25.2.15
Texto de Jorge Sanglard: Reflexões sobre a rapsódia do Brasil - 87 anos da publicação de Macunaíma , 122 anos do nascimento e 70 anos da morte de Mário de Andrade
Reflexões sobre a rapsódia do Brasil
Macunaíma 87 anos – Mário de Andrade 122 anos do nascimento e 70 de morte
A obra-prima modernista de Mário de Andrade (09/10/1893 – 25/02/1945) “Macunaíma” completará 87 anos em julho de 2015 e o Brasil celebrará em outubro de 2015 os 122 anos do nascimento do escritor. Neste 25 de fevereiro, fazem 70 anos que o Brasil perdeu Mário de Andrade. Os 800 exemplares da primeira edição de “Macunaíma” e suas 288 páginas marcaram a literatura brasileira de forma definitiva. Apesar da frase “Ai, que preguiça!” simbolizar o estado de espírito do “herói sem nenhum caráter”, o certo é que nos 87 anos de presença na vida cultural brasileira “Macunaíma” permanece desafiando o tempo e provocando reações as mais diversas. Amado por uns e questionado por outros, o livro é uma autêntica imersão nas coisas do Brasil e, sem dúvida, é um dos marcos da língua portuguesa no século XX.
Até o Carnaval do Rio de Janeiro abriu alas para o personagem de Mário de Andrade, em 1975, quando a Escola de Samba Portela cantou na avenida o samba-de-enredo “Macunaíma”, de David Corrêa e Norival Reis: “Vou me embora, vou me embora / eu aqui volto mais não / vou morar no infinito / vou virar constelação / Portela apresenta, do folclore tradições, / milagres do sertão a mata virgem / assombrada com mil tentações / Macunaíma, índio branco catimbeiro, / negro sonso, feiticeiro, / mata a cobra e dá um nó...”.
Para marcar o cinqüentenário da obra de Mário de Andrade, em 1978, Telê Porto Ancona Lopez lançou uma edição crítica de “Macunaíma” (LTC) apresentando o texto da rapsódia ilustrado por oito guaches de Pedro Nava (05/07/1903 – 13/05/1984), feitos em 1929, e buscando desvendar o processo literário do escritor, além de refletir sobre as múltiplas leituras que o livro suscitou. Esta edição comemorativa também trazia outras ilustrações realizadas em épocas diferentes: um desenho a nanquim e lápis de cor de Cícero Dias, um desenho a lápis de cor cinza sobre papel e uma pintura de Tarsila do Amaral, duas águas-fortes de Carybé, um desenho a tinta sobre papel de António de Alcântara Machado (Totó), um desenho de Del Pino, uma ilustração de Euclides L. Santos e uma gravura de Santa Rosa para a capa da segunda edição, publicada em janeiro de 1937, pela José Olympio Editora, com mil exemplares. A força de “Macunaíma” continua sedutora, oito décadas depois, e ainda inspira leituras diversificadas.
Autêntico ícone modernista brasileiro, “Macunaíma” inspirou também o saudoso artista plástico mineiro Arlindo Daibert (12/8/1952 – 28/8/1993) e ganhou adaptações no cinema e no teatro no Brasil. Em 1969, a obra foi filmada pelo cineasta Joaquim Pedro de Andrade, utilizando, sempre que possível, as palavras do livro. Eduardo Escorel assinou a montagem, Carlos Alberto Prates Correia foi o assistente de direção e no elenco despontavam Grande Otelo, Dina Sfat, Paulo José, Milton Gonçalves, Jardel Filho, entre outros. E, em 1978, o encenador Antunes Filho dirigiu uma premiada adaptação teatral do Grupo Pau Brasil e de Jacques Thiériot, tendo como cenário a floresta amazônica em meio a sons de água e barulhos de pássaros, de ramagens e de animais. Essa rede mágica sonora ambientava toda a ação das personagens.
Em 2008, a cantora Iara Rennó lançou o CD “Macunaíma Ópera Tupi” -"Macunaó.perai.matupi" (Petrobras – MinC), trazendo músicas de sua autoria a partir de letras extraídas de trechos da obra de Mário de Andrade. A cantora afirma que as formas da música popular folclórica do Brasil se misturam com a música contemporânea que ela ouviu. A partir daí, diz Iara, surgiu este disco, conservando e corrompendo a tradição, colando e recriando, bem ao gosto do poeta e ao sabor da obra, “na fala impura”.
O disco conta com diferentes produções em cada música, articulando artistas como Siba, Kassin, Moreno Veloso, Benjamin Taubkin, Beto Villares, Alexandre Basa, Maurício Takara, Daniel Ganjaman, Quincas Moreira e Buguinha Dub. E ainda traz como convidados Tom Zé, a banda Fuloresta, Arrigo Barnabé, Dante Ozetti, Funk Buia, Barbatuques, Tetê Espíndola, Toca Ogã, Da Lua, Bocato e Anelis Assumpção. Segundo Iara, o CD foi distribuido em escolas públicas de ginásio e segundo grau em todos os estados do Brasil, como complemento de estudo da obra “Macunaíma – o herói sem nenhum caráter”. O projeto “Macunaó.perai.matupi” ou “Macunaima Ópera Tupi” nasceu a partir de um estudo de “Macunaíma”, quando Iara cursava literatura na Faculdade de Letras da USP.
Pedro Nava criou os oito guaches a partir de “Macunaíma” para devolver uma provocação do amigo Mário de Andrade, que tinha enviado o livro com a dedicatória: “A / Pedro Nava, / pouco trabalhador, / pouco trabalhador, / o / Mario de Andrade / São Paulo 14 / VIII /28”. Ao aproveitar as páginas em branco da primeira edição, Nava desenhou sua visão de Macunaíma e devolveu-a a Mário estabelecendo um diálogo criativo intenso e vigoroso. Na verdade, muitos anos antes de se tornar o maior memorialista brasileiro, Pedro Nava transitava no desenho com desenvoltura e personalidade instigante. Estes oito guaches são a prova incontestável.
A arte de Arlindo Daibert (também juizforano como Pedro Nava), 20 anos após a morte do artista plástico mineiro (em 28 de agosto de 1993), é outro testemunho vivo da ousadia e da inventividade de quem sempre encarnou a criação como um desafio e um estímulo, além de um compromisso com a produção do saber. O legado de Arlindo Daibert deixa explícita a inquietação, a precisão e a afiada percepção de um artista em permanente processo de reflexão sobre a linguagem do desenho. O livro “Macunaíma de Andrade” (Editora UFJF), com trabalhos de Daibert, editado em 2000, representou um verdadeiro mergulho na essência de “Macunaíma” e uma autêntica rapsódia, com direito a novas apropriações e à exploração de muitas outras vertentes.
Assim, a editora prestou não só um tributo à memória de um dos mais significativos artistas brasileiros da segunda metade do século XX como reafirmou a intenção de manter ao alcance do público uma obra impregnada de inquietação do primeiro ao último traço, da primeira à última linha. A interpretação visual de Arlindo Daibert merece ser exposta permanentemente para que mais e mais pessoas vislumbrem toda sua criatividade e, a partir daí, ampliem o debate sobre o papel de Mário de Andrade na renovação da literatura brasileira e como fonte inspiradora e questionadora.
Arlindo Daibert criou 58 imagens em técnica mista, lançando mão do desenho, pintura e colagem, e outros 10 esboços, reafirmando o diálogo com a rapsódia de Mário de Andrade e acentuando a forte influência da matriz geradora marioandradina. A cada nova leitura, seja nas artes plásticas, seja na música, ou cênica, ou ainda cinematográfica, “Macunaíma” permanece oito décadas após seu lançamento como uma matriz expressiva e sedutora. Na apresentação do livro de Daibert, Telê Porto Ancona Lopes diz tudo: “Nessa navegação que se apropria do texto com alta exigência no artefazer, ‘Macunaíma’ se transforma, de fato, em ‘Macunaíma de Andrade Daibert’, soma de universos”. E é exatamente a possibilidade de permitir esse entrecruzamento de universos que faz da obra-prima de Mário de Andrade uma fonte permanente de inspiração, mesmo passados oito décadas da primeira edição.
A relação essencialmente inventiva expressa pelo artista plástico nos desenhos, pinturas e colagens de sua reflexão sobre “Macunaíma”, reafirma o compromisso inventivo de Arlindo Daibert. Toda a força criativa desta interpretação aberta da obra de Mário de Andrade pode ser percebida e acompanhada no Diário de Bordo, que revela como o artista juizforano iniciou um estudo detalhado da obra de Mário de Andrade e passou a se enveredar nas artimanhas de “Macunaíma”, entre 1981 e 1982, para elaborar uma de suas mais intensas séries. Como muito bem ressaltou o jornalista e crítico de arte mineiro Walter Sebastião, ao escrever sobre “Imagens do Grande Sertão - Arlindo Daibert” (Editora UFMG – Editora UFJF), lançado em 1998, a incrível rede de significados elaborada por Daibert exprime a síntese de toda a sua inteligência no manuseio de signos/símbolos e toda a sua habilidade artesanal. Tanto ao se enveredar pela rapsódia de Mário de Andrade quanto pelos caminhos do “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, Daibert assumiu riscos, enfrentou o desafio de peito aberto e criou uma obra maior, onde a reflexão marca presença em cada momento, com a interpretação do artista plástico abrindo perspectivas novas sobre o original de escritos tão díspares e tão contundentes.
Um artista capaz de deixar fluir uma forte crença na responsabilidade cultural de sua arte, Daibert sempre se recusou ser um mero “produtor de imagens” e defendia como compromisso do artista a produção do saber. Assim, Arlindo não levou em conta o contexto pessoal do escritor Mário de Andrade e não fez uma releitura técnica de “Macunaíma”. Afinal, não se trata de umailustração para a obra marioandradina. Na verdade, Arlindo ousou criar sem limitações, tendo como ponto de partida o estímulo literário.
No livro “Macunaíma de Andrade”, o saudoso artista plástico mineiro conseguiu, mais uma vez, romper limites e refletir sobre a linguagem do desenho. O desafio da criação nunca intimidou Arlindo Daibert, pelo contrário, sempre serviu como estímulo. Ao criar as imagens de “Macunaíma de Andrade”, Arlindo Daibert explorou toda a diversidade de situações presente na obra-prima de Mário de Andrade, deixando muito claro que, ao realizar seu trabalho, seja em desenho seja em pintura, ou ainda em colagem, o fundamental era exercitar uma linguagem de encarar o mundo. E ressaltava que não se podia confundir um método de raciocínio com apenas uma produção de imagens. A característica da linguagem gráfica de Arlindo Daibert não poderia deixar de ser a criação da imagem, mas sempre como conseqüência e não como fim de seu projeto. E o artista plástico explicitava este ponto de vista: “O meu projeto não é criar imagens, o meu projeto é refletir sobre as coisas através das imagens”. Isso criou uma dinâmica capaz de não prender a criação de Daibert a nenhuma fórmula gráfica, a nenhum estilo gráfico.
O artista plástico ainda confidenciou: “Eu tenho um estilo de raciocínio e não um estilo gráfico. Os meus estilos gráficos se adaptam às problemáticas que eu estiver refletindo em cada momento”. Este era o grande trunfo de Arlindo Daibert como um artista afiado e afinado como seu tempo. Avesso a concessões e a limitações, Daibert fazia da ousadia de dar um passo à frente o estímulo para continuar caminhando até o infinito. Essa percepção mágica diferenciava Arlindo e está viva e presente em sua arte.
