Mostrando postagens com marcador Homenagem do Gerdal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Homenagem do Gerdal. Mostrar todas as postagens
9.9.14
Miltinho ("in memoriam"): o grande cantor que só ia de balanço, no seu tempo certo
"Você, mulher, que já viveu/que já sofreu/não minta/um triste adeus/nos olhos teus/a gente vê, mulher de trinta..." ("Mulher de Trinta", de Luís Antônio); "Foi assim/a lâmpada apagou/a vista escureceu/um beijo, então, se deu/e veio a ânsia louca, incontida do amor..."("Meu Nome É Ninguém", de Luiz Reis e Haroldo Barbosa); "Peguei o Zé/de copo na mão/tentando afogar a Conceição/no bar, quem é triste vira herói/engana a cabeça/o coração não dói..." ("Zé de Conceição", de João Roberto Kelly); "Luminosa manhã/pra que tanta luz?/dá-me um pouco de céu/mas não tanto azul..." ("Canção da Manhã Feliz", de Luiz Reis e Haroldo Barbosa); "Você errou/quando olhou pra mim/uma esperança fez nascer em mim..." (Recado", de Djalma Ferreira e Luís Antônio).
Esses, entre outros, são sucessos que, sobretudo nos anos 60, firmaram o cantor carioca Miltinho (fotos abaixo), no panorama da MPB de então, com uma interpretação diferente, anasalada, toda sua, em que brincava com o ritmo e a divisão.
Seu primeiro elepê solo, "Um Novo Astro", data de 1960, em que gravou a bem rodada "Mulher de Trinta", mas, antes disso, provara da antiga e eficaz receita do canto popular: a atuação como "crooner", de 1950 a 1957, da Orquestra Tabajara e, pouco depois, do conjunto Milionários do Ritmo, liderado pelo organista Djalma Ferreira. Também fizera parte de memoráveis conjuntos vocais, como Namorados da Lua, Anjos do Inferno e Quatro Ases e um Curinga, cantando e batendo pandeiro, como hoje faz o talentoso Pedrinho Miranda, ex-integrante do Grupo Semente.
"Filho direto do melhor sincopado brasileiro", como escreveu o colunista de economia e bandolinista Luís Nassif, Miltinho é tema do curta-metragem "No Tempo de Miltinho", de André Weller (pianista, artista gráfico e ex-integrante do conjunto Família Roitman), exibido há cinco anos pelo festival É Tudo Verdade, no Rio e em São Paulo. Feito com recursos da Petrobras, após aprovação em concurso público da estatal, mostra raras imagens de arquivo, sendo merecido e bem-vindo reconhecimento. Flores colhidas ainda em vida por Miltinho, que, no feriado de anteontem, 7 de setembro, aos 86 anos, deu o seu último suspiro. "Um cantor que sempre transitou entre a modernidade e a tradição, que foi popular sem deixar de ser sofisticado", de acordo com a arguta observação do jornalista e escritor Rodrigo Faour.
Pós-escrito: nos "links" seguintes, Miltinho e sua singular divisão: 1) "Só Vou de Balanço", de João Roberto Kelly; 2) "Samba Maroto", de Luiz Reis; 3) "O Amor e a Rosa", de Pernambuco e Antonio Maria; 4) "Só Vou de Mulher", de Luiz Reis e Haroldo Barbosa; 5) "Sincopado Triste", de Hianto de Almeida e Macedo Neto; 6) "Palhaçada", de Luiz Reis e Haroldo Barbosa; 7) "Menina-Moça", de Luís Antonio; 8) "Chorar em Colorido", de Sílvio Silva e Fernando César; 9) "O Poema do Adeus", de Luís Antonio; 10) "Telecoteco Número 2", de Nelsinho e Oldemar Magalhães.
https://www.youtube.com/watch?v=VOwsqVJ7__U ("Só Vou de Balanço")
https://www.youtube.com/watch?v=tisfH-spy6w ("Samba Maroto")
https://www.youtube.com/watch?v=NWRdIHTd_xk (" O Amor e a Rosa")
https://www.youtube.com/watch?v=52Wkhr__3Tk ("Só Vou de Mulher")
https://www.youtube.com/watch?v=0Zd0sEWJ5DA ("Sincopado Triste")
https://www.youtube.com/watch?v=1LfAsXHOwt8 ("Palhaçada")
https://www.youtube.com/watch?v=qe9Brs4KQRU ("Menina-Moça")
https://www.youtube.com/watch?v=hnJyDXvrutY ("Chorar em Colorido")
https://www.youtube.com/watch?v=8srCofoGox8 ("O Poema do Adeus")
http://www.youtube.com/watch?v=wwvReTKLU84 ("Telecoteco Número 2")
Labels:
canção,
Cultura Brasileira,
Homenagem do Gerdal,
Miltinho,
MPB,
Música
25.7.14
Homenagem do Gerdal : Ivon Curi ("in memoriam"): o ator da canção e "chansonnier" tropical de passo elegante pela via do entretenimento
***
"J`attendrai le jour et la nuit/j`attendrai toujours ton retour/j`attendrai car l`oiseau qui s`enfuit vient chercher l`oubli dans son nid/le temps passe et court/ en battant, tristement, dans mon coeur si lourd/et pourtant j`attendrai ton retour..."
Prezados amigos,
Como um Jean Sablon em miniatura e cantando, em 1939, do repertório do galante francês o nascente clássico "J`Attendrai", Ivo José Curi, caxambuense, ganhou, em sua cidade, um concurso de calouros. Contava, então, 11 anos de idade, revelando inequivocamente a veia artística que, do Circuito das Águas, em Minas Gerais, ao Rio de Janeiro (onde se fixou com a família a partir de 1940), levá-lo-ia, já Ivon Curi (fotos acima) na antiga capital federal, à fama, que também pegaria pela palavra dois irmãos seus, mais velhos: os locutores Alberto Curi (noticiarista) e Jorge Curi (esportivo - antes dentista). Na Velhacap, inicialmente, após defender o próprio sustento no Laboratório Silva Araújo e na Panair (nesta como vendedor de passagens), apresentou-se, pela primeira vez, às luzes da ribalta, em 1947, como "crooner", contratado por Caribé da Rocha para shows no Copacabana Palace, acompanhado pela orquestra do maestro Zacharias. Um período em que, também no rádio - cantando na Nacional como convidado de programas em que cintilavam Marlene e Emilinha Borba, entre outras vozes de prestígio -, a canção francesa de sucesso e sabor romântico ainda o amparava, destacando-se na interpretação aveludada da valsa "Pigalle" e do fox "C`est Si Bon". Um "chansonnier" tropical que, no entanto, na década seguinte, daria largas à sua comunicação com o público por outras vias de expressão: atuando em cinema e, na Atlântida, marcando um tipo na fase áurea da chanchada - janota, de ar aristocrático e chegado a trejeitos interpretativos -, além de, em sintonia de ondas curtas, dar uma guinada radical no repertório, redestinado, sobretudo, a ritmos nordestinos amplamente divulgados, como o xote e o baião.
No exterior, aonde, consequentemente, os bem-sucedidos passos artísticos em solo pátrio o levariam, teve especial acolhida em Lisboa, com casas cheias que lhe renderiam elepês, em 1957 e 1959, pela RCA Victor - "Eu em Portugal" (vols. 1 e 2), quando já se exercitava também como um "entertainer", fazendo mímica e contando piadas. Na Odeon, em 1963, esse quê humorístico daria um gás à produção de "Um Espetáculo À Parte", ao qual, naturalmente, não faltariam faixas do gênero, como "Amor Naquela Base", de Moura Jr. e Zé Araújo, e "O Felizardo", esta de um surpreendente Vicente Celestino. Explorou o veio como compositor de valor - parceiro do autor teatral Meira Guimarães em "Casar É Bom" e do discotecário Paulo Gesta em "O Chato" -, embora na autoria solitária do belo samba-canção "Escuta", estourado com Angela Maria, houvesse levado às notas musicais, de modo ainda mais aguçado, a inspiração e a sensibilidade que lhe acorriam à alma. Faleceu, em 24 de junho de 1995, aos 67 anos, tendo alegrado, por alguns anos, na primeira metade da década de 80, as noites cariocas com concorridos shows em casa própria, o restaurante-boate Sambão e Sinhá - na Rua Constante Ramos, em Copacabana -, no qual, além de atuar, recebia artistas convidados. Se chique despontou para o palco, chique também dele o inconfundível Ivon se despediu, em espetáculo intitulado "A França e Quinze Saudades". Todas musicais, "bien sûr", e uma delas, em particular, vinda da centelha nostálgica de outro de seus ulalás "bleu, blanc, rouge", o monumental Charles Trenet: "Douce France/cher pays de mon enfance/bercée de tendre insouciance/je t´ai gardée dans mon coeur/mon village au clocher aux maisons sages/où les enfants de mon âge ont partagé mon bonheur..."
