Mostrando postagens com marcador Reportagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reportagem. Mostrar todas as postagens

4.10.18

Dica do Gerdal: Palavras e músicas de Baden Powell

(Foto: João Poppe)
"No estrangeiro, não dá pra ganhar grana. As telefônicas capam tudo, e, realmente, acho que saudade não tem preço. E ouvir a pessoa é muito importante. Lembra quando a gente falou uma hora e meia de Paris para a sua casa? É verdade, neguinho. O telefone é um esporte muito mais caro que uísque. Mas só faz bem ao coração. Ouvir os amigos quando bate uma fossa ...
Em Paris, pintou um francês parado na nossa música, o Pierre Barouh. Bonitão e influente em certas áreas femininas, pôs-me em contato com madame Barclay, que disputava uma gravadora com seu marido, Eddie Barclay. Os dois me queriam, e fiquei na de leilão. O fato é que acabei indo aonde alguns acabam: o Olympia. Falavam-me da sua importância, mas a minha grande preocupação era matar a fome, que já era preta. E, com um fogareiro no quarto para ajeitar um rango, pintou uma feia. Na véspera da estreia, a água muito quente de dois ovos cozidos caiu em minhas mãos. E, com uma delas enfaixada, estreei. Oito cortinas, oito vezes bis. Bem, aí tudo fica mais fácil. Contratos pra lá, pra cá, contratos para tocar na boate Feijoada. Nela, fiquei dois anos! Era o meu ponto de encontro, de contatos e de contratos. Bilboquet, Salle Pleyel, eu sempre ataquei nessa diferente. Dava concertos e metia samba de montão. O pessoal até hoje curte essa. Então, meus três meses previstos renderam dois anos. Nada antes programado. As coisas vão acontecendo ... Hoje sou muito amigo não só dos empresários, como também do povo. Aprontei muitas por lá. Fiquei famoso ...   A Alemanha foi uma conquista posterior. Lá, caí logo na boca do leão. Berlim e Stuttgart são cidades difíceis. O público é quentíssimo, superinformado musicalmente. Quando eles não gostam de um espetáculo, não tem essa de vaia, não. Eles simplesmente saem da sala. No Philharmonic Hall, acho que é a maior casa de concertos do mundo, eu encarei o público, em 1971. O espetáculo, que teria duração de hora e meia, foi prorrogado - no peito - para três horas e meia. E aquilo me consagrou. Ainda em Berlim, participei do Festival de Jazz. No dia dos guitarristas, lá estavam Barney Kessel, Charlie Byrd, Joe Pass e outros, os maiores do mundo. Aí, foi um "acaba". Não deixei pra ninguém Eu estava louco ...Continuo com bom campo de trabalho, porque toco clássico e popular com relativa desenvoltura. E os homens gostam da nossa música. Só quem não gosta da nossa música são os brasileiros ...
A bossa  nova era algo sólido. Acrescentou à nossa música harmonias ricas. Mas veio essa mania de derrubar estruturas e aí fica perigoso. Não se pode demolir uma casa sem saber onde está a viga mestra. Ela acaba caindo na sua própria cabeça. Isso não invalida artistas isolados, como o Milton Nascimento, que faz o dele e muito bem. Falo num todo, num movimento que a tropicália destruiu  e até hoje não colocou nada no lugar ...
Pesquisa? Certa vez, chamei o Guerra-Peixe para fazer um arranjo para uma "Bourrée" de Bach, transportá-la para um quarteto de cordas. Transcreveu para violão uma parte de guitarra. Ao ler, a parte, Guerra afirmou: "Não conheço a obra, mas esse compasso está errado. Bach jamais escreveria assim esse tipo de acorde. E consertou. Quando fui verificar no original (a parte de violino), o Guerra estava certo. Não há dúvida que ele é um pesquisador de Bach....
Inspiração existe claro, mas eu morro de rir quando alguém explica como faz uma música. Pra mim, música não tem hora, lugar ou explicação. Defendo uma tese meio louca de que ninguém faz música. Elas estão aí no ar, e há quem tenha o dom de captá-las. Comigo a coisa chega pronta. Fico até assustado. Mas creio que a sensibilidade da gente é que rege tudo. Daí você estar numa fossa e compor algo alegre. Ás vezes, ocorre o contrário. Para onde estiver a direção da sensibilidade estará o resultado de uma canção. Uma coisa assim mediúnica ...
Quando me perguntam se eu  mudei de estilo, morro de rir. Tudo que crio é fundamentalmente brasileiro. E se a gente faz o que está no sangue, está fazendo certo. Sai tudo direito ...
Tenho remorso das músicas perdidas entre porres e mudanças. Durante um porre, fiz "Psicose", coisa muito linda. Toda tarde, vou pra varanda, armo a minha arapuca, mas o passarinho nunca mais voltou. Tenho 720 músicas compostas e, acredite, essa está faltando." .     