Amigo de Arlindo Daibert e guardião de suas três mais importantes séries reunidas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – “Macunaíma de Andrade”, “Imagens do Grande Sertão” e “Alice” –, o colecionador Gilberto Chateaubriand ressaltou a genialidade do artista plástico mineiro: “Arlindo, no seu período de vida, foi talvez o mais completo desenhista que nós tivemos, porque ele aliava não só a habilidade e a técnica do traço, mas também a cultura e a pesquisa. Basta conferir os desenhos surrealistas do início da carreira, como também os de fundo mais histórico e narrativo, e até os que traziam um contingente autobiográfico”. Em seu pouco tempo de vida, Arlindo deixou uma obra expressiva e consistente tanto qualitativamente quanto quantitativamente. É justamente aí, segundo Chateaubriand, que se observa sua genialidade, porque era um criador frenético e sempre decidido.
Ao receber da família de Daibert a série “Imagens do Grande Sertão”, após a morte do artista plástico mineiro, complementando o acervo em sua coleção de arte contemporânea, Chateaubriand revelou: “É com muita emoção e muita saudade que recebi esta obra, porque uma das últimas visitas, senão a última visita, que recebi de Arlindo foi justamente para me dizer que fazia absoluta questão que a série sobre o livro ‘Grande Sertão: Veredas’, finalmente, compusesse a trilogia com os trabalhos que eu já tinha dele. E que eu destinasse sempre os trabalhos para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o MAM, onde ele sempre mereceu uma acolhida generosa”.
O poeta e pesquisador Júlio Castanõn Guimarães, no livro “Caderno de Escritos” (Editora 7Letras), afirmou que o artista, tendo iniciado brilhante carreira no início dos anos 70, impôs-se logo pelo virtuosismo de seu desenho. “Nos cerca de 20 e poucos anos em que desenvolveu sua atividade, incorporou a esse traço inicial uma série de outras peculiaridades, em que se destacava a permanente discussão da própria criação artística”. A importância de Arlindo Daibert como artista plástico, segundo Júlio Castanõn, já foi devidamente −embora não suficiente − ressaltada, não só pela sua curta trajetória, mas também pelo reconhecimento dos principais críticos de arte do país.
Sua intensa e múltipla produção era acompanhada de (e refletia) uma permanente preocupação com questões que ultrapassam os limites da técnica, ressaltou Castanõn: “A reflexão, a indagação, a especulação sem dúvida foram determinantes em seu percurso. Dos bicos-de-pena iniciais, ligados a uma tendência ao fantástico, até os objetos de fria e violenta elaboração conceitual, o caminho não envolveu apenas um arrojo de pesquisa, mas também um embate com a noção mesma de produção artística”.
“Um franco atirador que jamais erra o alvo”. Assim, o jornalista, crítico de arte, ex-secretário estadual de Cultura em Minas Gerais e atual prefeito da histórica Ouro Preto, Angelo Oswaldo, definiu o artista Arlindo Daibert, lembrando que ele enfatizava a individualidade como condição imprescindível numa época de padronização e massificação da própria subjetividade. “Incentivador de projetos à sua volta, na qualidade de professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e curador de exposições, alimentava o crescimento de valores novos, ao mesmo tempo em que reabastecia para o desafio da criação”.
Amigo e conhecedor de sua obra, Angelo Oswaldo considera Arlindo Daibert um dos mais importantes artistas da contemporaneidade brasileira. “A morte dele interrompeu uma trajetória que nos levaria definitivamente a umadas obras mais significativas do século XX”. E ressalta, ainda, que o artista foi responsável por ter colocado Juiz de Fora como um centro de referência de vanguarda no cenário artístico nacional.
A interação entre a literatura e visualidade, ponto essencial da proposta artística de Arlindo Daibert, é apontada por Angelo Oswaldo como uma contribuição ímpar: “Há um processo de integração entre a literatura e a visualidade − que ele soube resolver muito bem − em que a força da linguagem se transforma na grande energia autônoma da expressão visual. Ele conseguia extrair a poética da literatura e dar suporte à sua expressão visual, sem violentar a autonomia da imagem”. Segundo Angelo Oswaldo, a obra visual de Daibert deve um tributo à literatura, mas é também autônoma, pois cria sua linguagem própria a partir de símbolos literários. “Dentro das artes plásticas brasileiras, talvez seja a obra mais intelectualizada, porque Arlindo trouxe para o campo da criação plástico visual toda a sua rica cultura nas áreas de literatura, lingüística e filosofia”.
Daibert abordava de maneira singular, como desenhista, pintor, criador de objetos e instalações, obras de autores como Mário de Andrade, Murilo Mendes, Guimarães Rosa e Lewis Carroll, entre outros. Além do legado artístico, em termos de acervo, Arlindo deixou um trabalho muito importante para a cultura de Minas Gerais e do Brasil, contribuindo, de modo especial, para a revalorização da presença do poeta Murilo Mendes (1901-1975) no país e para a instalação em Juiz de Fora do Centro de Estudos Murilo Mendes, atual Museu de Arte Murilo Mendes, instituição da Universidade Federal de Juiz de Fora, que abriga a obra e a pinacoteca do poeta juizforano.
Depoimentos sobre Macunaíma e Mário de Andrade//
(Textos exclusivos coletados por Jorge Sanglard)
“Já se disse que Mário de Andrade foi ‘autor de grandes obras falhadas’ e foi ‘segundo em todos os géneros’. O que não deixa de valer como grande elogio quando se sabe da existência de muitas obras primas que são capelas imperfeitas ou da quantidade de géneros cultivados pelo autor de Amar, Verbo Intransitivo. E quando se sabe que ele viveu pouco mais de meio século, bem menos, por exemplo, do que os outros grandes Andrade do modernismo. De qualquer modo, não se pode negar que há um género em que ele foi primeiríssimo - a epistolografia. Convencido de que tinha que cumprir uma missão cultural num país atrasado, mas também com a vaidade ou a veleidade de ser ‘papa do modernismo’, inundou o Brasil com cartas, gastou muito do seu tempo, num tempo sem internet, a catequizar ou a dialogar por escrito com os seus pares e com qualquer bicho careta que o contactasse. Nas suas incontáveis (até hoje) mensagens nem sempre a evidente cordialidade ou generosidade disfarçava alguma impreparação filosófica e alguma viciada teorização. Por exemplo: sobre o Brasil, que tentava a todo o custo ‘unificar’, ele que surpreendeu o arlequinesco de S. Paulo, ou a sua própria fragmentação (‘Eu sou trezentos’...), ou sobre a língua, para que inventou uma divertida Gramatiquinha, ou sobre Portugal, que em carta a Drummond chegou a dar como ‘paisinho desimportante para nós’. Escrita por sinal quando em Portugal andava Pessoa, essa frase podia traduzir um normal ressentimento anti-colonialista, que aproximava o seu autor de integralistas ou de primários lusófobos então com sucesso garantido, mas até como “boutade” pareceria imprópria de um autêntico modernista, ou de um autêntico brasileiro, que ainda por cima se queria folclorista e etnógrafo.
Poucos anos antes de morrer, Mário viria a confessar que o seu antigo desprezo pela cultura ‘portuga’ só se devia à sua ignorância dela. Mas numa das (significativamente, poucas) cartas que mandou para Portugal, uma carta-dedicatória inédita dirigida a Adolfo Casais Monteiro, já em 1934 ousava escrever, também com exagero: ‘Talvez dentre os brasileiros da minha geração nenhum esteja tão próximo dos portugueses quanto eu’. E para que o seu destinatário não caísse das nuvens, logo se justificava dizendo que o ‘gosto de diferenciação’ representava psicologicamente nele ‘mais um traço de amor’: ‘Amar Portugal por Portugal, por ser português, e não porquê /sic/ seja tradição minha’”.
Arnaldo Saraiva/
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“Coincidência: 1928 foi o ano em que Mikahil Baktine pubilcou seu estudo sobre a poética de Dostoievsky, implantando os princípios da carnavalização. Mário de Andrade, carnavalizador e arlequim por natureza, não soube, nem poderia saber desse livro de Bakhtine ao publicar Macunaíma no mesmo ano. O livro de Bathine só foi traduzido para o Ocidente, via França, nos anos 1970. Mario morreu em 1945. Mistérios da criação literária e da pré-visão da crítica. Hoje, existem muitas teses sobre Mário e Bakhtine; eu mesmo, nos anos 1970 dei vários cursos sobre o fenômeno da carnavalização, considerando Mário e seus poemas e sua ficção. Mais: o modernismo brasileiro pode ser estudado, como a vanguarda em geral, como um momento carnavalizador. O riso e a paródia como construtores de outra estética”.
Affonso Romano de Sant’Anna/
“De fato, é difícil se imaginar a literatura brasileira de hoje sem a existência de Mário de Andrade. Ele refez a trajetória do herói romanesco brasileiro, que tinha nas sutilezas irônicas de Machado a sua marca indelével. ‘Macunaíma’ aposta na carnavalização da vida vivida abaixo do Equador. E reencena a língua portuguesa, no sentido de explorar uma linguagem com uma brasilidade frenética, grotesca, desproporcional, patética. Esse romance parece se entreter muito mais com uma atmosfera epopéica (mesmo que paródica) do que na ordem do romance burguês, voltado com freqüência para a lenta formação de um protagonista de talhe realista, com uma narrativa conduzida com certa erudição na revelação dos detalhes físicos e anímicos. Acho que, sem Macunaíma, o ensaísmo do escritor brasileiro, de propagação modernista, correria o risco de, com o tempo, se esfarinhar. Em ‘Macunaíma’, sai do palco o herói problemático do Século XIX e entra um personagem-síntese dessas pulsões ao sul do mundo, caótico em sua complexidade, manhoso, teatral. Sim, era possível chegar aí. E Mário chegou”.
João Gilberto Noll/
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“Mário de Andrade dialogou com o Brasil inteiro, oral e escrito, e queria romper com o retrato do Brasil de feição luso-estrangeirada, eurocêntrica. Compôs num fluxo ‘Macunaíma’ (rascunhado em 1926) na seqüência de estudos folclóricos e antropológicos, nos quais pretendia surpreender o rosto da ‘entidade nacional dos brasileiros’. Romance (ou poema herói-cômico) cujo protagonista, tendo mais de uma face, é cognominado ‘o herói sem nenhum caráter’. Ou seja: sem feitio moral ou sem característica. O relato escapa das convenções, quer na articulação causal-temporal, quer no emprego da língua, inçada de desafios morfo-sintáticos. Ao apresentar o seu ruidoso livro, Mário de Andrade reúne algumas características do brasileiro que se aprofundaram com o tempo: a honradez elástica, a gatunagem sem esperteza, o improviso, a falta de censo étnico (que os novos colonizadores estadunidenses tentam impingir-nos sob a forma de racismo em cotas, compartimentado, não miscigenado), a sensualidade pornográfica, presente no que o romancista chama de rapsodismo popular. Mário de Andrade quis pensadamente desgeograficar o seu herói, o que significa desprovinciar o Brasil. Mas as várias anotações que fez para explicar a obra contêm ainda certo absolutismo do autor, traço hoje em dia contestado, quando se admite que a cada leitura corresponde uma interpretação, uma obra diferente, porque o leitor é que dá sentido às palavras do autor. Entretanto, ‘Macunaíma’ se tornou marco da novelística brasileira”.
