10.6.08
9.6.08
Noites de Verão Cheiro de Jasmim
Travesti no IFCS/UERJ

O antropólogo norte-americano Don Kulick lança seu livro TRAVESTI:prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil, com uma palestra, no IFCS às 17 horas, no dia 10 de junho de 2008.
Don Kulick é da New York University - é diretor do Center for the Study of Gender and Sexuality (CSGS) e também do Program for Gender and Sexuality Studies (GSS)
Anotem aí na agenda:
Data: 10 de Junho de 2008
Hora: 17:00
Sala Evaristo de Moraes Filho
IFCS/UFRJ - Largo de S. Francisco, N. 1, Sala 109 - Centro.
Todos lá!
Caricatura de Otto Lara Resende

Nelson Rodrigues vivia pegando no pé dele, a mais famosa implicância foi por causa de uma frase que ele cunhou: "Mineiro só é solidário no câncer". Otto Lara Resende era bom demais de frase mesmo.
Selecionei duas que curto muito:"Ultimamente, passaram-se muitos anos"é uma delas e a outra é:"Escrever é de amargar".
Estas frases foram retiradas de um site que por sua vez as retirou do livro "Otto Lara Resende: a poeira da Glória", de Benício Medeiros, editora RelumeDumará - Rio de Janeiro, 1998, pág. 137.
Benício nos deve um livro com suas histórias, não as de Otto, mas as dele mesmo!
8.6.08
Lúcio Flávio Pinto, Gramsci e o Jornal Pessoal


(Republico aqui um belo artigo que o meu amigo, o Professor Marco Aurélio Nogueira escreveu em seu blog ( que está aí do lado entre os meus preferidos) sobre Lúcio Flávio Pinto , nosso querido companheiro de estrada que acabou de lançar um livro e comemora os 20 anos de seu Jornal Pessoal)
Lúcio Flávio Pinto, Gramsci e o Jornal Pessoal
Estudei com Lúcio Flávio Pinto na Escola de Sociologia e Política de São Paulo nos primeiros anos da década de 1970. Foi lá que nos conhecemos e nos tornamos amigos.
Para que se dimensione bem o fato, foi com ele que li pela primeira vez os Cadernos de Gramsci. Viramos dias e noites discutindo as notas sobre jornalismo e revistas culturais que integravam Os intelectuais e a organização da cultura e agora estão no volume 2 da edição brasileira dos Cadernos do Cárcere (Rio, Editora Civilização Brasileira), organizada e traduzida por Carlos Nelson Coutinho e Luiz Sérgio Henriques. As notas de Gramsci funcionavam, para nós, como fermento teórico e político para editar a revista Di...fusão, que fazíamos no centro acadêmico da escola junto com Reginaldo Forti, Cláudio Kahns, Bruno Liberati, Raul Mateos Castells, Leon Cakof, Vera Lúcia Caldas, um agregado de gente boa, plural e politicamente diferenciada, que se unia na amizade e na vontade de estudar e combater a ditadura militar.
Lúcio vinha de Belém, trabalhava no Estado de S. Paulo, o Estadão. Era um motor em termos de idéias e criatividade. Mas não parava de pensar na Amazônia, sua causa apaixonada, sua razão de ser como intelectual e jornalista. Terminou o curso e voltou para Belém, como correspondente do Estadão. Tornou-se rapidamente uma referência internacional na área, um dos mais importantes e consistentes – se não o maior de todos – analistas das aventuras e desventuras amazônicas. Permaneceu combativo como poucos, sem fazer qualquer concessão aos poderosos. Seu jornalismo independente, de denúncia e opinião, só fez crescer. Quando as portas dos grandes jornais da região (O Liberal, Diário do Pará) começaram a se fechar para ele, deu um basta e foi fazer o Jornal Pessoal, um quinzenário sobre a Amazônia, custeado, redigido e distribuído a ferro e fogo por ele mesmo quase sem interrupção há 21 anos, com uma tiragem de 2 mil exemplares.
É algo de altíssimo nível, que deve ser conhecido e divulgado. Ainda não tem uma webpage, mas pode ser conseguido pelo email jornal@amazon.com.br ou pelo telefone (91) 3241-7626.
No início de abril deste ano, Lúcio Flávio publicou seu 10° livro, igualmente dedicado ao Pará e à Amazônia, mas desta vez tendo como eixo a experiência do próprio Jornal Pessoal. Através do livro, ele “tenta contar capítulos da história recente do Pará que jamais teriam sido registrados se não existisse este jornal”. É jornalismo a quente, feito no calor da hora, no momento mesmo em que os fatos aconteceram. Um exemplo de jornalismo verdadeiramente independente, que cumpre “sua missão mais nobre: ser uma auditagem do poder”.
Lendo as reportagens e os textos vibrantes que estão no livro, fica fácil perceber porque Lúcio Flávio Pinto incomoda tanto a elite da região, a ponto de ser vítima constante de perseguições e processos judiciários estapafúrdios. Coisa que, de resto, jamais o abateu ou o intimidou. Ao contrário, o animou a afiar e apurar sempre mais a pena, alçando vôo para além do Pará.
Não por acaso, o livro se chama Contra o Poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica. É excelente. Pode (e deve) ser comprado através do email do próprio JP ou pelo endereço Rua Aristides Lobo, 871, Cep 66053-020, Belém-PA.
7.6.08
Il sorpaso de Dino Risi

Ele morreu hoje em Roma aos 91 anos, o grande Dino Risi. Vai ficar conhecido como o homem que fez o clássico "Perfume de Mulher". Acredito que pouca gente vai lembrar de Il Sorpaso - que recebeu o título brasileiro de "Aquele que sabe viver". Sem dúvida este é um marco do cinema mundial.
É a primeira grande viagem do cinema moderno – que de certa forma inaugura o que se chama hoje “road-movie” “Il Sorpasso”(Aquele que sabe viver) de Dino Risi com roteiro de Ettore Scola, Risi e Ruggero Maccari. É um filme mítico que foi feito em 1962 e registra em detalhes a época em que a Itália passava por um momento feliz de prosperidade, e respirava uma atmosfera de renascimento depois das agruras da guerra. Como disse Risi na sua entrevista, (nos Extras do DVD da “Versátil Home Vídeo”) :A Itália da guerra é a terra da bicicleta ou dos andam a pé, depois veio a “motorina” e enfim “la macchina”, o fabuloso automóvel.
Martin Scorsese que é maluco por esse filme, chegou imaginar que o trajeto “geográfico” que os personagens fazem na história da película desenha um ponto de interrogação.Pelo menos foi isso que disse ao filho de Risi em Los Angeles. Você pode conferir isso na entrevista de Risi que consta nos “extras” do DVD da “Versátil Home Vídeo” . Claro que Risi, um grande gozador , sacaneia esse achado do diretor de “Taxi-Driver”.
Dino Risi ficou famoso como diretor de comédias. Tem uma filmografia imensa. É dele o original de “Perfume de Mulher”( Profumo di donna) de 1974 e o cruel “Os novos monstros” (I nuouvi mostri) de 1977.
“ Il Sorpasso” é um filme que chocou o público, um filme que surpreendeu o relax dos espectadores que achavam que estavam diante de uma comédia leve. Juro que não vou contar o final do filme para não estragar o prazer daqueles que não o viram e vão assistir pela primeira vez. Conta uma história que se passa em pleno “ferragosto” que é o feriado do dia 15 de agosto que festeja a assunção da Virgem Maria em que para tudo no território italiano.
(Observação marginal:Eu passei um “ferragosto” com meu filho em Roma, e garanto, quase tudo não funciona na cidade dos césares. Araújo Netto, o saudoso jornalista que foi correspondente em Roma por quase toda sua vida me disse que um dia nesse famoso feridado pararam até os transportes públicos., uma loucura!
No “ferragosto”que meu filho e eu passamos em Roma, se não fosse Julio Lubetkin e sua família, estaríamos fritos- a italianada sai de ferias mesmo, fecha da farmácia ao posto de gasolina, a cidade fica deserta, todo mundo vai para a estrada rumo ao litoral ou à montanha e isso aparece no filme muito bem)
Voltemos ao “Il sorpasso” que não quer dizer “Aquele que sabe viver” mas sim “A ultrapassagem” . Como eu dizia, a história se passa num “ferragosto” onde logo de cara envolvidos por um jazz feroz acompanhamos Bruno Cortona( vivido de forma magnífica por Vittorio Gassman), um homem espaçoso que pilota seu Lancia chapa 329446 pelas ruas de Roma como se fosse um ás da formula 1. Está procurando um telefone e encontra a cidade deserta. Gira por Roma e pará numa bica d’água para se refrescar do calor que nessa época é de “rachar catedrais”(como um dia disse Nelson Rodrigues noutro contexto).
Ao lavar o rosto e beber da bica, ele percebe na janela de um apartamento um rapaz que veio observar a rua quando ouviu o ruído do carro de Bruno. (É bom salientar que parece que realemente todo mundo sai de férias nesse dia, os apartamentos ficam abandonados). O “espaçoso” Bruno então pergunta ao jovem se ele tem um telefone e se pode ligar para uma mulher chamada Marcela e dizer que ele vai se atrasar.
O tímido jovem estudante Roberto Mariani (vivido por Jean Louis Trintignant) , que está metido entre livros de direito diz a Bruno que seria melhor ele mesmo ligar para Marcela e o convida a subir. A partir daí, Bruno toma conta do destino de Roberto, que acaba entrando numa longa e excitante viagem pelas estradas da Itália em férias.
Bruno é terrível: egocêntrico, narcisista, sedutor. De cara ele se revela um irresponsável de marca maior, dirige a 120 km pelas estradas onde assume o papel de professor que vai ensinar o jovem o que é viver. Roberto entra na jogada aos poucos e quando vê já está de porre cantando "Mamãe eu quero" (claro que isso é uma força de expressão, mas o rapaz chega perto disso) O carro (como já dissemos, um Lancia) é um personagem fundamental do filme, sua buzina cantante é inesquecível. Ah, tem um detalhe no carro que é inacreditável: ele possui um toca-discos, acho que de 45 rotações. Será que isso é uma desvairada ficção, ou os malucos dos designers criaram um automóvel imune aos quebra-molas e buracos das estradas? Um outro detalhe engraçado decora o carro, ao lado do painel está colado um quadrinho com uma foto de Brigitte Bardot sorridente junto a uma legenda que diz : “Seja prudente, eu te espero em casa.”
Bruno aponta o quadro e diz , Bela ragazza , hein!
A gente precisa dizer que o Brasil desta época também vivia esse surto "automobilistico" e um resnascimento bossa-novista, uma procura do novo, tinha acabado de se mudar para Brasília, uma cidade inteiramente planejada, um emblema do modernismo.
O filme é pontuado por situações humorísticas e toques de ironia de Risi. Por exemplo no momento em que fala de uma música de Domenico Modugno, Bruno cita um filme de Antonioni, “O Eclipse”, Ele fala: Essa música tem aquela coisa, a solidão, a incomunicabilidade, e aquela outra coisa que está na moda, a a lienação como nos filmes de Antonioni. Você viu “O Eclipse”? Roberto vai dar sua opinião e é logo interrompido por Bruno que diz : Eu dormi o tempo todo, tirei uma boa soneca. Belo diretor é esse Antonioni!
A trilha sonora do filme é um colar de pérolas da época onde desfilam músicas como : “Quando, quando, quando “ de Tony Renis e Alberto Testa na voz de Emílio Pericoli. “St. Tropez Twist” de Cenci-Faiella com Peppino di Capri. “Per un attimo” de Luigi Naddeo com Peppino di Capri. “Don’t Play that song (You Lied) de Ahmet M. Etergun e Betty Nelson com Peppino di Capri. "Giani" de Tassone –Cassia na voz de Miranda Martino. “Vechio Frak” de Domenico Modugno que tembém a interpreta . “Guarda come Dondolo de Rossi-Vianello na voz de Edoardo Vianello. “Pinne Fucili Occhiali” da mesma dupla com interpretação de Vianello. Quanto ao jazz furioso que abre o filme eu não encontrei os créditos) Enquanto tocam essas músicas, vemos aquela cena que está em quase todos os filmes italianos desse tempo, como uma marca registrada made in Italy: gente bailando o twist. Gente de todo tipo sacudindo o esqueleto.
Num ponto da Estrada os dois encontram um punhado de padres que não falam italiano em torno de automóvel , estão com dificuldades para trocar um pneu. Bruno pergunta o que está acontecendo. Um dos padres fala em latim várias frases. Bruno diz que não compreende “niente”. Roberto traduz: Eles perguntam se temos um macaco.
-E como se diz que não temos? Pergunta Bruno.
Roberto diz: “Num habemus”
Bruno então emenda: “Num habemus macaco”, ciao ! E mete o pé no acelerador.
Quando eles passam por um ciclista , Bruno grita: - :”Compre uma Vespa!” E a seguir conclui:-“ O ciclismo não me interessa, é antiestético, engrossa as coxas. Prefiro bilhar ou cavalos…e vai por aí acelerando, cantando mulheres (inclusive sua filha que ele não reconhece em baixo de uma peruca negra, interpretada pela belíssima Catherine Spaak), seduzindo velhotas, tentando dormir com sua ex-mulher, contando lorotas…vivendo um brutal verão.
Segundo Risi o filme foi beijado pela sorte e chegou a inspirar “Easy Rider”, um “clássico” que ainda comentarei .(Aliás o filme “Il sorpasso” na na tradução americana se chama “The Easy Life”)
Por enquanto ficamos nesse artiguete sem muito pé nem cabeça como a viagem desses alucinados até que surge “il sorpasso”… Mas aí é outra história. Se tudo der certo, voltarei a esta Estrada. Aguardem .Vrummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm.........
Vexame! Selecinha perde de 2 a 0 para a Venezuela