Pós-escrito: a) acima, transcrição de partes de entrevista concedida por Baden Powell a Ronaldo Bôscoli, letrista bossa-novista e repórter da revista "Manchete" - edição de 3 de março de 1979; b) nos "links" abaixo, a presença autoral de Baden, por ele mesmo (com exceção do último): "Igarapé"; "Violão Vadio" (letra de Paulo César Pinheiro); "Tempo Feliz" (letra de Vinicius de Moraes); "Samba Triste" (letra de Billy Blanco), com Lúcio Alves. A foto de Baden é de João Poppe, feita para a referida matéria.
https://www.youtube.com/watch?v=cDR09xHRofs ("Igarapé")

https://www.youtube.com/watch?v=IBxl0gSa5vU
("Violão Vadio")

 https://www.youtube.com/watch?v=3dFOhMaAwKs ("Tempo Feliz")

 https://www.youtube.com/watch?v=xtcgAKw-OAs ("Samba Triste")




18.3.17

"Tudo errado!" é o livro

Tudo Errado! é um livro interessantíssimo. Narra a experiência do documentarista carioca Raphael Erichsen, que rodou um terço da superfície terrestre num carro "detonado"(comprado no Ebay, junto com outros dois amigos), em 2012, num tumultuado "Rally Mongol" (Que vai de Londres a Ulan Bator - capital da Mongólia).
Um aperitivo para ler o livro que conta essa essa aventura você pode acessar no link: http://www.gazetaonline.com.br/_conteudo/2017/03/noticias/cidades/4032949-uma-coisa-que-aprendi-com-a-experiencia-foi-a-parar-de-tentar-assistir-ao-mundo-atraves-da-cnn.html
Ah! O livro foi lançado ontem (dia 17 de março) no Rio, e não consegui noticiar a tempo porque estava viajando, fora do alcance de computadores.
De qualquer forma, fica aqui o registro desse livro extraordinário, que se encontra nas boas livrarias.
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

27.3.10

Luiz Gonzaga - O eterno Rei do Baião



(Descobertas e texto do meu amigo, o jornalista Jorge Sanglard (*) para o deleite de nossos navegantes)

O “Rei do Baião”, o velho Lua, o Gonzagão, nascido Luiz Gonzaga do Nascimento, em 13 de dezembro de 1912, dia de Santa Luzia, na Fazenda Caiçara, depois Araripe, perto de Exu, no sertão pernambucano, cantou como poucos a alegria e a dor da gente de sua terra. Morto em 2 de agosto de 1989, há 20 anos, o sanfoneiro do povo de Deus, a voz da seca, deixou como legado uma música viva e forte, impregnada de alma, coração e fé. É o que deixa claro o seu legado musical. Sua obra é eterna e, 20 anos após sua morte, permanece como uma força da natureza, um grito de liberdade em nome de um povo que ainda luta por sua cidadania. Mas o que pouca gente conhece é o início da trajetória musical de Luiz Gonzaga em Minas Gerais, mais precisamente em Juiz de Fora, onde serviu o Exército durante cerca de cinco anos a partir de 1932.

