16.8.09

Crônica da Maysa : Duas imagens e um enigma


Ela não sabia mais sobre seus próprios sentimentos. Nem arriscava entendê-los. Aperceber-se do sentir sim, ainda era do mesmo jeito, intenso. Mas, o tempo daquele convívio trazia pistas falsas, pulos sem rede e, o frio constante confundido, por quem nunca arriscou a mudança de caminho, o refazer do destino, com o medo trivial.
Não era só isso. Algo muito desconcertante acontecia quando se encontravam. Haveria um outro encontro?
Ele, uma aparição, vinha quando queria e avisava em cima, no dia, nunca antes. A esperada surpresa agia como fator decisivo. Para o sim ou para o não.
Ela miragem. Não se exaltava, ondulava num salto cinco imaginário, manejava bem equilíbrio e elegância. Seus sentimentos, na aparência sob controle; sobretudo o desejo, o tesão que sentia por aquele homem que pouco exercia, em seus braços, a entrega.
Nada combinado.
Os encontros duraram anos. Mudanças imperceptíveis aconteciam entre os amantes. Problemas pessoais, algumas vezes, interferiram. Um código não explicitado, mas acolhido pelo par, refazia , reajustava.
Ela nítida. Vista, sentida e pressentida da cabeça aos pés. Parecia concreta, telúrica, barro, mãe terra.
Ele difuso, escorregadio, homem sombra, lembrava uma pintura de Flexor, ao final da vida. Ali, naquelas telas, vestígios das formas portentosas, diluindo-se com a aproximação do fim. Era o que retirava o tom cinza daquele homem, o impreciso tesão ou o afeto que nutria...
Ela perdia, a olhos vistos, o viço. Não era ressentimento, mais que isso... Cansaço pela espera, as caminhadas longas.
Umas leves, outras árduas, sem nunca saber onde podiam dar.
Viver, refletir, sentir... A ordem ou os movimentos mudam!
Caminhava nela mesma e muitas vezes se sentia perdida. Caminhava nele e nunca sabia onde pisava, um lugar de descanso ou deslumbre!
Amar... Verbo - mesmo- intransitivo.

Santa Teresa, 09 de agosto de 2009.
(Citado no texto: Flexor, Samson - artista plástico romeno.( Soroca 1907, S.Paulo 1971)
NR: Esta crônica de Maysa foi feita a partir de uma ilustração deste blogueiro que vos fala.

9 comentários:

Dinho disse...

Ótima a crônica. Parabéns Maysa! A cada dia o seu talento se torna cada vez mais evidente!
Parabéns ao blog pela publicação da crônica!

LIBERATI disse...

Caro Dinho, o blog agradece os parabéns e o privilégio de publicar Maysa.
Um abraço

Amalia disse...

Maysa sempre sensível e doce...Parabéns pela publicação - muito lindo!
Abração,
Amalia

ze disse...

'tá bonito mesmo o texto. amar dá trabalho. seja v. transitivo ou intransitivo. não é aconselhado aos preguiçosos, eu acho. T. Jobim falou isso. Contudo, o quê mais há ? além de amar ?

Ninfa Parreiras disse...

Ele no texto ilustrado, ela no texto escrito. Liberati e Maysa dão as mãos num relato bem contemporâneo, feito das diferenças entre aqueles dois que se encontram e se amam, numa singularidade. Para amar é preciso mesmo de coragem. Parabéns aos dois criadores!
Ninfa Parreiras

Edna disse...

Maysa
Sua crônica me provoca o desejo de ser inteira , expressando minhas emoções, rompendo com padrões
A plenitude existencial precisa desse exercício
Entrega, reflexão, diálogo, cumpricidade, companheirismo, assumir nossas fragilidades, que se transforma em força quando dividida
Necessito dar leveza à vida e apurar meu senso beleza, suscitando no outro esse sentimento
Um abraço carinhoso
Edna

Maysa disse...

Querido Lib

Parece que nossa parceria agradou!
Será?
Estou feliz e honrada.Generosidade e coragem são traços do blogueiro que me acolhe.
Encabulada,a cada dia que por aqui passo.Motivo:Gosto muito de suas ilustrações.E como elogiar todo novo post?
Nunca esqueça: Silêncio, no meu caso, é elogio comovido.
A originalidade de artista, você mantém tão viva que nos acorda para as tantas realidades! Ilustrá-las, desafio de criador.
Por que não publica um livro caprichado com essas pequenas e grandes obras de arte? Para provocar: Faço com deleite uma das orelhas e o título bem pode ser:
ILUSTRANDO ... traços após traços.
Agradeço aos que passaram por aqui trazendo, carinho, estímulo, indagações e afirmações!
Beijão
Maysa

LIBERATI disse...

Querida Maysa, um livro é uma boa idéia. Foram 30 anos de trabalho no JB, de trabalho na redação mesmo, ali no dia a dia. Tenho um material muito grande que precisa ser classificado e selecionado para um livro. Preciso botar a cabeça em ordem para tocar esse projeto. Agradeço a sua generosidade e aos amigos que passaram por aqui e deixaram comentários , vamos vazer uma nova dobradinha. Agora você escreve um texto e eu procurarei ilustrar.
bjs

Marilda disse...

Maysa, seu talento já conheço de longa data, devo dizer desde quando, ou é melhor ficar só entre nós?Parabéns.
Bjs,
Marilda