2.12.16

Dois livros de Tárik de Souza em um grande lançamento no Rio de Janeiro


O grande e bravo crítico de música Tárik de Souza, lança no dia 12 de dezembro de 2016 (segunda-feira, a partir das 19 horas) na Livraria Bossa Nova e Companhia, os livros Sambalanço, a bossa que dança- um mosaico e MPBambas (Editora Karup).
O evento vai rolar na Rua Duvivier, nº 37, Beco das Garrafas/ Copacabana
Todo mundo lá!
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Concurso Nacional de Caricaturas de Chico Buarque - nova chamada




Você é caricaturista? Curte Chico Buarque? Então não fique fora dessa!

Participe do Concurso “Quem te viu, quem te vê” de Caricaturas do Chico Buarque.
O prazo de entrega foi estendido para 31 de dezembro de 2016.
Os trabalhos selecionados vão entrar em catálogo que será publicado e também irão circular em exposição. A inscrição é gratuita e online.
As três melhores artes receberão prêmios em dinheiro!

Informações sobre regulamento, premiação e inscrição no site:
http://quemteviuquemteve.net.br/

Xilogravuras de Rubem Grilo em Vitória


Começa a partir do dia 8 de dezembro ( e vai até o dia 14 de janeiro) uma baita exposição das xilogravuras desse genial artista que é Rubem Grilo.
O evento vai rolar na Galeria OÁ - abertura no dia 8 a partir das 19 horas. Vai rolar também uma conversa com o artista às 20 horas.
A Galeira OÁ fica na Rua Aprígio de Freitas, nº 240 A - Consolação/ Vitória/ ES.
Horário de funcionamento: Segunda a Sexta-feira de 11 horas às 19 horas. Para visitas aos sábados tem que ter agendamento.
Agendamento:+5527 32275443/ 99944 5001
oaobjetoarte@gmail.com
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22.11.16

Saindo do forno: Livro de cartuns de João Zero


João Zero é craque, cartunista de traço singular (trabalha ainda com penas chinesas e nanquim),dono de um humor finíssimo capta como ninguém as contradições e o absurdo de ser "humano" demasiado "humano" nesse mundo em acelerado processo tecnológico.
Já emprestou seu talento ao publicar trabalhos no jornal Movimento, Jornal da República, Sunday News e Folha de S. Paulo. As revistas Visão e ISTOÉ também foram ilustradas por seus desenhos.
Na internet, mantém um site no qual vai nos brindando com seus cartuns (http://www.cartuns.com.br/), que como na boa tradição do cartum, produz aquele efeito quase de "iluminação", no sentido zen-budista: aquela descoberta da "sacada", aquele "toque" que te tira o sujeito do sério mundo quadrado, para te fazer pensar sorrindo.
O "João Zero SketchBook custom Volume I" além de trazer uma seleção de seus cartuns, valorizando o traço, mostra os rabiscos dos esboços em diversos estágios do processo de criação do humor gráfico.
Esse blog que vos fala teve a honra e o prazer de já ter publicado, ao longo de sua história, sensacionais (diria iluminados) cartuns do bravo João Zero.
Ao que parece um belo lançamento está sendo preparado pela editora. Vamos aguardar!!!

Viva João Zero!!!
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17.11.16

Exposição de Caricaturas no Centro Cultural Justiça Federal. No centro do Rio de Janeiro

A partir de hoje, dia 17 (quinta-feira) está rolando a A 2ª Bienal Internacional da Caricatura com uma exposição para celebrar o CENTENÁRIO do 1º SALÃO DOS HUMORISTAS DE 1916.
A exposição acontece nos salões do Centro Cultural Justiça Federal, Avenida Rio Branco, nº241 - 2º andar.
O CCJF fica próximo da Estação Cinelândia (RJ).
Olhe só as feras imortais que vão ser homenageadas por um time de caricaturistas contemporâneos: Luiz Peixoto, Raul Pederneiras, K.Lixto, J.Carlos, Amaro do Amaral, Fritz, Seth, Max Yantok, Belmiro de Almeida, Hélios Seelinger, Basílio Viana, Nemésio Dutra, Ariosto, Di Cavalcanti, Romano, Arthur Lucas – Bambino, Loureiro, Mora, Madeira de Freitas, Anita Malfatti. Além dessa exposição três outras homenagens estão lá , uma a Seth - pioneiro do desenho animado brasileiro, outra ao surpreendente caricaturista J.Ozon Rodrigues e uma simpática lembrança do saudoso cartunista Jorge de Salles.
A entrada é gratuita. Não é necessária a apresentação de convite.

Eu modestamente escolhi Fritz (1895-1969) para caricaturar por causa daquela escultura do "Pequeno Jornaleiro"(obra dele) que sempre esteve no centro do Rio anunciando "manchete do dia". O diabo é que dele só existe um registro fotográfico para servir de modelo. O desenho foi feito inteiramente com lápis de cor.
A exposição está muito bem montada. A curadoria foi feita pelo bravo pesquisador Lucio Muruci.
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12.11.16

Segunda Bienal Inernacional da Caricatura / Brasil 2016/2017/ Centenário do 1º Salão dos Humoristas ( 1916/2016)


A 2ª Bienal Internacional da Caricatura vai rolar com uma exposição para celebrar o CENTENÁRIO do 1º SALÃO DOS HUMORISTAS DE 1916.

Inauguração: 16 de Novembro, 19 h, no Centro Cultural Justiça Federal, Avenida Rio Branco, nº241 - próximo da Estação Cinelândia (RJ).

A exposição da vai relembrar (em interpretações realizadas pelos caricaturistas atuais que atuam na imprensa e na internet) os pioneiros geniais do humor gráfico brasileiro. Olha o time que vai receber homenagens "caricaturadas": Luiz Peixoto, Raul Pederneiras, K.Lixto, J.Carlos, Amaro do Amaral, Fritz, Seth, Max Yantok, Belmiro de Almeida, Hélios Seelinger, Basílio Viana, Nemésio Dutra, Ariosto, Di Cavalcanti, Romano, Arthur Lucas – Bambino, Loureiro, Mora, Madeira de Freitas, Anita Malfatti, entre outros.
Ao mesmo tempo vão rolar homenagens a Seth - pioneiro do desenho animado brasileiro, e aos caricaturistas J.Ozon Rodrigues e Jorge de Salles.
A entrada é gratuita. Não é necessária a apresentação de Convite.
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10.11.16

Inagura-se a fase do Reality-show-politik

Na História já tivemos Realpolitik (*), agora com Trump inaugura-se a fase do "Reality-politik-show"
(*) De acordo com imensa sapiência exibida na internet, essa forma de fazer política foi introduzida pelo chanceler do Reich alemão, Otto von Bismarck e significou, dito de forma curta e grossa: uma política pragmática, feita entre Estados desconsiderando as diferenças ideológicas.
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"Collagistas sin fronteras" no Brasil - Em Paraty, a partir do dia 11 de novembro



A abertura da exposição vai ser no dia 11 de novembro, a partir das 20 horas no seguinte local: Paraty Cultural /RJ - Casa de Cultura Câmara Torres , Rua Dona Geralda, 177 - Centro Histórico de Paraty.

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8.11.16

Caricaturas de Trump e Hillary no dia da eleição americana

"Terra em Transe" estreia hoje nos EUA.
(Como fundo dessa ilustração usei uma versão distorcida por mim da obra "Three Flags" de Jasper Johns - feita em 1958, na técnica de encáustica, com sobreposição de telas (dimensões 79 x 115.5 x 12.5 cm) - trabalho que era da coleção de Mr. e Mrs. Burton Tremaine de Nova Iorque , até a data de 1970, de acordo com o livro "Movements of Modern Art - Pop Art" de Michael Compton)
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7.11.16

O iluminado Tom Jobim - 22 anos sem o maestro soberano

O iluminado Tom Jobim
22 anos sem o maestro soberano


Jorge Sanglard(*)

A música foi o grande chamamento da vida de Antonio Carlos Jobim (25/1/1927 Rio de Janeiro - 8/12/1994 Nova York, EUA). Em 67 anos de vida, Tom Jobim conquistou tudo o que um músico na essência poderia sonhar. O respeito pela obra, o reconhecimento no Brasil e a consagração nos Estados Unidos e pelo mundo afora. Ao ajudar a forjar a Bossa Nova com canções que se tornaram Standards, Tom projetou a música popular brasileira de qualidade e abriu espaço para o ‘jazz-samba’ no fechado mercado norte-americano, seduzindo jazzistas como John Hendricks, Charlie Bird, Stan Getz, Ella Fitzgerald, Ron Carter, Joe Henderson, Herbie Hancock, Shirley Horn, entre muitos outros, além de gravar com o cantor Frank Sinatra.
Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Brasileiro até no nome. E, como Heitor Villa-Lobos, foi um autêntico embaixador da criatividade musical do Brasil. Com paixão e por prazer, Villa-Lobos e Tom Jobim revelaram ao mundo a inventividade musical brasileira e se transformaram em símbolos da melhor música criada do Brasil.
A profunda ligação entre os irmãos Tom e Helena Jobim foi o fio condutor da biografia do compositor, maestro, arranjador, pianista, cantor e mestre da Bossa Nova intitulada “Antonio Carlos Jobim – Um Homem Iluminado” (Nova Fronteira), lançado no final de 1996, há duas décadas, no restaurante Plataforma, no Rio de Janeiro, para marcar os dois anos da morte de Tom Jobim. Helena Isaura Brasileiro de Almeida Jobim (Rio de Janeiro, 27 de fevereiro de 1931 - 13 de setembro de 2015, Belo Horizonte), encontrou forças após a morte do irmão em 1994 para vasculhar a memória e revelar a transformação que conduziu o companheiro de brincadeiras de infância a se tornar o maior músico brasileiro a partir da segunda metade do Século XX.
A cada página da biografia de Tom Jobim, escrita pela irmã Helena, fica a certeza de que sua vida era mesmo predestinada, como um preto velho de olhos clarividentes profetizara ao adolescente numa noite num bar de Ipanema. Em Minas, durante o lançamento da biografia, em 1996, a irmã escritora revelaria ainda que Tom sentia as forças da natureza e sabia que dentro da floresta ouviria temas inteiros de músicas. Tom Jobim sabia que os sons o procurariam.
Durante uma visita à fazenda mineira Paraíso, em Leopoldina, na Zona da Mata, aos 18 anos, Tom Jobim, depois de andar légua e meia penetrando na grande floresta, vendo o dia nascer lentamente, acreditou que tinha nascido e se criado para isso: tornar-se vulnerável no corpo e no espírito, ele inteiro apenas sensibilidade, sem medo desta fatal entrega. Era seu destino. Sua sentença. Não podia mais fugir. Chegou ao invisível portão da floresta. Mas antes de dar o primeiro passo para este reino, sentiu mais uma vez “o corajoso medo”, que mais tarde colocaria na letra de “Matita Perê”. É assim, denso, comovente e íntimo o relato da irmã Helena Jobim na biografia. Livro pra ser lido, relido e sentido sempre.