Nunca na história deste país a Seleção Brasileira perdeu para a Venezuela.
Até minha vizinha chavista, me ligou pelo interfone para me gozar.
-Viu o que é desarollo? Até no futebol a Venezuela se desenvolveu mais que o Brasil!
Tive que engolir essa.
Faz tempo que digo que a Seleção precisa sofrer uma mudança fundamental. O Dunga não tem culpa. Os jogadores é que não querem nada com a bola. Estão de férias, querem descansar do campeonato europeu.
Precisamos de uma outra Seleção, é uma tese que nunca vai ser praticada. Acabar com esse negócio de ser uma legião estrangeira, investir nos valores nacionais.
Por que não usar os jogadores que se matam nos nossos gramados para mostrar seu futebol? Dodô , por exemplo, faria um gol naquele timeco da Venezuela. O coração de Leão do Washington faria outro, de cabeça ou de falta. O goleiro Fernando Henrique do Fluminense defenderia o que viesse , até míssil. Sem falar no goleiro do Corinthians, nos jogadores do Flamengo, alguns valores do Botafogo, do Grêmio, do Cruzeiro, do Atlético...enfim os melhores valores que estão jogando aqui nos gramados da pátria de chuteiras. Tá certo , chamaram o Adriano que está fazendo um estágio no São Paulo, mas falta quem o sirva.
Minha tese se baseia naquela coisa que existia antigamente, a honra de vestir a amarelinha. A necessidade de mostrar ao mundo que somos bons de bola. A garra que o menino desdentado mostra ao driblar outro desdentado no campinho da várzea brasileira. Falta aquela inocência de acreditar que está defendendo o Brasil e não o patrocinador. Mas sei que isso é bobeira minha.
Temos que nos preparar para o Paraguai e a Argentina que jogam como o Brasil jogava antigamente, buscam a bola como se fosse um prato de comida.
6.6.08
Teoria da Novela da minha Vizinha Chavista

Aproveitando que acabaram duas novelas e começaram novas, tanto na Globo como na Record e a disputa está acirrada, publico aqui a "teoria da novela" que minha vizinha chavista escreveu num papel de embrulho e deixou nas minhas mãos para , segundo ela, botar no meu "grogue"(ela nunca consegue pronunciar blogue).
Achei meio óbvia, mas o que posso fazer? Lá vai ela!
Teoria da Novela (adaptada para tempos pós-modernos)
Uma lei fundamental da telenovela é : quanto pior ela é, melhor se torna. Se começar como se fosse uma super produção róliuidiana, quase ( com cenas na Europa, Estados Unidos, ou (África) ela deve rapidamente voltar ao velho rame rame, às rotineiras cenas de estúdio, aquela coisa econômica que a gente já conhece. Pode até ser tosca , trash mesmo, que vai ter audiência. Novela de época é para quem dorme cedo.
Tipos interioranos são necessários para dar um toque de inocência .
Vamos à algumas leis gerais , sendo que algumas são revogáveis outras são leis de ferro:
A primeira lei da novela é: ela tem que dar IBOPE se não der IBOPE é gasto inútil. Se o elenco estiver muito grande e o prejuízo maior, arranje um terremoto e mate metade do pessoal cenográfico.
A segunda lei da novela é : Tem que ser redundante - Para quem não entendeu, vou explicar tem que ser facilmente entendida pela massa. A massa é a soma das "classes" subalternas . Não existe novela de elite. Elite vê novela só para ter assunto com os serviçais. Isso quando fala com os empregados.
A terceira lei da novela é: Tem que ter um núcleo pobre e um núcleo rico. Ou ter um núcleo marginal e um núcleo podre de rico. Pode haver migração de um núcleo para o outro e contradições são necessárias para o andamento da trama. A mocinha e o galã não podem ficar pobres no final.
A quarta lei da novela é: Tem que ter casamentos no fim. A novela pós-moderna atura casamentos no meio.
A quinta lei da novela é: No caso uma atualização , tem que ter um grupo gay tanto feminino como masculino - hermafroditas também são benvindos! Travestis então estão na moda e claro, terão seu momento. Só beijo gay ainda não é tolerado.
A sexta lei da novela é: Isso é sagrado,tem que ter um vilão, ou alguns vilões, e uma mocinha e um galã. O vilão pode se recuperar diante do público, mas vai ter que pagar pelas maldades que fez. Se for para ele morrer no final, tem que fazer muita crueldade para justificar o seu assassinato.
A sétima lei da novela é: Ela não tem nada a ver com a realidade mesmo e deve passar umas mensagens morais do autor pra disfarçar. Críticas genéricas a políticos são bem aceitas, mas nada de falar de emissoras de TV ou Jornais. O óbvio disso é que uma novela não pode ser um Cidadão Kane. Mas pode-se falar mal da mídia, pois ela é genérica e está aí para isso mesmo, para ser esculhambada. Obsessões dos autores serão avaliadas para ver se não estão em desacordo com as obsessões da emissora.
(A novela pós-moderna pode ser ideológica e conservadora, defender bandeiras dos setores mais atrasados do mundo e da política nacional. O reacionarismo do autor se casar com a ideologia da emissora então vai ser comemorada com lua de mel em Cancun.
A oitava lei da novela é: Alguém tem que morrer no meio dela ou no fim. Começar por uma morte também é bacana. Se puder unir uma morte e um nascimento melhor ainda.
A mais moderna lei da novela é que o autor tem que ter um blogue onde ele cria situações que ajudam a alavancar o IBOPE.
A nona lei da novela é: Ela deve sempre ter um modelo para se inspirar, copiar situações dramáticas de filmes, e outras novelas despudoramente se possível. Remakes com uns retoques na fachada são bem aceitos.
A décima lei da novela é: Ter muitas coincidências para desenvolver a trama. Sem coincidências não existe novela. E podem ser as mais inacreditáveis. Novela não deve se inspirar na realidade, ela é ficção desvairada.
A décima primeira lei da novela é: O autor não deve ter nenhum escrúpulo. Vale tudo para levantar o IBOPE, inclusive incluir dinossauros na trama.
A décima segunda lei da novela é: Ter sempre um personagem que fala sozinho .
A décima terceira lei da novela é: Escrever a coisa de tal forma que se o pobre do tele-espectador perder alguns capítulos ele não perde nada da trama, em pouco tempo ele retoma o enredo.
A décima quarta lei da novela é: Incluir minorias e pessoas com problemas de saúde , isso tá na moda, pode adotar temas ecológicos que também estão na moda.
A décima quinta lei da novela é: Ela tem que ter o famoso merchandising. Um ou mais produtos que são expostos ou expícitamente citados pelos personagens.
A décima sexta lei da novela é: Tem que ter sexo, muito sexo...
A décima sétima lei da novela é: Ela pode tomar outros rumos que os desejados pelo autor, ele que se dane, o que importa é o IBOPE, a grana , o tutu, o cascalho!
A décima oitava lei da novela é: Ter uma trilha sonora balanceada com músicas de apelo popular e um tema básico insuportável que abra a novela. Se não for insuportável no começo ele se tornará com a repetição. Toque que a massa gostcha!
A décima nona lei da novela é: Verificar o prazo de validade da idade do o elenco. O mocinho tem que ser jovem. Casais que já estão na meia-idade tem que usar filtros rejuvenecedores. Mulheres que não podem mais dar chau (ciao) devem usar roupas de mangas compridas.
A vigésima lei da novela é : Tem que ter algumas pequenas transgressões , palavrões que já são socialmente aceitos como merda, cocô, porra, saco. Isso torna a novela coloquial. Boca suja todo mundo tem em variados graus. Freud explica . Chacrinha complica!
A vigésima primeira lei da novela é : O autor pode badalar seus amigos, principalmente se pertencem ao cast da emissora. Homenagens aos amigos pessoais do autor são toleradas, livros que eles lançam, CDs. Dependendo da audiência pode até dar carona a alguns que estão fora do foco da mídia. Uma canja de atores -ícones da brasilidade também é necessária para dar um reforço , um status de "obra de arte" que a novela almeja. Afinal, tá todo mundo alí para descolar uma grana. O autor pode até criar algumas cenas quentes para funcionar de ponte para conseguir um ensaio numa revista masculina para uma atriz que está se achando boazuda e está afim de comprar um apartamento para a mamãe.
A vigésima segunda lei da novela é: Tem que ter porrada, se possível entre mulheres. Homens brigando não tem muita graça. Mordidas , puxões de cabelo, roupas rasgadas, sangue. isso rende bem!
A vigésima terceira lei da novela é: Se no decorrer da história alguns personagens não colarem, mande os caras pra casa e use apenas algumas cenas deles, se necessário mude totalmente a personalidade do personagem, (Exemplo um cara bonzinho pode virar um crápula) Nem todas as possibilidades imaginadas devem ser executadas até o fim, não é necessária a coerência . O que importa é que no final todo mundo casa e o mundo continua o mesmo e o tempo passou.
Tenho dito.
5.6.08
Crônica da Tinê :"O Sopro Libertador de Algum Deus Indogaulês"