***
Pós-escrito: a) dedico estas linhas ao amigo Luiz Cesar, cantor tarimbado da noite carioca que, ao lado de Carminha Mascarenhas e outros artistas, se apresentou no referido Sambão e Sinhá. Na recente minissérie "Gabriela", da TV Globo, em brilhante participação, ele pôde ser visto como cantor de tango do cabaré Bataclan;
: b) nos "links" seguintes, com exceção do sexto, ouvem-se na voz de Ivon Curi: 1) "Sob o Céu de Paris", versão de Oswaldo Quirino para a valsa "Sous le Ciel de Paris"; 2) "Beliscão", de João do Vale, Ary Monteiro e Leôncio Tavares; 3) "Delicadeza", joia irônica de Pedro Rogério e Lombardi Filho cantada em sequência do filme "Depois Eu Conto", longa-metragem, de 1956, dirigido por dois bambambãs da chanchada: José Carlos Burle e Watson Macedo; 4) "Farinhada", do médico Zé Dantas; 5) "Foi num Trem", do saudoso cantor Luiz Cláudio e Nazareno de Brito; 6) "Escuta", de Ivon Curi, com Angela Maria; 7) "Sai, Menina!", xote de Ivon Curi, que aparece em imagem da comédia "Garota Enxuta", de J. B. Tanko, em cartaz em 1959; 8) "João Bobo", de Ivon Curi. Em "links" extras: 9) "J´Attendrai", com Jean Sablon, em registro original de 1939; 10) "Douce France", por Trenet, "en personne", em imagem de show do já longínquo 1963.
http://www.youtube.com/watch?v=DTcRIyvpaww ("Sob o Céu de Paris")
https://www.youtube.com/watch?v=UJq5bJ-9NSE ("Beliscão")
https://www.youtube.com/watch?v=mmNZf_h9HdE ("Delicadeza")
http://www.youtube.com/watch?v=Ra93OoMrYl0 ("Farinhada")
https://www.youtube.com/watch?v=Tw8htircQyU ("Foi num Trem")
https://www.youtube.com/watch?v=3d02myqxL3Q ("Escuta")
https://www.youtube.com/watch?v=jEdG30PQVbY ("Sai, Menina!")
https://www.youtube.com/watch?v=XRDy6_1VO8A ("João Bobo")
http://www.youtube.com/watch?v=3duPUVjzCLg ("J`Attendrai")
http://www.youtube.com/watch?v=kbQ5e5wt60s&feature=related ("Douce France")
Labels:
História,
Homenagem do Gerdal,
Ivon Curi,
Memória,
Música
22.3.13
Emílio Santiago ("in memoriam"): um cantor e tanto com que a noite carioca presenteou o Brasil
Prezados amigos,
Exigente consigo sob as luzes da ribalta, a ponto de evitar ver "tapes" de seus shows pois tendia a detectar, aqui e ali, algo que poderia ser ainda mais benfeito, Emílio Santiago (foto abaixo) vem de uma época em que, como já comentara em entrevista, ainda havia critério e rigor quanto ao aspirante ao estrelato no nosso canto popular. A exemplo da também carioca Áurea Martins, ele foi nacionalmente revelado em concurso do programa "A Grande Chance", de Flávio Cavalcanti, exibido aos domingos pela TV Tupi, e, ainda como ela, teve sua iniciação profissional na noite como "crooner". Assim, cantou de tudo, para atender ao paladar musicalmente diverso do público em casas como a boate Flag, um passado que recomendou ao então diretor artístico da Philips, Roberto Menescal, em 1977, mais uma de suas realizações de bom gosto: o elepê "Feito pra Ouvir", cujo título logo remete à famosa série "Feito pra Dançar", de Waldir Calmon, no anos 60. Servindo-se do sereno e do céu estrelado que tão intimamente conheceu nos verdes anos de carreira e assim afinado com o clima dos discos do pianista do Arpège, Emílio contou no "revival" conceitual da referida bolacha, reeditada em CD pela Dubas - selo do letrista Ronaldo Bastos -, com um trio liderado por outro pianista, Laércio de Freitas, responsável, com João Theodoro (J. T.) Meirelles, pelos arranjos.
Com o aplauso caloroso de público e crítica ao seu trabalho, nele ficara para trás o advogado formado pela Faculdade Nacional de Direito, que, ainda dentro de si, cedeu naturalmente terreno - por força de inelutável vocação -, para trânsito livre e desenvolto ao cantor, que, ainda com Menescal, faria, a partir de 1988, uma série muito bem-sucedida na Som Livre, "Aquarela Brasileira" (do primeiro ao sétimo discos, o último deles de 1995). Um impulso e tanto para a expansão, no mercado, da sua voz, dada ao improviso jazzístico e cujo aveludado já lhe valera o epíteto de Nat King Cole brasileiro e sugerira ao crítico Stephen Holden, do "The New York Times", a comparação com a maciez do canto de Johnny Mathis. Se Cauby Peixoto tem na Conceição criada por Dunga e Jair Amorim a "pièce de résistence" de toda apresentação que faz, Emílio Santiago não era poupado, nos seus shows, dos insistentes pedidos, até mesmo no exterior, para cantar "Saigon", de Cláudio Cartier, Paulo César Feital e Carlão, a mais marcante, em termos de popularidade, entre tantas faixas que gravou. Bela composição e muito valorizada por esse cantor simplesmente magnífico, do qual sou mais um na sua legião de admiradores, "here, there and everywhere", e a quem presto, com o meu texto e a minha intenção, esta singela homenagem póstuma.
Um bom dia a todos. Muito grato pela atenção./Gerdal
Pós-escrito: nos "links" seguintes, com Emílio Santiago: 1) "Confissão", um samba dos anos 60 composto por Djalma Ferreira e Luiz Bandeira, faixa do CD "Só Danço Samba", lançado pela Santiago Music; 2) "Minha Esquina", pouco lembrada e uma das mais sedutoras composições de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, com o letrista em destaque na imagem; 3) "Aula de Matemática", de um ainda pré-bossa-novista Antonio Carlos Jobim em parceria com Marino Pinto; 4) "Onde o Céu Azul É Mais Azul", exaltação de Braguinha, Alberto Ribeiro e Alcyr Pires Vermelho; 5) a animada "Verdade Chinesa", que o niteroiense Carlos Colla fez com Gílson; 6) uma preciosidade do porta-joias autoral de Ary Barroso, o samba-canção "Ocultei"; 7) a supracitada "Saigon"; 8) "Olhou pra Mim", um sambalanço de Ed Lincoln e Sílvio César; 9) "Somos Dois", de Klecius Caldas, Armando Cavalcanti e Luís Antônio, gravada por Emílio em elepê de 1995, "Perdido de Amor", dedicado a Dick Farney; 10) fechando com alegria esta breve memória de um cantor inesquecível, um grande samba carnavalesco de João Nogueira e Niltinho Tristeza, "Chinelo Novo".
http://www.youtube.com/watch?v=Nm2tFLMlZaY ("Confissão")
http://www.youtube.com/watch?v=GcKGo2cSEwo ("Minha Esquina")
http://www.youtube.com/watch?v=6EEZehLVupA ("Aula de Matemática")
http://www.youtube.com/watch?v=GiB0nRJ0z1Q&feature=related ("Onde o Céu Azul É Mais Azul")
http://www.youtube.com/watch?v=RXSdfVatBiM ("Verdade Chinesa")
http://www.youtube.com/watch?v=P3R1dGgYJDk&feature=related ("Ocultei")
http://www.youtube.com/watch?v=vc9aRqdrGLU ("Saigon")
http://www.youtube.com/watch?v=6ZuQBYopZmE ("Olhou pra Mim")
http://www.youtube.com/watch?v=1APuzTaqmzk ("Somos Dois")
http://www.youtube.com/watch?v=Z2jtNVC0LWE ("Chinelo Novo")
Pós-escrito: nos "links" seguintes, com Emílio Santiago: 1) "Confissão", um samba dos anos 60 composto por Djalma Ferreira e Luiz Bandeira, faixa do CD "Só Danço Samba", lançado pela Santiago Music; 2) "Minha Esquina", pouco lembrada e uma das mais sedutoras composições de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, com o letrista em destaque na imagem; 3) "Aula de Matemática", de um ainda pré-bossa-novista Antonio Carlos Jobim em parceria com Marino Pinto; 4) "Onde o Céu Azul É Mais Azul", exaltação de Braguinha, Alberto Ribeiro e Alcyr Pires Vermelho; 5) a animada "Verdade Chinesa", que o niteroiense Carlos Colla fez com Gílson; 6) uma preciosidade do porta-joias autoral de Ary Barroso, o samba-canção "Ocultei"; 7) a supracitada "Saigon"; 8) "Olhou pra Mim", um sambalanço de Ed Lincoln e Sílvio César; 9) "Somos Dois", de Klecius Caldas, Armando Cavalcanti e Luís Antônio, gravada por Emílio em elepê de 1995, "Perdido de Amor", dedicado a Dick Farney; 10) fechando com alegria esta breve memória de um cantor inesquecível, um grande samba carnavalesco de João Nogueira e Niltinho Tristeza, "Chinelo Novo".
http://www.youtube.com/watch?v=Nm2tFLMlZaY ("Confissão")
http://www.youtube.com/watch?v=GcKGo2cSEwo ("Minha Esquina")
http://www.youtube.com/watch?v=6EEZehLVupA ("Aula de Matemática")
http://www.youtube.com/watch?v=GiB0nRJ0z1Q&feature=related ("Onde o Céu Azul É Mais Azul")
http://www.youtube.com/watch?v=RXSdfVatBiM ("Verdade Chinesa")
http://www.youtube.com/watch?v=P3R1dGgYJDk&feature=related ("Ocultei")
http://www.youtube.com/watch?v=vc9aRqdrGLU ("Saigon")
http://www.youtube.com/watch?v=6ZuQBYopZmE ("Olhou pra Mim")
http://www.youtube.com/watch?v=1APuzTaqmzk ("Somos Dois")
http://www.youtube.com/watch?v=Z2jtNVC0LWE ("Chinelo Novo")
2.11.12
Ivon Curi: um saudoso ator da canção e "chansonnier" tropical, de passo elegante pela via do entretenimento
"J`attendrai le jour et la nuit/j`attendrai toujours ton retour/j`attendrai car l`oiseau qui s`enfuit vient chercher l`oubli dans son nid/le temps passe et court/ en battant, tristement, dans mon coeur si lourd/et pourtant j`attendrai ton retour..."