Um piano diferente e um baiano Bossa Nova

Em 1953, o piano diferente do autodidata Antonio Carlos Jobim já se destacava na noite carioca. Poucos anos depois, em 1958, o violão singular de João Gilberto se juntaria ao piano e aos arranjos de Tom para, juntos, reformularem a estrutura da música brasileira com a criação da Bossa Nova. O disco “Chega de Saudade” foi o abre-alas e, na contracapa, Tom elogiava João Gilberto: “Esse baiano Bossa Nova”.
Mas antes disso, o músico ainda trabalhou na Continental. Escrevendo música na partitura para os compositores que não sabiam colocar a melodia no papel. Essa, segundo a irmã Helena conta no livro, foi uma escola para Tom, que pode conhecer nos tempos da Continental compositores como Radamés Gnatalli (então o arranjador oficial da casa), Pixinguinha, Monsueto, Assis Valente, Ari Barroso, Jacob do Bandolim, Dorival Caymmi, Antonio Maria e muitos mais. Na Continental, Tom reencontrou Luiz Bonfá. Helena assegura na biografia que o irmão conhecera Bonfá como pescador anônimo nas pedras do Arpoador.
Entre muitas revelações, o livro trazia ainda o longo poema “Chapadão” escrito por Tom e que, segundo Helena, não deixava de ser seu auto-retrato: “(...) Quero a casa em lugar alto / Ventilado e soalheiro / quero da minha varanda / Contemplar o mundo inteiro / ... / Vou fazer a minha casa / No meio da confusão / Que o jereba se alevanta / No olhar do furacão / (...)”. Tom Jobim foi fascinado pelas palavras e obcecado pelas coisas do Rio de Janeiro e do Brasil. E lançou mão de todo esse sentimento e de todo o conhecimento e toda a identificação que tinha com a natureza para criar suas músicas.
Como irmã e amiga, Helena Jobim conviveu com Tom e essa trajetória compartilhada fez do livro “Antonio Carlos Jobim – Um Homem Iluminado” um relato emocionado e ao mesmo tempo afiado e afinado com a essência do grande compositor.

Um inusitado prefácio do amigo e parceiro Chico

O amigo e parceiro Chico Buarque de Holanda, um continuador da melhor tradição de compositores inspirados em Antonio Carlos Jobim, convidado para celebrar a memória de Tom no prefácio do livro de Helena Jobim, optou por vasculhar fitas gravadas domesticamente e transformou sua contribuição na biografia numa preciosidade: uma fita com registros inéditos, onde Tom e Chico, descontraídos, batem papo e o maestro, arranjador e compositor troca impressões musicais com o parceiro. E, o melhor, toca o piano e canta sem compromisso, mas esbanjando sensibilidade. A fita foi transformada em um CD, gravado pela Sony, e integrou o livro.
Helena Jobim também abriu os arquivos fotográficos da família e resgatou no livro fotos do irmão em inúmeras situações. Algumas inéditas, estas fotos revelavam a face iluminada do eterno Tom Jobim. A biografia ainda trazia depoimentos de amigos, familiares e músicos que compartilharam com Tom Jobim a vida e a música.
Tanto Tom quanto Helena tiveram no avô Azor Brasileiro de Almeida uma referência segura seja emocional seja criativa. Incentivador da leitura, o avô presenteou a neta com o primeiro dicionário e a primeira máquina de escrever. A sedução da palavra marcou definitivamente a trajetória dos irmãos Antonio Carlos Jobim e Helena Jobim. Em 1993, a escritora foi premiada com Destaque em Prosa, pelo conjunto de sua obra, pela União Brasileira de Escritores. Nessa biografia, de 1996, mostraria sua força narrativa ao revelar um pouco da alma musical de Antonio Carlos Jobim, cidadão brasileiro com um pé no mundo, mestre da Bossa Nova, essência musical do Brasil criativo.
E autor de clássicos como Wave (Vou te contar), Samba do avião, Amor em paz, Águas de março, Corcovado, Lígia, Luísa, Quebra-pedra (Stone Flower), Chega de saudade (c/ Vinícius de Moraes), Canção do amor demais (c/ Vinícius de Moraes), Garota de Ipanema (c/ Vinícius de Moraes), Ela é carioca (c/ Vinícius de Moraes), Insensatez (c/ Vinícius de Moraes), Eu sei que vou te amar (c/ Vinícius de Moraes), Se todos fossem iguais a você (c/ Vinícius de Moraes), O morro não tem vez (c/ Vinícius de Moraes), Só danço samba (c/ Vinícius de Moraes), Desafinado (c/ Newton Mendonça), Samba de Uma Nota Só (c/ Newton Mendonça), Dindi (c/ Aloysio de Oliveira), Inútil paisagem (c/ Aloysio de Oliveira), Anos dourados (c/ Chico Buarque), Eu te amo (c/ Chico Buarque), Retrato em branco e preto (c/ Chico Buarque), Matita perê (c/ Paulo César Pinheiro), para ficar só por aqui.
Ao celebrar os 20 anos da morte de Tom Jobim, em dezembro de 2014, foi inaugurada sua estátua em tamanho natural próximo ao Arpoador, na orla da praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, criada pela escultora Christina Motta. Baseada em uma antiga foto de Tom Jobim com o parceiro Vinicius de Moraes, a estátua de Tom foi um presente da Prefeitura à cidade do Rio de Janeiro e à memória do maestro soberano.
(*) Jorge Sanglard é Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais no Brasil e em Portugal
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29.10.16

Debate e lançamento de livro na USP, no dia 3 de novembro/ Assunto: Uma visão ampla da Estética Marxista

O evento duplo vai rolar no dia 3 de novembro (quinta-feira) a partir das 17.30 hs, na USP, mais especificamente na Sala 14 do Prédio de Filosofia e Ciências Sociais - FFLCH - USP/Av. Prof. Luciano Gualberto, 315, Butantã, São Paulo SP.
Nesse local, vai acontecer um debate cujo título-tema é "Estética Marxista: Bloch, Lukács, Brecht ou Adorno?". Ele vai reunir os professores Carlos Eduardo Jordão Machado, Arlenice Almeida da Silva, Jorge de Almeida e Tércio Redondo.
Em seguida, acontece o lançamento do livro "Um capítulo da história da modernidade estética" – 2ª edição", de Carlos Eduardo Jordão Machado (Editora Unesp) cuja capa publicamos abaixo.
No site da Editora da Unesp capturamos um resumo dessa obra de grande interesse para a compreensão da arte:
A obra reconstrói o debate sobre a vanguarda artística que mobilizou em momentos e em registros diferentes os principais pensadores marxistas de língua alemã no século XX, situando o pensamento estético de autores como Lukács, Bloch, Adorno, Eisler, Benjamin e Brecht. Nesta segunda edição, foram incorporados o capítulo "O 'debate sobre o expressionismo' como chave interpretativa da polêmica Adorno x Lukács", além de novas traduções de Lukács, como o inédito “Discurso proferido por ocasião do funeral de Bertolt Brecht” e o ensaio de Adorno “Reconciliação extorquida”.

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Lançamento do livro "A brasilidade modernista - sua dimensão filosófica", dia 8 de novembro na Livraria da Vinci


No dia 8 de novembro (terça-feira, a partir das 18,30 horas, será "relançado" no Rio de Janeiro a nova edição revista e atualizada de um livro fundamental, há bastante tempo esgotado: A brasilidade modernista - sua dimensão filosófica do professor Eduardo Jardim.
O evento vai rolar na Livraria Leonardo da Vinci, na Avenida Rio Branco, 185 (Subsolo)
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28.10.16

Palmeiras tirando onda

Do raso do baú: Vou tirar uma onda, antes que a situação mude, he he (Vale lembrar que aqui no Rio sou Botafogo, que graças ao seu elenco valoroso não caiu e "corre o seríssimo risco" de ir para a Libertadores) Viva o futebol brasileiro!
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26.10.16

Milton Nascimento....7.4 hoje 26/10/2016


Um cidadão de Juiz de Fora

Jorge Sanglard(*)


