21.1.10

Conto: 35, janela.


A paisagem passa como um filme na horizontal, slides que parecem se repetir: casa, casa, casebre, casinha, fábrica, mato, quintal, terreno baldio,casa, casa, barraco, montanha, morro, vaquinhas dependuradas, formigueiros, ao longe uma olaria... nuvens figurando bichos, elefantes enormes, rostos de deuses da mitologia fazem do céu azul um lugar interesssante de se perder a vista.
Quero que voce se foda! O senhor deve estar pensando - Que coversa mais maluca esta? Dei azar de encontrar um doido falador. O senhor deve querer ficar aí imerso na mistura de seus pensamentos, sensações, sentimentos, lembranças, desejos, devaneios, culpas, objetivos, sonhos, impossibilidades, raiva, mágoas, invejas...destruindo e reconstruindo sua história pessoal. O presente - esta monotonia de ficar sentado horas a espera de chegar à rodoviária, o futuro: uma agenda cheia de compromissos ou afetos... E o presente?
Pois é, eu, sou o chato da poltrona da janela. Acredito que tenho uma missão nessa terra, mas nem sei qual é; talvez a de entreter meus companheiros de viagem ...tudo na vida é mistério. O senhor , é claro, gostaria de viajar sozinho. Deveria ter comprado dois bilhetes...Deve estar arrependido, mas agora é tarde, para nós dois.
Olha mané, essa máquina é minha, foi o Cara que me deu, não vem querendo tomá na mão grande. Eu peguei o baguio antes m'ermão, sarta de banda, que minha mina vem aí. Minão! Espaia, demorô! O Cara disse pra eu tomar conta e daqui eu não saio. Fala com ele, mané. E tu é hômi de falá?
- Vai ter volta, mané, sapo vive no brejo, manezinho...
- Chega mais, mina, quer ver a máquina? Quer um baguio? Tem um tiquinho aqui no bolso da bermuda. Vem pegar, vem...

Sei que o senhor nem quer saber que eu tenho dúvidas. Eu nem acho que me adianta resolver algumas... coisas que não consigo entender, como essa teoria da não existência de um sujeito cartesiano. Sabe esse negócio do sujeito ser apenas quase que um "cavalo" de uma idéia, de um discurso , algo que está falando através dele, que preexiste a ele? Sinto que na vida nós também vivemos essa escrita... mas são apenas conjecturas, nem entendo uma coisa e já adapto para tentar entender outra...he he he, tudo em mim é fragmento...
Já sei, está pensando que sou um fatalista. Que pertenço à alguma crença, que beiro o esoterismo. Não sei não - me incomoda saber que esta paisagem que vimos agora vai se repetir para outros olhos, em outro dia, e não será a mesma. Será vista de modo diferente, por outras pessoas que se acham tão livres e independentes como nós. Penso na catedral de Rouen pintada por Claude Monet em diferentes horas do dia, tentando captar o efeito da luz. Vi três ou quatro dessas pinturas lá no Museu d'Orsay que um dia foi uma gare. Gosto de pensar que estamos todos conectados, e olhe que não importa o tempo - se passado, presente ou futuro. Tudo como se fosse palimpsesto. Alguém nos precedeu e outros tomarão nossos lugares nesses assentos de ônibus e depois virão outros ônibus...outras rotas...aquele morro será um dia achatado. Acho que estou falando demais. O senhor não deu um pio, se limita a cabecear como se concordasse e olhar para esse livro antigo. É um romance, um manual? Interessante essa história de manuais. Deveria existir um manual para viver. O senhor deve estar querendo que eu morra. Morrerei sim, um dia, de repente. O ar me faltará e minha vista se turvará. Dizem que a cegueira é branca, li no Saramago que decerto inventou essa cegueira leitosa. Um dia tive uma experiência de semi-cegueira, quando me expus demais à luz do computador e fiquei com a vista afetada de um modo peculiar: faixas brancas cruzavam as imagens que eu via , em sentido horizontal, como se estivesse atrás de uma persiana...foi um horror, depois fiquei sabendo pelo oftamologista que consultei, que algo gelatinoso tinha se descolado dos meus olhos. Recomendou que eu descansasse a vista. E hoje me lembro que as listras que me impediam de ver a imagem inteira eram brancas. A propósito de que estou falando disso? Perdi o rumo da nossa conversa - ou do meu monólogo, como queira...
Xi, lá vem o mané de novo! Que você quer, mané? Não vê que eu estou de boa aqui com a mina, tá ligado? Espáia, mano, espáia!...O baguio aqui acabou, já cherâmo tudo.
Peraí, você tá me mostrando essa ferramenta, ou vai apertá?
Deita aí mina! Tome...Tome...Feladaputa, me acertou!...Ih! Isso dói, porra, isso dói!
Agora vou ter que procurá o Cara... Porra você me acertou, mas tomou dentro, mané, tomou um pipoco, nem se mexe,o infeliz... agora vai comer grama pela raíz..Dá até pra fazer um rép, otário! Acho que o Cara vai te mandar pro microondas...Xi, a mina também apagou!

