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6.9.10

Micro teatro : "Tempo"



Um homem e uma mulher olham algo no horizonte - estão de frente para o público, o que quer dizer que o horizonte está além da última fileira de cadeiras do teatro

Homem - vai passar...

Mulher
- eu vejo, está passando...

Homem - passa...

Mulher- passou...

Homem- passado.

Mulher
- Estou passada!

Homem- Isso passa...

Mulher- Vai passar...

Homem
- eu vejo, está passando...

As luzes são repentinamente apagadas

Silêncio

3.9.10

Micro Teatro : "Dor"



Uma mulher e um homem no palco - luz sobre eles, o resto é penumbra

Mulher
-(Está deitada, com o corpo encolhido em posição fetal com a frente do corpo virada para a platéia . Ela demonstra sentir dor) (Murmura uns ais e fala com dor: - Como chegamos até aqui

Homem - Pagando micos, ora!

Mulher- Eu cheguei com muita dor...Ai ....(ela se contorce)

Homem
- Sim, com muita dor... (ele parece não se importar com a dor dela)

Mulher
- Faça alguma coisa, estou sofrendo/ Grita: Aíiiiiiiiii!!!!! (aperta o ventre)

Homem- A dor faz parte do viver. Parirás com dor já disse alguém (aponta para cima)

Mulher
- Você não sente a minha dor, é incapaz de senti-la - (continua a gritar e se contorcer)

Homem-( se dirige ao diretor na platéia) Olhe, não quero dar pitaco nessa peça, mas se ela continuar com essa pantomina o público vai desistir do espetáculo. É muito ruim ficar assistindo dor dos outros

Diretor
- Experimente ajudá-la!

Mulher
- Sim, sim, não fique aí teorizando sobre a dor, me ajude que eu não estou aguentando...Aiiiii! (Continua a se contorcer e apertar o ventre)

Homem
- Vamos por partes: Dói aonde?

Mulher
- Meu ventre, parece que vai se romper, sinto agulhadas ---- Meu Deus, acho que vou desmaiar, que dor!!!!!

Homem
- A senhora comeu alguma coisa estragada?

Mulher
- Não sei, não sei, me ajude...

Homem
- (Enfim tocando a testa da mulher) A senhora está suada, e seu corpo parece frio, que estranho!

Mulher
- (sempre falando com a fala atravessada pela dor) : Isso me anima muito, o senhor é muito gentil...Que dor do cão!....

Homem
- A senhora por acaso está com alguma doença grave, um câncer, por exemplo?

Mulher
- Como se atreve a me perguntar uma coisa dessas? Estou com dor, só isso....(continua a se contorcer e gemer)

Homem
- Confesso que estou incomodado com seu estado, minha senhora, mas sinto que nada posso fazer diante de seu caso. Acho que devo procurar ajuda...Quem sabe encontro um médico!?

Mulher
- Não, não me deixe só...por pior que seja sua companhia....AAiiiii!!!!! Maldita dor, por que não passa? .....

Homem- Se eu fizesse uma massagem no seu ventre?

Mulher- Não, não me toque, dói demais! Aiiiii.....

Homem- Estou começando a ficar desesperado, não sei como ajudá-la, sinto muito...

Mulher
- Segure a minha mão.

Homem
- Só isso?

Mulher
- Sim...sim...(seus gemindos vão diminuindo - ela parece se acalmar)

Homem
- Vai passar, vai passar...

Mulher
( depois de algum tempo - se levanta) Passou, a dor passou!!!!

Homem- (Enquanto ela exulta, ele cai de joelhos e depois se deita, e começa a gemer, apertando o ventre)

-Aiii, que dor!!!! A senhora me contaminou!!! Faça alguma coisa, estou sofrendo! (Grita: Aíiiiiiiiii!!!!! (aperta o ventre)

Mulher- A dor faz parte do viver...A mim coube parir com dor...