Prezados amigos,
Como um Jean Sablon em miniatura e cantando, em 1939, do repertório do galante francês o nascente clássico "J`Attendrai", Ivo José Curi, caxambuense, ganhou, em sua cidade, um concurso de calouros. Contava, então, 11 anos de idade, revelando inequivocamente a veia artística que, do Circuito das Águas ao Rio de Janeiro (onde se fixou a partir de 1946), levá-lo-ia, já Ivon Curi (fotos abaixo) na antiga capital federal, à fama, que também pegaria pela palavra dois irmãos seus, mais velhos: os locutores Alberto Curi (noticiarista) e Jorge Curi (esportivo - antes dentista). Na Velhacap, inicialmente, após defender o próprio sustento no Laboratório Silva Araújo e na Panair do Brasil (nesta como vendedor de passagens), apresentou-se, pela primeira vez, às luzes da ribalta, em 1947, como "crooner", contratado por Caribé da Rocha para shows no Copacabana Palace, acompanhado pela orquestra do maestro Zaccarias. Um período em que, também no rádio - cantando na Nacional como convidado de programas em que cintilavam Marlene e Emilinha Borba, entre outras vozes do agrado popular -, a canção francesa de sucesso e verniz romântico ainda o amparava, destacando-se na interpretação aveludada da valsa "Pigalle" e do fox "C`est Si Bon". Um "chansonnier" tropical que, no entanto, na década seguinte, daria largas à sua comunicação com o público por outras vias de expressão: atuando em cinema e, na Atlântida, marcando um tipo na fase áurea da chanchada - janota, de ar aristocrático e chegado a trejeitos interpretativos -, além de, em sintonia de ondas curtas, dar uma guinada radical no repertório, redestinado, sobretudo, a ritmos nordestinos amplamente divulgados, como o xote e o baião.
No exterior, aonde, consequentemente, os bem-sucedidos passos artísticos em solo pátrio o conduziriam, teve especial acolhida em Lisboa, com casas cheias que lhe renderiam elepês, em 1957 e 1959, pela RCA Victor - "Eu em Portugal" (vols. 1 e 2), quando já se exercitava também como um "entertainer", fazendo mímica e contando piadas. Na Odeon, em 1963, esse quê chistoso daria um gás à produção de "Um Espetáculo À Parte" (capa abaixo), ao qual, naturalmente, não faltaria humor a músicas como "Amor Naquela Base", de Moura Jr. e Zé Araújo, e "O Felizardo", esta de um surpreendente Vicente Celestino. Parceiro do autor teatral Meira Guimarães em "Casar É Bom" e do discotecário Paulo Gesta em "O Chato" -, Ivon explorou o veio como um compositor de valor. A sós, no entanto, em outra vertente da inspiração, faria o seu "amendoim torradinho" - o belo samba-canção "Escuta" -, bem provado por Angela Maria e por ela bem servido em gravação sensível e de ampla difusão. Faleceu, em 24 de junho de 1995, aos 67 anos, tendo alegrado, por alguns anos, na década de 70, as noites cariocas com concorridos shows em casa própria, o restaurante-boate Sambão e Sinhá - na Rua Constante Ramos, em Copacabana -, no qual, além de atuar, recebia artistas convidados. Se chique despontou para o palco, chique também dele, em 1993, o inconfundível Ivon se despediu, em espetáculo intitulado "A França e 15 Saudades". Todas melodiosas, "bien sûr", e uma delas, em particular, vinda da centelha nostálgica de outro de seus ulalás "bleu, blanc, rouge", o monumental Charles Trenet: "Douce France/cher pays de mon enfance/bercée de tendre insouciance/je t´ai gardée dans mon coeur/mon village au clocher aux maisons sages/où les enfants de mon âge on partagé mon bonheur..."
Um bom dia a todos. Muito grato pela atenção.
Um abraço,
Gerdal
Pós-escrito: do primeiro ao quarto "links", o mineiro "mineralizado" Ivon Curi é ouvido em: 1) "Sob o Céu de Paris", versão de Oswaldo Quirino para a valsa "Sous le Ciel de Paris"; 2) "Sai, Menina!", xote dele em imagem da comédia "Garota Enxuta", de J. B. Tanko, em cartaz em 1959; 3) "Farinhada", do médico Zé Dantas, na regravação que fez, em 1987, desse sucesso de carreira; 4) "João Bobo", outro de seus sucessos, uma valsa que fez e a que dava, como nesta gravação, inflexões dramáticas. No quinto "link", "Escuta" na voz da referida Sapoti, em cena do filme "O Rei do Movimento", de 1955, dirigido por Vítor Lima. No sexto e no sétimo "links", respectivamente, Ivon, de volta, em "Delicadeza" (joia irônica de Pedro Rogério e Lombardi Filho que Ivon canta em sequência de "Depois Eu Conto", longa-metragem de 1956, dirigido por dois bambambãs da chanchada, José Carlos Burle e Watson Macedo) e "Não Bula Comigo", de Chico Anysio e Hianto de Almeida. Em "links" extras: 8) "J´Attendrai", com Jean Sablon, em registro original de 1939; 9) "Douce France", por Trenet, "en personne", em imagem de show do já longínquo 1963.
http://www.youtube.com/watch?v=DTcRIyvpaww ("Sob o Céu de Paris")
http://www.youtube.com/watch?v=jEdG30PQVbY&feature=related ("Sai, Menina!")
http://www.youtube.com/watch?v=LjPBWoHtPr8 ("Farinhada")
http://www.youtube.com/watch?v=XRDy6_1VO8A&feature=related ("João Bobo")
http://www.youtube.com/watch?v=V98-lCjNLcQ ("Escuta")
http://www.youtube.com/watch?v=qQMWPduun0Y ("Delicadeza")
http://www.youtube.com/watch?v=Pf5jZtLRIyQ ("Não Bula Comigo")
http://www.youtube.com/watch?v=VKXq_030_uQ ("J`Attendrai")
http://www.youtube.com/watch?v=kbQ5e5wt60s&feature=related ("Douce France")
29.8.12
Denis Brean: um compositor eterno do tempo em que já se escrevia Bahia com H
Prezados amigos,
Cunhando para si epíteto artístico marcante na história da MPB, já que o próprio nome, Augusto Duarte Ribeiro - pensava -, era mais condizente com um balcão de secos e molhados, Denis Brean completou, em 16 de agosto último, 43 anos de desaparecimento. Campineiro de 1917, da mesma cidade do maestro Carlos Gomes e dos violonistas Paulinho Nogueira e Armandinho Neves, mudou-se, 17 anos depois, com a família, para a capital paulista, onde se iniciou no batente como escriturário. Largando a faculdade de Direito para se dedicar ao jornalismo, passou por várias redações de jornal, mormente a da "Gazeta Esportiva" - da qual foi diretor nos anos derradeiros de vida -, e, no rádio de São Paulo, também teve participação de destaque, atuando como um "DJ do bem", por muitos anos, em programa na Rádio Record, prestigiando a nossa boa canção popular e talentos emergentes do mundo do disco. Foi sócio-fundador da Sbacem do Brasil, vice-presidente da Acresp (Associação dos Cronistas de Rádio do Estado de São Paulo) e, ainda, como produtor fonográfico, lançou Hebe Camargo como cantora e o acordeonista Mario Gennari Filho, entre outros, além de dois importantes registros apenas com músicas suas: o dez-polegadas "Roda de Samba", em 1958, com a orquestra do italiano Henrique (Enrico) Simonetti, diretor artístico da Mocambo, e foto da então modelo Norma Benguell na capa (com o corpo, de lado, quase todo coberto por um grande chapéu); e, em 1965, o 12-polegadas "Convite ao Samba", com a orquestra do queluzense Lyrio Panicali.
Coube a um carioca, Cyro Monteiro, dar o pontapé inicial como intérprete dos sucessos de Denis Brean, gravando a sátira "Boogie-Woogie na Favela", em 1945, regravada dois anos depois pelos Anjos do Inferno. Ainda em 1947, Joel e Gaúcho caíam no agrado popular com outra pérola de mesmo verniz irônico, "Boogie-Woogie do Rato", a que Linda Batista se juntaria, lançando a jocosa "Baiana no Harlem", em 1950, um ano antes de Dircinha Batista gravar "La Vie en Samba", feita em francês em parceria com Blota Júnior. Ainda entre as composições com letra e música exclusivamente suas, avultam "Melancolia" e "Bahia com H", uma linda exaltação ao estado natal de João Gilberto sem que Denis, como o mentor da batida diferente já revelou em show, a tivesse visitado "sur place". Nos anos 40, conhecendo outro jornalista campineiro, Oswaldo Guilherme, dividiu com ele diversos sucessos, especialmente no compasso analgésico do samba-canção, como "Conselho" , por Nora Ney, e "Franqueza", por Maysa, clássicos da fossa gravados em fins dos anos 50. Uma exceção a isso, por exemplo, foi a marcha "Como É Burro o Meu Cavalo", que, com a graça habitual, o nosso saudoso "cowboy" Bob Nelson, mais um campineiro, desfilante histórico do Império Serrano, legou à posteridade com a marca inalienável do seu "tiroleite".
Um bom dia a todos. Muito grato pela atenção.
Um abraço,
Gerdal
Pós-escrito: a) entre as fotos abaixo, a de Denis Brean com Oswaldo Guilherme foi clicada em 1964 na cidade paulista de Itanhaém, aonde ambos iam com frequência, sobretudo em dias de folga ou férias. Aquela em que João Gilberto segura um berimbau foi tirada, em julho de 1965, na casa de Denis, então morador no bairro paulistano de Indianápolis;
b) nos "links" seguintes, naturalmente, composições de Denis Brean: 1) "Baiana no Harlem", por Roberta Sá; 2) "Boogie-Woogie na Favela", pelo conjunto campineiro Gato com Fome; 3) "La Vie en Samba" (com Blota Jr.), por Lana Bittencourt; 4) "Bahia com H", por João Gilberto; 5) "Franqueza" (com Oswaldo Guilherme), por Maysa; 6) "Malandro em Paris" (outra com Blota Jr.), por Roberta Sá e Zé Renato; 7) " Tá Difícil de Escolher", pelos Vagalumes do Luar; 8) "Como É Burro o Meu Cavalo" (com Oswaldo Guilherme), por Bob Nelson (em cena, com irmãos Chiozzo - Adelaide e Afonso -, na chanchada "É com Este Que Eu Vou", de 1948, dirigida por José Carlos Burle).