Fábio Lucas/
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“Para mim, há dois grandes pensadores da cultura brasileira. José de Alencar, no Século XIX, e Mário de Andrade, no Século XX. E, curiosamente, de certa maneira, Mário de Andrade retoma alguns temas e reflexões de Alencar, pois ambos propõem a fundação de uma cultura nacional, integradora, que, embora respeitando as características regionais, deságue num todo homogêneo. ‘Macunaíma’ é a realização ficcional dessa proposta. É o primeiro, e talvez único, romance regional nacional brasileiro. Neste livro, Mário de Andrade faz de um personagem arraigadamente regional – amazônico, melhor dizendo – o grande emblema do país. Interessante porque ele consegue realizar num romance o que Alencar tentou em vários (‘O Sertanejo’, ‘O Gaúcho’, ‘O tronco do Ipê’, ‘Iracema’). E esta linha de continuidade – que abarca o Brasil como um todo formado por partes – se coloca em oposição a outro grande filão do pensamento brasileiro – que inclui Franklin Távora e Gilberto Freire, por exemplo, que pensam o país como várias partes que formam um todo. Os primeiros, revolucionários, integradores, progressistas. Os segundos, reacionários, xenófobos, conservadores".
Luiz Ruffato/
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“Mário de Andrade não era apenas um grande poeta e escritor, era também um homem e múltiplos talentos, que incursionou com graça e agilidade por várias áreas do conhecimento e da cultura: música, artes plásticas, História, folclore. De sua obra multifacética um belo e curioso exemplo é ‘Namoros com a Medicina’ cuja primeira edição data de 1939, livro que aliás representava a volta do autor ‘ao velho vício da literatura’, segundo sua própria expressão, pois desde 1934 estivera ‘jogado fora da escrita, por paixões talvez mais humanas.’ Os dois ensaios que compõem o livro talvez não sejam textos ‘apaixonados’ mas nem por isso deixam de despertar prazer e admiração. O primeiro, ‘Terapêutica musical’ resulta de uma palestra proferida na Associação Paulista de Medicina e nela Mário fala com assombroso conhecimento da musicoterapia. O segundo ensaio, ‘A medicina dos excretos’ é ainda mais surpreendente. Nele, e valendo de seus conhecimentos do folclore, Mário faz uma análise, psicológica inclusive, do uso da urina e de excrementos na medicina popular. E conclui, com seu típico e irônico humor: ‘Não vá a observação se algum médico diagnosticar eu seja um escatófilo também. Não creio. E nunca mais porei a mão nestes assuntos, arre!’”
Moacyr Scliar/
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“Mário de Andrade foi um intelectual completo, um humanista erudito e libertário, apaixonado pela cultura brasileira, mas sempre atento às boas novidades do exterior. Não por acaso ele foi um dos primeiros no Brasil a ler a obra de J. L. Borges. Ainda jovem ele estudou música, e isso foi importante para desenvolver sua sensibilidade artística. Na verdade, Mário transitou por várias linguagens: poesia, prosa, crítica literária e musical, cultura popular, patrimônio histórico, arquitetura, artes plásticas. A formação musical e a viagem pela Amazônia em 1927 foram decisivas para a elaboração da ‘rapsódia’Macunaíma. A meu ver, essa rapsódia é uma espécie de prosa poético-polifônica, movida por uma imaginação romanesca em que os mitos ameríndios e a oralidade de uma sociedade em formação ocupam um lugar central.Macunaíma nos diz que a busca de uma identidade nacional é apenas isso: uma busca sem fim. E que a nossa identidade é mestiça, plural. Nesse sentido, ele foi um antropólogo do futuro, pois cedo ou tarde a Europa e o Ocidente serão mestiços”.
Milton Hatoum/
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“Mário de Andrade é desses paradoxos que enriqueceram e deram consistência à literatura brasileira do século XX. Colocou a arte literária a serviço de uma teoria, e as duas coisas resultaram boas, o que nem sempre acontece com as vanguardas, cindidas entre uma coisa e outra; ‘Macunaíma’ é um achado de linguagem, imaginação literária e realização de uma tese, que continua nos dando pano pra manga. Em alguns aspectos, Mário de Andrade antecipa Guimarães Rosa; em outros, procurou pelo faro discutir a questão da língua brasileira, sem entretanto dispor de uma lingüística (que, como ciência, chegaria aqui com muito atraso) – mas continua sendo uma boa pauta para o Brasil do século 21. Para ele, a assombração da identidade brasileira sempre teve a aura do nacionalismo crítico, e não do patriótico. O melhor elogio de todos: sua obra continua viva a provocar respostas”.
Cristovão Tezza/
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“Antes de tornar-se um ícone do modernismo neste lado do paraíso terrestre, habitado por um povo expulso do Gênesis, na visão dos escritores-viajantes europeus do século XVI, Macunaíma já reinava nos confins das selvas amazônicas, como um espírito grande e bom, a divindade que criou a terra e as plantas. Esse mito de várias nações indígenas que habitam a oeste da serra Roraima e o alto Rio Branco, no extremo-norte do Brasil, se corporificaria como um típico personagem brasileiro do século XX: o herói sem nenhum caráter. Empenhado em captar em profundidade o temperamento brasileiro, Mário de Andrade fez do seu ‘Macunaíma’ um tipo popular, em cujos defeitos e qualidades (menos nestas do que naqueles), toda uma sociedade, basicamente formada por náufragos, aventureiros e piratas oriundos das ocidentais praias lusitanas, pode se reconhecer. Ainda que, macunaimicamente, venha a negar qualquer verossimilhança”.
Antônio Torres/
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“Em dois dos sonetos que fiz para o Mário, eu diminuía o mérito de ‘Macunaíma’, em favor do Mário contista, mas era porque nos contos ele foi mais realista, e não aprecio escapatórias surreais nesse gênero. Ocorre que, na literatura universal, são os grandes romances que, em prosa, arquetipificam os mitos, e ‘Macunaíma’ é talvez o maior arquétipo do malandro brasileiro, preguiçoso porém esperto, elevado à categoria de mito, que nas décadas seguintes seria consagrado, menos na prosa que na poesia, pelo cancioneiro popular, a exemplo do ‘mulato inzoneiro’ de Ari Barroso e do ‘rapaz folgado’ de Noel Rosa. Nesse sentido, o romance torna-se um feito invejável, e não por acaso quem mais o invejou foi Oswald, já que a mitologia macunaímica sintetizava tudo que o próprio Oswald pretendia com sua teoria da antropofagia. Se a rivalidade entre Mário e Oswald pode ser equiparada, para efeito de torcida, à que os fãs dos Beatles e dos Stones vêm fomentando, eu arriscaria a comparação entre ‘Macunaíma’ e ‘Sergeant Pepper`s’, marco que os Stones tentaram copiar e jamais conseguiram, ainda que, no conjunto da obra, tenham sido mais rebeldes que os Beatles. Na mão inversa, a negritude sonora dos Stones equivaleria àquilo que os Beatles jamais conseguiram.
‘Macunaíma’ desempenha, até às avessas, na minha óptica, a síntese intercambiante e dialética dessas contradições. O Mário Beatle foi mais negro que o Oswald Stone, que foi mais índio que Mário. O herói descaracterizado foi mais cafuzo, mais mameluco e mais mulato que todos os Marioswalds Beatlestones da vida real. A criatura devorou, antropofagicamente, seu criador”.
Glauco Mattoso/
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“A obra multifacetada de Mário de Andrade representa, para a cultura brasileira da primeira metade do Século XX, um momento de renovação ímpar. O autor de ‘Macunaíma’ militou, com qualidade, em diversas áreas do panorama estético tupiniquim. Sem o seu peculiar empenho – como articulador, crítico, poeta e prosador –, o movimento modernista brasileiro não teria alcançado a enorme projeção que a história lhe reservou”.
Iacyr Anderson Freitas/
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“Sempre afirmei ser a língua portuguesa a única língua moderna a ter criado três epopéias: ‘Os Lusíadas’, ‘Os sertões’ e ‘Grande sertão: veredas’. Uma em verso, no século XVI, e duas em prosa, no século XX. É certo que só Camões a escreveu dentro dos cânones estritos do gênero, mas o titanismo, o caráter bélico e o pathos épico que dominam a narrativa histórico-militar de Euclides da Cunha e o romance de Guimarães Rosa fazem com que ambos os livros, emocionalmente, existam como epopéias, o que importa muito mais do que a discussão sobre gêneros literários. O que é inegável é que essas duas obras são os nossos dois grandes livros nacionais, respectivamente a nossa ‘Ilíada’ e a nossa ‘Odisséia’, assim como ‘Os Lusíadas’ são a ‘Eneida’ de Portugal. Pois se esse livro cruento, ‘Os sertões’, narrando a queda da ‘Tróia de taipa dos jagunços’, faz bem as vezes da primeira, ‘Grande sertão: veredas’, essa demanda sublime pelo amor, pelo conhecimento e pela vingança é sem dúvida a possibilidade brasileira da segunda. Como Ulisses no seu atribulado retorno, o jagunço Riobaldo navega pelos infinitos e ínvios caminhos do sertão, plenos de tentações físicas e sobrenaturais, na busca do restabelecimento da ordem, do apaziguamento final, só conseguidos após a destruição da potência maligna representada por Hermógenes, tal como o grego só os conseguiu após o massacre dos pretendentes e seus próximos.
‘Os sertões’, como sabemos todos, veio à luz em 1902, e ‘Grande sertão: veredas’ em 1956. É quase exatamente entre esses dois livros que aparece ‘Macunaíma’, em 1928, que podemos chamar de nossa antiepopéia. O fabuloso conhecimento folclórico e lingüístico de Mário de Andrade chegou à sua síntese maior nesse livro mural que é a sua ‘rapsódia’. Afastado voluntariamente dopathos titânico dos dois livros que o enquadram historicamente, seu ‘herói sem nenhum caráter’ está provavelmente mais perto da verdade do que as alturas sublimes de Euclides e Rosa, o que não sei se é exatamente lisonjeiro para o Brasil. Entre o português muito nutrido pelos clássicos, e com uma visível influência de Oliveira Martins, ainda que de uma força sui generis, de ‘Os sertões’, e o expressionismo genial de Guimarães Rosa, cuja fonte mais importante está no Aquilino Ribeiro de ‘O Malhadinhas’, situa-se, portanto, a tentativa de ‘língua nacional’ de Mário de Andrade. Se em sua ficção, cuja culminância é ‘Macunaíma’, e em sua poesia – e quem escreveu ‘Meditação sobre o Tietê’ é uma grandíssimo poeta – essa ‘língua’ funciona perfeitamente, o mesmo não se dá, é preciso reconhecer, em boa parte da sua prosa não ficcional. Há um certo plebeísmo incontornável, um plebeísmo artificial, na topologia pronominal e em muito da sintaxe tão típicas do Mário de Andrade não ficcionista. Essa sua faceta fracassou obviamente, mas é uma faceta do doutrinador, do teórico, não do grande artista que sempre foi. O primeiro parágrafo de ‘Macunaíma’ permanece, só como exemplo, como uma dessas coisas que parecem ter existido desde sempre, no mundo platônico das idéias puras, tal qual o primeiro parágrafo de ‘Iracema’ ou a ‘Canção do exílio’ de Gonçalves Dias. A ‘língua nacional’, tão teorizada por Mário e antes e depois dele, foi algo que se desvaneceu perante a língua universal, e mais brasileira do que todas, do insuperável Guimarães Rosa. ‘Macunaíma’ segue, indubitavelmente, em sua originalidade e riqueza impressionantes, como um dos ‘livros da nacionalidade’, junto com ‘Os sertões’, o ‘Romanceiro da Inconfidência’, de Cecília Meireles, e o ‘Grande sertão: veredas’.”
