28.2.09

Palhaçada à mineira


Eu não sei onde Lamartine Babo estava com a cabeça quando compôs a VACA AMARELA, uma espanhola natural de Minas que na Catalunha cata boi com serpentinas. A danada ainda escangalhou no quintal a cancela ao pular a janela. Também não sei de quem partiu a ideia de reunir primos de cidades distantes para formar um bloco no interior de Minas.
A lembrança é vaga, confusa como a vaca que veio de uma montanha mineira, “lá do Mar de Espanha”. É ou não é piada de salão, e se acham que não é então não conto não. Até porque, minha incursão pelo reino de Momo foi restrita a bailes infantis onde desfilei fantasias, ou à garupa do padrinho para assistir o BAFO DA ONÇA em frente a Central do Brasil. Por temperamento, meus carnavais costumavam ser acampamentos sem confete, o pó-de-mico era picada de insetos, o lança-perfume era repelente, e nunca me passou pela cabeça ser enquadrada como foliã por um cordão que não era – nem de longe – o do BOLA PRETA.
Como a MARCHA DO GAGO não foi escrita por Babo, vou contar um pouco sobre certo fevereiro, acho eu, em 1969, acham outros, em 1970, não chegamos a um acordo.

Éramos dez palhaças encantadoras. Dos rapazes, lembro de alguns. O que me animou a aceitar o convite – e se tornou a melhor parte – foram os preparativos, a zorra pré-folia, a começar pelo ensaio na sala do piano de tia Edith. Uma de nós dedilhava o teclado enquanto a tia fazia cantar a máquina nas costuras – metros e metros de pano com bolas multicores em fundo amarelo. Um primo gaiato interrompeu a cantoria: “Vamos decidir a pronúncia: ou ‘xx’ de carioca, ou ‘ss’ de mineiro!” Ora, que cada um cantasse ao seu jeito, como cada um assumiu tarefa nos bastidores do Bloco das Palhaças; a mim coube a tinta para pintar os chapéus na mesma cor das bermudas, bermudinhas e bermudões.
A farra doméstica entrava noite adentro, um entra e sai de gente, bagunça na porta do banheiro em que a moçada apertada fazia fila, a tia cronometrava o tempo do chuveiro elétrico ligado – “Aqui não é Rio de Janeiro!”, ela repetia. Mineiros e cariocas troçavam entre si. Carinhosamente. Espantaram-se quando surgi de pantufas, minirroupão e touca, combinados em estampa psicodélica – “Nooo... como carioca é macaqueiro!”, disse uma – “Pronta para o baile!”, disse o ousado – e revidei, levei a prima Ré a fazer xixi no chão de tanto rir – “Não sou papagaiada! Meus objetos de banho são de grife...” Riram em dobro; eles lá sabiam o que era VENT-VERT de Balmain quando a moda era o capim-cheiroso de Vitória da Conquista?! Não perdi meu ‘savoir-vivre’, melhor dizendo, o rebolado: antes de partir para o clube, entrei de cabeça no frango com quiabo gosmento (que me horrorizava) até chupar os ossinhos para provar que era capaz de deixar a frescura de lado sem perder o frescor.
Caras purpurinadas, congas amarrados, laçarotes armados nas golas engomadas. As primas irmanadas na palhacice entraram no círculo delirante do Caratinga Tênis Clube: menos de mil palhaços no salão nos receberam com riso e alegria. Os rapazes, fantasiados deles mesmos, nos enlaçaram a cintura para pularmos e girarmos como relógio doido até... a tal vaca íberomineira amarelar.
*******************************************
Tinê Soares – 20/02/2009
Nota da Redação: a foto é do álbum de recordações de Tinê que a retocou para a publicação.

6 comentários:

sara disse...

Quando eu era criança, minhas irmãs mais velhas tomavam conta de mim e dos meus irmãos um pouco maiores q eu, enquanto meus pais iam ao supermercado.

Para nos fazerem ficar quietos, cantavam a musiquinha da "Vaca Amarela" q fazia suas necessidades na panela...

O primeiro q falasse, ou se mexesse, ou respirasse, ou chorasse (dependendo da situação) comeria toda a porcaria da vaca.

Até hoje as palavras "Vaca Amarela" me fazem ficar imóvel! rs

Anônimo disse...

Delicada memocrônica. A foto não é o mais importante. Cada participante guarda uma lembrança diferente daquele carnaval - depois tudo mudou, ou amarelou.
Estamos no Ano do Boi.
M.R.L.

Elaine de Amorim disse...

Confesso que o carnaval me fascina, mas é um fascínio meio mágico porque a mim, misturam-se sentimentos de alegria com tristeza. No meu caso, aqui em Recife, encontrei uma maneira bem legal de brincar> tocar num maracatu as alfaias, que são uns tambores enormes de madeira. Gostei da crònica

Elaine de Amorim disse...

Confesso que o carnaval me fascina, mas é um fascínio meio mágico porque a mim, misturam-se sentimentos de alegria com tristeza. No meu caso, aqui em Recife, encontrei uma maneira bem legal de brincar> tocar num maracatu as alfaias, que são uns tambores enormes de madeira. Gostei da crònica

Ed disse...

Ri à beça e achei que o seu "savoir-vivre" foi demais :) Bom.. eu tb não costumo deixar por menos quando sou "acusado injustamente" (rsrsrs). Mas sou péssimo para far em carnavais. Fiquei aqui imaginando história de lagum e sinceramente, não me lembro. Diz minha mãe que uma vez me fantasiaram de um super herói que nem me lembro qual foi (rs). Fracasso total em se tratando de carnaval. mas interessante, é que sempre gostei das marchinhas. Ayé mesmo da "Espanhola natural da Catalhuuuuuunhanha" (rs). Beijão.

josemauros disse...

contos de carnaval: momento de voltar e reviver, e para quem não presenciou a farra, oportunidade de se transportar. Incrível como os contos de carnaval, permitem esta mágica... viver, sentir e sorrir muito além do que se narrou, é como se à nossa mente fosse naturalmente potencializada a ir além. Afinal, neste aspecto do carnaval, tudo pode.