29.10.08

Humilhados e ofendidos


Um dia entendi perfeitamente o significado do título do romance de Fiódor Dostoiévski : "Humilhados e Ofendidos".
Foi num Natal, na metade dos anos 90, tinha ido para Sampa ver meus pais que moravam na zona norte da cidade. Acabara de chegar da casa de uns amigos das épocas heróicas da Escola de Sociologia e Política. O ponto final do metrô, naquela época era a Estação Santana, que tinha, como tem ainda hoje, um grande terminal de ônibus . Entrei na fila de um deles, o que passava perto da casa dos meus velhos. Era a hora do "rush", que em São Paulo é um "Deus nos acuda" - gente saindo pelo ladrão - um movimento frenético de pessoas e uma imoblidade monumental dos automóveis - buzinas, suspiros de irritação, olhares de ódio. Então aconteceu um fato que até hoje não sai da minha cabeça. Um carro se aproximou da fila- era um daqueles jeeps turbinados do tipo Cherokee, o sinal estava aberto para ele, mas o motorista encostou na calçada bem devagarinho, foi quando um rapaz botou a cabeça de fora e gritou : - SEUS POBRES!!!!
Aí o carro arrancou e saiu numa velocidade danada, cantando pneus, não dando para ouvir o riso sádico do playboy.
Esse fato demonstrou de maneira cabal, rasteira, uma coisa que eu já intuia. Ser pobre no Brasil é um insulto. Na verdade, aquele "pobre de espírito" estava reproduzindo no seu xingamento algo que está gravado com letras de fogo na alma da sociedade brasileira, e principalmente na carcaça do homem simples: ser pobre é uma ofensa. Pior, é ser objeto de uma ofensa. E pobre, na cabeça daquela criatura monstruosa do Natal dos anos 90 significava estar numa fila de ônibus - não estar num automóvel , não ser motorizado. Na verdade, ser pobre deveria ser uma ofensa dirigida ao coração e às mentes da sociedade. Medida perversa e cruel da desigualdade desse corpo social . Foi uma aula prática de sociologia - um conceito se cristalizou ali, se esparramou no asfalto, evaporou, grudou nos pilares do terminal rodoviário.
O pessoal da fila, não teve consideração com a infeliz da mãe daquele rapaz -, seu nome foi parar na zona de tolerância e nas proximidades do inferno. A massa se ofendeu para valer. Ainda hoje considero que uma força divina salvou a pele daquele imbecil que proferiu a frase desgraciosa. E se o motor pifa alí? E se o sinal fecha, e o automóvel fica preso, ao alcance das garras daquelas pessoas profundamente tocadas pelo insulto? Pelo que sei do comportamento da massa, pelos estudos de Canetti (em Massa e Poder) e por experiências pessoais - creio que o "mané" não comemoraria o Natal daquele ano "inteiro". Deve existir um santo, ou no mínimo um anjo da guarda que protege os estúpidos.

4 comentários:

ze disse...

bem aventurados os pobres, bem aventurados os que choram, bem aventurados os misericordiosos, bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, bem aventurados os puros de coração, bem aventurados...

a idéia de que deve haver competição é o problema, inventada pelos privatizantes : não há competição nenhuma; somos iguais; a riqueza deve ser distribuída por todos. é tudo ilusão mesmo.

Rosa disse...

Me lembrou uma comédia italiana (não lembro agora de qual diretor). O personagem, "subiu na vida" e comprou um carrinho de segunda mão. Passa pelo ponto de ônibus e xinga: "pernachia" seguido de um prprprprpr. O carro quebra uns dez metros depois e ele é linchado pelos "pobres" pedestres. Ser pobre não é ofensa. Ofensiva é a arrogância dos pobres de espírito.

LIBERATI disse...

Caro Ze, a justiça social é a coisa mais difícil de fazer e i pior que não há reino dos céus! Não conheço ninguém que voltou de lá para dizer como é. Todos que voltaram de comas , falam de um túnel e uma luz depois do túnel- só uma luz. Será que essa luz é o fim? A igualdade de direitos de pessoas desiguais - uma meta.
grande abraço

LIBERATI disse...

Querida Rosa, como você vê a vida imita a arte. Gostaria de ver esse filme. Gosto de um que acho que é do Monicelli - acho que "Caros Amigos" em que os tais amigos- uns sacanetas, vão para uma estação de trem e ensopapam os viajantes que ficam com a cara fora da janela para se despedir de parentes e pessoas amigas. Como o trem está de partida, não tem como parar e então é um ensopapar tremendo e a gente morre de rir. Italiano é o máximo em comédia. Me lembro que até num drama- um clássica - Os Companheiros, Marcelo Mastroiani (que faz o papel de um intelecutal engajado) está também num trem, rumo a um lugar onde tinha uma fábrica- se não me engano, onde as condições de trabalho são ultrajantes. Ele ao passar por uma estação, coloca o corpo meio fora do trem (em movimento) e pergunta a um homem que está do lado da ferrovia: - Que paese è questo? (acho que é assim que se escreve) Ao que o homem responde: Um paese de merda!
É ou não é genial?
Obs: a desigualdade é imunda!
bjs