Alexei Bueno/
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“Mário de Andrade foi um excelente poeta em parte de seu livro ‘Paulicéia Desvairada’ (1921) e de ‘Losango Cáqui’ (1924). Depois, com passar do tempo, tornou-se um poeta de nível médio. Seu livro póstumo ‘Lira Paulistana’ (começo dos anos 1950) retorna ao bom nível do início. Mário de Andrade criou o que hoje se chama cultura nacional brasileira – estratégica para certa época e inútil hoje. Foi apropriado por esquerdistas-nacionalistas nos anos 1940 e significou ‘fechamento’ nacional para o Brasil. Fez de tudo muito, desde escrever cartas a pesquisas antropológicas e musicais. ‘Macunaíma’? Vale mais como metáfora, como aquilo que os outros imaginam, do que como romance em si. Há inúmeros romances ou prosas melhores do que ‘Macunaíma’, tanto no primeiro quanto no segundo modernismo brasileiro. Cito um: ‘Primeiras Estórias’, de Guimarães Rosa. ‘Macunaíma’ é um livro – ao ouvido de hoje – rebuscado. Vejo-o como um sonífero. Andrade é como o próprio modernismo brasileiro: arcaico. É uma instituição. Precisa de um releitura que o retire do ranço em que o meteram”.
Régis Bonvicino/
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“Tenho a impressão de que ‘Macunaíma’, que li nos meus anos de juventude repletos de descobertas quanto à literatura brasileira e reli uns 20 anos depois, mais sereno e cético, sempre foi para mim uma espécie de fantasma multicolorido a pairar na consciência brasileira. Preguiça, sensualidade desabusada, troca de raça e cor, venalidade feliz, abjeção carnavalesca, a fuga por um mosaico alucinado de Brasis. Não se pode pensar o Brasil real sem o ‘o grande Mal’ divertido de Mário de Andrade. Esse herói, tão assumidamente alheio ao heroísmo clássico, é visto sempre como pouco heróico e, no entanto, não me parece apenas assim. Diria que o sinto também como um herói trágico, dionisíaco, e lutando com um dilema que assola os brasileiros desde sempre e não dá sinal de solução: o da identidade, simbolizada pelo amuleto muiraquitã.
A decantada ‘falta de caráter’, em geral vista como um sinal de abertura e legitimação para a corrupção e a farra, parece carregar tintas mais sombrias, nos últimos tempos. Como o país vem progressivamente se tornando gravemente desconfiado de seu mito nacional de cordialidade, é possível que Macunaíma já tenha assumido um outro perfil e seja menos alegre que o grande Pândego que habitaria sob nossos paletós e gravatas. Mas esse lado sombrio nunca esteve descolado de sua totalidade. Macunaíma é um símbolo de muitos usos e infindáveis sentidos. É o símbolo maior de um país com uma estranha propensão a uma perversa alegria desenfreada e a se perder de si mesmo, fazendo trágicos mergulhos sem volta em rios repletos de miragens”.
Chico Lopes/
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“Num certo sentido ‘Macunaíma’ cumpre, de forma próxima ao picaresco, a tarefa de retratar o ‘herói’ nacional em sua ‘mock-epic’, isto é, numa obra onde o que constituiria os feitos grandiosos de uma figura mítica da nacionalidade, transforma-se, pelo humor, no que seria a imitação cômica do grandioso. Assim, acompanhamos a trajetória do herói desde o norte, vindo para São Paulo, percorrendo o Brasil, para voltar ao ponto de origem, onde, para não fugir à tradição folclórica, sofre sua definitiva transformação em constelação. Nas andanças pelo Brasil, e principalmente em São Paulo, experimenta as mais diversas aventuras, no meio das quais não deixa de figurar um tom às vezes irônico. O grande feito do herói é a luta que permeia suas aventuras com figuras como Venceslau Pietro Pietra. O próprio nome indica que a São Paulo pintada por Mário de Andrade, um dos destinos do herói, é uma cidade marcada pela imigração italiana. Ao longo da história diversas metamorfoses (momentâneas ou permanentes) aparecem como ponto fulcral de uma ação. O que marca este ‘mock-epic’ é particularmente a mistura de tempos diversos. De lugares primitivos onde se pesca como no início da civilização, parte-se para uma São Paulo e para um Sul em geral onde já existe aviação. A outra ironia que permeia a obra é a maneira como Macunaíma, ‘herói sem caráter’ (até por carecer de uma personalidade bem definida) embora originário de um Brasil primitivo, convive perfeitamente bem com as condições de vida de uma São Paulo já moderna. Poder-se-ia dizer que a obra procura, por meios diversos, focalizar a marca essencial de um país jovem como o nosso, isto é, a presença intensiva de outras etnias, todas elas tentando convergir para um ponto médio de cultura e civilização. Esta mistura reflete-se ainda no uso de diferentes linguagens, estilos diametralmente opostos, ao longo da história. De qualquer forma ‘Macunaíma’ é o épico que o Modernismo quis e pôde criar, isto é, a obra que busca a marca da nacionalidade (como toda epopéia clássica) sem deixar de destruir, pela ironia, sua própria estrutura grandiosa”.
Magaly Trindade Gonçalves e Zina C. Bellodi/
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“Ainda que críticos, ensaístas e estudiosos tenham se debruçado sobre a bibliografia e a personalidade de Mário de Andrade, não se esgotaram os olhares e as inúmeras possibilidades de compreensão de sua obra e de sua importância, como um antecipador e um divisor de águas na literatura brasileira. A partir da eclosão da Semana de 22, como um de seus principais signatários, Mário de Andrade chamou a atenção para a necessidade de uma arte que representasse e pensasse o caráter nacional, tendo como marco dessa consciência estética o romance ‘Macunaíma’. Não só como ficcionista e poeta, mas também como pesquisador e estudioso de nossa realidade multicultural, Mário mergulhou nos meandros cultura popular e erudita, e como um verdadeiro escafandristra, realizou um trabalho monumental de resgate, registro e memória, que são fonte e referencial permanente para estudiosos da língua e da literatura nacionais. Outra grande contribuição de Mário de Andrade foi a sua epistolografia. Nas cartas que trocou com amigos, escritores e intelectuais, percebem-se não apenas o seu pensamento e sua visão crítica sobre a arte e o País, mas suas agudíssimas discussões estéticas, que funcionam como verdadeiros farol e lição, principalmente para escritores de ontem e de hoje”.
Ronaldo Cagiano/
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“Este ano comemoram-se 80 aniversários do lançamento de uma obra fulcral da literatura e cultura brasileiras. Lançada em 1928, ‘Macunaíma – o herói sem nenhum caráter’, de Mário de Andrade, procurou na voz do próprio autor a definição de uma identidade nacional brasileira, longe do jugo e modelos coloniais ou aculturados. É certo também que a própria face da literatura brasileira nunca mais foi a mesma partir da experiência estética/lingüística vivenciada nesta obra que até aos dias de hoje inspira teses, dissertações, entre outras e variadas manifestações artísticas e culturais. Não sei, ao certo, se os objetivos do escritor na sua busca de uma identidade nacional foram plenamente alcançados, pois nesta aldeia global nunca deixamos de ser colonizados e aculturados, mas é inegável a representatividade do herói Macunaíma na ferida aberta, na alma brasileira. Contudo, para o leitor comum, onde me incluo, o que fica mesmo latente no livro de Mário de Andrade é esta viagem aos confins de um mundo do imaginário que está tão próximo de nós brasileiros; algo que nos remete para um estágio arquetípico; algo que já estava antes mesmo de sermos. Ao reler ‘Macunaíma’, aos 45 anos de idade, em Portugal, lembrei-me quase que instantaneamente das estórias que a minha avó cabocla (mestiça de branco com índio) contava-nos quando éramos crianças pequenas lá por terras do Rio de Janeiro: lá estavam a mula-sem-cabeça, o saci-pererê, a caapora, o curupira; personagens indígenas místicas às turras com lobisomens, sereias e outras assombrações do domínio público ocidental. Nós, irmãos, primos ou algum amiguinho que estivesse lá por casa a dormir, à meia-noite, por debaixo dos lençóis, cheiinhos de medo, contidos, mas com ou ouvidos atentos para mais uma comeizada de relatos sobrenaturais. Assim como o herói sem nenhum caráter Macunaíma, permiti-me viajar à terra mística da minha infância, à terra de magia e de liberdade; terra esta que também é preenchida pelas muitas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo do meu preferido Monteiro Lobato”.
Ozias Filho/
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“Macunaíma, nos seus 80 anos, tem muito a nos ensinar. A importância de Mário de Andrade e desse romance na renovação da literatura brasileira no século XX são inegáveis. Súmula do projeto estético de Mário, o romance funda, em suas poucas páginas, um novo olhar sobre a cultura brasileira. Ao mesmo tempo em que rechaça o academicismo formal e temático das letras e da arte em nosso país, através da Antropofagia, redefine nossa condição diante do ‘outro’ europeu. Ao abrir-se para o canibalismo cultural, deixa permear-se pelas vanguardas e pelo espírito cosmopolita do século que inicia. Com ‘Macunaíma’, o herói sem nenhum caráter, ventilamos o que foi definido como a ‘dialética da malandragem’ e, tal Brasil, tal romance, redescobrimos o que Eneida Maria de Souza chamou de ‘a pedra mágica do discurso’, ou seja, a possibilidade de, pela linguagem, construirmos um perfil nacional sem as empedernidas formas de nacionalismos que, vez por outra, insistem a tomar forma por aqui. Afastando-se das construções idealizadoras da nação, Mário propõe a ironia, ou seja, a desconstrução pelo riso e pelo deboche, que nem sempre, diga-se de passagem, é para fazer rir. Tal como Machado de Assis, Mário desfia a cultura entre a galhofa e a melancolia. Carece, portanto, de se estar atento à ironia em Mário. Um olhar sobre o seu romance, hoje, num mundo que se diz globalizado, pasteurizado por discursos do tipo ‘control alt c – control alt v’, deve, como na arte de ‘Macunaíma de Andrade’, de Arlindo Daibert, reinscrever, insubmisso, o processo antropofágico da cultura brasileira em nosso contexto artístico e literário”.
Lyslei Nascimento/
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“Mítico, Macunaíma condensa imagens do inconsciente de uma brasilidade sempre por vir, em seu devir metamórfico – de piá a príncipe a constelação da Ursa Maior. Quando tentamos capturá-lo, Macunaíma já virou outra coisa, escapuliu, travesso. Lê-lo é sempre uma alegria. A primeira vez que ‘vi’ Macunaíma foi no teatro, na antológica encenação de Antunes Filho. Aquilo era um ritual, um acontecimento contagiante. Hoje, ao reler o livro, vejo o Macunaíma com a cara do Grande Otelo. O Imperador do Mato-Virgem. Quem seria a Macunaíma mulher? Iracema, provavelmente, a Virgem-dos-lábios-de-mel, se tivesse sobrevivido em versão Modernista. Um matrimônio a ser celebrado. Não seríamos mais como Moacir, ‘filhos da dor’ mas de um alegre amor em imaginária utopia”.