Com seu alegre e contundente canto de fé, esperança e sonho, Milton Nascimento (26/10/1942) se tornou um autêntico arauto da liberdade e, junto com outros companheiros de eterna travessia, teceu e entreteceu uma ponte para atravessar este verdadeiro oceano que é o Brasil. Ao mesmo tempo, Milton – como Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso – é o oceano atravessado e o barco que atravessa, e vai solidificando uma ponte sobre este mar. Essa feliz definição de Gilberto Gil sobre expoentes de sua geração sintetiza a essência musical de compositores que renovaram o panorama da MPB e permanecem atentos, como faróis. Afinal, Milton fez de seu canto um canal direto até onde o povo está, muitas vezes “com sabor de vidro e corte”, mas sempre semeando o sonho de liberdade e a esperança de ter fé na vida.
Para celebrar 50 anos de música, em 2012, o cantor e compositor escolheu para dar início às comemorações fazer um show “em casa”, no Cine-Theatro Central, em Juiz de Fora, num simbólico dia 21 de abril, quando Minas e o Brasil celebram o sonho libertário de Tiradentes e dos inconfidentes. E Juiz de Fora foi escolhida para essa celebração musical porque marca a vida e a trajetória de Bituca como poucas cidades deste vasto Brasil. E foi na Câmara Municipal de Juiz de Fora que o cantor e compositor teve reconhecido todo seu envolvimento com a cidade ao receber o título de Cidadão Honorário e a Medalha Nelson Silva, em 27 de novembro de 2009. Agradecido e emocionado, Milton sintetizou aquele momento: "Sou de Juiz de Fora desde que nasci". Ao ser homenageado, Bituca foi ovacionado de pé pelos juiz-foranos e reafirmou seu legado fecundo e viu confirmada a força de sua criação: sua música abre perspectivas para além de seu tempo. Sua obra é eterna.
A retribuição é por tudo que Milton fez pela MPB e por suas raízes encravadas na cidade mineira. Autor da proposta do título, quando vereador, Antônio Jorge Marques, ressaltou que a homenagem era uma retribuição da cidade a toda presença de Milton na vida de Juiz de Fora. Além dos fortes laços familiares, desde a década de 1970, Milton coleciona amizades em Juiz de Fora. Quando o médico e músico Márcio Itaboray lançou o livro "Assuntos de Vento", em 2001, com a presença de Bituca, esses laços foram revelados e, agora, com esta nova publicação sobre a trajetória e as amizades de Milton em Juiz de Fora, esses laços ficam consolidados definitivamente. Em maio de 2009, durante um show no Cine-Theatro Central, Milton afirmou com todas as letras: “Juiz de Fora é onde tenho mais amigos”. E seu parceiro de sempre, Fernando Brant, também não se cansa de bradar aos quatro ventos: “Em Juiz de Fora, eu sou de dentro”.
Na Manchester mineira, Milton também emprestou seu prestígio artístico para encabeçar lutas importantes pela preservação do patrimônio cultural. Foi de Bituca o slogan “Central, a emoção de todos nós”, que marcou as manifestações de amplos setores culturais pela preservação, pelo tombamento municipal e federal e pela aquisição pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) do histórico teatro no coração da cidade. Símbolo da vocação de vanguarda cultural da cidade, o Cine-Theatro Central corria risco e passou a ser o alvo preferencial de uma campanha por artistas plásticos, músicos, atores, diretores teatrais, escritores e jornalistas num movimento que foi vitorioso e mostrou vigor. À voz de Milton em defesa da preservação do Central, se juntaram Tom Jobim, Ney Matogrosso, João Bosco, Sueli Costa, MPB4, Affonso Romano de Sant’Anna, Carlos Bracher, Dnar Rocha, Jorge Arbach, Bibi Ferreira e Rodrigo Pederneiras do Grupo Corpo.
Durante o governo Itamar Franco, tendo à frente do Ministério da Educação (MEC), Murílio Hingel, o Central foi tombado pelo Iphan, adquirido pela UFJF e restaurado na administração municipal de Custódio Mattos. Palco de diversas apresentações antológicas de Milton, desde os tempos do grupo Som Imaginário, o Theatro Central viu ao longo de cinco décadas Bituca revelar uma das músicas mais instigantes e vigorosas das Minas Gerais e ganhar o mundo com seu canto afiado e afinado com seu tempo. Mais carioca dos mineiros, Milton sempre marcou presença no Central para mostrar seus novos trabalhos musicais e sentir a reação do público juiz-forano. Aqui, Bituca sempre se sente em casa. E Juiz de Fora sempre soube e sabe muito bem retribuir todo esse carinho e generosidade.
A partir de 1962, como crooner no Conjunto de Célio Balona, Milton abriu alas, aos 20 anos, para uma das mais bem sucedidas trajetórias musicais brasileiras. Ao lado de Hélvius Vilela, Gileno Tiso, Wagner Tiso, Paulo Horta, Nivaldo Ornelas, Pascoal Meireles, Nazário Cordeiro e muitos outros expoentes da música em Belo Horizonte, Bituca marcava presença e amadurecia na noite e nos bailes da vida. Daí para a frente, é história marcada pelo Holiday, pelo Evolussamba, pelo Som Imaginário, pela turma do Clube da Esquina e pela afirmação de Bituca como um dos maiores cantores de seu tempo.
Milton e seus parceiros, como Ronaldo Bastos, deixaram pistas sobre suas intenções: “Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia / beber o vinho e renascer na luz de todo dia / a fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada / o chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada / deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia”. Não é à toa que, em outra parceria com Ronaldo Bastos, Milton cantou: “Eu já estou com o pé na estrada / qualquer dia a gente se vê / sei que nada será como antes, amanhã”.
No palco do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, o jovem cantor, violonista e compositor Milton Nascimento, poucos dias antes de completar 25 anos, nos dias 19 e 21 de outubro de 1967, há quase 46 anos, não poderia sonhar que, a partir de suas três músicas no II Festival Internacional da Canção – “Travessia”, “Morro Velho” e “Maria, Minha Fé” –, trilharia uma autêntica travessia rumo a uma das mais significativas trajetórias na Música Popular Brasileira da segunda metade do século XX e do início do século XXI e que se projetaria como um mestre do canto.
Milton sempre entrou de coração em tudo, desde os tempos de contrabaixista nos bailes de Minas Gerais, passando pelos encontros musicais do Clube da Esquina, pela projeção a partir do segundo lugar no II FIC-1967, até consolidar uma trajetória vitoriosa na Música Popular Brasileira. O cantor e compositor nunca perguntou para onde ia esta estrada, se jogou por inteiro no caminho, seguindo “o brilho cego de paixão e fé, faca amolada”. O importante sempre foi “deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo / deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo / brilhar, brilhar, acontecer, brilhar, faca amolada / irmão, irmã, irmã, irmão de fé, faca amolada”, como em “Nada será como antes”, parceria com Ronaldo Bastos.
Milton nasceu às seis horas da tarde, a “Hora do Angelus”, do dia 26 de outubro de 1942, filho de Maria do Carmo do Nascimento, cozinheira por profissão, que deixou o bairro Dom Bosco, em Juiz de Fora, Minas Gerais, para trabalhar no Rio de Janeiro. Neste ano de 2013, ele completa 71 anos. A “Hora do Angelus” relembra para os católicos o momento da anunciação, feita pelo anjo Gabriel a Maria, da concepção de Jesus Cristo, como livre do pecado original. O seu nome deriva da frase: “Angelus Domini nuntiavit Mariæ”.
Bituca – apelido dado pela mãe adotiva Lília Silva Campos –, como era conhecido na família e entre os amigos, depois do segundo lugar na classificação geral e da premiação como melhor intérprete do II FIC-1967, inscreveria o nome Milton Nascimento no primeiro time de compositores e cantores que renovariam a MPB. Os festivais injetavam sangue novo no universo cultural brasileiro e a música ainda era uma das poucas manifestações de expressão popular no Brasil dos primeiros anos da ditadura militar.
Em entrevista exclusiva, publicada pela Tribuna de Minas, em Juiz de Fora em outubro de 1987, marcando os 20 anos da premiação de “Travessia”, durante o lançamento do disco “Yauaretê”, Milton confessaria: “Desde criança, eu sabia que ia mexer com a música. Nunca me enganei, nem minha família, nem nada. Todo mundo já sabia que era música mesmo. Apesar de morar em Três Pontas, que naquela época era longe, a estrada era de terra, sabia que ia sair e ia procurar...Se ia vencer, só Deus sabia, mas eu ia tentar. Acontece que a música caminha comigo como a minha alma. Por isso e pelo fato de cada canção refletir um momento meu, chega nas pessoas com a mesma intensidade que estou querendo botar pra fora, e aí não tem barreira de língua, não tem barreira de chão, não tem nada, em qualquer parte”.
Para ilustrar essa entrevista, o artista plástico Jorge Arbach criou com exclusividade uma imagem de forte impacto. Inseriu recortes dos olhos, do nariz e da boca de Milton num desenho de uma onça negra, um Yauaretê. A capa do referido disco trazia a foto de um Yauaretê e inspirou Arbach em sua criação. O resultado final da obra de arte é um desenho intenso e instigante.
O sucesso de “Travessia”, parceria entre Milton Nascimento e Fernando Brant, no II FIC-1967, projetou Milton como um cometa. Mas a criatividade e a qualidade musical do novo talento transcenderam os limites da passagem de um cometa e o transformaram num feixe de luz permanente a apontar caminhos na Música Popular Brasileira. O próprio Milton já afirmou: “Isso está nas mãos do que se quiser chamar, pode ser Deus, pode ser destino, pode ser o que for”.
Amigo de sempre e parceiro, Márcio Borges, em depoimento exclusivo, descreve a emoção que tomou conta da apresentação de “Travessia”: “De tarde nós saímos do hotel, todos no mesmo ônibus, rumo ao Maracanãzinho. Eu ia sentado ao lado de Toninho Horta, com quem havia classificado a dolorosa canção ‘Correntes’. Mas no ônibus só se falava no Bituca, o cara que havia classificado três canções, uma delas considerada a favorita para ganhar o festival. Senti uma emoção muito grande quando o ônibus ultrapassou os portões que davam direto no fundo do enorme palco. Parecia dia de futebol. As filas já davam volta no estádio e ainda nem era de noite. O ensaio geral foi impressionante. Astros e estrelas da música nacional e internacional circulavam em áreas restritas – e eu lá! Quando caiu a noite, vi o estádio encher-se de gente. Vi as arquibancadas se colorirem de todas as cores e matizes, cabelos, cartazes e bandeiras. Vi chegar a hora de ‘Travessia’. A favorita de todos. Bituca colocou o Maracanãzinho de pé e foi classificado. ‘Correntes’ ficou de fora. Fomos torcer pelo Bituca e pelo Fernando, que surpreendentemente, e contra todas as emoções presentes, inclusive a do vencedor Guarabyra, conseguiram apenas um segundo lugar. Na reapresentação da música, vencedora moral e imortal, o apresentador Hilton Gomes chamou os nomes de Milton Nascimento e Fernando Brant e eles saíram de perto de nós para voltarem ao palco. Eu e Gonzaguinha corremos atrás deles e nos sentamos no limite extremo entre a coxia e o palco, bem aos pés dos nossos amigos. Sei que quando vimos e ouvimos o Maracanãzinho cantar com os dois e soltar a voz nas estradas, não conseguimos conter a emoção. Eu e Gonzaguinha nos abraçamos e deixamos nossas lágrimas correrem soltas, molhando os ombros um do outro. Quarenta anos se passaram desde aquela noite. Mas aquelas lágrimas serão para sempre”.


Trajetória de sucesso


A trajetória do cantor e compositor mineiro mais carioca que existe – Milton nasceu no Rio de Janeiro, veio morar com a avó no bairro Dom Bosco, em Juiz de Fora e foi criado em Três Pontas – foi contada em detalhes na biografia “Travessia – A vida de Milton Nascimento” (Record), da jornalista mineira Maria Dolores, nascida em Belo Horizonte e criada também em Três Pontas. O livro, que está na segunda edição, é um mergulho na vida e na música de Milton e revela aqui e ali detalhes da consolidação do mestre do Clube da Esquina como um ícone da MPB.
Em depoimento exclusivo, Maria Dolores fala do livro, para dizer sobre Milton: “Essa biografia começou como projeto de conclusão do meu curso de Comunicação Social - Jornalismo, na Universidade Federal de Minas Gerais, em 2003. Eu queria fazer um livro reportagem de algo relacionado a Três Pontas, cidade onde cresci. Entre os temas mais interessantes – a cafeicultura, o Padre Victor (um padre negro milagreiro) e o Milton Nascimento – preferi fazer sobre o Milton. A idéia era contar a vida dele na cidade. Aproveitei um dia que ele estava em Três Pontas, criei coragem, e fui atrás dele. Disse que ia fazer o trabalho e pedi uma entrevista. Ele aceitou fazer. Uns quatro meses depois fui fazer a entrevista e aí eu já tinha realizado uma pesquisa sobre ele, e descoberto que não havia quase nenhum material biográfico do Milton, a não ser essas biografias resumidas de sites, revistas, etc.. O que tinha de mais completo era o livro do Márcio Borges, ‘Os sonhos não envelhecem – histórias do Clube da Esquina’, que é ótimo e tem o Milton como personagem principal, mas aborda só um período da vida dele, até bem extenso, e fala também dos outros personagens do Clube da Esquina. Resolvi então escrever uma biografia do Milton, a primeira, ainda mais ao descobrir o quanto a vida dele era incrível, como um romance”. O livro abrange o período que vai de 1939, antes mesmo de Milton nascer, até 2005.
Desde a primeira parceria com Fernando Brant, “Travessia”, Milton abriu alas para uma geração de grandes músicos e compositores mineiros e nunca transigiu sua arte, nunca aceitou os apelos fáceis da massificação. Na entrevista citada, Milton declarou incisivo: “A massificação vai bitolando a cabeça das pessoas e bitola a música popular brasileira também”. Assim, o cantor e compositor sempre procurou a qualidade musical, sabedor de que escolhera um caminho mais difícil, porém, passadas quatro décadas de seu batismo de fogo com a interpretação de “Travessia”, fica a certeza de que a criatividade e a qualidade resistem a tudo.
Fernando Brant, em depoimento exclusivo, afirmou que “a música de Milton Nascimento não se explica, ouve-se. Desde que o conheci, e à sua música, o Bituca é um repertório de surpresas interminável. Até hoje, quando ele me mostra algo que acabou de compor, sua genialidade não dá descanso. Ele me surpreende agora como me surpreendia 30 anos atrás. A melodia, o ritmo, a harmonia, ele sintetiza o mundo em suas músicas. Devo a ele não só o fato de encontrar uma profissão que me sustenta e dá prazer, como a oportunidade de colocar minhas palavras e minhas idéias em canções belas e diferentes. E, ainda por cima, ele as canta. Ele é fonte inesgotável da música popular brasileira, um gênio”.
Outro artista plástico que retratou Milton Nascimento com rara sensibilidade é Eliardo França. Um dos mais importantes ilustradores brasileiros da literatura infantil e infanto-juvenil, Eliardo também se consolidou como pintor e utilizou da técnica mista para criar o rosto de Bituca sobreposto à imagem de uma igreja barroca mineira. A fusão das imagens marca bem a essência das coisas mineiras no universo do cantor e compositor. Esta ilustração foi publicada com exclusividade em matéria sobre Milton em Portugal e depois ganhou uma versão digital para texto editado no Portal Cronópios, em São Paulo.