Homem- Você não sente a minha dor, é incapaz de senti-la - (continua a gritar e se contorcer)

Mulher- Agora o senhor está me copiando! ( se dirige ao diretor na platéia) Olhe, não quero dar pitaco nessa peça, mas se ele continuar com essa pantomina o público vai desistir do espetáculo. É muito ruim ficar assistindo dor dos outros

Diretor
- Você tem razão. Como é difícil assistir a dor dos outros, mesmo não sentindo a dor que eles sentem...A dor dos outros incomoda...

Homem- Não fiquem aí teorizando sobre a dor, me ajudem que eu não estou aguentando...Aiiiii! (Continua a se contorcer e apertar o ventre)

Mulher e Diretor- Sentimos muito, somos solidários com sua dor...Poderíamos ficar aqui citando lugares comuns, falas estereotipadas para mostrar o quanto nos importamos com você , mas combinamos de jantar esta noite - você sabe como é , tome um analgésico, faça ioga, procure respirar...isso passa!

(Fecha o pano)

27.8.10

Micro Teatro: Sexo


Uma mulher e um homem no palco - luz sobre eles, o resto é penumbra

Mulher - Como chegamos até aqui?

Homem - Pagando impostos, ora! Pelo menos é o que me parece.

Mulher- (Senta numa cadeira e liga um aparelho de TV) .
(Uma luz sai do aparelho, mas nenhum som).

Homem- Sabe que eu também gosto de ver, sou louco por imagens. Gostaria de ver seu sexo!

Mulher- ( levanta da cadeira onde havia se sentado)- Não costumo exibir minha genitália assim sem mais nem menos - nem que me pagassem.

Homem
- Nem que pagassem bem? Sua noção de moral por acaso não tem um preço? Um precinho?

Mulher- Não tem preço. Não está à venda. Que gosto teria o senhor em examinar meu sexo? Isso o excita?

Homem
- Sim, me excito. A visão do seu sexo me daria um imenso prazer.

Mulher- Quer dizer que o senhor se satisfaz só em olhar?

Homem- Não, gosto de tocar também, gosto de cheirar, de beijar...de...

Mulher
- Não precisa continuar eu compreendo o quer chegar.

Homem
- A senhora não tem desejos?

Mulher- Tenho, mas gosto da atmosfera romântica, tenho prazer no clima da sedução , tenho fantasias e depois têm que ter simpatia também, sem falar na paixão pelo homem que vai ver meu sexo e me tocar...

Homem- É essa nossa diferença, eu sou objetivo e a senhora subjetiva., cheia de intermediações entre o desejo e o ato...Assim como as outras mulheres e os outros homens,,,nos encontramos em momentos que não conseguimos explicar, nos enganamos quando pensamos que nos amamos... Os homens penetram as mulheres que se deixam penetrar numa atmosfera que os leva a tentar se fundir e o gozo é um momento tão fugaz...Isso tudo é muito estranho...Nem sei como a espécie conseguiu se reproduzir?

Mulher- É na tentativa de superar esse estranhamento que surge algo que nenhum de nós está preparado para enfrentar.

Homem- O que, o amor? O que a leva a pensar que é o amor que surgirá de fato de eu a desejar? Do fato de eu a possuir? Ou melhor, o que a faz supor que o amor é que me faz escolher você?

Mulher
- É uma aposta. Se isso de fato existisse. Ás vezes penso que o estranhamento está em nós, conosco mesmo. Nós não nos entendemos nesse mundo.

Homem- O que a leva a pensar assim?

Mulher
- Foi uma coisa que veio à minha cabeça. Uma imagem, uma pose. Existem autores que gostam de climas assim, e creio que o autor desse texto tem essa filiação...

Homem- Quer dizer que ele acha o mundo um lugar estranho onde estranhos os seres que o habitam tentam tornar mais estranho ainda?

Mulher
- Isso, dizem que faz o maior sucesso. Dizer as coisas pela metade. É arte autoral, além do moderno, é uma sacada de que somos seres solitários e únicos. Somos aparentemente da mesma espécie, mas não nos entenderemos nunca, temos um mistério que nunca revelamos e não entendemos. Não entendemos o que estamos fazendo aqui neste mundo...essas coisas.

