28.9.16

Miles Davis – 90 anos Nem o céu é o limite



Por Jorge Sanglard*




Se não tivesse se encantado em 28 de setembro de 1991, há duas décadas e meia, Miles Davis teria completado 90 anos no dia 26 de maio de 2016. Miles Davis (26/05/1926 – 28/09/1991) viveu buscando coisas novas pra tocar, novos desafios para suas ideias musicais e encarnou, como poucos, a história da música afro-americana improvisada. Sua trajetória é parte integrante e fundamental na evolução da linguagem jazzística ao longo do século XX e sua contribuição musical criou aberturas para além de seu tempo. Durante quatro décadas e meia, Miles Davis contribuiu decisivamente para reformular as noções de harmonia e ritmo, nunca se atendo a rótulos. Por tudo isso, sua música não é fácil de ser codificada ou classificada e isso até foi motivo para irritá-lo: “Sempre achei que a música não tem fronteiras, limites ao seu crescimento, não tem nenhuma restrição à sua criatividade. A boa música é boa, independente do que seja. E sempre detestei categorias. Sempre. Nunca achei que isso tivesse lugar na música... Sempre quis apenas soprar minha corneta e criar música e arte, comunicar o que eu sentia por meio da música... Quando a gente cria sua própria arte, nem o céu é o limite”. Miles viveu pensando na criação e revelou: “A música é uma bênção e uma praga. Mas eu a amo, não queria que fosse de outra forma. A música sempre foi uma praga pra mim porque sempre me senti compelido a tocá-la. Sempre foi a primeira coisa em minha vida. Vem antes de tudo”.
A influência de Miles Davis como inovador e visionário foi decisiva na consolidação do jazz a partir da segunda metade do século XX, seja no cool, seja no pós bop, seja no modal, ou ainda na fusion e pode ser sentida até no break, no hip-hop e no rap. Mas o certo é que a matriz negra, o blues, sempre esteve presente em sua vida e também é certo que o jazz é uma linguagem musical cuja vitalidade está na essência da transformação. E aí, o que conta é a sensibilidade do criador e do improvisador, terreno onde Miles Davis sempre foi mestre, ou mais que isso, gênio.
O espírito do jazz de Miles Davis está impregnado de blues e sua linguagem musical inovadora, a partir de frases inspiradas no blues, construiu uma sonoridade própria e transformadora. Para o trompetista, “a maneira de criar e transformar a música é tentar sempre inventar maneiras de tocar”. Afinal, “o mundo sempre foi mudança”, admitia. Portanto, o instrumentista incorporou ao som cortante e ao lirismo, ou à delicadeza, de seu trompete – base de sua concepção rítmica e harmônica – avanços rumo a novos caminhos, elaborando uma música para ouvir e para sentir. Sempre fiel à sua marca fundamental: “Eu toco simplesmente o necessário, nada além; apenas o essencial”.
Miles Davis deixou claro em sua trajetória que o silêncio é tão importante quanto o som. Com seus solos fragmentários – onde a tensão ronda cada fraseado – com as linhas melódicas sendo estendidas ao limite e sempre cercado de grandes instrumentistas, sustentando o clima denso e envolvente de sua música, o trompetista foi um dos criadores mais influentes do século XX. Em sua autobiografia, lançada no Brasil pela Editora Campus, em meados de 1991, três meses antes de sua morte, Miles revelaria: “pra eu tocar uma nota, ela tem de soar bem pra mim. Sempre fui assim. E a nota tem de estar no mesmo registro do acorde em que a toquei antes, pelo menos era assim. No bebop, todo mundo tocava muito rápido. Mas eu jamais gostei de tocar um monte de escalas e essa merda toda. Sempre tentei tocar as notas mais importantes do acorde, decompô-lo. Eu ouvia os músicos tocando todas aquelas escalas e nunca nada que a gente pudesse lembrar”.
De 1945 – como integrante do quinteto de Charlie ‘Bird’ Parker – a 1991, Miles Davis construiu uma sólida carreira musical e fonográfica, interrompida entre 1975 e 1981 para recuperação de um grave acidente automobilístico que o deixou com os dois tornozelos quebrados. Em três décadas, entre 1955 a 1985, Miles consolidou sua trajetória, mantendo a essência inovadora do jazz e articulando novas explorações sonoras. Ousado, inventivo e genial, Miles Davis desafiou o tempo com sua música impregnada de força e de criatividade. Miles encarnou parte da história do jazz e da música negra norte-americana e seu legado é parte integrante da evolução da própria música criativa da segunda metade do século XX.
O próprio Miles admitia: “Tive vários períodos criativos realmente férteis em minha vida. O primeiro foi de 1945 a 1949, o início. Depois quando deixei as drogas, 1954 a1960 foi um tempo musicalmente fértil... E 1964 a 1968 não foi tão ruim assim, mas eu diria que me alimentava muito das ideias musicais de Tony, Wayne e Herbie. O mesmo aconteceu quando fiz ‘Bitches Brew’ e ‘Live-Evil’, porque foi uma combinação de pessoas e coisas – Joe Zawinul, Paul Buckmaster e outros – e tudo que fiz foi reunir todos e compor umas poucas coisas”.
Em sua autobiografia, Miles afirmaria: “Sendo um rebelde negro e inconformista, sendo frio, elegante, irado, sofisticado e ultra limpo, como queiram chamar – eu era tudo isso e mais. Mas tocava o fino em meu trompete, e tinha um grande conjunto. Por isso, não consegui reconhecimento apenas pela imagem de rebelde. Tocava trompete e liderava o conjunto mais quente da praça, um conjunto criativo, imaginativo, super integrado e artístico. E isso, para mim, foi o motivo de conquistarmos o reconhecimento”.



Santíssima trindade do bebop



Dizzy Gillespie, Miles Davis e Charlie ‘Bird’ Parker encarnaram o Pai, o Filho e o Espírito Santo no bebop, uma verdadeira revolução que lançou as bases do jazz moderno. A linguagem do jazz, a partir do bebop, entre 1944 e 1949, foi alterada radicalmente seja melódica, seja rítmica e harmonicamente, determinando uma ruptura com o tradicional. O jazz, com o bebop, passou a ser arte e não mero divertimento. Ao contrário do swing, o bebop não servia para dançar, daí sua pouca penetração popular, e mesmo músicos em ascensão, como Bird, Dizzy e Miles, eram atingidos pelo preconceito contra a música negra.
Para Miles, o bebop foi mudança, foi revolução: “Se alguém quer seguir criando, tem de ser com mudança. Viver é uma aventura e um desafio”. Aos 18 anos, o jovem trompetista negro Miles Dewey Davis III, nascido em 26 de maio de 1926, em Alton, Illinois, pequena cidade ribeirinha do rio Mississipi, a cerca de 40 quilômetros ao norte de East St. Louis, encarou o desafio da música e chegou a Nova York, em setembro de 1944, “ainda verde em algumas coisas, como mulheres e drogas”, mas confiante em sua capacidade de tocar trompete.
O verdadeiro motivo da ida do músico para a Big Apple ou Grande Maçã era procurar Bird e Dizzy, que sacudiam o cenário do jazz com um novo caminho, a partir de seus improvisos sobre temas pré estabelecidos, articulando novas melodias e impulsionando a mudança da concepção rítmica, base da consolidação do jazz moderno. Assim, Miles foi para Nova York “para sugar tudo que pudesse” de lugares como a Minton’s Playhouse, no Harlem, e muitos outros na rua 52, que todo o mundo da música chamava de “A Rua”. O estudo na escola Juilliard era apenas uma cortina de fumaça, uma escala, uma desculpa que Miles usara para ir para perto de seus ídolos musicais. E Miles deixou claro isso em sua autobiografia: “Ouça. A maior sensação de minha vida – vestido – foi quando ouvi pela primeira vez Diz e Bird juntos em St. Louis, no Missouri, em 1944. Eu tinha 18 anos, e acabara de me formar no Ginásio Lincoln, que ficava bem em frente, do outro lado do rio Mississipi, em East St. Louis, Illinois”.
“Bird pode ter sido o espírito do bebop, mas Dizzy era ‘a cabeça e as mãos’, aquele que congregava tudo”, disse Miles Davis, que se tornaria a mais nova personagem da Santíssima Trindade do bebop. Estas e muitas outras revelações do mundo e do submundo do jazz estão nas 382 páginas de “Miles Davis – A Autobiografia”, um livro que provocou impacto devastador quando foi editado nos Estados Unidos no final de 1989 e que, no Brasil, ganhou tradução de Marcos Santarrita, em meados de 1991.
Numa linguagem direta e certeira, como a pegada de um boxeur peso pesado, o livro foi fruto da colaboração entre o trompetista e o jornalista, poeta e professor Quincy Troupe. Contundente e corrosivo, Miles traçou um painel multifacetado do universo jazzístico de 1944 a 1989, permeando cada passagem com uma riqueza de detalhes só possível a quem vivenciou e/ou mergulhou fundo no prazer e na dor que envolviam e vão continuar envolvendo a música.



