8.3.10

Crônica da Tinê : TODAS LULUS (trecho)


Cleópatra era baixinha, gorda, nariguda. E careca. Por conta dos piolhos, colecionava perucas – uma para cada túnica. Seus cirurgiões só sabiam drenar gordura dos mortos. Nem assim deixou de virar as cabeças masculinas: aconchavava à base de feromônios. Boa de papo e de cama, ela foi um mulherão. Afirmar que ela usou as prerrogativas do sexo para dominar os homens, seria uma ofensa. Ela não dava para qualquer um. Estrategista sagaz, a faraó soube buscar sucesso ao misturar o cosmos aos cosméticos na dose certa. Banhos de imersão em leite de cabra e mel, pomadas faciais com extratos raros, uma parafernália de objetos de toucador junto a boas leituras sobre tudo que acontecia na época – ela era antenada para além das dunas! Charme com inteligência era o seu padrão de beleza para conduzir o reino à glória dos deuses. Mais do que flores e joias, ela almejava manter o poder. Seu fim trágico revelou sua verdadeira natureza – o orgulho de ser o que era: mulher. Ser aclamada como a ‘meretriz do Nilo’ ou a ‘mocreia de César’, ora, ela deu-se de ombros. Mas imaginar a cena de seu corpo bem tratado ser esfoliado pelas pedras das vias romanas, ah, isso seria a última gota do frasco almiscarado! Daí veio o chilique típico de mulher – tomou o banho mais demorado de sua vida até parar de chorar, vestiu-se com a melhor seda, cobriu-se de ouro, e ordenou: “Minhas servas fiéis, tragam as víboras, matemo-nos. Entregar o balaio, jamais!” (essa frase ficaria chiquérrima se eu a colocasse na boca de um senador, o mesmo que transferiu Marco Antônio para o céu de Juno, mas meu latim só conseguiu decifrar ‘VANITAS VANITATIS’.)
Comecei a falar de Rosa de Luxemburgo, vestida castamente, a bradar em praça pública sobre o direito de voto feminino no século retrasado, Eulália (a mestra em forno e fogão, que odeia microondas) me cortou – “Como cantou o bom Ataulfo, mulher de verdade é aquela que não tem a menor vaidade.” Sem essa, mulher! De Amélias o mundo está cheio. Camélias, só no galho! Até os caranguejos se enfeitam no fundo do mar... “Sim, para se camuflarem!” E beleza não é uma forma de se mascarar? Aliás, observe, em cada época, em cada etnia, em cada país, em cada reduto urbano, a vaidade se revela em uma determinada área do corpo, a ponto de deformar a própria “embalagem”?
Há vaidosas que se escondem. Minha avó foi operária num tempo em que desodorante era um gomo de limão esfregado nos sovacos. Trabalhava com lenço à cabeça e enorme avental que a cobria como uma burca. Ela nunca dispensou pó-de-arroz, batom cor-de-rosa e colônia. Trabalhava cantando. Até os sambinhas de Ataulfo Alves. Toda mulher tem o seu “momento Lulu”, até aquela sentada num canto da rodoviária a estender a mão pelo pão do filho. Ela carrega escondido um anel de vidro pregado com alfinete por dentro da roupa; à noite, ela põe o anel no dedo, sorri para o falso brilho e dorme como Rainha de Sabá.
Um dia, o poetinha Vinícius recitou “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.” Beleza é algo subjetivo, e a vaidade nem sempre está associada ao que as mulheres entendem por “ser bela”... mas movimenta uma indústria imensa, que nos últimos anos tem se diversificado para fora do âmbito humano – sabe a última do cirurgião plástico veterinário?

Rodapé de luz:
Hoje é o Dia Mundial da Mulher. Não desejo que as mulheres se igualem aos homens. Desejo que elas lutem pelo direito de estarem ombro a ombro – mesmo que você, leitora, seja alta, baixa, loira ou morena, não importa o estilo, a etnia, o país em que vive, nem seus costumes.
Tinê Soares (08/março/2010)

10 comentários:

ze disse...