O artista é o arauto da liberdade


Na referida entrevista exclusiva publicada em Juiz de Fora, Milton adverte que criaram um tipo de música, um tipo de som, que virou tudo a mesma coisa e, num mercado fechado, a renovação de artistas é mais difícil, porque as grandes gravadoras determinam a política para a área musical, só investindo naquilo que elas acreditam que dá retorno. E revela: “Eu apareci numa época em que todo mundo estava brotando, com mil experiências diferentes, não tinha um som pasteurizado. Nos últimos tempos é mais difícil a pessoa nova ser ouvida, mas não impossível”. Já em 1987, Milton advertia na mesma entrevista publicada na Tribuna de Minas: “É terrível ver um país como esse, onde o músico se forma por esforço próprio, porque não tem escola, nem nada. O Brasil é um desamparo total, e com tantos músicos fantásticos tendo que tocar qualquer coisa, sem poder desenvolver seu próprio trabalho musical, é muito triste. E olhe que o país é rico, é tão grande, com tanta diversidade e o povo é muito musical. Mas prefiro não perder a esperança, porque o dia em que eu perder a esperança, paro de cantar, minha vida acaba”.
Para Milton, o Brasil é um país onde a mistura é tão forte que todas as influências que vierem nas coisas feitas honestamente virão para acrescentar, mas nunca para esmagar a cultura brasileira: “medo de influência esmagar eu não tenho nenhum não”. E arremata: “O lance da arte é a liberdade, o artista é o arauto da liberdade”.
Nélson Ângelo, parceiro dos primeiros tempos, em depoimento exclusivo comenta: “Meu primeiro contato com Milton Nascimento, meu amigo Bituca, deu-se no ano de 1964, em Belo Horizonte, logo após um show do grupo Opinião, realizado no Teatro Francisco Nunes. Desde então construímos uma sólida amizade que dura até hoje, pautada em muito respeito, atenção e paixão pela música. Sempre fomos parceiros em diferentes formas: como amigos, na vida, em trabalhos. Antes mesmo de ‘Travessia’, já curtíamos e nos admirávamos. Nesta época compus ‘Fim de caminho’, ‘Canto triste’ (anterior a do Edu e Vinícius; claro que mudei o título da minha!) e o Bituca tocava pra mim ‘Crença’ e ‘Terra’, parcerias dele com o Márcio Borges. No mesmo período, compus com o Valdimir Diniz a música ‘Ciclo do Ouro’, que foi muito elogiada pelo Milton. Ele foi um grande incentivador do meu trabalho. Mais tarde um pouco, ele e o Márcio fizeram uma que foi dedicada a mim (pelo menos foi o que me contaram), chamada ‘Irmão de fé’”.
Ainda segundo, Nélson Ângelo, “quando o Bituca conheceu o Fernando Brant, foram logo estreando com ‘Travessia’, e muitas outras que surgiram e marcaram seu lugar na história. Mais tarde, eu e ele fizemos ‘Sacramento’ e ‘Testamento’, ambas músicas minhas e letras do Milton. Mais tarde ainda, o samba enredo ‘Reis e Rainhas do Maracatu’, com mais dois parceiros: o Novelli e o Fran”. Portanto, assegura Nélson Ângelo, “minha opinião sobre o Milton e parcerias é abrangente da mesma forma como foi consolidada nossa amizade. Sou suspeito sobre todas as instâncias e circunstâncias. Ainda bem que a admiração e a boa impressão são compartilhadas com tantas pessoas mundo afora que conhecem o assunto”.
Travessia” é a primeira letra da vida de Fernando Brant, escrita sob pressão, jogada, num papel dobrado, na mesa da padaria São José, em Belo Horizonte. O nome da música foi inspirado no livro “Grande Sertão: Veredas”, do escritor mineiro Guimarães Rosa, que tinha como última palavra da obra o termo “Travessia”. O próprio Milton explicaria a escolha: “O importante não é a saída, nem a chegada, mas a travessia”.
A segunda letra de Brant foi “Outubro”, e o parceiro teria dito anteriormente a Milton: “Agora que você me pôs nessa, trata de compor outra música para eu colocar uma letra logo, senão estou perdido!”. O assédio da imprensa, logo após as apresentações no II FIC-1967, mexia com os dois tímidos compositores mineiros. O cantor, compositor e violonista Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura no Brasil, disse certa vez que a timidez de Milton não é uma timidez pura, mas um ato de observação: “Ele é como essas pedras enormes da Gávea, quietas, silenciosas...observa tudo ao seu redor, fala com o olhar e, quando usa palavras, diz a coisa certa no momento certo”.
Caetano Veloso também fez revelações sobre Milton: “Ele é uma força profunda da expressão cultural brasileira, com raízes muito fortes na nossa história e com um talento na área da genialidade, uma coisa meio espiritual, e se há algo que a gente possa chamar de espiritual é exatamente isso, é quando alguém está ligado a tantas coisas tão importantes por fatores casuais, tantas vezes. Isso para mim é o caso de Milton, é o caso mais radical desse acontecimento no Brasil”.
Só mesmo Milton Nascimento para tornar permanente toda a emoção de coisas tão simples e fundamentais como as brincadeiras de crianças, a cumplicidade entre amigos de verdade, a pulsação de um povo na luta pela liberdade, a dor do amor e do desamor, tudo isso com “o coração aberto em vento, por toda eternidade, com o coração doendo de tanta felicidade”.
No livro, “Os sonhos não envelhecem – histórias do Clube da Esquina” (Geração Editorial), escrito por Márcio Borges, o parceiro e amigo mergulha na essência das vivências desde os tempos em que se conheceram no Edifício Levy, em Belo Horizonte, até a gravação do disco “Angelus”, em 1993. Este disco foi concebido por Milton para simbolizar sua trajetória de vida e seu compromisso com a música.


Milton e Bracher, a comunhão da criação


Um dos momentos mágicos vivenciados por Milton Nascimento, em Juiz de Fora, simbolicamente num dia dedicado à consciência negra, em 20 de novembro de 1999, foi quando o pintor mineiro Carlos Bracher, mergulhado nas cores e ao som das canções do Clube da Esquina e da Nona Sinfonia de Beethoven (1770 – 1827), pintou em óleo sobre tela, durante cerca de 1h30, o retrato do cantor e compositor, antecedendo uma apresentação no baile-show intitulado “Crooner”. Pela primeira vez, Bracher – um dos grandes pintores brasileiros – retratava um artista negro e foi buscar inspiração no erê que dá vivacidade a Milton Nascimento.
Ao expressar o menino que impregna a alma de Milton de alegria e de generosidade, o pintor mineiro celebrava a eterna juventude do autor de “Travessia” (em parceria com Fernando Brant). E Milton estabeleceu com Bracher uma relação de intensidade imensurável. Simplicidade e criatividade de mãos dadas e corações abertos, estabelecendo um elo de cumplicidade e possibilitando um encontro de almas capazes de irradiar harmonia, onde cada um a seu modo criou as condições para estabelecer a alquimia das cores e dos sons. O artista da voz e o artista das cores unidos na comunhão da criação.
Ao reconhecer-se como um erê (como os meninos da capa do antológico disco “Clube da Esquina”, de 1972), Milton posou para o retrato de Bracher deixando fluir todo o sentimento de eternidade que sua música passa e que sua travessia revela, trilhando o caminho da criatividade e do compromisso com a cidadania cultural e com a vida. Como o romancista Guimarães Rosa e o poeta Carlos Drummond de Andrade, Milton Nascimento encarna em sua obra musical a essência de Minas Gerais, a alma brasileira e a universalidade artística dos grandes criadores. Como um mago das cores, Bracher tão- somente revelou essa magia num retrato com a força da emoção de Milton.
No verso do óleo sobre tela, o pintor escreveu: “Meu caro Milton, que assim seja, que este Deus da vida e da arte nos possa abençoar. Obrigado Milton, por essa força contida na sua vasta voz”. Entre a timidez e a felicidade estampada, o cantor, depois de trocar um forte abraço com o pintor, confidenciou ao jornalista, que acompanhou tudo, a satisfação de ter vivenciado aquele momento de intensa troca de energia e de revelação de sua alma de eterno menino nas cores densas e inspiradas de Bracher.
O retrato está na sala da casa de Milton no Rio de Janeiro.
(*)Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e produtor cultural. Escreve em jornais de Portugal e do Brasil







18.10.16

Concurso de Caricaturas do Chico Buarque

Vou botar no ar o "release" para dar uma ideia do Concurso. (Clique na imagem para ampliar e VER melhor) Inscreva seu material pelo site - link:
http://www.quemteviuquemteve.net.br/


CHICO BUARQUE é tema de concurso nacional de caricaturas


Estão abertas as inscrições para o concurso nacional de caricaturas “Quem te viu quem te vê”, que tem como tema o compositor Chico Buarque de Hollanda.

Promovida pelo Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB) e com curadoria do desenhista e agitador cultural Zé Roberto Graúna, a iniciativa vai selecionar 40 trabalhos autorais para fazer parte de um catálogo e também circular em exposição. E mais, as três melhores artes receberão prêmios em dinheiro. A inscrição é gratuita e deve ser feita pela internet.

Os desenhos serão avaliados por um corpo de jurados formado pelo desenhista profissional Cássio Loredano, pelo jornalista-ilustrador Bruno Liberati e pelo ilustrador e publicitário Eduardo Baptistão.