Negro como a meia-noite



Sobrevivente de uma geração de expoentes do jazz que acreditava na afirmação de Charlie ‘Bird’ Parker, em 1953, “A música nunca irá parar. Continuará sempre caminhando para a frente”, Miles deixou claro: “Música não tem época; música é música”. Negro como a meia-noite, Miles Davis criou uma música impregnada da essência cultural afro-americana expressa pelo jazz e alinhavada com a matriz negra, o blues.
O ano de 1954 seria musicalmente muito importante para o trompetista, embora ele mesmo não compreendesse o quanto na época, segundo revelação em sua autobiografia. O disco “Birth of the Cool” foi um marco e lançou um feixe de luz sobre os novos caminhos trilhados por Miles e o arranjador Gil Evans. Esse disco tomara, segundo Miles, de algum modo, outra direção, mas viera basicamente do que Duke Ellington e Billy Strayhorn já haviam feito; apenas tornara a música “mais branca”, pra que os brancos a digerissem melhor.
Em 1955, Miles Davis deixaria a Prestige, onde tinha gravado discos fundamentais para consolidar a base de sua música, tendo Bob Weinstock como produtor, e passaria a gravar para a Columbia, inicialmente com o produtor George Avakian. O grupo formado por Miles e tendo Coltrane como uma referência tornou o trompetista e Trane lendários: “Esse grupo realmente me pôs no mapa do mundo musical, com todos os grandes discos que fizemos pra Prestige e, depois, pra Columbia Records”. O primeiro LP do trompetista gravado na Columbia foi “Round’ About Midnight”, ao lado de John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones, em sessões realizadas estúdio D, em Nova Iorque, em 26 de outubro de 1955, e no estúdio da Rua 30, em junho e setembro de 1956. De cara, Miles emplacaria um clássico na nova casa. E ele sintetizaria: “A Columbia representou pra mim uma abertura pela qual minha música podia passar pra chegar a mais ouvintes, e eu passei por essa porta quando ela se abriu e jamais olhei pra trás”.
Em maio de 1957, voltaria ao estúdio com Gil Evans para gravar “Miles Ahead” e diria: “Foi uma grande experiência voltar a trabalhar com Gil. A gente se via de vez em quando, depois de fazermos ‘Birth of the Cool’. Depois disso, falamos em nos reunir em outro disco, o que resultou na ideia da música de ‘Miles Ahead’. Como sempre, adorei trabalhar com Gil, porque ele era muito meticuloso e criativo, e eu confiava plenamente em seus arranjos musicais. Sempre formamos uma grande dupla musical, e realmente compreendi isso quando fizemos ‘Miles Ahead’”. Em fins de 1959, o trompetista iniciou também com o arranjador Gil Evans o disco “Sketches of Spain”, outra maratona sonora repleta de descobertas e plena de sentimento.
Durante três décadas, a trajetória de Miles Davis na Columbia, atual Sony, impulsionou o jazz para novos caminhos. Ali permaneceu até 1985-86 quando migrou para a Warner e abriu novas perspectivas em sua música.
Para marcar essa colaboração Miles-Columbia, no final de 2010, o selo Legacy, que cuida das reedições da Sony Music, lançou um banquete completo para os admiradores da música de Miles Davis: uma caixa contendo a coleção integral dos álbuns do trompetista, disponível na Amazon, ou na Columbia-Legacy. São nada mais nada menos que 70 CDs, um ensaio escrito por Frederic Goaty, anotações de Franck Bergerot sobre cada disco e um DVD, além de fotos raras. Um mergulho profundo na alma do jazz de Miles.
As ideias criativas nunca se esgotaram em Miles Davis, que afirmaria: “elas me saltavam da cabeça”. E arrematava: “Me dizem que meu som parece uma voz humana, e é isso que quero que seja”. Para Miles Davis, música e vida são estilo. E advertia: “É preciso ter estilo no que quer que se faça – literatura, música, pintura, moda, boxe, tudo. Alguns estilos são elegantes, criativos, imaginativos e inovadores, e outros não”. E o estilo de Miles foi tudo isso e muito mais. Como músico, sempre esteve na linha de frente do jazz e sempre buscou novas explorações e desafios. A chama ardente do jazz marcou sua trajetória. Como poucos, o trompetista incorporou a alma da música afro-americana improvisada e sua experimentação sonora é fruto desta vivência e parte essencial da evolução do jazz. Para ele, a música estava sempre mudando. E mudando por causa das épocas e da tecnologia disponível.


Uma obra-prima e ícone do jazz moderno



O disco "Kind of Blue", um ícone do jazz, completou 50 anos, em 2009, e ganhou reedição de luxo com dois CDs, incluindo faixas extras, documentário e entrevistas em DVD e um livreto pelo selo Columbia/Legacy, no Brasil Sony. A versão norte-americana trazia ainda um vinil de 180 g. As duas sessões de gravação do álbum foram realizadas em 2 de março e em 22 de abril de 1959 e o disco foi lançado em 17 de agosto de 1959. A expressão “Kind of Blue” pode ser traduzida como “um pouco triste”, ou “um pouco blue”. E “So What” – faixa inicial do álbum – pode ser traduzida como “E daí?”. Já a expressão “modal” significaria “de escalas”, ou seja, “toda música ou todo sistema diatônico que obedecesse a um padrão de uma única nota ‘tônica’ central seria modal”. Na verdade, Miles Davis utilizava estas expressões usualmente e, por isso mesmo, são reveladoras de como coisas simples podem significar muito.
No livro "Kind of Blue - A História da Obra-Prima de Miles Davis" (Editora Barracuda), o norte-americano Ashley Kahn, empreende um mergulho fundo em uma das criações mais inventivas do universo jazzístico e um divisor de águas na própria trajetória do trompetista. Prefaciado por Jimmy Cobb (20/01/1929), baterista e único músico vivo do sensacional sexteto de Miles Davis que atuou nas duas sessões de gravação de “Kind of Blue”, em 1959, o livro revela os bastidores das gravações e mostra porque este disco é considerado uma das mais significativas expressões musicais do século XX. O próprio Ashley Kahn afirma: “No santuário do jazz, ‘Kind of Blue’ é uma das relíquias sagradas”. No entanto, esclarece que “o álbum fez menos barulho quando saiu do que sua reputação atual poderia sugerir – fazendo sua mágica na música por meio da evolução, não da revolução”.
Miles Davis, em sua autobiografia, garante que “Kind of Blue” resultou da forma modal que começara em “Milestones”, mas desta vez, foi acrescentado outro tipo de som que lembrava o do Arkansas “quando voltávamos da igreja e o pessoal tocava aqueles hinos de igreja sensacionais. Me voltou aquele sentimento e comecei a me lembrar do som e da sensação daquela música. Era dessa sensação que eu tentava me aproximar. Aquela coisa entrara em meu sangue criativo, minha imaginação, e eu esquecera de que ela estava lá”. Assim, “compus um blues que tentava retornar àquela sensação que eu tivera aos seis anos de idade, andando com meu primo pela estrada escura do Arkansas. Compus uns cinco compassos disso, gravei e acrescentei uma espécie de som cortante na mixagem, porque essa era a única forma que eu tinha de entrar no solo do piano. Mas a gente compõe uma coisa e aí vêm outros caras, tocam a partir dela e a levam pra outro lado, através de sua criatividade e imaginação, e a gente não sabe mais pra onde achava que estava indo. Eu tentava fazer uma coisa e terminava fazendo outra”.
E Miles vai mais fundo na explicação sobre como gravou o histórico disco: “Não compus a música de ‘Kind of Blues’, apenas fiz uns esboços do que todos deviam tocar, pois queria espontaneidade na execução. Tudo saiu na primeira tomada, o que indica o nível em que o pessoal tocava. Foi lindo. Mas quando digo às pessoas que não consegui fazer o que tentava, que não consegui obter o som exato do piano de dedo africano naquele som, elas me olham como se eu estivesse doido. Todos dizem que o disco é uma obra-prima – eu também gostei – e acham que estou tentando goza-los. Mas foi isso que tentei fazer na maior parte desse disco, particularmente em ‘All Blues’ e ‘So What’. Simplesmente não consegui”.
Kahn afirma que o solo de Miles em “So What” demonstra duas vertentes fundamentais da sonoridade de seu trompete: “Seu gênio para a simplicidade. Há quase um exagero de economia em seu método, contornando sons prolongados e silêncios para obter um efeito irresistivelmente casual e um palpável senso dramático. A outra característica distinta de Miles é a referida tendência de adiantar o ritmo e jogar com as divisões”.
Mas uma das revelações mais marcantes de Kahn sobre “Kind of Blue” foi o efeito que a música criada pelo sexteto produziu em John Coltrane, apesar de toda a música de influência modal que Davis, Cannonball, Heath e, depois, Zavinul produziriam, “nenhum músico foi mais afetado pela experiência modal deste disco e nenhum seria mais influente do que John Coltrane”. E lança mão do biógrafo Lewis Porter para explicar: “O solo em ‘So What’ indica o rumo que a música de Coltrane tomaria nos anos 60, mais que ‘Giant Steps’. Ele se tornou cada vez mais preocupado com os aspectos estruturais da improvisação; com isso, se concentrou exclusivamente nos conhecimentos modais, o que deu a ele o tempo para desenvolver suas idéias minuciosamente”.
Ashley Kahn assegura na introdução do livro que, quando começou a pesquisa, a Sony Music forneceu pleno acesso a todas as informações, fotografias e gravações dos seus arquivos, além de facilitar o contato com antigos funcionários. Assim, “localizei relatórios das fitas e das sessões que revelavam a identidade da equipe de gravação que trabalhou em ‘Kind of Blue’, cuja maioria – assim como os membros do sexteto, com exceção do baterista Jimmy Cobb – não está mais entre nós. De conversas com engenheiros da Columbia da época, pude formar um quadro do que era trabalhar no 30th Street Studio, antiga igreja onde o álbum nasceu”.
E, para aproximar o leitor do efetivo processo de criação do álbum, Kahn lançou mão da transcrição e da discussão das sessões de gravação. O texto original da contracapa de Bill Evans – “Improvisação no jazz” – foi encontrado “impecavelmente escrito à mão e quase sem edição", assim como as fotografias do engenheiro de som Fred Plaut, “jamais publicadas e que mostram as notações musicais de um tema de estrutura modal”. Kahn afirma que o trompetista e Evans demonstraram, neste disco, ser dois exploradores musicais unidos por paixões e visões afins: “Eles compartilhavam um lirismo obsessivo e um fluxo melódico que mais sugeria do que manifestamente definia a estrutura musical”. Miles ao falar de Bill Evans demonstra todo seu sentimento: “Bill possuía aquela chama silenciosa que eu adorava no piano. Da forma como tocava, o som que ele extraía era como silvos de cristal ou água cintilante caindo de uma cachoeira limpa. Red conduzia o ritmo, mas Bill se entregava a ele...”.
O autor do livro também afirma na introdução que, além das informações obtidas na pesquisa, “fui sendo igualmente tomado pelos aspectos mais místicos do álbum”. “A lenda de sua criação pura, em takes únicos. A combinação alquímica de influências de música erudita e música folk. A interação da filosofia menos-é-mais de Miles e do estilo igualmente enxuto de Bill Evans com o restante da banda, mais eloquente. O drama de Davis, que, movido pela interminável busca por novos estilos, criava uma obra-prima para então abandoná-la em favor de uma próxima empreitada. Fui desafiado a examinar o que havia de verdadeiro na mitologia do disco. Todo o álbum teria sido de fato improvisado, e não planejado? Miles realmente compôs tudo? ‘Kind of Blue’ mudou o território do jazz para sempre e, em caso positivo, como? Para fazer justiça ao álbum, eu precisava me transportar ao tempo e ao lugar que o gestaram”.



Ponte entre o jazz e o rock



Os 46 anos do lançamento de “Bitches Brew”, um dos discos mais inusitados e controversos de Miles Davis, são celebrados em 2016. Marco da fusão jazz - rock’n’roll nos anos 1970, o álbum foi um divisor de águas na trajetória de Miles e impulsionou o que passou a ser chamado de jazz-fusion. O trompetista revelava: “O sintetizador mudou tudo, quer os músicos puritanos gostem ou não. Veio para ficar, e a gente pode curtir ou não”. Em 2010, foi lançada uma edição comemorativa, em dois CDs, reunindo as gravações originais remasterizadas e duas versões de estúdio até então inéditas. Além disso, incluiu um DVD, onde Miles está acompanhado por Wayne Shorter (saxofone), Chick Corea (piano), Dave Holland (baixo) e Jack DeJohnette (bateria), em Copenhague, em novembro de 1969, no Festival Tivoli Konsertsal.
Enfim, o mundo da música agradece a contribuição de Miles Davis para tornar melhor o século XX e esta primeira década e meia de século XXI.