http://www.youtube.com/watch?v=QRU4JPIJpe4&noredirect=1 ("Baiana no Harlem")
http://www.youtube.com/watch?v=c113vadADDM&feature=player_detailpage ("Boogie-Woogie na Favela")
http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=vnBAUKR0Uno ("La Vie en Samba")
http://www.youtube.com/watch?v=Q7qyizoeYpg&feature=related ("Bahia com H")
http://www.youtube.com/watch?v=I4PseRAEZ48&feature=related ("Franqueza")
http://www.youtube.com/watch?v=QRU4JPIJpe4&noredirect=1 ("Malandro em Paris")
http://www.youtube.com/watch?v=XL9X3JXwFOc&feature=player_detailpage ("Tá Difícil de Escolher")
http://www.youtube.com/watch?v=Mqzjtb7BgXk&feature=player_detailpage ("Como É Burro o Meu Cavalo")
Nota da Redação: Por favor, procurem localizar estas músicas no YouTube, por absoluta falta de tempo não fizemos a operação de link. Faremos noutra oportunidade)
27.8.12
Altamiro Carrilho: pequena recordação do grande paduano que se imortalizou no choro ao som de uma flauta mágica
"Existem flautistas e existe Altamiro Carrilho" (Jean-Pierre Rampal, flautista francês)
Prezados amigos,
Nos anos 90, quando de seu show-depoimento pelo Brahma Extra - O Som do Meio-Dia, em teatro do Centro do Rio, tive a satisfação de, cessada a função, cumprimentar Altamiro Carrilho (fotos abaixo), a mim apresentado pelo meu pai, amigo dele desde os tempos da Rádio Tupi, quatro décadas antes. Vez por outra, após essa ocasião, eles "se esbarravam" em algum logradouro público, também no Centro, encontros que sempre eram motivo de alegria para ambos, sobretudo por recordar, como que embalados pelo famoso maxixe do flautista, aqueles idos da bandinha, empolgando o auditório da emissora. Na minha infância, no Bairro de Fátima, Altamiro foi uma influência marcante na minha inclinação musical mais aflorada pela nossa música popular, de tanto que, além de vê-lo na tevê, ouvi seus discos na vitrola doméstica, ao lado do meu velho. Especialmente um elepê em que Altamiro está uniformizado na capa, um da bandinha (formação em que João Donato, ao acordeão, principiou no "métier"), criada por inspiração paduana, no interior fluminense, cenário gerador do sopro magistral do artista, em incipiente flautinha de bambu, aos cinco anos de idade. Criado em contato permanente com a "furiosa" local, a Lira de Árion, regida por um tio, desabrochou, ao tarol, aos 11 anos, para a atividade musical em conjunto e, seis anos mais tarde, em 1941, já morando com a família em São Gonçalo, e trabalhando em farmácia, teve em um carteiro, flautista amador, Joaquim Fernandes, um professor dedicado e grande incentivador, vencendo, então, vários concursos de calouros no rádio, sobretudo o do rigoroso Ary Barroso. Daí em diante, profissionalizando-se no meio, a conhecida e bem-sucedida trajetória, entre outros fatos de relevo: a amizade com Benedicto Lacerda, o qual substituiria no regional que passaria a ser de Canhoto; a estreia em disco, na Odeon, em 78 rpm de Moreira da Silva, em 1943, e, em 1949, pelo selo Star, o primeiro disco solo, com a faixa "Flauteando na Chacrinha", dele e de Ari Duarte; cerca de 200 composições, mais de cem discos gravados e shows em cerca de 40 países; o gosto pela improvisação e o amplo domínio técnico, que o levou ainda a enveredar pelo universo erudito, gravando Mozart, Vivaldi e Chopin, por exemplo, e tocando com orquestras sinfônicas; os prêmios e as honrarias recebidos, como uma comenda especial, a Ordem do Mérito Cultural, entregue pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pela trajetória e pela incansável luta em prol da MPB.
Lamentando, em desgosto de agosto, o do último dia 15, o passamento, aos 87 anos, desse orgulho nacional, chistoso (afiado no trocadilho) e carismático, músico de músicos e também admirado por colegas no exterior, aproveito o momento, com o meu agradecimento a Simone Guimarães, essa cantora, compositora e violonista tão talentosa, para redirecionar a vocês o que, entre outros destinatários, recebi dela, assim que se soube da triste notícia: "É sondada a alma da Música Brasileira, em sua essência, nesse momento de perda. Altamiro Carrilho, que acaba de nos deixar, faz parte de uma classe operária da música brasileira que nunca deixou, pelo talento, dom e amor, que fossem obscurecidas as suas raízes ou esmagadas as suas flores. Erga-se um macroscópio elegíaco sobre a terra nesse instante para a observação grandiosa, pois este Homem foi grande. Lanço meu grito de dor ao mais alto grifo de estrela cunhado por ele agora com notas musicais. Vá em Paz. Nosso adeus e nosso até breve nesse mundo que nunca há de se prescrever por seu imenso legado. Altamiro. Alto, miro-te com as estrelas."
Um bom dia a todos. Muito grato pela atenção.
Um abraço,
Gerdal
Pós-escrito: a) numa das fotos abaixo, de 1956 e tirada no quinto andar da Rádio Tupi, meu pai, então contrarregra da emissora (portando um instrumento que lhe possibilitava reproduzir o apito de um trem), ao lado de Altamiro Carrilho. O ruído do trem foi usado, na ocasião, na gravação que Altamiro fez, com a bandinha, de "O Trem Atrasou", de Paquito, Artur Vilarinho e Estanislau Silva. Ainda em gravação da bandinha, meu pai, mais adiante, colaboraria com Altamiro, valendo-se de ruídos de tiroteio e trotar de cavalos, em "Bat Masterson", canção até hoje lembrada por causa da versão famosa do compositor e publicitário Édson Borges, também conhecido como Passarinho;
b) dedico esta pequena recordação de Altamiro ao violonista Maurício Carrilho, ao seu pai, o flautista Álvaro Carrilho, e ao Franklin da Flauta, este com CD recém-lançado, certamente da melhor qualidade, feito em duo com o violonista Luiz Cláudio Ramos. Também pela amizade de longa data com Altamiro, dedico-a ao meu pai, aniversariante de ontem, 26 de agosto, quando completou 83 anos;
c) no primeiro "link", outro flautista de nomeada, o colatinense Carlos Poyares, toca "Deixa o Breque pra Mim", de Altamiro, na ótima companhia de Izaías e Seus Chorões. Nos demais "links", o próprio Altamiro e sua flauta são ouvidos em: 2) "Rio Antigo", dele; 3) "Humoresque", de Dvorak; 4) "Primeiro Amor", valsa célebre de Patápio Silva, executada em duo com o pianista Luiz Eça; 5) "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso; 6) "Menina Feia", de Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini, uma incursão bossa-novista, de 1963, com coro; 7) "Aconteceu no Grajaú" (1955), do pianista gaúcho Britinho, bastante atuante na noite carioca dos anos 50; 8) "Flamengo", choro que o paulista Bonfiglio de Oiveira compôs em intenção do bairro carioca onde morou. 8) "Aeroporto do Galeão", dele, choro composto durante um voo do flautista e, nas imagens do anexo, tocado em duo com a colega de sopro Paula Robinson, entre outros instrumentistas.
.
http://www.youtube.com/watch?v=jC2VdMCDfmc&feature=player_detailpage ("Deixa o Breque pra Mim")
http://www.youtube.com/watch?v=pVSrLHIAGMM ("Rio Antigo")
http://www.youtube.com/watch?v=BksbWm-eRmE ("Humoresque")
http://www.youtube.com/watch?v=Y-deyXe5QG0&feature=related ("Primeiro Amor")
http://www.youtube.com/watch?v=9eLUbdL5Xps ("Aquarela do Brasil")
http://www.youtube.com/watch?v=9V46BHMrysI ("Menina Feia")
http://www.youtube.com/watch?v=n25LpkQ0o7Y&feature=player_detailpage ("Aconteceu no Grajaú")
http://www.youtube.com/watch?v=HoG-O4Ocatc ("Flamengo")
http://www.youtube.com/watch?v=o_jnbhyBlgk ("Aeroporto do Galeão")
Labels:
Altamiro Carrilho,
Geraldo José,
Homenagem do Gerdal,
Música
26.8.12
Luiz Bandeira ("in memoriam"): do samba de gente bem ao skindô no terreiro, tomando umas e outras e caindo no passo do frevo
"Eu sou um portador do amor/vem cá, menina, dê-me a sua mão/garanto, você vai gostar de passear pelo meu coração..."
Prezados amigos,
De tão associadas entre si, o que seria das imagens do cinejornal "Canal 100", nos lances espetaculares do futebol, se exibidas sem aquela música de fundo tocada pelo pianista Waldir Calmon? Algo, presumo, como as imagens para a tevê, nos anos 60 e 70, das mensagens natalinas da Varig (como a do Urashima Taro, em 1968, cantada por Rosa Miyaque), sem os "jingles" do paulistano Archimedes Messina. Tanto num caso quanto noutro, composições que, em relação aos seus autores, tomaram a dianteira na identificação popular: elas muito conhecidas, eles nem tanto. Embora feita sem motivação no velho e rude esporte bretão, "Na cadência do Samba" ("Que Bonito É!"), de 1955, tornou-se o maior tento do craque Luiz Bandeira (foto abaixo), um compositor show de bola no gramado da MPB. Nascido num dia de Natal, em 1923, e falecido num domingo de carnaval, em 1998, esse recifense de infância parcialmente vivida em Maceió teve em toda a sua longevidade domiciliar no Rio de Janeiro os anos mais risonhos e frutíferos da carreira - iniciada, ainda na Veneza Brasileira, como cantor e ator, na Rádio Clube de Pernambuco, logo após aprovação em concurso de calouros nessa emissora. Em 1951, um ano após sua chegada à Velhacap, já dizia musicalmente a que vinha com um sucesso, de reflexo carnavalesco, gravado pelo embolador Manezinho Araújo, "Torei o Pau". Nessa década, a convite de Caribé da Rocha, cantou na boate Meia-Noite, do Copacabana Palace, também na boate Drink, do pianista Djalma Ferreira - seu parceiro no samba "Volta", gravado por Miltinho -, e, mais tarde, em 1960, como integrante do sexteto de Radamés Gnattali, viajou com a Terceira Caravana Oficial da Música Brasileira, prevista em lei aprovada do então deputado Humberto Teixeira - outro parceiro, em "Baião Sacudido" -, divulgando maravilhas do nosso repertório em universidades europeias, como a Sorbonne, em Paris.
