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27.8.12

  Altamiro Carrilho: pequena recordação do grande paduano que se imortalizou no choro ao som de uma flauta mágica

"Existem flautistas e existe Altamiro Carrilho" (Jean-Pierre Rampal, flautista francês)               Prezados amigos,               Nos anos 90, quando de seu show-depoimento pelo Brahma Extra - O Som do Meio-Dia, em teatro do Centro do Rio, tive a satisfação de, cessada a função, cumprimentar Altamiro Carrilho (fotos abaixo), a mim apresentado pelo meu pai, amigo dele desde os tempos da Rádio Tupi, quatro décadas antes. Vez por outra, após essa ocasião, eles "se esbarravam" em algum logradouro público, também no Centro, encontros que sempre eram motivo de alegria para ambos, sobretudo por recordar, como que embalados pelo famoso maxixe do flautista, aqueles idos da bandinha, empolgando o auditório da emissora. Na minha infância, no Bairro de Fátima, Altamiro foi uma influência marcante na minha inclinação musical mais aflorada pela nossa música popular, de tanto que, além de vê-lo na tevê, ouvi seus discos na vitrola doméstica, ao lado do meu velho. Especialmente um elepê em que Altamiro está uniformizado na capa, um da bandinha (formação em que João Donato, ao acordeão, principiou no "métier"), criada por inspiração paduana, no interior fluminense, cenário gerador do sopro magistral do artista, em incipiente flautinha de bambu, aos cinco anos de idade. Criado em contato permanente com a "furiosa" local, a Lira de Árion, regida por um tio, desabrochou, ao tarol, aos 11 anos, para a atividade musical em conjunto e, seis anos mais tarde, em 1941, já morando com a família em São Gonçalo, e trabalhando em farmácia, teve em um carteiro, flautista amador, Joaquim Fernandes, um professor dedicado e grande incentivador, vencendo, então, vários concursos de calouros no rádio, sobretudo o do rigoroso Ary Barroso. Daí em diante, profissionalizando-se no meio, a conhecida e bem-sucedida trajetória, entre outros fatos de relevo: a amizade com Benedicto Lacerda, o qual substituiria no regional que passaria a ser de Canhoto; a estreia em disco, na Odeon, em 78 rpm de Moreira da Silva, em 1943, e, em 1949, pelo selo Star, o primeiro disco solo, com a faixa "Flauteando na Chacrinha", dele e de Ari Duarte; cerca de 200 composições, mais de cem discos gravados e shows em cerca de 40 países; o gosto pela improvisação e o amplo domínio técnico, que o levou ainda a enveredar pelo universo erudito, gravando Mozart, Vivaldi e Chopin, por exemplo, e tocando com orquestras sinfônicas; os prêmios e as honrarias recebidos, como uma comenda especial, a Ordem do Mérito Cultural, entregue pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pela trajetória e pela incansável luta em prol da MPB.                          Lamentando, em desgosto de agosto, o do último dia 15, o passamento, aos 87 anos, desse orgulho nacional, chistoso (afiado no trocadilho) e carismático, músico de músicos e também admirado por colegas no exterior, aproveito o momento, com o meu agradecimento a Simone Guimarães, essa cantora, compositora e violonista tão talentosa, para redirecionar a vocês o que, entre outros destinatários, recebi dela, assim que se soube da triste notícia: "É sondada a alma da Música Brasileira, em sua essência, nesse momento de perda. Altamiro Carrilho, que acaba de nos deixar, faz parte de uma classe