*Jorge Sanglard é jornalista e pesquisador. Escreve em jornais de Portugal e do Brasil.

Participação da mulher na produção literária é tema do encontro #TraçandoLivros

(Vou botar no ar o "release" direto, sem edição, por causa do tempo curto)
Com a proposta de repensar a produção literária feminina, o encontro #TraçandoLivros, hoje, dia 28 de setembro, às 19h, na Blooks Livraria (Praia de Botafogo 316 - Espaço Itaú de Cinema), vai reunir escritoras para um bate-papo sobre as dificuldades e prazeres do ofício de escrever.

O encontro, que faz parte da série de debates sobre edição e literatura promovidos pela editora Jaguatirica em parceria com a Blooks Livraria, contará com a presença de Valéria Martins, autora de “A pausa do tempo” (crônicas), e “A matéria dos sonhos”, romance exclusivamente digital que se tornou um dos e-books mais vendidos da Jaguatirica;  Nathalia Alvitos,  jornalista, repórter policial e autora de “Lavínia – no limite”, romance que fala sobre o transtorno borderline; Thaïs Oliveira, psicanalista e autora de “Os imortais”, que discute o envelhecimento e a juventude eterna; e Gilda Moura, psicóloga e autora de “O pacto dos ancestrais”, ficção sobre segredos e mistérios da humanidade.

O bate-papo será mediado pela editora-assistente da Jaguatirica, Hanny Saraiva. Os eventos são destinados a escritores e escritoras, mulheres e interessados em literatura feita por mulheres e para mulheres.
Serviço:

28/09 - 19h – #TraçandoLivros: Lendo Mulheres
Local: Blooks Livraria (Praia de Botafogo 316 - Espaço Itaú de Cinema)
Autoras convidadas: Valéria Martins, Nathalia Alvitos, Thaïs Oliveira e Gilda Moura.  
Mediadora: Hanny Saraiva, editora-assistente da Jaguatirica.
Sobre a Jaguatirica
***
A Editora Jaguatirica foi criada em 2012 com a proposta de atender novos formatos editoriais para autores independentes, auxiliando-os e dando suporte em todo o processo de publicação e divulgação de suas obras. Possui catálogo com mais de uma centena de títulos impressos e digitais. Em 2016 lançou o Til, selo editorial voltado para a autopublicação, a fim de criar melhores condições para autores, driblando os altos custos de logística e distribuição.

Desde 2015 a editora atua no mercado editorial português por meio de seu escritório de representação em Lisboa. Em parceria com agentes literários, gráficas e editoras locais, a editora carioca tem sido uma ponte entre autores portugueses que almejam publicações no mercado brasileiro, e autores brasileiros que buscam visibilidade para sua obra nos mercados da Europa. Entre autores portugueses, já publicou o poeta António Carlos Cortez, "O tempo exacto", e está trabalhando nos novos livros do poeta Luís Filipe Cristóvão e do romancista Luis Carmelo.

Conheça o catálogo e o conteúdo da editora Jaguatirica:
site:editorajaguatirica.com.br
https://www.facebook.com/editorajaguatirica
insta: @editorajaguatirica



26.9.16

Lançamento: Livros de Jorge Lescano na Tapera Taperá, sábado, dia 1º de outubro

Jorge Lescano reside no Brasil desde 1969. Escreve em português, mas sua formação é argentina. Seus relatos, escritos nas últimas quatro décadas, são breves e abordam temas variados, quase sempre sob uma visão cultural. Os motivos vão da pintura ao futebol, passando pela literatura, política, teatro, etc.
Publicou: Amanhãs São Perón (contos); SP, Ática, 1978; Os quitutes de Luanda (infantil, Curitiba, Criar, 1983 (Premiado pela Biblioteca Internacional da Juventude/Munique – Alemanha).
Publicou recentemente:O traidor de Dublin; Gol! e Diálogo do Rei e o Réu.
Os dois primeiros de relatos, o terceiro um romancete; (prefere este neologismo ao termo novela, sempre identificado com a TV).
No próximo sábado 1º. de outubro, Lescano estará lançando estes três livros na base do Pague se e quanto quiser, na TAPERA TAPERÁ, Galeria Metrópole (Atrás da Biblioteca Mário de Andrade); Av. São Luiz 187, 2º andar. São Paulo.
Horário: das15h às 18h.
Todo mundo lá!
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

25.9.16

Quem tem medo do Grande Sertão?


(Republico aqui um pequeno ensaio que procura atravessar "Grande Sertão - veredas" para os novos amigos navegantes. Trata-se da atualização de uma "pensata" minha que foi publicada no old JB, de doce memória.) (*)

Quem tem medo de Guimarães Rosa?

Grande Sertão – veredas conserva a aura de obra difícil, diante da qual o sujeito hesita e diz para si que um dia vai encarar. Não é só a aparência taluda do
livro que espanta. Muita coisa intriga, tanto que sua fortuna crítica é imensa.

Apesar de reconhecido hoje como um monumento da língua, teve recepção problemática. De cara foi catalogado entre "ilegibilidades" e mais tarde considerado "um matagal indevassável". Um sujeito zombou: "Ora, onde já se viu sertão em Minas?". Em 1958, uma revista chegou a publicar uma reportagem com o título: Escritores que não conseguem ler Guimarães Rosa. Gente graúda das letras
confessou-se incapaz.

O autor, perto de sua morte, triste, reclamava que tinha sido chamado de aristocrata e acusado de inventar palavras. Lamentou: "Não as invento totalmente. Para escrever Grande sertão passei um mês inteiro no mato, em lombo de mula, catalogando num caderninho o linguajar do povo sertanejo (…). Aristocrata não faz isso".
Suspeita-se que esse livro causou um vasto medo diante da novidade que de fato era. Tanto nos ácidos críticos como naqueles que não o leram. Não podia ser diferente: o romance é uma explosão da invenção, na forma, na técnica e na linguagem. Foi composto como narrativa única e fragmentária do ex-jagunço Riobaldo Tatarana. Seu ouvinte, que nunca intervém, supõe-se que é o próprio escritor, tratado com reverência: "Sabe muito em ideia firme, além de ter cara de doutor".
Às vezes parece que baixou um caboclo freudiano no narrador, e sua fala se torna caudalosa: "A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não se misturam contar seguido,alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância".
O resultado do temor que esse livro inspirou é que várias gerações se privaram da mais rica experiência estética da nossa literatura.

Uma das chaves é saber que Rosa partiu da sua experiência de menino, de soldado, rebelde e médico. Reuniu causos. Um dia revelou como se imantou de maravilhas: "Nós, gente do sertão, somos contadores de histórias desde que nascemos. Contar histórias faz parte do nosso sangue, é um dom de berço que recebemos para o resto da vida. (…) Que mais se pode fazer nas horas livres no sertão (…)
senão contar histórias?" Esotérico, segredou: "Por isso nos acostumamos desde cedo à imaginação e ela se integra em nossa carne e em nosso sangue, fazendo parte de nossa alma, pois o sertão simboliza também a alma dos que o habitam". Numa entrevista comentou o problema que esse lastro precioso lhe trazia: "Disse para mim mesmo que não se pode criar literatura com o material do sertão. Só se pode escrever a seu respeito em forma de lendas, contos em que imperem a fantasia, as confissões pessoais". Conclui-se que Rosa, fiel
à tradição oral de uma espécie de "dialeto geralista", não se deixou prender a uma camisa-de-força. Num outro depoimento o autor deu lições de ourivesaria: "Em primeiro lugar vem o meu método de usar cada palavra como se ela tivesse acabado de surgir pela primeira
vez. Retiro-lhe as impurezas da fala corriqueira e devolvo-lhe seu sentido vocabular primevo. Por este motivo – e este é o segundo elemento – incorporo certas particularidades dialetais da minha região (Minas Gerais) que não constituem parte da linguagem literária.
Incorporo-as porque são peculiaridades originais, que não estão ainda gastas pelo uso e são na maioria dos casos caracterizadas por uma extraordinária sabedoria lingüística".

Grande Sertão é um bazar árabe

Dizem que escreveu o livro suando em bicas; como um médium, incorporou a alma sertaneja. Sua primeira frase é um coice, indica que se entrou num mundo estranho: "Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja". Se o leitor agüentar a pancada, o relato o levará para lonjuras, onde encontrará formas arcaicas de vida. Homens presos a um tempo imóvel-mineral. Até antropofagia inconsciente ocorre, como lembra Oscar Lopes. Num trecho, Zé Bebelo – um dos grandes chefes – intui que topou com gente de outra era quando é indagado a respeito de onde vinha por uns catrumanos. Responde: "Ei, do Brasil, amigo".

Em O narrador, o melancólico Walter Benjamin afirma que a arte de narrar entra num processo histórico de dissolução justamente "porque o lado épico da verdade, a sabedoria está agonizando". A obra de Rosa é, sem dúvida, o testemunho da sabedoria sertaneja, e carrega algo de desespero antropológico em seu registro. Disse uma vez: "Quando não entendo bem alguma coisa, então não vou conversar com nenhum professor erudito, procuro um vaqueiro velho de Minas, qualquer um deles, pois todos são sábios".
Não era uma boutade. Riobaldo filosofa enquanto conta sua história. Arrisca, num certo momento, a entrever certa universalidade: "O sertão está em toda parte… é do tamanho do mundo". Pode-se dizer que foi até picado por uma dúvida iluminista ao tentar desvendar se existe ou não o demônio, ao qual, num certo momento, empenhou sua alma. Riobaldo será um Fausto por amor.
Alguém disse que o Grande sertão se assemelha a um grande bazar árabe: tem de tudo. Captar a totalidade dele é um problema insolúvel. Afonso Casais Monteiro afirmou: "Evidentemente há coisas que só entenderá em Grande sertão: veredas o sertanejo, precisamente o menos provável de seus leitores". Paulo Rónai continua: "Acrescentaria eu que há outras coisas que só o dialetologista, outras que só o filósofo, outras ainda que só o psicanalista entenderá – o que equivale a dizer que nenhum leitor entenderá a obra na íntegra". Observou que o autor trabalhou como cineasta: "Sabe que os detalhes de seus flagrantes só parcialmente serão percebidos pelo público na rápida sucessão das imagens"

