13.1.09

O Velho Tide


(Segue a homenagem da jornalista e professora Sandra Medeiros ao grande Tide Hellmeister)
Fiquei sabendo, tardiamente, que o artista gráfico, designer pioneiro, Tide Hellmeister, não resistiu a um enfisema pulmonar e a uma cirurgia de coração e deixou a nossa convivência no dia 31 de dezembro último. Não é mais notícia, mas o fato tem alcance, afeta o jornalismo, as artes gráficas, o design, o ensino do design, a arte: deixa um espaço que não se preenche. Perdemos um profissional dos mais sérios, criativos, realizadores. Não são poucos os projetos pioneiros de Tide e aqueles que conhecem a sua história sabem disso: de autor do importante Técnica Tipográfica à coluna Significado do significado (no Diário Popular) Tide fez de tudo e um pouco mais. Querido e admirado no meio editorial e gráfico, ele foi um dos criadores da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo, a notória ECA-USP; da Cásper Líbero; da Escola Superior de Propaganda e Marketing.
Biólogo que era, dirigiu a Faculdade de Ciência da Santa Casa de São Paulo. Psicolingüista, ele é autor de O Culto Idioma. Marcaram o jornalismo brasileiro as belas ilustrações que fez, durante anos, para a página do jornalista Paulo Francis, Diário da Corte, no jornal Estado de São Paulo e em O Globo. Sua caligrafia rara marcou a ilustração editorial e a sua passagem pelas revistas Publish e da Abigraf (em capas e na reprodução de mini-portfolios) mostra a fineza do seu trabalho.
Tide começou menino, aos 17 anos, na TV Excelsior e deu um show de talento quando esteve na pequena - e significativa - Editora Masao Ono, e em todos os lugares por onde passou. Autodidata e discípulo reconhecido, não esquecia o primeiro mestre, Cyro del Nero, a quem sempre rendia homenagens. Tide ultimamente era mais conhecido pelas suas colagens: muitas de impacto pop, como os coloridos alfabetos que encantaram jovens designers pelo país inteiro. Outras, sofisticadas e barrocas, como a deslumbrante série em preto e branco que expôs no auditório da Rede Gazeta, na segunda noite do Seminário Nacional de Ilustração e Design Editorial, organizado em novembro agora, pela Célula Tipográfica, em Vitória, capital do Espírito Santo. Colagens planas, tridimensionais, em todos os formatos, e quase todas elas com um elemento caligráfico. Mestre que era, Tide sempre mostrou a união indissociável entre caligrafia, tipografia, edição e arte.
Reconhecido, admirado, Tide foi sufocado pelo computador com seus programas de soluções padronizadas que tão bem produzem a mediocridade. Seu estúdio, que chegou a empregar 20 profissionais, estava praticamente reduzido a ele e um assistente.
Em 2006 foi homenageado pelo Museu da Casa Brasileira e a Infolio Editorial com o lançamento de Tide Hellmeister, inquieta colagem. São 144 páginas com 200 trabalhos do paulista do Pacaembu, da Rua Tupi, um artista justamente reconhecido no Brasil e fora do Brasil.
Não pararia tão cedo se fosse enumerar tudo o que ele fez... Tive o privilégio de compartilhar alguns bons momentos com Tide por telefone e durante sua vinda a Vitória, mas não tive a sensibilidade de procurá-lo mais, depois que retornou para São Paulo, embora desde então me surpreendesse, em muitos momentos, preocupada com ele: como sempre acontece, cedi ao trabalho e aos compromissos imediatos, e fiquei adiando o "preciso ligar para ver se o Tide melhorou". Não esqueço dos minutos em que, no saguão do Alice Vitória Hotel, conversávamos enquanto ele esperava a hora de ir para o aeroporto. Respirava mal, como na noite anterior, quando mal conseguia andar, embora se negasse a largar o cigarro. Reclamou muito pelo meu atraso. Involuntário. Não faria esperar o grande tipógrafo que recortava das páginas do Estadão. Pelo telefone ele havia advertido: “Você vai se arrepender se não vier me ver.” Brincava porque temia – me disse – parecer uma pessoa enjoada ou esnobe. Estava muito apreensivo, falou dos exames programados para o sábado seguinte, reclamou, repetiu, enfatizou que não estava bem, mas foi com entusiasmo que me mostrou outros trabalhos, que eu não conhecia, e reforçou o convite para que fosse visitar o seu ateliê, em São Paulo. Na capital, não em Salto. Vaidoso e orgulhoso de seu trabalho, disse que eu iria ficar encantada. Combinamos que iria aparecer em fevereiro. Não deu. Lamento tanto!
(Sandra Medeiros)

3 comentários:

guilherme mansur disse...

querida sandra,
naquele seminário em vitória
fiquei hospedado no mesmo quarto,
no hotel alice, de onde o velho tide
havia saído um dia antes.
lamento pois não ter tido
a sorte de conhecê-lo pessoalmente.
abçs

collages disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
collages disse...

andra,
Li seu texto sobre em homenagem ao meu pai só agora. Obrigado.
Nele vc coloca algumas informações que não procedem. Ele nunca foi biologo nem neurolinguista, tambem nao fundou a ECA. Estas informações correm na internet por causa de uma materia escrita erroneamente ha bastante tempo.
No proximo dia 30/01 começa aqui em São Paulo uma exposição com trabalhos dele chamada "Brava Gente".Se puder venha ver.
Dê uma olhada no blog expobravagente.blogspot.com e se quiser entre em contato comigo pelo andre@agenciasalve.com.br
Atenciosamente
Andre Helmeister