Luiz Bandeira teve ainda outras músicas bastante executadas, entre sambas, frevos, marchas e baiões, numa festa de ritmos: "Cafundó", por Edu da Gaita e Carmélia Alves (com esta em gravação com letra de outro pernambucano, Luiz Vieira), "O Apito no Samba" (com letra de Luiz Antônio"), por Marlene, e "É de Fazer Chorar" ("Quarta-Feira Ingrata") e "Voltei, Recife!", regravadas por Alcymar Monteiro e Alceu Valença, respectivamente. Para Clara Nunes, forneceu o sucesso de "Viola de Penedo" e, na parceria com Renato Araújo, seria cantado no carnaval de 1958, por causa do samba "Madeira de Lei", de belo registro na voz de Heleninha Costa. Em 1984, trazido pelo braço da saudade, estava de volta a Recife esse "defensor sem limites" da nossa cultura popular, tão bem retratada na sua obra. "Do samba, do frevo, da seresta, do chorinho e do baião, da peixada, da cabidela, da feijoada, do futebol e da batucada", como ele sempre foi e transpareceu em versos e notas musicais. Luiz Bandeira, em suma: um homem de bem, um cidadão correto, um grande brasileiro. Nunca é demais lembrá-lo..
Um bom domingo a todos. Muito grato pela atenção.
Um abraço,
Gerdal
Pós-escrito: a) com as minhas condolências aos filhos, em particular a Marius Bandeira, destinatário habitual das minhas dicas de MPB, dedico este singelo tributo à dona Iracema Bandeira, viúva do compositor, recentemente falecida, aos 89 anos;
b) além de duas fotos, abaixo, de capas de discos de Luiz Bandeira, há uma, muito especial, clicada em 1987, que recebi há tempos do amigo Marius, com o pai dele muito bem acompanhado (sendo o José Menezes que aparece não o Zé Menezes, multi-instrumentista cearense, mas o não menos importante maestro pernambucano, compositor de frevos, que fez parte da orquestra de Nelson Ferreira). Uma foto que vale por mil canções;
c) nos "links seguintes, um desfile de preciosidades da lavra de mestre Bandeira; 1) "Viola de Penedo", com Clara Nunes; 2) "Mistura Fina", com Sivuca; 3) "Fulô da Maravilha", com Luiz Gonzaga; 4) "Portador do Amor" (dos versos acima, em parceria com Julinho), também com Gonzagão, que, a certa altura da audição da ciranda, chama Luiz Bandeira para cantar, em participação especial; 5, 6 e 7) "O Apito no Samba", por, respectivamente, Marlene (em registro ao vivo no programa do famoso animador Manoel Barcelos, na Rádio Nacional, em fins dos anos 50), Luiz Arruda Paes e sua orquestra e Milton Banana, baterista, com o conjunto de Oscar Castro Neves; 8 e 9) "Na Cadência do Samba", por, respectivamente, Waldir Calmon e Luiz Bandeira (este, em fotos raras no vídeo - numa delas ao lado de Orlando Silva - acompanhado por orquestra regida por Radamés Gnattali); 10) "Cafundó", baião ouvido com arranjo de Radamés Gnattali; 11) "Confissão" (em parceria com Djalma Ferreira), com Orlandivo (este dos tempos de Bandeira e de Djalma no Drink); 12) "Madeira de Lei" em sua versão francesa, "Carioca, Mon Ami", gravada pelo conjunto Les Compagnons de la Chanson; 13) "Voltei, Recife!", com Alceu Valença.
http://www.youtube.com/watch?v=4B69t1xk1Ys ("Viola de Penedo')
http://www.youtube.com/watch?v=ebZTiziLG5k ("Mistura Fina")
http://www.youtube.com/watch?v=ZWe5lmu3NHE ("Fulô da Maravilha")
http://www.youtube.com/watch?v=ELFlin6G26w ("Portador do Amor")
http://www.youtube.com/watch?v=TjO6F4Dksws ("O Apito no Samba", com Marlene)
http://www.youtube.com/watch?v=lG6jb6LipJI ("O Apito no Samba", com Luiz Arruda Paes, orquestra e coro)
http://www.youtube.com/watch?v=Tidquhy5HuM ("O Apito no Samba", com Milton Banana e conjunto de Oscar Castro Neves)
http://www.youtube.com/watch?v=IZRl9zgGX_s ("Na Cadência do Samba")
http://www.youtube.com/watch?v=Tx7mvzKKwTU ("Na Cadência do Samba" - com Luiz Bandeira, Radamés e orquestra)
http://www.youtube.com/watch?v=jevlNEEplFE&feature=related (Cafundó")
http://www.youtube.com/watch?v=C-8L_yJgBrM ("Confissão")
http://www.youtube.com/watch?v=Pe8pcf24Vvg ("Madeira de Lei" - "Carioca, Mon Ami", na versão francesa)
http://www.youtube.com/watch?v=VlVctBDu324 ("Voltei, Recife")
1.7.12
Bisdré: cordas de todo o sentimento em um violão de craque e brasileiro por inteiro
Prezados amigos,
O primeiro dos "links" abaixo já é, por si só, no meu modesto entender, revelador de um dos maiores talentos do violão popular brasileiro dos últimos tempos e ainda sem a devida dimensão de amplitude territorial, em termos de difusão de trabalho, de que o seu pinho é merecedor no nosso país. Que sonoridade bonita, como que vinda por inteiro da alma do instrumentista a expressar-se em primorosa composição sua, o samba "Saudade". Na linha de excelência de um Baden Powell ou de uma Rosinha de Valença, ferindo cordas, na brasilidade, transmissoras de todo o sentimento que traz consigo, nasceu no Rio de Janeiro, em Jacarepaguá, cresceu no Irajá, mas há muito está radicado na capital paulista, onde já circulou por muitas rodas musicais - de choro e samba, especialmente - e participou de alguns conjuntos, como o quarteto Breu na Sola e o Três por Acaso (em formação inusitada de violão, viola de arco e pandeiro para tocar MPB variada), atualmente integrando o Saçurá. Também arranjador, foi autodidata a princípio, aos 15 anos de idade, mas, depois, teve como mestres violonistas experientes e muito bem conceituados, como Ricardo Simões, Luizinho 7 Cordas e, especialmente, Ruy Weber (este autor da trilha do longa "Serras da Desordem", do "underground" Andrea Tonacci), com o qual levou mais a fundo o seu aprendizado e aprimorou o seu estilo. Fez música pra teatro e tocou em algumas peças, participando recentemente das gravações de CDs de jovens e apreciados sambistas da garoa paulistana, como Edu Batata e Emerson Urso. Destaque nas apresentações do coletivo de violonistas Comboio de Cordas, em Sampa, André Alberto de Oliveira Santos é o nome por extenso do craque em relevo nestas linhas. Ave, Bisdré!
Um bom domingo a todos. Muito grato pela atenção.
Um abraço,
Gerdal
Pós-escrito: nos demais "links", 2) Bisdré (foto abaixo), com os colegas do Saçurá, toca, de sua autoria, o baião "Quarto Minguante"; 3) ainda com o Saçurá, Bisdré mostra "Atriz", nascida de suas tão inspiradas cordas; 4) ele, ao violão, sola "Cris", valsa também sua; 5) em duo com o paulistano Ruy Weber, executa "Correnteza", de Antonio Carlos Jobim e Luiz Bonfá.
http://www.youtube.com/watch?v=E9PaCbU7h30 ("Saudade")
http://www.youtube.com/watch?v=21aPpQJ1Nuk ("Quarto Minguante")
http://www.youtube.com/watch?v=Aa76W1IRDMo ("Atriz")
http://www.youtube.com/watch?v=96CTaO1z7C4 ("Cris")
http://www.youtube.com/watch?v=cImw3O7JASw&feature=relmfu ("Correnteza")
http://www.myspace.com/bisdrebr
28.2.12
Jacy Inspiração: a lira do povo no samba do Acesso por um compositor especial

Não só pela constância da atuação, mas também pela qualidade da produção, simples e expressiva, um nome de compositor sempre me chamou a atenção nos meus muitos anos de acompanhamento, como espectador, de desfiles das escolas das divisões inferiores do samba carioca: Jacy Inspiração. Um expoente da lira popular emanada dos enredos cantados nos atuais grupos de acesso (do B para baixo, sobretudo, grupos ainda não contaminados, a meu juízo, pelo excesso de ornato teatral, passo marcado e alpinismo socioartístico da "sambroadway" do Especial), o qual vi, algumas vezes, de microfone em punho, ao lado do carro de som da Arrastão, defendendo algum hino de sua autoria para o desfile. Junto com seus parceiros (Amaury, Netinho e Bebeto), o bravo Jacy - Inspiração por sempre ter o verso na cabeça - ganhou, em 1989, o Estandarte de Ouro de melhor samba, feito para essa escola quando esta homenageou Zezé Motta em "Um Canto de Amor à Raça" (no primeiro "link" abaixo, ouvido em trecho do desfile da Arrastão na Sapucaí). Debutando na folia pelo bloco Vai Quem Quer e, em seguida, indo para o Bafo da Onça, ele fixou-se por muitos anos na verde e branco de Cascadura (afilhada do Império Serrano), na qual, além do tributo à atriz de Chica da Silva no cinema, venceu outros oito concursos internos com vistas ao fazer bonito na passarela, destacando-se os enredos "Mambembes e Mamulengos", de 1980, e "As Icamiabas", de 1996.
Com música sua gravada, entre outros artistas, por Altamiro Carrilho e sua "furiosa" em 1972 - o baião "Chiquinha Fofoca" -, Jacy Inspiração é visto, em foto acima, na capa de um elepê próprio realizado dois anos depois, pela Copacabana, com arranjos e direção musical do finado Waldemiro Lemke, e hoje uma raridade altamente cotada no mercado livre da internet. Também conhecido como Jacy da Coroa por ser morador do Morro da Coroa, em Santa Teresa, ele, em 2009, motivou um documentário de longa metragem sobre as triviais dificuldades de um sambista para se afirmar com a sua obra, intitulado "Jacy Inspiração, A Cara do Brasil", dirigido pelo francês Clément Claustre.