Marília Librandi Rocha/
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“Mário de Andrade é um dos escritores mais importantes da literatura brasileira do século XX. Mesmo tendo morrido jovem, aos 51 anos (Mário nasceu em 1893 e morreu em 1945), deixou uma obra essencial, de grande repercussão no Brasil, e uma correspondência vastíssima com os amigos, principalmente com escritores (dentre eles um grande número de escritores mineiros, como Drummond, Pedro Nava, Henriqueta Lisboa, Hélio Pellegrino e Fernando Sabino), em que se compõe toda uma poética modernista. A publicação das cartas que recebeu, que agora começa a ser divulgada, vai permitir que tenhamos acesso a um painel quase completo do princípio do século até os anos 50.
Mário foi grande poeta e romancista, e seu livro mais conhecido, ‘Macunaíma’, é a obra-prima do Modernismo brasileiro. Além de ‘Macunaíma’, publicou o romance ‘Amar, verbo intransitivo’, vários livros de poemas, entre eles ‘Paulicéia desvairada’, ‘Losango cáqui’ e ‘Remate de males’, contos, crônicas e relatos de viagem, como ‘O turista aprendiz’. Mário foi também um pesquisador importante das artes plásticas, da música, do folclore e do patrimônio e é autor de livros de ensaio como ‘Aspectos das artes plásticas no Brasil’, ‘Música, doce música’ e ‘Ensaio sobre a música no Brasil’. Alguns de seus originais ainda estão sendo publicados, e as pesquisas que deixou inacabadas vêm sendo concluídas por outros pesquisadores. Duas de suas obras foram adaptadas para o cinema: ‘Macunaíma’, de Joaquim Pedro de Andrade, filme rodado em plena ditadura militar, que levou a paródia ao extremo e rompeu com a estética do cinema novo, e ‘Amar, verbo intransitivo’, que recebeu o título de ‘Lição de amor’, dirigido por Eduardo Escorel.
Arlindo Daibert, artista plástico mineiro (1952-1993) realizou, em 1982, aleitura de ‘Macunaíma’ através de desenhos e gravuras. Ao condensar no título do trabalho, ‘Macunaíma de Andrade’, o nome da personagem com o do autor, assume a invenção artística sob o signo da autobiografia, ao reunir obra e vida a partir da reconstrução de retratos que reportam a cenas literárias, artísticas e políticas do período. As apropriações, as associações livres e os deliciosos roubos cometidos por Andrade na produção literária de ‘Macunaíma: o herói sem nenhum caráter’ demonstram a capacidade de entender a estética da paródia como ponto fulcral da arte modernista, procedimento encontrado nas colagens e reproduções de figuras da época. No texto ‘Diário de Bordo’, registro da preparação e da feitura de seus desenhos, Arlindo Daibert confessa as licenças artísticas cometidas na reconstrução das personagens, ao transformar a Uiara – e Ci – na imagem da bela e talentosa Tarsila do Amaral; a figura de Getúlio Vargas para protagonizar o gigante Piaimã ou elegendo o amigo e pintor Siron Franco como representação de Macunaíma, recriado na cena referente ao jogo das adivinhas. A mais evidente inserção autobiográfica do artista se revela na colagem referente à cena do capítulo ‘Macumba’, por contar com o respaldo de Mário: na festa da tia Ciata, o escritor introduz e ‘cola’ os amigos, transformando-os em personagens da rapsódia, procedimento capaz de romper com o limite rígido entre ficção e realidade. A explicação de Arlindo sobre a cena justifica sua intenção autobiográfica na leitura de‘Macunaíma’: No final do capítulo, Mário mistura aos personagens da ficção alguns ‘macumbeiros’ reais como Bandeira, Antônio Bento, Cendrars, etc. Trata-se de uma lembrança de caráter afetivo, ou talvez por identificação ideológica, como no caso de Raul Bopp, também envolvido no estudo da cultura popular (...). Incluo entre os meus ‘macumbeiros’ alguns dos de Mário e outros como Drummond, Guimarães Rosa, Cecília Meireles, Virginia Woolf, etc.(…). O quadro ainda não está completo e para confundir um pouco os exegetas incorporei ao trabalho algumas… afinidades eletivas (ou seria liaisons dangereuses?) que, para terminar, ‘fizeram a festa juntos’1.
Em 1982, ‘Macunaíma de Andrade’ chega até a mim através de um recorte da revista Veja, enviado por um dos muitos amigos que me mandavam, do Brasil, notícias e bibliografia sobre Mário de Andrade. Nessa época estava terminando o doutorado em Paris, cujo tema era a análise do discurso e da linguagem em ‘Macunaíma, o herói sem nenhum caráter’2. A impressão de ver plasticamente traduzido o texto literário com o qual estava, há mais de três anos, em diária companhia, foi a mais impactante possível, embora não pudesse ainda avaliar a obra, por desconhecê-la na íntegra.
O contato mais próximo com a série de desenhos ocorreu em 1993, por ocasião da montagem da exposição em homenagem ao centenário de Mário de Andrade, voltada para a relação entre o escritor e os intelectuais e artistas de Minas. ‘Mário de Andrade – Carta aos mineiros’ contou com a presença de Arlindo, que teve parte de sua obra exposta, juntamente com as ilustrações de Nava sobre ‘Macunaíma’ e de documentos relativos ao convívio epistolar e literário de Mário. Nessa ocasião, já havia optado por uma abordagem mais contextual e biográfica de sua obra, através do estudo de sua correspondência, de ensaios, diários de viagem e entrevistas do autor. De posse de nova postura metodológica e teórica, foi possível perceber que ‘Macunaíma de Andrade’ realizava, dez anos antes, uma leitura em que o texto ficcional atua como pretexto para a invenção teórica, cultural e artística, além de tornar mais tênue a distância entre realidade e ficção”.
Eneida Maria de Souza///
[1] DAIBERT, Arlindo. Cadernos de escritos. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1995. p.25-26. (Organização de Júlio Castañon Guimarães.)}
[2] SOUZA, Eneida Maria de. A pedra mágica do discurso. 2.ed. revista e ampliada. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.
Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e produtor cultural. Escreve em jornais no Brasil e em Portugal.
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24.2.15
CopaVillage - novo CD de Antonio Adolfo saiu do forno
NOTÍCIA EXTRAORDINÁRIA//
Prometi só voltar a postar neste blog depois de terminar dois trabalhos (em andamento). Vou ter que quebrar esta promessa, pois acabei de receber a notícia de que posso divulgar o novo CD de Antonio Adolfo , que ele compartilhou com Carol Saboya e Hendrik Meurkens. Trata-se do álbum "CopaVillage" - resultado de um lindo show que rolou em Nova York (o CD já saiu nos States e logo logo vai chegar no Brasil). Tive o prazer e a honra de fazer parte desse projeto com minhas ilustrações. A elaboração da arte gráfica da capa, contracapa e do miolo são da designer Julia Liberati. Isto posto (ou seria postado?) volto para minha prancheta. Abração!
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11.2.15
Casa Dirce abre temporada de cursos grátis : A partir de 11 de março vai rolar "A novela: exercícios de leitura"
A Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel abre inscrições para o curso gratuito A novela: exercícios de leitura,com o Professor Ivo Barbieri. As inscrições já estão abertas no site www.casadirce.com.br (procure no google- é só digitar "Casa Dirce Riedel", pois o blog não está possibilitando a feitura do link). Estas inscrições deverão ser feitas para cada encontro e são limitadas. Os certificados serão fornecidos apenas para quem tiver, no mínimo, 75% de frequência em todos os encontros. A Casa de Leitura Dirce Cortes Riedel fica na Rua das Palmeiras, nº82 - Botafogo. Tel: 2334-8227.
O professor Ivo abrirá os encontros com o livro Singularidades de uma rapariga loura, de Eça de Queiroz, dia 11 de março, e, devido às obras da Casa Dirce, os dois primeiros encontros acontecerão no IESP - Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Rua da Matriz, nº 82 - paralela à Rua das Palmeiras).
Programa do Curso:
11 de março
• Eça de Queiroz: Singularidades de uma rapariga loura
25 de março
• Carlo Cassola: A derrubada do Bosque
08 de abril
• Lima Barreto: Clara dos Anjos
22 de abril
• Herman Melville: Bartebly, o escrevente
13 de maio
• Ricardo Lísias: O céu dos suicidas
22 de maio
• Joseph Conrad: O coração das trevas
10 de junho
• Guimarães Rosa: Cara de bronze
24 de junho
• Henry James: A fera na selva
Obs: O livro "A derrubada do bosque" será doado aos participantes que se inscreverm para o dia de leitura da obra do escritor italiano Carlo Cassola.
Todos lá!
NR:Na foto, o Professor Ivo Barbieri.
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31.1.15
29.1.15
Charge / Crise hídrica
Chargezinha rápida da série "Sorry Periferia", ou "Piada pra inglês ver". Com esta, me despeço temporariamente dos amigos do blog. Vai ser por motivo de força maior, ou seja: trabalho sério, he he...Nem só de piadas vive o cartunista. Abração, meu povo! Até a volta!
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27.1.15
Artigo de Jorge Sanglard fala da obra de Dnar Rocha/ A arte como sentido da vida
Em defesa da memória, no dia 24/11/2014, completaram-se 8 anos sem Dnar Rocha entre nós. Este texto é uma reflexão sobre o legado de Dnar...//
A arte como sentido da vida
Há oito anos, num novembro triste, Minas Gerais perdia o artista plástico Dnar Rocha, falecido na Juiz de Fora que o abrigou, desde meados do século XX, e o projetou no universo das cores. Desenhista e pintor, Dnar deixou como exemplo ter sido em vida um dos mais íntegros artistas que escolheram as margens do Paraibuna para realizar sua arte; e seu legado artístico é uma obra que poderia ser a síntese da pintura de Juiz de Fora. Do menino simples nascido na rural Tabuleiro, ao grande artista plástico em Juiz de Fora, a trajetória do mineiro Dnar Rocha (21/07/1932 – 24/11/2006), seja no desenho seja na pintura ou ainda na vida, teve como essência o humanismo e o olhar comprometido com os homens e as mulheres. De boiadeiro e prático de farmácia em Tabuleiro a barbeiro e contador em Juiz de Fora, Dnar trilhou vários caminhos para assegurar a subsistência, mas foi na descoberta da arte que encontrou a paixão maior e o sentido da vida.
Já nos primeiros desenhos, ainda nos tempos da barbearia do compositor B. O. (Alber de Oliveira Alves), antigo reduto da escola de samba Feliz Lembrança no bairro São Bernardo, Dnar revelava talento e vontade de alçar vôos mais altos. Por sugestão de um dos freqüentadores, que ganhara um retrato a lápis, conheceu a Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, onde encontrou pintores que foram a fonte de inspiração para avançar e ampliar o conhecimento artístico e a técnica. Nesse tempo, meados dos anos 1950, a alma de desenhista e de pintor já assumia lugar definitivo em sua vida.
Como companheiros de jornada de Dnar, os Bracher (Décio, Celina, Carlos e Nívea), Renato Stehling, Roberto Gil, Heitor Alencar, Sílvio Aragão, Ruy Merheb, Roberto Vieira, Wandyr Ramos, Reydner, Américo Rodrigues e outros expoentes que, a partir do final dos anos 1950, vislumbraram um novo horizonte para a arte mineira. Já no primeiro contato com os pintores que freqüentavam a sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, Dnar percebeu que o local aglutinava pessoas ligadas à cultura de diversas áreas, pois estavam lá também Affonso Romano de Sant’Anna, Luiz Affonso de Queirós Pedreira Ferreira e Wanda Panisset, que se tornariam seus amigos.