Os interessados, amadores ou profissionais, de todas as idades, devem acessar o site www.quemteviuquemteve.net.br e preencher a ficha de inscrição com nome completo, número de CPF, Estado onde reside, telefone e e-mail para contato. Após preenchimento dos campos, o proponente deverá anexar a caricatura e clicar em “Enviar”. Os trabalhos tem que estar na proporção do formato A3 (29,7 cm x 42 cm), nas extensões JPEG ou PDF, com resolução mínima de 150 DPI e com limite máximo de 2MB. A técnica gráfica é livre. As inscrições podem ser realizadas até o dia 13 de novembro de 2016.

Parte das comemorações dos 10 anos do IMMuB, o concurso, o segundo idealizado pela instituição, promete repetir o sucesso do anterior - “Noel é 100” – se consagrando como uma interessante forma de celebrar a música brasileira, com trabalhos autênticos e criativos.

De acordo com o diretor-presidente do IMMuB, João Carlos Carino, o projeto usa a linguagem da caricatura como uma inovadora alternativa para promover e registrar a memória musical do país.

Sobre Chico Buarque...
Conhecido por sua influência poética, melódica e harmônica, Chico Buarque nasceu no Rio de Janeiro, em 1944, e vem, desde então, construindo sua história com profunda paixão pela música, política e futebol. Filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e da pianista Maria Amélia Cesário Alvim, Chico cresceu rodeado por livros e manifestações artísticas.

Desde a década de 1960, Chico é conhecido como uma das personalidades mais importantes da música no país, tendo conquistado prêmios em festivais como da Música Popular Brasileira (1966), com sua composição “A banda”, interpretada pela cantora Nara Leão; assim como no III Festival Internacional da Canção (1968), com a música “Sabiá”, escrita em parceria com o maestro e compositor Tom Jobim.

Ao longo da carreira, fez parcerias com compositores e intérpretes de grande destaque, entre eles, Vinicius de Morais, Tom Jobim, Toquinho, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Edu Lobo e Francis Hime. A discografia do artista conta com mais de 30 discos e cerca de 400 canções autorais.

O IMMuB...
Organização não governamental sem fins lucrativos com sede em Niterói-RJ, tem como objetivo documentar, catalogar e divulgar o acervo musical brasileiro, passado e presente, através da manutenção e atualização de um banco de dados virtual. O resultado é o maior arquivo online de informações, sons e imagens da discografia brasileira, disponível na internet para consultas gratuitas.

Com 10 anos de estrada, a entidade já mapeou e catalogou mais de 81 mil discos produzidos no país. Isto equivale a aproximadamente 500 mil fonogramas, reunindo cerca de 90 mil compositores e intérpretes. O trabalho abrange toda a história da música brasileira, desde a primeira gravação, em 1902, até os lançamentos mais recentes.

O Instituto atua também como produtora cultural e já realizou diversos projetos como shows, produção de livros, ciclos de pensamento, CDs e DVDs, além de eventos de grande porte como “3o Salão da Leitura de Niterói” e o “Niterói – Encontro com América do Sul”. O IMMuB promove, ainda, atividades voltadas para educação musical, bem como a formação de grupos, bandas e orquestras. Saiba mais em www.immub.org.br.



13.10.16

Caricatura de Dario Fo

Dario Fo, autor entre outras obras de "Morte acidental de um anarquista" faleceu hoje.
Ele também recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1997.
Meu querido amigo Julio Lubetkin, que vive na Itália, publicou uma homenagem ao genial dramaturgo italiano utilizando uma caricatura que fiz dele.
Quero agradecer aqui de coração ao Julio, pois faz algumas horas que estou procurando em vão essa caricatura na bagunça da minha mapoteca. Ainda bem que cedi uma cópia a você. Viva Dario Fo!!!
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

Caricaturas de Bob Dylan - agora Prêmio Nobel de Literatura

Do fundo do baú e da boca do forno: dois momentos de Bob Dylan, que acaba de ganhar o Nobel de Literatura.
Polêmicas à parte , as letras do bardo americano são geniais.
A primeira caricatura que aparece aqui (colorida), faz parte de um conjunto maior que foi capa da revista Programa do old JB , na época em que Bob Dylan se apresentou com os Rolling Stones aqui no Rio. A segunda (apresenta Bob Dylan quando jovem) é uma ilustração do livro (lançado faz pouco tempo) "Diários da Patinete - sem um pé em Nova Iorque", da escritora Lidia Santos.
Em "All Along The Watchtower" ele diz:
"There must be some way out of here," said the joker to the thief,
"There's too much confusion, I can't get no relief.
Businessmen, they drink my wine, plowmen dig my earth,
None of them along the line know what any of it is worth...
"
Nada mais atual, he he

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12.10.16

Caricatura de Cartola


Do fundo do baú: (reformulada) caricatura de Cartola. Viva ele!!!
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8.10.16

Grande Sertão/ Estudo

Estudo em ecoline e aquarela para série "Grande Sertão". Não sei se vai evoluir para tela ou se vai ficar na fase de desenho. Esta arte foi feita em homenagem ao traço de Aldemir Martins.
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6.10.16

Caricatura de Ulysses Guimarães/ 100º aniversário dele

Do fundo do baú: Charge que fiz tendo Ulysses Guimarães como objeto. Foi publicada, creio, no dia 25/01/1988 no old JB (na verdade não sei se foi no mês de janeiro (01) ou julho (07), pois a letra do diagramador não estava muito clara nesse ponto da data).
Hoje se comemora o 100º aniversário desse grande político, que ao que parece, na data em que fiz esta charge, ele, como bom cacique, estava passando por dificuldades na tribo e na relação com a oposição.
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28.9.16

Miles Davis – 90 anos Nem o céu é o limite



Por Jorge Sanglard*




Se não tivesse se encantado em 28 de setembro de 1991, há duas décadas e meia, Miles Davis teria completado 90 anos no dia 26 de maio de 2016. Miles Davis (26/05/1926 – 28/09/1991) viveu buscando coisas novas pra tocar, novos desafios para suas ideias musicais e encarnou, como poucos, a história da música afro-americana improvisada. Sua trajetória é parte integrante e fundamental na evolução da linguagem jazzística ao longo do século XX e sua contribuição musical criou aberturas para além de seu tempo. Durante quatro décadas e meia, Miles Davis contribuiu decisivamente para reformular as noções de harmonia e ritmo, nunca se atendo a rótulos. Por tudo isso, sua música não é fácil de ser codificada ou classificada e isso até foi motivo para irritá-lo: “Sempre achei que a música não tem fronteiras, limites ao seu crescimento, não tem nenhuma restrição à sua criatividade. A boa música é boa, independente do que seja. E sempre detestei categorias. Sempre. Nunca achei que isso tivesse lugar na música... Sempre quis apenas soprar minha corneta e criar música e arte, comunicar o que eu sentia por meio da música... Quando a gente cria sua própria arte, nem o céu é o limite”. Miles viveu pensando na criação e revelou: “A música é uma bênção e uma praga. Mas eu a amo, não queria que fosse de outra forma. A música sempre foi uma praga pra mim porque sempre me senti compelido a tocá-la. Sempre foi a primeira coisa em minha vida. Vem antes de tudo”.
A influência de Miles Davis como inovador e visionário foi decisiva na consolidação do jazz a partir da segunda metade do século XX, seja no cool, seja no pós bop, seja no modal, ou ainda na fusion e pode ser sentida até no break, no hip-hop e no rap. Mas o certo é que a matriz negra, o blues, sempre esteve presente em sua vida e também é certo que o jazz é uma linguagem musical cuja vitalidade está na essência da transformação. E aí, o que conta é a sensibilidade do criador e do improvisador, terreno onde Miles Davis sempre foi mestre, ou mais que isso, gênio.
O espírito do jazz de Miles Davis está impregnado de blues e sua linguagem musical inovadora, a partir de frases inspiradas no blues, construiu uma sonoridade própria e transformadora. Para o trompetista, “a maneira de criar e transformar a música é tentar sempre inventar maneiras de tocar”. Afinal, “o mundo sempre foi mudança”, admitia. Portanto, o instrumentista incorporou ao som cortante e ao lirismo, ou à delicadeza, de seu trompete – base de sua concepção rítmica e harmônica – avanços rumo a novos caminhos, elaborando uma música para ouvir e para sentir. Sempre fiel à sua marca fundamental: “Eu toco simplesmente o necessário, nada além; apenas o essencial”.
Miles Davis deixou claro em sua trajetória que o silêncio é tão importante quanto o som. Com seus solos fragmentários – onde a tensão ronda cada fraseado – com as linhas melódicas sendo estendidas ao limite e sempre cercado de grandes instrumentistas, sustentando o clima denso e envolvente de sua música, o trompetista foi um dos criadores mais influentes do século XX. Em sua autobiografia, lançada no Brasil pela Editora Campus, em meados de 1991, três meses antes de sua morte, Miles revelaria: “pra eu tocar uma nota, ela tem de soar bem pra mim. Sempre fui assim. E a nota tem de estar no mesmo registro do acorde em que a toquei antes, pelo menos era assim. No bebop, todo mundo tocava muito rápido. Mas eu jamais gostei de tocar um monte de escalas e essa merda toda. Sempre tentei tocar as notas mais importantes do acorde, decompô-lo. Eu ouvia os músicos tocando todas aquelas escalas e nunca nada que a gente pudesse lembrar”.
De 1945 – como integrante do quinteto de Charlie ‘Bird’ Parker – a 1991, Miles Davis construiu uma sólida carreira musical e fonográfica, interrompida entre 1975 e 1981 para recuperação de um grave acidente automobilístico que o deixou com os dois tornozelos quebrados. Em três décadas, entre 1955 a 1985, Miles consolidou sua trajetória, mantendo a essência inovadora do jazz e articulando novas explorações sonoras. Ousado, inventivo e genial, Miles Davis desafiou o tempo com sua música impregnada de força e de criatividade. Miles encarnou parte da história do jazz e da música negra norte-americana e seu legado é parte integrante da evolução da própria música criativa da segunda metade do século XX.
O próprio Miles admitia: “Tive vários períodos criativos realmente férteis em minha vida. O primeiro foi de 1945 a 1949, o início. Depois quando deixei as drogas, 1954 a1960 foi um tempo musicalmente fértil... E 1964 a 1968 não foi tão ruim assim, mas eu diria que me alimentava muito das ideias musicais de Tony, Wayne e Herbie. O mesmo aconteceu quando fiz ‘Bitches Brew’ e ‘Live-Evil’, porque foi uma combinação de pessoas e coisas – Joe Zawinul, Paul Buckmaster e outros – e tudo que fiz foi reunir todos e compor umas poucas coisas”.
Em sua autobiografia, Miles afirmaria: “Sendo um rebelde negro e inconformista, sendo frio, elegante, irado, sofisticado e ultra limpo, como queiram chamar – eu era tudo isso e mais. Mas tocava o fino em meu trompete, e tinha um grande conjunto. Por isso, não consegui reconhecimento apenas pela imagem de rebelde. Tocava trompete e liderava o conjunto mais quente da praça, um conjunto criativo, imaginativo, super integrado e artístico. E isso, para mim, foi o motivo de conquistarmos o reconhecimento”.



