1.5.09

Crônica da Tinê - Caravaggio!


Com uma senha na mão, aguardo. Sento-me voltada para uma parede de dez metros em cor-de-pêssego sob luz embutida no rodateto; nenhuma textura ou enfeites. As cores contrapontuam com o branco e prata de uma clínica radiológica – bem pensado.
Remexo o interior da bolsa, ponho os óculos, cato balinhas de canela, separo notas de cartões – bolsa de mulher é um buraco-negro. Quem vai ao templo indisposto a rezar, mata o tempo contando o número de encaixes nos vitrais. Por ora calculo quantos quadros seriam necessários para matar o paredão nu. Ou fazê-lo se abrir como o livro-cenário no qual literalmente entrei e me deixara maravilhada ao descobrir um alçapão que ia dar atrás do palco do pré-escolar. O livro era de Alice; nas páginas abertas, o coelho e o gato pintados pareciam dizer “vem, vem” até eu-menina sucumbir ao encanto. Ou seja, o livro-objeto me seduziu antes do livro-leitura. Talvez isto explique meu esquecimento das pessoas por seus nomes ou fisionomias; preciso de coisas, sons, cheiros, lugares para recordá-las, e nem sempre consigo situá-las na linha do tempo. Antes que o pêssego gigante apodreça em minhas retinas, leio sobre uma artista que monta exposição em consultórios – bem bolado; desde que o estilo e o tema combinem com a especialidade do médico: nada cubista na ortopedia; insetos vistos por macrolentes na oftalmologia; peixes na cardiologia; frutas partidas em ângulos sensuais na geriatria; abstrações para a sala de espera do neurologista. Sobre o pêssego de alvenaria, as obras imaginárias desfilam em carrossel até cair da bolsa o convite que eu ainda não tinha lido as letras miúdas: meu afilhado do coração vai se casar! Parece que foi ontem, ele no meu colo a se divertir com a chave na fechadura, ou com o interruptor de luz – acendia, apagava, acendia –, olhava para mim e ria. Informam as miúdas letras que o enlace vai se realizar na Galeria de Arte Caravaggio, na capital – que chique! Dos preparativos à partida para a lua-de-mel, inevitável classificar casamento como algo barroco, uma concha que surpreende: nunca se sabe de antemão qual será a cor da pérola. Caravaggio?! Relembro os quadros: martírios, suplícios, descidas da cruz, João Batista de cabeça na bandeja, Judith com a espada no gogó de Holofernes, até surgir da escuridão a tempestuosa Medusa a escancarar a boca - “Casou? Babau!”. Meu ceticismo não poupa nem os benquistos, que vergonha! Corro para as pinturas profanas, Baco de pileque ou rapazes na jogatina. Rogo para que, de Caravaggio, meus votos de prosperidade aos nubentes acompanhem a “Tocadora de Alaúde” diante da mesa posta com flores, frutos e um violino em repouso para os momentos mais secretos entre Praga e Budapeste, aonde a lua – só para eles – será de mel! Que o rosto da linda noiva se sobreponha ao da alaudista e ofereça ao noivo a face rosada, o lado tenro da pele de pêssego para a primeira mordida.
Isten éltesen”, dirão os húngaros, Deus lhes dê felicidades!

Tinê Soares – 25março/2009

7 comentários:

Elaine de Amorim disse...

Tinê e suas viagens através dos sentidos, todos! Estou hoje em Natal-RN, esperando a meu marido que tem exatos 9 meses não nos vemos. Ele vem de Salamanca!!!! Beijos! Faltam só 20 minutos para o avião chegar!

ZINA disse...

Pois é amiga...
como sempre, com sua perspicácia...
você conseguiu, falar de vários assuntos...
e ainda nos mostrar várias obras de Miguelangelo de Caravaggio...
a cada citação vinha à minha mente suas obras...
Vi por alguns segundos muitas cobrinhas... e a boca da medusa...
e porque não dizer que quase ouvi a Tocadora de alaúde..
não fora os trovões lá fora...
E me veio aquelas cenas do calvário de Cristo...
Pois é acertou, gostei mesmo...
Que os noivos sejam felizes para sempre...afinal, o que vale mesmo é isso...

SER FELIZ!

BEIJOS...

Lygia Nery disse...

Que delícia passear pelos quadros da sua imaginação, Tinê!
Suas ilações (em chiaro-oscuro) entre a arte e a vida são nada menos do que geniais!

ze disse...

'tá bonita mesmo a crônica. a medusa ficou encabelada de cobra porque transava em lugar sagrado junto de um altar. do sangue que pingava dela caindo no mar não saíram Pégaso e outros seres? ou me engano?

Ed disse...

Fiquei aqui me perguntando uma bobagem: por que Caravaggio? Daí me lembrei do filme da década de 80 (aliás, preciso comentá-lo um dia, mas antes, preciso reassistí-lo - rs). Fiz tantas associações que talvez nem tenham sido intenções suas.. pensamentos meus, claro. Além do que, v. discorre com uma leveza e ao mesmo tempo com tanta intesidade que nos deixa tontos. Sério! E adoro isso. Então.. um VIVA aos noivos. Que eles se embriaguem na felicidade prometida! (eu aqui, me embriago com suas palavras-imagens...) Bjão.

Sizenando disse...

ôi, tinê, nem comento nem elogio pque sabe que já vou sempre gostando de tudo que escreve - e fotografa.
passei pra avisar que já transferi o "velho amigo" pra galeria de artes roubadas, agora em novas instalações. o do bruno tbém já tá lá.
vai lá ver como ficou:

http://sizenando.opsblog.org/?page_id=226

bêjo me liga!

josemauros disse...

desta vez decidi imprimir seu conto afinal assim daria para ler sem pressa, e o fiz, porém tantos dias depois é que consigo voltar para comentar Caravagio, rs.

Lupicínio Rodrigues escreveu:
estes moços, pobres moços... ha, se soubessem o que eu sei, não amavam, não passavam aquilo que eu já passei, por meus olhos, por meus sonhos, por meu sangue... tudo enfim, é que eu peço a estes moços que acreditem em mim.

Já eu acredito que é preciso estar disposto pra se viver, e esta disposição nós chamamos casamento.