
Num lamento anterior - quase croniqueta - eu mostrava minha tristeza ao saber que a lojinha que revelava filmes aqui na minha rua estava se transformando (a obra ainda não terminou) numa casa de sucos. Mas o negócio não parou aí, agora se trata de remoção de pessoa, logo em seguida fiquei sabendo que o senhor H. tinha vendido sua lanchonete - que continuou no ramo de lanches. Bem que eu já tinha percebido algumas alterações no panorama do estabelecimento, além da ausência do dono e a troca de uns funcionários que atendiam no balcão - a presença de uns bancos modernos deu na vista. Os fregueses, agora não precisam mais tomar o seu suco, ou cervejinha em pé. Apesar de conhecer o sr. H há mais de 30 anos, eu não era propriamente amigo dele, mas sempre trocava uma palavrinha com sua figura pitoresca, quando lá tomava meu café com leite e mastigava meu pão na chapa mergulhado na manteiga de latão. O sr. H tinha uma característica que era engraçada, sempre me oferecia um bolinho de bacalhau que acabara de sair da panela e não gostava de trocar dinheiro.
- Sr. H, podia me trocar esses 20 reais em duas de 10? Ele respondia:- Não mô filho, não tenho troco. Mas se você chegava lá e pedia duas balas de coco, ele trocava. Deixa pra lá, cada um com suas implicâncias! Mas, a gente sempre dava um desconto para ele que era uma espécie de patrimônio do bairro, boa gente, sempre sorrindo...E a modernidade continuou com seu rolo compressor a liquidar a tradição do bairro do meu coração, botando abaixo também a lojinha de doces - parada obrigatória, quando minha filha era uma garotinha-formiga e me obrigava a deixar alguns trocados lá, enquanto saboreava um brigadeiro, um quindim ou um "olho de sogra". Sinceramente não sei o que vai ficar no seu lugar, nem sei se é reforma, ou mudou de ramo. De repente estou aqui a dizer asneiras. Outra loja que também está em obras, é uma que vendia todo tipo de doces industrializados - pelo que vi no meio da poeira, não sobrou nem Cosme nem Damião. Também não sei se é reforma, dificilmente é.
Eu devia ter percebido os sinais da mudança quando uma padaria e um bar viraram bancos , faz uns dois anos, e aí a coisa parou. Mas agora o reboliço veio para valer e o comércio do bairro muda sua feição, o que quer dizer que sua memória vai para o brejo. Desculpe a nostalgia, é que acredito que esse pequeno comércio e mesmo pessoas que desaparecem, também estão na esfera da cultura - criam uma uma certa identidade, que vai sendo transformada por novidades que não sei se a outra face é, digamos, uma certa decadência. Nós que não temos lá muita tradição...Por outro lado, ao encarar esse movimento como uma perda, pode significar que estamos ficando velhos e que o negócio é ir para a frente, que atrás vem gente. Isso não impede de eu continuar achando que quando fecha uma lojinha, em qualquer lugar do mundo, a humanidade perde algo significativo se não se der conta. Isso dá um pano pra manga!


