8.3.10

Conto da Maysa - Segundo Ato: Eu e Ele


Ele nunca chegara por inteiro. O lá fora era seu segredo. O aqui existia em nós e, provàvelmente, transformava-se em lá fora quando partia de mim, da casa e do afeto encontrado. Esse quê misterioso lhe dava densidade e, ele sabia, usava muito bem tudo isso.
Era econômico nos gestos, palavras cabiam na palma de sua mão. Aliás, pequena para a altura que tinha. Seu único exagero aparecia na cama, era sequioso, um pedinte. Inúmeras carícias, desejos a que todos temos direito e nem sempre demonstramos. Eu me excedia com prazer, o agradava. Eu, sempre, o observava de forma intensa. E para não assustá-lo contava-lhe histórias, achando-me a própria Sherazade, não as contava apenas na cama, era no tempo de nossas conversas de boca e olhos. Ali, na sala de estar ou na de almoço, próxima à cozinha. Conheci um a um seus desejos e, suas tristezas mais recônditas. Sem que fosse preciso narrá-las. Eu as pressentia. Ele sabia.
Não era preciso dizer-me, era o bastante olhá-lo, ver seu corpo magro, os insipientes músculos contidos, os quadris acuados na larga calça jeans. Para mim um charme do espécime masculino.
Quase inatingível, incólume entrava e saia da minha vida. Pudera fui sua cúmplice fiel em todos esses anos. Nossa parceria deu certo para ele.
Não posso imaginar como reconstrói o seu lá fora, agora, depois que rompeu comigo. Vai recomeçar um novo caminho? Terá capacidade de viver um só mundo?
Os criativos precisam de pontos, linhas, traços de fuga que se transformam, de modo mágico, em construções de novos pontos, linhas e traços de equilíbrio.
Quando tudo terminou não notei. Hoje, sinto muita falta da sua pouca, mas carinhosa conversa, não transbordava em histórias, a seu modo, se dedicava a mim.
Maysa Machado
Santa Teresa, 07.03.10

4 comentários:

Anônimo disse...

tenho uma pontinha de inveja de quem consegue ser só um. viver uma vida só, um pacote, uma história. tenho uma ponta de inveja dessa gente que caminha em linha reta. e que não dá voltas e voltas e saltos e pulos enormes, como eu.
parabéns maysa. lindo conto! um beijo da vivian

Anônimo disse...

Maysa
Sua sedução passa vitalidade...
Preciso desse exercício
bjs
Edna

Maysa disse...

Mulheres e homens acordai!
O que escrevi afirmo é pura fantasia, e desconfio ficção... impura.

1 - Vi v essa inveja não é malsã! Quanto as voltas e voltas... mais seguras são as sonoras com coreografia espontânea.

2- Edna

imaginar, criar dá liberdade e liberdade traz vitalidade, né não?

Beijo pras duas queridas e pro nosso anfitrião! Amei a ilustração do Liberati. Isso é que é delicadeza!
Maysa

Amalia disse...

Muito lindo Maysa.
Gosto muito desse teu jeito de esvrever.
bjs
Amália