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Brasil festeja os 100 anos da obra prima Carinhoso e os 120 anos de Pixinguinha
Texto de Jorge Sanglard
(Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil)
Os 120 anos de Alfredo da Rocha Viana Filho (23/4/1897 Rio de Janeiro, RJ - 17/2/1973 Rio de Janeiro, RJ), o genial Pixinguinha, estão sendo celebrados, desde 23 de abril de 2017, e revelam o amor e o reconhecimento dos brasileiros pelo mestre do choro e da MPB. E o 23 de abril se transformou não só no dia de São Jorge, mas no Dia Nacional do Choro, para reverenciar o aniversário de Pixinguinha. Assim, mesmo tendo sido registrado em outra data, 4 de maio, como se descobriu há pouco tempo, o músico tem sua biografia ligada definitivamente ao 23 de abril. E, em 2017, comemora-se ainda os 100 anos de "Carinhoso", obra prima de sua autoria, criada em 1917, e que ganhou letra, em 1937, de Braguinha (Carlos Alberto Ferreira Braga, o João de Barro, Rio de Janeiro, 29 de março de 1907 - Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 2006).
O acervo pessoal do compositor, instrumentista, arranjador e maestro encontra-se sob a guarda do Instituto Moreira Salles (IMS) e, desde 2000, os documentos pessoais, medalhas, troféus, álbuns com recortes de jornal, centenas de fotos, roupas, registros de memória oral realizados por seu filho Alfredo da Rocha Vianna Neto, o Alfredinho, a flauta tocada durante décadas pelo músico e um lote de aproximadamente mil conjuntos de partituras com arranjos feitos por Pixinguinha ao longo da vida estão sendo digitalizadas, catalogadas e estão sendo consultadas e estudadas por músicos de todo o país e de fora. E esse resgate da criatividade de Pixinguinha é o maior tributo que se pode prestar ao seu talento musical.
O IMS, em parceria com o Hacklab, também homenageou o músico com a criação do site pixinguinha.com.br, reunindo e disponibilizando todo o acervo, sob a coordenação da pesquisadora Bia Paes Leme, que articulou junto com o pesquisador Pedro Aragão e o pesquisador e biógrafo de Pixinguinha, José Silas Xavier, a realização do primeiro catálogo crítico de obras de Pixinguinha, abrangendo 515 verbetes, onde se destacam cerca de 300 ou 400 músicas do autor, incluindo 45 preciosidades musicais ainda inéditas.
Portanto, ao celebrar o centenário de Carinhoso e os 120 anos do mestre Pixinguinha, o país reafirma a importância de um de seus mais influentes músicos do século XX e que, em pleno início de século XXI, permanece como uma das referências maiores da Música Popular Brasileira. A criatividade do arranjador, compositor, instrumentista e maestro só encontra paralelo em outros dois gigantes da nossa música: Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959) e Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994). Nunca é demais salientar que Villa-Lobos, Tom Jobim e Pixinguinha se constituíram na Santíssima Trindade da Música Popular Brasileira, e abriram perspectivas musicais para além de seu tempo ao criarem, cada um a seu modo, uma obra musical inventiva e inspirada nas coisas do Brasil.
A Santíssima Trindade da MPB
Assim, Villa-Lobos, Tom Jobim e Pixinguinha estão para a MPB como Dizzy Gillespie, Miles Davis e Charlie Parker estão para o Jazz, como a Santíssima Trindade do Bebop. Dizzy Gillespie, Miles Davis e Charlie ‘Bird’ Parker encarnaram o Pai, o Filho e o Espírito Santo no bebop, uma verdadeira revolução que lançou as bases do jazz moderno. A linguagem do jazz, a partir do bebop, entre 1944 e 1949, foi alterada radicalmente seja melódica, seja rítmica e harmonicamente, determinando uma ruptura com o tradicional. O jazz, com o bebop, passou a ser arte e não mero divertimento. Ao contrário do swing, o bebop não servia para dançar, daí sua pouca penetração popular, e mesmo músicos em ascensão, como Bird, Dizzy e Miles, eram atingidos pelo preconceito contra a música negra. No Brasil, ao longo do século XX, Villa-Lobos, Tom Jobim e Pixinguinha se projetaram como o Pai, o Filho e o Espírito Santo da MPB, a nossa Santíssima Trindade da MPB, que injetou sangue novo expandiu horizontes, além de conquistar prestígio e respeito mundo afora.
O pesquisador e biógrafo de Pixinguinha, José Silas Xavier, ressalta que Pixinguinha foi um flautista incomparável e mereceu de Mário de Andrade a inclusão de seu nome entre as maravilhas da flauta brasileira. E, Sérgio Cabral, o pai, crítico respeitado e também biógrafo de Pixinguinha, além de autor do livro "Pixinguinha / Vida e Obra" (Editora Lumiar), enfatiza que o músico foi o maior flautista brasileiro de todos os tempos, opinião compartilhada por José Silas Xavier, mesmo considerando a grandeza de Patápio Silva (1880 - 1907), que pode ser constatada nos velhos discos da Casa Edison, ou a grandeza de Joaquim Antônio da Silva Callado Júnior (1848-1880), considerado por muitos como o “pai dos chorões”. Callado não deixou gravações, mas segundo Silas Xavier, deixoua fama de exímio flautista em depoimento dos que o ouviram.
E Silas Xavier destaca que, nos anos 1940, por motivos não muito claros, Pixinguinha trocou a flauta pelo saxofone e não foi menos genial. Quem tiver a oportunidade de ouvir as gravações de Pixinguinha com o flautista Benedito Lacerda poderá comprovar a beleza dos seus contrapontos, verdadeiras obras primas da utilização do contraponto na música popular, sempre criativo e nunca óbvio. Villa-Lobos adorava esses contrapontos e Basílio Itiberê dizia que os aprendera com Bach e Pixinguinha.
Ainda segundo José Silas Xavier, o Pixinguinha maestro teve papel de extraordinária importância, bastando lembrar sua participação à frente dos 8 Batutas em 1919, da Orquestra Típica Pixinguinha / Donga no final dos anos 1920, do grupo da Guarda Velha e dos Diabos do Céu - orquestras criadas por ele nos anos 1930 para gravações da Victor, onde era regente - e do Grupo da Velha Guarda na década de 1950, "num abençoado momento de redescoberta da Música Popular Brasileira mais tradicional em festivais, shows e gravações na extinta Sinter", como escreveu o pesquisador e crítico João Máximo.
A presença de Pixinguinha como orquestrador é marcante, segundo aponta Silas Xavier, seja nos deliciosos arranjos para marchinhas carnavalescas ou juninas, ou para as polcas e maxixes da Velha Guarda. Sua importância como orquestrador cresce à medida em que se sabe ter sido ele um dos pioneiros em fazer arranjos para músicas nossas e o responsável pela implantação de uma linguagem instrumental caracteristicamente brasileira, como acentuou o maestro Júlio Medaglia.
Para Silas Xavier, o compositor Pixinguinha pode ser ouvido em inúmeros lançamentos após a morte do mestre da MPB. Apesar de não ser muito extensa, sua obra é de cerca de 300 composições conhecidas e mais umas 100 inéditas. Autor de valsas, polcas, maxixes, sambas e tudo o mais, é nos choros que se pode melhor apreciar sua genialidade. "Carinhoso", que completa 100 anos de sua criação, "Ingênuo", "Vou Vivendo", "Cinco Companheiros", "Naquele Tempo", "Lamento" e "Sofres Porque Queres", na opinião do pesquisador Silas Xavier, são exemplos de sua grandeza como compositor.
Nascido em berço musical
Pixinguinha nasceu no bairro da Piedade, no Rio de Janeiro, e foi criado num ambiente musical. Seu pai era flautista e gostava de reunir músicos em sua casa para tocar. Nessas reuniões, revela José Silas Xavier, tocava-se quadrilha, polca, valsa, xótis ou mazurca, já que a palavra choro não expressava ainda, no início do século XX, a categoria de gênero musical. Por essa época, choro era a denominação dada aos pequenos conjuntos de música popular que executavam aquele gênero "chorado", plangente, normalmente constituído de flauta, violão e cavaquinho (terno), formação que foi se ampliando ao longo do tempo pela incorporação de outros instrumentos. O choro, enfim, segundo José Silas Xavier, era a maneira brasileira de tocar os importados gêneros musicais dançantes da época.
"Nascido na década de 1870 nas biroscas da Cidade Nova e nos quintais dos subúrbios do Rio de Janeiro, o choro tinha como componentes, no geral, funcionários dos Correios e Telégrafos, da Estrada de Ferro Central do Brasil, da Imprensa Nacional e da Alfândega, que se reuniam por puro lazer domingueiro e pelo prazer de fazer música", como ensinou o musicólogo, historiador, pesquisador e violinista Mozart de Araújo (1904 - 1988), autoridade no assunto. E entre os chorões que frequentavam a casa de Pixinguinha estava Irineu de Almeida (1863 - 1914), excelente músico, tocador de oficleide, bombardino e trombone, de grande influência em sua formação musical.
A propósito das reuniões na casa de Pixinguinha, o músico declararia em depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro: "Eu menorzinho, ficava apreciando... gostava de música. Por volta de 20 ou 21 horas, meu pai dizia: menino vai dormir. E eu ia para o quarto. Mas não dormia, não. Ficava ouvindo aqueles chorinhos que eu gostava tanto". No depoimento ao MIS, Pixinguinha ainda arrematou a questão: "Na época eu já tinha uma flauta de folha. No dia seguinte, executava os chorinhos que tinha aprendido na véspera, de ouvido". O pesquisador e biógrafo José Silas Xavier afirma que esse ambiente de casa interferiu decisivamente na formação musical de Pixinguinha e seus irmãos, e se reflete nos seus choros maravilhosos e inventivos.
Pixinguinha vivenciou no Rio de Janeiro, ao lado de Donga (05/04/1890 - 25/08/1974) e de João da Baiana (17/05/1887 - 12/01/1974) , a criação do samba e da base musical para o se convencionou chamar de MPB e, lançando mão da inventividade e da inspiração, articulou com precisão a simplicidade e a sofisticação, criando uma música inovadora, com destaque para a valorização da riqueza melódica. A essência afro-brasileira impregnou a obra de Pixinguinha e sua trajetória como um dos mestres da música popular brasileira é uma fonte de inspiração de intensidade ilimitada.
Villa-Lobos, perguntado num workshop na França sobre onde estudou, respondeu: "Na Universidade de Cascadura". E, de pronto, veio nova pergunta sobre quem foram seus mestres. Após um silêncio, o maestro, arranjador, compositor e instrumentista respondeu sério: " Pixinguinha, Donga, Sátiro Bilhar".
E o mestre da arte brasileira, Di Cavalcanti, não fez por menos ao declarar poeticamente: "Terra carioca / Senhora e dançarina / Do norte ao sul, sempre embalada em sonhos / Ouvindo o carinhoso e amável canto / do Rei da flauta e do saxofone / Meu irmão em São Jorge / Meu irmão Pixinguinha".
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1.11.17
17.10.17
50 anos de TRAVESSIA num texto emocionante de Jorge Sanglard
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Milton Nascimento: “A música caminha comigo como a minha alma”
No palco do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, o jovem cantor, violonista e compositor Milton Nascimento, poucos dias antes de completar 25 anos, nos dias 19 e 21 de outubro de 1967, há 50 anos, não poderia sonhar que, a partir de suas três músicas no II Festival Internacional da Canção – “Travessia”, “Morro Velho” e “Maria, Minha Fé” –, trilharia uma autêntica travessia rumo a uma das mais significativas trajetórias na Música Popular Brasileira da segunda metade do século XX e se projetaria como um dos maiores cantores de seu tempo.
Milton sempre entrou de coração em tudo, desde os tempos de contrabaixista nos bailes de Minas Gerais, passando pelos encontros musicais do Clube da Esquina, pela projeção a partir do segundo lugar no II FIC-1967, até consolidar uma trajetória vitoriosa na Música Popular Brasileira. O cantor e compositor nunca perguntou para onde ia esta estrada, se jogou por inteiro no caminho, seguindo “o brilho cego de paixão e fé, faca amolada”. O importante sempre foi “deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo / deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo / brilhar, brilhar, acontecer, brilhar, faca amolada / irmão, irmã, irmã, irmão de fé, faca amolada”, como em “Nada será como antes”, parceria com Ronaldo Bastos.
Milton nasceu às seis horas da tarde, a “Hora do Angelus”, do dia 26 de outubro de 1942, filho de Maria do Carmo do Nascimento, cozinheira por profissão, que deixou Juiz de Fora, em Minas Gerais, para trabalhar no Rio de Janeiro. A “Hora do Angelus” relembra para os católicos o momento da anunciação, feita pelo anjo Gabriel a Maria, da concepção de Jesus Cristo, como livre do pecado original. O seu nome deriva da frase: “Angelus Domini nuntiavit Mariæ”. Em Juiz de Fora, na Câmara Municipal, Milton recebeu o título de Cidadão Honorário e a Medalha Nelson Silva, em 27 de novembro de 2009. A retribuição é por tudo que Bituca fez pela MPB e por suas raízes encravadas na cidade mineira. Desde a década de 1970, Milton coleciona amizades em Juiz de Fora. Quando o médico e músico Márcio Itaboray lançou o livro "Assuntos de Vento", em 2001, esses laços foram consolidados. Em maio de 2009, durante show no Theatro Central, Milton disse que Juiz de Fora é onde ele tem mais amigos. E no dia da entrega do Título de Cidadão Honorário, ele sintetizou: "Sou de Juiz de Fora desde que nasci".