Pioneiro da canção de protesto, com “Vozes da Seca”, em parceria de 1953 com Zé Dantas, Luiz Gonzaga simbolizou a voz de quem não tinha nem voz, nem vez. Em «Vozes da Seca» o recado social é direto: “Seu dotô, os nordestinos / Têm muita gratidão / Pelo auxílio dos sulistas / Mais dotô, uma esmola / A um homem qui é são / Ou lhe mata de vergonha / Ou vicia o cidadão”.

A trajetória de Luiz Gonzaga é um símbolo de persistência, obstinação, talento e força criativa popular. Filho do lavrador e sanfoneiro de oito baixos Januário e de Ana Batista de Jesus, a Santana, Gonzagão foi o segundo dos nove filhos do casal. Quatro de seus irmãos também seriam sanfoneiros. Seu pai era respeitado no sertão nordestino como sanfoneiro e consertador de sanfonas e influenciou os filhos. Aos oito anos, Luiz Gonzaga já tocava em festas e mostrava vocação para a música. Aos 17 anos, um namoro frustrado com a jovem Nazarena, filha de um fazendeiro da região, daria início a uma mudança radical na vida do sanfoneiro.

Em 19 de setembro de 1980, em Juiz de Fora, Minas Gerais, antes do esperadíssimo show “A Vida do Viajante”, ao lado do filho adotivo Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (22/09/1945 – 09/04/1991), o saudoso Gonzaguinha, o velho Lua voltava à cidade que mais marcara a sua vida após sair do Nordeste. Ao conceder um histórico depoimento ao Museu da Imagem e do Som de Juiz de Fora, tendo entre os entrevistadores os amigos Santo Lima, músico que acompanhou seu aprendizado no acordeão, e Romeu Rainho, seu empresário no início dos anos 1950, Luiz Gonzaga lançou um feixe de luz sobre um período pouquíssimo conhecido de sua vida.

Em entrevista emocionada, Gonzagão revelaria detalhes de sua saída de Exu, aos 17 anos, seu alistamento militar com a idade adulterada em um ano, poucos meses antes da eclosão da Revolução de 1930, sua vinda para Juiz de Fora, em 1932, onde viveu por cerca de cinco anos e aprimorou sua musicalidade, a ida para o Rio de Janeiro, em 1939, e o início do sucesso como o porta-voz do sertão, o Rei do Baião.

Gonzagão contou no depoimento ao MIS de Juiz de Fora em detalhes os motivos de ter deixado Exu: “Tudo isso que aconteceu comigo foi por causa de uma surra, uma surra bem dada, aquele castigo que, quando é bem aplicado, na hora exata, dá bons resultados. Foi o que aconteceu comigo. Puxador de sanfoninha, oito baixos, ‘pé de bode’, na companhia de meu pai, Januário, herdei essa vocação de tocador de sanfona. Minha mãe, uma mulher de mão aberta, Dona Santana, coração aberto, chegava a tirar dos filhos para matar um pouco a fome dos pobres. Pois bem, me considero o maior herdeiro, o herdeiro mais bem aquinhoado de meus pais, que nada tinham, mas tinham alma, coração e fé. Eu quis casar muito cedo, em 1930, aos 18 anos incompletos, e o pai da moça disse que eu era um tocadorzinho de merda, que eu não tinha futuro nenhum para sustentar a filha de um homem... E eu achei aquilo um desaforo. Moleque ignorante, raçudo, porque o pirão que mamãe fazia nos dava essa condição de ter bom físico, entendi de tirar a vida do homem. Porque negócio de matar gente no sertão foi mais maneiro, agora é que não é mais. Chamei o homem no canto da feira, assim, ele me enrolou na conversa, me tirou de banda, falou com a minha mãe e ela me expulsou dali da feira, fora da hora, porque ela não tinha vendido sequer as cordas que a gente tinha levado para vender e para poder comprar um quilo de carne e mais umas besteirinhas. Mas ela não quis vender nada, demos no pé e, chegando em casa, ela me cobriu no pau. Uma surra da moléstia. Meu pai me bateu pela primeira vez. Ele nunca havia me batido. Minha mãe tinha mão leve, mas meu pai não. Mas ele achou que eu havia me excedido e entrei no pau também pela mão pesada de meu pai”.

