12.12.08

Crônica da Tinê : Leilão


Ao meu pai

Quem dá mais? Quem dá mais? Alguém dá mais?... 75 para a senhora à esquerda! 23 para a morena marajoara! 50 para a senhora de vestido de alcinhas! 49 para o ex-surfista! 20 e 21 para os bonitões aqui em frente! 55 para a gordinha lá no fundo! 2 para o único bebê no salão! 32 para o cabeludo à direita! Entre 40 e 70 para os carecas! Para este senhor emocionado, dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe...

Prima de meu avô, Yvonne Lott viveu cento e quatro anos. Só a vi uma vez, na festa de seu centenário. Rodeada por parentes de quatro gerações, a rainha do banquete observava do alto de sua poltrona. Peguei-lhe as venerandas mãos como se naquele toque eu recebesse uma poção secreta para a longevidade ou uma dica às dúvidas sobre o complexo existir. Eu a admirava como quem tenta decifrar um enigma, cartas de tarô, astros insondáveis, búzios na peneira. Percorri as rugas de sua face; quem sabe descobriria o que as linhas da mão escondiam? Fiz a pergunta trivial “como se sente aos cem?” A resposta com ar cansado foi lacônica: “Satisfeita”, para em seguida abocanhar um naco de bolo. Ela não foi uma mulher liberada, de sair por aí levantando bandeira, muito menos uma velhinha de Cruzeiro. Levou sua vida pacata à margem das turbulências nacionais, criando filhos em casa e plantas no jardim.

Em quaisquer circunstâncias, - e olhe que escapei de várias! - eu já teria partido para outra, pois aos vinte anunciara por escrito não fazer questão de chegar aos trinta. Em que pesem a medicina moderna e os recursos milagrosos da cosmética, o que realmente acontece por dentro de quem corre contra o tempo? Aqueles que se gabam de nunca envelhecerem porque continuam a badalar ao vento, às vezes soam risíveis.

Meu avô dizia que depois dos sessenta, o que vier é lucro. Em breve corrigirão para “depois dos cem”. Não importam as dúvidas, as dívidas e os dividendos. Nasceu, é imperativo viver! Engolir os desgostos. Carregar as tralhas. Gostar, mesmo sem ser gostado. Chorar e rir bastante. Fazer umas doideiras sem se sentir obrigado a mascarar a idade. Contar estórias e piadas. Suportar os chatos. Regozijar-se com as conquistas, por menores que sejam: ninguém é humanamente capaz de só errar a vida inteira, a menos que faça do erro uma fonte de negócios excusos.

Rabisquei notas em guardanapos (alguns, por descuido meu, foram recolhidos ao lixo, acredito que deviam ser irrelevantes) enquanto meu pai discursava de braços abertos, a envolver todos de uma vez só em torno de sua mesa festiva. Se os braços se mantiveram abertos, os punhos estavam cerrados em confirmação de sua força octogenária. Se ele, agradecido, dirigia a palavra às pessoas atentas, ele o fez com os olhos voltados para os netos – os bônus de sua vida –, os que ele espera perpetuarem o seu nome junto à vontade de realizar o futuro além dele, sonhos que ele não sonha por não mais pertencerem ao seu tempo. Meu pai vale oitenta. Mas as ações podem subir a qualquer momento!
Tinê Soares – 05/12/2008
Foto-ilustração T.S.

8 comentários:

sara disse...

Enqnto tentava imaginar a cena, vários filmes americanos vieram à mente. deve ter sido divertido esse encontro em família!
bj + feliz natal

Ed disse...

Parece que com a idade vai deixando alguns rastros comuns a todos. Enquanto lia pensei em minha avó e em minha mãe. (engraçdo, nem pai nem avô. Talvez pq meu pai tenha falecido muito cedo, pouco o conheci e minha avó, assim como minha mãe são de personalidades fortíssimas. Bom... minha avó era... já se foi). Então falo de minha mãe: ela tem o hábito de dizer que já está "devendo à vida" (ela tem 82). Mas fica se lamentando? Viaja diversas vezes por ano, vai dançar no mínimo duas x por semana (rs). E de salto alto. Eu lembro que lá pelos 15 disse que não passaria dos 35. Só espero ter a força e superar as idades e chegar na de sue pai e de minha mãe, com a mesma vitalidade deles e da prima do início da crônica. Eles nos ensinam. Basta a gente ouvir e apreender... ainda que tenhamos que escrever em guardanapos e folhas soltas. As que se forem, é pq realmente não eram relevantes. Ficam as que se tornam permanentes! Este seu leilão foi perfeito para a época do ano, sabia? E sem lugares comuns. Beijaço.

TS disse...

Querida Sarinha, toda família tem estórias cinematográficas, já notou?
Quando criança ouvia fatos verídicos incríveis de ramos diferentes da família, pena q esteja esquecendo tudo, faltam elos e finais...
Boas Festas p/ ti tb. Bijus.

TS disse...

Caro ED, então vc quis parar nos 35?
Envelhecer nem sp é sinônimo d maturidade, mas sp é reflexo da vida q se levou: se foi numa boa, assim será no final; o chato é qdo os "mais-chegados" vão embora na frente.
Sua mãe está certa! E vc entendeu o mote do leilão. Beijins.

Ehofmann disse...

Adorei sua ilustração. É ele mesmo, o Doutor Siqueira! Do mesmo jeito que eu me lembro, de há mais de 35 anos atrás. O tempo não para. Mas para quem tem a memória do afeto, o tempo não passa.
Um abraço forte. Feliz Natal.

Anônimo disse...

Querida prima, pena não ter podido estar lá. Pena mesmo! Mas por um instante passei por lá através do portal mágico de sua crônica.

Um Beijo e Feliz Natal!!!

Marcus

TS disse...

Hofmann, enfim vc deu sinal d vida! A memória afetiva tem maior cotação (rsrs) Parece parte daquele mural mexicano, né não?

Marcus, vc teria se divertido lá. Estes encontros são engraçados porque os que raramente se vêem acabam no atropelo do blá-blá-blá. Aguardo a gravação de sua obra, avise-nos!

Beijos em ambos, Boas Festas.

Anônimo disse...

Tive a felicidade de organizar a festa.
Quase entrei em desespero ao perceber que contaria com mais de quarenta pessoas presentes.
Mas, de repente, quando me dei conta da perfeição com que tudo aconteceu, me emocionei e agradeci a Deus por esse momento único.
Fica a intimação de José Siqueira de que todos os presentes se reúnam daqui a dez anos, pois ele estará lá nos esperando.
Eu pretendo estar!

Monica Siqueira