Bituca – apelido dado pela mãe adotiva Lília Silva Campos –, como era conhecido na família e entre os amigos, depois do segundo lugar na classificação geral e da premiação como melhor intérprete do II FIC-1967, inscreveria o nome Milton Nascimento no primeiro time de compositores e cantores que renovariam a MPB. Os festivais injetavam sangue novo no universo cultural brasileiro e a música ainda era uma das poucas manifestações de expressão popular no Brasil dos primeiros anos da ditadura militar.
Em entrevista exclusiva, em outubro de 1987, marcando os 20 anos da premiação de “Travessia”, durante o lançamento do disco “Yauaretê”, Milton confessaria: “Desde criança, eu sabia que ia mexer com a música. Nunca me enganei, nem minha família, nem nada. Todo mundo já sabia que era música mesmo. Apesar de morar em Três Pontas, que naquela época era longe, a estrada era de terra, sabia que ia sair e ia procurar...Se ia vencer, só Deus sabia, mas eu ia tentar. Acontece que a música caminha comigo como a minha alma. Por isso e pelo fato de cada canção refletir um momento meu, chega nas pessoas com a mesma intensidade que estou querendo botar pra fora, e aí não tem barreira de língua, não tem barreira de chão, não tem nada, em qualquer parte”.
O sucesso de “Travessia”, parceria entre Milton Nascimento e Fernando Brant, no II FIC-1967, projetou Milton como um cometa. Mas a criatividade e a qualidade musical do novo talento transcenderam os limites da passagem de um cometa e o transformaram num feixe de luz permanente a apontar caminhos na Música Popular Brasileira. O próprio Milton já afirmou: “Isso está nas mãos do que se quiser chamar, pode ser Deus, pode ser destino, pode ser o que for”.
Amigo de sempre e parceiro, Márcio Borges, em depoimento exclusivo, descreve a emoção que tomou conta da apresentação de “Travessia”: “De tarde nós saímos do hotel, todos no mesmo ônibus, rumo ao Maracanãzinho. Eu ia sentado ao lado de Toninho Horta, com quem havia classificado a dolorosa canção ‘Correntes’. Mas no ônibus só se falava no Bituca, o cara que havia classificado três canções, uma delas considerada a favorita para ganhar o festival. Senti uma emoção muito grande quando o ônibus ultrapassou os portões que davam direto no fundo do enorme palco. Parecia dia de futebol. As filas já davam volta no estádio e ainda nem era de noite. O ensaio geral foi impressionante. Astros e estrelas da música nacional e internacional circulavam em áreas restritas – e eu lá! Quando caiu a noite, vi o estádio encher-se de gente. Vi as arquibancadas se colorirem de todas as cores e matizes, cabelos, cartazes e bandeiras. Vi chegar a hora de ‘Travessia’. A favorita de todos. Bituca colocou o Maracanãzinho de pé e foi classificado. ‘Correntes’ ficou de fora. Fomos torcer pelo Bituca e pelo Fernando, que surpreendentemente, e contra todas as emoções presentes, inclusive a do vencedor Guarabyra, conseguiram apenas um segundo lugar. Na reapresentação da música, vencedora moral e imortal, o apresentador Hilton Gomes chamou os nomes de Milton Nascimento e Fernando Brant e eles saíram de perto de nós para voltarem ao palco. Eu e Gonzaguinha corremos atrás deles e nos sentamos no limite extremo entre a coxia e o palco, bem aos pés dos nossos amigos. Sei que quando vimos e ouvimos o Maracanãzinho cantar com os dois e soltar a voz nas estradas, não conseguimos conter a emoção. Eu e Gonzaguinha nos abraçamos e deixamos nossas lágrimas correrem soltas, molhando os ombros um do outro. Quarenta anos se passaram desde aquela noite. Mas aquelas lágrimas serão para sempre”.
Trajetória de sucesso
A trajetória do cantor e compositor mineiro mais carioca que existe – Milton nasceu no Rio de Janeiro e foi criado em Três Pontas – é contada em detalhes na biografia “Travessia – A vida de Milton Nascimento” (Record), da jornalista mineira Maria Dolores, nascida em Belo Horizonte e criada também em Três Pontas. O livro, que está na segunda edição, é um mergulho na vida e na música de Milton e revela aqui e ali detalhes da consolidação do mestre do Clube da Esquina como um ícone da MPB.
Em depoimento exclusivo, Maria Dolores fala do livro, para dizer sobre Milton: “Essa biografia começou como projeto de conclusão do meu curso de Comunicação Social - Jornalismo, na Universidade Federal de Minas Gerais, em 2003. Eu queria fazer um livro reportagem de algo relacionado a Três Pontas, cidade onde cresci. Entre os temas mais interessantes – a cafeicultura, o Padre Victor (um padre negro milagreiro) e o Milton Nascimento – preferi fazer sobre o Milton. A idéia era contar a vida dele na cidade. Aproveitei um dia que ele estava em Três Pontas, criei coragem, e fui atrás dele. Disse que ia fazer o trabalho e pedi uma entrevista. Ele aceitou fazer. Uns quatro meses depois fui fazer a entrevista e aí eu já tinha realizado uma pesquisa sobre ele, e descoberto que não havia quase nenhum material biográfico do Milton, a não ser essas biografias resumidas de sites, revistas, etc.. O que tinha de mais completo era o livro do Márcio Borges, ‘Os sonhos não envelhecem – histórias do Clube da Esquina’, que é ótimo e tem o Milton como personagem principal, mas aborda só um período da vida dele, até bem extenso, e fala também dos outros personagens do Clube da Esquina. Resolvi então escrever uma biografia do Milton, a primeira, ainda mais ao descobrir o quanto a vida dele era incrível, como um romance”.
A autora confessa que conhecia o trabalho dele, mas não profundamente: “Até então nunca tinha sido uma pessoa que tem o costume de ouvir música, engraçado isso, né? Então, primeiro me apaixonei pela história, pelo personagem. Depois, pela obra, pelo artista, que, no final das contas, descobri não ter como separar um do outro. Pedi outras entrevistas e ele concordou. Deixou também que eu acompanhasse ensaios, shows, fosse na sua casa, pesquisasse seu material pessoal. Para a faculdade entreguei um trabalho resumido, só da vida dele em Três Pontas, e depois continuei”.
O livro abrange o período que vai de 1939, antes mesmo de Milton nascer, até 2005. Maria Dolores afirma que já conhecia o cantor, “claro, desde criança, mas não tinha uma relação próxima com o Milton” e fala da proximidade que a elaboração do livro possibilitou: “nesses quatro anos e meio de trabalho, que eu passei a conviver com o Milton, descobri a pessoa incrível que ele é, um ser humano especial, um artista especial, cheio de mistério ao seu redor, magia, alguém que tem uma generosidade imensa. Não tem como trabalhar com o Milton, com o Bituca, né, e não se tornar amigo dele, ainda mais ele, que tem tantos amigos. Hoje posso dizer que me tornei uma amiga dele e ele se tornou alguém especial pra mim, uma relação dessas que a gente sabe que dura. Eu não esperava que isso fosse acontecer, na verdade, nem pensava nisso, mas foi uma feliz surpresa descobrir essa amizade e a maior conquista com o livro”.
Desde a primeira parceria com Fernando Brant, “Travessia”, Milton abriu alas para uma geração de grandes músicos e compositores mineiros e nunca transigiu sua arte, nunca aceitou os apelos fáceis da massificação. Na entrevista citada, Milton declarou incisivo: “A massificação vai bitolando a cabeça das pessoas e bitola a música popular brasileira também”. Assim, o cantor e compositor sempre procurou a qualidade musical, sabedor de que escolhera um caminho mais difícil, porém, passadas quatro décadas de seu batismo de fogo com a interpretação de “Travessia”, fica a certeza de que a criatividade e a qualidade resistem a tudo.
Fernando Brant, em depoimento exclusivo, afirma que “a música de Milton Nascimento não se explica, ouve-se. Desde que o conheci, e à sua música, o Bituca é um repertório de surpresas interminável. Até hoje, quando ele me mostra algo que acabou de compor, sua genialidade não dá descanso. Ele me surpreende agora como me surpreendia 30 anos atrás. A melodia, o ritmo, a harmonia, ele sintetiza o mundo em suas músicas. Devo a ele não só o fato de encontrar uma profissão que me sustenta e dá prazer, como a oportunidade de colocar minhas palavras e minhas idéias em canções belas e diferentes. E, ainda por cima, ele as canta. Ele é fonte inesgotável da música popular brasileira, um gênio”.
O artista é o arauto da liberdade
Na referida entrevista exclusiva, Milton adverte que criaram um tipo de música, um tipo de som, que virou tudo a mesma coisa e, num mercado fechado, a renovação de artistas é mais difícil, porque as grandes gravadoras determinam a política para a área musical, só investindo naquilo que elas acreditam que dá retorno. E revela: “Eu apareci numa época em que todo mundo estava brotando, com mil experiências diferentes, não tinha um som pasteurizado. Nos últimos tempos é mais difícil a pessoa nova ser ouvida, mas não impossível”. Já em 1987, Milton advertia na mesma entrevista: “É terrível ver um país como esse, onde o músico se forma por esforço próprio, porque não tem escola, nem nada. O Brasil é um desamparo total, e com tantos músicos fantásticos tendo que tocar qualquer coisa, sem poder desenvolver seu próprio trabalho musical, é muito triste. E olhe que o país é rico, é tão grande, com tanta diversidade e o povo é muito musical. Mas prefiro não perder a esperança, porque o dia em que eu perder a esperança, paro de cantar, minha vida acaba”.
Para Milton, o Brasil é um país onde a mistura é tão forte que todas as influências que vierem nas coisas feitas honestamente virão para acrescentar, mas nunca para esmagar a cultura brasileira: “medo de influência esmagar eu não tenho nenhum não”. E arremata: “O lance da arte é a liberdade, o artista é o arauto da liberdade”.
Nélson Ângelo, parceiro dos primeiros tempos, em depoimento exclusivo comenta: “Meu primeiro contato com Milton Nascimento, meu amigo Bituca, deu-se no ano de 1964, em Belo Horizonte, logo após um show do grupo Opinião, realizado no Teatro Francisco Nunes. Desde então construímos uma sólida amizade que dura até hoje, pautada em muito respeito, atenção e paixão pela música. Sempre fomos parceiros em diferentes formas: como amigos, na vida, em trabalhos. Antes mesmo de ‘Travessia’, já curtíamos e nos admirávamos. Nesta época compus ‘Fim de caminho’, ‘Canto triste’ (anterior a do Edu e Vinícius; claro que mudei o título da minha!) e o Bituca tocava pra mim ‘Crença’ e ‘Terra’, parcerias dele com o Márcio Borges. No mesmo período, compus com o Valdimir Diniz a música ‘Ciclo do Ouro’, que foi muito elogiada pelo Milton. Ele foi um grande incentivador do meu trabalho. Mais tarde um pouco, ele e o Márcio fizeram uma que foi dedicada a mim (pelo menos foi o que me contaram), chamada ‘Irmão de fé’”.
Ainda segundo, Nélson Ângelo, “quando o Bituca conheceu o Fernando Brant, foram logo estreando com ‘Travessia’, e muitas outras que surgiram e marcaram seu lugar na história. Mais tarde, eu e ele fizemos ‘Sacramento’ e ‘Testamento’, ambas músicas minhas e letras do Milton. Mais tarde ainda, o samba enredo ‘Reis e Rainhas do Maracatu’, com mais dois parceiros: o Novelli e o Fran”.
Portanto, assegura Nélson Ângelo, “minha opinião sobre o Milton e parcerias é abrangente da mesma forma como foi consolidada nossa amizade. Sou suspeito sobre todas as instâncias e circunstâncias. Ainda bem que a admiração e a boa impressão são compartilhadas com tantas pessoas mundo afora que conhecem o assunto”.
O livro de Maria Dolores aponta “Travessia” como a primeira letra da vida de Fernando Brant, escrita sob pressão, jogada, num papel dobrado, na mesa da padaria São José, em Belo Horizonte. O nome da música foi inspirado no livro “Grande Sertão: Veredas”, do escritor mineiro Guimarães Rosa, que tinha como última palavra da obra o termo “Travessia”. O próprio Milton explicaria a escolha: “O importante não é a saída, nem a chegada, mas a travessia”.
A segunda letra de Brant foi “Outubro”, e o parceiro teria dito anteriormente a Milton: “Agora que você me pôs nessa, trata de compor outra música para eu colocar uma letra logo, senão estou perdido!”. O assédio da imprensa, logo após as apresentações no II FIC-1967, mexia com os dois tímidos compositores mineiros. Segundo Maria Dolores, o cantor, compositor e violonista Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura no Brasil, disse certa vez que a timidez de Milton não é uma timidez pura, mas um ato de observação: “Ele é como essas pedras enormes da Gávea, quietas, silenciosas...observa tudo ao seu redor, fala com o olhar e, quando usa palavras, diz a coisa certa no momento certo”.
Caetano Veloso também fez revelações, no livro, sobre Milton: “Ele é uma força profunda da expressão cultural brasileira, com raízes muito fortes na nossa história e com um talento na área da genialidade, uma coisa meio espiritual, e se há algo que a gente possa chamar de espiritual é exatamente isso, é quando alguém está ligado a tantas coisas tão importantes por fatores casuais, tantas vezes. Isso para mim é o caso de Milton, é o caso mais radical desse acontecimento no Brasil”.