A memória do desenhista e pintor foi reverenciada com o DVD “Dnar Rocha – pelos caminhos da arte”, com direção e roteiro de Éveli Xavier, e o livro “Dnar, o silêncio das imagens”, organizado por José Alberto Pinho Neves.
O DVD “Dnar Rocha – pelos caminhos da arte” foi produzido com recursos da Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura. Já o livro “Dnar, o silêncio das imagens” traz textos de Walter Sebastião, Arlindo Daibert, Angelo Oswaldo de Araújo Santos, Walmir Ayala, Maraliz de Castro Vieira Christo, Edimilson de Almeida Pereira, Rachel Jardim, Amaury De Battisti, Aquiles Branco, Geraldo Edson de Andrade, entre outros, além do próprio José Alberto, e contou com o apoio da ArcelorMittal.
Juiz de Fora, algumas cidades da região montanhosa da Zona da Mata mineira e até alguns outros centros urbanos, como a orla da Região dos Lagos, serviram de motivação para sua pintura e seu desenho. Dnar soube extrair a essência de nossas montanhas, de nossas casas, de nossa gente, e ainda transitou com desenvoltura por outras paragens na busca de inspiração.
No retrato, o artista realizou algumas pinturas que revelam o avanço técnico alcançado além da sensibilidade e versatilidade artística à flor da pele. Por sua vez, Juiz de Fora e a Zona da Mata mineira tiveram na pintura e no desenho de Dnar expressões maiores do poder da arte quando exercido com paixão e completo domínio artístico. O olhar de Dnar tornou possível vislumbrar a alma da cidade, da região e de sua gente.
O traço de seu desenho, vigoroso e definitivo, demonstra o compromisso com o suporte de papel ao longo de toda sua trajetória de cinco décadas em Juiz de Fora. Já as pinceladas densas e precisas de sua pintura possibilitaram um mergulho na cidade de nossos sonhos. Uma utopia materializada em cores sobre tela. Uma simples casa branca em meio às cores de sua paisagem mineira simbolizava a busca do artista por uma identidade em sua pintura, por uma assinatura, uma marca registrada entre a luz e a sombra, que foram exploradas à exaustão em sua pintura.
Meticuloso em seu ofício de pintor e desenhista, Dnar antes de se debruçar sobre o papel ou a tela esquadrinhava cada canto do suporte escolhido e, ao criar, já pensara a obra por inteiro. Um dia, durante uma conversa entre amigos, deixou escapar: nunca partia para o ataque sem vislumbrar todo o panorama. No DVD em sua memória, durante uma entrevista Dnar apontou o caminho: “É como a Nívea Bracher disse uma vez: ‘Meu atelier é dentro da minha cabeça’. Na verdade, sofro tudo dentro da minha cabeça primeiro”. Para, em seguida, arrematar: “É, a pintura me dá medo”.
Na opinião do artista plástico César Brandão, “Dnar Rocha fez sua obra talvez inspirado na frase de Leonardo Da Vinci, ‘pintura é coisa mental’; pois, sua pintura é de extrema inteligência da cor, e nenhum campo cromático é posto ali de forma aleatória; mas, rigorosamente com base no raciocínio. Na feitura de sua obra não há lugar para o espontâneo, o ocasional, ou o gestual emotivo. São cores pensadas, estudadas para ocupar cada espaço da tela; e é necessário ao nosso olho um trabalho de prospecção minuciosa de cada detalhe de sua pintura. Ou seja, é preciso cavar com o olho para perceber a pluralidade de cores em cada canto de sua pintura; onde há uma construção arrojada, na fronteira da abstração. E isso me levou às vezes a dizer ao Dnar que eu gostaria muito de ver suas pinturas em grandes dimensões, em formatos gigantescos; talvez em torno de cinco por dez metros. Como isso, infelizmente, não ocorreu, resta a nós espectadores observarmos cada centímetro de sua pintura, e ali percebermos o gigantismo do pintor Dnar Rocha”.
Em texto para uma exposição, o saudoso Arlindo Daibert (1952 – 1993) afirmou: “sem dúvida alguma, Dnar é um dos mais importantes artistas de sua geração, mas poucos conhecem a importância de sua obra gráfica. Para um espectador atento, o desenho esteve sempre presente em sua obra”.
Em vida, foi um exemplo de generosidade e de simplicidade. Sem Dnar entre nós, fica o compromisso de reflexão com a construção da cidadania, uma de suas lutas. Sempre consciente dos desafios de seu tempo, da importância da consolidação democrática, do combate à injustiça social e da busca de expansão do conhecimento e da educação com qualidade para todos, o artista acreditou na capacidade criativa de nosso povo, uma vez estimulado e valorizado. Ao acreditar na transformação de homens e de mulheres pela educação e pela arte, Dnar revelava o quanto sua trajetória refletia uma concretização dessa vertente possível e ao alcance dos que buscam a realização de seus sonhos.
Como um artista empenhado na luta pela preservação da memória e do patrimônio histórico e artístico, marcou presença na mobilização pela transformação na antiga fábrica têxtil Bernardo Mascarenhas num centro cultural dinâmico, uma fábrica de arte e cultura, e esteve na linha de frente da campanha pela recuperação do Museu Mariano Procópio e pela criação da Associação Cultural de Apoio ao primeiro museu de Minas Gerais. Também emprestou seu prestígio na jornada em defesa da restauração do Cine Theatro Central.
A educação do olhar, associada à percepção lírica do mundo, consiste num procedimento que Dnar articula intencionalmente, segundo o poeta e ensaísta Edimilson de Almeida Pereira: “Sua pintura poética é fruto, portanto, de uma ‘paixão medida’, para evocarmos Carlos Drummond de Andrade, que o lança à cena artística contemporânea. Por isso, os seus cortes geométricos ou seus ensaios com as garrafas, por exemplo, alimentam o diálogo com os modernos, tais como Picasso e Morandi, respectivamente. Diga-se bem, são diálogos aos quais Dnar comparece munido de sua oficina poética dotada de recursos específicos. Recursos desenvolvidos pelo indivíduo que se recusou a deixar as cercanias de sua casa mas que, por conta disso, compreendeu a necessidade de articular um pensamento aberto, sem fronteiras, que traz para o seu convívio todos os nomes e todas as paisagens”. Nesse sentido, assegura Edimilson, “Tabuleiro e Paris, Paraibuna e Tejo, um ensalmo de cura e um manifesto de arte moderna – enquanto motivadores da sensibilidade e da experiência estética – encontram acolhida propícia nas reflexões e na pintura de Dnar”.
Já o jornalista e crítico de arte Walter Sebastião, analisando o desenho de Dnar, garante: “Diante das obras do artista o embate se dá com a construção das imagens numa autêntica ‘dança do intelecto’ entre valores clássicos e não com a expressividade (no sentido de imersão em mundos subjetivos). Dnar Rocha, junto com o poeta Fernando Pessoa, defende o ‘tudo que em mim sente está pensando’. Trata-se de defender um modo específico de produção de conhecimento e singularidade da experiência artística, impedindo que ela se torne cenário para derramamentos sentimentais, ou pior, alguma coisa sem vida própria, incapaz de tensionar o mundo que tem à sua volta”.
Ficam a obra e a lembrança de um homem simples, mas capaz de seduzir nosso olhar pela complexidade de sua alma e de sua força inventiva.
Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e produtor cultural. Escreve em jornais de Portugal e no Brasil.
Pinturas:1) "Nú artístico" e 2) Retrato de Jorge Sanglard. Obras de Dnar/ coleção do autor do artigo.
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26.1.15
25.1.15
23.1.15
Artigo de Jorge Sanglard / Cazuza 25 anos depois
O jornalista e pesquisador Jorge Sanglard enviou para o blog um belo artigo que homenageia o poeta Cazuza. As imagens utilizadas para ilustrar este texto (bastante modificadas agora) foram feitas por mim, e publicadas originalmente pela Editora Lumiar, no "songbook" Cazuza, de autoria do saudoso Almir Chediak. Atualmente esse livro pertence à empresa Irmãos Vitale Editores - Brasil.
Cazuza 25 anos depois
Por Jorge Sanglard (*)//
Agenor de Miranda Araújo Neto passou como um cometa chamado Cazuza e em seu rastro fica a certeza de que valeu a pena ser um porta-voz de um tempo difícil. Afiado e afinado com seu tempo, Cazuza, nascido em 4 de abril de 1958, morreu e foi enterrado, em 7 de julho de 1990, há quase 25 anos, no Rio de Janeiro, deixando flagrante a fragilidade do vigor físico mostrado no início da carreira musical, ao lado do Barão Vermelho, mas em nenhum momento de sua luta pela vida abandonou a contundência, a ironia e a mordacidade; batendo fundo e certeiro na hipocrisia.
Com a cara e a coragem, Cazuza desafiou a tudo e a (quase) todos e graças a sua assumida postura de exagerado, despertou ora amor, ora ódio, mas nunca a indiferença. Mesmo nas horas mais difíceis e dramáticas, o cantor e compositor rejeitou a cômoda atitude da condescendência e, apesar de tudo, fez questão de alternar imperfeições com a maturidade poética e a densidade sonora, traçando um vigoroso mosaico de nossas misérias pessoais e sociais, sempre desafi(n)ando o coro dos contentes.
Cazuza foi à luta e com uma poética sem meias palavras e uma sonoridade simples, mas eficiente, deixou uma contribuição importante para a música brasileira contemporânea que, muitas vezes, teima em não deixar fluir a voz que vem de dentro e insiste em repetir as gastas fórmulas lá de fora.
Enquanto teve forças, Cazuza viveu intensamente e se afirmou como um dos mais criativos músicos da nova geração da música brasileira. Isto não o isenta de equívocos, pelo contrário, apenas atesta a sua luta para não se render, nem ao apelo fácil da pasteurização musical, nem à diluição de sua proposta. Cazuza nunca se cansou de dizer que não queria compromisso com nada, a não ser com a vida.
Hoje, quase 25 anos depois de se encantar, não vem mais ao caso se Cazuza cantava bem ou mal, importa só que sua obra está aí viva, contundente e coerente com a sua trajetória na música brasileira.
Em seus discos, Cazuza foi deixando pistas preciosas de suas intenções e engendrou um verdadeiro quebra-cabeças onde peça por peça se encaixa e aponta o rumo preciso.
Em seu último álbum “Burguesia” o cantor e compositor deixou uma dessas pistas na canção “Cartão Postal”, onde revela (in)confidências: “Pra que / Sofrer com despedida? / Se quem parte não leva, / nem o sol nem as trevas / E quem fica não se esquece / Tudo que sonhou, I now / Tudo é tão simples / Que cabe num cartão postal / E se a história é de amor / Não pode acabar mal / O adeus traz a esperança escondida / Pra que sofrer com despedida? / Se só vai quem chegou, e quem vem vai partir / Você sofre, se lamenta, depois vai dormir / Sabe; / Alguém quando parte / É porque outro alguém vai chegar / Num raio de lua, na esquina, no vento ou no mar / Pra que querer ensinar a vida? / Pra que sofrer com despedida”.
Cazuza não vai mais se expor, sua música agora vai ocupar todo o espaço deixado pelo cantor e compositor, que soube dosar a corrosiva carga de seu canto, num momento em que ‘as ilusões estão todas perdidas’. Afinal, seus heróis morreram todos de overdose, seus inimigos estavam no poder e seu prazer virou risco de vida.
Mesmo não pretendendo empunhar bandeira alguma, a força de sua canção e o seu recado seguro e indignado acabaram por empurrar Cazuza para o centro de outras lutas.