No segundo e terceiro "links", seguintes, ouvem-se, respectivamente, o samba-enredo deste ano da Império da Tijuca (terceira colocada no Grupo de Acesso A), feito por Jacy com os parceiros Fernandão, Henrique Badá e Cabral Gadioli, e "Vai, Brasil!", uma marcha-exortação voltada para a última Copa do Mundo, em 2010, que Jacy (na imagem, cantando-a) compôs com Roulien Vieira e Marcela Nunes.
Um bom dia a todos. Muito grato pela atenção.
Um abraço,
Gerdal .
http://www.youtube.com/watch?v=29R4kp7m0Hc ("Zezé Motta, Um Canto de Amor à Raça" - Arrastão de Cascadura, 1989)
http://www.youtube.com/watch?v=gGagBT8jGz4 ("Utopias - Viagem aos Confins da Imaginação" - Império da Tijuca, 2012)
http://www.youtube.com/watch?v=26su6wOjLaE ("Vai, Brasil!", apenas com a voz de Jacy Inspiração)
http://www.youtube.com/watch?v=HtBF6vtBfz8&feature=related ("Vai, Brasil!", em clipe com voz de Jacy e instrumentação)
Labels:
História,
Homenagem do Gerdal,
Jacy Inspiração,
Samba
16.2.12
Risadinha: na batida do samba, um cantor de destaque na história do Carnaval

Uma pena que, no rádio ou na tevê, não mais haja, em período antecedente à folia, aquela divulgação regular de músicas feitas para a animação de ruas e salões, especialmente sambas e marchas. Ainda pude alcançar, na minha infância, o final dessa praxe midiática, vendo, em programas da telinha, no preto e branco da imagem, diversos cantores, com seus cavalos de batalha, na disputa para "ganhar o carnaval", como se dizia, uma expressão terminante quanto à ampla aceitação popular de uma canção motivada pelo brilho da festa. Era, por exemplo, Dircinha Batista, em 1964, cantando a marchinha "A Índia Vai Ter Neném", de Haroldo Lobo e Mílton de Oliveira; e Aracy Costa, um ano antes, dizendo que "o maiô de duas alcinhas só não é pra vovó", em outra marchinha, "Maiô SS", da mesma dupla. Era, também, gente que só aparecia para cantar nessa época, como a vedete Angelita Martinez, defendendo a "Marcha da Traviata", de Carlos Moraes, e o "sui generis" Noel Carlos, um funcionário público que fora ritmista da orquestra de ritmos latino-americanos de Ruy Rey, com a "Maria-Furmaça", de Santos Garcia e Serafim Adriano. Entre tantos mais ou menos votados que apareciam (até mesmo quem não sabia cantar, mas se revelava bom "jóquei" de marcha, como o saudoso Clóvis Bornay, em 1969, com a sua "Dondoca", composta por Antonio Almeida), havia um que, em particular, eu gostava muito de ouvir: Risadinha (foto acima).
Francisco Ferraz Neto era o nome por extenso desse paulistano que, no ano passado, teria completado 90 anos, um chofer de praça que, vindo para o Rio na década de 40, aqui se firmaria como um bom cantor (atuou como "crooner" da orquestra de Osvaldo Borba) e compositor de sambas - fazendo-os, assinava Francisco Neto. Em 1960, juntamente com Os Cariocas, Maysa, Jamelão, Luely Figueiró e Ted Moreno, entre outros, teve importante participação na regravação da "Sinfonia do Rio de Janeiro", de Tom Jobim e Billy Blanco, no elepê "Rio - Cidade Maravilhosa", ainda com a orquestra de Radamés Gnattali. No entanto, tinha no repertório do carnaval a identidade maior da sua voz, sendo o intérprete que mais gravou um dupla de compositores afiada e bastante presente nessa seara, Otolindo Lopes e Arnô Provenzano. Com músicas de lavra própria, o sucesso se aproximaria dele, por exemplo, na parceria com José Roy, por meio da marcha "Cacareco É o Maior" (de 1960, motivada por votos de protesto político canalizados para um rinoceronte hospedado no zoo de Sampa) e, mais ainda, por meio do samba de bela cadência "Se Eu Errei", feito com Humberto de Carvalho e Edu Rocha e ouvido, no "link" abaixo, com a querida Ana Costa.
Um bom dia a todos. Muito grato pela atenção.
Um abraço,
Gerdal
http://www.youtube.com/watch?v=DAN2xkVIVuY ("Se Eu Errei")
31.1.12
Picolino da Portela: uma estrela que não se apaga no firmamento do samba feito em Madureira



"Quando no mar uma embarcação a navegar/deixa um coração a soluçar/por alguém que partiu pra não voltar..."
Há alguns anos, na única vez em que estive em Madureira por causa da celebração do Dia Nacional do Samba, encontrei, por acaso, lá pelas tantas, em rua próxima a um dos lados da estação ferroviária, um dos responsáveis pela revivência dessa festa no bairro, Marquinhos de Oswaldo Cruz. Conversando com ele, destacamos a figura de um grande compositor portelense, que não é dos mais visados na animação das rodas ou em regravações: Claudemiro José Rodrigues, o Picolino (foto acima). Lembro-me até do Marquinhos indicando-me, não muito distante de onde estávamos, em gesto elevado e alongado de braço, a casa onde havia morado o compositor, que se aposentara do batente pelo Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. Assim como "O Teu Passado Impede o Futuro", que gravou em elepê de capa acima reproduzida, outra pepita do samba em tom menor, "Lenços Brancos" (de versos iniciais em epígrafe), é obra maior da lavra de Picolino, muito bem cantada por sua grande intérprete, Eliana Pittman. Também na voz dessa cantora carioca faz a sua saudação a outros bambas em "Tô Chegando, Já Cheguei", ele que, em 1950, aos 20 anos, adentrou pela primeira vez, para ficar até a morte, o terreiro portelense, egresso, já compositor, do bloco Unidos da Tamarineira, de Oswaldo Cruz. Conhecendo na nova agremiação Candeia e Valdir 59, nela integraria com eles um setor famoso no desfile de carnaval, a Ala dos Impossíveis (a primeira a surgir com coreografia), que lhes possibilitou, em meados dos anos 50, no clube High Life, na Glória, apresentação com as orquestras de Severino Araújo e Cipó. Em 1957, saborearam, juntos, o prazer de ver a azul-e-branco atravessar a passarela levando no gogó o belo "lençol" (samba descritivo e longo) que fizeram para o enredo "Legados de D. João VI", gravado naquele mesmo ano pela Sinter em "A Vitoriosa Escola de Samba Portela", um pioneiro elepê da escola.
Ainda com Candeia e mais Casquinha, Casemiro, Arlindo, Jorge do Violão e Davi do Pandeiro, formou, em princípios dos anos 60, o grupo Mensageiros do Samba, em momento político de revitalização do chamado samba de raiz, inspirado pelo Centro Popular de Cultura da UNE. Uma bolacha da Philips foi a única dessa experiência conjunta a girar no prato da vitrola de então, o que, infelizmente, não sucederia em outra formação, de 1966, o Trio ABC (foto acima), da mesma Portela, em que Picolino teve como parceiros de canto, composição e ritmo Noca (recém-chegado da Paraíso do Tuiuti e levado por Paulinho da Viola à nova escola) e Colombo (peixeiro, guarda portuário, cantor de gafieira, técnico em Comunicação - cursou o Centro Unificado Profissional, atual UniverCidade - e auditor fiscal do INSS). Se não chegou ao vinil, o trio teve acesso a programas de grande audiência da nossa tevê, como os de Chacrinha e Flávio Cavalcanti, além de ter realizado shows por todo o país. Em 1967, em festival de músicas de carnaval promovido pela Secretaria de Turismo da então Guanabara e pelo Museu da Imagem e do Som, presidido por Ricardo Cravo Albin, em associação com a TV Excelsior, Picolino, Noca e Colombo obtiveram, na final do Maracanãzinho, a quinta colocação com "Portela Querida" ("Minha Portela querida/és razão da minha própria vida..."). Um samba que ganharia projeção na mídia com a gravação, em compacto simples da Odeon, por sua intérprete no certame, Elza Soares, laureada com o troféu Carmen Miranda, entregue por Aurora Miranda. O coração da cidade, mais uma vez, deixava-se levar pelo rio de beleza musical da Portela, para o qual o afluente Picolino, com suas águas autorais, muito concorreu. Uma saudade que ficou a mais (como ele mesmo cantou em música de Erivaldo Santos e Valentim) e se fixou no firmamento do samba, tornando-se uma outra estrela de Madureira que não se apaga.
Um bom dia a todos. Muito grato pela atenção.