Eu era menina quando o conheci no Leblon. Fiquei encantada com a cor da pele, os traços do rosto, o sorriso encimado por um bigode. Imaginava-o com um turbante, uma flauta e uma naja. Mas o que eu mais gostava daquele senhor era o sotaque. Indiano criado em França, ou francês de origem indiana, eu sempre me atrapalhava com a nacionalidade dele. Parte de sua família vivia em Suriname, e dali M'sieur Saloué bandeou para o Pará. Desenhista topógrafo, trabalhou durante anos com meu pai na Amazônia, quando ainda existiam índios pelados e seringueiros de cuia por todo lado que não falavam inglês. Meu pai, um mineiro contador de causos, e Saloué, um admirador das nuances regionais do Brasil, ambos faziam parte do que hoje chamo de "quarteto de ouvintes de música clássica selvagem", isto é, audição no meio da selva, graças aos elepês de um japonês chamado Yoshitaka, o cartógrafo. O quarto elemento era um carioca com o jeitão de Clint Eastwood. Depois de muito Tchaikovsky, Debussy e Ravel entre mosquitos da malária, de subir e descer rio entre Porto Velho e Belém do Pará, o grupo dispersou com o voo do besouro em busca de trabalho em outro violino. Ficou a amizade.
Dezoito anos se passaram. Em breve estadia no Rio de Janeiro, M'sieur Saloué fez questão de visitar o velho companheiro. Minha mãe preparara um almoço especial em mesa florida - "quem vem da Índia gosta de cores e aromas, quem vem da França espera ser bem servido", ela dizia. Na verdade, ele acabara de vir do Ceará. M'sieur chegou abraçado a um enorme embrulho. Com reverência, entregou o presente à dona da casa. Com muito papel para abrir, M'sieur explicava que fora mostrar o Nordeste à irmã que vivia na Guiana, que ficaram deslumbrados. Filho de boa casta da Índia, o colorido sol nordestino deve ter-lhe ativado a memória do ancestral Holi, a festa hindu das cores. Era um sujeito muito emotivo. Suspense. Seis sorrisos congelados. Até o besouro imaginário parou de zumbir diante do brilho multicolorido dos quartzos moídos, das areias tingidas, da habilidade e paciência do artesão, da exuberância da forma, daquela coisa bem brasileira em forma de... um pavão. Naïf. Uma autêntica arte ingênua que se destacava em qualquer ambiente.
O desfecho teve seis versões, prefiro a minha. Mais belo do que a silhueta de um pavão a voar contra o sol do entardecer, só mesmo o rabo aberto em leque com olhões de penas azuis e verdes que vibram durante a dança do acasalamento. Pois o nosso pavão era solitário, coitado, tremelicou por todas as paredes da casa, não combinava com nada. O bicho-quadro foi recolhido ao fundo do armário. Se o dadivoso anunciava outra visita, era corre-corre para reorganizar os quadros pendurados na sala para que o pavão pudesse, mais uma vez, exibir-se em toda sua glória. Dona Nini, nossa funcionária doméstica, não entendia o alvoroço, devia haver algum mistério: nunca vira pássaro tão formoso, melhor que aqueles borrões que chamavam de arte. A patroa achou a panaceia uma injustiça e decidiu: o pavão ficaria permanente num canto próximo à janela para que a luz o fizesse brilhar, sem se importar com a decoração. A cortina cobria, descobria... cobria, descobria... cobria, descobria... Ela ainda tinha recomendado manter a janela fechada naquele lado por causa do vento.
Tinê Soares – 04junho2008
Enquanto meu Site não sai...Retrato de Antonio Callado
4.6.08
Recado do Reinaldo do Casseta

Reinaldo avisa amigos e clientes da CEJ - Companhia Estadual de Jazz
que eles estão ocupando o myspace. (Quer dizer, o espaço deles)
Se quiserem dar uma olhada, o endereço é:
http://profile.myspace.com/companhiaestadualdejazz
Todos lá!
Ali Babá e os 60 Sinônimos

Acreditei um dia ter cunhado uma boa frase e logo tratei de usá-la, temeroso
de que alguém lançasse mão dela: ''O pior ladrão é aquele que rouba o seu tempo''.
O bacana é que ela estimula um debate acerca da qualidade das preciosas
horas que perdemos diante da TV. Mas hoje gostaria de falar de um assunto mais ameno: a nobre arte de se apropriar do alheio, que teve sua época de ouro (roubado, é claro) e inclusive uma obra a ela dedicada: A arte de furtar, dada como escrita pelo Padre Vieira, mas parece que perpetrada por um anônimo sacana do século 18. Porém, não nos enganemos, não se trata de um manual de instruções. É uma obra crítica que pretende moralizar a sociedade.
Tenho a ligeira impressão de que sempre se afanou nesse mundo. O pensador Proudhon (1809-1865) chegou a afirmar que apropriedade em si já é um roubo.
Está nas páginas dos matutinos, nos telejornais, nas ondas da rádio:
rouba-se de montão aqui nesse acampamento chamado Brasil. Mas sem nenhuma preocupação estética, habilidade ou, como queiram, virtuosismo. Ao contrário, toma-se o que é dos outros com imensa violência, tanto por baixo como por cima.
Na verdade, essa crônica começou quando encontrei de novo aquela minha
vizinha que me acha com cara de guichê de informações. (quero esclarecer que não é a minha vizinha chavista, é outra mais velhinha que sempre me faz perguntas incômodas). Foi no elevador que ela me perguntou: ''De onde sai tanto ladrão?''. Disse que tinha saudades da época de Amleto Gino Meneghetti. ''Aquilo sim era um ladrão de respeito!''. Ele assustava os ricos de São Paulo do começo do século. Assaltava suas mansões se deslocando pelos telhados como um personagem de um romance.
Entrou para a história da gatunagem pela porta dos fundos, é claro, bem de acordo com seu estilo. Foi uma espécie de Robin Hood carcamano, uma lenda. Na verdade roubava pra ele mesmo, mas ficou a fama romântica. No fim da década de 70, acredita-se, foi pilhado enquanto arquitetava um último grande golpe.
Arrisquei dizer: ''A morte o assaltou primeiro''. Não tive nem tempo de
divagar, e a vizinha logo atacou com outra questão: ''Você sabia que o Houaiss (ela se refere aos autores de dicionários com muita intimidade) tem 60 sinônimos para a palavra larápio?''.
Em seguida, tirou do bolso uma cadernetinha e mostrou uma lista onde estava escrito: abafador, aganhador, agafanhador,
cafunge, camafonge, capiango, capoeiro, carteirista, carteiro (ôpa!),
descuidista, escamoteador, furtador, gaipilha, gateador, gato,
gatuno, ladranete, ladranzana, ladrão, ladravão, ladravaz, ladrilho,
ladrisco, ladro, ladroaço, ladronaço, lança, lanceiro, lapim,
lapina, lapinante, lascarino, malandéu, malandréu, malandim, malandrino,
malandro, manata, milhafre, olhapim, olharpo,
pandilheiro, pilha, pilhante, pilharete, pilho, pivete, pexelingue,
pula-ventana, punga, punguista, puxador, rapinador, rapinante,
ratazana, rato, ratoneiro, roubador, trombadinha, ventanista.
Mal tive tempo de respirar, ela metralhou meus pobres neurônios: ''O Aurélio é bem mais econômico nesse aspecto. De qualquer forma, estamos bem servidos, você não acha?''.
Me furtei de responder. Posso dizer que perdi a fala. Perdi, playboy!
3.6.08
Aumenta o som que é "Bo Diddley Beat"