Foi a partir dessa surra de mãe e pai que Luiz Gonzaga resolveu sair de casa, em meados de 1930: “E foi aí que eu arribei, com raiva. Ingressei nas Forças Armadas e, para isso, tive que aumentar a idade, menti, porque eu queria me libertar”. Passou pelo Crato e depois por Fortaleza, no Ceará, onde serviu no 23.º Batalhão de Caçadores. A tensão política que precedia a Revolução de 1930 acabou levando Gonzagão e uma parte de seu batalhão para a cidade de Souza, na Paraíba, onde permaneceram por pouco tempo. Com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, Gonzaga foi deslocado com seus companheiros de farda para o interior do Ceará e também para Teresina, no Piauí. Passado o primeiro período alistado, pediu para ser engajado no Exército com destino ao “Sul” e acabou chegando com seu contingente ao Rio de Janeiro em fins de 1931, onde permaneceria internado no Hospital Geral do Exército, durante alguns meses, por ter adoecido.

Em agosto de 1932, Luiz Gonzaga foi destacado para Belo Horizonte, Minas Gerais, para o 12.º RI que, segundo Gonzagão, havia se esfacelado na Revolução de 1930 por ter resistido, leal e fiel ao governo, não se entregando e pagando um preço muito caro. Em novembro de 1932, chegaria a Juiz de Fora sendo destacado como corneteiro do Exército, servindo no 10.º RI. O corneteiro «Bico de Aço», como ficou conhecido, foi engajado e reengajado. Segundo Gonzagão, esse tempo de Exército fez com que se tornasse o mais antigo do grupo, com algumas folgas, e começou a fazer umas farrinhas. Como corneteiro, encantava os namorados com seu toque inusitado do ‘Silêncio’: “Eu estava fazendo da corneta um piston. Eu queria ser artista e danei de florear na corneta, mas eu me dei mal. E, um dia, fui em cana porque toquei bem demais. A disciplina me apanhou e eu tive que tocar o ‘Silêncio’ certo. Porque diziam que era tão bonito o ‘Silêncio’ que eu tocava que os namorados ficavam ali por perto para irem pra casa só depois que eu tocasse. E eu ficava por perto do corneteiro destacado para pedir pra me deixar tocar no lugar dele”.

Foi nesse período que conheceu o violonista e cantor Santo Lima e o sanfoneiro Dominguinhos Ambrósio, que faziam bonitas serenatas e Gonzagão gostava de acompanhá-los: “O Santo Lima cantava e tocava tanto um cavaquinho quanto um banjozinho legal. E a gente ia ali por aquelas ruas que têm aquelas caboclas diferentes, vindas de todas as partes do interior do Estado, vindo por aqui numa vida fácil, fácil, fácil. Muito fácil, mas ninguém queria ir para lá, homem nenhum queria ir lá enfrentar aquela vida fácil. Só queria saber de pegar as caboclas e sair vadiando por aí”.

Foi numa dessas noitadas que Luiz Gonzaga pegou um acordeão, pela primeira vez, das mãos do saudoso Dominguinhos Ambrósio: “Eu do Exército e ele da Polícia Militar, lá da Tapera, do famoso Segundo Batalhão de Minas”. E arremata: “Santo Lima me ensinou a cantar samba, me ensinou até a fazer acorde no violão e no cavaquinho. Eu também andei arriscando por aí, no violãozinho, tocando nas grossas e, na sanfona, procurando as pretas”. Segundo Santo Lima revelou na entrevista, como Gonzagão não tinha nada para fazer à noite acabava carregando o violão para ele no caminho das serenatas. E ainda contou uma história inédita: “O Regimento do Exército ordenou que o Dominguinhos Ambrósio, da PM, ensinasse ao Luiz Gonzaga a escala de 120 baixos e eu fui falar com o Dominguinhos, que reagiu e disse que, por ordem, não ensinaria. Só ensinaria por livre e espontânea vontade e porque gostava demais dele. E assim foi feito”. Mas, uma coisa era certa, Gonzagão já tocava a sanfoninha dele como gente grande e muita gente com os 120 baixos de um acordeão não fazia o que ele criava só com oito baixos.