Santíssima trindade do bebop



Dizzy Gillespie, Miles Davis e Charlie ‘Bird’ Parker encarnaram o Pai, o Filho e o Espírito Santo no bebop, uma verdadeira revolução que lançou as bases do jazz moderno. A linguagem do jazz, a partir do bebop, entre 1944 e 1949, foi alterada radicalmente seja melódica, seja rítmica e harmonicamente, determinando uma ruptura com o tradicional. O jazz, com o bebop, passou a ser arte e não mero divertimento. Ao contrário do swing, o bebop não servia para dançar, daí sua pouca penetração popular, e mesmo músicos em ascensão, como Bird, Dizzy e Miles, eram atingidos pelo preconceito contra a música negra.
Para Miles, o bebop foi mudança, foi revolução: “Se alguém quer seguir criando, tem de ser com mudança. Viver é uma aventura e um desafio”. Aos 18 anos, o jovem trompetista negro Miles Dewey Davis III, nascido em 26 de maio de 1926, em Alton, Illinois, pequena cidade ribeirinha do rio Mississipi, a cerca de 40 quilômetros ao norte de East St. Louis, encarou o desafio da música e chegou a Nova York, em setembro de 1944, “ainda verde em algumas coisas, como mulheres e drogas”, mas confiante em sua capacidade de tocar trompete.
O verdadeiro motivo da ida do músico para a Big Apple ou Grande Maçã era procurar Bird e Dizzy, que sacudiam o cenário do jazz com um novo caminho, a partir de seus improvisos sobre temas pré estabelecidos, articulando novas melodias e impulsionando a mudança da concepção rítmica, base da consolidação do jazz moderno. Assim, Miles foi para Nova York “para sugar tudo que pudesse” de lugares como a Minton’s Playhouse, no Harlem, e muitos outros na rua 52, que todo o mundo da música chamava de “A Rua”. O estudo na escola Juilliard era apenas uma cortina de fumaça, uma escala, uma desculpa que Miles usara para ir para perto de seus ídolos musicais. E Miles deixou claro isso em sua autobiografia: “Ouça. A maior sensação de minha vida – vestido – foi quando ouvi pela primeira vez Diz e Bird juntos em St. Louis, no Missouri, em 1944. Eu tinha 18 anos, e acabara de me formar no Ginásio Lincoln, que ficava bem em frente, do outro lado do rio Mississipi, em East St. Louis, Illinois”.
“Bird pode ter sido o espírito do bebop, mas Dizzy era ‘a cabeça e as mãos’, aquele que congregava tudo”, disse Miles Davis, que se tornaria a mais nova personagem da Santíssima Trindade do bebop. Estas e muitas outras revelações do mundo e do submundo do jazz estão nas 382 páginas de “Miles Davis – A Autobiografia”, um livro que provocou impacto devastador quando foi editado nos Estados Unidos no final de 1989 e que, no Brasil, ganhou tradução de Marcos Santarrita, em meados de 1991.
Numa linguagem direta e certeira, como a pegada de um boxeur peso pesado, o livro foi fruto da colaboração entre o trompetista e o jornalista, poeta e professor Quincy Troupe. Contundente e corrosivo, Miles traçou um painel multifacetado do universo jazzístico de 1944 a 1989, permeando cada passagem com uma riqueza de detalhes só possível a quem vivenciou e/ou mergulhou fundo no prazer e na dor que envolviam e vão continuar envolvendo a música.



Negro como a meia-noite



Sobrevivente de uma geração de expoentes do jazz que acreditava na afirmação de Charlie ‘Bird’ Parker, em 1953, “A música nunca irá parar. Continuará sempre caminhando para a frente”, Miles deixou claro: “Música não tem época; música é música”. Negro como a meia-noite, Miles Davis criou uma música impregnada da essência cultural afro-americana expressa pelo jazz e alinhavada com a matriz negra, o blues.
O ano de 1954 seria musicalmente muito importante para o trompetista, embora ele mesmo não compreendesse o quanto na época, segundo revelação em sua autobiografia. O disco “Birth of the Cool” foi um marco e lançou um feixe de luz sobre os novos caminhos trilhados por Miles e o arranjador Gil Evans. Esse disco tomara, segundo Miles, de algum modo, outra direção, mas viera basicamente do que Duke Ellington e Billy Strayhorn já haviam feito; apenas tornara a música “mais branca”, pra que os brancos a digerissem melhor.
Em 1955, Miles Davis deixaria a Prestige, onde tinha gravado discos fundamentais para consolidar a base de sua música, tendo Bob Weinstock como produtor, e passaria a gravar para a Columbia, inicialmente com o produtor George Avakian. O grupo formado por Miles e tendo Coltrane como uma referência tornou o trompetista e Trane lendários: “Esse grupo realmente me pôs no mapa do mundo musical, com todos os grandes discos que fizemos pra Prestige e, depois, pra Columbia Records”. O primeiro LP do trompetista gravado na Columbia foi “Round’ About Midnight”, ao lado de John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones, em sessões realizadas estúdio D, em Nova Iorque, em 26 de outubro de 1955, e no estúdio da Rua 30, em junho e setembro de 1956. De cara, Miles emplacaria um clássico na nova casa. E ele sintetizaria: “A Columbia representou pra mim uma abertura pela qual minha música podia passar pra chegar a mais ouvintes, e eu passei por essa porta quando ela se abriu e jamais olhei pra trás”.
Em maio de 1957, voltaria ao estúdio com Gil Evans para gravar “Miles Ahead” e diria: “Foi uma grande experiência voltar a trabalhar com Gil. A gente se via de vez em quando, depois de fazermos ‘Birth of the Cool’. Depois disso, falamos em nos reunir em outro disco, o que resultou na ideia da música de ‘Miles Ahead’. Como sempre, adorei trabalhar com Gil, porque ele era muito meticuloso e criativo, e eu confiava plenamente em seus arranjos musicais. Sempre formamos uma grande dupla musical, e realmente compreendi isso quando fizemos ‘Miles Ahead’”. Em fins de 1959, o trompetista iniciou também com o arranjador Gil Evans o disco “Sketches of Spain”, outra maratona sonora repleta de descobertas e plena de sentimento.
Durante três décadas, a trajetória de Miles Davis na Columbia, atual Sony, impulsionou o jazz para novos caminhos. Ali permaneceu até 1985-86 quando migrou para a Warner e abriu novas perspectivas em sua música.
Para marcar essa colaboração Miles-Columbia, no final de 2010, o selo Legacy, que cuida das reedições da Sony Music, lançou um banquete completo para os admiradores da música de Miles Davis: uma caixa contendo a coleção integral dos álbuns do trompetista, disponível na Amazon, ou na Columbia-Legacy. São nada mais nada menos que 70 CDs, um ensaio escrito por Frederic Goaty, anotações de Franck Bergerot sobre cada disco e um DVD, além de fotos raras. Um mergulho profundo na alma do jazz de Miles.
As ideias criativas nunca se esgotaram em Miles Davis, que afirmaria: “elas me saltavam da cabeça”. E arrematava: “Me dizem que meu som parece uma voz humana, e é isso que quero que seja”. Para Miles Davis, música e vida são estilo. E advertia: “É preciso ter estilo no que quer que se faça – literatura, música, pintura, moda, boxe, tudo. Alguns estilos são elegantes, criativos, imaginativos e inovadores, e outros não”. E o estilo de Miles foi tudo isso e muito mais. Como músico, sempre esteve na linha de frente do jazz e sempre buscou novas explorações e desafios. A chama ardente do jazz marcou sua trajetória. Como poucos, o trompetista incorporou a alma da música afro-americana improvisada e sua experimentação sonora é fruto desta vivência e parte essencial da evolução do jazz. Para ele, a música estava sempre mudando. E mudando por causa das épocas e da tecnologia disponível.