O pessoal do blue e do rock está triste, a grande figura de Bo Diddley pediu o boné (no caso tirou seu famoso chapéu) e partiu desta para melhor.
Aqui vamos a um pequeno resumo como homenagem a um dos inventores do rock and roll.
O jornalista e escritor Roberto Muggiati num livro que é uma referência para entender a moderna música americana ( Blues - Da Lama à Fama - Editora 34) dá uma idéia da importância de Bo Diddley para a história do rock ao citar sua influência que vai de Elvis Presley a Eric Burdon de Hendrix aos Stones, só para dar uma idéia do som do cara.
Revela que o verdadeiro nome de Bo é Ellas Bates, depois virou Ellas MacDaniel e finalmente passou a ser o velho e bom Bo Diddley, que era seu apelido dos tempos da escola.
Mugiatti também esclarece o que quer dizer esse nome tão estranho:Bo Diddley vem de"Bow diddley"que segundo ele era o nome que recebia um violão de uma corda só de origem africana - uma espécie de berimbau. Daí de "Bow" para Bo Diddley foi um pulo, o pulo do negro gato. Pode-se dizer que esse músico criou o que se chama de "batida do Bo" que encaminhou os roqueiros na arte de tocar a guitarra para acompanhar o rock de maneira original e forte, o que Mugiatti chama de" vigor da herança primal"que foi injetado na música que rolava nos anos 50 e se ampliou até os acordes que os garotos arrancam selvagemente de suas guitarras da garagem. Bo Diddley fez a ponte que uniu o blue ao rock. Agora é botar os discos dele na "vitrola" e não esquecer nunca mais que um dia um cara com uma guitarra de formato retangular(quadrada uma ova!) traçou veredas para a música moderna americana( junto com Bill Haley, Elvis, Chuck Berry, Fats Dominoj e Little Richard) e do mundo, e ao fazer isso ajudou a criar uma base para construir o mutante barraco pop.
Desigualdade e Violência na Literatura Brasileira Contemporânea

(Resenha do livro "Ver e Imaginar o Outro" de Regina Dalcastagnè, escrita por Jorge Sangalrd (*)e publicada no jornal O Primeiro de Janeiro“das Artes das Letras” do Porto – Portugal. A ilustração da resenha é da autoria de Jorge Arbach)
Em dez ensaios reunidos por Regina Dalcastagnè, professora de literatura da Universidade de Brasília (UnB), a questão da alteridade, desigualdade e violência na literatura brasileira contemporânea é desnudada no livro “Ver e imaginar o outro” (Editora Horizonte).
O conjunto das obras literárias analisadas por pesquisadores de diversas instituições no Brasil e no exterior tem como referência a recusa à injustiça e à intolerância e uma reação contra estas nefastas práticas. O diálogo, a coexistência, a possibilidade do encontro e o convívio com a diferença marcam os ensaios, tendo como pano de fundo a violência que permeia nossa sociedade.
O escritor Luiz Ruffato ressalta o empenho da organizadora do livro na criação, em 1999, da revista Estudos de Literatura Brasileira, editada pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília, “um espaço democrático destinado a discutir a recente produção literária nacional”. Os textos integrantes de “Ver e imaginar o outro” são fruto da revista e refletem, segundo Ruffato, sobre a complexidade realidade brasileira, tendo a literatura como fonte de expressão e de compreensão, além de encarada em seus fundamentos estéticos, éticos e políticos.
E Ruffato assegura que o papel desenvolvido pela revista, num meio absolutamente avesso ao debate e à controvérsia, representou uma opção para os que acreditam no papel do intelectual como um produtor da história, e não como um mero comentador dela.
Na apresentação do livro, a autora lança mão de uma frase síntese do Manifesto da Antropofagia Periférica: “A arte que liberta, não pode vir da mão que escraviza”. E enfatiza: “O problema de se idealizar a literatura é o que essa idealização acaba escondendo”. Segundo Regina Dalcastagnè, das teorias que afirmam a literatura como um espaço aberto à diversidade até aqueles que a prescrevem como remédio para as mais variadas mazelas sociais (da desinformação à ausência de cidadania), podemos acompanhar o processo de idealização de um meio expressivo que é tão contaminado ideologicamente quanto qualquer outro, pelo simples fato de ser construído, avaliado e legitimado em meio a disputas por reconhecimento de poder.
No Brasil, hoje, afirma a organizadora do livro, os autores são, em sua quase totalidade, homens, brancos e de classe média. Eles reclamam das dificuldades enfrentadas para publicar, ser lidos e, obviamente, sobreviver. Mas adverte: “Reconhecer essas dificuldades no campo literário não pode equivaler a entendê-las como as únicas existentes, nem como as mais sérias”.
Dalcastagnè afirma ainda na apresentação do livro que “é claro que os tempos mudaram, que algumas lutas por direitos civis desembocaram também na literatura, fazendo com que mulheres, negros, homossexuais, índios começassem, timidamente, a escrever”. No entanto, a autora destaca que eles ainda não foram incorporados de fato. E promover o rompimento com a estrutura dominante de pensamento é muito mais difícil quando não se percebe, ou não se assume, que nosso olhar pé construído, que nossa relação com o mundo é intermediada pela história, pela política, pelas estruturas sociais.
Negar isto, garante Regina Dalcastagnè, é insistir na perpetuação de uma forma de violência, que elimina da literatura tudo o que traz as marcas da diferença social e expulsa para os guetos tantas vozes criadoras. A autora destaca a importância da discussão sobre o modo como a narrativa atual engendra o olhar em seu interior, especialmente o olhar que incide sobre aqueles que a sociedade brasileira não quer ver: estranhamento, exotismo, crueldade, melancolia, cinismo, testemunho são termos que reaparecem aqui e ali, seja como centro da análise, seja como uma tentativa de discernir o que se passa do lado de dentro da obra, ou mesmo nas suas cercanias, quando se analisa a maneira como representantes de determinados grupos sociais são recebidos, ou não, no campo literário brasileiro.
Um bloco de textos agrupados no livro tem como fonte o olhar. Um segundo bloco abrange artigos voltados para a questão da violência. O terceiro bloco trata do problema da exclusão. A temática da fronteira entre a loucura e a razão também marca presença no livro.
No texto “Uma sociedade do olhar: reflexões sobre a ficção brasileira”, de Lucia Helena, a sociedade do olhar é revirada de cabeça para baixo. Segundo a pesquisadora do CNPq, “Um bombardeio de ícones congestiona a paisagem e, queiramos ou não, altera a convivência, a percepção de nós mesmos e dos outros e, principalmente, nossas formas de sentir e pensar. Daí a flagrante presença do tema na ficção brasileira, desde as três últimas décadas do século XX”. Para Lucia Helena, na sociedade do olhar, todos espiam, mesmo que não voluntariamente, o que não quer dizer que enxerguemos melhor. Ainda na abordagem da ensaísta, “olhar, espiar, flagrar, observar são modos de ser de um eu que se pulveriza nos ‘fotogramas’ de uma subjetividade que se (re)conhece como imagem, ela mesma, captada e construída, ao mesmo tempo, no conluio do ser consigo e com o que dele diz a avassaladora carga de flashes a que um cotidiano violento o submete e ao qual ele reage”. E Lucia Helena enfatiza: “ser e atuar andam juntos na pós-modernidade”.
Já no ensaio “Cenas da crueldade: ficção e experiência urbana”, Ângela Maria Dias traça um painel da estreita relação da literatura brasileira contemporânea com a vida urbana e ressalta que essa perspectiva vem configurando uma recorrente perplexidade diante da experiência histórica, ficcionalizada como absurda e inverossímil. A também pesquisadora do CNPq aponta que “além da crueldade da convivência nas metrópolis ocupadas pelo presente perpétuo das imagens e pelo cortejo dos males da desigualdade social, o real transparece como trauma”. A ensaísta lança mão do conto “Intestino grosso”, do escritor Rubem Fonseca, de 1975, para destacar que a cena das cidades empilhadas do presente só pode apresentar, como alternativa à “fantasia oferecida às massas pela televisão hoje”, o avesso de “uma literatura de autor ou de mestre”, que seu personagem batizou de “pornografia terrorista”.
Em seu texto intitulado “No fio da navalha: literatura e violência no Brasil de hoje”, Tânia Pellegrini argumenta que há quem afirme que o conjunto da cultura brasileira atualmente exige novos modelos de análise, capazes de estimular novas leituras e interpretações, uma vez que a tendência à exarcebação da violência e da crueldade, com a descrição minuciosa de atrocidades, sevícias e escatologia, vem pontuando cada vez mais tanto as narrativas literárias quanto as audiovisuais, do cinema ou da televisão. E arremata: “Como se a dramatização do princípio da violência passasse a ser a diretriz principal da organização formal, com seu caráter inarredável e obsceno, subsumindo tempos e espaços, personagens e situações”.
Ao traçar um “Breve mapeamento das relações entre violência e cultura no Brasil contemporâneo”, Karl Erik Schollhammer adverte que a intenção de seu ensaio não é discutir o fenômeno da violência brasileira do ponto de vista sociológico nem político, senão tentar refletir sobre o papel da violência dentro da produção artístico-cultural e literária dos últimos anos. Sem pretender explicar o fenômeno histórico da violência no Brasil e nem de dar conta da pluralidade de seus parâmetros culturais, sociais e econômicos, o ensaísta afirma que, ao estabelecer uma relação entre a violência e as manifestações culturais e artísticas, busca deixar claro que a representação da violência manifesta uma tentativa viva na cultura brasileira de interpretar a realidade contemporânea e de apropriar dela, artisticamente, de maneira mais “real”, com o objetivo de intervir nos processos culturais. Segundo Karl Erik: “As iniciativas civis de combate à violência que surgiram durante os últimos anos oferecem um caminho absolutamente compreensível e justificado, porém não suficientemente eficazes diante do vácuo simbólico resultante da desagregação social”. E alfineta: “Se a violência é a brutal expressão de uma ausência de negociação social, ao mesmo tempo é a demanda impotente de outra forma de simbolização, cuja energia pode ser um poderoso agente nas dinâmicas sociais”.
No ensaio “Vozes nas sombras: representação e legitimidade na narrativa contemporânea”, a ensaísta e organizadora do livro, Regina Dalcastagnè, afirma que o silêncio dos marginalizados é coberto por vozes que se sobrepõem a ele, vozes que buscam falar em nome deles, mas também, por vezes, é quebrado pela produção literária de seus próprios integrantes. Segundo a pesquisadora do CNPq: “O problema da representatividade, portanto, não se resume à honestidade na busca pelo olhar do outro ou ao respeito por suas peculiaridades. Está em questão a diversidade de percepções do mundo, que depende do acesso à voz e não é suprida pela boa vontade daqueles que monopolizam os lugares de fala”.
Enfim, o livro é um convite à reflexão sobre as relações entre a violência, a exclusão, a desigualdade e a cultura no Brasil de nossos dias.
(*)Jorge Sanglard- Jornalista brasileiro, pesquisador e organizador da antologia "Poesia em Movimento"
1.6.08
1968, por aí...Memórias Burlescas da Ditadura