Em 1937, ainda em Juiz de Fora, já estava pensando em pegar outro caminho: “Minha vida sempre foi andar, meu destino era andar, foi andando, foi amando esse terreno sagrado que me tornei Luiz Gonzaga, mas levei de Juiz de Fora o instrumento e essa vivência musical toda. Em Juiz de Fora, foi onde marquei mais a minha vida, após sair do Nordeste. Eu aprendi alguma coisa com o Santo Lima, com o Elias, músico do 12.º RI, a jazz band do 12.º, conheci o banjista famoso que cantava e sapateava, o Otavinho (Otávio Cataldi do Couto), e também o irmão dele o Mozart (Mozart Cataldi do Couto), que era divino tocando cavaquinho e violão. Conheci ainda o Armênio. E o Dominguinhos me levou a uma rádio para ver como funcionava e até dei uma puxadinha de fole por aí. Mas não havia a intenção de documentar nada naquela época. Acho difícil encontrar algum vestígio desse tempo”.

Com a organização de uma companhia que seria criada dentro do 11.º RI, em São João Del Rei, e, depois de formada, ia para Ouro Fino, no Sul de Minas, Luiz Gonzaga deixou Juiz de Fora. Em 1939, depois de uma década no Exército, daria baixa da caserna e rumaria para o Rio de Janeiro, levando sua sanfona branca de 80 baixos. Sua intenção era aguardar num quartel o navio do Lloyd que seguiria para Recife e depois pretendia voltar para Exu. Mas não foi isso que aconteceu. O atraso do navio fez com que Luiz Gonzaga explorasse a noite da zona boêmia do Mangue, no Rio de Janeiro, onde tocava, pelo dinheiro que pintasse, um repertório distante de suas raízes musicais. Por sugestão de um grupo de estudantes nordestinos, radicados no Rio, passou a tocar “os negocinhos do Nordeste”, isto é, forró, xaxado, maracatu e baião. A partir daí, sua vida começaria a mudar novamente.

Ao apresentar o chamego «Vira e Mexe» no programa de rádio de Ary Barroso conquistou a nota máxima, a nota cinco, e uns trocados, vislumbrando um novo caminho ao tocar as músicas do Nordeste brasileiro, aquelas coisas que ouvia, desde criança, ao lado do pai sanfoneiro Januário. Em março de 1941, Luiz Gonzaga com sua sanfona de 80 baixos substituiria um sanfoneiro na gravação da canção “A viagem do Genésio”, de Genésio Arruda e Januário França, deixando registrado seu batismo de fogo musical. Esta gravação abre o primeiro volume da caixa de três CD. Sua trajetória artística tomaria impulso e, graças a um contrato com a Rádio Tupi e com as gravações de seus primeiros discos de 78 rotações, na RCA, em 11 de março de 1941, Gonzaga dava os primeiros passos concretos para tornar seu nome uma legenda da música popular brasileira de todos os tempos. Segundo o pesquisador José Silas Xavier, as primeiras gravações trazendo Luiz Gonzaga cantando só surgiriam em abril de 1945. Daí pra frente, Gonzagão firmaria sua carreira e conquistaria o país com sua voz e sua sanfona.

De sanfona em punho, Gonzagão percorreu o Brasil inteiro e semeou por este imenso chão seu canto de fé e de esperança. Seu destino foi andar por este país afora e encantar o povo com sua música entranhada nas raízes do Brasil. Os anos 1980 marcaram a retomada do reconhecimento nacional da importância cultural e social do canto de Luiz Gonzaga. A turnê “A Vida do Viajante”, ao lado de Gonzaguinha, resgataria o prestígio de Gonzagão e reafirmaria sua contribuição como mestre da canção popular brasileira.