O mapa fantástico do Grande Sertão

Diz-se ter Rosa mapeado as andanças de suas criaturas pelas brenhas do sertão. Mas não se iluda: fez isso numa cartografia fantástica.
Antonio Candido cotejou as passagens do livro com os mapas da região, e percebeu o surgimento de "uma impossível combinação de lugares: mais longe uma rota misteriosa, nomes irreais". E que certos acidentes geográficos obedeciam a uma "necessidade de composição". Foi aí que viu a importância do rio São Francisco na trama. Riobaldo chega a dizer que o rio partiu sua vida em duas partes "qualitativamente diversas". O crítico mostra, assim, que na margem direita corre a vida normal e na esquerda, o conflito. Nas passagens entre um lado e outro é que se realiza o destino de Riobaldo e Diadorim.
Mulher disfarçada de jagunço, Diadorim quer se vingar do assassino de seu pai, Hermógenes, mitológico guerreiro que carrega a fama de ter feito um pacto com o demônio. Como numa tragédia grega, precipitará o antagonismo. No desfecho da luta, supõe-se ter eliminado o mal figurado no pacatário. Seria a catarse. Mas os rios para Rosa têm três margens.
Riobaldo não será apenas instrumento dessa vendetta cabocla, apesar de abdicar de seu destino por causa de seu "ambíguo" companheiro: "Diadorim é minha neblina" – ele diz encantado. Chega a acreditar em sina: "A modo que resumo da minha vida, em desde menino era para dar cabo definitivo do Hermógenes". O paradoxo dessa relação é que à medida que se envolve na luta de outro, ele se define, enfrenta o sertão, que não é simples paisagem e sim um tirânico personagem: "O sertão me produziu, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca…". Mas vínculos de fogo inconscientes determinarão sua travessia.

A travessia do Grande Sertão

Riobaldo percebe ser ele a travessia e intui não estar "terminado", terá que se definir em provas. "Viver é muito perigoso", repete. A travessia é uma metáfora da experiência de conhecimento. Tarefa estrambótica para a maioria dos homens simples que vegetam na qualidade de roceiros perdidos no tempo, capiaus sucumbindo às febres e desgraças comuns. Só os grandes senhores com seus exércitos dominam a ciência das coisas. O mundo que o jagunço encantado encontra estruturado à sua frente é o vazio da lei. "O senhor
sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado". Sua ascensão começará, portanto, pelo domínio do rifle. A pontaria certeira vai lhe dar um novo nome: "Tatarana-cerzidor". Mas isso não basta para o confronto com Hermógenes. É preciso fazer o pacto, fechar o corpo. Daí, salta da condição de jagunço bom de mira para a chefia do bando. Sua transformação é festejada: "Uai, tão falante Tatarana? Quem te veja…". É como se depois do ritual tivesse encontrado o dom demoníaco
de usar as palavras, e as astúcias que aquelas permitem engendrar. Nos enfrentamentos do sertão adquire mais valor. Então Zé Bebelo o renomeia ao lhe passar o mando: "Mas você é outro homem, você revira o sertão… Tu é terrível, que nem o urutu branco". Uma nova
etapa se inaugura nessa ocasião: "Agora o tempo de todas as doideiras estava bicho livre para principiar", diz Riobaldo, pronto para o grande embate: "Tinham me dado em mão o brinquedo do mundo". Por outro lado, é curioso notar que Diadorim, ao mesmo tempo que
o cega para seu destino, abre as portas de sua percepção: através dos olhos dela ele vai aprender a ver beleza no sertão.

Uma leitura política do Grande Sertão

Também é possível uma leitura política do Grande sertão, na qual se trata o discurso ideológico como risível: "Ao que Zé Bebelo elogiou a lei, deu viva ao governo, para perto futuro prometeu muita coisa republicana. Depois enxeriu que eu falasse discurso também. Tive de – você deve citar mais é meu nome – falar muito nacional – se me soprou". Ao que Riobaldo acrescenta: "O povo acho que apreciava".
As preocupações do autor são éticas. Oscar Lopes ilumina esta questão ao dizer que (Rosa reabre "edificado por mais de dois milênios e meio de experiência histórica o problema que Ésquilo pensava ter resolvido na Oréstia. Lá a moral gentílica da vingança entre os clãs se resolve absorvendo o último vingador, Orestes, instituindo o tribunal da cidade, passando as Fúrias ao serviço de uma nova forma de vingança". No Grande sertão as coisas não são bem assim: "Nenhumas ilusões maniqueístas sobre o dualismo absoluto do bem e do
mal. O homem continua pacatário". Hermógenes, com toda sua fama de mau, representava uma maldade ingênua, diante de um homem como Habão, que "não sabe olhar para outro homem sem o ver na qualidade de força trabalhadora anônima, reprodutora de investimento". Um estranho Midas na visão do jagunço: "E ele cumpria sua sina, de reduzir tudo a conteúdo. Pudesse economizava até com o sol e com a chuva". O "mal" só mudou de forma, agora é capital, um novo pacto. É o fim da jagunçagem heróica. Riobaldo range os dentes: "Os jagunços destemidos arriscando a própria vida, que nós éramos; aquele seo Habão olhava feito jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos".
O Grande sertão fica distante muitas léguas do maniqueísmo. Seu autor via, por exemplo, Jorge Amado como cativo da ilusão dos contos de fada: "É uma criança que acredita sempre no bem e na vitória dos bons sobre os maus". Para Rosa, nada no mundo estava "definido". O próprio Riobaldo torna-se proprietário. Seu rememorar é a busca de um sentido para tal passagem. A questão pendente é ele não saber que continua pacatário. Seu mundo épico vive só nas páginas de um livro – este sim definitivo. "Nonada" de medo do seu autor. Afinal só "existe homem humano". Travessia.

(*)Esta é uma versão modificada do artigo que fiz com o título As chaves do matagal indevassável, publicado em 1997 no Caderno B, do Jornal do Brasil numa edição dedicada à memória dos 30 anos
da morte do escritor.

NR: Clique nas imagens para ampliar e VER melhor.
A última ilustração desse artigo também foi publicada na Alemanha, (no jornal "Die Welt" (O Mundo) por ocasião do lançamento lá na terra do Goethe de uma novíssima tradução de Grande Sertão. Veja no link https://www.welt.de/sonderthemen/brasilien/article146661881/Ein-Monument-experimentell-und-voller-Raetsel.html

24.9.16

Caricaturas de vários autores (do fundo do baú)

Do velho baú, aí vai uma caricatura de conjunto: No fundo, da esquerda para a direita: Salman Rushdie, Ziraldo Alves Pinto, Moacyr Scliar e Luis Fernando Verissimo (que faz 80 anos na segunda-feira, dia 26 de setembro.
Na frente, da esquerda para a direita : Paulo Coelho, Domenico De Masi, Carlos Heitor Cony e Zélia Gattai. (Caricaturas publicadas ou na capa do Caderno B ou do Caderno Ideias do old JB, não me lembro!)
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

23.9.16

O nosso querido Maestro Antonio Adolfo foi indicado para disputar o Grammy, com o álbum Tropical Infinito.
O CD está uma maravilha, leva nossa alma para dançar.Veja só a lista das músicas:1) Killer Joe (Benny Golson), 2) Whisper Not (Benny Golson), 3) Cascavel (Antonio Adolfo), 4)Yolanda, Yolanda (Antonio Adolfo), 5 Stolen Moments (Oliver Nelson), 6) Song for my Father (Horace Silver), 7)Partido Leve (Antonio Adolfo) , 8) All Things You Are (Jerome Kern, Oscar Hammerstein), 9) Luar da Bahia (Antonio Adolfo)
Tudo isso numa interpretação magnífica de Antonio Adolfo com uma banda de craques que desta vez incluiu uma metaleira de respeito...É de arrepiar e levantar poeira!!! Não para de tocar aqui em casa e a vizinhança aplaude de pé!!! Parabéns
Ah, ia esquecendo, a ilustração da capa é deste seu criado e o design do álbum é de Julia Liberati.
Obs: os brasileiros podem comprar pelo CDBaby -Rob Digital (físico), Itunes (download).
A Rob Digital vende (discos físicos) creio que por meio de seu site (www.robdigital.com.br). Acho que você pode encontrar também nas Livrarias Travessa, Cultura, principalmente.

(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

18.9.16

Lançamento dos "Contos de Perrault" - segunda-feira, dia 19 de setembro/ com leitura de Tonico Pereira


Segunda-feira dia 19 de setembro às 16 horas, o ator Tonico Pereira fará uma leitura do conto "Riquê do Topete", de Charles Perrault, por ocasião do lançamento dos "Contos de Perrault" (tradução de Eliana Bueno Ribeiro Vianna Santos). O evento vai rolar na Livraria Paulinas, rua 7 de Setembro 81 A (quase esquina com av Rio Branco). Centro, Rio de Janeiro.
Todos lá!