(Nosso amigo e editor do ViaPolítica Omar L. de Barros Filho fez uma bela resenha do livro "1968 por aí...Memórias Burlescas da Ditadura" de Mouzar Benedito , bendito contador de causos, jornalista e escritor que lança seu olhar irônico sobre o ano em que aqueles garotos queriam apenas mudar o mundo.)
O jornalista, geógrafo e tropeiro Mouzar Benedito, um dos patronos do reconhecimento do Saci como brasileiro honorário e colunista de ViaPolítica, acaba de lançar, em São Paulo, o livro 1968, por aí... Memórias burlescas da ditadura. É difícil não admirar o original trabalho de Mouzar Benedito justo na época em que prolifera a erva daninha da literatura transgênica do tipo terminator, cujas sementes sem pátria são proibidas de brotar na geração seguinte.
Ao contrário, este mineiro egresso do berço materno em Nova Resende, perito em cachaças (das boas ou daquelas matadoras), especializou-se em Brasil, e em descobrir nossa identidade, nossas mazelas e virtudes, o que revela e semeia país adentro. E sempre com um olhar crítico e bem humorado, voltado para o patético da existência de Sua Excelência, o brasileiro.
Agora, com 1968, por aí... Mouzar Benedito deixa as estradas poeirentas do sertão e transfere-se para o mundo estudantil em revolução. Há 40 anos, como muitos ainda lembram, a América Latina fervia sob as botas militares. Nosso autor, naqueles tempos um estudante de geografia da Universidade de São Paulo (USP), já enchia a cara de trago, jogava conversa fora, e matava os amigos de rir no sem fim de enredadas conspirações de botequim. O epílogo, não se sabe ao certo até hoje, foi desfavorável para a milicada, mas que Mouzar Benedito colocou seu grão de areia no angu verde-oliva, isso ninguém pode negar.
Acho que a maior contribuição deste escritor mineiro – protagonista e testemunha do processo histórico – ao desfecho da etapa histórica iniciada há 40 anos, foi mesmo o tiro fijo do humor singelo e admirado pelas coisas do Brasil. E aí entra o povinho que habita os grotões, estando ele nas lonjuras rurais, periferias urbanas, universidades, passeatas, quartéis ou na melhor mesa do bar, nós mesmos. Esse contador de histórias é antes de tudo um inveterado gozador, que faz piadas com a desgraça alheia e a sua própria. Ele descobriu cedo que só existem duas maneiras de sobreviver na selva de Macondo: ou ser imortal ou rir até morrer.
A seguir, alguns breves episódios de 1968, por aí... Memórias burlescas da ditadura, selecionados pelo autor para os leitores de ViaPolítica.
Milagre: tô fora!
Ocorreu durante o governo Médici o chamado “milagre brasileiro”, com o país crescendo mais de 10% ao ano e a classe média ganhando mais (os operários, nem tanto: o milagreiro Delfim Netto não queria que eles participassem da festa, dividir os lucros, dizia que tinha primeiro que esperar o bolo crescer para depois dividir, e a divisão nunca aconteceu, não é?).
Começou uma onda de viagens ao exterior como nunca tinha acontecido. Eu mesmo, com bom emprego no Sesc, estava ganhando bem e podia viajar pra fora, mas evitava, preferi conhecer o Brasil. Já vinha viajando de carona, de trem, em situações precárias, no milagre passei a viajar com mais dinheiro, mas sempre pelo Brasil, com pequenas incursões ao Paraguai e à Bolívia. Um dos motivos era que eu queria conhecer o Brasil mesmo, outro era que só de ouvir os relatos de comportamentos de brasileiros endinheirados no exterior eu ficava morrendo de vergonha.
Uma moça que foi numa excursão para a Argentina me contou com alegria:
— Nós fomos num ônibus só de brasileiros a uma casa de tango, mas levamos surdo, tamborim, tudo, e entramos batucando e dançando samba. Acabamos com o tango deles a noite inteira.
Nos aviões que chegavam do Brasil a alguns países europeus (soube que aconteceu inclusive na Inglaterra), quando abriam a porta para os passageiros saírem, em vez de gente o que saía primeiro era uma bola e atrás dela um monte de caras se exibindo como originários do “país do futebol”.
Na Bélgica, uma amiga viu uma loja com uma placa escrita em português, na porta: “Proibida a entrada de brasileiros”. Isto porque muitos achavam que tinham que roubar alguma coisa da loja, trazer um souvenir roubado.
Vários exilados me contaram que quando encontravam grupos de excursionistas do Brasil fingiam ser estrangeiros, não falavam português, por vergonha de ver o que faziam.
Isso fora a breguice da maioria de nossos conterrâneos ascendentes social e economicamente. Ficou famosa a história de uma mulher (saiu até em reportagens) que entrou num táxi e pediu para ir ao Museu do Louvre. O táxi parou em frente a ele, a mulher olhou, olhou, sem descer, e disse:
— Agora vamos à Torre Eiffel.
É assim que faziam atividades “culturais”, conheciam os lugares.
Outra visitou um apartamento em que moravam brasileiros, resolveu fazer uma comida para a turma e precisava de canela. Foi a uma farmácia (!) comprar a dita cuja, não sabia como era a palavra canela em francês e julgou que era só pôr um acento no final. Começou a pedir “canelá”. Como ninguém entendia o que ela queria, ela levantou um pouco a calça na altura da canela e batia na perna, insistindo: “canelá, canelá”.
Diz o dito popular
Não eram só turistas deslumbrados que faziam besteiras. Alguns exilados de verdade, até de nível universitário, também davam suas bolas foras. Como alguns que aprenderam francês no Brasil. Um deles, recém-chegado em Paris, foi levado pelo seu grupo de esquerda para uma reunião com militantes franceses. No meio da discussão, quis se exibir, dizer que com ele tudo era assim “pão-pão; queijo-queijo”. Achou que podia simplesmente traduzir esse ditado literalmente e sapecou:
— Avec moi c’est ainsi: pain-pain; fromage-fromage.
Os franceses ficaram olhando com cara de quem não entendia nada que o cara falava e ele não entendia a cara de espanto deles, ficou se sentindo o máximo.
Interrogatório difícil
Titomu era colega de faculdade. Quer dizer, da Geografia. Tímido, gaguejava demais. Na frente de qualquer moça, era uma dificuldade falar com ele. Na madrugada de 17 de dezembro de 1968, descobrimos que era também sonâmbulo. Foi quando os militares, utilizando um grande contingente de soldados e armamentos de todos os tipos, invadiram o Crusp, onde morávamos, considerado, ao lado da Faculdade de Filosofia da USP, um dos maiores focos de contestação ao regime.
Eles chegaram às 4 horas da manhã. Quando acordamos com o barulho, estávamos cercados de soldados e veículos militares, que rodearam todo o conjunto de prédios, todos com armas pesadas apontadas para nós. O Titomu morava no mesmo prédio que eu, o Bloco F, com o Ariovaldo e não sei quem mais. Das janelas, todos olhávamos a movimentação das “gloriosas” forças armadas, avaliando se havia possibilidade de fuga, quando o Titomu falou para o Ariovaldo, sem gaguejar:
— Vou lá conversar com eles.
Ninguém deu bola, achando que ele brincava, mas foi. Quando viram, ele estava saindo do prédio, de peito aberto, rumo a um tanque de guerra. Todo mundo gritava pra ele voltar, mas ele nem ouvia. Estava dormindo! Era sonâmbulo.
De repente, vários soldados pularam sobre ele. Foi aí que acordou, sem entender o que estava acontecendo. Foi jogado dentro de um caminhão coberto com uma lona, onde um coronel tentou interrogá-lo durante horas. Às 11h da manhã, estávamos todos presos, esperando transporte para nos levar ao presídio Tiradentes, e vimos soldados descerem o Titomu do caminhão. Veio para junto de nós, para ir preso também. Perguntei o que fizeram com ele. Disse que o coronel queria saber que tipos de armas nós tínhamos. Mas para isso gastou mais de meia hora, de verdade. Segundo ele, o coronel fez mais duas perguntas. Ele quis nos contar como foi, mas é claro que desisti de ouvir...
— Do Titomu ninguém arranca informação nenhuma... — concluímos. — O coronel se ferrou nessa. Imagine ouvir o Titomu nervoso!
Preso de novo
Para justificar a invasão do Crusp, foi instaurado um IPM (Inquérito Policial Militar — uma coisa temida durante a ditadura), que tinha a função de provar que havia lá dentro um foco de guerrilhas e outras coisas. Um exemplo ridículo de acusações era que lá não havia nenhuma virgem. As moradoras trepavam, diziam os acusadores.
Logo nos primeiros dias de 1969, consegui licença para retirar meus pertences no apartamento em que morava com mais três colegas — Chico Beltramini, estudante de Geografia; Osvaldo Siqueira, de História; e João Chalita, de Economia. Era retirar mesmo, pois não havia chance de voltarmos para lá.
Todas as minhas roupas razoáveis haviam sido roubadas, assim como todos os livros com aparência de maior valor, para vender nos sebos, além daqueles com títulos suspeitos, apreendidos como “provas” que o Crusp era um centro de subversão e treinamento de guerrilha.
O material de cartografia, todo importado, que comprei a duras penas, pagando prestações, dançou também. Sobrou para mim uma malinha pequena de roupas velhas e outra de livros sem capa ou muito manuseados. Mais tarde cheguei a uma conclusão interessante: nunca fui tão livre quanto nesse tempo em que não tinha mais nada. Mudei seis ou sete vezes em um ano e nem precisava pegar táxi, ia com uma malinha de livros numa mão e uma de roupas na outra. Hoje, cada vez que tenho que me mudar, me lembro disso com saudade. Nada de geladeira, mesa, cama, roupa de cama, estantes e muitos livros para levar.
Bem. Encontrei alguns dias mais tarde com meus três ex-companheiros de moradia, que também haviam sido roubados, saqueados pelo Exército e pela polícia, e resolvemos ir nós quatro juntos fazer uma reclamação. Procuramos o coronel Alvim, que comandava as tropas que permaneceram no Crusp e era o responsável pelo IPM, mas nem tivemos tempo de abrir a boca. Sem ele nem saber quem éramos, teve um ataque histérico, xingando a Polícia Militar, que fazia a guarda dos prédios, me apontando e dizendo que a polícia militar era tão incompetente que deixava um terrorista andar por ali sem fazer nada. Vi aí uma rusga entre o Exército e a PM. Mas o certo é que o coronel mandou nos prender. Fomos logo cercados por uns trinta soldados, comandados por um tenente, armados e com medo da nossa reação, pois éramos “terroristas” muito perigosos.
Enquanto discutiam para onde nos mandavam, colocaram a gente num apartamento do Bloco A, do Crusp, prédio em que — no tempo que servia de moradia estudantil — só moravam mulheres.
Fomos colocados num quarto, com soldados na porta e outros na porta do apartamento. Éramos perigosos mesmo, hein?! Estávamos putos da vida e não podíamos nem conversar. Lembrei-me então de folhar o jornal que levava, e os soldados não me incomodaram. De repente, me levantei e pedi para um deles:
— Chame o tenente, por favor. Preciso falar com ele urgente.
Ele ficou meio sem saber o que fazer, falou com outro, saiu e logo voltou com o tenente, que estava tenso, aparentemente com um pouco de medo.
— O que você quer? — perguntou.
— Quero te avisar que não posso ficar preso hoje.
Ele fez cara de surpresa e nem partiu para a porrada, o que era de se esperar na época.
— Por que não? — perguntou.
Abri o jornal e mostrei o horóscopo pra ele:
— Veja aqui o meu signo, Sagitário. Olha o que está escrito: “Não mantenha-se isolado”.
Ele saiu dando risada, e o que eu queria que fosse uma gozação serviu pra quebrar o clima hostil.
1968, por aí... Memórias burlescas da ditadura, de Mouzar Benedito
Editora Publisher Brasil
livros@publisherbrasil.com.br
www.publisherbrasil.com.br
Tel: (11) 3813 1836
Mais sobre Mouzar Benedito
Leia outros textos de Mouzar Benedito na coluna Brasil Adentro, de ViaPolítica, em
http://www.viapolitica.com.br/brasil_view... e nas edições anteriores.
Mais sobre Omar L. de Barros Filho
E-mail: omar@viapolitica.com.br
Versus agora em Site