Só mesmo Milton Nascimento para tornar permanente toda a emoção de coisas tão simples e fundamentais como as brincadeiras de crianças, a cumplicidade entre amigos de verdade, a pulsação de um povo na luta pela liberdade, a dor do amor e do desamor, tudo isso com “o coração aberto em vento, por toda eternidade, com o coração doendo de tanta felicidade”.
No livro, “Os sonhos não envelhecem – histórias do Clube da Esquina” (Geração Editorial), escrito por Márcio Borges, o parceiro e amigo mergulha na essência das vivências desde os tempos em que se conheceram no Edifício Levy, em Belo Horizonte, até a gravação do disco “Angelus”, em 1993. Este disco foi concebido por Milton para simbolizar sua trajetória de vida e seu compromisso com a música.
A partir dos anos 1960 e até esta primeira década do século XXI, Milton e seus parceiros, como Ronaldo Bastos, deixaram pistas sobre suas intenções: “Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia / beber o vinho e renascer na luz de todo dia / a fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada / o chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada / deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia”. Não é à toa que, em outra parceria com Ronaldo Bastos, Milton cantou: “Eu já estou com o pé na estrada / qualquer dia a gente se vê / sei que nada será como antes, amanhã”. Com seu alegre e contundente canto de fé, de esperança e de sonho, Milton Nascimento se tornou um autêntico arauto da liberdade e, junto com outros companheiros de eterna travessia, teceu e entreteceu uma ponte para atravessar este verdadeiro oceano que é o Brasil.
Ao mesmo tempo, Milton – como Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso – é o oceano atravessado e o barco que atravessa, e vai solidificando uma ponte sobre este mar. Essa feliz definição de Gilberto Gil sobre expoentes de sua geração sintetiza a essência musical de compositores que renovaram o panorama da MPB e permanecem atentos, como faróis. Afinal, Milton fez de seu canto um canal direto até onde o povo está, muitas vezes “com sabor de vidro e corte”, mas sempre semeando o sonho e a esperança de ter fé na vida.
A comunhão da criação
Um dos momentos mágicos vivenciados por Milton Nascimento, simbolicamente num dia dedicado à consciência negra, em 20 de novembro de 1999, foi quando o pintor mineiro Carlos Bracher, mergulhado nas cores e ao som das canções do Clube da Esquina e da Nona Sinfonia de Beethoven (1770 – 1827), pintou em óleo sobre tela, durante cerca de 1h30, o retrato do cantor e compositor, antecedendo uma apresentação no baile-show intitulado “Crooner”, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Pela primeira vez, Bracher – um dos grandes pintores brasileiros – retratava um artista negro e foi buscar inspiração no erê que dá vivacidade a Milton Nascimento.
Ao expressar o menino que impregna a alma de Milton de alegria e de generosidade, o pintor mineiro celebrava a eterna juventude do autor de “Travessia” (em parceria com Fernando Brant). E Milton estabeleceu com Bracher uma relação de intensidade imensurável. Simplicidade e criatividade de mãos dadas e corações abertos, estabelecendo um elo de cumplicidade e possibilitando um encontro de almas capazes de irradiar harmonia, onde cada um a seu modo criou as condições para estabelecer a alquimia das cores e dos sons. O artista da voz e o artista das cores unidos na comunhão da criação.
Ao reconhecer-se como um erê (como os meninos da capa do antológico disco “Clube da Esquina”, de 1972), Milton posou para o retrato de Bracher deixando fluir todo o sentimento de eternidade que sua música passa e que sua travessia revela, trilhando o caminho da criatividade e do compromisso com a cidadania cultural e com a vida. Como o romancista Guimarães Rosa e o poeta Carlos Drummond de Andrade, Milton Nascimento encarna em sua obra musical a essência de Minas Gerais, a alma brasileira e a universalidade artística dos grandes criadores. Como um mago das cores, Bracher tão- somente revelou essa magia num retrato com a força da emoção de Milton.
No verso do óleo sobre tela, o pintor escreveu: “Meu caro Milton, que assim seja, que este Deus da vida e da arte nos possa abençoar. Obrigado Milton, por essa força contida na sua vasta voz”. Entre a timidez e a felicidade estampada, o cantor, depois de trocar um forte abraço com o pintor, confidenciou ao jornalista, que acompanhou tudo, a satisfação de ter vivenciado aquele momento de intensa troca de energia e de revelação de sua alma de eterno menino nas cores densas e inspiradas de Bracher.
O retrato está na sala da casa de Milton.
Texto de Jorge Sanglard
(Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil)
Milton Nascimento: “A música caminha comigo como a minha alma”
No palco do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, o jovem cantor, violonista e compositor Milton Nascimento, poucos dias antes de completar 25 anos, nos dias 19 e 21 de outubro de 1967, há 50 anos, não poderia sonhar que, a partir de suas três músicas no II Festival Internacional da Canção – “Travessia”, “Morro Velho” e “Maria, Minha Fé” –, trilharia uma autêntica travessia rumo a uma das mais significativas trajetórias na Música Popular Brasileira da segunda metade do século XX e se projetaria como um dos maiores cantores de seu tempo.
Milton sempre entrou de coração em tudo, desde os tempos de contrabaixista nos bailes de Minas Gerais, passando pelos encontros musicais do Clube da Esquina, pela projeção a partir do segundo lugar no II FIC-1967, até consolidar uma trajetória vitoriosa na Música Popular Brasileira. O cantor e compositor nunca perguntou para onde ia esta estrada, se jogou por inteiro no caminho, seguindo “o brilho cego de paixão e fé, faca amolada”. O importante sempre foi “deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo / deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo / brilhar, brilhar, acontecer, brilhar, faca amolada / irmão, irmã, irmã, irmão de fé, faca amolada”, como em “Nada será como antes”, parceria com Ronaldo Bastos.
Milton nasceu às seis horas da tarde, a “Hora do Angelus”, do dia 26 de outubro de 1942, filho de Maria do Carmo do Nascimento, cozinheira por profissão, que deixou Juiz de Fora, em Minas Gerais, para trabalhar no Rio de Janeiro. A “Hora do Angelus” relembra para os católicos o momento da anunciação, feita pelo anjo Gabriel a Maria, da concepção de Jesus Cristo, como livre do pecado original. O seu nome deriva da frase: “Angelus Domini nuntiavit Mariæ”. Em Juiz de Fora, na Câmara Municipal, Milton recebeu o título de Cidadão Honorário e a Medalha Nelson Silva, em 27 de novembro de 2009. A retribuição é por tudo que Bituca fez pela MPB e por suas raízes encravadas na cidade mineira. Desde a década de 1970, Milton coleciona amizades em Juiz de Fora. Quando o médico e músico Márcio Itaboray lançou o livro "Assuntos de Vento", em 2001, esses laços foram consolidados. Em maio de 2009, durante show no Theatro Central, Milton disse que Juiz de Fora é onde ele tem mais amigos. E no dia da entrega do Título de Cidadão Honorário, ele sintetizou: "Sou de Juiz de Fora desde que nasci".
Bituca – apelido dado pela mãe adotiva Lília Silva Campos –, como era conhecido na família e entre os amigos, depois do segundo lugar na classificação geral e da premiação como melhor intérprete do II FIC-1967, inscreveria o nome Milton Nascimento no primeiro time de compositores e cantores que renovariam a MPB. Os festivais injetavam sangue novo no universo cultural brasileiro e a música ainda era uma das poucas manifestações de expressão popular no Brasil dos primeiros anos da ditadura militar.
Em entrevista exclusiva, em outubro de 1987, marcando os 20 anos da premiação de “Travessia”, durante o lançamento do disco “Yauaretê”, Milton confessaria: “Desde criança, eu sabia que ia mexer com a música. Nunca me enganei, nem minha família, nem nada. Todo mundo já sabia que era música mesmo. Apesar de morar em Três Pontas, que naquela época era longe, a estrada era de terra, sabia que ia sair e ia procurar...Se ia vencer, só Deus sabia, mas eu ia tentar. Acontece que a música caminha comigo como a minha alma. Por isso e pelo fato de cada canção refletir um momento meu, chega nas pessoas com a mesma intensidade que estou querendo botar pra fora, e aí não tem barreira de língua, não tem barreira de chão, não tem nada, em qualquer parte”.
O sucesso de “Travessia”, parceria entre Milton Nascimento e Fernando Brant, no II FIC-1967, projetou Milton como um cometa. Mas a criatividade e a qualidade musical do novo talento transcenderam os limites da passagem de um cometa e o transformaram num feixe de luz permanente a apontar caminhos na Música Popular Brasileira. O próprio Milton já afirmou: “Isso está nas mãos do que se quiser chamar, pode ser Deus, pode ser destino, pode ser o que for”.
Amigo de sempre e parceiro, Márcio Borges, em depoimento exclusivo, descreve a emoção que tomou conta da apresentação de “Travessia”: “De tarde nós saímos do hotel, todos no mesmo ônibus, rumo ao Maracanãzinho. Eu ia sentado ao lado de Toninho Horta, com quem havia classificado a dolorosa canção ‘Correntes’. Mas no ônibus só se falava no Bituca, o cara que havia classificado três canções, uma delas considerada a favorita para ganhar o festival. Senti uma emoção muito grande quando o ônibus ultrapassou os portões que davam direto no fundo do enorme palco. Parecia dia de futebol. As filas já davam volta no estádio e ainda nem era de noite. O ensaio geral foi impressionante. Astros e estrelas da música nacional e internacional circulavam em áreas restritas – e eu lá! Quando caiu a noite, vi o estádio encher-se de gente. Vi as arquibancadas se colorirem de todas as cores e matizes, cabelos, cartazes e bandeiras. Vi chegar a hora de ‘Travessia’. A favorita de todos. Bituca colocou o Maracanãzinho de pé e foi classificado. ‘Correntes’ ficou de fora. Fomos torcer pelo Bituca e pelo Fernando, que surpreendentemente, e contra todas as emoções presentes, inclusive a do vencedor Guarabyra, conseguiram apenas um segundo lugar. Na reapresentação da música, vencedora moral e imortal, o apresentador Hilton Gomes chamou os nomes de Milton Nascimento e Fernando Brant e eles saíram de perto de nós para voltarem ao palco. Eu e Gonzaguinha corremos atrás deles e nos sentamos no limite extremo entre a coxia e o palco, bem aos pés dos nossos amigos. Sei que quando vimos e ouvimos o Maracanãzinho cantar com os dois e soltar a voz nas estradas, não conseguimos conter a emoção. Eu e Gonzaguinha nos abraçamos e deixamos nossas lágrimas correrem soltas, molhando os ombros um do outro. Quarenta anos se passaram desde aquela noite. Mas aquelas lágrimas serão para sempre”.
Trajetória de sucesso
A trajetória do cantor e compositor mineiro mais carioca que existe – Milton nasceu no Rio de Janeiro e foi criado em Três Pontas – é contada em detalhes na biografia “Travessia – A vida de Milton Nascimento” (Record), da jornalista mineira Maria Dolores, nascida em Belo Horizonte e criada também em Três Pontas. O livro, que está na segunda edição, é um mergulho na vida e na música de Milton e revela aqui e ali detalhes da consolidação do mestre do Clube da Esquina como um ícone da MPB.
Em depoimento exclusivo, Maria Dolores fala do livro, para dizer sobre Milton: “Essa biografia começou como projeto de conclusão do meu curso de Comunicação Social - Jornalismo, na Universidade Federal de Minas Gerais, em 2003. Eu queria fazer um livro reportagem de algo relacionado a Três Pontas, cidade onde cresci. Entre os temas mais interessantes – a cafeicultura, o Padre Victor (um padre negro milagreiro) e o Milton Nascimento – preferi fazer sobre o Milton. A idéia era contar a vida dele na cidade. Aproveitei um dia que ele estava em Três Pontas, criei coragem, e fui atrás dele. Disse que ia fazer o trabalho e pedi uma entrevista. Ele aceitou fazer. Uns quatro meses depois fui fazer a entrevista e aí eu já tinha realizado uma pesquisa sobre ele, e descoberto que não havia quase nenhum material biográfico do Milton, a não ser essas biografias resumidas de sites, revistas, etc.. O que tinha de mais completo era o livro do Márcio Borges, ‘Os sonhos não envelhecem – histórias do Clube da Esquina’, que é ótimo e tem o Milton como personagem principal, mas aborda só um período da vida dele, até bem extenso, e fala também dos outros personagens do Clube da Esquina. Resolvi então escrever uma biografia do Milton, a primeira, ainda mais ao descobrir o quanto a vida dele era incrível, como um romance”.
A autora confessa que conhecia o trabalho dele, mas não profundamente: “Até então nunca tinha sido uma pessoa que tem o costume de ouvir música, engraçado isso, né? Então, primeiro me apaixonei pela história, pelo personagem. Depois, pela obra, pelo artista, que, no final das contas, descobri não ter como separar um do outro. Pedi outras entrevistas e ele concordou. Deixou também que eu acompanhasse ensaios, shows, fosse na sua casa, pesquisasse seu material pessoal. Para a faculdade entreguei um trabalho resumido, só da vida dele em Três Pontas, e depois continuei”.
O livro abrange o período que vai de 1939, antes mesmo de Milton nascer, até 2005. Maria Dolores afirma que já conhecia o cantor, “claro, desde criança, mas não tinha uma relação próxima com o Milton” e fala da proximidade que a elaboração do livro possibilitou: “nesses quatro anos e meio de trabalho, que eu passei a conviver com o Milton, descobri a pessoa incrível que ele é, um ser humano especial, um artista especial, cheio de mistério ao seu redor, magia, alguém que tem uma generosidade imensa. Não tem como trabalhar com o Milton, com o Bituca, né, e não se tornar amigo dele, ainda mais ele, que tem tantos amigos. Hoje posso dizer que me tornei uma amiga dele e ele se tornou alguém especial pra mim, uma relação dessas que a gente sabe que dura. Eu não esperava que isso fosse acontecer, na verdade, nem pensava nisso, mas foi uma feliz surpresa descobrir essa amizade e a maior conquista com o livro”.