Homem
- Entendo! Quer dizer não entendo!... Uma vez uma mulher me revelou que aquele homem com o qual ela estava casada há 15 anos se transformara num ser totalmente estranho para ela. Que paradoxo! Quanto mais ela o conheceu, mais o estranhou...estava vivendo o fim da relação...

Mulher- E o senhor, o que disse?

Homem- Nada, fiquei com pena dele. E dela também...

Mulher- Viu? É isso, é esse sentimento de estranhamento que o autor quer trazer para o primeiro plano!

Homem- Continuo gostando de imagens. Quanto custa a visão do seu sexo?

Mulher- Já disse que não mostrarei nada. Pense bem, é uma idéia muito mais excitante o senhor imaginar meu sexo. Use sua imaginação!

Homem- A senhora quer dizer que a imagem engana?

Mulher
- Por algum tempo. Ela seduz a princípio, mas depois se dilui no meio de milhares de outras imagens e ...o que importa são os sentimentos, algo que supera o fato brutalmente material...

Homem
- Quer ver o meu sexo?

Mulher
- Prefiro ver televisão...
(caminha até um ponto onde está uma TV e liga o aparelho. A mulher se contorce como se estivesse tendo um orgasmo)

Homem- A senhora me surpeendeu e me humilhou, fui trocado por um aparelho de TV.

Mulher- Chega dessa pantomina. Quem vai fazer o supermercado esta semana?

Homem- Eu é que não sou! Fiz a semana passada?

Mulher- Então vou ter que mudar a hora da manicure. Não quero estragar minhas unhas.

Homem- Estou com fome...

Mulher- O jantar está na geladeira, esquente no microondas...

Homem- E você, não vai comer nada?

Mulher- Não, preciso emagrecer. Talvez tome um suco...

(Fecha o pano - na platéia ouvem-se vaias)

22.8.10

Microteatro : para onde vamos?


Uma mulher e um homem no palco - luz sobre eles, o resto é penumbra

Mulher - Como chegamos até aqui?

Homem - Pagando impostos, ora! Pelo menos é o que me parece. Mas hoje alimento muitas dúvidas, além de dívidas...

Mulher - O senhor me parece sempre angustiado, preso à realidade, creio que seria bom sonhar, ser poético de vez em quando.

Homem- Sou materialista, não nego. Sonhar não paga o meu dentista. A senhora já teve uma dor de dente?

Mulher- Não estou aqui para piadas. Defendo apenas a possibilidade de uma vida menos sórdida.

Homem
- O mundo pode ser um cárcere. Já pensou nisto? Nosso corpo a carcaça material em decomposição que carregamos e que imaginamos ser nossa pessoa... a modernidade nos jogou atrás de grades, não temos alternativas de liberação reais, estamos condenados a estabelecer relações degradadas com nossos semelhantes...

Mulher- O senhor está sendo fatalista, brutalmente preso à realidade das sensações...seria ridículo pensar que se porta como um existencialista de quinta!

Homem- Senhora, a modernidade nos jogou atrás de grades, não temos alternativas de liberação reais, estamos condenados a estabelecer relações degradadas com nossos semelhantes...vivemos numa época do fim das utopias, temos o deus do mercado a nos punir. Ou entramos no shopping ou ficamos na sarjeta.

Mulher- Não consegui alcançar o degrau de seu pensamento. Sonhar não seria já uma libertação, melhor dizendo a possiblidade de sonhar...

Homem
- Sonhar é fugir, os sonhos são mentirosos, são trapaceiros, imitam a realidade e nos fazem perder a perspectiva...Se eu sonhasse, alimentaria o desejo de fugir deste sistema.

Mulher- Como fugir? Temos que enfrentar a realidade, criar um caminho, se opor...

Homem - A senhora tem razão, fugir seria uma tolice. Só me transformaria num turista de um mundo insólito. Hóspede de um hotel de escravos, de certo modo um novo tipo de cárcere...Mas isto mostra que meu ponto de vista está certo, Sonhar não é possível...

Mulher- Então o senhor concordará que a liberdade é algo que se alcança apenas quando se age de forma coletiva.