A heróica publicação (Foi um Jornal...uma Revista?) Versus, fenômeno de qualidade da Imprensa Alternativa da década de 70 está de volta, agora na forma de um site.
A iniciativa é de Omar L. de Barros Filho em parceria com a jornalista Sylvia Bojunga. Omar, que a gente chamava de Matico, foi editor de Versus e atualmente edita também o site ViaPolítica (que pode ser achado nos meus preferidos aí do lado)
O endereço do site de Versus é
http://www.versus.jor.br/
Enquanto meu Site não sai...Caricatura de Conjunto
31.5.08
Minha vizinha Chavista ressuscita e faz a crítica final da novela Duas Caras

Foi neste sábado, dia de fazer feira, arrumar a casa e ver as modas, acordar TARDE!
Dim-dom...Dim-dom.... Tocou a campainha do meu apartamento logo cedinho, minha mulher para variar orava pelo bem estar do universo e nesse afazer não pode ser interrompida.
Cheio de sono fui trôpego até o olho mágico para tentar ver quem perturbava meus sonhos mais lindos. Vi um vulto escuro que me apavorou. Parecia um fantasma...
Dim-dom, Dim-dom....
-Quem é? Perguntei intrigado.
-Soy yo, compañero!
Reconheci a voz inconfundível da minha vizinha chavista. (ela deu agora para falar em portunhol)
Procurei a chave na mesinha da sala...no meio de desenhos, canetas de nanquim, recados de todos os tipos, rolos de durex, tickets de supermercado e uma calcuradora Texas... Achei o chaveiro que tem como penduricalho um plástico imitando uma camisa do Botafogo. Estava úmido pelas últimas lágrimas da derrota para o Corinthians...
Mal abri a porta e tomei um novo susto - minha vizinha estava de burca!
-O que é isso Dona.... (sempre esqueço o nome dela)
- É para fugir da dengue, não estranhe o cheiro - é perfume de citronela, estou me defumando em casa com velas de citronela e andiroba. Não estranhe esta raquete- é elétrica, funciona a pilha, comprei num camelô da Uruguaiana, é ótima pra matar mosquisto. Eles morrem tostadinhos. Mas não foi para lhe dar explicações que vim aqui.
- Tá certa! Então por que foi que a senhora veio bater na porta do meu apartamento nessa hora tão temprana?
- É que quero que você escreva no seu grogue (ela nunca vai aprender que eu escrevo um blogue) a minha crítica definitiva da novela Duas Caras. Tem uma caneta?
Lá fui eu de novo cavoucar a minha mesinha a procura de alguma coisa que escrevesse e um papel em branco. (Obs: casa de desenhista em geral quase não tem lápis com ponta e caneta com tinta)
- Fala, Dona....(acho que nunca vou saber o nome dela)
-Escreva aí! - "Crítica definitiva , curta e grossa da novela Duas Caras, que termina hoje e que teve a coragem de botar na sala de estar das famílias brasileiras o cotidiano de uma favela atípica do Rio de Janeiro":- Foi o maior barraco! E não é uma metáfora, não.Todos os personagens armaram literalmente barracos o tempo todo: O Juvenal Antena, a Dona Branca , proprietária e viuva do reitor da Universidade Pessoas de Moraes, a destrambelhada da Célia Mara, a maluca da Sylvia , a Maria Louca , etc, etc etc...Enfim, o sujeito mais comportado da novela foi o Ferraço com uma interpretação magnífica do Dalton (ela tem mania de falar dos atores como se tivesse a maior intimidade com eles). Ele teve uma atuação digna de Victor Mature. Com uma só expressão conseguiu comunicar todos os estados de alma de seu personagem Um gênio da síntese.
Tenho dito! E ponha também no seu grogue estas reflexões - Foi aí que tirou de dentro da burca um papel onde estava ecrito "Teoria da novela". E se mandou para seu refúgio anti-aedes aegypt (é assim que se escreve?)
Eu fiquei ali, com minhas olheiras, com minha perplexidade olhando aquele papel que me revelou a insustentável leveza do ser de minha vizinha chavista...(publico qualquer dia aqui)
Agora, deixem-me dormir...ZZZZZ
(De noite, fui conferir o último capítulo de Duas Caras e prometi a mim mesmo que nunca mais vejo novela)
Enquanto meu Site não sai...Ilustra "Martelo pregado"
29.5.08
O Salão Carioca de Humor vem aí...
Auguri - Festa Italiana no Centro do Rio