operária da música brasileira que nunca deixou, pelo talento, dom e amor, que fossem obscurecidas as suas raízes ou esmagadas as suas flores. Erga-se um macroscópio elegíaco sobre a terra nesse instante para a observação grandiosa, pois este Homem foi grande. Lanço meu grito de dor ao mais alto grifo de estrela cunhado por ele agora com notas musicais. Vá em Paz. Nosso adeus e nosso até breve nesse mundo que nunca há de se prescrever por seu imenso legado. Altamiro. Alto, miro-te com as estrelas."               Um bom dia a todos. Muito grato pela atenção.                Um abraço,                Gerdal   Pós-escrito: a) numa das fotos abaixo, de 1956 e tirada no quinto andar da Rádio Tupi, meu pai, então contrarregra da emissora (portando um instrumento que lhe possibilitava reproduzir o apito de um trem), ao lado de Altamiro Carrilho. O ruído do trem foi usado, na ocasião, na gravação que Altamiro fez, com a bandinha, de "O Trem Atrasou", de Paquito, Artur Vilarinho e Estanislau Silva. Ainda em gravação da bandinha, meu pai, mais adiante, colaboraria com Altamiro, valendo-se de ruídos de tiroteio e trotar de cavalos, em "Bat Masterson", canção até hoje lembrada por causa da versão famosa do compositor e publicitário Édson Borges, também conhecido como Passarinho;                     b) dedico esta pequena recordação de Altamiro ao violonista Maurício Carrilho, ao seu pai, o flautista Álvaro Carrilho, e ao Franklin da Flauta, este com CD recém-lançado, certamente da melhor qualidade, feito em duo com o violonista Luiz Cláudio Ramos. Também pela amizade de longa data com Altamiro, dedico-a ao meu pai, aniversariante de ontem, 26 de agosto, quando completou 83 anos;                     c) no primeiro "link", outro flautista de nomeada, o colatinense Carlos Poyares, toca "Deixa o Breque pra Mim", de Altamiro, na ótima companhia de Izaías e Seus Chorões. Nos demais "links", o próprio Altamiro e sua flauta são ouvidos em: 2) "Rio Antigo", dele; 3) "Humoresque", de Dvorak; 4) "Primeiro Amor", valsa célebre de Patápio Silva, executada em duo com o pianista Luiz Eça; 5) "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso; 6) "Menina Feia", de Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini, uma incursão bossa-novista, de 1963, com coro; 7) "Aconteceu no Grajaú" (1955), do pianista gaúcho Britinho, bastante atuante na noite carioca dos anos 50; 8) "Flamengo", choro que o paulista Bonfiglio de Oiveira compôs em intenção do bairro carioca onde morou. 8) "Aeroporto do Galeão", dele, choro composto durante um voo do flautista e, nas imagens do anexo, tocado em duo com a colega de sopro Paula Robinson, entre outros instrumentistas.      .          http://www.youtube.com/watch?v=jC2VdMCDfmc&feature=player_detailpage ("Deixa o Breque pra Mim")            http://www.youtube.com/watch?v=pVSrLHIAGMM ("Rio Antigo")            http://www.youtube.com/watch?v=BksbWm-eRmE ("Humoresque")            http://www.youtube.com/watch?v=Y-deyXe5QG0&feature=related ("Primeiro Amor")            http://www.youtube.com/watch?v=9eLUbdL5Xps ("Aquarela do Brasil")            http://www.youtube.com/watch?v=9V46BHMrysI ("Menina Feia")            http://www.youtube.com/watch?v=n25LpkQ0o7Y&feature=player_detailpage ("Aconteceu no Grajaú")           http://www.youtube.com/watch?v=HoG-O4Ocatc ("Flamengo")
          http://www.youtube.com/watch?v=o_jnbhyBlgk ("Aeroporto do Galeão")   

