31.1.08

Blogue do Professor Marco Aurélio Nogueira no ar


O Professor Marco Aurélio Nogueira, que entre os vários saberes que domina, entende pacas de Gramsci, montou um blogue para falar de Política. Vai selecionar e organizar a publicação de seus artigos e outras bossas. Vale a pena acessar. O endereço, que vai entrar para os meus preferidos é : http://marcoanogueira.blogspot.com/

Charge de 1 de fevereiro - Assim "Caminha" a humanidade

Fragmento do dia - Leminski na IMÃ


"Poema" de Paulo Leminski publicado na revista IMÃ editada em 1989/90 entre Vitória e Rio de Janeiro por Sandra Medeiros com Edição Gráfica comandada por ela e Ivan Alves - as ilustrações foram feitas por este blogueiro que vos fala e Barrão.
Nota da Redação: Tenho insistido com Sandra para lançar a IMÃ virtual, mas até o momento acredito que ela ainda defende o papel como suporte do verso. E isso pode ser uma mentira minha...ou não.

30.1.08

Charge do dia 31 janeiro - Médico da roça

Rubens Gerchman partiu. Viva Rubens Gerchman!



Hoje não teremos o fragmento do dia. Hoje temos saudades e homenagearemos Rubens Gerchman(1942-2008) que foi cremado ontem. Um dos maiores artistas brasileiros da nossa arte pop-contemporânea-eterna. Publicamos uma foto dele quando jovem (de seu arquivo pessoal) ao lado da obra Elevador Social, no MAM e também um recorte da sua famosa pintura Lindonéia a Gioconda dos Subúrbios de 1966 (Espelho, scothlite s/ madeira - 90x90 cm da Coleção Gilberto Chateaubriand). É bom lembrar que esta pintura vista por Nara Leão numa exposição foi descrita para Caetano Veloso que com seu talento a reimortalizou na canção-ícone do Tropicalismo - Lindonéia Desaparecida.
Este material foi retirado do livro Gerchman da Editora Salamandra- cuja Produção e Coordenação esteve nas mãos de Paulo Fernandes com Projeto Gráfico de Diter Stein/Printz e o Texto do saudoso amigo Wilson Coutinho que decerto estará com Gerchman se inteirando do panorama das artes aqui nesse planeta em dissolução.
Viva Gerchman!

Charge do dia 30 de janeiro - Violência S.A.

29.1.08

Mais um brinde: Um cartum de João Zero

Fragmento do dia - Pensar e manter Motocicletas

"Pelo meu relógio, som soltar o punho esquerdo do guidom da motocicleta, vejo que são oito e meia da manhã. O vento, embora estejamos a noventa por hora, é morno e úmido. Se às oito e meia o tempo já está assim abafado e quente, imagine como não estará à tarde...
O vento traz um cheio acre dos pântanos que margeiam a estrada. Estamos numa região das Planícies Centrais com milhares de charcos onde é permitida a caça aos patos, e rumamos para noroeste, de Minneapolis para as Dakotas. Nesta rodovia antiga, de duas pistas, o movimento diminuiu bastante desde que inauguraram ao lado uma auto-estrada de quatro pistas, há vários anos. Quando passamos por um pântano, o ar refresca um pouco; depois, torna subitamente a esquentar.
É bom viajar novamente pelo interior. Esta é uma espécie de terra de ninguém, sem notoriedade alguma, e é justamente isso que atrai nela. Ao longo dessas estradas velhas, a gente se descontrai. E seguimos aos solavancos pelo concreto desnivelado, entre rabos-de-gato e trechos de campinas, mais rabos-de-gato e capim do brejo. De vez em quando, aparece uma certa extensão de água; se a gente olhar com atenção, consegue ver os patos selvagens, perto dos rabos-de-gato. E as tartarugas também...Um melro de asas vermelhas!
Dou uma palmada no joelho de Chris e aponto para o pássaro.
-Que é? - berra ele.
- Um melro!
Ele diz alguma coisa que não entendo
-O que? - berro eu.
Ele me agarra a parte de trás do capacete e grita:
-Eu já vi uma porção desses bichos, pai!"
(Trecho da abertura do fenomenal livro "Zen e A Arte da Manutenção de Motocicletas - uma investigação sobre valores" de Robert M. Pirsig Editora Paz e Terra - tradução de Celina Cardim Cavalcanti)
Nota da Redação : Esta é uma viagem real e irreal ao mesmo tempo. Não é ficção, é o relato de uma viagem pelo interior dos EUA feito por Pirsig e seu filho Chris, na época com nove anos (se não me engano) na década de 70 -( o livro é de 1974) também é uma viagem filosófica do autor que fala sobre o seu tempo, narra sua crise e pensa sobre o nosso tempo, o tempo que passou e o que vai passando na estrada desta civilização elétrica. Ler este livro é como sacudir a cabeça ,embaralhar e rever os conceitos de tecnologia , de viver de qualidade, etc, além de ser um ótimo livro de estrada. (Como On the road do Keruak). Pirsig está vivo ainda, e completa 80 anos em setembro de 2008. Em 2006 ele deu uma entrevista para The Observer em Boston. Seu livro é um verdadeiro guia e entrou para a galeria das obras sagradas(cult) da literatura americana como "O Apanhador no Campo de Centeio" de Salinger. Poderia escrever muito mais sobre este livro, mas estou com um sono dos diabos já são 3 horas da madruga. Outro dia eu falo mais sobre este livro difícil de resumir. Junto com ele falo o que tenho que falar sobre o livro de John dos Passos. Aqui não é ponto de jogo do bicho, mas vale o escrito.

Charge do dia 29 de janeiro - Mata e desmata

28.1.08

Fragmento do dia - 400 anos de um Padre bom de lábia

"Finjamos pois(o que até fingindo e imaginando faz horror), finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses: que é o que há de suceder em tal caso? Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos. Chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua modéstia; chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito às suas cãs; chorarão os nobres, vendo que não se guarda cortesia à sua qualidade; chorarão os religiosos e veneráveis sacerdotes, vendo que até coroas sagradas os não defendem; chorarão, finalmente, todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a estes perdoará (como em outras ocasiões não perdoou) a desumanidade herética. Sei eu, Senhor, que só "por amor dos inocentes dissestes vós alguma hora que não era bem castigar a Níneve . Mas não sei que tempos nem que desgraça é esta nossa, que até a mesma inocência vos não abranda.
Pois também a vós, Senhor há de alcançar parte do castigo - que é o que mais sente a piedade cristã - também a vós a de chegar."
(Trecho da parte IV do Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as de Holanda do Padre Vieira - Este Sermão foi pregado na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda da cidade da Bahia, atual Salvador. Com o Santíssimo Sacramento exposto. Sendo este o último de quinze dias, nos quais todas as igrejas da mesma cidade se tinham feito sucessivamente sermões semelhantes, no ano de 1640 - LP&M Pocket)
Nota da Redação: Interessa saber que na época em que se comemoram os 400 anos do Padre Vieira estão sendo lançadas duas biografias desse sujeito bom de lábia.Ele nasceu em 6 de fevereiro de 1608 . Peguei esta informação no Prosa&Verso de O Globo.
Vieira teve uma vida atribulada e contraditória- uma hora estava de um lado do muro, na outra do outro lado. Neste sermão que visava dar uma levantada na moral da galera contra os Holandeses, ele bota Deus na parede e chega a ameaçar o Criador, dizendo que o castigo vai chegar até Ele. Não é mole! O Padre que foi chamado de "imperador da língua portuguesa" por Fernando Pessoa, que atacou tanto os Holandeses, logo em seguida quando se encerra a União Ibérica com a libertação de Portugal em relação ao domínio Espanhol, em 1640, o padre vai para Lisboa onde fica ao lado do rei D.João IV como conselheiro. Já que era bom de lábia, vai ser o diplomata do reino e chega a negociar até com os hereges dos holandeses, que "tanto mal" fizeram aos portugueses nas guerras de antanho (no trecho do sermão eles cometem várias barbaridades :estupros das mulheres, esculacho dos clérigos, velhos e crianças).
Oito anos depois desse sermão cujo trecho está aí em cima, ele oferece o mesmo "Pernambuco" ameaçado pelos batavos aos agressores Holandeses(que nada mais são senão batavos, eles mesmos) em troca de paz na guerra onde Portugal não estava levando a melhor.
Combateu também a escravização dos indígenas e lutou pela sujeição destes aos jesuítas (quando andava pelas matas do Brasil) e mais tarde já velhinho(mais de 80 anos) não vai se aquietar e sim, como Visitador vai mandar ver pra cima do Quilombo de Palmares pregando sua destruição. Chega ao ponto de negar clemência e afastar a possibilidade de negociação, temendo que sem uma mão de ferro , se estimularia a proliferação de novos Quilombos pelo Brasil afora. (antecipando uma teoria guevarista - muchos vietnans en america).
Aprontou tanto que foi parar nas mãos do Santo Ofício, sofreu prisões e interrogatórios, mas se defendeu e por fim voltou numa boa para Pindorama. Enfim foi uma "metamorfose ambulante". No dia 18 de julho de 1697 morreu no Colégio dos Jesuítas da Bahia. Deve dar uma biografia muito bacana.
As informações para esta nota eu apanhei na edição da LP&M. Foi Homero Vizeu Araújo que fez a seleção dos sermões, escreveu a introdução e as notas da edição que tenho em mãos.
Em tempo: - As biografias que sairão aqui " História de Antônio Vieira" de João Lúcio de Azevedo que sai no mais tardar em abril pela Topbooks.
A outra, é "Padre Antônio Vieira" de Clovis Bulcão" vai ser publicada pela José Olympio.
A única coisa que me deixa curiso é saber se uma destas biografias vai revelar aquela coisa que se chama de"estalo de Vieira pois reza a lenda que ele tinha uma certa rigidez perceptiva até uma certa idade, e que num dia aconteceu uma coisa no seu cérebro lento ou seja : o tal "estalo" e ele virou esse monstro da lábia como todo mundo está careca de saber, menos o Zé Dirceu, é claro!