Samba e tarantella animam festa ao ar livre no Centro do Rio
Uma inusitada mistura de samba e tarantella no Centro do Rio promete animar o fim de semana de 30/05 a 01/06. É a IV Festa da República Italiana, que no melhor estilo das festas de rua das cidades do interior da Itália, reúne, anualmente, na Praça Vírgilio de Mello Franco, no Castelo, cerca de 50 mil pessoas.
Este ano, as atrações musicais incluem os prestigiados e carioquíssimos grupos de samba como o Fundo de Quintal, Casuarina e a Orquestra Tabajara e atrações italianíssimas como o tenor Alessandro Safina, os grupos folclóricos Arcobaleno, Tarantolato e as orquestras Bianchinni e Felice Itália.
− Nosso objetivo é festejar os 62 anos da nossa República e estreitar ainda mais os laços entre brasileiros e italianos. Afinal, a colônia no Estado tem aproximadamente um milhão de italianos e descendentes. − informa o organizador e cônsul-geral da Itália no Rio de Janeiro, Massimo Bellelli, que não esconde uma ponta de orgulho ao constatar que o evento já entrou para o calendário da cidade e a cada ano atrai mais visitantes.
À parte do farto cardápio musical, acontece a Feira das Regiões e dos Produtos, que homenageará a Calábria, região de onde provém 70% dos italianos que emigraram para o Brasil. São 20 barracas de venda de produtos típicos como vinhos, salames, presuntos, queijos, cafés e doces diversos.
A praça de alimentação, com mais 20 barracas, terá estrelas da gastronomia, como o chefe de cozinha Mario Tacconi, o pizzaiollo do Domingão do Faustão em 2001 e 2002, que, em sua barraca, apresentará inovações como variadas versões de risoto, além, é claro, de muito macarrão e pizza.
A IV Festa da República Italiana, com entrada franca, será na Praça Virgilio de Melo Franco, localizada nos fundos Consulado-Geral da Itália, com acesso pela Avenida Franklin Roosevelt. O funcionamento obedece os seguintes horários: 30/05 (sexta- feira), das 18:00 às 23:00h; 31/05 (sábado), das 15:00 h às 22:30h e 1/06( domingo) das 15:00 às 22:30h.
Programação de shows:
30 de maio (Sexta-feira)
18:00h − Orquestra Tabajara
22:00h − Casuarina
31 de maio ( Sábado)
15:00h −Apresentação dos alunos da Escola Italiana
15:30h – Coral da Associação Abita
16:30h – Grupo Folclórico Tarantolato
17:15h − Daniella Colla
18:00h – Bianchinni Orquestra Show
21:00h − Alessandro Safina
1 de junho (Domingo)
15:00h − Projeto Luar de Dança
16:00h− Coral do Circolo Italiano
17:00h− Grupo Folclórico Arcobaleno
18:00h− Orquestra Felice Itália
21:30h− Fundo de Quintal
ESSEPÊ - um cometimento poético

(Generalizações, reducionismos, simplificações, parcialidades, preconceitos vários, obsessões, implicâncias...tudo isto e algo mais que sempre esqueço de dizer fazem parte da crônica, acrescidos esses pecados de uma dose de petulância e de um certo ar de caga regra de quem fala.
É por essas e outras que sou suspeito quando escrevo sobre a Paulicéia desvairada.
Mas hoje vou partir para um cometimento poético que começou a acontecer enquanto rodava nas linhas do metrô sentido zona norte... espero que me desculpem o atrevimento)...
ESSEPÊ
São Paulo, cidade de
São Paulo, essepê
Semáforos em transe...
Primeira geração digital e pré-história na 23 de maio engarrafados/
Cemitério do Araçá guarda meus mortos, benza Deus!
Cidade,metróple,megalópole,
Abrigo e túmulo de migrantes
Mistura terminal e casa modernista/
Presídio que vira praça
Praça que vira presídio...
Paradoxos, xerox, compro ouro!
Massas e I pod, café expresso na galeria Olido
Avenida Paulista, rolex que brilha sob a chuva ácida
Cine Vera virou casa de forró
Mendigos embaixo do viaduto celebram com CO2 o sucesso do novo plano urbanístico
Miséria high tech?
Luz, Tiradentes...Onde andará a menina linda da avenida Água Fria?
Cidade mãe com nome de santo - cidade travesti ou...
...Medéia ensandecida que mata seus filhos com hamburgers
Aristocracia de 450 anos em banheiras J'Accuse!
Zola nunca te imaginaria assim tão germinal
Burguesia de Caras maquiadas, sorry dentes no programa de TV
Periferia mardita, fossa, poço artesiano onde falta cano
Well then what can a poor boy do
Except to sing for a rock 'n' roll band
Serra da Cantareira, horto florestal, domingueira subalterna
Operário dormindo no vagão, 19 horas em ponto/
Pichação no monumento das Bandeiras: - Empurra que vai!
Movimento CON CRE TO
Reconhecimento de gêmeos pichadores globalizados
London Calling...motoboys em ação, zig,zag...movimento abstrato
Cada um por sí e Deus contra!
Cadê o chá das 5 do Mappim?
e a Barão de Hip Tapete ...Ninja? - Quero um calçado de cromo alemão!
Uma anta no vale do Anhangabau pergunta por Macunaíma...
- Cadê o coração dos outros?
Cinema boca do lixo, Bandido da luz vermelha/ O grande momento!
Onde antigamente tinha erva mate e hoje corre um rio sufocado,
achei o Buraco do Adhemar!
Viaduto Santa Efigênia dourado? São Bento corado? Angelus e sino tocando
Meio dia macacada! Uma hora para o almoço, cartão de ponto...
Mário, arrebenta tua lira! Arlequinal, arlequinal... escarra no Minhocão
Desvia as águas espraiadas para o Tietê, marginal!
Paca, tatu, cotia não...Paca, tatu, cotia não!
Perderam meu nonno Gaetano na revolução de 32
Punk e Emos fora de lugar, Tarsila cadê meu "Estadão"?
Tá com o Lobato lá no Sítio!
Estatuto do coração, Raízes do Brasil, Rua Cuba, anime, mangá
- Mano me dá uma mano, che!
Bolivianos escravos costuram o bom retiro
Guevara se perdeu na mata hermano, ahora ninguém é de ninguém na vida todo passa
Coreanos enjaulados à espreita no container - Haverá um mundo lá fora?
O Torá, onde está, amici miei?...
Lá sei eu! Eu não sou daqui, tô de passagem...
Espanca o cara meus! Mói os ossos do tapuia , depois joga no Museu do Ipiranga,
Proclama a independência! /
Faz uma tatuagem, e o perito que não chega!
Arigatô, Sharihotsu!
Cidade provisória, casas de pedra só em Santos!
Tudo a ver na Sloper, Dalu, fashion Week, Bienal, Anhembi, Galerias, Shopping Centers/
Rua Alasca
- Nada vejo, a não ser neblina, vou bater o coco...
Crack! Boa Vista, Largo São Francisco, Ladeira da Memória
Cidade fantasmagórica, lume móbile na cracolândia
Teatro Municipal leva ópera que barra funda! Que barafunda!
O tenor canta a soprano...o rei da vela pede smoke
Arquitetura em transe...Copan e Morumbi,
FAU, vão central, Masp, cadeiras de Lina Bo...
Ladrões de Picasso e Portinari correm para o Embu
E eu com isso, Guaçú!?
Pizzas e sábados todos iguais...Padaria cheia
Casa Verde , Mandaqui, manda ali...Mercadão, mortadela!
Me dá um bauru, mas sem picles!
E aqueles ojos verdes? Eu os comeria a vinagrete.
Chaminé sozinha em Santana observa um templo
fiéis às pencas...
O padre en-canta o Ibirapoeira
Mooca imortal, rua dos Italianos...
Vila Galvão, Trem das Onze/ Arnesto nos convidou prum samba, ele mora do Brás/
Nóis fumo e não encontremo ninguém...
O Bexiga canta numa cantina
Pão quentinho , inigualável, macarronada da mamma
Homenagem aos mortos do massacre da Armênia ao lado do Tamanduá-teí
Baladas, xavecos, playboys, hip hop...
Putas na Augusta e o movimento perpétuo
Na Aurora mulheres da vida sonolentas sacodem os quadris nos inferninhos
- Manda um "Fogo Paulista" goela abaixo e esquece...
Meu pai remando no Tietê. Sai daí véio!
Priscila rainha do deserto do Tucuruvi abre o casaco em frente ao Belas Artes
Nos subterrênos da Consolação o Primo Basílio conversa com Elias Canetti
Enquanto na Baixada do Glicério, no Paulistano da Glória homens negros elegantes esquentam os tamborins, Vinicius se enganou redonda-mente
Liberdade e Paraíso viraram estações, meu Deus, onde está a Sé nisso tudo?
Marco Zero da civilização! Capital monopolista, pirâmide da indústria , topo panóptico da America Latina!
Borba Gato tá se achando!
Cidade sem outdoors...tem cimento no meu capuccino!
Helicópteros levam a nova classe
por cima dos edifícios e antenas
captam o som da nova era : Não é o Som de Cristal. - Já era! - Qual a cotação da Bolsa de Valores, primo? Te liga no Mercado Futuro, tá ligado?
Ruído...- Desce um Pignatari!...
- Me serve um "Baião de dois"!...
Artigo do professor da USP explica o nacional-popular
A Gazeta é esportiva ...escadarias/ Cásper Líbero
Ao fundo ouço um gol...-Foi do Curintia ou do Parmera?...- Foi do Sumpaulo?
- Não , foi do Juventus...da rua Bariri. Você se alembra? É rua Javari, seu stronzo!
A mardita pinga que me atrapaia/
Veloz passa a noite e um novo sol nascerá violeta
atrás da nuvem cigana, milhões de carros como gafanhotos virão para o apocalipse
e novos baianos te curtem numa boa/ na Vila Madalena/
A espanhola perdeu o gato, seo Rubinato!
Praça da Res-púbica abrigava patinhos
A do Patriarca patrões...fascismus architetonicus no Anhangabau da felicidade
Cavo e no fundo do quintal, acho um cachorro morto,
É um lobo! É um lobo? É cachorro, meu pai jogou no bicho/
E esse livro do Engels embaixo das tábuas do assoalho? Isso é conto da carochinha...Vire a página! -Quem hoje quer saber a história da Família e da Propriedade Privada? Sem essa...
Esqueci de chorar na rua Barão de Limeira.
Lá passei minha adolescência. Quando fiz 18 anos me mandei pra São Miguel Paulista...
Fui ser químico, zio Vincenzino...encher de mata-baratas latas de aerosol. Mas isso foi em Santo Amaro...fazia um frrrrio!!! Como tem santo nessa terra de Piratininga!
-Matou alguma barata figlio mio? - Necas, mas nunca mais peguei pulga. Kafka aqui ia se dar bem.- Ciao bambino, ciao...
Onde é a saída, zio?
-Pega a marginal Pinheiros e dobra à direita, sempre à direita...
-Eu volto, um dia eu volto, Voltolino!...
28.5.08
Hoje Fernando Pacheco Fogo e Pátina no Espaço de Cinema
A Editora C/Arte e Livraria Luzes da Cidade de Botafogo
convidam seus clientes e amigos para o lançamento do livro
FERNANDO PACHECO, FOGO E PÁTINA
no próximo dia 28 de maio, quarta-feira, à partir das 19 horas.
Rua Voluntários da Pátria, 35 - dentro do Espaço de Cinema.
Tel: (21) 2226-4108
Fernando Pacheco , Fogo e Pátina , texto de Jacob Klintowitz, apresentação de José Eduardo Gonçalves , editora C/Arte, Belo Horizonte, MG, 2007, 192 páginas, fartamente ilustrado, edição bilíngüe (português/inglês, R$ 120 reais).
Fernando Pacheco, o pintor mineiro-universal tem sua obra de cunho expressionista fartamente exposta e destrinchada neste volume de excelente qualidade gráfica. Filho deste Brasil imenso, onde em cada cantão desponta um mestre, Fernando é, ele mesmo, o "fogo e a pátina" que jorram de suas mãos.
Caro leitor prepare-se para o show de cores que cobre madeira, pedra, vidro, papelão, papel e tela. Mala, sandália e garrafa. O pincel engenhoso do pintor Fernando Pacheco não conhece limites.
convidam seus clientes e amigos para o lançamento do livro
FERNANDO PACHECO, FOGO E PÁTINA
no próximo dia 28 de maio, quarta-feira, à partir das 19 horas.
Rua Voluntários da Pátria, 35 - dentro do Espaço de Cinema.
Tel: (21) 2226-4108
Fernando Pacheco , Fogo e Pátina , texto de Jacob Klintowitz, apresentação de José Eduardo Gonçalves , editora C/Arte, Belo Horizonte, MG, 2007, 192 páginas, fartamente ilustrado, edição bilíngüe (português/inglês, R$ 120 reais).
Fernando Pacheco, o pintor mineiro-universal tem sua obra de cunho expressionista fartamente exposta e destrinchada neste volume de excelente qualidade gráfica. Filho deste Brasil imenso, onde em cada cantão desponta um mestre, Fernando é, ele mesmo, o "fogo e a pátina" que jorram de suas mãos.
Caro leitor prepare-se para o show de cores que cobre madeira, pedra, vidro, papelão, papel e tela. Mala, sandália e garrafa. O pincel engenhoso do pintor Fernando Pacheco não conhece limites.
27.5.08
1968, por aí ... Hoje no Bar Canto Madalena
Partidos e Homens Partidos