Uma obra-prima e ícone do jazz moderno



O disco "Kind of Blue", um ícone do jazz, completou 50 anos, em 2009, e ganhou reedição de luxo com dois CDs, incluindo faixas extras, documentário e entrevistas em DVD e um livreto pelo selo Columbia/Legacy, no Brasil Sony. A versão norte-americana trazia ainda um vinil de 180 g. As duas sessões de gravação do álbum foram realizadas em 2 de março e em 22 de abril de 1959 e o disco foi lançado em 17 de agosto de 1959. A expressão “Kind of Blue” pode ser traduzida como “um pouco triste”, ou “um pouco blue”. E “So What” – faixa inicial do álbum – pode ser traduzida como “E daí?”. Já a expressão “modal” significaria “de escalas”, ou seja, “toda música ou todo sistema diatônico que obedecesse a um padrão de uma única nota ‘tônica’ central seria modal”. Na verdade, Miles Davis utilizava estas expressões usualmente e, por isso mesmo, são reveladoras de como coisas simples podem significar muito.
No livro "Kind of Blue - A História da Obra-Prima de Miles Davis" (Editora Barracuda), o norte-americano Ashley Kahn, empreende um mergulho fundo em uma das criações mais inventivas do universo jazzístico e um divisor de águas na própria trajetória do trompetista. Prefaciado por Jimmy Cobb (20/01/1929), baterista e único músico vivo do sensacional sexteto de Miles Davis que atuou nas duas sessões de gravação de “Kind of Blue”, em 1959, o livro revela os bastidores das gravações e mostra porque este disco é considerado uma das mais significativas expressões musicais do século XX. O próprio Ashley Kahn afirma: “No santuário do jazz, ‘Kind of Blue’ é uma das relíquias sagradas”. No entanto, esclarece que “o álbum fez menos barulho quando saiu do que sua reputação atual poderia sugerir – fazendo sua mágica na música por meio da evolução, não da revolução”.
Miles Davis, em sua autobiografia, garante que “Kind of Blue” resultou da forma modal que começara em “Milestones”, mas desta vez, foi acrescentado outro tipo de som que lembrava o do Arkansas “quando voltávamos da igreja e o pessoal tocava aqueles hinos de igreja sensacionais. Me voltou aquele sentimento e comecei a me lembrar do som e da sensação daquela música. Era dessa sensação que eu tentava me aproximar. Aquela coisa entrara em meu sangue criativo, minha imaginação, e eu esquecera de que ela estava lá”. Assim, “compus um blues que tentava retornar àquela sensação que eu tivera aos seis anos de idade, andando com meu primo pela estrada escura do Arkansas. Compus uns cinco compassos disso, gravei e acrescentei uma espécie de som cortante na mixagem, porque essa era a única forma que eu tinha de entrar no solo do piano. Mas a gente compõe uma coisa e aí vêm outros caras, tocam a partir dela e a levam pra outro lado, através de sua criatividade e imaginação, e a gente não sabe mais pra onde achava que estava indo. Eu tentava fazer uma coisa e terminava fazendo outra”.
E Miles vai mais fundo na explicação sobre como gravou o histórico disco: “Não compus a música de ‘Kind of Blues’, apenas fiz uns esboços do que todos deviam tocar, pois queria espontaneidade na execução. Tudo saiu na primeira tomada, o que indica o nível em que o pessoal tocava. Foi lindo. Mas quando digo às pessoas que não consegui fazer o que tentava, que não consegui obter o som exato do piano de dedo africano naquele som, elas me olham como se eu estivesse doido. Todos dizem que o disco é uma obra-prima – eu também gostei – e acham que estou tentando goza-los. Mas foi isso que tentei fazer na maior parte desse disco, particularmente em ‘All Blues’ e ‘So What’. Simplesmente não consegui”.
Kahn afirma que o solo de Miles em “So What” demonstra duas vertentes fundamentais da sonoridade de seu trompete: “Seu gênio para a simplicidade. Há quase um exagero de economia em seu método, contornando sons prolongados e silêncios para obter um efeito irresistivelmente casual e um palpável senso dramático. A outra característica distinta de Miles é a referida tendência de adiantar o ritmo e jogar com as divisões”.
Mas uma das revelações mais marcantes de Kahn sobre “Kind of Blue” foi o efeito que a música criada pelo sexteto produziu em John Coltrane, apesar de toda a música de influência modal que Davis, Cannonball, Heath e, depois, Zavinul produziriam, “nenhum músico foi mais afetado pela experiência modal deste disco e nenhum seria mais influente do que John Coltrane”. E lança mão do biógrafo Lewis Porter para explicar: “O solo em ‘So What’ indica o rumo que a música de Coltrane tomaria nos anos 60, mais que ‘Giant Steps’. Ele se tornou cada vez mais preocupado com os aspectos estruturais da improvisação; com isso, se concentrou exclusivamente nos conhecimentos modais, o que deu a ele o tempo para desenvolver suas idéias minuciosamente”.
Ashley Kahn assegura na introdução do livro que, quando começou a pesquisa, a Sony Music forneceu pleno acesso a todas as informações, fotografias e gravações dos seus arquivos, além de facilitar o contato com antigos funcionários. Assim, “localizei relatórios das fitas e das sessões que revelavam a identidade da equipe de gravação que trabalhou em ‘Kind of Blue’, cuja maioria – assim como os membros do sexteto, com exceção do baterista Jimmy Cobb – não está mais entre nós. De conversas com engenheiros da Columbia da época, pude formar um quadro do que era trabalhar no 30th Street Studio, antiga igreja onde o álbum nasceu”.
E, para aproximar o leitor do efetivo processo de criação do álbum, Kahn lançou mão da transcrição e da discussão das sessões de gravação. O texto original da contracapa de Bill Evans – “Improvisação no jazz” – foi encontrado “impecavelmente escrito à mão e quase sem edição", assim como as fotografias do engenheiro de som Fred Plaut, “jamais publicadas e que mostram as notações musicais de um tema de estrutura modal”. Kahn afirma que o trompetista e Evans demonstraram, neste disco, ser dois exploradores musicais unidos por paixões e visões afins: “Eles compartilhavam um lirismo obsessivo e um fluxo melódico que mais sugeria do que manifestamente definia a estrutura musical”. Miles ao falar de Bill Evans demonstra todo seu sentimento: “Bill possuía aquela chama silenciosa que eu adorava no piano. Da forma como tocava, o som que ele extraía era como silvos de cristal ou água cintilante caindo de uma cachoeira limpa. Red conduzia o ritmo, mas Bill se entregava a ele...”.
O autor do livro também afirma na introdução que, além das informações obtidas na pesquisa, “fui sendo igualmente tomado pelos aspectos mais místicos do álbum”. “A lenda de sua criação pura, em takes únicos. A combinação alquímica de influências de música erudita e música folk. A interação da filosofia menos-é-mais de Miles e do estilo igualmente enxuto de Bill Evans com o restante da banda, mais eloquente. O drama de Davis, que, movido pela interminável busca por novos estilos, criava uma obra-prima para então abandoná-la em favor de uma próxima empreitada. Fui desafiado a examinar o que havia de verdadeiro na mitologia do disco. Todo o álbum teria sido de fato improvisado, e não planejado? Miles realmente compôs tudo? ‘Kind of Blue’ mudou o território do jazz para sempre e, em caso positivo, como? Para fazer justiça ao álbum, eu precisava me transportar ao tempo e ao lugar que o gestaram”.



Ponte entre o jazz e o rock



Os 46 anos do lançamento de “Bitches Brew”, um dos discos mais inusitados e controversos de Miles Davis, são celebrados em 2016. Marco da fusão jazz - rock’n’roll nos anos 1970, o álbum foi um divisor de águas na trajetória de Miles e impulsionou o que passou a ser chamado de jazz-fusion. O trompetista revelava: “O sintetizador mudou tudo, quer os músicos puritanos gostem ou não. Veio para ficar, e a gente pode curtir ou não”. Em 2010, foi lançada uma edição comemorativa, em dois CDs, reunindo as gravações originais remasterizadas e duas versões de estúdio até então inéditas. Além disso, incluiu um DVD, onde Miles está acompanhado por Wayne Shorter (saxofone), Chick Corea (piano), Dave Holland (baixo) e Jack DeJohnette (bateria), em Copenhague, em novembro de 1969, no Festival Tivoli Konsertsal.
Enfim, o mundo da música agradece a contribuição de Miles Davis para tornar melhor o século XX e esta primeira década e meia de século XXI.


*Jorge Sanglard é jornalista e pesquisador. Escreve em jornais de Portugal e do Brasil.

Participação da mulher na produção literária é tema do encontro #TraçandoLivros

(Vou botar no ar o "release" direto, sem edição, por causa do tempo curto)
Com a proposta de repensar a produção literária feminina, o encontro #TraçandoLivros, hoje, dia 28 de setembro, às 19h, na Blooks Livraria (Praia de Botafogo 316 - Espaço Itaú de Cinema), vai reunir escritoras para um bate-papo sobre as dificuldades e prazeres do ofício de escrever.

O encontro, que faz parte da série de debates sobre edição e literatura promovidos pela editora Jaguatirica em parceria com a Blooks Livraria, contará com a presença de Valéria Martins, autora de “A pausa do tempo” (crônicas), e “A matéria dos sonhos”, romance exclusivamente digital que se tornou um dos e-books mais vendidos da Jaguatirica;  Nathalia Alvitos,  jornalista, repórter policial e autora de “Lavínia – no limite”, romance que fala sobre o transtorno borderline; Thaïs Oliveira, psicanalista e autora de “Os imortais”, que discute o envelhecimento e a juventude eterna; e Gilda Moura, psicóloga e autora de “O pacto dos ancestrais”, ficção sobre segredos e mistérios da humanidade.

O bate-papo será mediado pela editora-assistente da Jaguatirica, Hanny Saraiva. Os eventos são destinados a escritores e escritoras, mulheres e interessados em literatura feita por mulheres e para mulheres.
Serviço:

28/09 - 19h – #TraçandoLivros: Lendo Mulheres
Local: Blooks Livraria (Praia de Botafogo 316 - Espaço Itaú de Cinema)
Autoras convidadas: Valéria Martins, Nathalia Alvitos, Thaïs Oliveira e Gilda Moura.  
Mediadora: Hanny Saraiva, editora-assistente da Jaguatirica.
Sobre a Jaguatirica
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A Editora Jaguatirica foi criada em 2012 com a proposta de atender novos formatos editoriais para autores independentes, auxiliando-os e dando suporte em todo o processo de publicação e divulgação de suas obras. Possui catálogo com mais de uma centena de títulos impressos e digitais. Em 2016 lançou o Til, selo editorial voltado para a autopublicação, a fim de criar melhores condições para autores, driblando os altos custos de logística e distribuição.

Desde 2015 a editora atua no mercado editorial português por meio de seu escritório de representação em Lisboa. Em parceria com agentes literários, gráficas e editoras locais, a editora carioca tem sido uma ponte entre autores portugueses que almejam publicações no mercado brasileiro, e autores brasileiros que buscam visibilidade para sua obra nos mercados da Europa. Entre autores portugueses, já publicou o poeta António Carlos Cortez, "O tempo exacto", e está trabalhando nos novos livros do poeta Luís Filipe Cristóvão e do romancista Luis Carmelo.

Conheça o catálogo e o conteúdo da editora Jaguatirica:
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26.9.16

Lançamento: Livros de Jorge Lescano na Tapera Taperá, sábado, dia 1º de outubro

Jorge Lescano reside no Brasil desde 1969. Escreve em português, mas sua formação é argentina. Seus relatos, escritos nas últimas quatro décadas, são breves e abordam temas variados, quase sempre sob uma visão cultural. Os motivos vão da pintura ao futebol, passando pela literatura, política, teatro, etc.
Publicou: Amanhãs São Perón (contos); SP, Ática, 1978; Os quitutes de Luanda (infantil, Curitiba, Criar, 1983 (Premiado pela Biblioteca Internacional da Juventude/Munique – Alemanha).
Publicou recentemente:O traidor de Dublin; Gol! e Diálogo do Rei e o Réu.
Os dois primeiros de relatos, o terceiro um romancete; (prefere este neologismo ao termo novela, sempre identificado com a TV).
No próximo sábado 1º. de outubro, Lescano estará lançando estes três livros na base do Pague se e quanto quiser, na TAPERA TAPERÁ, Galeria Metrópole (Atrás da Biblioteca Mário de Andrade); Av. São Luiz 187, 2º andar. São Paulo.
Horário: das15h às 18h.
Todo mundo lá!
(Clique na imagem para ampliar e VER melhor)

25.9.16

Quem tem medo do Grande Sertão?


(Republico aqui um pequeno ensaio que procura atravessar "Grande Sertão - veredas" para os novos amigos navegantes. Trata-se da atualização de uma "pensata" minha que foi publicada no old JB, de doce memória.) (*)

Quem tem medo de Guimarães Rosa?

Grande Sertão – veredas conserva a aura de obra difícil, diante da qual o sujeito hesita e diz para si que um dia vai encarar. Não é só a aparência taluda do
livro que espanta. Muita coisa intriga, tanto que sua fortuna crítica é imensa.

Apesar de reconhecido hoje como um monumento da língua, teve recepção problemática. De cara foi catalogado entre "ilegibilidades" e mais tarde considerado "um matagal indevassável". Um sujeito zombou: "Ora, onde já se viu sertão em Minas?". Em 1958, uma revista chegou a publicar uma reportagem com o título: Escritores que não conseguem ler Guimarães Rosa. Gente graúda das letras
confessou-se incapaz.