TS, vc é a maior cronista do mundo. E a emoção quando da descrição da mendiga na rua ? Antônio general, cortou a cabeça e a mão direita de Cícero orador, escritor. Cícero é outro Catão. Estes dois últimos é que orientam Dante, durante, a viagem. "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade" é uma grande frase, vento, a vaidade, sopro, brisa que passa e a tudo alimenta. Todos vivem de brisa. sem brisa não há vida.

TS disse...

Caro ZÉ, nem tanto, nem tanto...
Já imaginou DANTE de saias?
A brisa ia virar ventania, acho eu.
Obrigada, abrs.

sara disse...

Muito legal! Minha sugestão: "História de Mulheres", da espanhola Rosa Montero. Mulheres conhecidas por comportamentos inesperados! Acho q vc vai gostar. bj

EH disse...

Para seu rodapé de luz, um comentário obscuro - também queria que todas as mulheres estivessem ombro a ombro comigo - mas não barriga a barriga (bem, exceto por no máximo 9 meses).
Que bom, seu estilo único, de volta no meio da semana!
Abção Edgar

Ed disse...

Mas é claro que o Zé tem razão e não é bondade não. Enquanto li dezenas de homenagens às mulheres, com as mesmas verbalizações de sempr - lugares comuns e utópicos - v. vem e disseca de forma brilhante não um "universo feminino", mas uma crônica reflexiva sobre as mulheres, em suas contradições ao mesmo tempo que ressaltando sua força. Aliás, contraditório é o ser humano, independente de gênero, cor, idade. Agora, além do texto, mas comentando resposta de comentário: ué? Os escoceses não usam "saias"? Por que Dante não poderia tb? Que venham brisas e ventanias!!! (rsrsrsrs)

Lygia Nery disse...

Fiquei pensando no ideal de beleza que haveria em comum entre Rosa Luxemburgo, Cleópatra e mulheres do nosso tempo, de todas as classes e culturas. Haveria uma beleza atemporal, irretocável e absoluta? Forçando a imaginação, acho que apenas o brilho no olhar poderia representar esse papel. Afinal, existe algo mais fascinante do que um olhar com luz própria?

Anônimo disse...

Levei um susto com o rodapé luminoso. Na primeira leitura rápida, entendi "hombre a hombre"!
Um dia vocês [mulheres] chegarão lá...(só para irritá-la).
Mas, que seria de nós [homens] sem os... nós juntos?
Vento e vaidade têm a mesma origem latina.
Pessoa e máscara, também.
M.R.L.

Karine disse...

Haahaha, não tinha visto essa postagem ainda. Adorei!
Beijos, Karine.

LIBERATI disse...

Pois é Karine, a Tinê é uma grande cronista e também é contista e fotógrafa. Nessa crônica ela foi lá atrás buscar Cleopatra que se encaixa bem na sua pesquisa sobre as coisas do Egito. Grande Nilo e suas histórias e lendas e estilo.
bjs

TS disse...

Perdoem minha resposta tardia...
Agradeço a todos que deixaram comentários, sempre bem-vindos!

SARA: dica anotada; o trecho é de um texto longo, feito sobre observações pessoais e algs anotações maternas.

EDGAR: quem mandou ser alto! Quanto à barriga, faça flexões abdominais e menos chopp.

ED: A indumentária não define o sexo, por mim os homens podem usar meia-arrastão!

LYGIA: Eu resumiria por 'valentia' e, claro, o olhar; olho de mulher é um prisma!

MRL: Você e o ZÉ são os eruditos; não discuto.

KARINE: Que bom vc ter gostado, embora o txt aqui não trate "exatamente" de egiptologia; eu peguei a "Cleo" justo pq, para mim, a história dela sempre foi uma caricatura de época, mais que um romance interracial!

LIBERATI: Vc é sempre uma força!

Beijos em todos,
Tinê