12.9.16

Caricatura de Roberto Bolaño. Texto: O muito pouco que posso falar dele

Li só três livros de Roberto Bolaño, até agora: Estrela distante, Amuleto e Os detetives selvagens.
Confesso que a prosa dele me seduz e ao mesmo tempo me incomoda. Não sei explicar isso direito. Rola sempre a sensação de que estou sendo levado por um vale sombrio e que de uma hora para outra um terremoto vai derrubar tudo. Não há como negar que esse autor é habitado por um profundo desencanto, disfarçado de ironia, de grosso e fino humor, de sacadas vindas do mundo pop mescladas com tiradas poéticas.
Um desencanto, a princípio com o andar da carruagem desse mundo cruel, e um misto de esperança de redenção pela literatura, principalmente a poesia, mas uma raiva de como ela tem se comportado, tem desandado a não cumprir sua missão. Pode-se dizer que há nele uma crítica embutida da "modernidade" e mesmo da instituição da "crítica da modernidade", dos gigantes monumentais modernos e dos movimentos nanicos, "alternativos". Com sobejas razões, ele destila um pessimismo cósmico. Seu país foi assaltado pelo crime de um golpe de Estado brutal contra Allende, viu seus amigos serem presos, torturados e assassinados, conviveu com aqueles que se exilaram, assistiu como muitos se perderam nesse caminho. Como muitos enlouqueceram. Escutou, no México, onde viveu por algum tempo, os relatos dos que sobreviveram à ocupação do campus da UNAM (Universidade Autônoma do México) e do Massacre de Tlatelolco, de 2 de outubro de 1968, ocorrido na Plaza de las Tres Culturas. (Não se sabe até hoje o número certo de mortos, alguns falam de milhares).
A experiência mexicana inspirou Amuleto(*). Parece que ele diz que nessa terra banhada de sangue (sempre sacrificial?), de alguma forma está presente o sintoma de uma doença. E ela pode nos matar, seja pelo excesso de bebida, de drogas, de remédios e de loucura sem método.
Há nele, é evidente, uma crônica desse exílio, dessa perda de "raízes" dentro de sua própria terra, dessa perda de perspectiva, dessa perda de transcendência e de toda uma geração e de todo um continente (A Grande América Latina), uma constatação de que somos muito pobres, muito desesperançados, e ao mesmo tempo muito inocentes diante de um mundo em que máquinas ocultas põem em movimento engrenagens que fabricam labirintos e sarjetas.
No entanto não cai no caminho fácil do discurso de vítima, mas existe nele, é claro, uma narrativa da decadência desses párias e que acredito seja uma crônica da decadência universal da "condição humana" – bote aí, do fim das utopias, uma raiva delas terem existido. Em particular, na suas obras, essa decadência afeta quase todos os seus personagens, egos sonhadores, sujeitos que se dão mal com seus desejos, mulheres que perdem os dentes, jovens e velhos que perdem a saúde física e mental e se metem em viagens obsessivas, paixões sem eira nem beira. Gente metida meio no sonho e meio naquilo que se pode chamar de realidade, um lugar chato que se disfarça de emprego, carreira, trabalho fixo em meio ao desemprego generalizado. No fundo existe uma crítica dos ciclos de crise econômica sem fim, que tornam a América Latina cada vez mais pobre, embora ele não seja um panfletário, nem um herói no estilo de Galeano e as veias abertas de sua América. Há uma tendência de escapulir também do exotismo que cisma em brotar no solo da literatura latino-americana. Há também uma crítica das igrejinhas: num trecho de Os Detetives selvagens (Companhia das Letras, 2009), uma jovem poetisa esbraveja com outra dizendo que "a literatura mexicana, provavelmente todas as literaturas latino-americanas, era assim, uma seita rígida em que era difícil obter perdão" (pg 382).
Apesar de que ele, lá em alguma linha do final, rabisque alguma esperança mínima – ela, esta ilhada, tão esgarçada, tão perdida nas sombras daquele vale sombrio (bíblico) que a gente pode até esbarrar nela e não perceber.
Isso é o muito pouco que posso arriscar dizer a respeito da obra dele, afinal só li esses livros e não conheço seus outros textos. Falei apenas do problema que tenho com a leitura que fiz desses três romances. Apesar de ter sentido esse mal-estar nos dois primeiros escritos dele, principalmente em Estrela distante, recentemente me deparei com Os Detetives Selvagens, e não deu outra: caí de novo na lábia desse magnífico fabulista. É bom que se diga que esse livro é um tijolaço de 622 páginas. Mas ele me levou na conversa e eu fui entrando no enredo do livro, uma espécie de investigação (que usa elementos do romance policial), uma procura "intelectual" de uma poetisa mexicana que tinha inventado um movimento literário chamado "visceral realismo". O livro tem uma estrutura composta, que começa com um pequeno diário de um jovem poeta e suas peripécias dentro do tal movimento "poético", depois se abre uma série de relatos, que mais parecem "entrevistas" de um documentário, que em geral fala da trajetória de dois jovens nos anos /60/70/80… É bom que se observe que ao que parece o cinema tem uma importante influência no modo de narrar dele – não o cinema linear, mas aquele que alterna cenas –, histórias que vão acompanhando a trajetória de dois poetas marginais, os tais "detetives selvagens", em busca errática da poetisa dos anos 30, da qual eles não possuem nenhuma pista, apenas um "poema muito esquisito", enigmático, publicado numa revista caindo aos pedaços, de tão velha. Na verdade, eles mais se perdem em seus delírios pessoais do que acham alguma coisa na busca objetiva dos rastros da musa do tal "realismo visceral".
No final, ele retorna ao diário do jovem poeta num verdadeiro road-movie que não vou contar aqui para não estragar o prazer da leitura.
Um dos elementos que esse autor utiliza em sua prosa é justamente jogar incertezas, desconfiar dos relatos, desestabilizar o leitor, fazendo dele também um detetive que procura respostas e sentidos nessa leitura.
Desconfio, inocente que sou, que fez parte desse jogo um erro monumental, que está grafado na página 491 (Edição da primeira reimpressão 2009, publicada pela Companhia das Letras) (eu prefiro assim), no qual um dos muitos personagens diz: "Então, quando Iñak me falou do tal duelo, pensei que estivesse de gozação, o ardor suscitado por Baca não podia ser tão forte para que os autores resolvessem agora fazer justiça pelas próprias mãos, ainda por cima de forma tão melodramática. Mas Iñaki me disse que não se tratava disso, enrolou um pouco, disse que o caso era outro e que precisava aceitar o duelo (ou muito me engano, ou citou o Nu descendo a escada, mas o que Picasso teria que ver com isso?), que lhe dissesse de uma vez por todas se estava disposto a ser ou não seu padrinho, que não tinha tempo a perder porque o duelo iria ser naquela mesma tarde."
Acontece que Nu descendo a escada é uma obra de Duchamp e não de Picasso.
Se foi uma escorregadela da memória, uma confusão "surreal-cubista", isso não tira os méritos dessa obra que mistura personagens reais e fictícios, muitas histórias, um fluxo insuportavelmente prazeroso de perspectivas… Falando nisso, não perca a parte em que Octávio Paz entra na história.
Observação final: O comentador, quando convidado a escrever umas linhas para dar uma força ao livro, muitas vezes cai na tentação de exagerar. Um deles, na orelha de Os Detetives Selvagens, chega a esse tipo de cometimento: "Era o tipo de romance que Borges teria escrito"… Outro diz que seria "Um fecho histórico e genial para O jogo da Amarelinha de Cortázar"… Menos, menos. Bolãno é uma mistura de muitas influências. Algumas, como já disse, bem cinematográficas, que aparecem em seus bem construídos diálogos. O resto é conversa, muita conversa e nessa conversa a gente vai sendo levado adiante, mesmerizado pela sua prosa poética.
Uma pena que Bolaño tenha morrido cedo, com 50 anos, de insuficiência hepática. Tão longe do seu Chile!
Ah, esqueci de uma coisa, no sábado passado li uma notícia no Segundo Caderno de O Globo que talvez interesse aos “bolañomaníacos”: na quinta-feira, a partir das 18 horas, vai ser lançado, na Livraria Da Vinci, um livro, na verdade, uma coletânea de ensaios, sobre a obra desse autor, organizada por Antonio Marcos Pereira e Gustavo Silveira Ribeiro (publicada pela Editora Relicário). Esse lançamento faz parte de um evento nomeado como Lendo Bolaño no Brasil. Vai rolar uma palestra, uns bilisquetes, talvez um vinho prosecco e o escambau. Espero que seja bem no estilo Bolaño de ser.
(*) Amuleto é um livro autônomo, mas na verdade é uma das histórias que constam no Detetives Selvagens. A história de Auxilio Lacouture que se dizia "Mãe dos poetas do México". A pobre moça ficou escondida por vários dias num banheiro da UNAM (Universidade Autonoma do México), se alimentando de água da pia, durante a ocupação da Universidade por forças militares, em 1968. Bolaño não inventou isso, se baseou numa história real, da estudante Alcira Soust Scaffo- link http://www.laizquierdadiario.com/spip.php?page=gacetilla-articulo&id_article=27191



(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

7.9.16

Caricatura de El Patón Bauza

Aqui vai um esboço para caricatura de El Patón Bauza, técnico da seleção da Argentina, que quase perdeu ontem para a seleção da Venezuela. Ô fase!
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

3.9.16

Caricatura de Bertold Brecht / homenagem aos 60 anos de sua morte/ Evento no CCBB-RJ

Antídoto para tempos sombrios: Caricatura de Bertold Brecht para lembrar os 60 anos de sua morte.
A propósito, o CCBB- RJ comemora essa data com uma mostra que inclui filmes de suas peças , uma exposição, a encenação de uma obra teatral, um seminário, leituras dramatizadas e oficinas.
Seu teatro dialético talvez ajude a pensar esse tempo doloroso em que vivemos. Sugestivamente, a mostra tem por título "Que tempos são esses?"
(O evento rola de quarta a segunda , das 10 h às 22 h - até 19/9)
(Clique na imagem para ampliar e ver melhor - técnica: bico de pena e pastel seco sobre papel Schoeller Hammer)

25.8.16

Querida Itália

Minha solidariedade ao povo italiano...

Festa Literária de Madalena -FLIM 2016 / Sábado e Domingo, 27 e 28 de agosto


A sensacional FLIM 2016 vai rolar neste final de semana em Santa Maria Madalena (RJ). O homenageado dessa edição vai ser o escritor Antônio Torres.
Eu, modestamente, com muita honra, estarei presente com uma mostra de caricaturas de escritores e com uma oficina de ilustração.
Mais detalhes a respeito da programação da Festa no blog http://flim-festaliterariademadalena.blogspot.com.br/

16.8.16

O poder do som Woodstock, 47 anos depois



Por Jorge Sanglard (*)

A utopia libertária de Woodstock, quase 47 anos depois, permanece viva. E volta e meia é reativada pela celebração daqueles três dias de paz e muita música que entraram para a história do século XX. O poder do som e a força das imagens do maior festival de todos os tempos transcenderam as terras da fazenda de Max Yasgur, em White Lake, na cidade de Bethel, Condado de Sullivan, Nova York, e ganharam impulso com os lançamentos de discos e de um documentário. A cada reedição comemorativa, os ritmos e as imagens da Feira de Arte e Música de Woodstock ampliam a reflexão sobre a transformação de costumes desencadeada nos dias 15, 16 e 17 de agosto de 1969.
No livro “Back to the garden” – no Brasil, “Woodstock” –, lançado pela editora Agir nas comemorações de 40 anos do evento, o radialista norte-americano Pete Fornatale mergulhou nas impressões de mais de uma centena de personagens que estiveram lá, nos bastidores, no palco, na produção, na grama, na lama, e abriu um diversificado leque de opiniões sobre o evento que sacudiu a América. E deu voz a alguns analistas do fenômeno Woodstock.
Pete Fornatale assegura no livro que o festival, sem qualquer intenção prévia, se tornou um manifesto, um símbolo das mudanças que borbulharam na primeira metade e transbordaram durante a segunda metade dos anos 60 nos Estados Unidos. Ainda no livro, ele levanta a questão sobre tudo o que rolou durante as 65 horas de som no evento que redefiniu a cultura e os valores de toda uma geração e lançou sementes para além de seu tempo: “Woodstock foi, sem dúvida, o marco principal da grande revolução jovem da época, uma onda de transformação musical, política e social”. A empreitada idealizada por Michael Lang, Artie Kornfeld, John Roberts e Joel Rosenman nasceu de um encontro a partir de um anúncio de jornal e transformou a música e o comportamento do século XX.