O produtor Leon Barg, falecido aos 79 anos, no último dia 12 de outubro, no Rio de Janeiro, reeditou em CD pelo selo Revivendo inúmeras preciosidades musicais de Gonzagão. Após uma minuciosa pesquisa, tendo como assistente de produção a filha Lilian Barg, em 2006, Leon lançou um tributo triplo, pela Revivendo, intitulado “Luiz Gonzaga, seu canto, sua sanfona e seus amigos”, numa caixa de CDs em três volumes, que é uma homenagem ao sanfoneiro maior do Brasil e um exemplo do vigor da música de Gonzagão. Barg revelou todo o cuidado em reproduzir faixas históricas extraídas de velhos discos em 78 rpm e de LPs, trazendo 18 canções em cada um dos três CDs e a caixa atesta a importância do mestre Luiz Gonzaga no cenário da música popular brasileira do século XX, além de ser um tributo prestado à preservação da memória musical do Brasil. Constata a força de parceiros como Humberto Teixeira, Zé Dantas e João Silva, entre muitos outros compositores, e ainda revela canções de outros autores, como Walter Santos / Tereza Souza, Dominguinhos / Fausto Nilo, Genésio Arruda / Januário França, Mauro Pires / Messias Garcia, Patativa do Assaré, Rosil Cavalcanti, Onildo Almeida, Raul Sampaio, Luiz Ramalho, Genésio e o “velho” Januário José dos Santos, pai do sanfoneiro.

Entre as raridades reveladas está a gravação de Gonzagão, em 1968, em plena ditadura militar, cantando a emblemática “Prá não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré, que gravara, em 1965, a obra-prima “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, também incluída nesta edição histórica. A apresentação desta caixa da Revivendo foi assinada pelo pesquisador José Silas Xavier, uma referência na música popular brasileira, que narrou inúmeras passagens da trajetória do sanfoneiro maior do Brasil e traçou um perfil do compositor e instrumentista, que se tornaria uma das maiores expressões musicais brasileiras de todos os tempos. O referido depoimento de Gonzagão ao MIS de Juiz de Fora serviu de base para parte do texto elaborado por Silas apresentando os CDs. O teor integral da entrevista foi divulgado em primeira-mão, em julho de 1997, pela revista AZ, editada na época pela Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa).

(*)Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e produtor cultural. Escreve em jornais de Portugal e do Brasil.

3.1.09

Bichos quase de verdade


Lembram da sacada que falava de bichos de pelúcia que imitam os de verdade que encontrei numa loja do Largo do Machado? Pois aqui está a foto de um deles(feita com celular). Enquanto fazíamos a foto, ele respirava, numa boa. Mundo bizarro existe!

7.10.08

Glauber baixou no Municipal na Ordem do Mérito Cultural


Fui convidado para ir assistir a um evento "federal": a entrega da Ordem do Mérito Cultural 2008 - (décima quarta edição do prêmio- este ano, em homenagem a Machado de Assis) No convite estava escrito que o presidente Lula estaria presente. Fiquei animado, mas achei que a coisa ia ser chata, muito "oficial" etc e tal, mas como tenho vontade de ver o nosso presidente de perto, e com o intuito de fazer uma reportagem para agitar o blogue, parti a caráter - com uma belo blazer e uma camisa impecável e uma vistosa gravata (viu Ze). Lá encontrei minha amiga Regina Zappa o que tornou tudo mais interessante.
A imprensa tupiniquim toda presente, orquestra afinada, gente saindo pelo ladrão, e o presidente não veio - o tempo estava ruim e a segurança segurou o homem no solo pois não queria que ele dessse uma de Ulisses Guimarães .
Mas, a festividade foi bacana, mesmo sem a presença do Presidente. A começar pela divertida apresentação de Sérgio Mamberti e Camila Pitanga (muito antenada, com muita graça ajudou no cerimonial que estava meio atrapalhado).
Elza Soares abriu evento e o vozeirão ao cantar a capella o Hino Nacional. Emocionante!
É, a palavra que define o que aconteceu naquele palco hoje é emocionante.
Contribuiu para isso a presença de Mercedes Sosa - um mito que vi no Maracanãzinho faz muito tempo. Ela está com 73 anos, caminha com dificuldade, mas cantou feito uma menina. Cantou Gracias a La Vida (da chilena Violeta Parra) e encantou o Municipal.
Grandes figuras da nossa cultura foram agraciadas hoje. Destaco alguns: Anselmo Duarte (aplaudidíssimo -grande diretor injustiçado do nosso cinema mesmo depois de ter conquistado a Palma de Ouro em Cannes com "O Pagador de Promessas"), o grande ator deste filme e de outros, Leonardo Villar.