O autor, perto de sua morte, triste, reclamava que tinha sido chamado de aristocrata e acusado de inventar palavras. Lamentou: "Não as invento totalmente. Para escrever Grande sertão passei um mês inteiro no mato, em lombo de mula, catalogando num caderninho o linguajar do povo sertanejo (…). Aristocrata não faz isso".
Suspeita-se que esse livro causou um vasto medo diante da novidade que de fato era. Tanto nos ácidos críticos como naqueles que não o leram. Não podia ser diferente: o romance é uma explosão da invenção, na forma, na técnica e na linguagem. Foi composto como narrativa única e fragmentária do ex-jagunço Riobaldo Tatarana. Seu ouvinte, que nunca intervém, supõe-se que é o próprio escritor, tratado com reverência: "Sabe muito em ideia firme, além de ter cara de doutor".
Às vezes parece que baixou um caboclo freudiano no narrador, e sua fala se torna caudalosa: "A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não se misturam contar seguido,alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância".
O resultado do temor que esse livro inspirou é que várias gerações se privaram da mais rica experiência estética da nossa literatura.

Uma das chaves é saber que Rosa partiu da sua experiência de menino, de soldado, rebelde e médico. Reuniu causos. Um dia revelou como se imantou de maravilhas: "Nós, gente do sertão, somos contadores de histórias desde que nascemos. Contar histórias faz parte do nosso sangue, é um dom de berço que recebemos para o resto da vida. (…) Que mais se pode fazer nas horas livres no sertão (…)
senão contar histórias?" Esotérico, segredou: "Por isso nos acostumamos desde cedo à imaginação e ela se integra em nossa carne e em nosso sangue, fazendo parte de nossa alma, pois o sertão simboliza também a alma dos que o habitam". Numa entrevista comentou o problema que esse lastro precioso lhe trazia: "Disse para mim mesmo que não se pode criar literatura com o material do sertão. Só se pode escrever a seu respeito em forma de lendas, contos em que imperem a fantasia, as confissões pessoais". Conclui-se que Rosa, fiel
à tradição oral de uma espécie de "dialeto geralista", não se deixou prender a uma camisa-de-força. Num outro depoimento o autor deu lições de ourivesaria: "Em primeiro lugar vem o meu método de usar cada palavra como se ela tivesse acabado de surgir pela primeira
vez. Retiro-lhe as impurezas da fala corriqueira e devolvo-lhe seu sentido vocabular primevo. Por este motivo – e este é o segundo elemento – incorporo certas particularidades dialetais da minha região (Minas Gerais) que não constituem parte da linguagem literária.
Incorporo-as porque são peculiaridades originais, que não estão ainda gastas pelo uso e são na maioria dos casos caracterizadas por uma extraordinária sabedoria lingüística".

Grande Sertão é um bazar árabe

Dizem que escreveu o livro suando em bicas; como um médium, incorporou a alma sertaneja. Sua primeira frase é um coice, indica que se entrou num mundo estranho: "Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja". Se o leitor agüentar a pancada, o relato o levará para lonjuras, onde encontrará formas arcaicas de vida. Homens presos a um tempo imóvel-mineral. Até antropofagia inconsciente ocorre, como lembra Oscar Lopes. Num trecho, Zé Bebelo – um dos grandes chefes – intui que topou com gente de outra era quando é indagado a respeito de onde vinha por uns catrumanos. Responde: "Ei, do Brasil, amigo".

Em O narrador, o melancólico Walter Benjamin afirma que a arte de narrar entra num processo histórico de dissolução justamente "porque o lado épico da verdade, a sabedoria está agonizando". A obra de Rosa é, sem dúvida, o testemunho da sabedoria sertaneja, e carrega algo de desespero antropológico em seu registro. Disse uma vez: "Quando não entendo bem alguma coisa, então não vou conversar com nenhum professor erudito, procuro um vaqueiro velho de Minas, qualquer um deles, pois todos são sábios".
Não era uma boutade. Riobaldo filosofa enquanto conta sua história. Arrisca, num certo momento, a entrever certa universalidade: "O sertão está em toda parte… é do tamanho do mundo". Pode-se dizer que foi até picado por uma dúvida iluminista ao tentar desvendar se existe ou não o demônio, ao qual, num certo momento, empenhou sua alma. Riobaldo será um Fausto por amor.
Alguém disse que o Grande sertão se assemelha a um grande bazar árabe: tem de tudo. Captar a totalidade dele é um problema insolúvel. Afonso Casais Monteiro afirmou: "Evidentemente há coisas que só entenderá em Grande sertão: veredas o sertanejo, precisamente o menos provável de seus leitores". Paulo Rónai continua: "Acrescentaria eu que há outras coisas que só o dialetologista, outras que só o filósofo, outras ainda que só o psicanalista entenderá – o que equivale a dizer que nenhum leitor entenderá a obra na íntegra". Observou que o autor trabalhou como cineasta: "Sabe que os detalhes de seus flagrantes só parcialmente serão percebidos pelo público na rápida sucessão das imagens"

O mapa fantástico do Grande Sertão

Diz-se ter Rosa mapeado as andanças de suas criaturas pelas brenhas do sertão. Mas não se iluda: fez isso numa cartografia fantástica.
Antonio Candido cotejou as passagens do livro com os mapas da região, e percebeu o surgimento de "uma impossível combinação de lugares: mais longe uma rota misteriosa, nomes irreais". E que certos acidentes geográficos obedeciam a uma "necessidade de composição". Foi aí que viu a importância do rio São Francisco na trama. Riobaldo chega a dizer que o rio partiu sua vida em duas partes "qualitativamente diversas". O crítico mostra, assim, que na margem direita corre a vida normal e na esquerda, o conflito. Nas passagens entre um lado e outro é que se realiza o destino de Riobaldo e Diadorim.
Mulher disfarçada de jagunço, Diadorim quer se vingar do assassino de seu pai, Hermógenes, mitológico guerreiro que carrega a fama de ter feito um pacto com o demônio. Como numa tragédia grega, precipitará o antagonismo. No desfecho da luta, supõe-se ter eliminado o mal figurado no pacatário. Seria a catarse. Mas os rios para Rosa têm três margens.
Riobaldo não será apenas instrumento dessa vendetta cabocla, apesar de abdicar de seu destino por causa de seu "ambíguo" companheiro: "Diadorim é minha neblina" – ele diz encantado. Chega a acreditar em sina: "A modo que resumo da minha vida, em desde menino era para dar cabo definitivo do Hermógenes". O paradoxo dessa relação é que à medida que se envolve na luta de outro, ele se define, enfrenta o sertão, que não é simples paisagem e sim um tirânico personagem: "O sertão me produziu, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca…". Mas vínculos de fogo inconscientes determinarão sua travessia.

A travessia do Grande Sertão

Riobaldo percebe ser ele a travessia e intui não estar "terminado", terá que se definir em provas. "Viver é muito perigoso", repete. A travessia é uma metáfora da experiência de conhecimento. Tarefa estrambótica para a maioria dos homens simples que vegetam na qualidade de roceiros perdidos no tempo, capiaus sucumbindo às febres e desgraças comuns. Só os grandes senhores com seus exércitos dominam a ciência das coisas. O mundo que o jagunço encantado encontra estruturado à sua frente é o vazio da lei. "O senhor
sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado". Sua ascensão começará, portanto, pelo domínio do rifle. A pontaria certeira vai lhe dar um novo nome: "Tatarana-cerzidor". Mas isso não basta para o confronto com Hermógenes. É preciso fazer o pacto, fechar o corpo. Daí, salta da condição de jagunço bom de mira para a chefia do bando. Sua transformação é festejada: "Uai, tão falante Tatarana? Quem te veja…". É como se depois do ritual tivesse encontrado o dom demoníaco
de usar as palavras, e as astúcias que aquelas permitem engendrar. Nos enfrentamentos do sertão adquire mais valor. Então Zé Bebelo o renomeia ao lhe passar o mando: "Mas você é outro homem, você revira o sertão… Tu é terrível, que nem o urutu branco". Uma nova
etapa se inaugura nessa ocasião: "Agora o tempo de todas as doideiras estava bicho livre para principiar", diz Riobaldo, pronto para o grande embate: "Tinham me dado em mão o brinquedo do mundo". Por outro lado, é curioso notar que Diadorim, ao mesmo tempo que
o cega para seu destino, abre as portas de sua percepção: através dos olhos dela ele vai aprender a ver beleza no sertão.

Uma leitura política do Grande Sertão

Também é possível uma leitura política do Grande sertão, na qual se trata o discurso ideológico como risível: "Ao que Zé Bebelo elogiou a lei, deu viva ao governo, para perto futuro prometeu muita coisa republicana. Depois enxeriu que eu falasse discurso também. Tive de – você deve citar mais é meu nome – falar muito nacional – se me soprou". Ao que Riobaldo acrescenta: "O povo acho que apreciava".
As preocupações do autor são éticas. Oscar Lopes ilumina esta questão ao dizer que (Rosa reabre "edificado por mais de dois milênios e meio de experiência histórica o problema que Ésquilo pensava ter resolvido na Oréstia. Lá a moral gentílica da vingança entre os clãs se resolve absorvendo o último vingador, Orestes, instituindo o tribunal da cidade, passando as Fúrias ao serviço de uma nova forma de vingança". No Grande sertão as coisas não são bem assim: "Nenhumas ilusões maniqueístas sobre o dualismo absoluto do bem e do
mal. O homem continua pacatário". Hermógenes, com toda sua fama de mau, representava uma maldade ingênua, diante de um homem como Habão, que "não sabe olhar para outro homem sem o ver na qualidade de força trabalhadora anônima, reprodutora de investimento". Um estranho Midas na visão do jagunço: "E ele cumpria sua sina, de reduzir tudo a conteúdo. Pudesse economizava até com o sol e com a chuva". O "mal" só mudou de forma, agora é capital, um novo pacto. É o fim da jagunçagem heróica. Riobaldo range os dentes: "Os jagunços destemidos arriscando a própria vida, que nós éramos; aquele seo Habão olhava feito jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos".
O Grande sertão fica distante muitas léguas do maniqueísmo. Seu autor via, por exemplo, Jorge Amado como cativo da ilusão dos contos de fada: "É uma criança que acredita sempre no bem e na vitória dos bons sobre os maus". Para Rosa, nada no mundo estava "definido". O próprio Riobaldo torna-se proprietário. Seu rememorar é a busca de um sentido para tal passagem. A questão pendente é ele não saber que continua pacatário. Seu mundo épico vive só nas páginas de um livro – este sim definitivo. "Nonada" de medo do seu autor. Afinal só "existe homem humano". Travessia.

(*)Esta é uma versão modificada do artigo que fiz com o título As chaves do matagal indevassável, publicado em 1997 no Caderno B, do Jornal do Brasil numa edição dedicada à memória dos 30 anos
da morte do escritor.

NR: Clique nas imagens para ampliar e VER melhor.
A última ilustração desse artigo também foi publicada na Alemanha, (no jornal "Die Welt" (O Mundo) por ocasião do lançamento lá na terra do Goethe de uma novíssima tradução de Grande Sertão. Veja no link https://www.welt.de/sonderthemen/brasilien/article146661881/Ein-Monument-experimentell-und-voller-Raetsel.html