Um abraço,
Gerdal
Pós-escrito: a) dedico estas linhas à memória de Picolino e a Eliana Pittman, pela brilhante gravação de "Lenços Brancos", infelizmente não disponível no YouTube;
b) nos "links" seguintes, com exceção do último, músicas de Picolino: 1) "Lenços Brancos", com coro de pastoras, em gravação antiga, de 1962, do elepê "Samba no Chão", reunindo compositores da Portela e do Império Serrano; 2) "Tô Chegando, Já Cheguei" (em parceria com Caipira), na voz de Eliana Pittman; 3) "Secretário da Escola" (primeira parte de Picolino e segunda de Monarco), em gravação recente do paulistano Tuco e seu Batalhão de Sambistas; 4) "Foi Ela", de Candeia, faixa do disco gravado pelos Mensageiros do Samba.
http://www.youtube.com/watch?v=7vLApkNVb8E ("Lenços Brancos")
http://www.youtube.com/watch?v=PHlR5KLBZxE ("Tô Chegando, Já Cheguei")
http://www.youtube.com/watch?v=SzfRH-HaY1I ("Secretário da Escola")
http://www.youtube.com/watch?v=ZDMydQ8R6Lc&feature=related ("Foi Ela")
20.1.12
Walter Levita: um discreto campeão do carnaval, o cantor de "Índio Quer Apito"


O carnaval já se avizinha, e um de seus campeões nasceu, em 1920, na mesma Ilhéus do escritor Adonias Filho: o cantor e compositor Walter Levita (fotos acima). Lá mesmo, ainda diletante na canção popular e já conhecido como seresteiro, foi chamado, certa vez, para abrir um show de Sílvio Caldas, o que resultou em atuação desastrada: esquecendo-se da segunda parte da valsa "Balalaica", do repertório de Orlando Silva, "encheu linguiça", por cinco vezes, na primeira parte, sendo retirado de cena. No entanto, perseverante e, de fato, bem dotado de expressão vocal, faria, um pouco mais adiante, em 1948, a sua estreia profissional como cantor, em Recife, na Rádio Clube, e, ainda pouco depois, dirigindo-se a Salvador, trabalhou em rádio e na noite local de 1949 a 1955. De outra feita, numa boate soteropolitana, ao perceber a presença na pista do baixinho todo-poderoso Assis Chateaubriand dançando com uma loira francesa alta e formosa, mandou ao microfone o "vou chamar o Dr. Assis/meu patrão sabe o que diz.." (de "Vamos Xaxear", de Gonzagão e Geraldo Nascimento e que Gonzagão gravara) para mexer com o empresário, o qual, apreciando bastante o cantor, convidou-o para trabalhar na Tupi, emissora dos seus Diários Associados, e na Mayrink Veiga, com a qual a primeira tinha um convênio nesses antanhos da radiofonia carioca. Como o pagamento era minguado, Walter Levita, recém-chegado e ainda um "quem" sem a fama que a folia lhe traria alguns anos depois, passou a frequentar o ponto dos músicos, em frente ao Teatro Carlos Gomes. Nesse reduto do Centro da Velhacap, ao encontrar o amigo René Bittencourt, carioca de Paquetá, manifestou-lhe sua disposição para trabalho extra, participando, dias depois, de uma função musical que o compositor de "Sertaneja" e colunista da Feira de Amostras, na "Revista do Rádio", apresentava em circo armado nas imediações do Morro da Mangueira. Entretando, "mal posicionado" na sequência de atrações, foi saudado, ao mostrar no palco a cara para a plateia, com apupos estrepitosos, porque, pouco antes, para seu azar, uma rumbeira de encher os olhos elevara a temperatura do show, cativando, nos seus requebros e maneiras, os varões presentes. Mesmo assim, com habilidade, René conseguiu serenar os ânimos, contornar a situação e atrair aplausos para o baiano, dizendo ser uma revelação do canto popular que carecia de chances para mostrar a sua arte, prometendo a todos um "final feliz", com o retorno posterior da dançarina-sensação..
Apesar da vendagem regular e significativa dos seus discos na Odeon, em fins dos anos 50, como cantor romântico, ele, como se dizia então, ainda não abrira uma flor na gravadora, ou seja, não fizera um grande sucesso pra chamar de seu. Sentindo que este já estava a caminho, por meio de marchas assinadas pelo craque Haroldo Lobo, que conhecera na Sbacem, conseguiu vencer, sem êxito, contudo, de divulgação e execução, a relutância do diretor artístico da Odeon, Aloysio de Oliveira, que, vendo muito siso e nenhum riso na figura de Levita, considerava-o inadequado como intérprete para a folia. Como as aparências enganam, o erro de avaliação do ex-integrante do Bando da Lua viria, com Levita na Continental, amplificado pelo grito retumbante do povo, embalado, no passo momesco, pela euforia trazida por "A Maria Tá" (Haroldo Lobo e Mílton de Oliveira), em 1960, e, no carnaval seguinte, "Índio Quer Apito" (Haroldo Lobo e Mílton de OIliveira). Da escadaria da Biblioteca Nacional, emocionado, o cantor pôde ver, por dois anos consecutivos, a multidão, na Cinelândia, mesmo na chuva, cantando, a plenos pulmões, essas marchas. A letra na epígrafe diz respeito a outra de Haroldo Lobo (novamente com o habitual parceiro e caititu Milton), "Metade Homem, Metade Mulher", de 1963, gravada pelo discreto Walter Levita, infelizmente falecido, em setembro de 2010, aos 90 anos, em casa, em consequência de uma queda. Morava em Brasília, onde foi enterrado, no Cemitério Campo da Esperança, após passar longos anos de conforto, já distante havia muito do meio artístico, domiciliado numa casa grande em Itapoã.
Um bom feriado a todos. Muito grato pela atenção.
Um abraço,
Gerdal
Pós-escrito: nos "links" seguintes, 1) Walter Levita canta a marcha "Adão Ficou Tantã", de Antônio Almeida, feita para o carnaval de 1969; 2) canta o belo samba "Até Você Chorou", de 1957, composto por Haroldo Lobo e Raul Sampaio, em "slide-show" com várias imagens deste último, cantor e compositor capixaba, ex-Trio de Ouro e primo do finado Sérgio Sampaio; 3) "Índio Quer Apito", com o balanço alatinado da Orquestra Mocambo; 4) como curiosidade, pela citação feita acima, "Balalaica", de Georges Moran e Armando Fernandes, em gravação de Orlando Silva datada de 1938.
http://www.youtube.com/watch?v=u8Rmf39GeVc ("Adão Ficou Tantã")
http://www.youtube.com/watch?v=2FgbBhwZauU ("Até Você Chorou")
http://www.youtube.com/watch?v=VKUinyUR_bQ ("Índio Quer Apito")
http://www.youtube.com/watch?v=gzQ6UjMbkYE ("Balalaica")
4.10.11
Fafá Lemos: samba com pizzicato, temperado na bossa, em saborosa receita de violino popular




"Fui convidado para ir a um samba/lá no Morro do Arrelia/me apresentaram ao dono da casa/era um tal de Malaquia/ele me disse: "em sua homenagem,/já mandei preparar um prato"/eu fiquei indignado quando me disseram que comi carne de gato/
Eu não gostei do papel do Malaquia/bem que eu desconfiei com tanta carne que havia/malandro não dá mancada/eu vou pôr as minhas mãos à obra/vou convidá-lo para uma peixada/mas vai ser de carne de cobra/ (no breque) surucucu, cascavel"
Nos discos de Rafael Lemos Jr., o saudoso Fafá Lemos (foto acima), ele, em uma ou outra faixa, embalado por um violino travesso, mandava uma letra chistosa - como a do ótimo samba "Carne de Gato", dos versos acima -, cantando macio, com bossa e com classe. Antes, romântico, pela Musidisc, também cantara no aveludado original de "Duas Contas", do genial Garoto (com raríssima letra deste), com o qual e mais o gaúcho Romeu Seibel, o Chiquinho do Acordeom, formaria um conjunto, o Trio Surdina (foto acima), identificado, em 1952, com uma nova vestimenta harmônica para a canção popular, de alinhavo jazzístico, e surgido, no programa "Música em Surdina", no fim de noite da Rádio Nacional, por iniciativa do diretor artístico da emissora, Paulo Tapajós. Se alegre e buliçoso no sincopado, seu arco e flexa, em contraste, também emitia a nota plangente, melancólica, como na belíssima gravação da valsa "Tudo Cabe num Beijo", em seu derradeiro elepê, de 1989, pelo Estúdio Eldorado, produzido por Zuza Homem de Mello e feito em duo com outra saudade, esta em forma de piano, a também carioca Carolina Cardoso de Menezes, autora da melodia lembrada. Um disco primoroso, de feitura inspirada em jantar oferecido por Carolina em seu apartamento no Rio a jornalistas especializados (como já escreveu um dos presentes, também saudoso, Aramis Millarch), no qual o versátil Fafá talvez se aproximasse mais em si, retrospectivamente, daquela criança de formação erudita que, aos nove anos, tocaria Vivaldi acompanhado de orquestra no Teatro Municipal e, mais adiante, do rapaz que, aos dezenove, integraria, por curto período, a Orquestra Sinfônica Brasileira
Diferentemente do violão e da flauta, com suas figuras de proa, o violino, antes de Fafá, era aqui um instrumento de tope erudito e sem lastro solista no sentimento popular aflorado em canção. Poucos no ramo, além dele - como Tobias Troisi, Eduardo Patané e Irany Pinto -, nos anos 50, por exemplo, quando também se apresentou com Carmen Miranda nos EUA, destacaram-se no disco por um trabalho próprio a tocar (n)o coração do cidadão comum, distanciado de salas de concerto e fruições camerísticas. Ainda naquela década, Fafá seria diretor artístico da RCA Victor e dono de uma boate na Rua Rodolfo Dantas, em Copacabana - "um buraco na parede", como ironizava, à maneira norte-americana, de tão pequena -, até, a partir de 1961, domiciliar-se por muitos anos nos EUA, o que já fazia o amigo guitarrista Laurindo de Almeida, com quem, por sinal, ainda no comecinho dos anos 50, lá estivera a trabalho. Em 18 de outubro de 2004, praticamente em surdina, sem que se lhe destinasse relevo, ainda que póstumo, na imprensa, silenciavam de vez aquele vibrato e aquele pizzicato tão particularmente utilizados por ele em tempo de samba e hoje referências de estilo dos excelentes Nicolas Krassik - que gravou em seu primeiro CD o choro "Fafá em Hollywood", de Fafá - e Ricardo Herz, violinistas também devotados a uma expressão popular e marcante do instrumento. No último 19 de fevereiro, esse nosso Grappelli tropical teria completado 90 anos.