Homem- Não acredito nas masssas. No fundo temo as massas, elas são facilmente inflamadas, manipuladas. A elas podemos creditar o episódio Hitler e outros crimes da história...

Mulher- O senhor não me contaminará com seu pessimismo.

Homem- Muitos amigos meus, otimistas, morreram defendendo um mundo melhor, mas o mundo ficou pior, cheio de bugigangas tecnológicas. Tenho saudades das velhas utopias...

Mulher- Então o senhor sonha...inutilmente, mas sonha com um mundo que já foi melhor em seus sonhos...

Homem- O problema é que hoje este mundo evaporou, sou livre para comprar. Outros nem isso. São sujeitos monetários sem dinheiro,,,

Diretor- Xi, o texto ficou muito intelectualizado e apocalíptico. Onde está o autor?...

Autor
- Senhor diretor , creio que o senhor deveria ter lido o texto antes de encenar...

Produtor- Senhor autor , o diretor tem razão, seu texto não apresenta uma saída...

Autor - (grita desesperado) : - É por alí (aponta para uma seta acesa que se salienta na escuridão do teatro - nela está escrito "Saída" - "Exit").

14.8.10

Micro Teatro : interpretação 1



Uma mulher e um homem no palco - luz sobre eles, o resto é penumbra

Mulher (no chão , caracterizada como mendiga, com um cobertor cinza sobre os ombros)
- Como chegamos até aqui?

Homem - Pagando impostos, ora! Pelo menos é o que me parece.

Mulher- Eu não paguei nada, não tenho um tostão furado. He He He...

Homem- A senhora é um exemplo de que a sociedade capitalista não deu certo.

Mulher- O senhor tem razão, me dá um dinheiro para eu comprar um pão?

Homem- Não, a senhora vai comprar bebida, solvente, crack, essas drogas de pobre!

Mulher- Não, meu senhor, eu falo sério, estou com fome, meu estômago ronca, parece uma cuíca, he he he...

Homem- Desculpe , mas é contra os meus princípios dar esmolas.

Mulher- Não é esmola, é um empréstimo...não é assim o ditado: - quem dá aos pobres, empresta a Deus?

Homem- Sou ateu!

Mulher- O que é ser ateu?

Homem- É não acreditar em Deus.

Mulher- Xi, é ruim, hein! Desse mato não sai cachorro. Mas pense uma coisa, o senhor não dá esmolas pois pensa que sou mendiga, porque pensa que sou marginal, que vou me drogar...mas se eu disser que sou ...bem, deixe para lá...

Homem- (mostrando algum interesse) - Agora fiquei curioso, conte sua história...

Mulher- Não, o senhor não compreenderia. Está frio, pelo menos conte o senhor, uma história para que eu possa dormir...faz muito tempo eu tive uma mãe que me contava histórias para dormir...

Homem- Era uma vez ...em algum rincão do universo cintilante que se derrama em um sem número de sistemas solares, havia um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi um minuto soberboe mais mentiroso da "história universal": mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer..."

Mulher- Mas isso é Nietzsche, "Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral" de 1873!

Homem- Como ousa, a senhora, uma maltrapilha, uma pedinte entender de Nietzsche?

Mulher- A ficção me permite isso. Sou agora uma maltrapilha, ontem fui uma doutoranda, amanhã serei a morta que ressuscitou. Vivo como o "Vigarista" de Melville...(digo The confidence-man)...

Homem- Tome o dinheiro!

Mulher- O que? Está me dando uma esmola?

Homem- Não, estou pagando o ingresso.


( Fecha o pano - Na platéia ouvem-se aplausos e vaias!)