27.1.08

Charge do dia 28 de janeiro- Bambolê do poder

O poder da Cidade


(Artigo do Professor Marco Aurélio Nogueira(*) publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo em 26 de janeiro de 2007)
Nada mais adequado para um ano eleitoral, quando os governos das cidades serão renovados em todo o país, do que refletir sobre as funções do poder político. Afinal, o que pretendem fazer com ele os milhares de candidatos que em breve estarão disputando os Executivos e Legislativos municipais? O que esperam deles os cidadãos que, direta ou indiretamente, em maior ou menor grau, sofrem ou se beneficiam com as decisões que passarão a ser tomadas após a posse dos eleitos? E como se dão, ou não se dão, o vínculo e o relacionamento entre estes dois pólos básicos da política, os governados e os governantes?

O poder político costuma ser visto como dotado de valor em si, isto é, como uma posição a partir da qual seu ocupante pode tudo, ou quase. Na tradução nacional, isto também significa, muitas vezes, estar acima da lei e ser indiferente às expectativas sociais. Ou seja, um político é tratado, em geral, como alguém que trabalha intensamente por seus próprios interesses, quando muito os misturando com os interesses de alguns grupos, partidos ou regiões. Dificilmente se imagina que um político possa ser um recurso social fundamental, um articulador da sociedade, um personagem sem o qual a força se converte na principal ferramenta de resolução de conflitos e problemas.

Isso acontece por inúmeros motivos. Entre políticos e cidadãos existe uma espécie de abismo ético que dificulta que os segundos aceitem as razões usadas pelos primeiros para justificar muitas de suas condutas. Ajudam a aprofundar este abismo, além do mais, a má formação política das pessoas, a indiferença cívica dos cidadãos, a mediocridade ética de tantos políticos, a impotência programática dos partidos e, mais recentemente, a postura abertamente mercantil que passou a prevalecer na vida em geral. No mundo de hoje, a maioria das decisões e atitudes cotidianas estão focadas no custo e numa espécie de prazer de curto prazo, importando pouco o sentido, o significado substantivo e o valor futuro dos bens. As eleições também se converteram em atos de compra-e-venda de votos. E os candidatos, animados por este mercado, agem de acordo com suas regras, esvaziando de sentido as mensagens com que buscam o apoio dos eleitores. Desapareceram assim os programas e os projetos de vida coletiva.

Muitos candidatos a prefeito – ou candidatos a candidatos, se considerarmos a fase atual –, por exemplo, costumam se apresentar como gerentes de cidades, bons administradores, tocadores de obras, empreendedores, porque imaginam que é isso que esperam deles os eleitores. Não estão propriamente errados, pois é evidente que qualquer governante que se preze deve de fato ter estes atributos. Mas, ao assim se comportarem, desprezam a parte mais nobre da função política democrática (que é a de auxiliar a que uma comunidade modele a si mesma de forma justa e igualitária) e acabam por impulsionar a conversão dos cidadãos em “consumidores” e fiscais de decisões burocráticas. Perde-se o que a política tem de melhor, e os candidatos a estadistas terminam por ser reduzir, se forem competentes, a bons administradores. Ao final de seus mandatos, podem até deixar marcas de sua passagem pelo poder, mas pouco contribuem para modificar a face quente da comunidade.

Numa megalópole como São Paulo, dá para imaginar os estragos derivados desta postura. A cidade é um bólido que avança às cegas, sem uma visão de futuro. Seus problemas se superpõem assustadoramente, desafiam a inteligência técnica e política, atormentam e angustiam, terminando quase por soterrar a força, a criatividade e o dinamismo dos moradores. Carece de discussões públicas consistentes e de ação organizada, que parece hoje confinada aos espaços em que a vida é mais dura e sofrida, onde a solidariedade e o apoio mútuo brotam como estratégia de sobrevivência. Com “gerentes” no comando, tudo isso fica bem mais difícil.

Os que desejam governar São Paulo não deveriam tentar pedir votos mediante a apresentação de currículos gerenciais ou de listas de soluções ad hoc. Além de buscar defender os interesses de um grupo ou partido e alterar a orientação dos governos anteriores, sua principal promessa deveria ser a de despertar a cidade vibrante e cheia de vida que parece anestesiada por seu próprio crescimento desorganizado, fazê-la falar, pensar e agir, alterando a correlação de forças políticas e sociais e refazendo o pacto social substantivo.

Haverá certamente quem se prontifique a advertir: ora, o poder municipal é essencialmente um poder administrativo, não cabe a ele contagiar os cidadãos com programas ou projetos “maximalistas”, pouco pragmáticos, que não apresentam resultados práticos no curto prazo. As cidades estão aí, com seus problemas latejantes e imediatos, não querem saber de conversas filosóficas e utopias, precisam de ação e determinação.

Pode até ser, mas uma coisa não elimina a outra. Boa parte da fantasia política democrática sempre esteve voltada para unir interesses e opinião, balizando a tomada de decisões a partir de reflexões sobre o bem comum. O poder democrático apóia-se em um projeto destinado a tornar viável o governo do povo (a soberania popular) a partir de regras válidas para todos e de arranjos institucionais que facilitem tanto a livre competição política quanto a participação ampliada nos processos decisórios. Toda política efetivamente democrática dispõe-se a criar condições para que os cidadãos controlem seus governos, participem deles e ponham em curso processos alargados de deliberação, de modo a que se viabilizem lutas e discussões públicas em torno do viver e conviver. E nada disso pode ser alcançado sem generosas doses de utopia e ação reflexiva.

O poder que tem a cidade de modelar novas comunidades exige que aqueles que se disponham a governá-la possuam, mais que projetos dedicados à conquista do poder, um projeto de sociedade.
(*) Marco Aurélio Nogueira é Professor de Teoria Política FCL/UNESP

Mais um brinde: Um cartum de João Zero

Fragmento do dia - Com vocês, Antônio Maria

"Amanhece em Copacabana, e estamos todos cansados. Todos no mesmo banco da praia. Todos, que somos eu, meus olhos, meus braços e minhas pernas, meu pensamento e minha vontade. O coração, se não está vazio, sobra lugar que não acaba mais. Ah! que coisa insuportável, a lucidez das pessoas fatigadas!"
(Trecho da crônica "Amanhecer em Copacabana" de Antônio Maria na coletânea "Com vocês, Antonio Maria" - Seleção de crônicas de Alexandra Bertola- Editora PAZ E TERRA)
Nota da Redação: Antônio Maria Araújo de Morais dispensa apresentações, foi um dos maiores cronistas brasileiros modernos. Seu texto era quase uma conversa recheada de sacadas poéticas- era um pensador e um coração apaixonado,o mesmo coração que explodiu num fim de noite de boêmia em 15 de outubro de 1964 , numa rua de Copacabana que ele tanto cantou.

26.1.08

Charge do dia 27 de janeiro - Meu Paipai!

Evoé - O negócio é sair no "Gigantes da Lira"


Confesso que rasguei minha fantasia. Era de sheik das arábias, com aqueles óculos escuros típicos que eles gostam de usar lá no Oriente Médio junto com as camisas sociais que fazem parte do traje , aquele turbante na cabeça comprado na Casas Turuna e ninguém é de ferro uma bermuda e tênis folgado.
Já fui atrás de quase todos os blocos do Rio. Saí também numa escola - a "Vizinha Faladeira" que tem um símbolo sensacional, uma mulher batendo prego na sua própria língua em cima de uma mesinha. O enredo era em homenagem ao mestre Lan e sambei na ala dos desenhistas. Já curti a Mangueira vencer com toda a glória, com mestre Jamela cantando alto e bom som , enfim, fui à Roma e vi o Papa.
Agora Carnaval é só na TV e olhe lá! Vejo minhas Escolas preferidas, digo a Mangueira e a Mocidade Independente de Padre Miguel , esta última pela "paradinha" da bateria, inventada por Mestre André e por causa da minha mulher que chora ao ver aquela camisa verde desfilar na avenida.
Mas agora pouco, saí para pegar um vídeo, comprar um pacote de leite e eis que bato de frente com um blogo, o "Xupa mais não baba" que está alegrando e atravancando o trânsito todo aqui na rua das Laranjeiras. Admirei a massa em plena alegria , e olhe que uma garoa fininha brindava a todos com uma dose de desânimo, mas que nada, o pessoal quer mesmo é ver o circo pegar fogo e não vai ser uma chuvinha de paulista que vai botar água na fervura. Peguei os filmes na locadora e quando passei pela Gal. Glicério vi uma agitação arlequinal. Era o bloco "Gigantes da Lira", nada demais se não fosse um bloco especificamente de crianças. Claro que os adultos pegam uma tremenda carona e os papais, mamães, vovôs e vovós arranjam um tremendo pretexto pra virar criança também.
Juro que fiquei contente. Faz tempo que tento entender o carnaval(sendo um estrangeiro aqui no balneário há 30 anos) e me lembro que eu tinha uma fantasia quando era menino - um tremendo mau gosto dos meus pais: a fantasia era de presidiário. Lança perfume era de rodo-metálico e eu ingênuamente jogava no olho das mocinhas. Uma vez no Estádio do Ibirapuera tentei acompanhar um concurso de quem aguentava dançar mais num carnaval ainda quando era menino. No dia seguinte não conseguia nem andar, fiquei até com febre, cheio de ínguas. Adolescente já, fazia "sangue de diabo" com umas flores vermelhas e espirrava com aquelas bisnagas de plástico que substituiram a lança-perfume.
Agora, o festival do óbvio ululante:acredito que dentro de cada ser humano existe um folião, é uma tese nitetzscheana de boteco de quinta categoria (é assim que se escreve?). Mesmo naqueles que não gostam de carnaval, nos que preferem um cinema sueco , que gostam de levar um papo cabeça num espaço café, ou façam curso de verão na universidade "Pessoa de Morais" da novela das oito do Agnaldo Silva, acredito que existe um sacana que quer mesmo é sair de índio no Cacique de Ramos e fazer aquele estranho riutual que eles fazem com aquela "fogueirinha" que já queimou muito marmanjo e se esbaldar na Rio Branco cantando "Mamãe eu quero". O povo quer dançar, cantar, fazer barulho, soltar aquele grito reprimido...(calma, cuidado com o andor que o santo é de barro).
O homem primitivo dançava, o dionisíaco não existe de graça, e olhe que estamos já num degrau mais alto, na civilização grega. E esse folião se prepetua numa pedagogia bacana como no "Gigantes da Lira", no qual os pequeninos e pequeninas fantasiados jogam confetes e aquele maldito spray de bolhas no ar. É uma alegria sem sentido, eu sei, mas já é uma alegria e ao alcance de todos, de qualquer classe social. Deixem as águas rolar....Voltei pra casa e percebi que tinha batido a porta e deixado a chave dentro...Minha mulher está com minha sogra num cinema assistindo um filme romântico...segura o bloco que lá vou eu!