A lenda e o mito de Woodstock se tornaram maiores do que a sua realidade


O músico Graham Nash sintetizou: “A lenda e o mito de Woodstock se tornaram maiores do que a sua realidade. Foi inegavelmente um tremendo evento social. Muita música de qualidade. Muita diversão para muita gente. Acho que, à medida que o tempo passou, a lenda, o mito de Woodstock, se tornou maior do que a realidade”. A antropóloga Margaret Mead viu tudo como um fenômeno sociológico e assegurou na revista Red, na época, que foi uma confirmação de que esta geração tem, e compreende que tem, sua própria identidade. E David Crosby, em seu livro “Stand and Be Counted”, deu uma pista: “não foi um evento político no sentido tradicional do termo, mas foi tão grande que teve um impacto político semelhante”.
Muitas controvérsias marcaram o festival. Talvez a maior delas é quanto ao número de gente que conseguiu reunir, 400 mil, 500 mil. Pouco importa, era um mar de gente. O certo é que às 17h07 da sexta-feira, 15 de agosto de 1969, uma onda humana como nenhuma outra nos anais da história, como descreve Pete Fornatale, ouvia os primeiros sons de Richie Havens, que fora escolhido na hora para abrir o festival num vôo solo ao violão. Quase três horas depois, já exausto, o músico continuava no palco, a pedido da produção, e não sabia mais o que cantar, já cantara tudo, quando veio a inspiração: “Olhei para a platéia e não conseguia ver o fim dela porque, como se vê no filme, é gente até onde se consegue enxergar. Então olhei para cima e disse ‘liberdade não é o que eles fazem a gente pensar que é, nós já a temos. Tudo que devemos fazer é exercê-la, e é isso que estamos fazendo bem aqui’. Então comecei a tocar umas notas procurando alguma coisa e a palavra saiu, ‘freedom’, e aí, claro ‘Motherless child’, que eu não cantava há uns seis, sete anos, surgiu. Depois apareceu uma parte de uma canção que eu costumava cantar quando tinha 15 anos e entrou no meio. Foi assim que juntei tudo”.
Fornatale esclarece que a performance de Richie cristalizou e iluminou a verdadeira razão subjacente para que aquele meio milhão de pessoas se reunisse ao toque de uma única palavra, repetida mil vezes e ecoada pela multidão: “Freedom, freedom, liberdade, liberdade”. A performance de Havens hipnotizou e seduziu a massa e o músico, segundo Fornatale, parece em transe, transformado, transportado: “ele ainda é a maior encarnação viva do ethos de Woodstock”.
Para o escritor e crítico Bob Santelli, Havens salvou o dia do festival. Mas ainda no primeiro dia nasceu uma inesperada estrela solo, Coutry Joe McDonald, uma inclusão tardia no elenco. O Fish estava escalado só para o domingo, Joe chegou cedo para curtir a abertura do festival, na sexta, e dava bobeira na lateral do palco, quando o apresentador e gerente de produção, John Morris, resolveu convocá-lo. E Joe soltou logo uma adaptação de um grito de guerra que usara antes e soletrou a palavra “fuck” no lugar de “fish”. Segundo o coordenador artístico, Bill Belmont, quando soou “Me dá um F!”, todo mundo sabia o que ia acontecer. O que veio depois está no filme, a multidão inteira gritando “fuck”, uma palavra proibida na América até então. “E, claro, não é só a palavra, mas o significado por trás dela”, esclarece Santelli: “todas as regras e leis tinham ficado do lado de fora dos portões”.

Woodstock foi sobre a criação de um novo mundo

Na opinião de Santelli, “quando se pensa em Woodstock e nas canções da Guerra do Vietnã, se pensa na apresentação de Joe. Foi lendária e importante. Ele se impôs. Foi uma das poucas vezes em que a política foi realmente convidada ao palco e realmente aceita. De modo geral, Woodstock não foi sobre política. Não foi sobre o que estava acontecendo no mundo, as coisas ruins. Foi sobre a criação de um novo mundo, uma nova identidade, uma nova nação, a Nação Woodstock. Não foi sobre tentar resolver a Guerra do Vietnã ou sobre se manifestar e mandar uma tremenda mensagem ao mundo careta e ao governo americano de que queríamos que a guerra parasse. Ainda assim, Joe, da única maneira que ele podia fazer, conseguiu adicionar um elemento político que foi aceito”.
A pobreza, a injustiça, o racismo e o belicismo estavam à solta na “terra da liberdade” e no “lar dos bravos”, assegura Fornatale; afinal, nenhum tema revelou mais o crescente abismo nos Estados Unidos do que o Vietnã: “ao mesmo tempo em que esta geração estava abraçando sexo, drogas e rock’n’roll, aprendia a suportar o choque e o trauma dos assassinatos, os distúrbios e a brutalidade policial. Eram essas as nuvens que pairavam sobre Woodstock, e nada tinham a ver com o tempo”.
A crítica de rock, Ellen Sander, aponta uma pista: “o ano anterior tinha sido muito tumultuado, com muita violência no país e muitos distúrbios. Havia um grande descontentamento no ar, e ele acabou achando um lar em Woodstock. Acho que os assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy e os distúrbios na Convenção Nacional Democrata criaram o clima e as condições para algo assim. Nós, boomers, crescemos em circunstâncias únicas e fomos atingidos por um monte de coisas que não atingiram as gerações anteriores. A Guerra do Vietnã, todos achávamos ser um conflito injusto e não declarado. Houve muitos protestos contra a guerra. Não creio que alguém jamais saberá a resposta do mistério de Woodstock não ter degringolado em caos e violência – porque todos os elementos estavam a postos – mas, em vez disso, foi muito pacífico. Na época, a gente sentiu que era uma espécie de destino, que seria um caminho para o futuro – de cooperação pacífica, espírito de comunidade, tribalismo, essas coisas. Não saiu bem do jeito que a gente esperava (risos), mas pelo menos existiu naquele fim de semana”.
O diretor Michael Wadleigh aponta Sly Stone como o músico que conquistou a maior reação da platéia no festival. “Quando Sly disse, ‘I wanna take you higher’ (Quero te levar mais alto), a multidão ficou frenética, quando falou, ‘Dance to the music’ (Dance para a música), não havia como deixar de dançar. A música era mais do que poderosa. Sly & the Family Stone capturaram a essência do festival”. E Fornatale conseguiu de Roger Daltrey, do The Who, uma emocionada lembrança: “O sol nascendo em ‘See me, Feel Me’ é a melhor. Quer dizer, foi uma experiência incrível. Assim que as palavras ‘see me’ saíram da minha boca no final de ‘Tommy’, aquele enorme e vermelho sol de agosto começou a surgir no horizonte sobre a multidão. É um show de luz imbatível”. Daltrey ainda esclareceu: “o sucesso e a importância de Woodstock é que foi um triunfo humanista. A platéia foi a estrela”. E Pete Townshend também arrematou: “O que aconteceu depois do show de Woodstock foi milagroso. Todo mundo foi em frente e a América é um país melhor por conta disso”.
Por sua vez, o músico e editor Stan Schnier argumentou: “nada naquele filme se aproxima da energia de Carlos Santana. Foi uma espécie de experiência fora do corpo ver esses caras. Eles eram muito jovens e incendiários. É uma dessas convergências maravilhosas, existia alguma coisa sobre Carlos Santana na época que parecia de outro planeta”. Joe Cocker também ganhou notoriedade depois “do rolo compressor da pièce de résistance que fechava sua performance, uma recriação única de ‘With a Little Help from My Friends’, a canção de John Lennon e Paul McCartney”. Para Michael Wadleigh, “Cocker faz tudo, está dentro daquilo. Ele é um bom exemplo de porque a música dos anos 60 e a década de 60 duraram e presumivelmente vão durar para sempre. São performances e músicas verdadeiramente emotivas, comoventes e fundamentais”.

A Nação Woodstock, enfim, dava seu grito libertador

O encerramento do festival, já na manhã da segunda-feira, 18 de agosto, foi apoteótico, apesar do público reduzido que ficou para ouvir Jimi Hendrix e o grupo experimental Electric Sky Church. Depois de tocar por cerca de duas horas, Hendrix deu o golpe final e tocou a Guerra do Vietnã nas cordas da sua guitarra branca, com direito a toque de recolher, estouro de bombas, metralhadoras disparando e o barulho de helicópteros no céu. Sua interpretação visceral do hino norte-americano “Star-Spangled Banner” simbolizou toda a essência de Woodstock. A Nação Woodstock, enfim, dava seu grito libertador. Daí em diante, é história.
No Brasil, pai e filho avaliam o fenômeno. O psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg e o analista da arte anarquista Leonardo Goldberg refletem sobre o festival. Para Jacob, “no imaginário e no simbólico, Woodstock foi a resposta do inconsciente coletivo da humanidade à repressão que culminou com o nazi-fascismo e as ondas conservadoras em todo o mundo (inclusive da esquerda stalinista). Foi o dia em que o superego dançou. A liberação do Id abriu os territórios do prazer, rompendo com os tabus e inaugurando a liberdade enquanto esperança. Embora, posteriormente, cooptado e desfigurado – pelo capitalismo e pela droga – historicamente, o indivíduo num instante épico e dramatizado levou a imaginação ao teatro existencial”. E, segundo Leonardo, "sob um viés piagetiano, se a espécie humana pudesse ser concebida como um único indivíduo, o festival de Woodstock seria sua fase rebelde, a adolescência, o divisor de águas que marcaria a concepção de liberdade num caráter macro”.
Para marcar as quatro décadas do evento, em 2009, foi lançado, numa edição em 4 DVDs pela Warner, "Woodstock - 3 Days of Peace & Music", resgatando o histórico documentário "Woodstock - Onde Tudo Começou", de Michael Wadleigh, uma autêntica síntese visual e sonora do maior ícone do movimento hippie. Uma série de CDs ainda jogou mais lenha na fogueira, despertando o interesse na música que abriu alas para eternizar Jimi Hendrix, Santana, Joe Cocker, Richie Havens, Joan Baez, Janis Joplin, Sly & The Family Stone, Country Joe And The Fish e muitos mais.
A Rhino Records - Warner lançou também em 2009 uma caixa de 6 CDs “Woodstock - 40 Years On: Back to Yasgur’s Farm”, com 77 músicas, sendo que 38 estavam inéditas em disco até então. As trilhas sonoras “Music From the Original Soundtrack and More: Woodstock” e “Woodstock 2” também foram remasterizadas e relançadas. E a Legacy / Sony Music articulou a coleção de 5 CDs duplos “Woodstock Experience”, reunindo álbuns originais de 1969 de Janis Joplin, Johnny Winter, Santana, Jefferson Airplane e Sly & the Family Stone e as performances completas de cada um no festival. E, nos Estados Unidos, o Bethel Woods Center for the Arts e o Museum at Bethel Woods ocupam parte da fazenda de Max Yasgur, reúnem a memória do festival e trabalham para que a “volta ao jardim” continue viva.