Sua canção “Brasil” se tornou um retrato em branco e preto da trágica realidade nacional de seu tempo, onde Cazuza cobrou alto seu inconformismo: “Brasil / mostra a tua cara / quero ver quem paga / pra gente ficar assim...”.
Quem apontou o dedo tão firme para a ferida não está mais entre nós para ver quem é que vai pagar pelo que fizeram desde então com o Brasil. Com a morte de Cazuza, morreu também um pedaço da irreverência brasileira. Morreu um poeta da indignação.
(*)Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e produtor cultural. Escreve em jornais de Portugal e do Brasil.
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22.1.15
Cartum da série "Selfie" - Atlas na fita
Cartunzinho rápido de hoje: Até o Atlas entrou na série "Selfie". Nem a Mitologia Clássica Grega escapa da mitologia do "eu na fita"...
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21.1.15
20.1.15
19.1.15
Cartum da série "Selfie"
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18.1.15
16.1.15
15.1.15
Miles Davis/O Jazz na essência, por Jorge Sanglard
Segue nova versão de texto do jornalista e pesquisador Jorge Sanglard (*) falando do gênio Miles Davis
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Miles Davis/
O jazz na essência/
Se não tivesse se encantado em 28 de setembro de 1991, há quase duas décadas e meia, Miles Davis estaria completando 89 anos no dia 26 de maio de 2015. Miles Davis (26/05/1926 – 28/09/1991) viveu buscando coisas novas pra tocar, novos desafios para suas ideias musicais e encarnou, como poucos, a história da música afro-americana improvisada. Sua trajetória é parte integrante e fundamental na evolução da linguagem jazzística ao longo do século XX e sua contribuição musical criou aberturas para além seu tempo. Durante quatro décadas e meia, Miles Davis contribuiu decisivamente para reformular as noções de harmonia e ritmo, nunca se atendo a rótulos. Por tudo isso, sua música não é fácil de ser codificada ou classificada e isso até foi motivo para irritá-lo: “Sempre achei que a música não tem fronteiras, limites ao seu crescimento, não tem nenhuma restrição à sua criatividade. A boa música é boa, independente do que seja. E sempre detestei categorias. Sempre. Nunca achei que isso tivesse lugar na música... Sempre quis apenas soprar minha corneta e criar música e arte, comunicar o que eu sentia por meio da música... Quando a gente cria sua própria arte, nem o céu é o limite”. Miles viveu pensando na criação e revelou: “A música é uma bênção e uma praga. Mas eu a amo, não queria que fosse de outra forma. A música sempre foi uma praga pra mim porque sempre me senti compelido a tocá-la. Sempre foi a primeira coisa em minha vida. Vem antes de tudo”.
A influência de Miles Davis como inovador e visionário foi decisiva na consolidação do jazz a partir da segunda metade do século XX, seja no cool, seja no pós bop, seja no modal, ou ainda na fusion e pode ser sentida até no break, no hip-hop e no rap. Mas o certo é que a matriz negra, o blues, sempre esteve presente em sua vida e também é certo que o jazz é uma linguagem musical cuja vitalidade está na essência da transformação. E aí, o que conta é a sensibilidade do criador e do improvisador, terreno onde Miles Davis sempre foi mestre, ou mais que isso, gênio. O espírito do jazz de Miles Davis está impregnado de blues e sua linguagem musical inovadora, a partir de frases inspiradas no blues, construiu uma sonoridade própria e transformadora. Para o trompetista, “a maneira de criar e transformar a música é tentar sempre inventar maneiras de tocar”. Afinal, “o mundo sempre foi mudança”, admitia. Portanto, o instrumentista incorporou ao som cortante e ao lirismo, ou à delicadeza, de seu trompete – base de sua concepção rítmica e harmônica – avanços rumo a novos caminhos, elaborando uma música para ouvir e para sentir. Sempre fiel à sua marca fundamental: “Eu toco simplesmente o necessário, nada além; apenas o essencial”.
Miles Davis deixou claro em sua trajetória que o silêncio é tão importante quanto o som. Com seus solos fragmentários – onde a tensão ronda cada fraseado – com as linhas melódicas sendo estendidas ao limite e sempre cercado de grandes instrumentistas, sustentando o clima denso e envolvente de sua música, o trompetista foi um dos criadores mais influentes do século XX. Em sua autobiografia, lançada no Brasil pela Editora Campus, em meados de 1991, três meses antes de sua morte, Miles revelaria: “pra eu tocar uma nota, ela tem de soar bem pra mim. Sempre fui assim. E a nota tem de estar no mesmo registro do acorde em que a toquei antes, pelo menos era assim. No bebop, todo mundo tocava muito rápido. Mas eu jamais gostei de tocar um monte de escalas e essa merda toda. Sempre tentei tocar as notas mais importantes do acorde, decompô-lo. Eu ouvia os músicos tocando todas aquelas escalas e nunca nada que a gente pudesse lembrar”.
De 1945 – como integrante do quinteto de Charlie ‘Bird’ Parker – a 1991, Miles Davis construiu uma sólida carreira musical e fonográfica, interrompida entre 1975 e 1981 para recuperação de um grave acidente automobilístico que o deixou com os dois tornozelos quebrados. Em três décadas, entre 1955 a 1985, Miles consolidou sua trajetória, mantendo a essência inovadora do jazz e articulando novas explorações sonoras. Ousado, inventivo e genial, Miles Davis desafiou o tempo com sua música impregnada de força e de criatividade. Miles encarnou parte da história do jazz e da música negra norte-americana e seu legado é parte integrante da evolução da própria música criativa da segunda metade do século XX.
O próprio Miles admitia: “Tive vários períodos criativos realmente férteis em minha vida. O primeiro foi de 1945 a 1949, o início. Depois quando deixei as drogas, 1954 a1960 foi um tempo musicalmente fértil... E 1964 a 1968 não foi tão ruim assim, mas eu diria que me alimentava muito das ideias musicais de Tony, Wayne e Herbie. O mesmo aconteceu quando fiz ‘Bitches Brew’ e ‘Live-Evil’, porque foi uma combinação de pessoas e coisas – Joe Zawinul, Paul Buckmaster e outros – e tudo que fiz foi reunir todos e compor umas poucas coisas”.
Em sua autobiografia, Miles afirmaria: “Sendo um rebelde negro e inconformista, sendo frio, elegante, irado, sofisticado e ultra limpo, como queiram chamar – eu era tudo isso e mais. Mas tocava o fino em meu trompete, e tinha um grande conjunto. Por isso, não consegui reconhecimento apenas pela imagem de rebelde. Tocava trompete e liderava o conjunto mais quente da praça, um conjunto criativo, imaginativo, super integrado e artístico. E isso, para mim, foi o motivo de conquistarmos o reconhecimento”.
Santíssima trindade do bebop/
Dizzy Gillespie, Miles Davis e Charlie ‘Bird’ Parker encarnaram o Pai, o Filho e o Espírito Santo no bebop, uma verdadeira revolução que lançou as bases do jazz moderno. A linguagem do jazz, a partir do bebop, entre 1944 e 1949, foi alterada radicalmente seja melódica, seja rítmica e harmonicamente, determinando uma ruptura com o tradicional. O jazz, com o bebop, passou a ser arte e não mero divertimento. Ao contrário do swing, o bebop não servia para dançar, daí sua pouca penetração popular, e mesmo músicos em ascensão, como Bird, Dizzy e Miles, eram atingidos pelo preconceito contra a música negra.
Para Miles, o bebop foi mudança, foi revolução: “Se alguém quer seguir criando, tem de ser com mudança. Viver é uma aventura e um desafio”. Aos 18 anos, o jovem trompetista negro Miles Dewey Davis III, nascido em 26 de maio de 1926, em Alton, Illinois, pequena cidade ribeirinha do rio Mississipi, a cerca de 40 quilômetros ao norte de East St. Louis, encarou o desafio da música e chegou a Nova York, em setembro de 1944, “ainda verde em algumas coisas, como mulheres e drogas”, mas confiante em sua capacidade de tocar trompete.
O verdadeiro motivo da ida do músico para a Big Apple ou Grande Maçã era procurar Bird e Dizzy, que sacudiam o cenário do jazz com um novo caminho, a partir de seus improvisos sobre temas pré estabelecidos, articulando novas melodias e impulsionando a mudança da concepção rítmica, base da consolidação do jazz moderno. Assim, Miles foi para Nova York “para sugar tudo que pudesse” de lugares como a Minton’s Playhouse, no Harlem, e muitos outros na rua 52, que todo o mundo da música chamava de “A Rua”. O estudo na escola Juilliard era apenas uma cortina de fumaça, uma escala, uma desculpa que Miles usara para ir para perto de seus ídolos musicais. E Miles deixou claro isso em sua autobiografia: “Ouça. A maior sensação de minha vida – vestido – foi quando ouvi pela primeira vez Diz e Bird juntos em St. Louis, no Missouri, em 1944. Eu tinha 18 anos, e acabara de me formar no Ginásio Lincoln, que ficava bem em frente, do outro lado do rio Mississipi, em East St. Louis, Illinois”.
“Bird pode ter sido o espírito do bebop, mas Dizzy era ‘a cabeça e as mãos’, aquele que congregava tudo”, disse Miles Davis, que se tornaria a mais nova personagem da Santíssima Trindade do bebop. Estas e muitas outras revelações do mundo e do submundo do jazz estão nas 382 páginas de “Miles Davis – A Autobiografia”, um livro que provocou impacto devastador quando foi editado nos Estados Unidos no final de 1989 e que, no Brasil, ganhou tradução de Marcos Santarrita, em meados de 1991.
Numa linguagem direta e certeira, como a pegada de um boxeur peso pesado, o livro foi fruto da colaboração entre o trompetista e o jornalista, poeta e professor Quincy Troupe. Contundente e corrosivo, Miles traçou um painel multifacetado do universo jazzístico de 1944 a 1989, permeando cada passagem com uma riqueza de detalhes só possível a quem vivenciou e/ou mergulhou fundo no prazer e na dor que envolviam e vão continuar envolvendo a música.
Negro como a meia-noite
Sobrevivente de uma geração de expoentes do jazz que acreditava na afirmação de Charlie ‘Bird’ Parker, em 1953, “A música nunca irá parar. Continuará sempre caminhando para a frente”, Miles deixou claro: “Música não tem época; música é música”. Negro como a meia-noite, Miles Davis criou uma música impregnada da essência cultural afro-americana expressa pelo jazz e alinhavada com a matriz negra, o blues.
O ano de 1954 seria musicalmente muito importante para o trompetista, embora ele mesmo não compreendesse o quanto na época, segundo revelação em sua autobiografia. O disco “Birth of the Cool” foi um marco e lançou um feixe de luz sobre os novos caminhos trilhados por Miles e o arranjador Gil Evans. Esse disco tomara, segundo Miles, de algum modo, outra direção, mas viera basicamente do que Duke Ellington e Billy Strayhorn já haviam feito; apenas tornara a música “mais branca”, pra que os brancos a digerissem melhor.