E num determinado momento pareceu que o espírito de Glauber Rocha baixou no palco, na voz potente do cantador Bule Bule, na performance de Efigênia Ramos Rolim, uma senhora que faz maravilhas com papel de bala e outras quinquilharias, ela deu uma meia cambalhota no palco toda enfeitada de papel colorido. Aí veio o talentosíssimo e também injustiçado Sergio Ricardo (preciso escrever algo sobre ele num outro dia) que botou definitivamente Deus e o Diabo para dançar alí no meio da cerimônia com seus filhos cantando as músicas que fez para o filme de Glauber. Mas o negócio não parou aí, uma senhora pernambucana de mais de 80 anos, Zabe da Loca,(que morou 25 anos numa gruta) tocou seu pífano com um conjunto todo vestido de branco - surgiram no meio da penumbra e chegaram no meio do palco com uma luz que mais parecia a da caatinga - era Glauber na veia - mais a pintura "Os retirantes" de Portinari (também homenageado na "Ordem do Mérito"- quase que eu vi Zé Lins e Graciliano Ramos alí aplaundindo... E teve( fora do programa) a homenagem à alemã Judith Malina que saltou ao vivo do Living Theatre( que fez com o falecido Julian Beck na década - o "Living"foi fundado em 1947 e incomodou a "dietadura" por aqui nos anos 70- o grupo chegou a ser preso e acho que deportado) para o Municipal Theatre ... inesquecível foi também hip hop que botou pra quebrar na figura cabeluda de Nelson Triunfo - este, com um pessoal da pesada e seu filhinho, um garoto sapeca, dançou e comandou o baticum que espantou a platéia.
Rui Guerra também recebeu o prêmio, assim como o pessoal da bossa-nova - Johnny Alf (que não compareceu - outro injustiçado), Carlos Lyra e da MPB na figura circunspecta de Edu Lobo.Teve também a viola iluminada de Roberto Corrêa que botou pra correr um Trem Caipira do mestre Villas pra neguim nenhum botá defeito.

Agora vou botar o nome dos outros agraciados em ordem alfabética , pois esse texto tá ficando muito longo.
O índio Ailton Krenak, Altemar Dutra (in memoriam), Athos Bulcão (in momoriam), Benedito Ruy Barbosa, Claudia Andujar, Dulcina de Moraes (in memoriam), Emanoel Araujo, Eva Todor, Goiandira do Couto, Gimarães Rosa (in memoriam), Hans Joachim Koellreutter (in memoriam), João Cândido Portinari, Marcantonio Vilaça (in memoriam), Maria Bonomi, Marlene, Milton Hatoum, Orlando Miranda, Otávio Afonso (in memoriam), Paulo Emilio Salles Gomes (in memoriam), Paulo Moura, Pixinguinha (in memoriam), Tatiana Belinky, Teresa Aguiar e Vicente Salles.
Grupos que se destacaram por trabalhos na área da cultura também foram agraciados - são eles: Associação Ashaninka do Rio Amônia - Apiwtxa, Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Trevestis e Transexuais- ABGLT, Associação Brasileira de Imprensa, Associação Comunidade Yuba, Centro Cultural Piollin, Coletivo Nacional de Cultura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Giramundo Teatro de Bonecos, Instituto Baccarelli, Mestres da Guitarrada, Música no Museu e Quasar Cia de Dança.
Espero ansiosamente o convite para o o prêmio de 2009.