na foto pichando a palavra Liberdade num muro? Pois é, acaba de se tornar o mais novo vovô da cidade do Rio de Janeiro. Sua netinha Martina pintou nesta madrugada aqui em Laranjeiras, e dizem as enfermeiras, que berrou logo que entrou no berçário:- Abaixo a chupeta!
Ilustração: Retratos de Salinger, Charlie Parker, John Fante, Allen Ginsberg, Bob Dylan

Meus heróis : Na banda esquerda, atrás J.D. Salinger, na frente dele Charlie Parker, no meio um belo carro dos anos 50. Na frente John Fante atrás dele Allen Gingsberg, ao fundo no outdoor Bob Dylan. O blogueiro (auto-retratado quando jovem) segue na estrada onde tem muito mais gente que ainda não foi desenhada. Ilustração antiga: bico de pena sobre papel Schoeller, jato de tinta feita com escova de dente embebida em nanquim. Esta ilustração é muito grande, foi o alto de uma página inteira. Clique sobre a imagem para ampliar.
4.7.08
Crônica da Tinê: Minha Lisa do Joá

Em terras mineiras, um dia frio e nebuloso é bom para tomar vinho com canela e pensar em palavras que evocam imagens antigas. Cerúleo. Carmesim. Nácar. Cinábrio... Foi assim que de repente lembrei de uma colega do colégio, de quem nunca mais tive notícia. Ela veio de Barbacena para estudar no Rio, anos depois casou com um sujeito de Pirenópolis que ascendeu numa multinacional e se mudou para Bruxelas. Dela ficou esta história.
O normal seria visitar exposições espalhadas pela cidade. Dona Lêda não tinha tempo para isso. Muito menos aturar estrelismo. Gostava de avaliar por si mesma. A Escola de Belas Artes funcionava na rua Araújo Porto Alegre. Decidida, sem conhecer ninguém, dona Lêda desceu porões em busca de um artista a preços módicos. Olhos circularam sobre trabalhos acadêmicos e telas em progresso de aspirantes ao sucesso, daqueles que na época sonhavam com uma bolsa de estudos em Paris ou em Madri, pois viver de arte só enche a barriga de alguns sortudos, depende menos de talento ou de propostas estéticas originais. Dona Lêda queria algo bonito, bem feito, poucos cânones. Podia ser moderno, desde que ela pudesse reconhecer sua filha em todos os ângulos e não ter de adivinhá-la sob grossos respingos acrílicos de vermelho-cádmio com uma metralhadora grafitada na mão e corvos goyescos trançando os cabelos! Ela imaginava a filha em terra-siena-natural com toques de vermelho-veneza e amarelo-cromo sob um céu azul-cobalto com nuvens branco-titânio. Refez o trajeto por dois dias. Já pensava em desistir de achar o eleito para registrar a alma da filha quando lhe indicaram um vulto no fundo do corredor escuro, "premiado, chegou há pouco da Itália".
Quando ainda se referiam às "meninas-moças", o sonho inatingível da maioria delas era debutar no Copacabana Palace, e o máximo seria receber uma nota na coluna do Ibrahim. Mas elas se contentavam com um diadema na cabeça, vestidas em crepe esvoaçante para valsarem o Danúbio Azul com um estranho imberbe e desajeitado, em algum clube de bairro. Acontece que a filha de dona Lêda não era uma selena mas vivia no mundo da lua, quer dizer, vivia na dela, em cratera própria, com aviso "Não entre" em letras pop-fluorescentes na porta do quarto. Só queria ler, desenhar coisas estranhas no diário e escrever cartas. A mocinha curtia em segredo as festas das filhas das amigas da mãe (para observar), se pavoneava toda para flertar às escondidas (para experimentar), e concluía que aquilo tudo era... burguês demais? A mãe não sabia de onde ela tirava certos conceitos, estava mais preocupada com a tradicional festa desde que a filha fizera treze anos, deu-lhe um anel de ouro aos catorze como preparativo para os quinze, e agora tentava argumentar que era um ritual importante mostrar a todos que se tornara uma mulher, quem sabe, diante de possíveis candidatos a um bom casamento... - "Nem morta!", taxou a garota.