***
Pós-escrito: 1) nos "links" seguintes, Fafá canta outro samba chistoso, "Saturado", da autoria de Berico e Franco Ferreira; 2) toca "Cigano no Baião", de Garoto, gravado em 1952; 3) toca, com Luiz Bonfá, "A Voz do Morro", de Zé Kéti; 4) canta mais um samba engraçado, "Time Perna de Pau", de Vicente Amar, gravado em 1956; 5) toca "Chão de Estrelas", de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa; 6) toca e canta "Duas Contas", de Garoto, na cultuada gravação do Trio Surdina; 7) exercita-se em bolero famoso, dos anos 40, "Acércate Más";
2) ainda acima, duas fotos de capas da discografia de Fafá: a do elepê "Bonfafá", gravado em 1958 com Luiz Bonfá, e a do já citado com Carolina Cardoso de Menezes.
http://www.youtube.com/watch?v=yg1d4FiMjpU&feature=related ("Saturado")
http://www.youtube.com/watch?v=efwuv5-uKs0 ("Cigano no Baião")
http://www.youtube.com/watch?v=yNiPVfwqa5g&feature=related ("A Voz do Morro")
http://www.youtube.com/watch?v=gQhUp9ifb3U&feature=related ("Time Perna de Pau")
http://www.youtube.com/watch?v=N6jkHNau3IA ("Chão de Estrelas")
http://www.youtube.com/watch?v=N6jkHNau3IA ("Duas Contas")
http://www.youtube.com/watch?v=vj_extxsxIw&feature=related ("Acércate Más")
27.9.11
Maurício Tapajós: um compositor de fibra em meio a querelas de um Brasil ainda desconhecido do Brazil



"Tapir, jabuti/iliana, alamanda, ali, alaúde/piau, ururau, aki ataúde/piá-carioca, porecramecrã/jobim-akarore, jobim-açu..."
Prezados amigos,
E o Brazil ainda não conhece o Brasil. Persistem, em sua extensão continental, as querelas daquele com "s", tão bem cantadas por Elis Regina e pelo Quarteto em Cy, em relação à ocupação senhorial daquele com "z", imponente e influente, com nítido reflexo na comunicação de massa. O tal do colonialismo cultural que, em 1978, em plena vigência da ditadura militar, motivava em letra de Aldir Blanc, recheada de expressões do tupi-guarani (acima) e sugestivos neologismos, um sinal de alerta sobre a autenticidade cultural do país ao mostrar-se com a cara no espelho. Na parceria do protesto, o hoje um tanto esquecido Maurício Tapajós (foto acima), também violonista e produtor, cedo desaparecido das lides da MPB ao falecer, em 21 de abril de 1995, onde morava, em Ipanema, aos 51 anos, por contratempo cardíaco.
Carioca de Botafogo e formado em arquitetura, Maurício, tendo a família que teve - filho do cantor e radialista Paulo Tapajós, irmão do letrista e também arquiteto Paulinho Tapajós e da cantora Dorinha Tapajós, também precocemente falecida, em 1988, aos 38 anos - não poderia esquivar-se do seu DNA artístico, constituindo uma obra musical sólida e de sucesso com parceiros variados. Entre eles e entre outras (composições), Paulo César Pinheiro, no incisivo "Pesadelo" - marco da luta, nos anos 70, pela liberdade de expressão no país -, gravado pelo MPB4; Hermínio Bello de Carvalho (foto acima), no nostálgico "Mudando de Conversa", de balanço cativante na voz de Doris Monteiro; João Nogueira, na ode boêmia "Dama da Noite", que, além deste, o próprio Maurício mandou bem no autoral "Olha Aí", que fez pelo selo independente Saci, que criou, "falando de cadeira" da própria inspiração, em todas as faixas, como na de abertura do elepê, um samba vibrante e bem sacado na parceria com Cacaso (foto abaixo - aliás, o primeiro letrista que teve em música gravada: "Carro de Boi", em 1965, pelo conjunto Os Cariocas. Obstinado combatente pela correção da distribuição de direitos autorais, foi fundador e presidente da Amar (Associação dos Músicos, Arranjadores e Regentes). Um cara de fibra.
Um bom dia a todos. Grato pela atenção a esta singela lembrança desse grande compositor.
Um abraço,
Gerdal
Pós-escrito: nos "links" seguintes, composições de Maurício Tapajós: 1) "De Palavra em Palavra" (com Paulo César Pinheiro e Miltinho do MPB4), na interpretação do MPB4; 2) "Querelas do Brasil" (com Aldir Blanc), no doce uníssono do Quarteto em Cy, em faixa-título de elepê lançado em 1978; 3) "Dama da Noite" (com João Nogueira), em registro de João Nogueira; 4) "Mudando de Conversa" (com Hermínio Bello de Carvalho), cantado por Doris Monteiro; 5) "Pesadelo" (com Paulo César Pinheiro), também pelo MPB4; 6) "Tô Voltando" (com Paulo César Pinheiro), também chamado de "o hino da anistia", no recado altissonante da gonçalense Selma Reis.
http://www.youtube.com/watch?v=8hT7yTUngh4 ("De Palavra em Palavra")
http://www.youtube.com/watch?v=n-E2anjGXb8 ("Querelas do Brasil")
http://www.youtube.com/watch?v=qff2xfqr77o&feature=related ("Dama da Noite")
http://www.youtube.com/watch?v=bfSvkTOi6vQ ("Mudando de Conversa")
http://www.youtube.com/watch?v=y0xRfgeJLNo ("Pesadelo")
http://www.youtube.com/watch?v=vBj7BV-C3fU ("Tô Voltando")
(NR: Na terceira foto acima, Maurício Tapajós aparece ao lado de Cacaso)
25.9.11
Ary do Cavaco pede passagem à eternidade e levanta a poeira no tempo, com a Portela, em samba magistral


"Abre a janela, formosa mulher/cantava o poeta trovador/abre a janela, formosa mulher/da velha Lapa que passou...."
Prezados amigos,
"Ué, você me conhece!", costumava surpreender-se Ary Alves de Souza, o Ary do Cavaco (foto acima), quando, por causa da sua música, algum popular o saudava. Eu mesmo, há vários anos, ouvi dele tal exclamação no primeiro de vários encontros casuais que tivemos, mormente em ruas do Centro - por vezes com o sui-generis Efson, outro bom compositor de samba, a acompanhá-lo -, ficando-me a impressão de um cidadão simples, bem intencionado, que exercia o seu ofício, sobretudo, por prazer e vocação, sem se deixar levar pela febre do sucesso a qualquer preço. Criado em Coelho da Rocha, distrito de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, Ary do Cavaco, engraxate na infância - para ajudar a mãe, viúva - e torneiro mecânico na adultidade, faleceu na última quinta-feira, 22 de setembro, aos 69 anos, dormindo em sua casa, em Quintino, subúrbio carioca, após ter passado a noite anterior no River Futebol Clube, em Piedade, onde se mantinha no páreo pela disputa do hino portelense para o carnaval de 2012. Já morando em Madureira, ingressou na Portela em 1962, a convite de Natal, que gostava dos sambas que Ary fazia. Deste, por sinal, em consonância com a impressão favorável do então patrono da escola, atestados de competência viriam a público, com a gravação de "Chico Lambança" e "Batido na Palma da Mão" (ambas em parceria com Otacílio da Mangueira - foto acima), por Elizeth Cardoso, no elepê "Feito em Casa", de 1974, além de, antes disso, dois sambas-enredo vitoriosos na gloriosa azul-e-branco: "As Treze Naus", de 1969, com Rubens Alves de Souza, e, ainda na parceria com o irmão, o magistral "Lapa em Três Tempos" (dos versos supradestacados), de 1971, com letra de cabeça inpirada em "Abre a Janela", samba clássico composto por Roberto Roberti e Arlindo Marques Jr.e gravado por Orlando Silva para a folia de 1938.
Admitido há dias na Velha Guarda Show da Portela, o passamento de Ary do Cavaco o impede de desfrutar desse sonho há muito acalentado, assim como, que eu saiba, o de realizar um CD próprio, revivendo os seus sucessos e cantando inéditas da sua autoria. Era uma figura sempre presente na boa programação do chamado samba de raiz no Rio, como a Terapia Popular, comandada pelo também compositor Roberto Serrão no Severyna, às quintas, na qual foi homenageado em 28 de julho último. Com outros sambas-enredo de Ary, posteriores aos mencionados, a Portela atravessaria a Marquês de Sapucaí na história do carnaval, porém seriam especialmente marcantes, na lembrança da massa, sucessos de meio de ano com intérpretes diversos, enumerados nos "links" abaixo. "Poeira, ô poeira/o samba vai levantar poeira..." E, na poeira do tempo, com samba bem levantado em avenida engalanada, ingressa Ary do Cavaco sem, no entanto, se perder no insconsciente coletivo de nós, os foliões, como um criador de lastro e merecimento. Volta e meia será lembrado.
Um bom domingo a todos. Muito grato pela atenção.
Um abraço,
Gerdal
Pós-escrito: nos dois primeiros "links" seguintes, "Lapa em Três Tempos", no inesquecível registro de Paulinho da Viola e na voz de Ary do Cavaco (acompanhado pelo conjunto paulistano Inimigos do Batente), respectivamente; 3) "Mordomia", de Ary com Gracinha, um sucesso do gutural Almir Guineto; 4) outra bola dentro de Ary, desta vez com o Exporta Samba, "Reunião de Bacana", participante do MPB Shell, festival levado ao ar pela TV Globo em 1980; 5) "Malandro Rife", de Ary do Cavaco e Otacílio da Mangueira, com Bezerra da Silva; 6) o partideiro Roque do Plá metendo bronca em "Nó na Cana", de Ary com César Augusto, música do VII FIC, da TV Globo, em 1972; 7) "Na Beira do Mangue", outra de Ary com Otacílio, em gravação de Jair Rodrigues feita em 1976; 8) "O Saudoso", só do Ary, com o também saudoso Mussum, humorista proveniente do grupo Originais do Samba.
http://www.youtube.com/watch?v=AIOSAzJfq70 ("Lapa em Três Tempos")
http://www.youtube.com/watch?v=EPkO94V3c44 ("Lapa em Três Tempos")
http://www.youtube.com/watch?v=acq7bOLsg1I ("Mordomia")
http://www.youtube.com/watch?v=Wa6JW3XseBc ("Reunião de Bacana")
http://www.youtube.com/watch?v=6AUEMs-u21I ("Malandro Rife")
http://www.youtube.com/watch?v=_kxx44woKjc ("Nó na Cana")
https://mail.google.com/mail/?shva=1#inbox/1329df0022be0e9f ("Na Beira do Mangue")
http://www.youtube.com/watch?v=8Siv2lKE4CY ("O Saudoso")
Assinar:
Postagens (Atom)