Fragmento do dia - O espaço foi para o espaço

"Com a interface dos terminais de computadores e monitores de vídeo, as dinstinções entre aqui e lá não significam mais nada"
(Paul Virilio citado por Zygmunt Bauman em "Globalização - as conseqüências humanas" - Jorge Zahar Editor - tradução de Marcus Penchel)

Charge - Vale a pena ver de novo

25.1.08

Crônica da Tinê - Conto em Drópis


...escrever no quadro: Cidade. Para cada grupo de cinco alunos, uma cor.

Vermelho. Da poesia veio uma metáfora do corpo amado. Sem pieguices, apenas indicações quanto aos pontos pitorescos além do G e do lado B, pois nos versos os amantes - em verdade, um pouco de cada um dos cinco envolvidos - acreditam que vasculhar sensuais esquinas, só na prática. De preferência, a dois. Sendo que alguns recantos são inexprimíveis, por mais adjetivos ou exclamações que possam existir ao alcance da fala... da mão.

Amarelo. Da prosa saiu um choque de interesses. Um dos integrantes queria falar sobre o grafismo das calçadas a formar um padrão orgânico em contraposição aos vitrais da igreja. Outro, o abandono de animais nas vias públicas a transmitir doenças, ao que um terceiro rebateu de que desfavorecidos têm maior relevância, endossado pelo crítico à ausência de um espaço cultural onde o lazer se uniria a questões sócio-estético-sanitárias para além do anual Festival de Botecos. O quinto elemento acreditava no poder democrático de uma boa rodada de chope, costelinha e mandioca fritas, e que poderia escrever males e bens da urbe em apenas cinco linhas, mas se esqueceu de avisar que suas linhas eram joyceanas.

Verde. Do roteiro, um programa de eco-trilhas a circundar a cidade. Foi unânime a ênfase em se criar o parque da reserva biológica, antes que os micos-leões e os turistas se acabem. De quebra, incentivar caminhadas monitoradas para diabéticos, cardiopatas, terceira idade. O texto virou um conjunto de mapas toscos, linhas pontilhadas em todas as direções, salpicadas de cruzinhas e setas legendadas. Se olhar a uma certa distância, os papéis justapostos dariam um quadro ao agrado de algum Barba-Negra.

Furta-cor. Da peça, parece que todos foram um só ouvido: transformaram o bate-boca do grupo ao lado em pequenas falas cortadas por suspiros de amantes e gritos de macacos, todos em off no fundo da mata, enquanto os personagens discutiam sobre onde armar a barraca. O sarcástico 'james joyce' sugeriu montar tenda no meio da praça da cidade, cenário já pronto, ora, não vamos incomodar a macacada na copa das árvores nem os namorados sob o manacá, além do mais, temos que ir aonde o povo está. Completou com um ribombar de sinos para anunciar a avemaria no fechar dos panos. Sugestão anotada pelos furta-cores para o contra-regra.

Preto-e-Branco. Do filme, o grupo foi mais esperto, deu um close em cada cor. Sob o título "C de Cidade", o vídeo começa com alguém no alto do coreto a convocar fiéis e indecisos a irem abraçar as árvores da reserva, mas ninguém ouve nada, só entendem os gestos entre as buzinas dos carros. Seguidos de cães e cavalos, todos se põem em marcha ao som de "Ponteio", de Cláudio Santoro. Gravaram sons da cachoeira para os amantes velados. Purificados, todos retornam à cidade ao som de "Concerto para Acordeão", alguns "Retratos" para as cenas panorâmicas, tudo de Radamés Gnattali. Os sinos só dobram pelos créditos finais. Os macaquinhos dormem. O povo dispersou. No bar do Antenor, o ’joyceano’ emenda com fita adesiva todos os guardanapos para...

[Tinê Soares - 23/1/2008 - 17:32:22]

Fragmento do dia - Mário de Andrade. Feliz aniversário Sampa!

Na Rua Barão de Itapetininga
O meu coração não sabe de si,
Não se vê moça que não seja linda,
Minha namorada não passeia aqui.


Na Rua Barão de Itapetininga
Minha aspiração não agüenta mais,
A tarde caindo, a vida foi longa,
Mas a esperança já está no cais

Na Rua Barão de Itapetininga
Minha devoção quebra duma vez,
Porque a mulher que eu amo está longe,
É...a princesa do império chinês.


Na Rua Barão de Itapetininga
Noite de São João qualquer mês terá,
Em mil labaredas de fogo e sangue
Bandeira ardente tremulará


Na Rua Barão de Itapetininga
Minha namorada vem passear.

(Trecho de Lira Paulistana de Mário de Andrade em Poesias Completas- Círculo do Livro por cortesia da Livraria Martins Editora)
Nota da Redação: Viva São Paulo! Feliz aniversário garoa arlequinal!

24.1.08

Charge de 25 de janeiro - Marcianinho manda recado!

Fragmento do dia - Dali

"Minha ética excepcional é infalível. Moro onde há mais dinheiro"
(Salvador Dali em "Diálogos com Salvador Dali" de Alain Bosquet -Editora Mundo Musical - tradução de Isaac e Irène Cubric)
"Nota da Redação: Muitas notas, de dólares,se possível. O anagrama que Buñuel e Picasso forjaram para Salvador Dali é "Aviddolars"- tá explicado! O que não impediu de Dali ser uma das maiores expressões do surrealismo, de exercer sua ironia até o limite da crueldade.No me gusta mucho sua pintura e não sei explicar porque, mas esse surrealismo dele parece que tem muito açúcar, não é tão interessante como o de Magritte.

Charge do dia 24 de janeiro - Tá se sentindo!

23.1.08

Mais um brinde: Um cartum de João Zero -Dentadura a dois real!

Fragmento do dia - John dos Passos

Jornal da Tela XVIII


Adeus, Piccadilly, adeus, Licester Square
O caminho é longo até Tipperary


MULHER ENCURRALA MARIDO COM MOÇA EM
HOTEL
a uma tal tarefa podemos dedicar nossas vidas
e nossas fortunas, tudo que somos,
e tudo que temos, com o orgulho daqueles que sabem que
chegou
o dia em que a América tem o privilégio de derramar seu
sangue
e sua força pelos princípios que a fizeram nascer
e a felicidade e a paz que ela entesoura. Se Deus ajudá-la,
ela não pode fazer outra coisa

Longo é o caminho até Tipperary
Um longo caminho a fazer
Longo é o caminho até Tipperary
E a mais meiga moça que conheço


TRAIDORES, CUIDADO

QUATRO HOMENS MULTADOS EM EVANSTRON POR
MATAREM PÁSSAROS

WILSON FORÇARÁ O RECRUTAMENTO

especuladores de alimentos elevam o preço da comida enlatada
medida paraimpor a Lei Seca nos EUA na guerra entra
com acusações quando homens ignoram o ar nacional

JOFFRE PEDE TROPAS AGORA

INCENTIVO NO CASO MOONEY

Adeus, Piccadilly, adeus, Licester Square
Longo é o caminho até Tipperary
Mas meu coração está lá


CÂMARA RECUSA PERMITIR QUE T.R.
CONVOQUE TROPAS

a embaixada americana foi ameaçada hoje de ataque
por uma multidão de socialistas liderada por Nicolai Lênin um exilado
que recentemente voltou da Suiça via Alemanha.

ALIADOS CRUZAM BANDEIRAS NO TÚMULO DE
WASHINGTON

(John Dos Passos em Paralelo 42 - Rocco - Tradução de Marcos Santarrita)
Nota da Redação: Dos Passos é um dos maiores escritores americanos embora seja português. Este livro foi escrito em 1930- amanhã eu conto mais sobre ele- hoje vou dormir porque estou exausto.
Boa noite companheiros de navegação!

Charge do dia 23 de janeiro - Cassino Royale

22.1.08

Fao Miranda canta Billie Holiday


E ela canta pra caramba! Pena que eu não posso ir ver e ouvir lá em Salvador, na minha querida Bahia. Um dia eu chego lá!
Então vamos ao que interessa: Fao Miranda canta Billie Holiday nos dias 23 e 30 de janeiro a partir das 22 horas, no Columbia Bistrô, na praça Brigadeiro Faria Rocha no Rio Vermelho (Em frente da Rua Fonte do Boi)- telefone: 3334-8860. Ah! Tem Edú Nascimento na guitarra.
Todos os soteropolitanos e turistas lá!