De certa forma, foi um alívio. Bancar um baile seria contrair uma longa dívida. Quinze anos! Precisava fazer algo marcante. Fotografia, não, já tinha se tornado habitual desde as "carinhas de bebê" e o álbum anual escolar. Tinha duas opções: excursão à Disneylândia ou... um retrato pintado? A mãe foi astuta. Atitude burguesa à parte, atingiu em cheio a vaidade adolescente alimentada a muito livro de arte, e a curiosidade dela em ver de perto um ateliê de verdade. A filha topou. Mais excitante do que ir a estúdio fotográfico fazer caras diversas entre falsas colunas gregas seria servir de modelo para um quadro. O pai concordou, desde que a mãe montasse guarda durante o processo, como se fosse concurso de misse, embora a futura retratada não se enquadrasse nos padrões de beleza.
(continua)
Tinê Soares
2.7.08
Um blogue cabeça na praça: O blogue do Cordovil
Vale a pena acessar, o cara é fera, fiz uma matéria junto com ele uma vez sobre Alan Sokal que demonstrou como se faz um imbroglio "cientificista", ao mandar um artigo totalmente falso e falando coisas absurdas para uma publicação americana a Social Text de uma conceituada universidade. A revista aceitou e publicou. Uma pena que a referida era considerada de esquerda. O que a gente pode fazer? Não é só a direita vacila. Queiramos ou não o mundo ainda usa esta diferenciação da época da "Rebolução Francesa". O espectro ideológico hoje é muito mais complexo e exige um artigo de fundo com bastante fundo mesmo; não só a cena político econômica mudou, como novas "classes" surgiram no horizonte. É claro que continuam existindo os explorados e os exploradores e estes últimos sofisticaram suas maneiras de explorar. Alguns não, continuam a usar trabalho escravo. O tal do Sokal socou muita gente graúda que escreve bobagens, entre eles Paul Virilio. Sokal mostrou que muitos dos nossos pensadores modernos usam conceitos da física de forma errada, botou os pingos nos is. Porém precisamos tomar cuidado também uma "tendência" suspeita que pretende desancar as chamadas "humanidades" em favor de uma pretensa exatidão das "exatas", os devotos da Santa Estatística. Bem, isso é pra discutir depois do jogo do Fluminense contra a LDU.
Não deixem de ver o blogue do Cordovil, o endereço é : http://cordovil.com/
Vou botar entre os meus preferidos já.
Nota da Redação: Aconteceu alguma coisa com o blogue do Cordovil, foi só eu indicar o cara aqui e o blogue dele saiu do ar. Que coisa mais misteriosa?
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Nota da Redação: Aconteceu alguma coisa com o blogue do Cordovil, foi só eu indicar o cara aqui e o blogue dele saiu do ar. Que coisa mais misteriosa?
Desenvolvimento exigente

(Este artigo foi escrito pelo Professor Marco Aurélio Nogueira e publicado no jornal O Estado de S. Paulo de 28 de junho de 2008).
Parece haver no país um consenso, segundo o qual não teremos chance de avançar como sociedade - ou seja, de eliminar a desigualdade, a miséria, a fome - e como Estado democrático sem taxas vigorosas de crescimento econômico. São muitas as esperanças associadas ao desenvolvimento, como se dele dependesse tudo: emprego, renda, igualdade, a felicidade mesma dos cidadãos.
Paradoxalmente, isso ocorre num momento em que o próprio desenvolvimento se mostra difícil, controverso, até mesmo indesejável. Há, é verdade, uma forte pressão - da economia mundial, dos organismos internacionais, dos governos de outros países - para que se acelere o crescimento e se dissemine a mentalidade do "catch-up", como se existisse um padrão ótimo de renda ou PIB que devesse ser alcançado por todos os países. Fala-se até em "ditadura do desenvolvimentismo" como critério a ser seguido na construção do futuro, que deveria ser o mesmo para o mundo todo.
Esta pressão, no entanto, não traz consigo nenhuma idéia consistente de desenvolvimento, nem faz qualquer projeção a respeito de suas vantagens ou de seu custo social. Sua estratégia e suas metas são definidas a partir da experiência dos países mais desenvolvidos ou de economias que conseguiram sucessos estrondosos em curto espaço de tempo, sem que se esclareça se isso pode ser tomado como medida universal.