(*)Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e produtor cultural. Escreve em jornais de Portugal

15.8.16

Cartunzinho:A santa ira/ Pokémon Go até no céu

(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

11.8.16

Cartum/ Cuidado com essa febre de Pokémon!

(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

4.8.16

Daibert e a reflexão sobre as Veredas do Grande Sertão

Por Jorge Sanglard *

A reflexão sobre Grande Sertão: Veredas que Arlindo Daibert (12/08/1952 – 28/08/1993) criou, entre 1983 e 1984, interligando uma série de 20 xilogravuras (com apenas 30 cópias assinadas e numeradas) a desenhos e colagens permanece desafiadora 23 anos após a morte do artista plástico mineiro, em 28 de agosto de 1993. Esta série de xilogravuras é o testemunho vivo da ousadia e da inventividade de quem sempre encarnou a criação como um estímulo, além de um compromisso com a produção do saber.
O Brasil celebrou, em maio de 2016, os 60 anos do lançamento da obra-prima de João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, terceiro livro do escritor mineiro que revolucionou a moderna literatura ficcional brasileira. Lançado em maio de 1956, GSV expressa toda a inventividade e a criatividade de Rosa ao reinventar uma linguagem literária peculiar e é considerado como um dos mais importantes livros do século XX no país. Ao criar um vocabulário entremeado de neologismos e de invenções, o escritor articulou a base para sua narrativa épica, abordando contradições vivenciadas por suas personagens sertanejas envolvidas entre Deus e o diabo, além da imprevisibilidade do amor.
Na opinião do conceituado crítico literário Antonio Candido: “A experiência documentária de Guimarães Rosa, a observação da vida sertaneja, a paixão pela coisa e o nome da coisa, a capacidade de entrar na psicologia do rústico, — tudo se transformou em significado universal graças à invenção, que subtrai o livro da matriz regional, para fazê-lo exprimir os grandes lugares comuns, sem os quais a arte não sobrevive: dor, júbilo, ódio, amor, morte, — para cuja órbita nos arrasta a cada instante, mostrando que o pitoresco é acessório, e na verdade, o Sertão é o Mundo”.
Arlindo Daibert revelou uma arte inquietante ao se enveredar no universo mágico de Guimarães Rosa (nascido em Cordisburgo em 27 de junho de 1908 e que completaria 108 anos, em 27 de junho de 2016, se não tivesse se encantado em 19/11/1967). O artista plástico, já no início da elaboração da série de trabalhos, deixava antever que o conjunto de imagens criado seria pouco ortodoxo. Ao ser entrevistado por Walter Sebastião, em fevereiro de 1984, Daibert revelava, pela primeira vez, estar usando como guia de sua interpretação o máximo de declarações de Guimarães Rosa. Afinal, “ele fazia questão de frisar que seu projeto literário era um romance cosmológico, um romance filosófico ambientado no sertão, porque o sertão é um universo fechado”.
Algumas relações intertextuais abrem um espaço muito amplo e muito rico para a reflexão e para o conhecimento. Este é, com certeza, o caso da série de trabalhos gráficos que Arlindo Daibert, doublé de artista plástico e grande leitor (não necessariamente nessa ordem), fez da narrativa de Guimarães Rosa. O professor de literatura brasileira e de literatura comparada da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Gilvan P. Ribeiro, afirma que, à primeira vista, poderia parecer que o artista ilustrou a obra de Rosa. Mas a um olhar mais atento, percebe-se que, na verdade, Arlindo Daibert dialoga com múltiplas veredas do grande sertão. Seu “olho armado” percebe, na escritura de Rosa, uma miríade de possibilidades visuais que evolam do texto. A essas possibilidades se acrescentam outras, decorrentes da pesquisa que Daibert fez do escritor e que brotam, nos trabalhos do artista, como flores simbólicas das reflexões e querências de Rosa. Personagens e situações do livro aparecem, assim, ligadas a cartas de tarô, mandalas, oroboros e outras variadas simbologias. Desta forma, o mistério, que, de alguma forma, sempre ronda o livro de Rosa, se abre em cor, luz e sombra, reitera o professor.
Ao ler os trabalhos de Arlindo, tendo sempre a obra de Rosa como referencial primeiro, um ilumina o outro. A compreensão do universo roseano se amplia a partir da leitura que o artista faz do texto. Personagens se esgarçam ou se projetam com nitidez, situações de tensão ou de ternura se recortam numa moldura que as torna mais visíveis. Felizmente, argumenta Gilvan P. Ribeiro, a obra de Arlindo Daibert pode ser lida por muitos, desde que foram publicadas no livro Imagens do grande sertão (Editoras UFMG – UFJF).
Grande Sertão: Veredas, para o escritor também mineiro Luiz Ruffato, que é considerado um renovador da prosa contemporânea brasileira, sem dúvida alguma, é um dos maiores monumentos da literatura brasileira. Individualmente, talvez seja o maior romance da língua, embora Guimarães Rosa, na opinião de Ruffato, não seja o maior escritor (perde, por pontos, para Machado de Assis...). Trata-se de uma obra que funde, com extrema felicidade, o caráter conflituoso em vários aspectos: a língua popular e erudita, o Bem e o Mal, o masculino e o feminino, o amor e a violência, o local e o universal. Tão radical experiência ainda hoje motiva controvérsias, mas, parece, a cada dia mais se configura uma obviedade: é uma obra-prima barroca, talvez o mais barroco dos nossos romances, ressalta Ruffato. Segundo o escritor e crítico literário Fábio Lucas “Grande Sertão:Veredas introduziu no espírito investigativo dos intérpretes, críticos e analistas a sanha de desvelar o mundo real que o autor teria reproduzido artisticamente na obra. Um dos modos de perseguir essa possibilidade foi o de identificar o espaço geográfico da ação dramática (o exemplo de Alan Viggiano em Itinerário de Riobaldo Tatarana) ou de vasculhar a dimensão linguística da região em que se desenrolam os episódios narrados por Riobaldo (o exemplo da obra de Teresinha Souto Ward (O Discurso Oral em ‘Grande Sertão:Veredas’). Geografia física e Geografia Humana”.
A escritora mineira Rachel Jardim argumenta que, no Brasil, existe o time do Guimarães Rosa e o time do Machado de Assis. Sempre se considera Guimarães Rosa mais moderno, um reformador da linguagem, muito mais Joyce do que Proust. No entanto, o sentimento poético que possuem todos os personagens regionais de Guimarães Rosa é que os torna imortais e universais. Muito mais do que personagens regionais, eles são produto de uma visão poética abrangente e avassaladora.
Para Rachel Jardim, Machado lida com o cotidiano, com seres aparentemente triviais, nada exóticos, nada regionais, ambivalentes e, às vezes, metafóricos. Mas para quem gosta realmente de ler, para quem se deixa possuir pela literatura e a conhece verdadeiramente, há poucas diferenças. Sombra e luz possuem a alma dos personagens de Machado de Assis e de Guimarães Rosa. É nesse terreno que os leitores de Machado de Assis e de Guimarães Rosa mergulham. Isso é o suficiente para fazê-los testemunha e cúmplice da grandeza de ambos.


A vida e a linguagem são uma coisa só


Último trabalho de Arlindo Daibert, nascido em 12 de agosto de 1952, em Juiz de Fora, Minas Gerais, a série GSV foi exposta pela primeira vez, em Belo Horizonte , no final de setembro de 1993, um mês após a morte do artista. E, em abril de 1994, o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo abriu suas portas para acolher a reflexão do desenhista mineiro sobre a obra de Guimarães Rosa.
A relação essencialmente mágica expressa pelo artista plástico, tanto na série de 20 xilogravuras, quanto nos desenhos e colagens, acaba por reafirmar toda a força criativa desta interpretação aberta do universo de Guimarães Rosa. E essa dimensão foi percebida, já no início da elaboração dos trabalhos, pelo jornalista e crítico de arte Walter Sebastião, um dos primeiros interlocutores a conversar com Arlindo Daibert, logo que o artista juizforano iniciou um estudo detalhado da obra de Rosa e passou a se enveredar no universo de GSV, entre o final de 1983 e o início de 1984. Walter Sebastião vê na incrível rede de significados elaborada por Arlindo a síntese de toda a sua inteligência no manuseio de signos/símbolos e destaca toda a sua habilidade artesanal.
Um artista capaz de deixar fluir uma forte crença na responsabilidade cultural de sua arte, Daibert sempre se recusou a ser um mero “produtor de imagens” e defendia como compromisso do artista a produção do saber. Assim, o desenhista não levou em conta o contexto pessoal do escritor mineiro e não fez uma releitura técnica de GSV. Na verdade, ousou criar sem limitações, tendo como ponto de partida o estímulo literário.
Ao vislumbrar no livro de Rosa uma síntese do Cosmos e não uma narrativa específica de uma região, o artista apontava para a grandeza do autor. E advertia: “Quem for ver procurando estereótipos regionalistas, não vai entender nada”. Afinal, o artista plástico conseguiu romper limites e conseguiu refletir sobre a linguagem do desenho. O desafio da criação nunca intimidou Arlindo Daibert, ao contrário, sempre serviu como estímulo.
O psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg vê nos nomes, a chave do enigma de GSV: “Guimarães Rosa era o enxadrista da erudição e, mais ainda, o mago que esconde–esconde pistas para aguçar a busca do leitor. Médico e curioso do alternativo, sabia que o rim e não o coração é o órgão da paixão no Oriente. Dia do rim, o personagem, ela no lusco–fusco do amor. Diadorim. Rio São Francisco, a imagem fálica do pau grosso em sua narrativa. Baldo, o personagem do másculo deslize. Riobaldo. O amor que não diz o nome”.
Segundo a professora, poeta e contista suíça, radicada no Brasil, Prisca Agustoni, a narrativa de GSV é de encaixes, não só em termos formais (linguísticos, sintáticos), mas também em termos da matéria narrativa, que é revelada ao destinatário aos poucos, através de remendos e fragmentos, de idas e voltas. O próprio narrador é duplo, sendo o Riobaldo-personagem das façanhas jagunças, de tom épico, e o Riobaldo do tom lírico, que fala e reflexiona sobre si mesmo. Apesar disso, os dois são “uma coisa só”, uma unidade que atravessa o romance como um todo encaixado, “tudo certinho”.