Fragmento do dia - Enigma de Poe

UM ENIGMA
"SEMPRE é raro achar - diz Dom Salomão Zebral-
pArte de idéia, até no verso mais profundo.
AtRavés do que é leve e fácil ver-lhe (qual
olhAndo por chapéu de Napoles) o fundo.
Tal cHapéu será o nada? E há damos para usá-lo!
E aindA pesa mais que um teu poema , E o Petrarca
tolo, peNugem vã de mocho, que a um abalo
torveliNha, a esvoaçar, enquanto o olhar o abarca!"
Ninharia Assim é - por certo Salomão
fez bem o juLgamento - é bolha de sabão
efêmera, em gEral fugaz e transparente.
Aqui, porém , LeWis, querida, podes crê-lo,
opacos, imortaIs, são os meus versos, pelo nome lindo que eSconde o poema - e está presente.
(Poema de Edgar Allan Poe em Ficção Completa, Poesia & Ensaios - Editora Nova Aguilar S.A. - Os poemas foram organizados, traduzidos e anotados por Oscar Mendes com a colaboração de Milton Amado - Ilustrações de Eugênio Hirsch e Augusto Iriarte Gironaz)
Nota da Redação: O nome de SARAH ANNA LEWIS neste soneto se encontra em acróstico - é só seguir os itálicos -eis o enigma que o poeta dedica à moça. Quem diria, Poe, um romântico!

21.1.08

Charge do dia 22 de janeiro - A saideira!

Fragmento do dia - Palavras do Buda

"Conte com você , unicamente com você. Faça você mesmo a experiência de todas as coisas. Desconfie dos que apelam ao exterior, ao sobrenatural, a uma revelação, a outras forças. Dirija suas preces a você mesmo. E esforce-se para satisfazê-las"
(Palavras de Buda citadas em "Fragilidade" de Jean-Claude-Carrière - Editora Objetiva - tradução de Rejane Janowitzer)
Nota da Redação: Acho que já citei algo Jean Claude-Carrière aqui neste blogue e também falei dele.
Carrière é antes de mais nada um super roteirista, (é também escritor e dramaturgo) trabalhou com Buñuel(além de participar nos roteiros do mestre espanhol, ajudou-o a escrever suas memórias). Trabalhou também com Milos Forman, Peter Brook(colaborou na adaptação de Mahabharata para o teatro e cinema), Jean- Luc-Godard, Nagisa Oshima entre outros. Entre filmes que receberam seu roteiro estão as adaptações de O Tambor de Gunther Grass e A insustável leveza do ser de Kundera.

Meus cartuns medievais

20.1.08

Charge do dia 20 de janeiro - "Caminhando e implantando"

Fragmento do dia - Mário de Andrade e o Rio Tietê


Tietê
Era uma vez um rio...
Porém os Borbas-Gatos dos ultra-nacionais esperiamente!

Havia nas manhãs cheias de Sol do entusiasmo
as monções da ambição...
E as gigantes vitórias!
As embarcações singravam rumo do abismal Descaminho.

Arroubos...Lutas...Setas...Cantigas...Povoar!
Ritmos de Brecheret!... E a santificação da morte!
Foram-se os ouros!... E o hoje das turmalinas!...

Nadador! vamos partir pela via dum Mato-Grosso?
-Io! Mai!...(Mais dez braçadas.
Quina Migone. Hat Stores. Meia de seda.)
Vado a pranzare com la Ruth.

(Mário de Andrade em "Paulicea Desvairada" que está nas suas Poesias Completas -Edição Comorativa do 50º Aniversário da Semana de Arte Moderna- 1922-1972-
Livraria Martins Editora S.A. em convênio com o Instituto Nacional do Livro/ MEC)
Nota da Redação: Meu pai foi remador no Clube Tietê- claro que foi por pouco tempo, o velho fumava feito um trem de fumaça, mas acho que isso foi depois de alguma amargura. Na foto que tenho foto dele fazendo pose no barco com a camiseta do clube, vejo um atleta, um jovem confiante. A cidade, o capitalismo selvagem, um tempo cruel e uma falta de visão para negócios o tiraram do leito desse rio...um dia falo do meu velho que chegou a estrelar num anúncio de caderneta de poupança, que circulou na TV nos anos 80, falando com muito otimismo ao lado da sua cadeira de barbeiro (yo creo) um tremendo paradoxo.
Acreditem! Pesquei com ele embaixo da Ponte Grande no tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça e muito mais tarde, quando me meti numa aventura que já contei em outro sítio, e voltarei a contar neste blogue, eu mesmo pesquei um peixe nesse rio, só que lá pros lados de Araçariguama. Comi o peixe queimado numa frigideira na beira do Tietê com mamão derrubado na hora. Santo Rio que corre ao contrário dos outros e hoje sólido na Capital, é um triste cadáver, o que significa dizer que solidez, certas vezes não quer dizer nada. Melhor seria líqüido , assim bebe-lo-ia como diria Jânio Quadros. Ao lado do Clube Tietê fica o clube Espéria que teve que mudar de nome durante a segunda Grande Guerra porque era "alemão", daí acho o "esperiamente" do poema do Mário. Putz que intimidade. Vamos parar por aqui que já estou a falar besteiras... Ah, a caricatura dele é um dos desenhos meus que mais gosto! (Clique em cima da imagem para ampliar)
Bom domingo- dia de São Sebastião no Rio de Janeiro!

19.1.08

Meus cartuns medievais

Fragmento do dia - George Grosz


"Voltei à cidade que seria o meu lar nos próximos dez anos, até ser substituída por Nova York. Berlim dos anos 1920 foi para mim um cidade frutífera e fascinante. Naquela época eu era mais sociável do que hoje em dia, sentia curiosidade em conhecer pessoas interessantes, lugares desconhecidos e viver situações inesperadas. Conheci Eva na aula do professor Orlik, na Academia de Arte, me apaixonei por ela e depois de certo tempo casamos. Isso foi em 1920 e desde então tivemos uma casa aberta aos amigos. Minha mãe dizia:"Comer e beber mantêm o corpo e a alma juntos", e eu orientei minha vida conforme esse ditado."
(Trecho do Capítulo XII - Com quem eu andava , em "Um pequeno sim e um GRANDE NÃO - autobiografia" de George Grosz - Editora Record - Tradução de Salvador Pane Baruja)
Nota da Redação - George Grosz foi um extraordinário artista, pintor militante, fino caricaturista de mão cheia, desenhista crítico que capturou como ninguém a decadência dos costumes de uma época turbulenta da humanidade, o período das duas grandes guerras. Fez do desenho uma arma para atacar a burguesia , o militarismo , os vícios da sociedade capitalista, os irracionalismos , sua perversão e por fim o grande mal encarnado no nazismo. Pertenceu aos quadros do Partido Comunista Alemão para o qual entrou em 1918. Em 1919 adentrou o gramado do movimento Dadaista. Em 1925, diz a orelha do livro, ele foi o primeiro a fazer a caricatura de Hitler , é claro que sacou que a figureta era sinistra e ridícula - representou-o numa pele de urso com uma suástica tatuada no braço. Emigrou para os EUA quando a barra pesou de vez e depois do vendaval voltou para Alemanha a passeio e para receber um prêmio. Na última vez em que pisou na sua terra natal, em 1959 tirou férias eternas.

Meus cartuns medievais

18.1.08

Crônica da Tinê - Acronia


Acronia
Dias sob ameaça de chuva e nada. Bastou a decisão de ir a campo e caiu um pé dágua com ventania, daquela que não adianta proteger a mochila no peito, os grossos pingos invadem até uma costura dupla. Saí de casa sem almoçar e nem guarda-chuva levei, uma droga. Ao menos pelo caminho tomei dois copos de suco de laranja e no farnel havia pão de aveia recheado com sardinha, maçã e cenoura. Ir a campo, para mim, significa andar a pé dentro de um itinerário flexível em região predeterminada, com a possibilidade de pegar atalhos, subir ou descer, direita ou esquerda, com sorte encontrar um conhecido na esquina que dê dicas e possa me levar mais longe ou, simplesmente, fazer companhia para ir a certos lugares que sozinha não me aventuraria, até arrisco a levantar o polegar e descolar uma carona na estrada para poupar meus pés, seja carreta de Vitória da Conquista ou carroça de boi da fazenda do 'nhô' Jonas, tanto faz, não tenho frescuras. Desde que, claro, o alguém inesperado não seja tala-larga para desviar meu testemunho ocular da paisagem. Não sei como pessoas conseguem fazer trilha com a língua solta, como se achassem o footing algo enfadonho e daí o fôlego extra para repassar as manchetes do dia, ou anunciar as fofocas sociais. Tenho uma amiga que parece um jornal ambulante em todas as faixas sonoras, ainda exige respostas às questões comezinhas quando estou com os olhos pendurados nos varais de roupas coloridas das casinhas perdidas no fundo do vale. Quando ela telefona - vamos caminhar? - eu digo que nossos ritmos cardíacos são incompatíveis. Ando em silêncio, fones no ouvido só para barrar gente chata ou motoqueiros universitários na carreira dos atrasados, nada de musiqueta a interferir no chamamento das aves, naquele delicioso assobio entre as viuvinhas em vôo rasante, no relincho dos cavalos, no som lamentoso das rodas de madeira, não que neste momento eu esteja no campo, não, mas certos sons de lá ecoam de árvore em muro até chegar ao centro urbano. Como ironia, estava de óculos escuros quando saiu um solzinho, pensei, vou até a casa velha que eles dizem ser pintada de marrom que para mim é vermelho "crimson" - guardei o nome só por causa da caixa de aquarela inglesa -, em verdade, a casa tem cor de cerâmica suja de fuligem, trancada há sei lá quantos anos, o projeto de transformá-la em centro de cultura engavetado, desconheço o motivo, o prédio oferece espaço para cinemateca, teatro, exposições, biblioteca, dizem que os donos não acordam entre si sobre o destino da herança, a ponto de uma professora animadíssima - na época, diretora do curso de comunicação local - largar tudo em definitivo e retornar aos seus vídeos na capital belorozontina, sem sentir saudades. Mas a algumas quadras dali instalaram um shopping popular no antigo Hotel Suisso, na grafia original. Continuando, perto da Vila Hott, passei pela Vila Agapito, consegui ir à metade da ponte Cel. Silvestre Ribeiro, aqui quase toda rua ou ponte tem nome de coronel ou padre - por que será? êta, pergunta sonsa! -, de onde podia fotografar o leito baixo do rio devido à estiagem - chuva a valer é no mês de janeiro -, os canos de pvc a pespontar as margens, o despejo contínuo das águas domésticas nas águas ribeiras em marrom-doce-de-leite saturado, nem penso em aludir pescarias ou banhos divertidos da molecada, é hepatite, na certa. Portanto, meus leitores sabáticos, por motivos meteorológicos, por falta de agasalho, bateria descarregada, encharcada, cabelos embaraçados cheios de folhas nesta Daphne perdida a correr pela floresta com a promessa de retomar o tema dos canos brancos sobre o rio em outra página, hoje não haverá crônica.
(Tinê Soares - 15/1/2008 - 18:20:42)

Fragmento do dia - Umas linhas de Maiakóvski

Quadro Completo da Primavera

Folhinhas.
Linhas. Zibelinas só
zinhas.