Desde a primeira parceria com Fernando Brant, “Travessia”, Milton abriu alas para uma geração de grandes músicos e compositores mineiros e nunca transigiu sua arte, nunca aceitou os apelos fáceis da massificação. Na entrevista citada, Milton declarou incisivo: “A massificação vai bitolando a cabeça das pessoas e bitola a música popular brasileira também”. Assim, o cantor e compositor sempre procurou a qualidade musical, sabedor de que escolhera um caminho mais difícil, porém, passadas quatro décadas de seu batismo de fogo com a interpretação de “Travessia”, fica a certeza de que a criatividade e a qualidade resistem a tudo.
Fernando Brant, em depoimento exclusivo, afirma que “a música de Milton Nascimento não se explica, ouve-se. Desde que o conheci, e à sua música, o Bituca é um repertório de surpresas interminável. Até hoje, quando ele me mostra algo que acabou de compor, sua genialidade não dá descanso. Ele me surpreende agora como me surpreendia 30 anos atrás. A melodia, o ritmo, a harmonia, ele sintetiza o mundo em suas músicas. Devo a ele não só o fato de encontrar uma profissão que me sustenta e dá prazer, como a oportunidade de colocar minhas palavras e minhas idéias em canções belas e diferentes. E, ainda por cima, ele as canta. Ele é fonte inesgotável da música popular brasileira, um gênio”.
O artista é o arauto da liberdade
Na referida entrevista exclusiva, Milton adverte que criaram um tipo de música, um tipo de som, que virou tudo a mesma coisa e, num mercado fechado, a renovação de artistas é mais difícil, porque as grandes gravadoras determinam a política para a área musical, só investindo naquilo que elas acreditam que dá retorno. E revela: “Eu apareci numa época em que todo mundo estava brotando, com mil experiências diferentes, não tinha um som pasteurizado. Nos últimos tempos é mais difícil a pessoa nova ser ouvida, mas não impossível”. Já em 1987, Milton advertia na mesma entrevista: “É terrível ver um país como esse, onde o músico se forma por esforço próprio, porque não tem escola, nem nada. O Brasil é um desamparo total, e com tantos músicos fantásticos tendo que tocar qualquer coisa, sem poder desenvolver seu próprio trabalho musical, é muito triste. E olhe que o país é rico, é tão grande, com tanta diversidade e o povo é muito musical. Mas prefiro não perder a esperança, porque o dia em que eu perder a esperança, paro de cantar, minha vida acaba”.
Para Milton, o Brasil é um país onde a mistura é tão forte que todas as influências que vierem nas coisas feitas honestamente virão para acrescentar, mas nunca para esmagar a cultura brasileira: “medo de influência esmagar eu não tenho nenhum não”. E arremata: “O lance da arte é a liberdade, o artista é o arauto da liberdade”.
Nélson Ângelo, parceiro dos primeiros tempos, em depoimento exclusivo comenta: “Meu primeiro contato com Milton Nascimento, meu amigo Bituca, deu-se no ano de 1964, em Belo Horizonte, logo após um show do grupo Opinião, realizado no Teatro Francisco Nunes. Desde então construímos uma sólida amizade que dura até hoje, pautada em muito respeito, atenção e paixão pela música. Sempre fomos parceiros em diferentes formas: como amigos, na vida, em trabalhos. Antes mesmo de ‘Travessia’, já curtíamos e nos admirávamos. Nesta época compus ‘Fim de caminho’, ‘Canto triste’ (anterior a do Edu e Vinícius; claro que mudei o título da minha!) e o Bituca tocava pra mim ‘Crença’ e ‘Terra’, parcerias dele com o Márcio Borges. No mesmo período, compus com o Valdimir Diniz a música ‘Ciclo do Ouro’, que foi muito elogiada pelo Milton. Ele foi um grande incentivador do meu trabalho. Mais tarde um pouco, ele e o Márcio fizeram uma que foi dedicada a mim (pelo menos foi o que me contaram), chamada ‘Irmão de fé’”.
Ainda segundo, Nélson Ângelo, “quando o Bituca conheceu o Fernando Brant, foram logo estreando com ‘Travessia’, e muitas outras que surgiram e marcaram seu lugar na história. Mais tarde, eu e ele fizemos ‘Sacramento’ e ‘Testamento’, ambas músicas minhas e letras do Milton. Mais tarde ainda, o samba enredo ‘Reis e Rainhas do Maracatu’, com mais dois parceiros: o Novelli e o Fran”.
Portanto, assegura Nélson Ângelo, “minha opinião sobre o Milton e parcerias é abrangente da mesma forma como foi consolidada nossa amizade. Sou suspeito sobre todas as instâncias e circunstâncias. Ainda bem que a admiração e a boa impressão são compartilhadas com tantas pessoas mundo afora que conhecem o assunto”.
O livro de Maria Dolores aponta “Travessia” como a primeira letra da vida de Fernando Brant, escrita sob pressão, jogada, num papel dobrado, na mesa da padaria São José, em Belo Horizonte. O nome da música foi inspirado no livro “Grande Sertão: Veredas”, do escritor mineiro Guimarães Rosa, que tinha como última palavra da obra o termo “Travessia”. O próprio Milton explicaria a escolha: “O importante não é a saída, nem a chegada, mas a travessia”.
A segunda letra de Brant foi “Outubro”, e o parceiro teria dito anteriormente a Milton: “Agora que você me pôs nessa, trata de compor outra música para eu colocar uma letra logo, senão estou perdido!”. O assédio da imprensa, logo após as apresentações no II FIC-1967, mexia com os dois tímidos compositores mineiros. Segundo Maria Dolores, o cantor, compositor e violonista Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura no Brasil, disse certa vez que a timidez de Milton não é uma timidez pura, mas um ato de observação: “Ele é como essas pedras enormes da Gávea, quietas, silenciosas...observa tudo ao seu redor, fala com o olhar e, quando usa palavras, diz a coisa certa no momento certo”.
Caetano Veloso também fez revelações, no livro, sobre Milton: “Ele é uma força profunda da expressão cultural brasileira, com raízes muito fortes na nossa história e com um talento na área da genialidade, uma coisa meio espiritual, e se há algo que a gente possa chamar de espiritual é exatamente isso, é quando alguém está ligado a tantas coisas tão importantes por fatores casuais, tantas vezes. Isso para mim é o caso de Milton, é o caso mais radical desse acontecimento no Brasil”.
Só mesmo Milton Nascimento para tornar permanente toda a emoção de coisas tão simples e fundamentais como as brincadeiras de crianças, a cumplicidade entre amigos de verdade, a pulsação de um povo na luta pela liberdade, a dor do amor e do desamor, tudo isso com “o coração aberto em vento, por toda eternidade, com o coração doendo de tanta felicidade”.
No livro, “Os sonhos não envelhecem – histórias do Clube da Esquina” (Geração Editorial), escrito por Márcio Borges, o parceiro e amigo mergulha na essência das vivências desde os tempos em que se conheceram no Edifício Levy, em Belo Horizonte, até a gravação do disco “Angelus”, em 1993. Este disco foi concebido por Milton para simbolizar sua trajetória de vida e seu compromisso com a música.
A partir dos anos 1960 e até esta primeira década do século XXI, Milton e seus parceiros, como Ronaldo Bastos, deixaram pistas sobre suas intenções: “Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia / beber o vinho e renascer na luz de todo dia / a fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada / o chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada / deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia”. Não é à toa que, em outra parceria com Ronaldo Bastos, Milton cantou: “Eu já estou com o pé na estrada / qualquer dia a gente se vê / sei que nada será como antes, amanhã”. Com seu alegre e contundente canto de fé, de esperança e de sonho, Milton Nascimento se tornou um autêntico arauto da liberdade e, junto com outros companheiros de eterna travessia, teceu e entreteceu uma ponte para atravessar este verdadeiro oceano que é o Brasil.
Ao mesmo tempo, Milton – como Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso – é o oceano atravessado e o barco que atravessa, e vai solidificando uma ponte sobre este mar. Essa feliz definição de Gilberto Gil sobre expoentes de sua geração sintetiza a essência musical de compositores que renovaram o panorama da MPB e permanecem atentos, como faróis. Afinal, Milton fez de seu canto um canal direto até onde o povo está, muitas vezes “com sabor de vidro e corte”, mas sempre semeando o sonho e a esperança de ter fé na vida.
A comunhão da criação
Um dos momentos mágicos vivenciados por Milton Nascimento, simbolicamente num dia dedicado à consciência negra, em 20 de novembro de 1999, foi quando o pintor mineiro Carlos Bracher, mergulhado nas cores e ao som das canções do Clube da Esquina e da Nona Sinfonia de Beethoven (1770 – 1827), pintou em óleo sobre tela, durante cerca de 1h30, o retrato do cantor e compositor, antecedendo uma apresentação no baile-show intitulado “Crooner”, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Pela primeira vez, Bracher – um dos grandes pintores brasileiros – retratava um artista negro e foi buscar inspiração no erê que dá vivacidade a Milton Nascimento.
Ao expressar o menino que impregna a alma de Milton de alegria e de generosidade, o pintor mineiro celebrava a eterna juventude do autor de “Travessia” (em parceria com Fernando Brant). E Milton estabeleceu com Bracher uma relação de intensidade imensurável. Simplicidade e criatividade de mãos dadas e corações abertos, estabelecendo um elo de cumplicidade e possibilitando um encontro de almas capazes de irradiar harmonia, onde cada um a seu modo criou as condições para estabelecer a alquimia das cores e dos sons. O artista da voz e o artista das cores unidos na comunhão da criação.
Ao reconhecer-se como um erê (como os meninos da capa do antológico disco “Clube da Esquina”, de 1972), Milton posou para o retrato de Bracher deixando fluir todo o sentimento de eternidade que sua música passa e que sua travessia revela, trilhando o caminho da criatividade e do compromisso com a cidadania cultural e com a vida. Como o romancista Guimarães Rosa e o poeta Carlos Drummond de Andrade, Milton Nascimento encarna em sua obra musical a essência de Minas Gerais, a alma brasileira e a universalidade artística dos grandes criadores. Como um mago das cores, Bracher tão- somente revelou essa magia num retrato com a força da emoção de Milton.
No verso do óleo sobre tela, o pintor escreveu: “Meu caro Milton, que assim seja, que este Deus da vida e da arte nos possa abençoar. Obrigado Milton, por essa força contida na sua vasta voz”. Entre a timidez e a felicidade estampada, o cantor, depois de trocar um forte abraço com o pintor, confidenciou ao jornalista, que acompanhou tudo, a satisfação de ter vivenciado aquele momento de intensa troca de energia e de revelação de sua alma de eterno menino nas cores densas e inspiradas de Bracher.
O retrato está na sala da casa de Milton.
Texto de Jorge Sanglard
(Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil)
22.8.17
Tania Malheiros vem com tudo em "Um brinde ao Samba"
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)
Tania Malheiros comemora 16 anos de carreira no show “Um brinde ao samba”
A cantora Tania Malheiros comemora 16 anos de carreira no show “Um brinde ao samba”, no dia 31/8, (quinta-feira da semana que vem), às 20h, no Bar Cariocando, Rua Silveira Martins, 139, Catete, interpretando clássicos de Xangô da Mangueira, Délcio Carvalho e Dona Ivone Lara, Wilson Moreira e Nei Lopes, Noca da Portela, Nelson Sargento, entre outros mestres, além de sambas autorais de seu Cd “A Moça no Espelho”.
Acompanham os músicos Kiko Chavez (violão), Miguelzinho (cavaquinho) e Gabriel Buzunga (percussão)...
Filha do cavaquinista Múcio de Sá Malheiros, Tania começou a cantar na infância, por influência do pai e voltou aos palcos incentivada por amigos.
Formada em jornalismo, fez o primeiro show profissional em 2001, frequentou as rodas de samba da cidade, fez pós-graduação com pesquisa voltada para a história do samba, em 2006, e quatro anos depois lançou “Deixa eu me benzer”, o primeiro álbum. Os álbuns foram produzidos pelo genial maestro Gilson Peranzzetta. Tania celebra os 16 anos de carreira artística registrando mais de uma centena de shows com o apoio de grandes nomes que ela inclui em seu repertório. Vale à pena conferir.
Serviço: Dia: 31/08/2017 (quinta-feira) - Hora: 20h - Ingresso: R$ 25,00
LOCAL: Bar Cariocando – Rua Silveira Martins, 139 – Catete –Todos os cartões – 18 anos – Estacionamento ao lado - 2557 36 46.
Assessoria de Imprensa: Mônica Cotta - (21) 99601-5849
Tania Malheiros comemora 16 anos de carreira no show “Um brinde ao samba”
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Acompanham os músicos Kiko Chavez (violão), Miguelzinho (cavaquinho) e Gabriel Buzunga (percussão)...
Filha do cavaquinista Múcio de Sá Malheiros, Tania começou a cantar na infância, por influência do pai e voltou aos palcos incentivada por amigos.
Formada em jornalismo, fez o primeiro show profissional em 2001, frequentou as rodas de samba da cidade, fez pós-graduação com pesquisa voltada para a história do samba, em 2006, e quatro anos depois lançou “Deixa eu me benzer”, o primeiro álbum. Os álbuns foram produzidos pelo genial maestro Gilson Peranzzetta. Tania celebra os 16 anos de carreira artística registrando mais de uma centena de shows com o apoio de grandes nomes que ela inclui em seu repertório. Vale à pena conferir.