(Este artigo do Professor Marco Aurélio Nogueira foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo no 24 de maio de 2008)
Não vivemos somente um "tempo de partido, tempo de homens partidos", como diz a poesia de Drummond. O nosso também é um tempo de partidos partidos.
Os partidos políticos sempre se caracterizam pela divisão interna. Mesmo quando monoliticamente constituídos, são associações plurais, cortadas por distinções muitas vezes marcantes. Por existirem em função da conquista e da manutenção do poder, tudo neles adquire grande dose de tensão, virulência e dramaticidade. Como são compostos por diferentes grupos e pessoas, podem ser guiados mais por interesses e projetos particulares que por orientações coletivas. Isso é verdade especialmente se estas últimas derivarem de ordens e comandos estabelecidos de modo unilateral pelas direções centrais, que sempre poderão ser acusadas de não terem a devida sensibilidade para fatos e acontecimentos mais próximos das bases. Além do mais, os dirigentes de um partido podem se converter, eles mesmos, em uma parte dentre outras, transformando-se em uma oligarquia que termina por atazanar e desfibrar bases e militantes.
Tanto são divididos os partidos que boa parte de sua rotina é dedicada a compor consensos e unificar interesses. Não é por acaso que muito da discussão repouse na questão do modelo de deliberação a ser seguido. Há duas grandes formas de centralismo (ou seja, de coordenação e unificação) - o burocrático e o democrático - que refletem, tipicamente, processos de tomada de decisão em que o poder é imposto a partir de cima ou é construído a partir de baixo. Quando levado a sério e efetivamente praticado, o procedimento democrático é o único que consegue fazer com que as lutas internas em um partido terminem sem sangue, expulsões e dissidências. Tal procedimento, no entanto, exige que a dinâmica interna e a conduta pública do partido estejam impregnadas de idéias e princípios profundos, e só pode frutificar se o partido for ele próprio "aberto" para o mundo plural da sociedade.
Os embates partidários de hoje estão longe deste padrão. Primeiro, porque neles há poucas idéias e poucos parâmetros programáticos. Depois, porque as direções não têm peso e representatividade para conduzir o barco. Entre as alas dos partidos, inexistem divergências de fundo. Briga-se por migalhas, por postulações pessoais, por pretensões eleitorais. Na melhor hipótese, as disputas sugerem a existência de algum desentendimento doutrinário ou estratégico mas não são assumidas como tais.
Os casos que ocupam o noticiário brasileiro - o do PT em Minas, o do PSDB em São Paulo -, são emblemáticos desta situação. Alckmin quer ser candidato simplesmente por se julgar qualificado para o cargo, não por possuir proposta específica ou divergir em termos substantivos do que pensam os dirigentes de seu partido. Sequer questiona a aliança com os liberais do DEM, a ponto de iniciar sua campanha abraçado ao PTB e ao PSDC, que têm bem menos densidade e expressão. Faz isso por falta de opção e porque tem os olhos na propaganda eleitoral gratuita. Age por dinâmica própria, pouco se importando com a agenda futura do partido ou com o fato de seus companheiros vereadores pensarem de outro modo.
No caso do PT em Minas, as divergências são sérias. Tocam num ponto delicado da história do partido, o das alianças. Deve o PT privilegiar mais seus próprios interesses ou mais os interesses da sociedade? Deve governar compondo alianças que beneficiem a população e facilitem a implementação das melhores políticas ou fazê-lo com os olhos nas disputas eleitorais? Os adversários em um âmbito da federação devem sê-lo também em outro? Não são questões retóricas ou de detalhe, e diante delas não há como tergiversar, ou dizer que se deseja o melhor dos dois mundos.
Hoje está evidente que PT e PSDB não têm uma compreensão clara do papel que devem desempenhar, da estratégia a seguir, da contribuição que imaginam dar para a continuidade e o aprofundamento da democratização ou a eliminação da desigualdade social no Brasil. Como não há clareza teórica e programática nos partidos, como eles, a rigor, não sabem bem o que propor à sociedade e não possuem maior densidade cultural, as divergências fogem para os bastidores, ou seja, para as questões regionais, pessoais, grupais, que se tornam mais relevantes que as outras.
A situação desgasta os partidos no nível macro e no longo prazo, mas acaba por beneficiar suas correntes e lideranças de maior destaque, que exploram justamente as rusgas localizadas para ganhar terreno na luta interna, manejando desejos, vaidades e postulações. É bem verdade que neste universo, aparentemente louco e paradoxal, ninguém rasga dinheiro e as chances de unificação jamais desaparecem. Ainda quando divididos, raramente os partidos cometem suicídio. Chegam mesmo a alcançar alguma unidade de ação quando se trata de aumentar a força de seus candidatos.
O problema não é, portanto, de viabilidade eleitoral ou sobrevivência fisiológica, mas de razão de existir. Nosso tempo é certamente de homens partidos, mas talvez não seja mais um tempo de partido. É difícil tomar partido hoje em dia, ainda que seja fácil se indignar. E há algo na estrutura da vida atual que rouba condições de possibilidade aos partidos políticos. Eles vagam meio sem rumo, como mortos-vivos, no cenário contemporâneo.
Consequentemente, aqueles que se dedicam a mantê-los em funcionamento deveriam se preocupar em lhes dar oxigênio de melhor qualidade. Deveriam provê-los de idéias claras, identidades e estratégicas consistentes, paixão cívica e visão que ultrapasse a dimensão do poder. Coisas que estão uma camada acima do chão operacional e rotineiro da política. Este chão, no entanto, é onipresente, e tende a magnetizar tudo.
Marco Aurélio Nogueira é Sociólogo e Professor de Ciências Políticas
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