(Vladímir Maiakóvski - na antologia "Poesia Russa Moderna" - Civilização Brasileira - Tradução de Augusto e Haroldo de Campos com a Revisão e colaboração de Boris Schnaiderman)
Nota da Redação: No pé de página onde está este poema, se informa que ele foi escrito no verso de uma fotografia do poeta.

17.1.08

Charge do dia 18 de janeiro - Correndo com Lobos

Mais um brinde: Um cartum de João Zero

Fragmento do dia - Novamente o Barão de Itararé

"O homem que se vende recebe sempre mais do que vale."
(No capítulo Observações Morais , Satíricas ou Irônicas em "Máximas e Mínimas do Barão de Itararé" - Editora Record (publicada em 1985 em regime de co-edição com a MPM -Propaganda) - Coletânea organizada por Afonso Félix de Sousa).
Nota da Redação: Ele dispensa apresentações, mas é sempre bom falar porque a memória é fraca, e muita gente é nova na praça e não tem o dever de conhecer: O Barão de Itararé (título de nobreza que ele escolheu) na verdade se chamava Apparicio Torelly, era gaúcho, mas aprontou mesmo foi no Rio de Janeiro , a partir de 1920. Criou o semanário de humor A Manha no qual botou para quebrar e algumas vezes foi quebrado, a ponto de de escrever na sua porta "Entre sem bater", se não me engano, depois de ter levado uma surra da polícia. Teve como seu ilutrador, um dos maiores caricaturistas que passaram por estas bandas , o paraguaio Guevara (Andrés Guevara). Cássio Loredano fez um excelente livro sobre ele e o mexicano Figueroa para a Funarte. Além deles , Loredano, o nosso maior craque da atualidade da caricatura no mundo escreveu( e escreve bem pra caramba!) o livro Nássara -Desenhista que é um primor e se dedicou a escrever também vários livros sobre o nosso incomparável J Carlos, talvez o único caricaturista a ter uma estátua em sua homenagem.

16.1.08

Charge do dia 17 de janeiro - Fila do boato

Mariana Baltar no Mal do Século

Ela é bárbara, canta com uma naturalidade que espanta. Já ouvi ao vivo algumas vezes e outro dia fiquei boquiaberto ao vê-la brilhando num desses ótimos programas da TV Globo que homenageiam nossos grandes compositores. Ela canta muito, além de ser uma linda mulher.
Pois é, ela está no Mal do Século. Boto o convite conforme recebi. Uma pena que não consegui baixar as imagens dela. Mas fica o recado, outro dia posto uma foto dela.Lá vai o convite:
MARIANA BALTAR NO MAL DO SÉCULO
Nas quintas-feiras de janeiro (dias 17, 24 ) e fevereiro (14, 21 e 28), haverá shows da cantora Mariana Baltar, indicada ao Prêmio TIM 2007 como Revelação, interpretando sambas, marchinhas e outros ritmos brasileiros, além das músicas de seu CD, "Uma dama também quer se divertir" . Nas quintas, dias 31 de janeiro e 7 de fevereiro, haverá baile de carnaval e o traje será fantasia. Local: Mal do Século, a nova casa de espetáculos da Lapa. End: Rua do Resende, 26, cujo nome foi inspirado no escritor e poeta Álvares de Azevedo. Telefone: 2222-2972. Horário: 21hs. Ingressos: R$ 15,00. Capacidade: 400 pessoas. A casa abre às 19 hs.

Fragmento do dia - Cortázar

"-Bueno, de acuerdo, pero le voy contar lo del métro a Bruno.El otro dia mi di bien cuenta de lo que pasaba. Me puse a pensar em mi vieja, después en Lan y los chicos, y claro, al momento me parecía que estaba caminando por mi barrio, y veía las caras de los muchachos, los de aquel tiempo. No era pensar, me parece que ya te dicho muchas veces que yo no pienso nunca; estoy como parado en una esquina viendo pasar lo que pienso, pero no pienso lo que veo.¿Te das cuenta? Jim dice que todos somos iguales, que en general (asi dice) uno no piensa por su cuenta. Pongamos que sea así, la cuestión es que yo había tomado el métro en la estación Saint-Michel y en seguida me puse a pensar en Lan y los chicos , y ver el barrio. Apenas me senté me puse a pensar en ellos. Pero al mismo tiempo me daba cuenta de que estaba en el métro, y vi que al cabo de un minuto más llegábamos a Odéon, y que la gente entravay salia. Entonces segui pensando en Lan y vi a mi vieja cuando volvía de hacer compras, y empecé a verlos a todos, a estar com ellos de uma manera hermosíssima, como hacia mucho que no sentia. Los recuerdos son siempre un asco, pero esta vez me gustaba pensar en los chicos y verlos. Si me pongo a contarte todo lo que vi no vas a creer porque tendría para rato. Y eso que ahorraria detalles. Por ejemplo, para decirte una sola cosa, veía a Lan con un vestido verde que se ponía cuando iba al Club 33 donde yo tocaba com Hemp. (NR:o vibrafonista LionelHampton) Veía el vestido con unas cintas, un moño, una especie de adorno al costado y un vuello...No al mismo tiempo, sino que en realidad me estaba paseando alrededor del vestido de Lan y lo miraba despacito. Y después miré la cara de Lan y la do los chicos, y despéus me acordé de Mike que vivia en la pieza de al lado, y cómo Mike me había contado la historia de unos caballos selvajes en Colorado, y él que trabajava en un rancho y hablaba sacando pecho como los domadores de caballos...
- Johnny - ha dicho Dédée desde su rincón.
-Fijate que solamente te cuento un pedacito de todo lo que estaba pensando y viendo. ¿Quanto hará que te estoy contando este pedacito?"

(E o papo continua até o saxofonista Johnny mostrar a Bruno que no pequeno tempo que ele viajou no metrô de Paris, ele na verdade "viajou" por muitos outros lugares - ele pensou em muitas situações em detalhes etc- o que levaria horas para contar . É a velha questão do tempo que cabe no tempo real marcado pelos relógios que ele odeia) Este trecho está no conto El Perseguidor de Julio Cortázar e está no livro "Las Armas Secretas" - Editora Catedra Letras Hispánicas (Edição de Susana Jakfalkvi)
Nota da Redação: Este conto, um dos "mais realistas"de Cortázar é uma homenagem explícita a Charlie Parker e sua "elasticidad retardada" definição bacana para a linguagem ritmica dele, segundo uma nota deste livro. Em síntese, como Parker conseguia tocar daquela maneira com todas aquelas notas quase não entrando no tempo real, mas finalmente conseguindo realizar a proeza de encaixar tudo - a sua mágica irrepetível.
Desconfio que este conto foi a base , ou digamos, a inspiração para o filme "Round midnight"(feito em 1986) de Bertrand Tavernier que fez o roteiro com David Rayfiel, embora não tenha sido creditada a Cortázar a idéia mãe, houve uma fabulosa coincidência de temas. No filme disseram que o roteirista e diretor procuraram contar um pedaço da vida de Lester Young misturada com a de Bud Powell- O curioso é que este filme dizem que foi baseado na vida de um sujeito (vivido na tela por Francis Borler) que se chamava Francis Paudras (falecido em 1997), ele é o Bruno da vez; o cara que tenta salvar o jazzman terminal. O bacana deste filme é que o saxofonista em questão (Dale Turner) é representado pelo grande Dexter Gordon nos últimos dias de sua estada neste planeta( cuja vida parece também é retratada na mistura com os dois anteriores e mais o Charlie Parker(que está oculto- o grande outro?), enfim o jazzman negro, viciado, que resiste a tudo que tem uma cuca fabulosa e um som pra lá de Bagadá - na verdade o filme é uma grande jam-session- Herbie Hancock faz uma ponta). Vale a pena ser visto. Depois, para completar a rodada assista ao sensacional Bird de Clint Eastwood, é de cortar o coração e aumentar o volume do DVD. Cuidado com os vizinhos! Respeite o direito deles dormirem em paz.

