5.12.08

Crônica da Tinê - Uma Dica Sem Clave


Erudição não é sinônimo de boa música. Alguém já compôs com o embalo rítmico da máquina de escrever, do pingar da torneira na pia meio-cheia, do frigir os ovos em sacolejo, resultando mais numa coreografia legal dos intérpretes do que em música. Phillip Glass que me perdoe, eu dormi em uma de suas apresentações na Sala Cecília Meirelles, no Rio. Mas o “Samba de Uma Nota Só”, ahhh, é outra coisa!

A educação musical na infância desenvolve não só a sensibilidade auditiva como também a compreensão das relações matemáticas. Minha mãe já sabia disto quando me inscreveu na bandinha do Conservatório de Música porque eu não conseguia ler as horas, mas adorava tamborilar os dedos na beira dos móveis. Lá produzi maravilhas sonoras com rocás e triângulos antes de dedilhar um teclado de frações até aprender a ler os ponteiros dos relógios. Hoje estou mais para pau-de-areia, recolhida à plateia enquanto passam as horas.

Um tempão atrás tinha ido visitar uma tia que tocava piano. De relance vi dois enormes olhos azuis que me espiavam. Do pimpolho-ouvinte não tive notícias, cresceu até reaparecer em minha casa com um prêmio da RIOARTE debaixo do braço. Em contrapartida, lá fui eu tocar-lhe uns discos que me agradavam – banjos do Mississipi e alaúdes medievais. Ao terminar a audição, o rapaz exclamou “Animaaal!”, como se tivéssemos acabado de ouvir algum rock do momento. Assim fui reapresentada ao talentoso Marcus Siqueira, de quem passo a falar.

Nascido em 1974, violonista erudito formado pela ECA-USP (1996), professor com método próprio voltado à criação musical para crianças no Ensino Fundamental, autor de inúmeras peças para cordas, teclados, percussão, flauta, clarone e soprano, incluindo violão – o patinho-feio das orquestras -, este filho de Caratinga que hoje vive em São Paulo já conquistou diversos prêmios além de receber três bolsas de criação musical significativas: RIOARTE (2001), Fundação VITAE (2003) e agora FUNARTE (2008) com a obra em progresso “COLAPSOS”, um concerto para quarteto de cordas e orquestra.

Sua primeira obra apresentada ao público foi no Teatro Municipal de Porto Alegre (1996) com “Seis Momentos para Flauta-solo”, interpretada por Marcos Kiehl.
Em 2001 recebeu o Prêmio de Melhor Trilha Sonora do Festival Nacional de Teatro (Presidente Prudente) com a peça “A Bicicleta do Condenado” de Fernando Arrabal, e “O Menino e o Burrinho”, dirigido por Bia Borin em 2007.

Sua primeira trilha no cinema foi para o longa-documentário “Nem tudo é Política”, dirigido por Heloísa Mattos (1994). Seguiram-se “Quebradeiras de Coco” e “À Margem do Lixo”, longas-documentários dirigidos por Evaldo Mocarzel em 2008, e o curta “Encontro das Águas”, do mesmo diretor.
Teve gravado sua versão do Concerto N°2 para Piano e Orquestra de F. LISZT para a Banda Sinfônica de São Paulo, estreado pelo pianista Gilberto Tinetti, sob a regência de Aylton Escobar (agosto 2008).
Em 2008 compôs “Fantasie presque Impromptu pour Ida Presti” para violão, obra comissionada pela "L'Association ADAMAS" (França), estreada por Laurent Blanquart em Nice (julho 2008), na Église Du Gesú.
Para abril de 2009 terá sua obra “Seis Estudos Sinfônicos” estreada e publicada pela OSESP, bem como a gravação em CD de toda sua obra para violão pelo violonista Gilson Antunes. Seus projetos incluem gravação de CDs e publicação de livros através da nova produtora ÁGUA FORTE, cujo site está em gradual definição.
Só colocarei o jovem Marcus no pedestal de minha discoteca quando ele compuser uma “fugata” para Quarteto de Saxes. Pode ter um violoncelo no meio. Ou um piano. Está bem, está bem: que seja um violão! Pois a vida segue em ritmos de vários tempos, do adágio ao fox-trote.
Tinê Soares – 02/12/2008 Foto: para divulgação com intervenção de TS.
Nota da Redação: Contato com o artista pode ser feito pelo endereço marcussiqueira@aguaforte.art.br

5 comentários:

TS disse...
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Marcus disse...

Querida prima, que fique aqui registrado meu obrigado pela gentil delicadeza em me abrir um espaço aí dentro da sua vida tão lírica, profunda e original. Conhecer a força e estrutura do bico da sua pena de Harpia tangida em pigmento ancestral, me faz crer piamente na força delineadora de sua prosa rara. Obrigado pelo presente de sua amizade e principalmente pelo conhecimento de sua arte.

Marcus Siqueira

TS disse...

Menos, querido primo, menos...
Uma "Harpia" jamais puxaria um ronco em baixo-contínuo durante uma récita.

Estou em torcida organizada para você ir para Bologna em 2009 dar seu curso de rítmica - Se precisar de um pandeiro, eu me candidato!
Beijos.

notinha: agradecemos a cessão deste espaço ao Liberati!

Anônimo disse...

Estou vendo que a musicalidade dos textos da Tinê encontra correspondência na harmonia que o Marcus imprime em seus trabalhos, inclusive no belo texto transcrito acima e que eu releio, tangido pela alegria de tio-coruja, cujas penas a "pigmentação ancestral" não deixa esmaecer.Tio Silvio.

josemauros disse...

"Erudição não é sinônimo de boa música"... é entendo que não mesmo.
Minha filha mostrou-me na semana passada um trecho de Poética de Manuel Bandeira, onde o autor critica os moldes, as amarras, os vícios enfim quanto ao lirismo; vejo que a erudição musical pode ser também um meio de bem ordenar o estudioso.
Acredito que a boa música exige algum instinto, algo de pessoal, de informal e um bocado de alma, ou quem sabe um outro grupo de coisas que são opostos à erudição. Estas condições bastam à minha forma de sentir, não de ver, o artista. Quem tem talento pra combinar estes dons, merece um palco, um publico e todos os aplausos possíveis todos os dias de sua vida.