Serviço: Dia: 31/08/2017 (quinta-feira) - Hora: 20h - Ingresso: R$ 25,00
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2.12.16
Dois livros de Tárik de Souza em um grande lançamento no Rio de Janeiro
O grande e bravo crítico de música Tárik de Souza, lança no dia 12 de dezembro de 2016 (segunda-feira, a partir das 19 horas) na Livraria Bossa Nova e Companhia, os livros Sambalanço, a bossa que dança- um mosaico e MPBambas (Editora Karup).
O evento vai rolar na Rua Duvivier, nº 37, Beco das Garrafas/ Copacabana
Todo mundo lá!
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Tárik de Souza
7.11.16
O iluminado Tom Jobim - 22 anos sem o maestro soberano
O iluminado Tom Jobim
22 anos sem o maestro soberano
Jorge Sanglard(*)
A música foi o grande chamamento da vida de Antonio Carlos Jobim (25/1/1927 Rio de Janeiro - 8/12/1994 Nova York, EUA). Em 67 anos de vida, Tom Jobim conquistou tudo o que um músico na essência poderia sonhar. O respeito pela obra, o reconhecimento no Brasil e a consagração nos Estados Unidos e pelo mundo afora. Ao ajudar a forjar a Bossa Nova com canções que se tornaram Standards, Tom projetou a música popular brasileira de qualidade e abriu espaço para o ‘jazz-samba’ no fechado mercado norte-americano, seduzindo jazzistas como John Hendricks, Charlie Bird, Stan Getz, Ella Fitzgerald, Ron Carter, Joe Henderson, Herbie Hancock, Shirley Horn, entre muitos outros, além de gravar com o cantor Frank Sinatra.
Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Brasileiro até no nome. E, como Heitor Villa-Lobos, foi um autêntico embaixador da criatividade musical do Brasil. Com paixão e por prazer, Villa-Lobos e Tom Jobim revelaram ao mundo a inventividade musical brasileira e se transformaram em símbolos da melhor música criada do Brasil.
A profunda ligação entre os irmãos Tom e Helena Jobim foi o fio condutor da biografia do compositor, maestro, arranjador, pianista, cantor e mestre da Bossa Nova intitulada “Antonio Carlos Jobim – Um Homem Iluminado” (Nova Fronteira), lançado no final de 1996, há duas décadas, no restaurante Plataforma, no Rio de Janeiro, para marcar os dois anos da morte de Tom Jobim. Helena Isaura Brasileiro de Almeida Jobim (Rio de Janeiro, 27 de fevereiro de 1931 - 13 de setembro de 2015, Belo Horizonte), encontrou forças após a morte do irmão em 1994 para vasculhar a memória e revelar a transformação que conduziu o companheiro de brincadeiras de infância a se tornar o maior músico brasileiro a partir da segunda metade do Século XX.
A cada página da biografia de Tom Jobim, escrita pela irmã Helena, fica a certeza de que sua vida era mesmo predestinada, como um preto velho de olhos clarividentes profetizara ao adolescente numa noite num bar de Ipanema. Em Minas, durante o lançamento da biografia, em 1996, a irmã escritora revelaria ainda que Tom sentia as forças da natureza e sabia que dentro da floresta ouviria temas inteiros de músicas. Tom Jobim sabia que os sons o procurariam.
Durante uma visita à fazenda mineira Paraíso, em Leopoldina, na Zona da Mata, aos 18 anos, Tom Jobim, depois de andar légua e meia penetrando na grande floresta, vendo o dia nascer lentamente, acreditou que tinha nascido e se criado para isso: tornar-se vulnerável no corpo e no espírito, ele inteiro apenas sensibilidade, sem medo desta fatal entrega. Era seu destino. Sua sentença. Não podia mais fugir. Chegou ao invisível portão da floresta. Mas antes de dar o primeiro passo para este reino, sentiu mais uma vez “o corajoso medo”, que mais tarde colocaria na letra de “Matita Perê”. É assim, denso, comovente e íntimo o relato da irmã Helena Jobim na biografia. Livro pra ser lido, relido e sentido sempre.
Um piano diferente e um baiano Bossa Nova
Em 1953, o piano diferente do autodidata Antonio Carlos Jobim já se destacava na noite carioca. Poucos anos depois, em 1958, o violão singular de João Gilberto se juntaria ao piano e aos arranjos de Tom para, juntos, reformularem a estrutura da música brasileira com a criação da Bossa Nova. O disco “Chega de Saudade” foi o abre-alas e, na contracapa, Tom elogiava João Gilberto: “Esse baiano Bossa Nova”.
Mas antes disso, o músico ainda trabalhou na Continental. Escrevendo música na partitura para os compositores que não sabiam colocar a melodia no papel. Essa, segundo a irmã Helena conta no livro, foi uma escola para Tom, que pode conhecer nos tempos da Continental compositores como Radamés Gnatalli (então o arranjador oficial da casa), Pixinguinha, Monsueto, Assis Valente, Ari Barroso, Jacob do Bandolim, Dorival Caymmi, Antonio Maria e muitos mais. Na Continental, Tom reencontrou Luiz Bonfá. Helena assegura na biografia que o irmão conhecera Bonfá como pescador anônimo nas pedras do Arpoador.
Entre muitas revelações, o livro trazia ainda o longo poema “Chapadão” escrito por Tom e que, segundo Helena, não deixava de ser seu auto-retrato: “(...) Quero a casa em lugar alto / Ventilado e soalheiro / quero da minha varanda / Contemplar o mundo inteiro / ... / Vou fazer a minha casa / No meio da confusão / Que o jereba se alevanta / No olhar do furacão / (...)”. Tom Jobim foi fascinado pelas palavras e obcecado pelas coisas do Rio de Janeiro e do Brasil. E lançou mão de todo esse sentimento e de todo o conhecimento e toda a identificação que tinha com a natureza para criar suas músicas.
Como irmã e amiga, Helena Jobim conviveu com Tom e essa trajetória compartilhada fez do livro “Antonio Carlos Jobim – Um Homem Iluminado” um relato emocionado e ao mesmo tempo afiado e afinado com a essência do grande compositor.
Um inusitado prefácio do amigo e parceiro Chico
O amigo e parceiro Chico Buarque de Holanda, um continuador da melhor tradição de compositores inspirados em Antonio Carlos Jobim, convidado para celebrar a memória de Tom no prefácio do livro de Helena Jobim, optou por vasculhar fitas gravadas domesticamente e transformou sua contribuição na biografia numa preciosidade: uma fita com registros inéditos, onde Tom e Chico, descontraídos, batem papo e o maestro, arranjador e compositor troca impressões musicais com o parceiro. E, o melhor, toca o piano e canta sem compromisso, mas esbanjando sensibilidade. A fita foi transformada em um CD, gravado pela Sony, e integrou o livro.
Helena Jobim também abriu os arquivos fotográficos da família e resgatou no livro fotos do irmão em inúmeras situações. Algumas inéditas, estas fotos revelavam a face iluminada do eterno Tom Jobim. A biografia ainda trazia depoimentos de amigos, familiares e músicos que compartilharam com Tom Jobim a vida e a música.
Tanto Tom quanto Helena tiveram no avô Azor Brasileiro de Almeida uma referência segura seja emocional seja criativa. Incentivador da leitura, o avô presenteou a neta com o primeiro dicionário e a primeira máquina de escrever. A sedução da palavra marcou definitivamente a trajetória dos irmãos Antonio Carlos Jobim e Helena Jobim. Em 1993, a escritora foi premiada com Destaque em Prosa, pelo conjunto de sua obra, pela União Brasileira de Escritores. Nessa biografia, de 1996, mostraria sua força narrativa ao revelar um pouco da alma musical de Antonio Carlos Jobim, cidadão brasileiro com um pé no mundo, mestre da Bossa Nova, essência musical do Brasil criativo.
E autor de clássicos como Wave (Vou te contar), Samba do avião, Amor em paz, Águas de março, Corcovado, Lígia, Luísa, Quebra-pedra (Stone Flower), Chega de saudade (c/ Vinícius de Moraes), Canção do amor demais (c/ Vinícius de Moraes), Garota de Ipanema (c/ Vinícius de Moraes), Ela é carioca (c/ Vinícius de Moraes), Insensatez (c/ Vinícius de Moraes), Eu sei que vou te amar (c/ Vinícius de Moraes), Se todos fossem iguais a você (c/ Vinícius de Moraes), O morro não tem vez (c/ Vinícius de Moraes), Só danço samba (c/ Vinícius de Moraes), Desafinado (c/ Newton Mendonça), Samba de Uma Nota Só (c/ Newton Mendonça), Dindi (c/ Aloysio de Oliveira), Inútil paisagem (c/ Aloysio de Oliveira), Anos dourados (c/ Chico Buarque), Eu te amo (c/ Chico Buarque), Retrato em branco e preto (c/ Chico Buarque), Matita perê (c/ Paulo César Pinheiro), para ficar só por aqui.
Ao celebrar os 20 anos da morte de Tom Jobim, em dezembro de 2014, foi inaugurada sua estátua em tamanho natural próximo ao Arpoador, na orla da praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, criada pela escultora Christina Motta. Baseada em uma antiga foto de Tom Jobim com o parceiro Vinicius de Moraes, a estátua de Tom foi um presente da Prefeitura à cidade do Rio de Janeiro e à memória do maestro soberano.
(*) Jorge Sanglard é Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais no Brasil e em Portugal
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)
22 anos sem o maestro soberano
Jorge Sanglard(*)
A música foi o grande chamamento da vida de Antonio Carlos Jobim (25/1/1927 Rio de Janeiro - 8/12/1994 Nova York, EUA). Em 67 anos de vida, Tom Jobim conquistou tudo o que um músico na essência poderia sonhar. O respeito pela obra, o reconhecimento no Brasil e a consagração nos Estados Unidos e pelo mundo afora. Ao ajudar a forjar a Bossa Nova com canções que se tornaram Standards, Tom projetou a música popular brasileira de qualidade e abriu espaço para o ‘jazz-samba’ no fechado mercado norte-americano, seduzindo jazzistas como John Hendricks, Charlie Bird, Stan Getz, Ella Fitzgerald, Ron Carter, Joe Henderson, Herbie Hancock, Shirley Horn, entre muitos outros, além de gravar com o cantor Frank Sinatra.
Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Brasileiro até no nome. E, como Heitor Villa-Lobos, foi um autêntico embaixador da criatividade musical do Brasil. Com paixão e por prazer, Villa-Lobos e Tom Jobim revelaram ao mundo a inventividade musical brasileira e se transformaram em símbolos da melhor música criada do Brasil.
A profunda ligação entre os irmãos Tom e Helena Jobim foi o fio condutor da biografia do compositor, maestro, arranjador, pianista, cantor e mestre da Bossa Nova intitulada “Antonio Carlos Jobim – Um Homem Iluminado” (Nova Fronteira), lançado no final de 1996, há duas décadas, no restaurante Plataforma, no Rio de Janeiro, para marcar os dois anos da morte de Tom Jobim. Helena Isaura Brasileiro de Almeida Jobim (Rio de Janeiro, 27 de fevereiro de 1931 - 13 de setembro de 2015, Belo Horizonte), encontrou forças após a morte do irmão em 1994 para vasculhar a memória e revelar a transformação que conduziu o companheiro de brincadeiras de infância a se tornar o maior músico brasileiro a partir da segunda metade do Século XX.
A cada página da biografia de Tom Jobim, escrita pela irmã Helena, fica a certeza de que sua vida era mesmo predestinada, como um preto velho de olhos clarividentes profetizara ao adolescente numa noite num bar de Ipanema. Em Minas, durante o lançamento da biografia, em 1996, a irmã escritora revelaria ainda que Tom sentia as forças da natureza e sabia que dentro da floresta ouviria temas inteiros de músicas. Tom Jobim sabia que os sons o procurariam.
Durante uma visita à fazenda mineira Paraíso, em Leopoldina, na Zona da Mata, aos 18 anos, Tom Jobim, depois de andar légua e meia penetrando na grande floresta, vendo o dia nascer lentamente, acreditou que tinha nascido e se criado para isso: tornar-se vulnerável no corpo e no espírito, ele inteiro apenas sensibilidade, sem medo desta fatal entrega. Era seu destino. Sua sentença. Não podia mais fugir. Chegou ao invisível portão da floresta. Mas antes de dar o primeiro passo para este reino, sentiu mais uma vez “o corajoso medo”, que mais tarde colocaria na letra de “Matita Perê”. É assim, denso, comovente e íntimo o relato da irmã Helena Jobim na biografia. Livro pra ser lido, relido e sentido sempre.
Um piano diferente e um baiano Bossa Nova
Em 1953, o piano diferente do autodidata Antonio Carlos Jobim já se destacava na noite carioca. Poucos anos depois, em 1958, o violão singular de João Gilberto se juntaria ao piano e aos arranjos de Tom para, juntos, reformularem a estrutura da música brasileira com a criação da Bossa Nova. O disco “Chega de Saudade” foi o abre-alas e, na contracapa, Tom elogiava João Gilberto: “Esse baiano Bossa Nova”.