O desenvolvimento continua a ser o principal motor do capitalismo e é uma necessidade real das comunidades humanas que se inserem neste sistema. Mas não é razoável que tudo seja feito ou defendido em seu nome.
Estamos discutindo o tema num contexto condicionado pelas conseqüências do padrão de desenvolvimento das últimas décadas, que assistiram a uma expansão desenfreada do capitalismo e das forças produtivas em todo o globo. Vivemos sob a sensação de que o desenvolvimento em curso, graças à sua lógica cega e "irresponsável", ameaça a reprodução das sociedades humanas, reitera a desigualdade e agrava o desequilíbrio ambiental. Também por isso, é difícil saber quando se pode falar de fato em desenvolvimento. Saltos no PIB ou na renda per capita não são de modo algum confiáveis como indicadores de sucesso.
Devemos querer desenvolvimento no Brasil, mas não podemos querer qualquer desenvolvimento.
Um desenvolvimento sustentável precisa ser proposto com firmeza. A idéia de sustentabilidade não pode servir de base para que se bloqueiem projetos de crescimento econômico que se dediquem a melhorar as condições de vida da população. Mas ela não é em si mesma uma abstração. Surgiu como um grito de alerta e funciona tanto como parâmetro de moderação e regulação do crescimento, quanto como critério de preservação ambiental.
Uma perspectiva sustentável de desenvolvimento é indispensável para que se estabeleça uma sintonia fina entre expansão das forças de produção, apetites do mercado, necessidades coletivas e justiça social e, ao mesmo tempo, para que a economia interaja amigavelmente com a natureza. Não se trata, pois, de simples recurso preservacionista, mas de algo bem mais abrangente, que supera tanto a indiferença produtiva do ambientalismo tradicional quanto a volúpia do produtivismo incondicional.
Justamente por isso, trata-se de uma perspectiva exigente, bem mais complexa que qualquer outra do passado. Ela necessita tanto de uma idéia clara de desenvolvimento, que o conceba de forma multidimensional, como projeto regulado politicamente, quanto de um pacto social que dê fundamento prático, moral e político à idéia.
O desenvolvimento desejável não pode ter as mesmas metas de antes (concentradas no econômico), nem muito menos partir dos atores de sempre - o Estado, os empresários, os trabalhadores. Precisa envolver o conjunto da sociedade e implicar uma série de ações que reformem, dinamizem e articulem os diferentes sistemas sociais (a educação, a saúde, os transportes, a infra-estrutura, etc.) e alterem, portanto, a institucionalidade existente, a começar do próprio aparelho de Estado e atingindo os partidos políticos, a universidade e a comunidade científica.
O desenvolvimento hoje não depende somente do Estado, mas é inconcebível sem o Estado. Mas para coordenar o desenvolvimento, o Estado precisa ter capacidade de intervenção, ou seja, ser capaz de fazer política (econômica e social), regular o mercado, enfrentar a prevalência do sistema financeiro e liderar um pacto social substantivo.
O problema é que estes requisitos são de difícil obtenção nas circunstâncias atuais. Não faltam operadores técnicos e políticos qualificados e o país parece preparado para vivenciar um novo ciclo de expansão sem ameaças à estabilidade e à segurança da população. Melhoramos muito em diferentes áreas - da gestão à distribuição de renda, do conhecimento tecnológico à democracia eleitoral - e temos uma base material para o desenvolvimento.
No entanto, carecemos do fundamental, ou seja, de boas condições para o estabelecimento de um pacto social que seja simultaneamente desenvolvimentista e aberto para a sustentabilidade, que olhe o país como um todo e condicione o avanço em termos de produtividade a uma consistente agenda distributivista.
Pactos são produtos políticos e intelectuais. Dependem de sujeitos, atos de vontade, lideranças, batalhas de persuasão, convencimento e argumentação. Não avançam sem projetos referenciados, sem forças sociais minimamente mobilizadas, sem coalizões políticas inteligentes e generosas.
Por não termos como produzir pactos deste tipo, corremos o risco de assistir a um ciclo expansionista muito mais propenso ao reforço unilateral do mercado que ao aumento da igualdade ou à democratização da sociedade. Se assim ocorrer, continuaremos sem desenvolvimento efetivo e entregues à progressiva colonização do futuro pela economia.
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