Ao abrir o pano para os agradecimentos, a mulher vem vestida de homem e o homem vestido de mulher- mendiga

28.9.09

Programa para terça-feira em Sampa: Aniversário de Plínio Marcos no teatro de Arena


Chegou por e-mail o seguinte convite para comemorar o aniversário de um gênio do nosso teatro:
Aniversário de Plínio Marcos no teatro de Arena, na próxima terça-feira, dia 29 de setembro
Plínio Marcos nasceu dia 29 de setembro de 1935, para celebrar seu aniversário, alguns amigos, atores e admiradores vão se reunir no Teatro de Arena na próxima terça-feira. Quem está agitando é o Carlão do Boné, o Carlos Costa, ator, carnavalesco e grande parceiro do Plínio. O Kiko Barros, filho do Plínio, e o Moisés da Rocha, também já confirmaram presença. Convidados: Marco Antonio Rodrigues, César Vieira, Chico de Assis, Graça Berman, Castor, César Vieira, Osvaldo Mendes, Emilio Fontana, Izaías Almada, Estér Góis, Sérgio Mamberti, Antonio Petrin, Walter Breda, José Renato, Júlio Calasso, Jair Alves, Jairo Mattos, Javier Contreras, Vinicius Pinheiro, Vera Artaxo, João Signorelli, Carlos Cortez, Edson Lima, Barão, Borbam Carlão do Peruche, Osvaldinho da Cuíca, Toniquinho Batuqueiro, a turma da Banda Redonda, entre tantos outros.
 
Será uma noite de bate papo, depoimentos e até uma roda de samba. Na verdade é um encontro simples de amigos e pessoas que admiram este grande dramaturgo. É só chegar, a partir das 19h. Também é um momento para começar as comemorações pelos 50 anos da primeira montagem de Barrela, em Santos em 1º de novembro de 1959 e lembrar os dez anos sem Plínio (19/09/99). www.pliniomarcos.com
 
Dia 29 de setembro, Terça Feira, a partir das 19h – è só chegar
Teatro de Arena Eugênio Kusnet
Rua Teodoro Baima, 94 – Tel. 3256 9463 - Metrô República
Organização: Amigos do Plínio. Apoio: O Autor na Praça

NR - Foto do sítio oficial do Plínio
 

24.9.09

micro teatro- ato único : Déjà vu


Uma mulher e um homem no palco - luz sobre eles, o resto é penumbra

Mulher - Como chegamos até aqui?

Homem - Pagando impostos, ora! Pelo menos é o que me parece.

Mulher - Já ouvi isto antes, não me lembro onde.

Homem- É uma falha de memória, sem dúvida.

Mulher- Conheço o senhor de algum lugar. É estranho, parece um déjà vu. A imagem que me vem à mente é a do senhor junto comigo num palco, sob luz de um refletor. Nesse momento eu pergunto como chegamos aqui e...

Homem- Decerto é um Déjà vu.
Mas nós não somos estranhos. Isto é, em essência.

Mulher- Como assim?

Homem- A senhora é uma mulher, eu sou um homem - isto é óbvio, mas o que importa é que conhecemos outras mulheres e outros homens no decorrer de nossas vidas e isso implica que conhecemos algo um do outro, sem no entanto, saber disso....Compreende agora?

Mulher- É uma filosofia meio barata, mas serve para passar o tempo. Muitas vezes creio que falamos para não perceber o tempo que passa, ou para suportar a angústia de que estamos sozinhos no mundo e sempre estaremos.

Homem- É, saberemos isso na hora da morte. Sempre morremos sozinhos. Woody Allen disse que não tem medo da morte, mas gostaria de não estar lá na hora que ela acontecesse. É uma boa piada, não concorda?

Mulher- Concordar hoje em dia não é tudo. Existem leis, regras, um sistema que funciona independente da nossa vontade. Como o senhor bem exemplicou a respeito do conhecimento entre homens e mulheres.

Homem- Agora é a senhora que filosofa, digamos, "baratamente".

Mulher- Melhor essa forma barata do que ser uma como George Samsa...

Homem- Agora a senhora está a exigir muito do público. De que ele conheça a obra Metamorfose de Franz Kafka!

Mulher- Desculpe, achei que esse personagem de Kafka fosse conhecido por todos...

Homem - Que nada! As pessoas não leem mais. Elas gostam de feiras de livros. A senhora não pode chegar assim e sem mais nem menos jogar Kafka na cara das pessoas.

Mulher- Pensei que este fosse um palco onde fosse possível um diálogo de idéias...