Mas antes disso, o músico ainda trabalhou na Continental. Escrevendo música na partitura para os compositores que não sabiam colocar a melodia no papel. Essa, segundo a irmã Helena conta no livro, foi uma escola para Tom, que pode conhecer nos tempos da Continental compositores como Radamés Gnatalli (então o arranjador oficial da casa), Pixinguinha, Monsueto, Assis Valente, Ari Barroso, Jacob do Bandolim, Dorival Caymmi, Antonio Maria e muitos mais. Na Continental, Tom reencontrou Luiz Bonfá. Helena assegura na biografia que o irmão conhecera Bonfá como pescador anônimo nas pedras do Arpoador.
Entre muitas revelações, o livro trazia ainda o longo poema “Chapadão” escrito por Tom e que, segundo Helena, não deixava de ser seu auto-retrato: “(...) Quero a casa em lugar alto / Ventilado e soalheiro / quero da minha varanda / Contemplar o mundo inteiro / ... / Vou fazer a minha casa / No meio da confusão / Que o jereba se alevanta / No olhar do furacão / (...)”. Tom Jobim foi fascinado pelas palavras e obcecado pelas coisas do Rio de Janeiro e do Brasil. E lançou mão de todo esse sentimento e de todo o conhecimento e toda a identificação que tinha com a natureza para criar suas músicas.
Como irmã e amiga, Helena Jobim conviveu com Tom e essa trajetória compartilhada fez do livro “Antonio Carlos Jobim – Um Homem Iluminado” um relato emocionado e ao mesmo tempo afiado e afinado com a essência do grande compositor.
Um inusitado prefácio do amigo e parceiro Chico
O amigo e parceiro Chico Buarque de Holanda, um continuador da melhor tradição de compositores inspirados em Antonio Carlos Jobim, convidado para celebrar a memória de Tom no prefácio do livro de Helena Jobim, optou por vasculhar fitas gravadas domesticamente e transformou sua contribuição na biografia numa preciosidade: uma fita com registros inéditos, onde Tom e Chico, descontraídos, batem papo e o maestro, arranjador e compositor troca impressões musicais com o parceiro. E, o melhor, toca o piano e canta sem compromisso, mas esbanjando sensibilidade. A fita foi transformada em um CD, gravado pela Sony, e integrou o livro.
Helena Jobim também abriu os arquivos fotográficos da família e resgatou no livro fotos do irmão em inúmeras situações. Algumas inéditas, estas fotos revelavam a face iluminada do eterno Tom Jobim. A biografia ainda trazia depoimentos de amigos, familiares e músicos que compartilharam com Tom Jobim a vida e a música.
Tanto Tom quanto Helena tiveram no avô Azor Brasileiro de Almeida uma referência segura seja emocional seja criativa. Incentivador da leitura, o avô presenteou a neta com o primeiro dicionário e a primeira máquina de escrever. A sedução da palavra marcou definitivamente a trajetória dos irmãos Antonio Carlos Jobim e Helena Jobim. Em 1993, a escritora foi premiada com Destaque em Prosa, pelo conjunto de sua obra, pela União Brasileira de Escritores. Nessa biografia, de 1996, mostraria sua força narrativa ao revelar um pouco da alma musical de Antonio Carlos Jobim, cidadão brasileiro com um pé no mundo, mestre da Bossa Nova, essência musical do Brasil criativo.
E autor de clássicos como Wave (Vou te contar), Samba do avião, Amor em paz, Águas de março, Corcovado, Lígia, Luísa, Quebra-pedra (Stone Flower), Chega de saudade (c/ Vinícius de Moraes), Canção do amor demais (c/ Vinícius de Moraes), Garota de Ipanema (c/ Vinícius de Moraes), Ela é carioca (c/ Vinícius de Moraes), Insensatez (c/ Vinícius de Moraes), Eu sei que vou te amar (c/ Vinícius de Moraes), Se todos fossem iguais a você (c/ Vinícius de Moraes), O morro não tem vez (c/ Vinícius de Moraes), Só danço samba (c/ Vinícius de Moraes), Desafinado (c/ Newton Mendonça), Samba de Uma Nota Só (c/ Newton Mendonça), Dindi (c/ Aloysio de Oliveira), Inútil paisagem (c/ Aloysio de Oliveira), Anos dourados (c/ Chico Buarque), Eu te amo (c/ Chico Buarque), Retrato em branco e preto (c/ Chico Buarque), Matita perê (c/ Paulo César Pinheiro), para ficar só por aqui.
Ao celebrar os 20 anos da morte de Tom Jobim, em dezembro de 2014, foi inaugurada sua estátua em tamanho natural próximo ao Arpoador, na orla da praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, criada pela escultora Christina Motta. Baseada em uma antiga foto de Tom Jobim com o parceiro Vinicius de Moraes, a estátua de Tom foi um presente da Prefeitura à cidade do Rio de Janeiro e à memória do maestro soberano.
(*) Jorge Sanglard é Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais no Brasil e em Portugal
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25.7.16
Antonio Adolfo grava seu "depoimento para a posteridade" no Museu da Imagem e do Som
Nessa quarta-feira, dia 27, Antonio Adolfo participa da série "Depoimetos para a Posteridade" do MIS / Museu da Imagem e do Som.
Ele será entrevistado pelos jornalistas Antônio Carlos Miguel e Jorge Roberto Martins e pelos músicos Carlos Lyra e Mauro Senise.
O evento tem entrada franca e começa às 13h30, na sede do Museu da Imagem e do Som, na Praça XV (Praça Luiz Souza Dantas, 01). O auditório tem capacidade para 50 pessoas. Vale chegar cedo para garantir o lugar!
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8.1.16
Agenda dos shows de Rui de Carvalho em Janeiro de 2016
AGENDA DE JANEIRO: Nas sextas 8 e 22 de janeiro, Rui estará no Bar da Dida, antigo Tempero da Praça. Nas Sextas, 15 e 29 de janeiro cantará no Il Piccolo Caffe Biergarten, na Lapa e Sábado, 16 de Janeiro no Bar e Restaurante Tijucano. É só conferir nos flyers. Vamos lá!
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6.1.16
Rui de Carvalho canta no Bar da Dida (antigo Tempero da Praça) e no Il Piccolo Caffè Biergarten
O compositor e cantor Rui de Carvalho vai fazer seus shows no dia 8 de janeiro (próxima sexta-feira) no antigo Tempero da Praça que agora se chama Bar da Dida.
E tem mais: Nas sextas-feiras , dia Nas sextas, dias 15 e 29 de janeiro de 2016, a partir das 19,30 horas estará cantando também no Il Piccolo Caffè Biergarten, na Lapa- rua dos Inválidos, 135
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E tem mais: Nas sextas-feiras , dia Nas sextas, dias 15 e 29 de janeiro de 2016, a partir das 19,30 horas estará cantando também no Il Piccolo Caffè Biergarten, na Lapa- rua dos Inválidos, 135
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6.9.15
Última leva de caricaturas expostas na FLIM2015: Jô Soares, Maria Bethânia e Rolling Stones + Bob Dylan
Última leva de caricaturas expostas na FLIM2015 - Festa Literária de Santa Maria Madalena. Nesta série: Jô Soares, Maria Bethânia e Rolling Stones + Bob Dylan (Esta última foi capa da revista "Programa" do old JB) Bom domingo a todos
Jô Soares
Maria Bethânia
Rolling Stones + Bob Dylan
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25.5.15
Imperdível: Filho da Bahia no Tempero da Praça
IMPERDÍVEL: FILHO DA BAHIA NO TEMPERO DA PRAÇA - O compositor Walter Queiroz, dispensa comentários, basta citar alguns sucessos: Filho da Bahia, Pode Entrar, Tesoura Cega, Estrela Radiante, Dose pra Leão. Ele estará com Rui de Carvalho,no dia 29 de maio no Tempero da Praça. Todo mundo lá! O tempero da Praça fica na Rua Barão de Iguatemi, nº 408 - Tijuca. Façam suas reservas!
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14.1.15
8.12.14
19.10.14
Dia 24 - Rui de Carvalho convida Ana Egito e Roberto Stepheson/ Jazz, Bossa Nova, MPB no Tempero da Praça
O Tempero da Praça fica na Rua Barão de Iguatemi, nº 408 - Praça da Bandeira - Rio de Janeiro.
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8.10.14
Rui de Carvalho comemora aniversário no Tempero da Praça - dia 10 de outubro
Meu amigo, o compositor e cantor Rui de Carvalho comemora seu anivesário cantando com amigos no Tempero da Praça - Rua Barão de Iguatemi, nº 408 - Praça da Bandeira - Rio de Janeiro.
Todos que gostam da boa música popular brasileira lá!!!
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9.9.14
Miltinho ("in memoriam"): o grande cantor que só ia de balanço, no seu tempo certo
"Você, mulher, que já viveu/que já sofreu/não minta/um triste adeus/nos olhos teus/a gente vê, mulher de trinta..." ("Mulher de Trinta", de Luís Antônio); "Foi assim/a lâmpada apagou/a vista escureceu/um beijo, então, se deu/e veio a ânsia louca, incontida do amor..."("Meu Nome É Ninguém", de Luiz Reis e Haroldo Barbosa); "Peguei o Zé/de copo na mão/tentando afogar a Conceição/no bar, quem é triste vira herói/engana a cabeça/o coração não dói..." ("Zé de Conceição", de João Roberto Kelly); "Luminosa manhã/pra que tanta luz?/dá-me um pouco de céu/mas não tanto azul..." ("Canção da Manhã Feliz", de Luiz Reis e Haroldo Barbosa); "Você errou/quando olhou pra mim/uma esperança fez nascer em mim..." (Recado", de Djalma Ferreira e Luís Antônio).
Esses, entre outros, são sucessos que, sobretudo nos anos 60, firmaram o cantor carioca Miltinho (fotos abaixo), no panorama da MPB de então, com uma interpretação diferente, anasalada, toda sua, em que brincava com o ritmo e a divisão.
Seu primeiro elepê solo, "Um Novo Astro", data de 1960, em que gravou a bem rodada "Mulher de Trinta", mas, antes disso, provara da antiga e eficaz receita do canto popular: a atuação como "crooner", de 1950 a 1957, da Orquestra Tabajara e, pouco depois, do conjunto Milionários do Ritmo, liderado pelo organista Djalma Ferreira. Também fizera parte de memoráveis conjuntos vocais, como Namorados da Lua, Anjos do Inferno e Quatro Ases e um Curinga, cantando e batendo pandeiro, como hoje faz o talentoso Pedrinho Miranda, ex-integrante do Grupo Semente.
"Filho direto do melhor sincopado brasileiro", como escreveu o colunista de economia e bandolinista Luís Nassif, Miltinho é tema do curta-metragem "No Tempo de Miltinho", de André Weller (pianista, artista gráfico e ex-integrante do conjunto Família Roitman), exibido há cinco anos pelo festival É Tudo Verdade, no Rio e em São Paulo. Feito com recursos da Petrobras, após aprovação em concurso público da estatal, mostra raras imagens de arquivo, sendo merecido e bem-vindo reconhecimento. Flores colhidas ainda em vida por Miltinho, que, no feriado de anteontem, 7 de setembro, aos 86 anos, deu o seu último suspiro. "Um cantor que sempre transitou entre a modernidade e a tradição, que foi popular sem deixar de ser sofisticado", de acordo com a arguta observação do jornalista e escritor Rodrigo Faour.
Pós-escrito: nos "links" seguintes, Miltinho e sua singular divisão: 1) "Só Vou de Balanço", de João Roberto Kelly; 2) "Samba Maroto", de Luiz Reis; 3) "O Amor e a Rosa", de Pernambuco e Antonio Maria; 4) "Só Vou de Mulher", de Luiz Reis e Haroldo Barbosa; 5) "Sincopado Triste", de Hianto de Almeida e Macedo Neto; 6) "Palhaçada", de Luiz Reis e Haroldo Barbosa; 7) "Menina-Moça", de Luís Antonio; 8) "Chorar em Colorido", de Sílvio Silva e Fernando César; 9) "O Poema do Adeus", de Luís Antonio; 10) "Telecoteco Número 2", de Nelsinho e Oldemar Magalhães.
https://www.youtube.com/watch?v=VOwsqVJ7__U ("Só Vou de Balanço")
https://www.youtube.com/watch?v=tisfH-spy6w ("Samba Maroto")
https://www.youtube.com/watch?v=NWRdIHTd_xk (" O Amor e a Rosa")
https://www.youtube.com/watch?v=52Wkhr__3Tk ("Só Vou de Mulher")
https://www.youtube.com/watch?v=0Zd0sEWJ5DA ("Sincopado Triste")
https://www.youtube.com/watch?v=1LfAsXHOwt8 ("Palhaçada")
https://www.youtube.com/watch?v=qe9Brs4KQRU ("Menina-Moça")
https://www.youtube.com/watch?v=hnJyDXvrutY ("Chorar em Colorido")
https://www.youtube.com/watch?v=8srCofoGox8 ("O Poema do Adeus")
http://www.youtube.com/watch?v=wwvReTKLU84 ("Telecoteco Número 2")
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12.1.11
Homenagem do Gerdal: Luís Antônio - 90 anos faria, neste 2011, o militar boêmio de tantas músicas com aquele cheiro de saudade

"Quero morrer no carnaval/na Avenida Central, sambando/o povo na rua cantando/o derradeiro samba que eu fizer chorando...." ("Quero Morrer no Carnaval", feito com Eurico Campos); "É aquele cheiro de saudade/que me traz você a cada instante/folhas de saudade, marcas pelo chão/é uma dor, enfim, no coração..." ("Cheiro de Saudade", em parceria com o pianista Djalma Ferreira); "Saudade, meu moleque de recado/não diga que eu me encontro neste estado..." ("Recado", também com Djalma Ferreira); "Se você num samba de "gente bem"/não vai encontrar alguém apitando um apito no samba/é porque o samba que vai nascer/só vai mesmo acontecer/quando houver um apito no samba..." ("O Apito no Samba", com Luiz Bandeira); "Quatro horas da manhã/sai de casa o Zé Marmita/pendurado na porta do trem/Zé Marmita vai e vem..." ("Zé Marmita", com o funcionário público, já falecido, Gustavo Tomás Filho, o Brasinha); "Você, botão de rosa/amanhã a flor mulher/joia preciosa, cada um deseja e quer/de manhã, banhada ao sol/vem o mar beijar/lua, enciumada, noite alta, vai olhar...." ("Menina-Moça"); "Há neste murmúrio uma saudade/a vontade louca de voltar/ser como era antes/mesmo por instantes/e, depois, morrer pra não chorar" ("Murmúrio", com Djalma Ferreira); "Levanta, Mangueira, a poeira do chão/samba de coração..." ("Levanta, Mangueira"); "Sassassaricando/todo mundo leva a vida no arame/sassassaricando/a viúva, o brotinho e a madame/o velho na porta da Colombo/é um assombro sassaricando..." ("Sassaricando", com Jota Jr. e o discotecário Oldemar Magalhães); "Então, eu fiz um bem dos males que eu passei/fiz do amor uma saudade de você..." ("Poema do Adeus"); "Sapato de pobre é tamanco/almoço de pobre é café/maltrata o corpo como o quê, por quê?/o pobre vive de teimoso que é..."("Sapato de Pobre", outra com Jota Jr."); "Você, mulher, que já viveu/que já sofreu/não minta/um triste adeus/nos olhos seus/a gente vê, mulher de trinta..." ("Mulher de Trinta"); "Olha o bloco de sujo/que não tem fantasia/mas que traz alegria/para o povo cantar/olha o bloco de sujo/vai batendo na lata/alegria barata/carnaval é pular..." (" Bloco de Sujo", na companhia de Luiz Reis).