Caráter universal fascinante



A abrangência do romance é universal, as implicações filosóficas transcendem os limites geográficos e históricos da narrativa. Aí reside o permanente fascínio de GSV. O artista plástico apontava ainda o fato de Guimarães Rosa misturar, por exemplo, máximas e raciocínios do Zen-Budismo ou de Vedas, como referências que deram o caráter universal ao livro e acabaram despertando o interesse de estudiosos de outros países.
O que torna a obra de Guimarães Rosa tão fascinante, na opinião da professora assistente de literatura brasileira e cultura naUniversidade de Stanford, nos Estados Uni-dos, Marília Librandi Rocha, é que a sua escrita é a reunião de muitas artes. Ao escrever, ele pinta, desenha e dança com as palavras que soam como música, o que faz com que o leitor se deleite com o fluxo poético de sua prosa, por isso mesmo intensamente erótica, pois afeta os sentidos do corpo e da mente ou, como ele preferiria dizer, do “coraçãomente”, como “belimbeleza” de muita arte. Além disso, é sempre um desafio para a leitura: sua plenitude de significados esvazia o sentido das muitas interpretações, escapando pelas vertentes, como a dizer que a ficção é sempre mais verdadeira que as muitas realidades a ela atribuídas: “Somente renovando a língua, pode-se renovar o mundo”.
Assim, ao iniciar o projeto de GSV, em 1983, Arlindo Daibert imaginava fazer 99 trabalhos, um número simbólico, ímpar, com 9, que é um número cabalístico. A intenção, revelada na época, era quase uma homenagem ao fascínio de Guimarães Rosa pelos raciocínios das filosofias ocultistas, pela alquimia, pelas filosofias orientais, que são aspectos que o escritor deixava vazar não só noGSV, mas em outras narrativas.
Despertava a atenção do desenhista a descrição de episódios e situações na obra de Guimarães Rosa que coincidiam com a descrição das cartas do Tarot. Todos estes dados serviram de referência para o artista na criação das imagens. Ao usar desde imagens populares até representações eruditas, Daibert driblou a tentação de uma simples tradução e ousou na interpretação e na criatividade.
Ao criar uma imagem ilustre com uma colcha de retalhos, ou outra com uma cara de Tarot, ou ainda um jagunço a cavalo com a representação de um centauro, Arlindo Daibert explorou a diversidade de situações sempre presente na obra de Rosa. E rompeu com todos os limites ao refletir sobre a linguagem do desenho e ampliar suas possibilidades. O artista sempre deixou muito claro que, ao vislumbrar seu trabalho — seja em desenho seja em pintura ou em colagem — como uma linguagem de encarar o mundo, aceitava o desafio da criação. Mas ressaltava que não se podia confundir um método de raciocínio com apenas uma produção de imagens.
A característica da linguagem gráfica de Daibert não poderia deixar de ser a criação da imagem, mas sempre como conseqüência e não como fim de seu projeto. E o artista plástico explicitava este ponto de vista: “O meu projeto não é criar imagens, o meu projeto é refletir sobre as coisas através das imagens”. Isso criava uma dinâmica capaz de não prender a sua criação a nenhuma fórmula gráfica, a nenhum estilo gráfico.
Arlindo Daibert ainda confidenciou: “Eu tenho um estilo de raciocínio e não um estilo gráfico. Os meus estilos gráficos se adaptam às problemáticas que eu estiver refletindo em cada momento”. Este era seu grande trunfo: um artista afiado e afinado com o seu tempo. Avesso a concessões e a limitações, sempre fazia da ousadia de dar um passo à frente o estímulo para continuar caminhando. Essa percepção mágica diferenciava Arlindo e está viva e presente em sua arte.



Um franco atirador que jamais erra o alvo


Na opinião do jornalista, crítico mineiro, e prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo: “Um franco atirador que jamais erra o alvo”. Essa definição sintetiza bem quem foi o artista Arlindo Daibert, lembrando que ele enfatizava a individualidade como condição imprescindível numa época de padronização e massificação da própria subjetividade. “Também foi um incentivador de projetos à sua volta, na qualidade de professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. E, como curador de exposições, alimentava o crescimento de valores novos, ao mesmo tempo em que reabastecia sua fonte para o desafio da criação”, assegura o jornalista.
Amigo particular e especial apreciador de sua obra, Angelo Oswaldo sempre considerou Daibert um dos mais importantes artistas da contemporaneidade brasileira. “A morte dele interrompeu uma trajetória que nos levaria definitivamente a uma das obras mais significativas do século XX”. O crítico ressalta que o artista foi responsável por ter colocado Juiz de Fora como um centro de referência de vanguarda no cenário artístico nacional.
Angelo Oswaldo aponta também a interação entre a literatura e a visualidade, ponto essencial da proposta artística de Arlindo. “Há um processo de integração entre a literatura e a visualidade - que ele soube resolver muito bem - em que a força da linguagem se transforma na grande energia autônoma da expressão visual. Ele conseguia extrair a poética da literatura e dar suporte à sua expressão visual, sem violentar a autonomia da imagem”.
A obra visual de Arlindo Daibert deve um tributo à literatura, mas é também autônoma, pois cria sua linguagem própria a partir de símbolos literários. “Dentro das artes plásticas brasileiras, talvez seja a obra mais intelectualizada, porque Arlindo trouxe para o campo da criação plástico-visual toda a sua rica cultura nas áreas de literatura, lingüística e filosofia”.
Daibert abordava de maneira singular, como desenhista, pintor, gravurista, criador de objetos e instalações, obras de autores como Mário de Andrade, Murilo Mendes, Guimarães Rosa e Lewis Carroll, entre outros. Além do legado artístico, em termos de acervo, Arlindo deixou um trabalho muito importante para a cultura de Minas e do Brasil, contribuindo, de modo especial, para a revalorização da obra literária de Murilo Mendes no país e para a vinda, de Portugal para o Brasil, de parte significante do acervo de desenhos e de pinturas da coleção do poeta, hoje abrigados no Museu de Arte Murilo Mendes, da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Os 20 anos da morte de Arlindo Daibert (celebrados em 2013), foram marcados na Universidade Federal de Juiz de Fora, com uma série de eventos promovidos pela Pró-reitoria de Cultura, Museu de Arte Murilo Mendes e a Editora UFJF, no Museu de Arte Murilo Mendes (Rua Benjamin Constant, 790, Centro, Juiz de Fora). Entre eles, a exibição de vídeos na Galeria Poliedro, uma Mesa Redonda reunindo os pesquisadores Júlio Castañon Guimarães e Jorge Sanglard, tendo como mediador o professor e artista plástico Afonso Rodrigues, além da exposição “Arlindo Daibert 20 anos depois”, na Galeria Retratos-Relâmpago.
O cinquentenário da edição de GSV, em 2006, foi celebrado pela editora Nova Fronteira com o lançamento de três reedições da obra: uma versão popular; uma edição tradicional, que abriu a coleção Biblioteca do Estudante, na Bienal de São Paulo em março de 2006 e uma edição comemorativa com tiragem de 5 mil exemplares e projeto criado pela diretora teatral Bia Lessa. Este livro chegou ao mercado acompanhado de um catálogo da exposição sobre a obra, que Bia Lessa organizou também em março de 2006, no Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo , além de trazer um CD multimídia, com imagens e sons do sertão descrito pelo escritor Guimarães Rosa.

(*) Jorge Sanglard é jornalista e pesquisador.

2.8.16

Gilson Peranzzetta e Mauro Senise se apresentam na Casa Stefan Zweig no sábado, dia 6 de agosto

Apresentação única. O show vai rolar no sábado, dia 6 de agosto a partir das 17 horas, na Casa Stefan Zweig ( Rua Gonçalves Dias, 34, Duas Pontes - Petrópolis).
Faça sua reserva pelo telefone (24) 22454316. Garanta seu ingresso antecipadamente, ou por telefone ou na própria Casa Stefan Zweig, das 11 às 17 horas. (até sexta feira)
Ingressos: R$40 inteira e R$20 meia entrada.
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

31.7.16

Estudo para caricatura e Hillary Clinton

(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

25.7.16

Antonio Adolfo grava seu "depoimento para a posteridade" no Museu da Imagem e do Som


Nessa quarta-feira, dia 27, Antonio Adolfo participa da série "Depoimetos para a Posteridade" do MIS / Museu da Imagem e do Som.

Ele será entrevistado pelos jornalistas Antônio Carlos Miguel e Jorge Roberto Martins e pelos músicos Carlos Lyra e Mauro Senise.

O evento tem entrada franca e começa às 13h30, na sede do Museu da Imagem e do Som, na Praça XV (Praça Luiz Souza Dantas, 01). O auditório tem capacidade para 50 pessoas. Vale chegar cedo para garantir o lugar!

22.7.16

Lançamento de livro na Livraria Folha Seca: "Guanabara - Espelho do Rio"

Guanabara - Espelho do Rio é um livro de Custodio Coimbra e Cristina Chacel - ele, craque da fotografia e ela, do texto. O lançamento será na Livraria Folha Seca, no dia 26 de julho (terça-feira), a partir das 17,30 horas.
Vai rolar um som também, com roda de Samba temática de Tiago Prata e Luiz Antonio Simas.
A Livraria Folha Seca fica na Rua do Ouvidor, 37 - no centro do Rio.
Todo mundo lá!!!
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

30.6.16

É hoje. Conversa sobre Livros Ilustrados

(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

26.6.16

Caricatura de Eva Green

Esta postagem contém SPOILER/Ainda no forno: esboço para caricatura de Eva Green, que viveu a personagem Vanessa Ives em Penny Dreadful. Parece que Ms. Ives retornou dos mortos e aderiu ao pessoal do Mal, deixando o pessoal de Londres em polvorosa. Salve-se quem puder!
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

16.6.16

Lançamento dos livros "Diários da Patinete" e "poemas do vai e vem" com debate na Casa Dirce Riedel

Lançamento e debate / Livros : "Diários da Patinete: sem um pé em Nova Iorque", de Lídia V. Santos/ "poemas do vai e vem", de Elias Fajardo.
O evento vai rolar no dia 30 de junho (quinta-feira) a partir das 19 horas na Casa de Leitura Dirce Cortes Riedel,na Rua das Palmeiras, 82 em Botafogo (telefone: 2334 8227).
Estarei com muito prazer e honra na mesa-redonda que vai conversar a respeito do tema "Escritor, Ilustrador e Leitor: a proposta triangular do livro ilustrado"
Veja o convite abaixo
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

4.6.16

Caricatura de Muhammad Ali (desenho rápido- lápis de cor)

Float like a butterfly, sting like a bee. The hands can't hit what the eyes can't see.”
(Muhammad Ali)
(Clicar na imagem para ampliar e VER melhor)