15.1.08

Charge do dia 16 de janeiro - Desejos de um bebê

Nietzsche para Todos e Para Ninguém

Vai rolar um tremendo Curso de Verão na CASA DO SABER é sobre NIETZSCHE.
A Professora Maria Cristina Franco Ferraz vai retomar o pensamento do bigodudo para discutir o nosso tempo.
Diz o convite do Curso" Temas como esquecimento e memória, negatividade na relação consigo e com o outro, tão presentes em nosso cotidiano, serão investigados a partir de textos desse grande pensador. Será igualmente analisada a nova noção de verdade proposta por Nietzsche em sua crítica à nossa tradição filosófica e cultural: o tema da verdade-mulher".
Abaixo vai a programação:
16 JAN | 1. A VALORIZAÇÃO NIETZSCHIANA DO ESQUECIMENTO E SUAS IMPLICAÇÕES PARA A VIDA E A FELICIDADE

23 JAN | 2. NEGATIVIDADE E SEUS EFEITOS EM NOSSA CULTURA: DIAGNÓSTICO E ULTRAPASSAGEM

30 JAN | 3. VONTADE DE VERDADE E VERDADE-MULHER EM NIETZSCHE
Só para informar aos nossos navegantes, Maria Cristina é Professora titular de Teoria da Comunicação da UFF. Mestre em Letras pela PUC-Rio e doutora em Filosofia pela Universidade de Paris I-Sorbonne, com estágio de pós-doutoramento no Centro de Pesquisa em Literatura e Cultura e no Instituto Max-Planck de História da Ciência, ambos em Berlim. Foi professora visitante em universidades como Paris VIII-Saint-Denis e Saint Andrews. É organizadora da coleção "Conexões", da editora Relume Dumará, e autora das obras "Nietzsche, o bufão dos deuses" , "Platão: as artimanhas do fingimento" e "Nove variações sobre temas nietzschianos".
Não custa repetir: (Mas esse já é um tema deleuziano?): O Curso começa dia 16 de Janeiro, vai ter a duração de 3 encontros
Dias/horários: Quartas-Feiras, às 20h (16/01, 23/01, 30/01)
Valor: R$ 125,00 na inscrição + 1 parcela de R$ 130,00

Os correntistas do Banco Real ABN Amro têm 30% de desconto nos cursos do primeiro semestre de 2007. Este desconto está limitado a um curso por correntista. Para obter o desconto, o pagamento deste curso só poderá ser realizado com os cheques do Banco Real do próprio correntista.
Inscrições: Tel.: (21) 2227-2237 / 222-SABER
Horário de funcionamento: 11h às 20h
CASA DO SABER RIO - http://www.casadosaber.com.br/rio
Av. Epitácio Pessoa, 1164 - Rio de Janeiro - RJ
Tá dado o recado. Todos lá!

Fragmento do dia - "Scott on the rocks"

"Fitzgerald é um assunto que ninguém tem o direito de macular. Só o que há de melhor servirá para ele. Acho que Scott realmente não conseguiu ser um grande escritor e o motivo é bastante óbvio, Se o pobre rapaz já era alcoólatra em seus tempos de faculdade, é um prodígio ter feito o que fez. Possuía uma das mais raras qualidades em qualquer literatura(...) A palavra é charme - charme como Keats teria usado. (...) Uma espécie de magia contida, controlada e requintada".
(Raymond Chandler - citado na abertura de "Scott Fitzgerald - Uma Biografia" de Jeffrey Meyers - José Olympio Editora - tradução Mauro Gama)
Nota da Redação: Ou alguém bebeu demais(e não foi o Scott) ou tem gato na tuba. Parece que Chandler caiu numa chamada "contradição entre termos"(ou seria contradição em termos?). Primeiro afirma que Fitzgerald não é um grande escritor e logo em seguida conclui que é um grande escritor. De repente usou de finíssima ironia e a gente ficou boiando. Esse é o problema da citação e do fragmento em geral, ninguém sabe o que vem depois , só os curiosos de plantão.
De qualquer maneira, não sei se discordo ou concordo com Chandler. Só concordo com o fato de que Scott Fitzgerald foi um magnífico escritor.

14.1.08

Charge de 15 de janeiro - Sabedoria

Fragmento do dia - Amor que faz chover









Only love can make it rain
The way the beach is kissed by the sea
Only love can make it rain
Like the sweat of lovers laying in the fields

Love, reign o'er me
Love, reign o'er me, rain on me
Rain on me
(Começo da letra de Love Reign O'er Me do Álbum Quadrophenia do conjunto The Who)
Nota da Redação: Um dos mais belos trabalhos do The Who (chegam ao sublime) -É um álbum duplo que tem como capa uma bela foto que está estampada aí e mostra uma tese sobre Quadrophenia que seria uma esquizofrenia multiplicada por 4; justamente os quatro componentes do Who. A contracapa é linda também (ou é a capa?), mostra a lambreta jogada na água com seus espelhos fabulosos refletindo o céu chuvoso.Eu tinha este álbum duplo em vinil e gastei os discos de tanto tocar, um belo dia passei adiante para um casal de amigos. Mas acho que vou achar em CD. O tema Love Reign O'er Me é veio à tona no filme "Reine sobre Mim" (Reign over me) de Mike Binder- um sensível filme com Adam Sandler e Don Cheadle dando um banho de interpretação. O disco foi lançado em 19 de outubro de 1973. Foi feito um filme com o nome "Quadrophenia" em que trabalha inclusive Sting ainda um garoto. Esse trabalho fala do movimento mod que estava na moda na época (desculpem o trocadilho) e sua briga com os rockers . Os mods andam de lambreta e e os rockers de motocicleta e saem constantemente na porrada. Quem quiser saber mais procure na Wikipedia.

Charge do dia 14 de janeiro - Não tem mosquito!

13.1.08

Fragmento do dia - O Vulcão

"A principal preocupação deste livro são "as forças que provocam no homem o terror de si mesmo."
(Frase do escritor inglês Malcom Lowry em carta destinada a Jonathan Cape, onde faz uma defesa vibrante de seu enigmático livro "À Sombra do Vulcão" - em "Malcolm Lowry - Una biografia" de Douglas Day - Fondo de Cultura Económica - México - tradução de Héctor Aguilar Camín, Manuel Fernández Perera e Juan Antonio Santiesteban).
Nota da Redação: Esta carta é na verdade uma exegese de 31 páginas sobre sua obra, onde o autor mostra todo o domínio que teve sobre sua composição e que segundo o biógrafo constitui um documento único da história literária.
Em 1984 John Huston levaria À Sombra do Vulcão para as telas dos cinemas - uma obra prima feita sobre outra. Claro que muita coisa ficou no caminho, pois o livro é um caleidoscópio.

Meus cartuns histéricos

12.1.08

Fragmento do dia - Nápoles & Walter Benjamin

"Há alguns anos, por causa das transgressões morais, um padre era conduzido por numa carreta pelas ruas de Nápoles. Lançando imprecações, pessoas o seguiam. Em certa esquina surge um cortejo de núpcias. O padre se ergue , faz o sinal-da-cruz, e todos os que estão atrás da carreta caem de joelhos. É dessa maneira incondicional que o catolicismo se empenha por se restabelecer nesta cidade, qualquer que seja a circunstância. Se um dia desaparecesse da face da Terra, seu último reduto não seria Roma, mas Nápoles.
Não pode esse povo viver de acordo com sua imensa barbárie, crescida no coração da própria cidade grande, em algum lugar com mais segurança do que no seio da Igreja. Precisa do catolicismo, pois com ele se erige uma legenda, a data de calendário de um mártir, que ainda legaliza os seus excessos. Aqui nasceu Santo Alfonso di Liguori que tornou flexível a praxe da Igreja, perito em seguir o ofício dos malandros e prostitutas, a fim de controlá-lo no confessionário, cujo compêndio redigiu em três tomos, com penalidades eclesiásticas mais severas ou mais brandas. Apenas a Igreja, e não a polícia, pode se equiparar à autonomia da criminalidade , a Camorra."
(Walter Benjamin e Asja Lacis na abertura do texto "Nápoles" que abre o Capítulo "Imagens do Pensamento" em Rua de Mão Única nas Obras Escolhidas II (de Walter Benjamin) - Editora Brasiliense - Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa)
Nota da Redação : Hoje em Nápoles o povo vive uma greve do pessoal que coleta lixo. A coisa tomou corpo de uma calamidade. Essa sacada de Benjamin sobre o Padre que de execrado passa a abençoar um casal e o povo que o agredia verbalmente caindo de joelhos, nesse momento, é sensacional!
Obs: A Camorra é o nome da Máfia Napolitana. Jornalistas dizem que ela tem alguma coisa a ver com essa greve do lixo. Chamem o padre!

Um Brinde: Uma Charge de João Zero

Crônica da Tinê - Carretel da Vida


CARRETEL DA VIDA
(In Memoriam de C. M. de S.)
O retrós não é do tempo do metrô. O enterro de hoje não foi do meu avô.
Em tarjas pretas, flores e ramos atados. Sentimentos sobre o caixão debruçados.
Lágrimas das senhoras sentadas. Sussurros dos homens postados.
Trago o envelope amarelo, selos carimbados. Círculos e sinais pretos manchados.
Dentro há uma roda cintilante, giram sambas noelicamente rosados que alguém enviou.
"Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho..."

Contar as dádivas e as penas da vida não é retrô. O cálido sopro eriça as plumas da ave. Menos as do passarinho-porcelana sobre o birô. O sopro divino encaminha as penas. O sopro humano afasta o pó. O que o português Sá de Miranda quis dizer com 'mudaves' ? Aves em silêncio total? Na mudança das penas? Mudo eu ou mudam as aves? Emudeço. Prefiro mudar de ares. Mudo, não cego e quase surdo. Mal escuto o bumbo, mas ainda enxergo muito bem o colorido das aves. Cores fulgurantes do macho sobre fêmea de tons pardos.

Muda o canto, outro ritmo, vira a letra, troca o disco, desvia o leito, eu me viro.
O rastro dos pés na lama segue a margem do rio que serpenteia a serra até marulhar. Confetes, só ao chegar lá. Os pés são do menino-velho de olhos azuis. O barquinho de papel que desce a corrente é o velho-menino de olhos fechados a caminho do céu rente ao mar. No teto da sala, um sol à esquerda. Uma lua à direita. Entremeado estelar.

Estou entre magenta, carmim desbotado, rosa-chá.
O pombo-correio voa num círculo fechado imóvel no muro bambo marrom empenado.
Trem cinza apita nos sapatos apertados, os pés chiam doídos, mordentes.
Os retalhos de amostra recombinados: seda, cetim, tafetá, tudo amassado.
As cinzas virão depois do homem enterrado.
Sobre a tumba, um botão de rosa irisado.
Eu pombo, tu pombas, ele pomba.
Adeus às lorotas sobre pescarias e caçadas.
Aos capiaus que circulam as picadas e às piadas, adeus!
Pois aos pombais esse tio Raimundo não retorna mais. Não adianta arrulhar. Rompeu-se o fio da vida, não há nó que dê jeito. Ficam os filhos e os netos para alinhavar. Fica a mulher na costura invisível das teclas. Ficam os martelos a soar as cordas. Sons a escapar pelas frestas. Versos a cair dos trilhos. Recolheram as sapucaias do rio.