O senhor se assustou com meu movimento brusco? Eu também. Olhe, tem um buraco na janela... alguma coisa queimou aqui na minha costela, foi como uma pontada...percebo que estou com o casaco molhado...Sinto dizer, meu caro, que fui atingido por uma bala...deve ter vindo de um lugar distante, pois senti só essa agulhada...E veio de cima, pois furou a janela e me atingiu no tórax. Creio que vou parar de falar...O senhor vai ficar aliviado, acho que minha miss...

4 comentários:

TS disse...

Caro Liber, viajô na jaca-manteiga? Até a ilustra desfocô. Acho a experiência de usuário de bus sufocante e assustadora; eu tive várias experiências desagradáveis, da zona sul à norte.

Acho legal a recriação da língua.
Fosse vivo, o Luizinho Camões não entenderia bulhufas.
Só não podemos empobrecer nossa língua.
Estou preparando croniqueta pro Carnaval em homenagem à minha Lou-Salomé...


Diz pra Maysa que li a crônica dela e já esqueci o cheiro azedo dos pés-sujos, da fuligem na cara enquanto se espera o sinal abrir, das freadas bruscas, dos trombadinhas, das balas-perdidas, das longas esperas, mas morrrrro de saudade de minha terrinha invadida por não-cariocas!
Vc sabia que apenas 5% dos visitantes do Pão de Açúcar são cariocas? E apenas 1% (UM) já entrou no Teatro Municipal para assistir a um espetáculo, popular ou nobre?
O carioca não dá valor ao que tem e deixa os outros "estragarem" a cidade.

Olha, dá um jeitinho de conseguir a camiseta do Nássara, mesmo que chegue atrasada, é só dizer pronde eu mando a $ e darei o endereço da entrega. Obrigada. Bjj.

LIBERATI disse...

Querida Tinê, é isso aí, o texto flutua em fragmentos de falas e atos que acontecem simultaneamente e são distintos como duas pátrias e pior - entre os dois que estão no ônibus há um deserto embora tudo esteja conectado - segundo o chato do assento 35 que fica junto à janela.
Não acredito que houve um empobrecimento da língua. Com a leitura de Euclydes eu percebi o quanto ela se modificou, depois fui conferir em Coelho Neto (Sertão) e em Afonso Arinos (Pelo Sertão) e li outra língua no que Antonio Candido chamou- com certo desprezo- de "conto sertanejo"
Vamos falar da camiseta. Vou tentar falar com o Egeu - que me disse que não trata dessa coisa que fez somente o lay out da tal vestimenta.
Vou ver quem vende e te digo depois.
bjs

LIBERATI disse...

Fale direto com a Maysa, acho que vocês vão construir um belo diálogo, pois escrevem bem e amam o Rio.
bjs

ze disse...

separei umas jacas-pau pra comer depois mas estragaram com o calor intenso. teoricamente as idéias existem no mundo das idéias, em si, e Descartes seria platônico, eu acho. tb aristotélico posto que não há porque separá-los, vide quadro da Academia de Raphael, que se colocou em um degrau, com Diógenes no degrau do meio esculacho no chão, e o mundo da razão todo espalhado em volta. as idéias em si no mundo delas são os anjos mesmos ,criaturas intelectuais. incorpóreos. está uma beleza o texto. tz a idéia em si seja a linha de ônibus que permanece existindo para além dos ônibus que nela passam. sei lá. felicidades.