27.8.09

Dica do Gerdal: Homenagem ao sonoplasta Geraldo José, 80 anos, nesta quinta, no Museu de Arte Moderna


Segue, excepcionalmente, entre tantas dicas que envio, sem nenhum fim lucrativo, para ajudar a divulgar a boa MPB, uma dica de média-metragem (52 minutos) que poderá interessar, em particular, àqueles cinéfilos existentes entre os nossos cantores, compositores e instrumentistas. Hoje, 27 de agosto, às 18h30, no Museu de Arte Moderna (MAM), será exibido o documentário "Geraldo José - O Som sem Barreira", dirigido por Severino Dadá ("flyer" acima). Geraldo José, que ontem completou 80 anos de idade, é meu pai e, ainda hoje, mesmo aposentado há muitos anos, é o nome mais atuante da história do cinema brasileiro, como técnico, atrás da câmera, como Wilson Grey, embora falecido, ainda o é diante dela. Som é a palavra-chave que, por décadas, animou o meu velho no sentido de um trabalho digno e benfeito, numa trajetória profissional que, começando, em 1946, na Rádio Tupi (RJ), como contra-regra, e passando pela TV Globo, por vários anos (sonorizando novelas e minisséries, como "Grande Sertão Veredas", com direção de Walter Avancini), pelo teatro (várias peças) e pela música popular (por exemplo, ruídos para a coleção infantil Disquinho, produzida por Braguinha, e para sambas de breque de Miguel Gustavo gravados por Moreira da Silva), teve no cinema, tanto em filmes intelectualizados como em filmes meramente comerciais, de acordo com a orientação político-filosófico-estética dos diretores com os quais trabalhava, a sua colaboração mais efetiva e constante. Vale a pena ver esse documentário não apenas por resumir, em larga medida, uma cinebiografia, a história de um homem comum que se destacou, com aplicação e engenho, na atividade que abraçou, mas também para que os interessados tenham ideia de como se desenvolvia no país, numa fase de produção quantitativamente forte, um ângulo da realização de filmes - a sonoplastia - sem as facilidades hodiernas trazidas pelo avanço da tecnologia.
              Sendo eu um aficionado da MPB e apreciador da boa integração entre ruído e música em atrações de rádio, cinema e tevê, aproveito a ocasião para fazer uma lembrança pessoal, carinhosa e de admiração, de músicos e compositores com os quais meu pai pôde trabalhar e dos quais se tornar amigo - até mesmo de longa data: Waltel Branco, Dori Caymmi, Geraldo Vespar, Guio de Moraes, Roberto Nascimento, Eustáquio Sena, Chico Batera e Dario Lopes (estes ex-produtores musicais da TV Globo, com os quais meu pai, naquela "fábrica de doidos", não raro passou noites em claro sonorizando programas da emissora), Sérgio Ricardo, Pedro Camargo e Ruy Guerra (ambos de presença "anfíbia", na música popular e na direção de filmes), Alceu Valença (ator em "A Noite do Espantalho", de 1974, de Sérgio Ricardo. Aliás, lembro-me, na minha adolescência, desses talentosos Alceu Valença e Geraldo Azevedo, lá em casa, no Bairro de Fátima, antes do sucesso a que merecidamente chegariam, mostrando músicas, como "Talismã", do primeiro elepê que fizeram, em dupla), Remo Usai, Jards Macalé, Zé Rodrix (fazendo trilha para comédia erótica de Carlos Imperial; este, uma figura, visitando-nos numa casa de vila onde morávamos, em Botafogo, com  a sua inseparável cadela, a Fresca), Durval Ferreira (na extinta Somil), Dom Salvador e o parceiro letrista Marco Versiani, Renato Andrade (que, por várias vezes, nessa mesma casa de vila, divertiu-nos com a sua viola e os seus "causos'), Fernando Lona (tão cedo falecido, autor, com Geraldo Vandré, de uma joia de marcha-rancho, "Porta-Estandarte"), os pianistas Édson Frederico (no teatro, numa comédia de Agildo Ribeiro) e Sérgio Sá (fazendo trlha para filme dos Trapalhões), David Tygel (também no cinema) e "tutti quanti". Na menção destes, sintam-se todos, especialmente os não citados por falha momentânea de memória - são muitos -, envolvidos por essa minha carinhosa lembrança. Nesse octogésimo aniversário do Geraldo José, reitero agradecimento especial ao compositor e escritor Nei Lopes pela generosa inclusão - até mesmo com foto - do nome do meu pai na sua "Enciclopédia Brasileira da Diáspora Negra", obra fundamental de referência e de fôlego.     
            Desculpem-me de linhas tão longas para uma dica concernente a alguém da minha família, de quem muito me orgulho por ser como é. Valeu, Luís Alberto, o envio do "flyer", que me surpreendeu. A todos, desejo um bom dia, com o meu obrigado pela atenção dispensada.