A impaciência tamborilou dedos no vidro. O pombo de asas abertas. Brancas. Como a Luz. As rimas se embolaram na trilha do velório ao armarinho. Do disco ao risco, só a prosa ficou a rodar, a rodar, a rodar, a rodar... ligeiro, tão rápido, que se olharmos só veremos a pomba suspensa parada no ar...
---- Senhora, já escolheu o que deseja?
Entre fios, o indicador aponta mostruário.
---- Sim, eu quero um retrós de linha encarnada.
**************************************************
(Tinê Soares - 8/1/2008 - 16:13:52)

11.1.08

Fragmento do dia - Repórter bom de drible

"Frank Sinatra, segurando um copo de bourbon numa mão e um cigarro na outra, estava num canto escuro do balcão entre duas loiras atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir alguma palavra dele. Mas ele não dizia nada; passara boa parte da noite calado; só que agora, naquele clube particular em Beverly Hills, parecia ainda mais distante, fitando, através da fumaça e da meia- luz , um largo salão depois do balcão, onde dezenas de jovens casais se espremiam em volta de pequenas mesas ou dançavam no meio da pista ao som trepidante do folkrock que vinha do estéreo. As duas loiras sabiam, como também sabiam os quatro amigos de Sinatra que estavam por perto, que não era uma boa idéia forçar uma conversa com ele quando ele mergulhava num silêncio soturno, uma disposição nada rara em Sinatra naquela primeira semana de novembro, um mês antes de seu qüinquagésimo aniversário."
Gay Talese início do texto da matéria "Frank Sinatra está resfriado" em "Fama & Anonimato - O lado oculto de celebridades, a fascinante vida de pessoas desconhecidas e um inusitado perfil de Nova York , por um mestre da reportagem"- Companhia das Letras- tradução de Luciano Vieira Machado - posfácio de Humberto Werneck)
Nota da Redação: Gay Talese fez esse perfil de Frank Sinatra sem ter conseguido entrevistar o célebre carcamano. No entanto construiu um dos mais interessantes textos sobre o grande cantor da América. Neste caso, conseguiu dar um drible nas dificuldades usando toda sua capacidade de observação e seus instintos de fera, a mesma fera que inventou o novo jornalismo americano. Matéria de estudo obrigatório para um curso sério de jornalismo.

Charge do dia 11 de janeiro - O show tem que continuar

10.1.08

Fragmento do dia

"Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca
de uma dose violenta de qualquer coisa,..."
(Allen Gingsberg na abertura de O Uivo (para Carl Salomon) em "O Uivo - Kaddish e outros poemas" - L&PM editores - Tradução, seleção e notas de Claudio Willer)
Nota do pé da página: Gingsberg informa na edição comentada de HOWL que a passagem se refere às andanças de Herbert Huncke pelo Harlem e Times Square no final dos anos 40.
Nota da Redação: Existe também um livro editado pela Four Walls Eight Windows de Nova York intitulado Illuminated Poems onde se juntaram os talentos de Allen Gingsberg e do ilustrador Eric Drooker. O livro é belíssimo, magnificamente ilustrado.

9.1.08

Charge do dia 10 de janeiro - Carona nunca mais!?

Fao Miranda abre temporada de Shows em Salvador

Minha amiga Fao Miranda, que canta demais abre dia 10 (quinta-feira) ~as 19 horas sua temporada de Shows em Salvador no Palacete das Artes Rodin Bahia na rua da Graça, 284 - Graça (Em frente ao Yazigi)
Conta com a participação especial de WODRUM e mais Cláudio Seixas, GUM, Marcos Sampaio e Marcelo.
A entrada é risonha e franca.
Todos lá!

Fragmento do dia - Que modéstia, hein?!

"Se eu não tivesse existido, algum outro teria escrito minhas obras, as de Hemingway, Dostoievski, de todos nós. Prova disso é que há cerca de três candidatos à autoria das peças de Shakespeare. Mas o mais importante é Hamlet e Sonho de uma noite de verão, não quem os escreveu e sim o fato de que alguém o tenha feito. O artista não tem importãncia. Só o que ele cria é importante, já que não há nada de novo a ser dito. Shakespeare, Balzac, Homero, todos escreveram sobre as mesmas coisas, e, se tivessem vivido mais mil ou dois mil anos, os editores não teriam precisado de mais ninguém desde então."
(William Faulkner numa entrevista publicada no livro "Os Escritores - As Históricas Entrevistas da Paris Review"- Companhia das Letras - Entrevistador Jean Stein Vanden Heuvel- Tradução de Alberto Alexandre Martins)

O rapaz que matou o radinho


Eu não sabia de nada desta história que vou contar,sonhava com Walter Matthau dirigindo um táxi em Chicago comigo no banco do carona, mas minha mulher saiu decidida a comprar um radinho de pilha. Cismou que gostava de ouvir o noticiário em qualquer lugar do apartamento. Depois me contou que imaginou alternativas para isso, ou a gente instalava um sistema de alto-falantes em todos os cômodos, ou comprava um radinho FM e AM. Ela gosta de ouvir o Boechat e o Zé Simão na BandNews. Rola de rir com as brincadeiras dos dois logo de manhãzinha, enquanto eu estou no terceiro sono. Só os escuto na terceira edição e me divirto pra caramba também com as galhofas deles.
Estava eu no quarto sono e lá foi ela rumo a uma dessas grandes lojas que vendem produtos a preços baratos. Dirigiu-se diretamente para o setor de eletrônicos e encontrou um simpático rapaz que parecia tomar conta daquela área. Perguntou pelo pequeno rádio e recebeu uma resposta que foi como um soco no seu desejo, uma paulada que destruiu um objeto pelo qual nutria uma caloroso afeto.
- Isso não existe mais, senhora! Disse o rapaz na bucha.
Perplexa ela quis saber mais sobre esse falecimento incompreensível para ela. O que tinha sido feito do saudoso aparelhinho popular que alimentou as alegrias e tristezas de muitos torcedores nos estádios do Brasil, e que embalou sonhos de gerações de proletários com seu som vacilante, seus chiados fenomenais. Mais tarde disse que caiu numa fossa igual a quando acabaram com fusca. Sentiu o território da pós-modernidade se afastar dela, o rapaz falando lá de longe e ela, do outro lado tomando um copo do Crush e não entendendo nada.
O rapaz explicou que se ela quisesse, ele tinha um MP3,um MP4, ou um XSL5 ou qualquer outra gerningonça com o nome em forma de siglas enigmáticas onde ela poderia "armazenar" mais de mil músicas.
-É uma espécie de "pen-drive", a senhora entende?
Ela ficou confusa, se conformou, meio contra a vontade e voltou para casa numa tristeza de dar dó. Quando vi a sua expressão desolada, perguntei:
-O que aconteceu, mataram o Kennedy de novo?
-Pare de fazer piadas sem graça...e para de ler esse livro do Norman Mailer sobre o Lee Oswald (ela me cortou na raíz) ...
Disse que tinha acontecido um problema muito grave. Falou que tinha passado por uma experiência terrível, que um rapaz havia dado uma notícia de falecimento de uma coisa assim de chofre , pior , era como se a informasse sobre o do fim de uma era, olhava para ela como se ela fosse um bicho em extinção, um animal de uma era esquecida no tempo. Num certo momento achou que ele mostrou uma certa arrogância além da diferença das gerações, era como se ela pertencesse a um outro planeta.
-Estou velha? Você vê alguma ruga se insinuando em meu rosto? Preciso mudar de creme? Tem algum cabelo branco está me traindo?
Não entendi de imediato o que estava pegando.
Foi aí que contou sua aventura antropológica da procura do radinho de pilha morto.
Terminou com uma pergunta: -Ainda existem pilhas?
Eu caí na gargalhada:- O rapaz matou o radinho? Isso é fan-tás-tico! Preciso avisar a Patrícia Poeta. Esse moleque está por fora, o radinho de pilha é o último bastião da individualidade do pobre. Não pode ser. O Lula não ia deixar. Vai ver que até deve fazer parte do Bolsa Família.
Ela insistiu: -Vai ver que nós é que estamos por fora. Esse negócio acabou, assim como as geleiras que estão derretendo todos os dias, o Al Gore tem razão, tudo acabou ou então é Zygmunt Bauman:-modernidade líqüida e está tudo liquidado! Pode ser pior,é como disse o Marshall Berman, tudo que é sólido desmancha no ar...O radinho virou fumaça, partículas sufocantes de carbono se concentrando na atmosfera , estão acabando com a camada de ozônio...etc e tal .E foi preenchendo uma lista de coisas que desapareceram até chegar à última estampa eucalol...
-Peraí, eu disse, vamos lá de novo. Botei minha bermuda azul que ganhei no Natal e partimos para a loja com um ânimo de samurais a procura de inimigos na nossa cidadela , eu Toshiro Mifune, ela Ziyi Zhang...
Chegamos ao departamento de eletrônicos e para variar a gente se perdeu.
Eu rapidamente resumi minha tese sobre o desenho dos grandes magazines:- O modelo da arquitetura é o labirinto. Tudo é feito para você se desorientar e ir achando vários produtos atraentes pelo caminho enquanto persegue aquele que deseja comprar. Leva um monte de quinquilharias para casa. Será que estou repetindo algum teórico que li por aí? Dizem que não há mais nenhuma teoria original sobre a terra!
E foi aí que demos de cara com uns rádinhos simpaticíssimos, multicoloridos pendurados numa prateleira. Cada um deles tinha um adesivo de um clube do Rio. Eram radinhos feitos para o cara ir ao Maraca assistir ao seu clássico. Escolhemos um do time do coração dela - era AM FM, funcionava a pilha. Nem fizemos teste, levamos um do meu time também. Compramos pilhas e chegando em casa fomos logo botando para funcionar. Uma beleza, eles pegaram tudo que é estação. E ainda levamos de brinde a sensação de que ainda pertencemos a um só mundo que conserva algumas coisas boas. O rapaz que matou o radinho, no entanto, com sua fúria assassina, deve estar no seu admirável mundo novo junto com Chuck Norris, Schwarzenegger , Steven Seagal e outros exterminadores do futuro.