Em 1955, Miles Davis deixaria a Prestige, onde tinha gravado discos fundamentais para consolidar a base de sua música, tendo Bob Weinstock como produtor, e passaria a gravar para a Columbia, inicialmente com o produtor George Avakian. O grupo formado por Miles e tendo Coltrane como uma referência tornou o trompetista e Trane lendários: “Esse grupo realmente me pôs no mapa do mundo musical, com todos os grandes discos que fizemos pra Prestige e, depois, pra Columbia Records”. O primeiro LP do trompetista gravado na Columbia foi “Round’ About Midnight”, ao lado de John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones, em sessões realizadas estúdio D, em Nova Iorque, em 26 de outubro de 1955, e no estúdio da Rua 30, em junho e setembro de 1956. De cara, Miles emplacaria um clássico na nova casa. E ele sintetizaria: “A Columbia representou pra mim uma abertura pela qual minha música podia passar pra chegar a mais ouvintes, e eu passei por essa porta quando ela se abriu e jamais olhei pra trás”.
Em maio de 1957, voltaria ao estúdio com Gil Evans para gravar “Miles Ahead” e diria: “Foi uma grande experiência voltar a trabalhar com Gil. A gente se via de vez em quando, depois de fazermos ‘Birth of the Cool’. Depois disso, falamos em nos reunir em outro disco, o que resultou na ideia da música de ‘Miles Ahead’. Como sempre, adorei trabalhar com Gil, porque ele era muito meticuloso e criativo, e eu confiava plenamente em seus arranjos musicais. Sempre formamos uma grande dupla musical, e realmente compreendi isso quando fizemos ‘Miles Ahead’”. Em fins de 1959, o trompetista iniciou também com o arranjador Gil Evans o disco “Sketches of Spain”, outra maratona sonora repleta de descobertas e plena de sentimento.
Durante três décadas, a trajetória de Miles Davis na Columbia, atual Sony, impulsionou o jazz para novos caminhos. Ali permaneceu até 1985-86 quando migrou para a Warner e abriu novas perspectivas em sua música.
Para marcar essa colaboração Miles-Columbia, no final de 2010, o selo Legacy, que cuida das reedições da Sony Music, lançou um banquete completo para os admiradores da música de Miles Davis: uma caixa contendo a coleção integral dos álbuns do trompetista, disponível na Amazon, ou na Columbia-Legacy. São nada mais nada menos que 70 CDs, um ensaio escrito por Frederic Goaty, anotações de Franck Bergerot sobre cada disco e um DVD, além de fotos raras. Um mergulho profundo na alma do jazz de Miles.
As ideias criativas nunca se esgotaram em Miles Davis, que afirmaria: “elas me saltavam da cabeça”. E arrematava: “Me dizem que meu som parece uma voz humana, e é isso que quero que seja”. Para Miles Davis, música e vida são estilo. E advertia: “É preciso ter estilo no que quer que se faça – literatura, música, pintura, moda, boxe, tudo. Alguns estilos são elegantes, criativos, imaginativos e inovadores, e outros não”. E o estilo de Miles foi tudo isso e muito mais. Como músico, sempre esteve na linha de frente do jazz e sempre buscou novas explorações e desafios. A chama ardente do jazz marcou sua trajetória. Como poucos, o trompetista incorporou a alma da música afro-americana improvisada e sua experimentação sonora é fruto desta vivência e parte essencial da evolução do jazz. Para ele, a música estava sempre mudando. E mudando por causa das épocas e da tecnologia disponível.
Uma obra-prima e ícone do jazz moderno
O disco "Kind of Blue", um ícone do jazz, completou 50 anos, em 2009, e ganhou reedição de luxo com dois CDs, incluindo faixas extras, documentário e entrevistas em DVD e um livreto pelo selo Columbia/Legacy, no Brasil Sony. A versão norte-americana trazia ainda um vinil de 180 g. As duas sessões de gravação do álbum foram realizadas em 2 de março e em 22 de abril de 1959 e o disco foi lançado em 17 de agosto de 1959. A expressão “Kind of Blue” pode ser traduzida como “um pouco triste”, ou “um pouco blue”. E “So What” – faixa inicial do álbum – pode ser traduzida como “E daí?”. Já a expressão “modal” significaria “de escalas”, ou seja, “toda música ou todo sistema diatônico que obedecesse a um padrão de uma única nota ‘tônica’ central seria modal”. Na verdade, Miles Davis utilizava estas expressões usualmente e, por isso mesmo, são reveladoras de como coisas simples podem significar muito.
No livro "Kind of Blue - A História da Obra-Prima de Miles Davis" (Editora Barracuda), o norte-americano Ashley Kahn, empreende um mergulho fundo em uma das criações mais inventivas do universo jazzístico e um divisor de águas na própria trajetória do trompetista. Prefaciado por Jimmy Cobb (20/01/1929), baterista e único músico vivo do sensacional sexteto de Miles Davis que atuou nas duas sessões de gravação de “Kind of Blue”, em 1959, o livro revela os bastidores das gravações e mostra porque este disco é considerado uma das mais significativas expressões musicais do século XX. O próprio Ashley Kahn afirma: “No santuário do jazz, ‘Kind of Blue’ é uma das relíquias sagradas”. No entanto, esclarece que “o álbum fez menos barulho quando saiu do que sua reputação atual poderia sugerir – fazendo sua mágica na música por meio da evolução, não da revolução”.
Miles Davis, em sua autobiografia, garante que “Kind of Blue” resultou da forma modal que começara em “Milestones”, mas desta vez, foi acrescentado outro tipo de som que lembrava o do Arkansas “quando voltávamos da igreja e o pessoal tocava aqueles hinos de igreja sensacionais. Me voltou aquele sentimento e comecei a me lembrar do som e da sensação daquela música. Era dessa sensação que eu tentava me aproximar. Aquela coisa entrara em meu sangue criativo, minha imaginação, e eu esquecera de que ela estava lá”. Assim, “compus um blues que tentava retornar àquela sensação que eu tivera aos seis anos de idade, andando com meu primo pela estrada escura do Arkansas. Compus uns cinco compassos disso, gravei e acrescentei uma espécie de som cortante na mixagem, porque essa era a única forma que eu tinha de entrar no solo do piano. Mas a gente compõe uma coisa e aí vêm outros caras, tocam a partir dela e a levam pra outro lado, através de sua criatividade e imaginação, e a gente não sabe mais pra onde achava que estava indo. Eu tentava fazer uma coisa e terminava fazendo outra”.
E Miles vai mais fundo na explicação sobre como gravou o histórico disco: “Não compus a música de ‘Kind of Blues’, apenas fiz uns esboços do que todos deviam tocar, pois queria espontaneidade na execução. Tudo saiu na primeira tomada, o que indica o nível em que o pessoal tocava. Foi lindo. Mas quando digo às pessoas que não consegui fazer o que tentava, que não consegui obter o som exato do piano de dedo africano naquele som, elas me olham como se eu estivesse doido. Todos dizem que o disco é uma obra-prima – eu também gostei – e acham que estou tentando goza-los. Mas foi isso que tentei fazer na maior parte desse disco, particularmente em ‘All Blues’ e ‘So What’. Simplesmente não consegui”.
Kahn afirma que o solo de Miles em “So What” demonstra duas vertentes fundamentais da sonoridade de seu trompete: “Seu gênio para a simplicidade. Há quase um exagero de economia em seu método, contornando sons prolongados e silêncios para obter um efeito irresistivelmente casual e um palpável senso dramático. A outra característica distinta de Miles é a referida tendência de adiantar o ritmo e jogar com as divisões”.
Mas uma das revelações mais marcantes de Kahn sobre “Kind of Blue” foi o efeito que a música criada pelo sexteto produziu em John Coltrane, apesar de toda a música de influência modal que Davis, Cannonball, Heath e, depois, Zavinul produziriam, “nenhum músico foi mais afetado pela experiência modal deste disco e nenhum seria mais influente do que John Coltrane”. E lança mão do biógrafo Lewis Porter para explicar: “O solo em ‘So What’ indica o rumo que a música de Coltrane tomaria nos anos 60, mais que ‘Giant Steps’. Ele se tornou cada vez mais preocupado com os aspectos estruturais da improvisação; com isso, se concentrou exclusivamente nos conhecimentos modais, o que deu a ele o tempo para desenvolver suas idéias minuciosamente”.
Ashley Kahn assegura na introdução do livro que, quando começou a pesquisa, a Sony Music forneceu pleno acesso a todas as informações, fotografias e gravações dos seus arquivos, além de facilitar o contato com antigos funcionários. Assim, “localizei relatórios das fitas e das sessões que revelavam a identidade da equipe de gravação que trabalhou em ‘Kind of Blue’, cuja maioria – assim como os membros do sexteto, com exceção do baterista Jimmy Cobb – não está mais entre nós. De conversas com engenheiros da Columbia da época, pude formar um quadro do que era trabalhar no 30th Street Studio, antiga igreja onde o álbum nasceu”.
E, para aproximar o leitor do efetivo processo de criação do álbum, Kahn lançou mão da transcrição e da discussão das sessões de gravação. O texto original da contracapa de Bill Evans – “Improvisação no jazz” – foi encontrado “impecavelmente escrito à mão e quase sem edição", assim como as fotografias do engenheiro de som Fred Plaut, “jamais publicadas e que mostram as notações musicais de um tema de estrutura modal”. Kahn afirma que o trompetista e Evans demonstraram, neste disco, ser dois exploradores musicais unidos por paixões e visões afins: “Eles compartilhavam um lirismo obsessivo e um fluxo melódico que mais sugeria do que manifestamente definia a estrutura musical”. Miles ao falar de Bill Evans demonstra todo seu sentimento: “Bill possuía aquela chama silenciosa que eu adorava no piano. Da forma como tocava, o som que ele extraía era como silvos de cristal ou água cintilante caindo de uma cachoeira limpa. Red conduzia o ritmo, mas Bill se entregava a ele...”.
O autor do livro também afirma na introdução que, além das informações obtidas na pesquisa, “fui sendo igualmente tomado pelos aspectos mais místicos do álbum”. “A lenda de sua criação pura, em takes únicos. A combinação alquímica de influências de música erudita e música folk. A interação da filosofia menos-é-mais de Miles e do estilo igualmente enxuto de Bill Evans com o restante da banda, mais eloquente. O drama de Davis, que, movido pela interminável busca por novos estilos, criava uma obra-prima para então abandoná-la em favor de uma próxima empreitada. Fui desafiado a examinar o que havia de verdadeiro na mitologia do disco. Todo o álbum teria sido de fato improvisado, e não planejado? Miles realmente compôs tudo? ‘Kind of Blue’ mudou o território do jazz para sempre e, em caso positivo, como? Para fazer justiça ao álbum, eu precisava me transportar ao tempo e ao lugar que o gestaram”.
Ponte entre o jazz e o rock/
Os 45 anos do lançamento de “Bitches Brew”, um dos discos mais inusitados e controversos de Miles Davis, serão celebrados em 2015. Marco da fusão jazz - rock’n’roll nos anos 1970, o álbum foi um divisor de águas na trajetória de Miles e impulsionou o que passou a ser chamado de jazz-fusion. O trompetista revelava: “O sintetizador mudou tudo, quer os músicos puritanos gostem ou não. Veio para ficar, e a gente pode curtir ou não”. Em 2010, foi lançada uma edição comemorativa, em dois CDs, reunindo as gravações originais remasterizadas e duas versões de estúdio até então inéditas. Além disso, incluiu um DVD, onde Miles está acompanhado por Wayne Shorter (saxofone), Chick Corea (piano), Dave Holland (baixo) e Jack DeJohnette (bateria), em Copenhague, em novembro de 1969, no Festival Tivoli Konsertsal.
Enfim, o mundo da música agradece a contribuição de Miles Davis para tornar melhor o século XX e esta primeira década e meia de século XXI.
*Jorge Sanglard é jornalista e pesquisador. Escreve em jornais de Portugal e do Brasil.
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