Forte candidato, infelizmente, por causa de decepções recentes, ao esquecimento na grande mídia (tomara que não) - ou mesmo ausente de significativa homenagem no palco, na tela ou em CD/DVD -, até porque, em vida, nunca cortejou a celebridade (um oficial do Exército sob pseudônimo na noite, "habitué" de boates, como a Drink, de Djalma Ferreira, e consumidor de coquetéis preparados com penumbra, ritmo, ilusão e boemia), o coronel Antônio de Pádua Vieira da Costa (fotos acima) completaria 90 anos de idade em 16 de abril deste ano. Com Jota Jr., Armando Cavalcanti, Klecius Caldas, Victor Freire e Nilo Queiroz, por exemplo, ele perfilou em um grupo de militares de "linha branda" na MPB, cuja farda e deveres correlatos não se opunham à indisciplina da "caserna" musical e à sensibilidade para a conversão em canções de agrado popular, sob arguta observação e com irônico viés carnavalesco, dos instantâneos testemunhados de agruras da nossa gente humilde, como em "Lata d´Água" (com Jota Jr.), samba primeiramente gravado em 78 rpm de 1951 por Marlene, com arranjo de Radamés Gnatalli e acompanhamento dele, ao piano, e sua orquestra, e "Barracão" (com Oldemar Magalhães), que, após o êxito inicial de Heleninha Costa, em 1953, ganhou de Elizeth Cardoso interpretação consagradora, ao lado de Jacob do Bandolim, do Época de Ouro e do Zimbo Trio, em histórico show de Hermínio Bello de Carvalho, para o Museu da Imagem e do Som, no Teatro João Caetano, em 1968. Já bem perto dos seus 80 verões, consumados no vindouro 5 de fevereiro, a cantora Lana Bittencourt, no longínquo 1960, prestou homenagem a Luís Antônio em um dos lados (no outro, a Antonio Carlos Jobim) de um excelente elepê da Columbia, "Sambas do Rio". Periférico em relação à posição central da própria obra no universo da MPB - realçada, no primeiro parágrafo, por seus sucessos, gravados ainda por Miltinho, Lúcio Alves e Helena de Lima, entre outros -, Luís Antônio, conhecido na informalidade dos amigos como Negro Antônio, morreu em primeiro de dezembro de 1996, já colaborador regular nas atividades do Museu do Carnaval do Rio de Janeiro, na Praça da Apoteose da Marquês de Sapucaí e no mesmo Estácio, "holy" Estácio, onde nascera.
Um bom dia a todos. Muito grato pela atenção.
Um abraço,
Gerdal
Pós-escrito: nos "links" abaixo, composições de Luís Antônio por diferentes vozes: 1) "Cheiro de Saudade", por Maysa; 2) "Eu e o Rio", por Clara Nunes, em programa da Rádio Bandeirantes, de São Paulo, em 1973; 3) "Chorou, Chorou", por Marisa Gata Mansa; 4) "Sassaricando", pela lançadora da marcha na revista "Jabaculê de Penacho" (depois reintitulada "Eu Quero Sassaricá"), a vedete Virgínia Lane; 5) "Murmúrio", por uma ainda adolescente Elis Regina, em 1961, no seu elepê de estreia, "Viva a Brotolândia"; 6) Elza Soares e o Monobloco na hoje "politicamente incorreta" "Eu Bebo Sim" (com João do Violão), em cuja letra se ouve a jocosa advertência: "água faz mal à saúde".
http://www.youtube.com/watch?v=n6a8uyW75Uw ("Cheiro de Saudade")
http://www.youtube.com/watch?v=HDK5I9DefYI ("Eu e o Rio")
http://www.youtube.com/watch?v=3Ch1lJcb00Q ("Chorou, Chorou")
http://www.youtube.com/watch?v=dy5f90XhCi8 ("Sassaricando")
http://il.youtube.com/watch?v=rvUErCgbSDE&feature=related ("Murmúrio")
http://www.youtube.com/watch?v=hXL7IEEKav8&feature=related ("Eu Bebo Sim")
2.11.10
Aline Paes, ganhadora do I Prêmio Divas da MPB, canta neste feriado em Botafogo: noite aberta ao novo e bom som e a inéditas de qualidade

No primeiro dos "links" abaixo, a cantora carioca Aline Paes (foto acima) canta "Festejo e Fé", de Marcelo Fedrá e Fred Demarca, com arranjo do violonista Maurício Massunaga; no segundo "link", "Mais Vale a Vida", de Gerson Deslandes e Renato Frazão, com arranjo do pianista Ricardo Rito; no terceiro "link", Quando o Lampião Apaga", de Pedro Ivo e Diogo Brandão", com participação do letrista Pedro Ivo. Aline, ex-estudante universitária de História e aluna de Amélia Rabello na oficina de canto de samba e choro da Escola Portátil de Música, na Urca, ganhou, há pouco, em Sampa, o Primeiro Prêmio Divas da Música Brasileira, promovido pela revista "Elas&Lucros" e pela Icatu Seguros. "Uma cantora pronta, afinada e com identidade musical muito peculiar, diferente do que se costuma ouvir no rádio", afirma, categórico, o pesquisador Charles Gavin, apresentador, no Canal Brasil, do interessante "O Som do Vinil". E Aline também é uma moça de sorte, pois fez a sua inscrição nesse concurso nacional pouco antes do encerramento do prazo. Abaixo, repassada, mais informação sobre ela e sobre o show "Noite Aberta", que fará, nesta terça, 2 de novembro, em Botafogo.
Um bom feriado a todos. Muito grato pela atenção à dica.
Um abraço,
Gerdal
A tempo: também abaixo, entre os "links", incluo o MySpace de Aline Paes. Vale a pena ouvi-la cantando "Flor Voadeira", uma composição primorosa de Renato Frazão, Marcelo Fredá e Lucas Dain, valorizada por um arranjo benfeito.
http://www.youtube.com/watch?v=h5AlHOOusGM&feature=related
http://il.youtube.com/watch?v=JP2Yt7_KuH4
http://www.youtube.com/watch?v=HsqakNElhyo&feature=related
http://www.myspace.com/alinepaes
ALINE PAES, ESTREANTE JÁ PREMIADA, CANTA NESTE DIA 2 NO SOLAR DE BOTAFOGO
Com a coragem de uma veterana, Aline Paes faz de 'Noite Aberta' seu show de estreia, mesclando compositores de sua geração aos consagrados. “Não tive dúvidas para escolher o que cantar, como e com quem queria fazer o meu primeiro trabalho”, diz a jovem cantora, segura. E é com a mesma facilidade que Aline desvenda os mistérios que existem por trás de músicas como “Frevo de Itamaracá” (Edu Lobo), “Batizado” (Renato Frazão e Marcelo Fedrá), “Guardiã” (Eduardo Gudin), “Flor voadeira” (Frazão, Fedrá e Lucas Dain) e “Festa de rua” (Dorival Caymmi). Já não se pode exigir atenção dos diretores das gravadoras - enrolados que estão na rede dos piratas - mas pede-se ao espectador desse show que ouça com atenção. É sem afobamentos, sem pressa e como se segurasse por um instante a fragilidade da vida nas mãos que deve-se apreciar a noite aberta de Aline Paes.
ESTREIA COM PRÊMIO No último dia 6 de outubro, a cantora venceu o I Prêmio Divas da Música Brasileira, cuja final foi realizada no Bourbon Street Music Club, em São Paulo. O prêmio homenageou as cantoras Ademilde Fonseca, Alaíde Costa e Dóris Monteiro e, no júri do concurso, figuraram nomes como Sérgio Cabral, Ná Ozzetti e Charles Gavin. Na final, Aline Paes concorreu com as cantoras Alice Fernandes e Janaína Moreno. Entre seus trabalhos de destaque estão três participações especiais: no disco do grupo Escambo, 'Fluor', um dos três finalistas do Prêmio da Música Brasileira 2010; no projeto “Mulheres que cantam Pedro Ivo”, em 2009, com shows pelo Rio e gravação do CD 'Leve o porto - Mulheres que cantam Pedro Ivo', com repertório deste novo compositor; e como integrante do coro Combovox no espetáculo “Influx Control”, com o coreógrafo sul-africano Boyzie Cekwana no Festival Panorama de Dança 2009. Aline Paes tem levado o seu show 'Noite aberta' a casas como Lapinha, Bar do Tom e Espaço Rio Carioca. DATA: Terça, 02/11 LOCAL: Teatro Solar de Botafogo - Rua General Polidoro, 180, em Botafogo HORÁRIO: 21h INGRESSOS: R$ 40 (R$ 20 meia-entrada, lista amiga ou alunos Escola Portátil de Música)
8.9.10
Aquela noite em 67 foi do barulho!

Escrevo num só fôlego, acabei de chegar do cinema.(Desculpe se cometer alguma falha ou injustiça) Fui assistir "Uma noite em 67", documentário de Renato Terra e Ricardo Calil. Só digo uma coisa - é imperdível. Se você gosta de música, precisa assistir a esse documentário bem feito. Sempre acho que um documentário deveria situar historicamente os fatos ou eventos narrados - não precisa ser didático de maneira chata. Renato e Calil fizeram isso, de certa forma, não de maneira explícita, mas nos "entrefotogramas" . Confesso que já tinha lido uma boa crítica do jornalista Maucício Stycer , faz algum tempo, e ela me motivou para ver esse filme que me transportou para esta noite precisa - dia 21 de outubro de 1967,- época em que eu era um adolescente fascinado pelo turbilhão cultural que atingiu o pequeno mundo que eu frequentava, - as estações de rádio de Sampa, os shows musicais da TV (O fino da Bossa, Esta noite se improvisa), os filmes de Elvis Presley que passavam no Cine Vera, os discos dos Beatles que tocavam nos bailinhos, competindo com Ray Coniff. Nessa noite memorável eu assisti à final do III Festival de Música Popular Brasileira transmitido pela TV Record em Sampa. Me lembro que vi esse espetáculo pela televisão de um amigo, o Reinaldo, que jogava na linha do time da Paróquia comigo (apesar de recentemente ele não lembrar que jogava comigo) e que também curtia música - nesse tempo minha família não tinha TV e era costume a gente assumir a identidade de "televizinho" - que era o apelido que se dava àqueles que se juntavam na casas dos vizinhos que tinham TV como uma mini-platéia de cinema - numa espécie de comunidade - num saudoso momento de solidariedade eletrônica. Mas essa foi uma noite especial, pois a casa desse meu amigo não era perto da minha casa, juntou bastante gente para ver a contenda dos caras que estavam botando pra quebrar no cenário da música popular. Lembro que o festival acabou tarde e tive que voltar para casa quase beirando a meia-noite- coisa que não era comum naqueles tempos - e olhe que tive que atravessar o bairro inteiro por ruas que ainda não tinham sido contempladas pela iluminação pública.
O que permaneceu dessa noite, durante toda minha vida foi um conjunto de sensações que envolveram a música" Domingo no Parque" de Gilberto Gil e Capinam . Essa música verdadeiramente elétrica, foi defendida por Gil cantando junto com os Mutantes . (Um dia vou contar a história da vez em que carreguei a guitarra dos Mutantes - profissionalmente- é claro).
Percebi, hoje, que existe uma brutal diferença entre você ter vivido a história, mesmo como simples anônima testemunha - e a de assistir a um documentário de um fato que você não presenciou- é como é curioso ver esse momento que recuperado e ampliado para você. É difícil comunicar às pessoas que não viveram esse fato-evento-espetáculo, o que você sentiu. Hoje, no cinema, eu me vi de novo diante da tela (só que maior) assistindo tudo aquilo com uma emoção imensa, ainda perturbado, diante do que aquilo tudo. O que aquilo tudo significou? Aquilo que me impressionou e cativou no "som" novo de "Domingo no Parque" foi a letra de Capinam, composta como uma história contada de forma fragmentada e a música revolucionária de Gil - feito na medida para o som das guitarras elétricas dos Mutantes que mataram a pau com as guitarras distorcidas.