Homem- Não, na verdade isto é um ring e estamos travando um assalto. - (Ele soca a mulher, que cai desmaiada)

Diretor- Muito bem, mostraram as questões contemporâneas com bastante competência. Vamos começar de novo - agora trocando as falas, a mulher assume o papel do homem e o homem da mulher.
Esta inversão vai causar uma confusão saudável na cabeça do público.

Homem- Vai mostrar a instabilidade das coisas?

Diretor- Sim, agora só fale, não pense!

(Desce o pano)

22.9.09

micro teatro - ato único - Vida e morte


Uma mulher e um homem no palco - luz sobre eles, o resto é penumbra

Mulher - Como chegamos até aqui?

Homem - Pagando impostos, ora! Pelo menos é o que me parece.

Mulher- Estou esperando um filho e já não olho mais para o horizonte, busco sinais dele dentro de mim.

Homem- Eu espero a morte a cada dia que passa, e ela insiste em me deixar na expectativa de que um dia virá quando eu estiver desatento.

Mulher- Engraçado, nós dois esperamos coisas distintas.

Homem- Na verdade, as coisas não são assim. A senhora também espera a morte e desta vez em dose dupla, A sua e a do ser que sente crescer dentro de seu ventre. Ele se desenvolve , independente de sua vontade, Sua vida toda acontece sem que a senhora controle.

Diretor- Este último texto está muito longo, temos que diminuir a fala.

Mulher- Não entendi nada do que o senhor disse!?

Homem- Não é fatalismo, nem pessimismo e sim realismo. O fatalista diria que a morte é inevitável e acontecerá mais cedo do que se pensa. O pessimista dirá que inútil pensar essas coisas, pois já estamos mortos. O realista espera a morte para um jogo, como num filme sueco.

Diretor- Outra vez o texto ficou muito longo. O público espera algo mais fácil de compreender.

Mulher- Eu sempre espero a vida, eu sinto a vida dentro de mim, é só disso que quero falar.

Diretor- Isto é que esperamos que se diga. Uma fala direta!

Homem- É próprio da mulher estar mais próxima da vida, pois ela gera a vida.

Mulher- O senhor quer dizer que os assuntos da morte dizem respeito mais aos homens?

Homem- Não sei o que dizer, eu não sinto a morte dentro de mim, mas como algo que virá, nem sinto a vida, olho em volta e vejo só concreto e credores. Tenho necessidades, Preciso me alimentar, dormir, trabalhar horas em algo que perderá valor em breve. Signos da morte, por todos os lados.

Diretor- Novamente estamos com um texto longo demais para compreensão do público. O autor terá que sintetizar estas falas...

Mulher- O senhor me assusta. Que mundo espera pelo meu filho?

Homem- Sinto dizer que é um mundo onde o texto tem que ser curto e grosso.

(Aplausos do Diretor no final - o autor na platéia amassa o texto e joga no chão de forma excessivamente dramática)

19.9.09

Micro teatro - único ato

Uma mulher e um homem no palco - luz sobre eles, o resto é penumbra

Mulher - Como chegamos até aqui?

Homem - Pagando impostos, ora! Pelo menos é o que me parece.

Mulher- Imposturas, isto sim! Sabia que um bilhão de seres humanos passam fome?

Homem - Não seria um bilhão de pessoas passa fome? Quanto a mim, eu estou de dieta. Tem certeza de que esse pessoal não está fazendo regime?

Mulher- Já pensou que sua pergunta é idiota? Você deveria perguntar que regime é este que faz um bilhão de pessoas passar fome.

Homem- Desculpe, é que hoje estou de bom humor- vi um suicida estirado na calçada. Se atirou de um prédio. Aparentava ter uns 30 anos.

Mulher- O senhor fica de bom humor depois de ver uma coisa dessas? Que tipo homem é o senhor?

Homem- Do tipo que não se atirou do prédio.

Mulher- Como chegamos até aqui?

Homem- Pagando impostos, já disse!

Mulher - Eu..............................................
(De repente o som altíssimo de uma música cobre a voz da mulher que simula continuar a falar e o homem responder)
(Desce lentamente o pano)