8.1.08

Charge do dia 9 de janeiro - Em pleno século 21

Fragmento do dia - A mosca e a autoridade do filósofo

"...sem esquecer o Dicionário de Raridades, Inverosimilhanças e Curiosidades, onde, admirável coincidência que vem a matar neste aventuroso relato, se dá como exemplo de erro a afirmação do sábio Aristóteles de que a mosca doméstica comum tem quatro patas, redução aritmética que os autores seguintes vieram repetindo por séculos e séculos, quando já as crianças sabiam, por crueldade e experimentação, que são seis as patas da mosca, pois desde Aristótoles as vinham arrancando, voluptuosamente contando, uma , duas, três, quatro, cinco, seis, mas essas mesmas crianças, quando cresciam e iam ler o sábio grego, diziam uma para as outras, A mosca tem quatro patas, tanto pode a autoridade magistral, tanto sofre a verdade com a lição dela que sempre nos vão dando."
(José Saramago em "História do Cerco de Lisboa"- Companhia das Letras- 1989)
Nota da Redação - A Editora informa na sua primeira reimpressão que "Por desejo do autor foi mantida a ortografia vigente em Portugal"

Charge do dia 8 de janeiro

7.1.08

Pensando no Verão na Estação das Letras - Parte 2


Como se trata de um folder, já ia me esquecendo da parte interna do dito. Aí vai então o verso do folder com o restante da programação.
Clique em cima da Imagem do Programa para ampliar e ler melhor.
Todos lá!

Pensando no Verão na Estação das Letras


Começa esta semana Um Programa de Verão de
Palestras com ar condicionado é claro!
O curso é organizado pela Estação das Letras, mas vai acontecer em uma sala do Arteplex em frente à livraria, ao lado do café. Em geral a porta fica escondida atrás de cartazes.
As inscrições são na Estação, pelo telefone (Tatiana) 32 37 39 47 ou por e-mail: tatiana@estacaodasletras.com.br
Tatiana estará presente um pouco antes dos início dos cursos.
Destaco o Curso da Professora Maria Cristina Ferraz que adiantou para este Blogue que vai falar de memória e esquecimento a partir de Bergson e Nietzsche, para ao final tematizar a cultura contemporânea (que tende a rebater a memória sobre o "cérebro") via o filme "Brilho eterno de uma mente sem lembranças. O filme será projetado e vai ter discussão depois. Seu curso começa no dia 7 e vai até o dia 10 de janeiro- Das 19.30 às 21.30.
Clique em cima da programação para ampliar e ler melhor.
Todos lá!

Fragmento do dia - Com o que um andróide sonha?

"Esta experiência de viver com medo deve ser pior do que ser escravo.
Eu tenho visto coisas que os seres humanos não acreditariam.
Naves de ataque em chamas nos ombros de Orion.
Eu vi raios C a brilhar nas trevas de Tanhauser...
Todos aqueles momentos vão se perder no tempo como lágrimas na chuva
Tempo de morrer..."
(Úlitma frase do replicante Roy Batty em Blade Runner- O Caçador de Andróídes"- filme de Ridley Scott baseado no livro de Philip K. Dick "Do Android dream of eletric sheep?")
Nota da Redação:Faz tempo que estou para botar no ar este fragmento. É uma das mais belas cenas do cinema de "ficção científica" (se é que podemos chamá-lo assim). O monólogo é cheio de poesia - é também a visão do surgimento de uma nova antropologia que ainda vai se concretizar e quem sabe uma nova psicologia. O andróide replicante vivido pelo ator Rutger Hauer ao dizer esta frase está morrendo,(foi ferido pelo seu algoz depois de uma luta tremenda) e solta um pombo que trazia nas mãos. Ele está ao lado do "Caçador de Andróides", o implacável Rick Deckard (vivido por Harrison Ford). O problema do replicante foi tentar achar o seu criador (o manipulador genético que o fez para ser um escravo combatente e explorador de lugares ermos do universo). Ele queria mais tempo de vida, seu prazo de validade já estava por vencer e com isso salvar os outros seres sintéticos produzidos por uma empresa que explora o mundo.É ao mesmo tempo uma espécie de procura do pai. A terra parece ter sido abandonada pelos humanos, o que restou dela é um lixo sob chuva ácida constante. O filme foi feito de tal forma que sugere múltiplas interpretações. É uma obra de arte complexa e magnífica criada pelo cineasta que se desviou do padrão criado por K.Dick para definir o perfil dos andróides.
A tempo, acaba de ser lançado uma nova edição do livro "Caçador de Andróides" de Philip K. Dick pela Rocco em tradução de Ryta Vinagre.
Rodrigo Fonseca fez uma bela resenha para o Caderno Prosa&Verso de O Globo neste final de semana. Vale a pena ler.

6.1.08

Charge de 7 de janeiro

Fragmento do dia

Comigo me desavim

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim , se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

(Cometimento poético de Sá de Miranda)
Nota da Redação: Francisco de Sá de Miranda é um dos grandes poetas portugueses do século XVI. Foi inimigo de Gil Vicente, segundo intrigas da corte, Gil Vicente o ofendeu várias vezes em público ou omitiu o nome de sua família em autos de sua autoria.Sá de Miranda nasceu em Coimbra, a 28 de agosto de 1481 faleceu em Amares, em 1558.

5.1.08

Charge do dia 6 de janeiro

Fragmento do dia - Quintana

O Poema
Um poema como um gole dágua bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre
[na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa
[condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

(Mario Quintana - de O Aprendiz de Feiticeiro em Antologia Poética - L&PM)

Meus cartuns pré-histéricos

4.1.08

Crônica da Tinê - A flor dos Reis


Aos Reis, a flor!
Último mergulho na piscina da cachoeira, um olhar embevecido para o Véu de Noiva. Uma longa aspirada no capim, seja barba-de-bode ou cabelo-de-bruxa, tudo é cheiroso. Ela deixa o camping na Serra do Cipó a caminho da visita à sobrinha-neta; aquela pobrezinha à boca do fogão desde as natalinas não acerta o pão - esse povo só pára a comilança no dia de...

A mulher é de pouca simpatia mas é engraçada, sobretudo quando se zanga e provoca risos. Adverte que não é dona Lalá, que se chama Eulália Boucinhas Trigo, mais o Ribeiro do finado marido Jervásio, com jota, por favor. E ai de quem chamar seu filho João de Janjão! Supersticiosa, leva consigo saquinhos misteriosos feito um druida, diz ela que não vive sem os seus temperos mas a gente desconfia que sejam muiraquitãs, aqueles sapinhos... Seu brasão seria uma colher de pau e uma escumadeira de ferro cruzadas sobre trigal de ouro. Firme, ordena as tarefas - "você corta os pepinos, você lava e seca folhinha por folhinha, você descasca os abacaxis, você fatia as cebolas sem reclamar... mas quem tempera e acende a chama sou eu!"

A galera-natureba a convida aos passeios por esperteza: é delícia garantida para todos os paladares desde que lhe garantam uma boa cama sem borrachudos. Seu terreiro é a cozinha. Se para onde ela for não existir uma, não se preocupe: ela carrega ou improvisa uma, nem que seja um buraco forrado de pedras no chão à maneira tapuia coberto por um velho páraquedas do exército suspenso entre duas árvores. Não ouse chamá-la de farofeira! Sua erudição é extensa, de velhos alfarrábios sobre crendices alimentares às últimas novidades inox no setor "kitchen-tools-made-in-swiss" do mais luxuoso shopping. Apesar de adaptada, ela diz que nada é melhor do que uma panela de barro ou de pedra-sabão. Um caldeirão sobre a fogueira serve a todas alquimias - "um pombo bem feito se passa por codorna à marie-antoinette!" Sabe de cor as receitas coletadas por Câmara Cascudo pelos sertões da vida. Sabe preparar jacaré e tatu. Sua bíblia é um velho caderno de páginas amarelecidas com caligrafias de cinco gerações onde se pode desvendar segredos que substituem os enlatados, os liofilizados, os condensados, as barrinhas protéicas que de proteínas nada têm, "as rações desidratadas" como ela diz, descobrir que quase todos os ingredientes modernos são artificiais, e que "madeleines" e "vienenses" e "bolinhos-de-padre" são quase a mesma coisa, mas a minha rabanada é distinta à sua fatia-dourada, fim de papo.

Mal descarregou seus trens do porta-malas, vestiu o avental de moranguinhos e foi logo para a cozinha de braços dados com a sobrinha enquanto explicava-lhe a importância dos Reis Magos. Sussurrava os significados como se transmitidos num confessionário de algum convento - Gaspar significa “Aquele que vai inspecionar”, Melquior, “Meu Rei é Luz”, e Baltazar, “Deus manifesta o Rei” - enquanto cortava as frutas com a destreza de um 'sushi-man'. Era vital pôr a mão na massa com ternura e contrição de quem faz hóstias, jamais deitar lágrimas à mistura - "o sal desanda ao cozer!" -, além de adequar os ingredientes à cultura local, completou, sem parar de picar a rapadura para fazer o melaço em substituição ao mel. Os figos são indispensáveis e aqui temos de qualidade. Se não tem cerejas, use as acerolas do quintal. Até mangas fatiadas. Polvilhe com coco ralado. Cada rei usa a mirra, o ouro e o incenso que tem.

Lembre-se, dizia dona Eulália, não é preciso quebrar cocos na ladeira do Piá: por maior que seja a fé, nenhuma receita funciona se não for bem gerenciada e o pão não for compartilhado. Seja criativa. Não quer a forma de rosca? Tudo bem. Que no dia 6 de janeiro ofereça a todos uma doce flor pelos Santos Reis!
[Tinê Soares – 02/01/2008 - 17:15:52]
N.R. A foto foi feita pela autora da crônica