Cabe ressaltar, que nesse tempo, as guitarras elétricas eram absoluta novidade no território da nossa sensibilidade musical melancólica, dos acordes dissonantes de um samba de uma nota só e que naquela época se constituia uma ofensa ao panteon da MPB o uso de um amplificador Fender. Essa rejeição nativa desembocou em ardorosos artigos contra a eletrificação e passeatas reivindicando a abolição das guitarras.(Um fato curioso, o filme pega um flagra de Gilberto Gil em franca contradição como participante de uma dessas passeatas e depois no festival se apresentando com o auxílio luxuoso das guitarras elétricas dos Mutantes. Isso do Gil, vem confirmar um depoimento dele, em que fala mais ou menos isso: que o segredo é saber entrar e sair de todas as estruturas - um pensamento definitivamente moderno (se isso é possível).E olhe que a gente não sabia ainda que nos EUA, nas terras do velho Tio Sam, o movimento era o mesmo - o pessoal da música folclórica americana criticava de forma violenta um jovem de cabelos encaracolados e voz anasalada- que insistia em dizer que alguma coisa estava mudando.
"Domingo no Parque" era o pop-internacional se misturando com uma história prosáica de dois homens simples, trabalhadores que vão a um parque de diversões- e a luta que eles travam por causa de uma mulher - o que a crônica policial chama de o pivô do crime- Pois é, Gil narra um crime passional - e ao que parece os dois eram amigos. Aquela junção pop- com tema de bolero era muita novidade. A novidade estava na forma da narrativa e seus aditivos. Nem vamos falar de "Alegria, Alegria" que também concorria nessa noite. Alegria, Alegria que usa e abusa das colagens de imagens, (uma forma moderna , sem dúvida de tratar a poesia) também sobre uma "plataforma" tradicional de uma melodia típica portuguesa - como entrega Caetano no filme. Alegria,Alegria, é claro que também foi uma explosão, mas para mim, ela foi explodir algum tempo depois. "Domingo no Parque" explodiu a minha cuca primeiro.
Não sei se por algum tipo de manipulação midiática dos donos da bola da Record na época, e de alguns jornalistas, essa noite deixou a imagem de que nela ocorreu o antagonismo do moderno contra o tradicional na MPB. O que é uma imagem errada - já que todos alí apresentavam formas da modernidade. Não se pode dar grandeza a esta noite sem falar de Roda Viva que é obra de gênio e Ponteio. Chico e Edu Lobo fizeram duas obras potentes, modernas, que infelizmente ficaram marcadas como tradicionais, tamanha foi a onda que Alegria, Alegria levantou junto com Domingo no Parque, sacudindo o território da canção brasileira e construindo a base do o nascente movimento tropicalista - (que mais tarde se enriqueceria com o genial inventor Tom Zé e a poesia sacudida de Torquato Neto, mais a diabruras de Rogério Duprat que acabou de entortar o coro dos contentes). Justiça seja feita: temos que falar de Sergio Ricardo que é um grande compositor e que nessa noite teve que enfrentar as vaias que mostravam um pouco do espírito da época, uma raiva que pairava no ar, uma certa urgência e uma certa intolerância em relação ao novo. "Beto bom de Bola" era uma novidade muito complicada para a cabeça daquele povo que vaiava sem parar. Convenhamos que é uma música difícil de ouvir, apesar de se apresentar com roupagem quase de um "pagode" - conta a história do surgimento e decadência de um craque do futebol . O problema estava na música, no arranjo, não era fácil de ouvir - repito. Ao que me parece não tinha condições de enfrentar as locomotivas que Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso e Gilberto Gil tinham botado nos trilhos. Eram músicas que tinham algum tipo de apelo- eram novidades, eram modernas, mas tinham um apelo, um gancho qualquer que seduzia as massas, mesmo as pessoas que começaram a vaiar - estas logo foram dobradas e passaram a aplaudir, como Nelson Mota exemplifica no filme.
Já falei da complexidade do arranjo e agora falo sobre a empatia. Essa música de Sergio Ricardo estava deslocada alí. Havia uma torcida implacável que vaiava - até para estar na "moda", pois fazia parte do ritual essa coisa de vaiar algumas figuras naquele tempo. E parte da platéia cismou com Sergio Ricardo , que , ao que me parece, não teve muita paciência, e não foi simpático em nenhum momento - de certa forma provocou o público exigindo silêncio etc e tal e acabou quebrando o violão e jogando em cima da platéia - tá tudo lá documentado- ele grita: - Vocês ganharam! E quebra- que-te-quebra-violão! Acho que ele demorou demais nas explicações, diante do público que naquele momento se transformava em massa e portanto, só poderia ter um comportamento de massa contagiada. Pois ali o que ocorreu foi um fenômeno típico do comportamento de massa. A vaia - além de se constituir numa moda, era a expressão de várias coisas reprimidas nessa época triste do Brasil de quarenta anos atrás. E olhe que a noite longa de chumbo ainda estava por vir. A serpente ainda estava dentro do ovo Em síntese em 67 , havia muita coisa reprimida, mas havia também uma criatividade imensa, uma vontade , uma energia , lá sei eu que havia. Só me lembro que eu era adolescente e senti no ar aquele vento da mudança que o Bob Dylan cantou um dia.
Só que na sociedade de Bob Dylan (apesar da Guerra do Vietnam) e no resto do mundo a partir daquela época, principalmente em 68 e 69 a roda de Aquarius(*) ia na direção da luta pelas liberdades individuais diante do sistema - era um tal de paz e amor, protestos em todo mundo, enquanto aqui o pau comia na casa de Noca e no México com aquele massacre dos estudantes. Mas tinha muita gente boa, das classes médias que se preparavam para o milagre econômico - gente que ia para Bariloche comprar seus casacos de couro argentino na Calle Florida. Nada contra, mas o chamado "milagre econômico" que nos custou caro depois - foi a válvula de escape do regime de "dietadura". Era a época do Ame-o ou deixe-o, e aí a gente vai e ganha a copa do mundo em 70... Acho que me perdi...
Voltemos ao Festival. Uma coisa que notei, foi como se fumava naquela época! Cáspite!!! Todo mundo fumava desbragadamente, desde os repórteres, até os entrevistados , passando pelos papagaios de pirata. É muito engraçada uma cena em que Chico solta uma baforada na cara , não sei se de Randal Juliano ou Reali Jr. que junto com Cidinha Campos ficaram nos bastidores fazendo a entrevista antes e depois das apresentações dos candidatos. Não sei como não incendiaram o Teatro Paramount (local onde realizaram o festival no centro de São Paulo). Tinha gente fumando até no palco, no encerramento do show. Como os tempos mudaram!
Paradoxal (e Mauricio Stycer já tinha me apontado isso) é o comportamento de alguns participantes, entre eles Edu Lobo e Chico Buarque e um pouco Caetano Veloso nos depoimentos feitos agora , passados 40 anos e em comparação com o que manifestaram na época. Naquela noite, todos pareciam muito animados, nervosos - parece que foi numa noite quente - onde até Roberto Carlos estava meio grilado, ele que - como confessa- já estava acostumado com vários tipos de platéia - e como representante da Jovem-Guarda (os cabeludos etc etal) estava como um estranho no ninho, isto é, no meio das feras da MPB. Ele fica surpreso ao saber que existia até uma tropa de choque organizada para vaiá-lo. Pobre do Roberto, iria defender um samba! Mas é preciso se observar como ele canta bem, a canção sai tranquila de sua boca - de forma natural. O cara é bom intérprete pra caramba! Já era um grande cantor naquela época.
Gil e Caetano, olham para o passado com uma certa nostalgia. Apesar de Caetano falar num tom um pouco blasé da sua antiga Alegria, Alegria, é comovente o seu depoimento, quando ele fala da juventude e dos dias de hoje...
Mas, uma noite em 67 têm muito mais coisas: tem MPB4, Nara Leão, Marília Medalha (curiosa mulher- ótima cantora e compositora que deu uma banana para o sistema estelar daqueles tempos e fez apenas o que queria - e sumiu de repente e reapareceu depois junto com Vinicius numa carreira super-bacana), Os argentinos The Beat Boys, os depoimentos de Sérgio Cabral (pai), Nelson Motta e outros. Ah, Ferreira Gullar estava no júri.
O tema do filme é tão fantástico, que num determinado momento percebi que a platéia do cinema estava cantando as músicas que eram apresentadas na tela (principalmente uma chata sentada ao meu lado) .Isso mostra que aquelas canções permanceram, são imortais e o filme fez o grande favor de registrar aquele momento fabuloso em que elas brotaram...
(*) gosto de usar essa imagem que Elio Gaspari empregou no seu livro sobre o período autoritário em comparação com o que ocorria no mundo lá fora.
(se rolar mais alguma memória e "posto" aqui)
(imagens do filme você pode acessar no seguinte link
http://cinema.uol.com.br/album/uma_noite_em_67_2010_album.jhtm#fotoNav=1)
Para ver e ouvir Gil e os Mutantes no festival defendendo "Domingo no Parque" clique no link abaixo
http://www.youtube.com/watch?v=Zbv3M-AdxC0
27.7.10
Dica do Gerdal : Fátima Regina canta nesta terça em Copacabana e mostra por que a bossa nova é a sua praia musical

Cantora admirada por músicos e bastante identificada com a noite e o "jingle", neste campo atuando em campanhas de grandes empresas, a niteroiense Fátima Regina participa, nesta terça-feira, 27 de julho, às 20h, do Happy Bossa Jazz, no Ouro Verde Café (Av. Atlântica, 1.456 - tel.: 2275-4814), com o show "Minha Praia É a Bossa ("flyer" abaixo)..
Fátima Regina divulga o seu mais recente CD, também intitulado "Minha Praia É a Bossa", e destaco que, no anterior, "Mãos de Afeto", entre outras, faz uma magnífica interpretação da faixa-título, composta por Ivan Lins e Vítor Martins. Há pouco tempo, no mesmo local, na Princesinha do Mar, em encontro musical em homenagem a Durval Ferreira, deu um show de interpretação, revelando novamente a sua consabida intimidade com o balanço da bossa. Uma grande cantora, que não está nessa praia por acaso ou condescendência. É peixe dentro d`água na MPB - e desenvolto.
***
Pós-escrito: no primeiro dos "links" abaixo, acompanhada pelo Dialeto Brasileiro, Fátima Regina faz lembrança suingada de "Os Grilos", composição de 1967 dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle. No segundo, outro balanço gostoso com "Corrida de Jangada", também dos anos 60, de Edu Lobo e José Carlos Capinam.
http://www.youtube.com/watch?v=LMjOz-kV1ow
http://www.youtube.com/watch?v=zraR8r5EO4I&feature=related
18.5.10
Dica do Gerdal: Antonia Adnet é a atração inaugural, nesta terça, no Lapinha, de série que Marcelo Caldi dedica a novatos talentosos da MPB


Filha do violonista e compositor Mário Adnet e de CD, "Discreta", recém-lançado pela Biscoito Fino, Antonia Adnet é a primeira entre os convidados de Marcelo Caldi ("flyer" acima) nas terças do Lapinha (Av. Mem de Sá, 82 - Lapa), que abre, neste 18 de maio, a partir das 21h30, um espaço louvável em sua programação para mostrar gente moça fazendo música popular de alta qualidade, os quais, talvez por isso, ironicamente, em tempos de difusão musical tão descorada em larga escala - sem contar aquele "cascalho marqueteiro das múltis" -, veem-se destituídos de chance ampla e merecida de inserção na grande mídia. O próprio anfitrião dessa nascente e promissora série é um talento exponencial da sua geração - ao teclado, à sanfona, compondo e arranjando - e, como Antonia, provém de uma família musical, tocando com a mãe, a também pianista Estela Caldi, argentina, e o irmão igualmente "bem na fita", o flautista e saxofonista Alexandre Caldi, num conjunto de fundamento piazzolliano, o Libertango. "Workaholic" confesso, Marcelo lançou há pouco o seu segundo CD solo e bem brasileiro, "Cantado", no qual, como o título claramente manifesta, exercita-se ainda numa arte elevada a refinada expressão nas vozes "a cappella" do BR6, outro conjunto de que faz parte.
Por seu turno, após alguns anos atuando como violonista na banda de mais um talento da presente alvorada artística na MPB - a cantora potiguar Roberta Sá -, Antonia Adnet, ex-aluna dos conceituados Célia Vaz e Luiz Otávio Braga, revela suas porções canora e autoral, bem recebidas pela crítica, como na faixa-título ("link" abaixo), de letra escrita por João Cavalcanti, integrante do ótimo conjunto de samba Casuarina e filho de Lenine. Pedro Luís (foto acima), que este ano foi comentarista de desfile de escolas de samba pela tevê e ainda no carnaval agita a massa com o seu polirrítmico Monobloco, comparece ao show de Antonia para uma participação especial. Dele, é a crítica social de "No Braseiro", cantada por Roberta Sá num dos "links" abaixo. "Em outro "link", Edu Krieger, com o seu violão, canta "Desafio", de sua autoria, acompanhado pelo cavaquinho de Rodrigo Maranhão e pelo acordeão de Marcelo Caldi.
http://www.youtube.com/watch?v=-rrrolHLQVc
http://www.youtube.com/watch?v=pItWBvBdAII&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=FnR915QFtbs&feature=related
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